sábado, 28 de setembro de 2013

COMO UM TÍTULO DO IATE VIROU EXPOSIÇÃO DE ARTE

JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 5 DE MAIO DE 1986

Expressões de protesto nas
 figuras disformes de Octaviano
Esta é a história de um título do Iate Clube da Bahia que virou exposição. Foi através da venda de um título deste clube que Octaviano conseguiu realizar sua primeira exposição individual. É o começo de um longo percurso que terá que caminhar sozinho, com suas próprias pernas e o seu talento. Dirão aqueles menos avisados que Octaviano está fazendo tipo o mesmo procurando uma forma de se promover. Posso assegurar que não é nada disto. Esta sua postura é fruto de suas experiências no exterior onde as pessoas, mesmo abastadas, muitas vezes enfrentam situações de dificuldades. Octaviano está obstinado a alçar seus vôos com a energia que dispõe sem o patrocínio da família. Está disposto a vivenciar dificuldades e saltar em busca de seus objetivos. Evidente que não se trata de um artista já burilado, mas é um jovem que tem talento, que busca acertar e sua primeira exposição, é um bom exemplo de que ele tem futuro. Não conhecia o Octaviano.
Mas, ninguém desta cidade desconhece o seu sobrenome (Moniz Barreto), que ele afirma ser muito pesado para carregar, principalmente “quando a gente quer vencer sem a ajuda dos pais”. E o exemplo de Octaviano deve ser visto com bons olhos. Ele poderia continuar com um ou vários títulos  do Iate Clube e fazer uma ou quantas exposições desejasse sob o patrocínio da família. Mas, preferiu seguir sozinho o seu próprio destino. Resolveu enfrentar as indiferenças e descrenças.
Estava trabalhando quando ele entrou acompanhado de uma jovem com ar de estrangeira. Traziam dois quadros debaixo dos braços. Notei que o rapaz estava um pouco nervoso e ficou surpreso quando o contínuo apontou indicando-me. Comecei a falar do seu projeto de vida, de sua estada em Londres, onde acompanhou os movimentos vanguardistas e esteve em outros países europeus, aproveitando para visitar muitos museus. Revelou que uma das razões que levou a despertar para a pintura foi uma exposição que teve oportunidade de visitar de Sante Scaldaferri, que considera um dos mais importantes artistas brasileiros.
Contou-me sobre a sua obstinação pela liberdade. “Esta minha exposição é um grito de liberdade.É um protesto contra a falta de liberdade, onde as pessoas seguem à risca tudo que está ali determinado até a hora da morte”.
A sua pintura gestual, solta e liberta, é exatamente um libelo pela liberdade, e as minhas ideias surgem do nada. Intitulei de Fabulário Geral do Delirium Cotidiano. Isto tudo é compreensível porque Octaviano tem apenas 22 anos de idade e está como que despertando contra o estabelecido. Este seu vigor combativo é um somatório de elementos positivos que estão refletidos nas suas figuras disformes e nos riscos que nos passam uma emoção de inconformismo. São gestos de liberdade refletidos em suas cores fortes.
Para os padrões leigos de beleza sua pintura pode parecer feia.
Octaviano e a  Crônica de Um Amor Louco
“Minha mãe e outras pessoas de minha família não vão realmente entender a minha arte. certamente vão achar meus quadros feios ou até, quem sabe, sem qualquer valor artístico. Mas eles são verdadeiros, são frutos da minha busca de liberdade”. Confessa embora seja de família conceituada e economicamente abastada, tem enfrentado algumas dificuldades. Não fui patrocinado (patrocínio do pai). Portanto, desfazendo as insinuações de alguns colegas de infância de que sua exposição teria sido financiada pelo próprio pai. Até a hora da gente morrer leva o nome da família e às vezes é muito pesado. Lembrou de outros jovens que iniciam a carreira artística e também sofrem esta cobrança interminável e esta falsa idéia do patrocínio.
O que importa é que Octaviano está aí apresentando suas inquietações e dispostos a continuar pintando. Acho a sua postura muito digna e acima de tudo uma demonstração de que as pessoas necessitam andar com suas próprias cabeças. Certamente Octaviano vai encontrar outras dificuldades maiores ou menores; espero que vença sozinho. Sei que em alguns momentos vai e deve solicitar ajuda de seus pais e amigos. Sim, porque esta sua busca de liberdade não significa um radicalismo ao ponto de se considerar um deserdado do carinho da sua família ou mesmo da sua condição econômica privilegiada. O que fica é o gesto de liberdade, o que fica é o desabrochar do seu talento, que deve ser incentivado por todos para que Octaviano possa brindar os baianos com outras exposições. Para que isto se torne realidade, só posso dizer a ele que continue pintando e pintando.
Sua exposição será aberta no próximo dia 20, ás 21 horas, e permanecerá até o final do mês no Hotel Meridien, no Rio Vermelho.