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sábado, 3 de junho de 2023

WASHINGTON ARLÉO UM SONHADOR CRIATIVO

Washington Arléo em seu ateliê no Pelourinho. Fiz esta 
foto em 2022  na rua onde também ficam outros artistas
.
Quando converso com o artista Washington  Arléo tenho a sensação de estar diante de um desses seres especiais com seu jeito próprio de encarar a vida e com qualidades e sentimentos únicos que necessitam um olhar atento para entender. Tem consciência que aproveitou bem a vida e até mesmo ultrapassou alguns limites, e por isto se conforma com a maneira que hoje está vivendo. É defensor de uma ideia de que o artista autoral, aquele que vive exclusivamente da sua arte, é um agente divulgador natural da cultura do local onde vive e como tal deveria ter algum incentivo governamental para garantir a sua sobrevivência com dignidade. É uma ideia que tem seus pontos positivos e negativos, mas que poderia ser alvo de discussão se vivêssemos num ambiente civilizado. Acontece que neste momento não vejo ambiente propício para prosperar sua ideia porque o foco está nos artistas consagrados no campo da música, do cinema e do teatro apoiadores do Sistema. Os artistas que vivem no Centro Histórico de Salvador realmente mereciam um apoio das Secretarias de Cultura do Estado, do Município e até do Ministério da Cultura, mas acontece que a destinação de verbas tem um elemento ideológico embutido e não cultural .

Obra em homenagem ao artista 
Mário Cravo Jr
.
Lembro quando da restauração do Pelourinho a ideia vigente era de apoiar os artistas, inclusive
foram concedidos vários espaços nos casarões recuperados para que usassem e pudessem expor suas obras. Os artistas da época Carlos Bastos, Sante Scaldaferri, Caribé  e muitos outros tiveram seus espaços e permaneceram por alguns anos. Depois com o abandono a que foi relegado o Centro Histórico eles foram aos poucos saindo porque ficou inviável sua permanência. Mas, ali ficaram e vivem vários artistas naifs e mesmo figurativos que fazem suas obras no intuito de serem vistas e adquiridas pelos visitantes. Muitas dessas  obras são comercializadas como se fossem souvenirs de viagem a um país exótico. Sei que enfrentam muitas dificuldades de sobrevivência, apesar dos bons talentos que existem por lá. Outros artistas entre eles Washington Arléo, Manelaw Sete, Deda têm obras e públicos diferenciados. Arléo veio depois da primeira leva dos artistas consagrados, e ali se estabeleceu por onze anos. Recentemente resolveu arriscar o competitivo mercado paulista, porém ainda não sabe se permanecerá algum tempo por lá. 

                                                            QUEM É

A Exposição Erotika, em Gondomar , Portugal.
Washington Luiz Reis Arléo nasceu em Ituberá, na Bahia, em 29 de julho de 1954 e ainda criança foi morar em Vitória da Conquista onde seu pai trabalhava como exator federal, e em seguida vieram para Salvador, passando a morar no bairro de Itapuã.  Em 1964 durante o regime militar seu pai foi preso e ficou encarcerado no quartel do Exército do 19 BC, que até hoje funciona no bairro do Cabula, em Salvador. É filho de Miguel Jiaconde Arléo e Iná Reis Arléo, e tem três irmãos. Fez seu curso primário e ginasial em Salvador, Bahia,  nos Colégio Lomanto Junior, no Colégio da Bahia e no Teixeira de Freitas. Quando seus pais vieram morar no bairro da Barra, em Salvador, aí teve uma vida de boemia e praia sem se preocupar com os estudos. Só em 1979 decidiu fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da UFBA, mas não concluiu o curso. Ficou muitos anos frequentando a EBA, participando do movimento estudantil e de outras atividades. Mesmo assim não frequentava com regularidade as aulas. “Curti muito a vida. A EBA foi um nascedouro de viver”, confessa Arléo com a tranquilidade com que expressa sua vivência e seus sentimentos. Diz não ter arrependimento de nada do que fez durante este período de sua vida e reconhece que as dificuldades que hoje enfrenta são consequências do seu viver com total falta de compromisso com as formalidades da sociedade organizada.

Na Escola de Belas Artes seu interesse foi o desenho e a pintura. Diz que sempre gostou de desenhar e esta sua permanência na EBA lhe rendeu um inquérito administrativo por colocar cola em todos os cadeados nos portões  que dão acesso à instituição. Isto ocorreu no dia em que seriam realizadas as provas do Vestibular, que deveriam começar as sete horas da manhã, e por causa deste incidente só foram iniciadas  por volta das dez horas. Tomou esta atitude drástica em protesto contra o sumiço de várias obras do acervo da Escola de Belas Artes, as quais nunca mais apareceram. Lembra que dessas obras surrupiadas apenas uma foi identificada num leilão promovido por uma galeria de arte, que funcionava no bairro do Rio Vermelho, e que ele procurou o reitor Macedo Costa que acionou a procuradoria da universidade e tomou de volta a obra de autoria de Alberto Valença. Devido as suas atitudes disse que ganhou muitos inimigos no ambiente acadêmico e artístico. Conheceu uma jovem pedagoga com quem casou e teve duas filhas, hoje adultas, que lhe deram alguns netos.

 Arléo no ateliê com algumas obras
 de sua autoria.
Foi diretor da Galeria do Solar do Ferrão, no Centro Histórico de Salvador, onde organizou uma mostra misturando várias linguagens com obras de artistas modernos consagrados como Carlos Bastos, Sante Scaldaferri, Fernando Coelho, Calasans Neto  e outros com trabalhos dos artistas naifs ou primitivos, Totonho, Irineu Alves  (falecido), Gil Abelha, que residem na área. Foi muito visitada na época. Quando foi presidente da Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia  diz que defendeu juntamente com Manoel Lourenço e conseguiram na gestão do então prefeito Antônio Imbassay a regulamentação da lei para preservação das obras de arte instaladas em prédios públicos e privados, e em outros ambientes. Para ele foi por falta de regulamentação desta lei que importantes obras já foram destruídas ou danificadas. Exemplos são os painéis de autoria de Juarez Paraiso nos cines Tupi e Art. I e II. painéis de Lênio Braga e de Carlos Bastos, na Assembleia Legislativa e Banco Econômico.

                                                MOROU EM PORTUGAL

Jovem deficiente visual intereagindo com obra
de Arléo no Museu de Cidade,Salvador,Bahia.
R
esidiu alguns anos em Portugal onde fez exposições, inclusive em outros países europeus. Lá dividia sua moradia com outro pintor baiano Irineu Alves, na Cidade de  Gondomar  . Porém, o Irineu Alves resolveu voltar e foi aí que Arléo decidiu ir morar na cidade do Porto, também em Portugal. Confessa que fez algumas exposições por lá e que sua obra era bem apreciada. Relatou um episódio que ocorreu com ele na Cidade do Porto. Disse que foi procurar um galerista na Rua Miguel Bombarda, onde ficam várias galerias de arte. De pronto o galerista lhe deu um não, insistiu e mostrou alguns trabalhos que trazia enrolados fora dos chassis. O português gostou do que viu e lhe respondeu mais ou menos assim: “Trabalho aqui com doze artistas há muitos anos, e se for colocar um novo todos eles virão contra mim.” Portanto, embora tenha gostado do seu trabalho não posso fazer nada”. Mesmo assim não desistiu. Vendeu um carro que tinha e ficou indo e voltando durante dois anos. Fez uma exposição no Convento Lovato, na Cidade do Porto. Teve um envolvimento amoroso conturbado, porque a mulher era comprometida com uma autoridade portuguesa e as coisas foram se complicando e decidiu retornar para Salvador.

Arléo ,Christina Oiticica e o
artista Romero Brito
.
Mesmo antes deste episódio sempre retornava para Salvador porque segundo Arléo “aqui é o meu lugar.”  Foi num desses retornos que se estabeleceu no Pelourinho, na rua onde fica a Ordem Terceira de São Francisco, número 9. Declarou durante nossa conversa que nunca buscou ganhar dinheiro para acumular ou enriquecer. “O que busco é atenção, ser compreendido e amado".   Recentemente decidiu ir para São Paulo, se reencontrou com uma filha que mora por lá e com os netos. Aconteceu que ao procurar por suas obras na internet deparou-se com o anúncio de um leilão de várias obras de sua autoria que estavam para serem leiloadas através um leiloeiro oficial. Estas obras foram levadas por uma galerista da Cidade Poços de Caldas, em Minas Gerais. Entrou em contato com a pessoa responsável, mas não houve acordo. As obras estão sendo reproduzidas num formato reduzido o que dificulta a leitura dos textos que Washington Arléo introduz em todas suas obras, e ele não admite esta descaracterização. O jeito foi abrir um Boletim de Ocorrência na 14ª Delegacia de Pinheiros, na Capital paulista, por violação de direito autoral, artigo 184 do Código Penal. O assunto ainda está sob investigação, mas isto o desestimulou a permanecer, em São Paulo, além do clima frio que não suporta. Basta dizer que esta é a quarta vez que tenta se estabelecer em São Paulo e não se acostuma com o frio. Por estas razões está pensando em retornar a Salvador, e não sabe ainda onde vai se estabelecer para continuar sua vida de pintor itinerante.

                                                 DIFERENCIADA

Ateliê do Pelourinho aberto durante a
pandemia de Covid 19
.
O
artista Washington Arléo falando de sua arte disse que depois de pintar por alguns anos sentiu influência de três grandes pintores Salvador Dalí, de Rauschenberg e Jackson Pollock. O nome completo de Dalí é Salvador Dali i Domènech, nasceu em Figueres, na Espanha, em 11 de maio de 1904 e morreu em 23 de janeiro de 1989. Conhecido como o grande pintor surrealista e por suas estranhas formas de viver e se apresentar. Já Robert Rauschenberg, artista americano, nascido no Texas, em 22 de outubro de 1925 e faleceu na Flórida em 12 de maio de 2008. Era um expressionista abstrato e trabalhava com pop art. Também o americano Paul Jackson Pollock do movimento expressionista se notabilizou pelo seu estilo único de pintar por gotejamento. Nasceu em Cody, Wyoming, nos Estados Unidos, e morreu em 11 de agosto de 1956, em Nova Iorque.

São estes expoentes da arte contemporânea que inspiram Washington Arléo que assim passou a pintar da forma atual introduzindo textos, transferindo imagens e fazendo gotejamento nas suas obras porque sentiu uma necessidade de contar histórias. Os textos podem ser autorais ou mesmo de outras pessoas, quanto ao uso imagens sempre coloca de celebridades, e disse se alguém reclamar ele as retira. Faz a transferência das imagens para suas obras como uma homenagem pelo que essas pessoas representam.

Detalhe de um tríptico que expôs no
Palacete das Artes , Salvador, Bahia.
As ferramentas que utiliza para criação de suas obras são diferenciadas porque ele usa a técnica de serigrafia para transferir as imagens que seleciona para suas telas, depois com o uso do solvente potencializa a captação da imagem, e assim o papel onde a imagem estava registrada sai ficando agora na tela. Daí em diante Arléo vai pintando, usa gotejamento, traços aleatórios e escreve textos que lhes tocam diretamente de alguns autores ou mesmo cria uma narrativa própria. Aí chegamos naquele momento em que brota toda a criatividade do artista. São obras únicas que levam o observador a parar, ler e procurar entender a história que o Washington Arléo está contando. Disse que nem sempre consegue esta transferência de imagem com sucesso. “Muitas vezes o transfer potencializa demais ou não potencializa e a imagem não fica boa na tela. Aí tenho que apagar tudo e começar novamente. Tem, portanto, aí um elemento importante que é o acidental.”

                                                EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Foto 1. Exposição em Gondomar,
Portugal. Foto 2- Exposição  Arte de Rua.
 Foto 3 .Exposição em Paris
.
Realizou exposições na Europa e nos Estados Unidos e várias individuais e coletivas no Brasil. Projetou e elaborou a cenografia do filme Orquídea Selvagem com Mickey Rourke e Jackeline Bisset cujas filmagens foram realizadas em Salvador e no Rio de Janeiro. Durante quinze anos dedicou-se à cenografia com sua pintura poética-manifesto, como prefere chamar . Ganhou o Prêmio Nacional - Brasil de Cenografia com o filme Telebrás.Participou da Exposição Cadastro, no Museu de Arte Moderna da Bahia; Exposições diversas no interior do Estado da Bahia ; Três Individuais em Aracaju, em Sergipe; Exposição na NR Galeria de Arte, no Shopping Iguatemi, em Salvador; Galeria Solar do Ferrão, em Salvador; Exposição na Galeria Portal, em São Paulo; Exposição na Câmara de Matosinhos, em Portugal; Exposição no Convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaya, em Portugal; Exposição na Galeria K & B, em Roma, na Itália; Exposição É Pra Tocar, no Museu da Cidade, em 1998 - foi a última exposição de destaque antes do fechamento , ato que mostra a insensibilidade do então prefeito de Salvador Antônio Imbassay que optou pelo fim do museu, inclusive não sabemos onde estão a maioria das obras do acervo . Arléo criou obras inspiradas no barroco  com uso de argila, gesso e resina que deram relevo e assim os cegos puderam interagir. Tem esculturas de grande porte nos municípios de Santa Brígida (Madrinha Dôdo)  e Feira de Santana ( O Vaqueiro) e de médio e pequeno portes em várias coleções nacionais e internacionais.  Falando sobre seu currículo disse que "é antigo e preguiçoso, porque tem observado que já não se avaliam os artistas por sua trajetória." Discordo desta afirmação, e por isto que tenho feito este trabalho de resgatar e registrar a trajetória dos artistas que já passaram dos sessenta anos de idade porque além da qualidade eles estão construindo um legado importante para as próximas gerações e para a História da Arte na Bahia, e Washington Arléo é um deles.



 

 


sábado, 27 de maio de 2023

CARMEN CARVALHO ENTRE AS ESTAMPARIAS E COLAGENS

Foto 1- Carmen Carvalho em seu ateliê, 2023.
Foto 2. Exibindo um vestido de sua criação.
 Foto 3. Pintando out door no I Salão Metanor/
Copenor , em 1986.
D
ividiu sua experiência profissional entre a Escola de Belas Artes e a indústria têxtil se dedicando a criar estamparias que iam correr o mundo enfeitando mesas das casas familiares e os corpos de mulheres de todas as classes sociais, também cria estampas exclusivas em seu ateliê para vestuário e decoração. Estudou na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia- EBA quando foi obrigada a interromper sua formação no terceiro ano para se especializar em Design para Estamparia Têxtil pelo Centro de Artes e Letras, da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Lá esteve por duas vezes. Na primeira vez fez um curso de especialização de três meses com trezentas horas e voltou posteriormente aonde permaneceu por um ano e três meses. Retorna a Salvador, termina o seu curso e depois torna-se professora da EBA e continua produzindo sua arte onde predomina a harmonia das cores. Seu jeito de se comunicar é doce, calmo, parece uma monja falando e vendo as coisas de uma forma fraterna. Tem uma sensibilidade dos grandes artistas onde enxerga beleza e singularidade até no lixo da praia. Me surpreendeu ao mostrar belas fotografias que fez na localidade de Mutá, no município de Jaguaripe, na Bahia, onde sua família tem uma casa há muitos anos.  São fotos de barcos ancorados, de milhares de búzios coloridos vazios, chamados de peguaris. Esses mariscos são muito apreciados na região. Também fotografou folhas de coqueiros jogadas ao léu, mulheres mariscando, portanto, são elementos e momentos que ela olha e vê ali a beleza de uma imagem.

Foto 1. Centenas de cascos de mariscos
 peguaris.Foto 2. Barco  ancorado na
localidade de Mutá.
Suas colagens se confundem com pinturas porque as cores ocupam espaços que vão se alternando com tanta harmonia e perfeição que você tem dificuldade  de enxergar onde começa e onde termina aquele pedaço de revista ou papel coloridos que ela usou na composição daquela obra. Além de ser uma obra abstrata agrada ficar observando e olhando aqueles espaços como que esses espaços coloridos  têm vida própria no sentido de se tornarem elementos únicos. Isto foi constatado pela primeira vez na obra de Carmen Carvalho pelo experiente professor Carlos Eduardo da Rocha ao percorrer uma Feira de Arte dos Estudantes que estava sendo realizada na parte externa da Escola de Belas Artes no ano de 1972, quando ele foi chamado a atenção por seus trabalhos de colagem ali expostos. De pronto se ofereceu a fazer uma apresentação para sua primeira exposição individual que aconteceu em 1973, na Galeria Cañizares. Concluiu o curso de Artes Plásticas em 1975, e em 1978 fez o Curso de Padronagem para Estamparia Têxtil com 300 horas de duração .Em 1993 a Pós graduação com especialização em Design de Padronagem Têxtil para Estamparia.

                                                                 SUA TRAJETÓRIA

Quatro telas pintadas com tinta acrílica.
Seu nome é Carmen Celeste Lima de Carvalho, nasceu em 2 de maio de 1942, em Salvador, filha de Silvério Carvalho Filho e Guiomar Lima de Carvalho. O pai trabalhou muitos anos na empresa Swift e depois fez concurso para auditor fiscal, do Ministério da Fazenda. Sempre moraram no bairro de Macaúbas, em Salvador. Fez seus estudos primários na Escola Getúlio Vargas, que funcionava no complexo do Instituto Normal Isaias Alves, que fica localizado no bairro do Barbalho, em Salvador, Bahia. Lá tinha desde o Jardim de Infância, o primário e o curso Normal. Milhares de professoras primárias foram formadas ali.

Lembra Carmen Carvalho que todos os cursos tinham seu teatro. O jardim de Infância, o Primário e o Pedagógico. Tinha piscina e cursos de natação para os estudantes, inclusive alguns clubes profissionais de futebol como o Bahia e o Vitória seus atletas de natação tinham aulas na piscina do Instituto Normal. O professor de natação dava mais atenção aos atletas profissionais dos clubes do que aos alunos. Ela mesma e suas colegas treinavam quase por conta própria até que um dia o professor ficou observando-a nadando e gostou de sua performance e o convidou para treinar no Vitória com mais afinco para participar de campeonatos. Chegou em casa alegre e comunicou aos pais, mas eles não aprovaram a ideia e sua carreira de atleta da natação terminou  ali.

Uma bela colagem que revela sua excelente
  técnica
.
Mas, ao terminar o primário na década de 1960 não quis prosseguir no Instituto Isaias Alves porque as opções eram fazer o Clássico, o Científico ou o Normal. Entrou em 1960 para um curso de pré-vestibular para a Escola de Belas Artes, da UFBA, que na época não exigia o segundo grau, e aí fortaleceu sua ideia de que realmente queria ser artista plástico. Teve aulas de  Modelagem com Ismael Barros, de Croquis com Jacira Oswald, etc. Ficava encantada com aquelas estátuas e os bustos de gesso que reproduziam grandes obras de arte que vinham de Paris, do Museu do Louvre e de outros museus europeus. 

Ela chegou para o pré-vestibular quando o curso já estava avançado e a Célia Azevedo, já falecida, disse-lhe "não se preocupe que vou lhe ajudar." Teve aulas de Desenho com o professor Juarez Paraíso. Lembra que a Escola oferecia carvão francês e papel Ingres também de origem francesa. Disse que ainda tinha prova de Português e quando ela fez o vestibular algumas pessoas foram reprovadas nesta disciplina. Foi aprovada e no terceiro ano observou que tinha uma colega que sempre vinha vestida com umas estampas bonitas diferentes das 
Foto 1. Carmen com uma acrílica sobre tela
Foto 2. Com o filho Davi . Foto 3. Colagem de
sua autoria.

demais. Perguntou onde conseguia aquela padronagem e ela disse que comprava numa fábrica de tecidos que ficava no bairro da Boa Viagem, na Cidade Baixa, em Salvador. A fábrica tinha uma lojinha onde vendia os tecidos que produzia. Com a disposição de sua juventude decidiu que queria trabalhar ali. Foi para a Boa Viagem e depois voltou para procurar uma tia que morava no bairro da Calçada, em Salvador. Recomendou que ela não falasse nada, apenas queria que lhe acompanhasse. Rumaram para a Boa Viagem. Primeiro foram conhecer a lojinha e depois procurar o chefe de pessoal da fábrica, que funcionava numa casa adiante. Lá chegando a recepcionista perguntou quem tinha lhe recomendado. Respondeu que ninguém que era estudante de Belas Artes e que sabia pintar, desenhar. Foi recebida e ficou acertado para voltar no outro dia para conhecer o Chefe do setor de Desenho senhor Antônio Mesquita. "Em seguida ele me disse que iria me apresentar ao diretor da empresa dr. Augusto Viana. Este decidiu que eu faria uma experiência de oito dias. Em seguida seria avaliada, e a decisão será do presidente Augusto Tarquínio." Carmen Carvalho trabalhou com muito empenho durante os oito dias combinados e apresentou o que tinha produzido. Todos gostaram. O Diretor de Vendas chegou a comentar: “A d. Carmen deu um coro”, surpreso com sua produção.
Foto 1. A fábrica onde trabalhou,em Salvador.
Foto 2. Uma estampa  que fez no seu ateliê.

Foi assim que passou a trabalhar como designer têxtil na Companhia Emporio Industrial do Norte. Gostaram do que ela produzia e assim ficou até 1965. Ocorreu que a fábrica enfrentou uma grande dificuldade e demitiu duzentos cinquenta funcionários, inclusive ela.  A fábrica reabriu em 1969 e lhe chamaram de volta. Estava grávida do primeiro filho e lá chegando disse que estava grávida e queria a licença maternidade para criar o filho. Eles concordaram e retomou os trabalhos ficando até o fechamento definitivo da empresa. Foi neste período que resolveu apresentar suas criações deixando de lado o catálogo de estamparias que vinha da Europa com estampas repetidas em todos os cantos. Assim foi desenvolvendo sua criatividade. Porém, a indústria têxtil baiana não se atualizou e outras indústrias brasileiras, europeias e orientais passaram na frente produzindo em grande escala utilizando metodologias e maquinários modernos. Inclusive toda esta parte de estamparia passou a ser digitalizada e a inteligência artificial começava a dar os seus primeiros passos. A fábrica foi fundada por Luiz Tarquínio, Leopoldo José da Silva e Miguel Francisco Rodrigues de Moraes, em 1891 e permaneceu em funcionamento até 1973.

Durante este período tentou algumas vezes  retomar o seu Curso na Escola de Belas Artes, mas enfrentava dificuldade porque as vagas sempre estavam ocupadas. Na época era comum estudantes se matricularem e permanecerem vários anos ocupando o lugar e não frequentavam as aulas. Viviam ali para fazer política até que o Governo da época resolveu enfrentar este problema criando um sistema de jubilamento, determinando o tempo médio que cada aluno deveria concluir o seu curso para acabar com “os estudantes profissionais”. Esta medida permitiu que Carmen de Carvalho retomasse em 1972 o seu curso e foram abertas muitas vagas para novos estudantes dos demais cursos da universidade que faziam o vestibular. Concluiu o seu Curso  na Escola e Belas Artes  em 1975,  fez concurso para ensinar as disciplinas Composição Decorativa e Pintura, em 1982 , onde permaneceu até se aposentar em 1997. Continuou expondo e realizou murais para a Biblioteca Central da UFBA, Escola de Belas Artes, Espaço X - Biblioteca Central do Estado e participou de encontros, seminários, congressos e oficinas. Atualmente desenvolve trabalhos em acrílica sobre tela e padrões têxteis para estamparia em seu ateliê no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, Bahia.

                                                                             EXPOSIÇÕES

Foto 1. Primeira   individual na Galeria 
Cañizares.Vemos a artista ,seus pais e amigos.
Foto 2. Exposição de acrílica sobre telas no
Laboratório DNA, na Pituba,em Salvador
.
Em 1966 – Participou da 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, em Salvador; 1972 - Participou da Feira de Arte da Escola de Belas Artes; 1973 - Mostra Individual de Colagens, na Galeria Cañizares ; 150 anos de Pintura, no Sesquicentenário da Independência da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia; Pinturas no Museu Regional de Feira de Santana; Sete Artistas Baianos, na Galeria Cañizares; 1º Salão de Verão no Museu de Arte da Bahia , no Convento do Carmo onde ganhou o Prêmio Aquisição; Leilão de Arte, no Teatro Vila Velha, em Salvador; Mostra do Acervo da Escola de Belas Artes da Bahia, no foyer Teatro Castro Alves ; Festival de Arte de Cachoeira, na Bahia; Arte e Artesanato do Norte e Nordeste do Brasil, na Galeria Eucatexpo, em São Paulo; A Mulher na Arte da Bahia, no foyer do Teatro Castro Alves; Exposição e Obra no Acervo do Museu de Arte e Ciência de Itapetinga, Bahia; Exposição de Gravuras, Oficinas Arte em Série, no Museu de Arte Moderna da Bahia; Exposição Artistas Baianos, na Abertura do Centro de Pesquisa e Documentação da Arte Moderna e Pós Moderna - Cepambra; Exposição no 1º Congresso Nacional de Cores na Bahia, Salvador; 5º Leilão de Arte, na Galeria  Cavalete, em Salvador; Encontros Com a Arte Brasileira , Geração 60, no Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador; Exhibit of Contemporary Artist  Bahia and Americanas, BA/USA
Foto 1. Trabalhando uma estampa de persiana.
Foto 2. Tecido estampado por ela no Centro de
Artes e Letras - em Santa Maria -RGS

 Exposição Individual de Pinturas, na Livraria Arte e Prosa, Salvador; Painel - Artista em Destaque, homenagem da Escola de Belas Artes da Ufba; Exposição  no Departament of Art Center for the Visual Arts Illinois State University; Exposição no  Salão de Decoração - Modecor no Centro de Convenções, em Salvador; 1º Salão Baiano de  Artes Plásticas, no Museu de Arte Moderna da Bahia; Exposição da Produção Artística e Científica dos Professores da Escola de Belas Artes. da Universidade Federal da Bahia, na Galeria Cañizares; 1995 - Exposição Itinerante do Mestrado de Artes da EBA, convidada pelo Instituto de Física da Ufba; 1999 - Exposição e Leilão de Arte, no Solar do Unhão, em Salvador; Exposição no Conjunto Cultural da Caixa Econômica Federal, em Salvador; 1999 - Exposição Bahia Arte e Cultura, Anos 70, no Instituto Cultural Brasil - Alemanha, em Salvador; 2003 - Exposição Artes Visuais na Bahia, na Academia de Letras e Arte de Salvador - Alas; 2007- Exposição Mulheres em Movimento, na Galeria Cañizares; 2008 – Mostra Pintura Individual no Congresso Internacional de Direito Penal ; 2016 -  Exposição de Arte dos Professores da EBA ; 2018 – Exposição no Laboratório DNA, no bairro da Pituba, em Salvador, dentre outras.

 

 

 



sábado, 20 de maio de 2023

DENISE PITÁGORAS UMA VIDA DE LUTAS PELA ARTE

Foto 1. Mostrando catálogo do  Spoleto
Festival Art, em 2012. Foto 2. Na Expoart.
Foto 3. Momento de descontração. Foto 4.
Em sua casa em Itapuã com gravuras,2023.
 
Vou falar hoje de uma artista baiana que já realizou inúmeras exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior a convite de embaixadas, universidades, galerias e  do Itamaraty. Uma criadora e líder inconteste da classe artística, já foi presidente da Associação dos Artistas Plásticos da Bahia por duas vezes , defensora e executora de propostas de uso dos espaços públicos para colocação de obras de arte, decorou o Carnaval de Salvador, blocos de carnavais, criou murais e painéis. Por seu trabalho de qualidade recebeu prêmios e uma homenagem da Câmara Municipal de Salvador. Seu nome é Denise Pitágoras Melo de Freitas, ou simplesmente Denise Pitágoras. Sua gravura é forte, vigorosa e engajada em defesa do social.Sua pintura não fica atrás em qualidade e sempre nos passa uma mensagem sobre a necessidade de olhar o mundo com mais humanismo e sentimento.

Sua trajetória é cheia de vitórias e percalços, mas Denise Pitágoras parece que tem uma força diferenciada que lhe acompanha porque sempre está disposta a defender suas ideias e princípios e vai à luta em defesa da arte. Tem uma produção fantástica de gravuras que precisa ser resgatada e compartilhada com o público para conquistar os espaços nas paredes de colecionadores, museus e galerias. A qualidade do conjunto de sua obra por si só impõe este resgate nesta terra onde a cultura hoje se limita a duas ou três notas musicais e pulinhos imitando coelhos ou voos de galinhas.

Denise Pitágoras,Terezinha Dumêt e Hilda de
Oliveira, na Galeria Ganizares, abril 2023.
Venho fazendo este trabalho de entrevistar artistas baianos que já passaram de meio século de existência porque observo que o tempo é cruel com o ser humano. O tempo tem uma borracha poderosa que vai apagando as lutas, conquistas e os valores de grandes artistas e de outros profissionais de várias áreas mas, também importantes. Temos obrigação de sempre lembrar do legado que eles deixaram como se fossem pegadas fossilizadas registradas para sempre. Até os familiares dos artistas quando eles envelhecem ou morrem tratam logo de descartar os pertences, e toda aquela papelada que registra suas conquistas e lutas travadas durante décadas. Outros chegam a se manifestar que os textos estão longos, como se eu pudesse resumir em poucas linhas essas vidas ricas em realizações e criatividade. Como dizia o sociólogo polonês Zygmunt Baumann (1925-2017)"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar."

                                              TRAJETÓRIA

Foto 1- Indo pintar muros de escolas do Projeto
Arte Educação. Foto 2- No bar com amigos
e sua colega Vera Lima, falecida. Fotos 3 e 4 -
Levando arte para as escolas municipais.
A artista Denise Pitágoras nasceu em 3 de outubro de 1949, portanto completará 74 anos de idade. É natural da cidade de Canavieiras no Sul da Bahia, filha de Joaquim Pitágoras Freitas e Maria Beatriz de Melo Freitas. Seu pai era securitário e sua mãe professora primária. Logo que formou sua mãe prestou concurso público sendo nomeada e designada para ensinar em Salvador. Aqui chegando foram morar no bairro de Matatu de Brotas, na casa de uma parenta de sua mãe. Depois moraram em Amaralina e posteriormente foram para a Avenida Manoel Dias da Silva, no bairro da Pituba. Fez seu curso primário no Colégio das Mercês, localizado na Avenida Sete de Setembro, no Centro de Salvador , onde sua mãe arranjou uma bolsa de estudos,  sendo depois transferida para o Colégio Nossa Senhora da Luz, na Pituba. Estudou parte do secundário no Colégio Severino Vieira, e finalmente veio para o Colégio Manoel Devoto, no bairro do Rio Vermelho, por ser mais próximo de sua residência. Começou a despertar aí pela política estudantil entrando para o Grêmio do colégio participando de campanhas reivindicando a colocação de grades de proteção e a construção de um teatro. “Aquele colégio me deu muito trabalho naquela época. Lutamos muito, eu e meus colegas do Grêmio para conseguir melhorar o ambiente escolar”.

Xilogravura A Passeata.
Ao terminar o curso secundário resolveu fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Quando perguntei por que resolveu fazer Artes Plásticas ela respondeu que desde criança gostava de desenhar e sua mãe paralelamente ao magistério sempre mexia com artesanato. “Ela gostava muito de arte e acho que vem daí esta minha tendência de abraçar a arte. Lembro que já nas casas onde a gente morava  aproveitava as manchas que se formavam nas paredes devido a  umidade e fazia uns quadrados, e ali criava uns desenhos.  Minha mãe e meu pai sempre reclamavam porque eu riscava as paredes com meus desenhos."disse Denise.
Terminou sendo licenciada em Desenho e Artes Plásticas em 1975 e aí começa sua trajetória como profissional ensinando em vários colégios e ao mesmo tempo produzindo a sua arte. Como sua produção coincidiu com o período do regime militar sua obra trás no seu bojo a preocupação com o social e com as liberdades individuais, principalmente com a liberdade de expressão, que hoje está ameaçada.
                                              
                                               SUAS LUTAS

Denise  com o catálogo
"Artistas Brasileiros
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ogo que entrou para a Escola de Belas Artes já trouxe sua experiência em participar do movimento estudantil e recordou que a escola estava terminando o processo de mudança do Museu de Arte Sacra para a sua sede no bairro do Canela, em Salvador. Surgiu um movimento por parte da Reitoria da UFBA que queria juntar o curso de Belas Artes com o de Arquitetura. "Fomos contra e aconteceu uma luta ferrenha contrária a esta ideia do Reitor porque o que queríamos era o fortalecimento da Escola de Belas Artes. Outra luta interessante veio depois quando a casa vizinha na época era residência de uma família e não sabe por qual razão colocou o imóvel à venda. Quando soubemos passamos a lutar para que a Reitoria da UFBA comprasse com a finalidade de fortalecer ainda mais a EBA. Foi assim que o imóvel foi adquirido e ali instalada a Galeria Cañizares,"recorda Denise Pitágoras.

A Associação dos Artistas Plásticos da Bahia estava desativada há treze anos. Ela reativou em 1973 aproveitou que já tinha estatuto registrado, e outras facilidades administrativas da antiga agremiação. "Inicialmente funcionamos na própria Escola de Belas Artes e depois na casa de Zu Campos, na Ladeira de Santa Tereza, no Centro de Salvador, que tinha seu ateliê no térreo numa casa de esquina e na parte de cima a gente usava como sede provisória da associação", disse  Denise. Ela mudou o nome para Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia. 
Foto 1.A Garupa. Foto 2. A Grávida e
o Vazio. (xilogravuras)
Também promoveu reuniões na sede da Associação dos Arquitetos que funcionava num prédio na Ladeira da Praça, depois eles mudaram para o Largo da Palma e  tiveram que sair. 
Viviam perambulando até que surgiu a ideia de utilizar um casarão que pertencia à Academia Baiana de Letras, no Terreiro de Jesus. Passou a lutar para conseguir uma sede própria para a agremiação e terminou conseguindo por empréstimo a antiga sede da Academia Baiana de Letras, no Terreiro de Jesus, que acabara de se mudar para na Avenida Joana Angélica, bairro de Nazaré, em Salvador, vizinha da então Escola de Eletromecânica, defronte onde hoje funciona o Ministério Público Estadual.

Foto 1-obra da série Divindades: Isis Deusa da
Lua, mortes e magia. Linóleo com impressão 
digital. Foto 2. Símbolos afro .Foto 3. Amor ao
Cubo, acrílica e Foto 4.Detalhe de gravura .
Lembra que o prédio estava muito estragado e teve que tirar quatro caçambas de entulho. Com muita determinação conseguiu arranjar dinheiro para fazer uma pequena reforma. Antes teve que retirar muitos moradores que tinham invadido o velho casarão e ali fizeram de moradia. “Não sei onde arranjei tanta pedagogia para tirar o pessoal sem qualquer atrito”, confessa. Ali instalou a Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia. Mesmo assim as dificuldades sempre estavam presentes porque é difícil a mobilização dos artistas. Convocavam as reuniões e só apareciam ela, Hilda de Oliveira e Vera Lima, falecida. Contavam com a ajuda de Clarindo Silva, que às vezes fornecia alimentação para elas na Cantina da Lua, e Denise Pitágoras faz questão de agradecer.

Quase todas as reuniões eram feitas nas terças-feiras à noite com pouca participação e isto desestimula. “Aparecia um ou outro, tudo muito devagar sem aquela participação necessária para a associação ganhar força. "Levei uma mapoteca minha para a associação para guardar as obras dos artistas e tudo se perdeu”, lamenta. Quando saiu da Presidência logo depois a Associação deixou de funcionar,  os acadêmicos pediram o prédio de volta, e atualmente está desativada. 

Paralelamente os artistas conseguiram introduzir no currículo da Escola de Belas Artes novas disciplinas, porque o currículo ainda tinha a predominância de disciplinas calcadas no academicismo.  “Isto deu muito trabalho. Fizemos muitos seminários e reuniões para mudar o currículo. Pedi currículos de outras escolas no Brasil afora para servir de base até que saímos vitoriosos”, diz Denise Pitágoras. Defende que seria bom que alguns artistas se juntassem para reativar a associação para que possa ser um instrumento de defesa da categoria. Mesmo com a saúde abalada  após o nosso encontro me enviou uma mensagem pedindo para incluir no texto a necessidade de os estudantes da Escola de Belas Artes e os artistas lutarem para regulamentação da profissão de Artista Plástico que ainda hoje é considerada uma atividade recreativa.

Na abertura de sua exposição no Centro
Cultural da CEF, em Salvador
.

Quando fui aprovada no vestibular tinha que colocar três opções. Coloquei Belas Artes, Desenho, Arquitetura, passei e optei por Belas Artes. Depois fiz concurso público no Estado e fui ensinar no Colégio Severino Vieira, onde fiquei um ano. Em seguida ensinei no Colégio Medalha Milagrosa, no bairro do Rio Vermelho, e no Colégio Manoel Devoto e até no Colégio Militar. Fui transferida para o Colégio Lomanto Junior, no bairro de Itapuã, porque era mais próximo de minha casa.” Nomeada Coordenadora do Programa de Desenvolvimento de Arte-Educação – Prodiarte idealizado pelo artista baiano Rubem Valentim, falecido, e sua esposa Lúcia Valentim que era funcionária do MEC, e ajudou na implantação deste projeto na Bahia. Fizemos muitos treinamentos de professores e introduzimos a arte nas escolas em todo o Estado. Antes faziam só artesanato de florezinhas, bonequinhas etc. Com a introdução da Arte-Educação os estudantes passaram a criar, pensar e questionar.”, diz Denise Pitágoras.

                                                      TRABALHANDO E CRIANDO

Bloco do sindicato dos bancários . Ela fazia 
toda a programação visual como abadás,
estandartes e demais alegorias aéreas.


Sendo coordenadora da Prodiarte passou a trabalhar na Secretaria de Educação do Estado. Lembra que era muito trabalho coordenar o programa em todo o Estado da Bahia e mesmo assim não parou de produzir suas pinturas e gravuras. “Não parei minha produção”. De repente lembra que quando presidente da associação lutou muito para que a Decoração do Carnaval de Salvador fosse feita por concurso público através de um edital. Antes o prefeito escolhia alguém amigo e dava para fazer a decoração. Lembrei que na época apoiei a luta dos artistas plásticos e realmente a Decoração do Carnaval passou a ser feita através de concurso público, inclusive Juarez Paraíso, Tati Moreno, Fernando Coelho e Edvaldo Gatto, entre outros ganharam algumas concorrências. Eles criavam as peças e com a ajuda dos estudantes da Escola de Belas Artes faziam a execução. Eu trabalhava como Chefe de Reportagem, do jornal A Tarde, e muitas vezes mandei repórteres acompanharem o andamento dos trabalhos de decoração até a sua instalação. Eles usavam as instalações da Escola de Belas Artes e aconteceu que o Reitor implicava e queria tirar aquela atividade porque alguns professores reclamavam que provocava muito movimento de pessoas de fora  e ocupava os espaços com madeiras, isopor e outros materiais usados para fazer os totens, as placas etc. Além de sujar. "A pressão era grande e a gente resistindo,"disse Denise que um dia foi tão forte a pressão que ficou nervosa e chegou a chorar.

                                  CONSTRUÇÃO DA CASA

Foto 1. Sua casa em Itapuã. Fotos 3 e 5 -Pin-
tura e construção do ateliê. Foto 4. Vemos o 
muro que protege a Rua das enchentes do rio
Denise morava num condomínio em Itapuã  e sempre aparecia uma moça que residia nas redondezas pedindo dinheiro emprestado. Era pouco dinheiro, mas com uma certa repetição e não era empréstimo a juros. Ela era casada  com um senhor idoso que residia lá para cima e aponta em direção ao rio que passa em frente a sua residência. Um dia  disse que não mais iria emprestar e foi ai que  ela me chamou para ir falar com o marido que era proprietário de uma extensa faixa de terra que margeava o rio. Lá fomos nós e ele concordou em me dar um pedaço de terra em troca da dívida que a esposa tinha contraído. Fez um recibo de compra e venda escrito a mão. Não aceitei e fui a uma escola e bati na máquina e ele assinou. Já tinha casado com Ednaldo Silva  que passou a trabalhar com o empresário José Lessa Ribeiro que tinha uma empresa de construção civil iniciada em 1967, e construiu muitos imóveis, inclusive conjuntos habitacionais que na época eram financiados através o Banco Nacional de Habitação – BNH.
O terreno era de charco e nem contou a Ednaldo, o Edi, como ela chamava o esposo. Então ficava de plantão   esperando os caçambeiros que passavam com entulhos para jogar fora e pedia a eles que jogassem no seu terreno. Foi assim que conseguiu aterrar. Agora precisava de alguém para compactar. Usou o mesmo método. Deu quadro ao homem do trator, arranjou matrículas para os filhos dele e assim conseguiu compactar o terreno. Em seguida comprou uns tijolos, cimento, e areia e começou a murar. “Certo dia  passou um amigo do Edi e ficou observando-me ali no terreno esperando o homem do caminhão com os materiais de construção.  

                                                          LIVRO DE POESIAS

Na foto ladeada por sua mãe, o esposo Ednaldo
 Silva e as filhas Mila, Goya e Heli, seu 
pai Joaquim e a sogra Eudália
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Além de artista plástica Denise Pitágoras também é poeta. Publicou o livro de poesias o PatriAmante que lançou em 2011 no MASP, em São Paulo com a presença do escritor Dias Gomes, que se notabilizou com seus textos sendo transformados em novelas da rede Globo. Este livro de poemas mostra a sua revolta de adolescente com a situação que o país vivia nas décadas de 60 e 70, e quando fui ler seus poemas senti a sensação que a História se repete nestas décadas de 2010 e 2020, só mudam os personagens . O que não podemos é renunciar às nossas liberdades de expressão seja qual for o regime.

No seu poema Oração, de 1976, ela diz: “Que o canto de ternura e amor do meu peito / se alastre entre os homens e a natureza, / faça dormir a violência e a tristeza, / que eu não precise ter pena de mim.” Noutro poema chamado Resistência datado de 1987 ela diz: Ergo-me de novo /arrastando-me e recolhendo farrapos / que deixaram em mim.... Continuarei construindo sempre / uma nova morada para meus sonhos /como oxigênio da minha alma...”
Ao lado a cada do seu livro de poesias.

                                      

                  EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Em 1987- Mostra Plástica e Literária da Realidade Social Brasileira - lançamento de livro e exposição - na Galeria Blue Life e Masp, em São Paulo; 2000 - "Grande Povo Brasileiro", em Itaparica, Bahia; 2000 - Exposição Itinerante Afro-Bahia , a convite do Itamaraty , em Cartago, na Costa Rica  e em San José,   El Salvador, em Manágua ,na Nicarágua, em Dacar, na Tunísia, Marrocos etc. 1968 -  Die Brasilianche Gruppe, Galeria Fur Schinuch, na Alemanha; 1987- Graphiksans Brasilien na Kleinem Galerie, em Viena, na Áustria; 1986 a 1990 - Exibit Of Contemporany Artist From Bahia em Americs - Exposição Itinerante , nos Estados Unidos; 1974 -Mostra Brasileira de Artes Plástica, em Brasília; 1974 - A Gravura na Bahia; 1971- Prêmio Aquisição no I Salão dos Novos Artistas do Nordeste, no Teatro Castro Alves, Salvador, Bahia; 1971- I Salão de Verão, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1987 - Indicada para Membro do  Conselho de Cultura do Estado da Bahia; 2003- Exposição na
Bela xilogravura Retirantes, tema social que
pintou e produziu muitas gravuras.
 Galeria a do Estudante , no hall do prédio da Secretaria de Educação do Estado da Bahia; 2001 a 2003 -  Coordenadora do Núcleo de Artes Visuais do Projeto Axé; Criação, Coordenação e Execução e Propostas Visuais de Decoração para Eventos, espaços envolvendo alunos das Escolas Municipais de Educação - SMEC; 1984 - Participou da Coletânea de Escritores Brasileiros - Crisalis Editora; 2009 - Exposição na Galeria Mali Villas Boas, em São Paulo; 2009- na Athos Faccincani - In Galeria Noli Arte, em Roma, Itália; 2010 - na Galleria d´Arte San Agostino, em Itália;2010- Exposição Coletiva na Gallery Tavid, em Londres, Inglaterra; Prêmio Internazionale Arte Contemporânea "Centro Itália" Spolto Festivart do Instituti FUROPED Giovanni; 2009-2010 - Europe Brazilians On The Move Grou-6-Rrd Muro Di Berlino - Sindicato Cronisti Romani ( Aniversário da Queda do Muro de Berlim); 2010-  Curadora e Expositora da Mostra Comemorativa da 37ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia ; 2011 - Exposição e noite de auttógrafos do seu 
Xilogravura A Professora.
livro de poesias PatriAmada reeditado pela UESC/ Editus e Ouvidoria da Câmara de Vereadores de Salvador , Bahia; 2013- Exposição Cores da Bahia , na Itália; 2013- Exposição na Eduexpo; 2013 - Exposição na Alemanha; 2013- Exposição na Associação Cultural Brasil- Estados Unidos - ACBEU, em Salvador, Bahia; 2014 - Exposição no Tribunal de Justiça da Bahia, no Centro Administrativo, Salvador; 2-15 - Exposição no Resort Busca Vida; 2015 - Exposição Escavadores da Alma, na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia; 2014 - Exposição Connexion Art Bresil, na Carroussel de Louvre, em Paris, na França ; 2023- Exposição Gravura na Bahia a partir da Escola de Belas Artes da UFBA, dentre várias outras.