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sábado, 9 de março de 2024

A ARTE CONCEITUAL DE ALMANDRADE

Almandrade com dois livros de poemas ..

Conheço o artista Almandrade há cerca de quatro décadas e a primeira   imagem que me chega à mente é de um artista estudioso, poeta e uns dos mais intelectualizados artistas da Bahia. Está sempre conectado com as vanguardas que surgem. e questionando as coisas que no seu entendimento poderiam estar melhores e daí segue para às suas argumentações cheias de conteúdos e segurança. Tem uma produção calcada no racional, na economia do traço e tem  criatividade forte, uma percepção grandiosa do espaço e das cores. Cada traço, cada cor, cada ponto dentro da sua composição artística é pensado e visto em busca de soluções. Como ele mesmo me disse "a obra de arte nunca está pronta. Sempre temos algo a fazer, como se fosse um exercício interminável." Por isto que ele se diverte com as opiniões mesmo àquelas mais ingênuas diante de suas obras quando ouve por exemplo : Ah esta é fácil de fazer. Até eu faço. Certamente quem diz isto não consegue fazer. Ele começou como figurativo e chegou à arte conceitual onde está até hoje  e talvez por ser arquiteto isto pode inconscientemente ter influenciado. É um dos pioneiros na Bahia a abraçar este movimento artístico porque já produzia  nos anos 70  numa Salvador distante de absorver este tipo de arte. Agora mais  reflexivo e maduro Almandrade  está no auge da sua criação.

Obra Cidade Invisível,
em acrílica sobre tela , 1995
.
O Almandrade hoje é um artista reconhecido por sua obra com mais de cinquenta anos de carreira vem pautando a produção  no uso de diferentes mídias desde a poesia visual, a instalação, pintura, escultura e desenho.  Vemos nesta sua trajetória uma condição importante que é a coerência da sua criação iniciada nos anos 70. Mesmo naquela época quando a arte conceitual ainda não tinha uma aceitação de público, era uma espécie de nicho, apreciada por alguns intelectuais e pessoas mais informadas ele continuava criando e lutando para expor o que estava produzindo. Esta corrente da arte surgiu nos anos 60 quando alguns artistas abriram mão do formalismo e dos objetos para se concentrar em conceitos e ideias como revela o próprio nome do movimento.

Obra em acrílica sobre tela  com  
a predominância da cor rosa.

.O Antônio Luiz Morais de Andrade é filho de Ovídio José de Andrade e Helena Morais de Andrade, nasceu na cidade de São Felipe, Bahia, no dia 12 de maio   de 1953. Cursou o primário e o ginasial em sua cidade natal e em 1970 veio para Salvador onde foi estudar o segundo grau no Colégio Central mais conhecido por Colégio da Bahia, no bairro de Nazaré, onde permaneceu até 1973. Fez o vestibular para a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Lembra da primeira greve convocada pelos estudantes contra o regime militar em 1975. Naquela época se discutia muito a necessidade de melhoria do ensino em todos os níveis e também se lutava pelas liberdades individuais. Não teve uma participação ativa no movimento estudantil. Nesta época passou a se interessar pela poesia concreta e pelo movimento concretista que surgiu entre o Rio de Janeiro e São Paulo com o Augusto de Campos e Décio Pignatari e outros artistas. 

Almandrade, o poeta Raimar 
Rastelly e o Erthos Albino
de Souza, anos 80.
Aqui conheceu um intelectual que era engenheiro da Petrobras o mineiro Erthos Albino de Souza que era um entusiasta do movimento e inclusive contribuía financeiramente para o seu desenvolvimento em nosso país. Ele morava no bairro da Barra e seu apartamento era uma espécie de  centro cultural onde se reuniam muitos intelectuais. Erthos recebia várias  publicações de vanguarda e sempre fazia reuniões para conversar sobre poesia e outros assuntos culturais. Tinha também uma boa biblioteca que era um ponto de referência. Até o poeta e escritor Antônio Risério também frequentava. Em 1973 conheceu pessoalmente o Décio Pignatari e Augusto de Campos que vieram a Salvador e ficaram hospedados no apartamento do Erthos Albino de Souza . “Me identifiquei mais com o Décio Pignatari que era mais aberto e conversava sobre qualquer assunto e sempre tinha algo de inteligente a dizer sobre qualquer tema”, disse Almandrade. Na época não tinha internet e nem a facilidade e o hábito  de documentar com fotografias os encontros . Veja você que ele não lembra de algum  registro fotográfico da visita do Décio Pignatari e o Augusto de Campos.  ao apartamento do Erthos.

Sempre participou dos movimentos  
de vanguarda aqui e no sul do país.
O movimento de arte concreta apareceu no início do século XX na Europa e se espalhou pelo mundo com os artistas usando elementos próprios das linguagens como planos e cores. Em seguida passaram a trabalhar com superfícies, sons, silêncios e enquadramentos cenográficos dentre outros. Entende Almandrade que não existe uma arte pura depois de tantos movimentos e influências. "A arte que faço é pautada em três eixos a arte construtiva, a visualidade da poesia e a arte conceitual." Portanto desde 1973 que vinha trabalhando neste estilo da arte conceitual e além da pintura e do desenho fazendo também poesia concreta. Ia mais para o Rio de Janeiro e se aproximou  do Décio Pignatari com quem se identificou e chegou a dizer que ela era mais generoso com os jovens artistas. Conheceu alguns artistas hoje de fama internacional como o Tunga, Cildo Meireles, Lygia Pape, Hélio Oiticica, dentre outros. Ele diz que naquela época a arte que eles faziam não tinha esta ênfase de hoje no mercado, era tudo muito restrito. Atualmente abriu mais um pouco  a partir dos anos oitenta para cá. "Eu particularmente não tinha uma ligação grande com o mercado de arte. Minha trajetória sempre foi mais ligada às instituições culturais. Fiz exposições no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal e em vários museus. Não tinha acesso ao mercado, porém a partir dos anos 2014 a 2015 começou o interesse do mercado por meu trabalho. Foi aí que comecei a trabalhar com uma galeria de São Paulo que mostrou interesse”, confessa Alaandrade. Ultimamente algumas galerias tem mostrado interesse e vendeu para um museu do México, e também para uma galeria em Miami. Portanto, hoje ele disse que não pode se queixar do mercado porque a arte que ele faz está tendo boa aceitação e espera que este interesse continue crescendo. "Não daria para sobreviver apenas da minha arte." Sempre trabalhou como arquiteto desde o ano de 1978 quando se formou. Trabalhou  durante vinte e três anos na OCEPLAN que era o órgão de planejamento urbano da Prefeitura de Salvador, também no Estado e depois para a Fundação Gregório de Matos onde se aposentou como arquiteto.

Objeto em acrílica sobre 
madeira, 2019.
A última exposição que fez foi na Galeria Zielinsky, em Barcelona, Espanha, que pertence a um casal de galeristas de Porto Alegre, que tem esta filial na Espanha. Na Expoarte, em São Paulo, onde expôs alguns trabalhos eles conheceram suas obras e ficaram interessados. Foi aí que lhe convidaram para esta exposição que termina agora em março. Confessa que é um pouco lento, e que diariamente vem ao ateliê e faz uma academia de mentira com uns exercícios que garantam pelo menos fazer um bom teste de esforço quando for ao cardiologista, diz brincando. Aí sempre está desenhando ou pintando alguma coisa. Mas, não é uma coisa compulsiva. Demora uma semana às vezes menos para fazer uma pequena tela. Muitas vezes imagina uma coisa não dá certo ou não gosta e arte embora tenha um lado emocional é mais racional. Aí fica imaginado, tudo sem pressa. Diz que  arte tem uma tendência construtiva, mas está baseada em três eixos  a arte construtiva, a visualidade da poesia e a arte conceitual. Depois dos movimentos vanguardistas sempre existe uma tendência da mistura.

Obra "O Silêncio na Janela",
acrílica sobre tela, 1993.
Quando perguntei sobre as reações com sua arte limpa, com poucos traços e elementos geométricos o que já pode observar ele respondeu tranquilamente que as pessoas ficam imaginando coisas e já me perguntaram porque daquele traço, porque coloquei ali aquele quadrado, o que significa etc. São reações as mais diversas e me divirto com isto e até gosto porque estou conseguindo levar as pessoas a pensar, a raciocinar e fazer suas próprias leituras dentro é claro do universo de cada uma. A arte tem esta capacidade de provocar inquietação, eu ficaria triste se minha arte não tivesse esta capacidade de provocar”, disse Almandrade.  Já ouvi até algumas dizerem mais ou menos assim adiantou o artista “acho que eu faço uma pintura dessa.” Depois eles mesmos passam a raciocinar e dizem não. Acho que não consigo fazer porque parece que tem um cálculo aí”, e caem na risada . Completou Almandrade  "a obra de arte é inacabada e cada um tem uma solução diferente."

                                                      REFERÊNCIAS

Capa do livro 50 Anos de Arte 
de Almandrade com imagens 
e textos sobre sua obra.
Vários críticos e intelectuais já escreveram sobre a obra de Almandrade inclusive tem um texto que fiz e está reproduzido no livro comemorativo dos seus 50 Anos de Arte que agora reproduzo aqui. Vejamos.

Almandrade

Venho acompanhando a sua trajetória há alguns anos. Ele começou a pintar figurativo e num processo gradual de somar informações desaguou na arte conceitual. Evidente que a sua formação de arquiteto contribuiu para isto de forma definitiva. Nos anos 70 Almandrade já mostrava suas obras, numa Salvador ainda distante de absorver este tipo de arte. Agora ele retorna à pintura com esta mostra, revelando que isto ocorre desde a metade dos anos 90, defendendo que as possibilidades da pintura ainda não se esgotaram. Fiquei feliz em reencontrar um Almandrade cada vez mais reflexivo flexível. A chegada dos anos vai nos pondo com o olhar mais generoso, mais crítico, é verdade, porém, disposto a dialogar, e notar que as diferenças existem e que elas andam e vivem fora do nosso mundo ou dos nossos traços e círculos. O que não podemos abrir mão é da nossa capacidade crítica e de reflexão. Ninguém é proprietário da verdade. Ninguém deve ser condenado por pintar de um jeito ou de outro. Cada um deve se expressar como entender que deve, cabendo ao marchand, ao colecionador, ao crítico e ao próprio mercado prover e enaltecer com seus instrumentos a produção de arte.

Obra Surrealismo, acrílica 
sobre tela, ano 2016.
Àqueles que mesmo com talento, ficaram ou estejam momentaneamente fora do mercado, certamente um dia serão reconhecidos e colocados nos seus devidos lugares. Esta é a marcha da vida, esta é a dinâmica que norteia todas as profissões. Relendo um texto escrito por Almandrade no ano 2000 onde ele defende que:” A independência da obra de arte com relação ao repertório de um público, principalmente a partir da modernidade, criou uma expectativa em torno de sua leitura. Hoje em dia, o artista é solicitado a prestar esclarecimentos sobre o significado de sua obra, como se fosse possível alguma tradução verbal”. Acredito que isto acontece quando o observador não tem informações que lhes assegurem a compreensão da obra de arte. Como estamos num país de pouca leitura, onde a obra de arte ainda é muito limitada a museus, exposições e colecionadores abastados é evidente que existe uma dificuldade quase generalizada, principalmente se você não produz uma arte figurativa de fácil entendimento. A decodificação depende de cada um de nós.  Se fizermos um exercício mandando algumas pessoas lerem um conto, e em seguida solicitarmos que revelem suas interpretações sobre o texto lido vamos ter surpresas agradáveis. E, isto é compreensível e importante pela capacidade de cada uma das pessoas de absorverem e decodificarem ou não as informações ali contidas. É por esta razão que na juventude Almandrade ficava inquieto com a falta de compreensão do público com suas obras.

Almandrade possui uma formação intelectual acima da maioria dos artistas baianos, e isto contribui ainda hoje para aguçar suas inquietações. Ele tem posição firme contra a ditadura do mercado, o que considero compreensível. Também, discordo das regras do mercado e devemos continuar lutando contra elas, porém, o mais importante de tudo isto é que reencontrei um Almandrade maduro, mais compreensivo com as coisas da vida acima de tudo um artista que mesmo enfrentando todas as dificuldades pessoais, interpostas pelo mercado e pela dificuldade de compreensão imediata de sua arte, ele prossegue firme aprimorando a qualidade de sua produção”.

Agora neste novo reencontro vejo o Almandrade mais ainda reflexivo e contido procurando escolher as palavras durante a nossa conversa em seu ateliê no bairro de Ondina. Tudo é clean como sua obra. Poucos móveis, paredes com poucas obras e a inseparável prancheta e no chão uma espécie de lona onde estão tintas e pincéis. É que às vezes ele decide pintar sentado no piso do seu apartamento/ateliê.

Poeta Décio Pignatari
(1927-2012).Foto Google
Já em 1995 o poeta Décio Pignatari escreveu sobre a obra de Almandrade com o título de “Persistência do nudismo abstrato”: Pensei em elementarismo, despojamento, abecedarismo geométricos, mas acabei por optar pela ideia de nudismo abstrato, para tentar caracterizar a postura e a impostação de Almandrade ante suas criações e criaturas sígnicas que hesitam entre bi e a tridimensionalidade, em duas ou três cores, em duas ou três texturas.

A parcimônia desses objetos é franciscanamente contundente, desenhados, designados (designed), composto segundo uma grafia de cartilha, porem enganosamente simplificada e simplista, posto que metafísica. Criam um campo significante que parece rechaçar intrusões extratexto, mesmo quando inclui elemento metafórico in memoriam Dadá.

Meteoritos geométricos do pensamento, taquigrafia precisa de uma claríssima visão cuja totalidade se ofuscou, indício e impressão minimal de um evento artístico-mental ocorrido no panorama ecológico da arte do século XX, como um pássaro em extinção, aparição de ordem inegavelmente metafísica essência e forma divinas (diria Baudelaire) do pássaro nu da poesia e de seus amores decompostos.

Um nudismo Proun (Ele Lissitsky) nos trópicos, lembranças metonímicas do paraíso, graciosas construções-instalações não-habitáveis, amostras quase-duchampescas, quase-vandoesburguesas de um ex-Éden artístico, onde a provável ironia embutida não passa de um meio-sorriso. Esses seres corretam e rigorosamente nus, o olho os colhe por inteiros, como objetos cabíveis num bolso. E há música neles, mas não é sequer de câmara – é de cela, nicho e escrínio: são microtonais, minideogramas sólidos à Scelsi.

O Almandrade capricha nas miniaturas de suas criaturas, cuja nudez, implica mudez, límpido limpamento do olho artístico, já cansado da fantástica história da arte deste século interminável, deste milênio infinito”.

                                                 POETA CONCEITUAL

Almandrade em seu ateliê
durante a  entrevista.
Tem suas poesias publicadas em livros, revistas e outras publicações alternativas. Ele não dá nome aos seus poemas. Apenas começa com seus versos. Aqui reproduzo dois deles:

A presença serene / do mar / entra pela janela / do décimo andar/ a moça nua / e solitária / pinta um barco / se mostra para a baía /namora com as águas / do velho oceano / de Lautrémont.”

NR. “Isidore Lucien Ducasse, mais conhecido pelo pseudónimo literário de Conde de Lautréamont foi um poeta francês nascido no Uruguai, mas que viveu a maior parte da sua vida em França. É o autor dos Cantos de Maldoror e de Poesias. Wikipedia.

Outro poema: “O que diz o visível / na sua obscuridade / segredos que calam / lábios tagarelas. / Sem ruídos, / as alucinações de Bosch / ou a fúria colorida de Van Gogh / exalta o ritmo / dramático do olhar.”

Mais um poema: “A velhice / reflete no espelho / a crueldade do tempo / e uma certeza/ nada é eterno. / O legado / é o acúmulo de saber / projetado na tela / da história.”

                                                                    EXPOSIÇÕES PRINCIPAIS

Convite da exposição no  
Centro Cultural da CEF, 2009.
Tem obras em vários museus e coleções particulares a exemplo do Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, Museu de Arte no Rio de Janeiro, Pinacoteca Municipal de São Paulo, Museu Afro de São Paulo, Museu Nacional de Brasília, Museu da Cidade do Salvador (fechado), Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, Brazil Golden Art., Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães de Recife, Museu de Arte Abraham Platini, de Natal, Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Fundação Vera |Chaves Barcelos, no Rio Grande do Sul, Museum of Contemporary Art de Chicago, nos Estados Unidos e Museu do México, no México.

Já foi premiado cinco vezes a saber: 1981 – 1º Concurso de Projetos MAM-Bahia; 1982 – 2º Concurso de Projetos MAM -Bahia; 1986 – Prêmio Funarte no XXXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco; 1989 – Prêmio Aquisição no 11º Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro e em 1997 – Prêmio Copene de Cultura e Arte, em Salvador.

    Convite exposição Galeria
Baró Galpão, SP, 2015.
Sua primeira exposição individual foi em 1975 intitulada Poemas Visuais, no Instituto Goethe, Salvador, e retornou nos anos 1977 com Instrumentos de Separação e em 1978 com a mostra Artifícios de Gargalhadas, perfazendo um total de 28 exposições individuais aqui no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e atualmente está expondo em Barcelona na Galeria Zielisnky.

Quantos às exposições coletivas somam quarenta e três sendo que a primeira foi em 1972 no I Salão Estudantil, no Instituto dos Arquitetos, em Salvador, e a última em 2023 no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, em Portugal com a obra “Compaixão-Escritas Poligráficas”. Estas mostras foram realizadas em várias capitais     e cidades brasileiras e no exterior em Portugal, Estados Unidos e Espanha.


sábado, 2 de março de 2024

A EXUBERÂNCIA DA NATUREZA NA OBRA DE UBIRACI TIBIRIÇÁ

Ubiraci Tibiriçá aos 70 anos pintando em seu ateliê.
 O artista Ubiraci Tibiriçá não nasceu em nenhuma tribo da região amazônica, mas sim em Campinas de Brotas, em Salvador, onde outrora existiam fazendas com a criação de pequenos rebanhos de gado, além de galinhas e outros animais domésticos. Foi neste ambiente que  se criou o Ubiraci Contreiras Simões, filho de um policial da extinta Guarda Civil o Carlos Filgueiras Simões e da dona de casa Nereida Contreiras Simões, ambos falecidos. Sua infância foi na escola e nas horas vagas andava pelas roças que existiam no bairro de Brotas e ele relembra das roças do Asilo Salvador, do seu Tertuliano, do seu avô Huguelino Simões, da roça de Almiro Romualdo da Silva, dentre outras. Ele saía de Brotas até o bairro do Cabula com seus amigos andando nas matas que também tinham muitas árvores frutíferas. Seu avô fazia questão que seus netos aprendessem a ordenhar as vacas e tirar leite. Era quase um ambiente rural parecido com esses das pequenas cidades do interior do Estado. Sua família era muito numerosa porque além dele tinha mais doze irmãos, sendo oito homens e cinco mulheres. 
 Obras de Ubiraci Tibiriçá  com exuberância
 da Mata Atlântica lembranças de suas 
andanças na infância 
 pelas roças  de Brotas,
  e da
 cidade de Belmonte,Bahia, terra
dos seus avós maternos
.
Para ajudar no sustento da casa já que o salário de seu pai de G
uarda Civil não era
 suficiente sua mãe d. Nereida fazia doces e pastéis e os meninos vendiam nas imediações do bairro de Brotas, enquanto ela ainda lavava para fora. Na época não existiam por aqui as máquinas de lavar e tudo era lavado nas mãos ensaboando e esfregando para que as peças saíssem bem lavadas. 
Haviam muita vegetação nos  restos de mata Atlântica no bairro de Brotas que quando assolou uma grande enfermidade de tuberculose em Salvador este bairro era recomendado aos acometidos por esta doença a morar ali por ter um clima ameno. 

Foi durante essas andanças pelas roças em Campinas de Brotas que o Ubiraci Contreiras Simões, nascido em 13 de outubro de 1953, conheceu uma família de índios da tribo Kiriris, que se estabeleceu numa das roças e pegou uma amizade que permanece até hoje com outros indígenas desta tribo que hoje habitam o município de Banzaê, no interior da Bahia. Disse Ubiraci Tibiriçá que é amigo dos índios Kiriris até hoje e quando eles vêm a Salvador costumam se hospedar em sua casa na Ladeira do Carmo, no número 30, que tem uma placa na
Obra pintada  na pandemia
com tintas azuis cedidas
por seu colega Bida.

porta com a inscrição Casa do índio.
Porém, o seu nome artístico de Ubiraci Tibiriçá tem outra história. Foi com o pintor naif Irakitan Sá,  falecido no dia dez de julho de 2019, em São Paulo, enquanto dormia teve um enfarte fulminante, que ele tomou gosto pela pintura. Sempre  desenhou, mas um certo dia estava no ateliê de Irakitan e pegou um pedaço de Eucatex e fez um quadro, e por coincidência entrou no ateliê um casal de argentinos quase interessou tanto pela pintura que resolveu adquirir. “Eu nem sabia dar o real valor ao quadro, mas Irakitan Sá que era experiente me ajudou e vendemos por uma boa grana. Neste dia fizemos uma boa farra para comemorar”, conta Ubiraci rindo. Deste dia em diante aumentou seu interesse e comprou umas telas e tintas e passou a pintar com regularidade. Vieram novas aquisições e daí em diante seguiu seu caminho de pintor, mas com algumas interrupções. Um dia estava pintando um quadro e virou-se para Irakitan Sá e disse: "olhe meu amigo a partir de hoje vou assinar minhas telas com o nome Ubiraci Tibiriçá. Dias depois foi chamado às pressas porque uma irmã sua teria bebido muito e estava se sentindo mal. Rumou para o local e lá chegando sua irmã estava era incorporada de um caboclo. Quando lhe avisaram que sua irmã havia bebido e que estava ruim fui logo dizendo : minha irmã não bebe. O que está acontecendo? Foi aí que ao me ver ela falou: Você sabe por que adotou este nome Tibiriçá? Respondi que tinha escolhido aleatoriamente. Foi aí que ela incorporada respondeu: “Não. Esta entidade lhe acompanha até hoje”.Ubiraci Tibiriçá  passou a acreditar que esta entidade lhe acompanha até hoje.

                                                              ANDANÇAS

Foto 1. A Casa do ìndio que lhe pertence.
Fotos 2 e 3- Ateliê improvisado antes da
reconstrução do casarão. Foto 4.
Ubiraci Tibirici bem mais novo.
Seus avós maternos moravam na cidade de Belmonte, interior da Bahia,  e nos anos 70 chegou a fazer a decoração do carnaval da cidade juntamente com Renato Viana, e outros artistas locais. Depois voltou para Salvador e participou do cadastramento durante a primeira reforma do Centro Histórico trabalhando no Instituto do Patrimônio Artístico e Cultual - IPAC onde ingressou por intermédio de seu primo Paulo Simões que era o tesoureiro da entidade. Foi ser auxiliar de desenhista e depois de seis meses passou a  desenhista. 
Anos depois decide se afastar do Pelourinho e montou um ateliê na Vila 14, no bairro boêmio do  Rio Vermelho e todas as vezes que vinha ao Pelourinho  um amigo chamava a atenção que tinha uma ruína abandonada da Santa Casa de Misericórdia localizada na Ladeira do Carmo e que a gente poderia limpar. Resolveu enfrentar e juntamente com ele e mais outro passaram a limpar o terreno. Os outros dois não aguentaram e decidiu continuar. O pessoal na época dizia que ele estava ficando maluco. Foram retiradas mais de  oitenta caçambas de entulhos. Improvisei um ateliê no terreno e passei a pintar aqui onde estou até a presente data". 

Vemos  bananeiras e cacaueiros
lembranças de Belmonte.
Foi quando lembrei que um amigo de juventude chamado Pedrinho era filho do Provedor da Santa Casa de Misericórdia proprietária do terreno que estava ocupando e ele conversou com o pai e garantiu que permanecesse aqui. Com os anos terminei adquirindo e hoje o imóvel me pertence. Ainda está inacabado ,segundo ele, fruto de perseguições que vem sofrendo através dos anos. "Mas estou aqui firme tocando minha vida de pintor, disse Ubiraci Tibiriçá. Depois que o IPAC levantou as paredes  ainda hoje a Casa do Índio está inacabada. Eles pintaram o Pelourinho inteiro recentemente e a Ladeira do Carmo não foi pintada e está com várias ruínas que precisam ser recuperadas pelo IPAC e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN.

Em 1975 foi para Minas Gerais passear e terminou trabalhando por cinco anos até 1980 na Fundação João Pinheiro cadastrando imóveis históricos do Ciclo dos Diamantes. Conheceu mais de oitenta cidades mineiras onde cadastrou centenas  de imóveis. Diz brincando que conhece o Estado de Minas Gerais mais do que muitos mineiros”. Só em Diamantina ficou uns seis meses. Soube que tem um livro que fala que ele e sua equipe cadastrou os imóveis históricos., disse que " preciso resgatar um exemplar deste livro."

Foto 1. Livro da Benetton. Foto 2. Livro 
 dos  americanos Henry Glassie e Pravina
Shukla.Fotos 3 e 4. Livros de autoria
 de Matilde Matos.
                                                                     SUA OBRA

Hoje com setenta anos de idade sua obra está consolidada e registrada em livros e catálogos daqui e até fora do país. Por falar em fora do país a convite do artista Totonho que é casado com uma holandesa, convidou  Bida e Bel Borba e ele para expor  na cidade de Haarlem, na Holanda, onde passaram três meses. Esta cidade fica há cerca de 20 Km de Amsterdam, capital holandesa. Conta com orgulho que levou algumas telas retratando bambuzais e que foram muito bem apreciadas a ponto de vender quinze delas o que lhe rendeu um bom dinheiro que parte destea grana  aplicou nas obras complementares da Casa do Índio.

Está presente nos dois livros organizados por Matilde Mattos, tem um livro dos  americanos Henry Glassie e Pravina Shuhla  dedicado as artes naifs no Brasil com duas  páginas sobre sua obra. O livro tem um texto na capa de um santeiro e chama-se Sacred Arte. Esta dupla tem uma vasta bibliografia sobre as artes no mundo. Também no livro da Benetton tem um registro sobre sua obra.Já em fevereiro de 1989 escrevi na coluna com o título “Um artista sai em defesa da flora e fauna nacionais”, quando ele expôs na Galeria Aquarela, que funcionava na Avenida Oceânica, número 12, no Farol da Barra. “São vinte trabalhos em acrílico sobre tela e nada mais é do que uma reflexão do Ubiraci Tibiriçá sobre a nossa natureza tão maltratada. Diria é que quase o testemunho de um "cacique" que vive nas matas e sabe a importância da sua conservação. Sabe que são necessários anos a fio para que toda aquela beleza seja restabelecida. O artista demonstra interesse em registrar que esta sua preocupação com a ecologia, com a natureza, não é modismo, não surgiu no bojo desta onda ecológica que tenta barrar a sanha dos insensíveis. Sua preocupação é anterior. Esta sua sensibilidade está retratada com muito critério e diria até com uma paciência inusitada. Ele não faz uma tela apressada em busca de um turista espantado ou maravilhado com o exotismo ali estampado. São telas trabalhosas, muito detalhadas e demonstram exatamente a riqueza plástica que ele consegue transpor das nossas florestas para suas telas. As araras, os tucanos e as garças dão voos rasantes despreocupadas porque estão em porto seguro. Aqui não há lugar para caçadores e matadores. O equilíbrio é perfeito e, o silêncio é interrompido quando alguém fica espantado com a beleza de suas telas."

Outra obra pintada durante  
sua reclusão na pandemia.

Já o artista Renato Viana, artista plástico, viu assim o trabalho de Ubiraci Tibiriçá: “Com uma tela sobre a prancha ele retrata cenas de nossas matas tropicais dando um testemunho do seu conhecimento de nossa fauna e flora. A riqueza de detalhes que faz com seu pequeno pincel dê ao trabalho uma grande variedade e uma perfeita unidade de cor. Seu trabalho não se confunde com de nenhum outro artista, com contornos tão suaves quase imperceptíveis consegue agradar a críticos e leigos pelo seu alto nível técnico e suavidade quase ingênua."

Nesta época estava muito em voga a defesa da fauna e flora nacionais e desde que começou a pintar Ubiraci Tibiriçá nunca abandonou esta temática que vem aprimorando com o passar dos anos. Ele ressalta que as obras que faz com o casario envolvido com a floresta sempre é mais apreciado pelo colecionador estrangeiro. E aponta para uns quadros onde vemos o belo colorido das casas simples e ao fundo e ao redor muitas árvores e fauna.

                                                                     EXPOSIÇÕES

Capa do catálogo de exposição  
em Belo Horizonte, Minas Gerais.
Começou sua carreira em 1975 no ateliê de Irakitan Sá um pintor naif muito conhecido que faleceu em 2019. De lá para cá vem se dedicando ao desenho e principalmente à pintura tendo feito exposições individuais e coletivas aqui e no exterior a exemplo da França, Itália, Marrocos, Holanda, Portugal, Estados Unidos, Bélgica, Alemanha e Canadá. Tem obras espalhadas por outros países. A primeira exposição foi em 1980 numa coletiva Salão do Hotel Pelourinho, em Salvador, e a primeira individual em 1989 no Clube Mediterranée, na ilha de Itaparica, Bahia.

Exposições Individuais: 
1989 - Clube Méditerranée, Itaparica;1992 – Projeto Parques das Árvores Queimadas na Rio 92, Rio de Janeiro; 1992 – Exposição Planeta Mulher, no Aterro do Flamengo na Rio 92, Rio de Janeiro; 1994- Exposição Trezentos anos de Zumbi, Salvador; 1999 - Exposição na Galeria do IPHAN, Cachoeira, Bahia e em 1999 – Exposição Galeria Aquarela, em Salvado.

Exposição de Ubiraci Tibiriçá,  em Paris .
Exposições Coletivas : 1980 – Salão do Hotel Pelourinho, Salvador; 1982 – Salão no La Maison Française, Salvador; 1984 – Clube Méditerranée, em Itaparica, Bahia; 1984 – Salão na Biblioteca Central, Salvador, 1985 – Jornada do Cinema no Hotel da Bahia, Salvador; 1985 - Pintura de Painéis; 1985 -Salão Genaro de Carvalho, no Othon Pálace Hotel, Salvador; 1985 – Salão dos Primitivos da Galeria 13, Salvador, tirou o 1º Prêmio; no Clube Mediterranée com os artistas Almir Oliveira e Ariel ; 1986 – Mostra Baiana de Artistas Plásticas da Arplamb , no foyer do  Teatro Castro Alves, Salvador ;1986 – Mostra do Acervo da Galeria 13, no Hotel da Bahia, Salvador; 1986 – Salão da Universidade de Feira de Santana, Bahia;1986 – I Salão Metanor/Copenor de Artes Visuais da Bahia , Museu de  Arte Moderna da Bahia, Salvador; 1987 – Coletiva de Abertura da Galeria Arte Viva, Salvador; 1987 - Exposição na Galeria 13, Salvador;1987 -Exposição Semana da Marinha na Galeria Arte Viva, Salvador;  1988- Expo Comemorativa do Jubileu de Prata , Salvador; 1989- Coletiva Exposição de Cultura Negra Através da Arte, no Núcleo Cultural Niger Okan, Salvador  ; 1989 – Exposição Coletiva de Verão no Grande Hotel da Barra, Salvador; 1989 – Exposição na Prefeitura de Porto Alegre, Rio Grande do Sul; 1990 – Exposição do Dia do Artista Plástico, Cachoeira, Bahia; 1990 – Na Casa do Artista, Ilhéus , Bahia;1991 – Coletiva na Galeria Raquel, no Grande Hotel da Barra, Salvador. Continuou participando de várias coletivas nos anos seguintes e podemos destacar a do ano 2000 quando recebeu o Prêmio Destaque na Bienal do Recôncavo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

CARLOS SCLIAR FALA DA FUNÇÃO SOCIAL DO ARTISTA

Scliar e Emanoel Araújo no MAMB
Fiz esta entrevista no Museu de Arte Moderna da Bahia no final de abril de 1977 e foi publicada no jornal A Tarde, de Salvador,  no dia 3 de maio de 1977 . Reproduzo aqui por entender a importância do artista que precisa ser cada vez mais conhecido pelas novas gerações. O Carlos Scliar nasceu na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 21 de junho de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro em 26 de abril de 2001. O título original foi : Carlos Scliar - O Artista é a galinha dos ovos de ouro dos marchands.

 Encontrei Carlos Scliar rodeado de amigos entre os quais Emanoel Araújo, Luís Jasmim, Jacyra Oswald e outros, no restaurante do Solar do Unhão. O papo estava animado e em determinado momento cheguei para entrevistá-lo sobre sua atual exposição que está aberta ao público no Museu de Arte Moderna da Bahia. Fiquei impressionado com a lucidez e a capacidade de se expressar de Scliar. Falamos de muitas coisas da sua primeira exposição aos 15 anos de idade em Porto Alegre, sobre sua presença na qualidade de soldado na Itália de 1944 a 1945, de sua pintura lírica ligada a Ouro Preto, do mercado de arte e sua ligação com a Bahia.O depoimento do Carlos Scliar deve ser lido e refletido porque interessa a todos aqueles que militam ou estão preocupados com nossas atividades culturais. O artista denuncia a procura do lucro fácil dos marchands, a preocupação em destruir as cidades históricas por construtores inescrupulosos através do abandono dos monumentos, que terminam por ruir, ali se construindo edifícios. Uma prática abusiva — como diz o artista — mas que está se disseminando por todo o País. E como não podia deixar do ser ele fala da gravura, pintura e de sua experiência como ilustrador.

                                                        A GRAVURA

Gravura  de Carlos Scliar.
Diz Scliar que "a gravura foi um meio que encontrei de comunicação maior com o público. Quero deixar claro que nunca abandonei a gravura e reconheço que num país como o nosso, em face de um público restrito que atingimos, indiscutivelmente temos que ter um papel no processo geral e cultural". E prosseguiu: “Num dado momento, quando você acha que tem uma função social, isto é que deve influir num número cada vez maior de pessoas, deve lançar mão de todos os meios de comunicação e expressão para conseguir o objetivo determinado. Aí é claro que a gravura entre os meios visuais possibilita muitos recursos para o artista. O problema dos custos, por exemplo, é fundamental. A gravura, sendo um múltiplo, possibilita atingir uma faixa maior de pessoas e é muito portátil, fica muito mais fácil você fazer uma exposição de gravuras, o que não acontece com uma exposição de pinturas".

A Casa Ateliê onde morou e trabalhou.
- Lembro-me que em 1972 fiz um álbum de serigrafias - tem um exemplar exposto no Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM-Ba, com uma tiragem determinada e doei alguns exemplares para universidades e museus do Brasil. Portanto foi uma exposição que circulou pelos Correios. Cada exemplar que chegava num lugar muita gente tomava conhecimento. Ora, num terreno como o nosso, temos tudo por fazer ainda - o que acho maravilhoso - por mais que a gente tenha feito alguma coisa por aí, não digo apenas em termos de Bahia, mas de Brasil, ainda é pouco."Acha Scliar que temos um potencial, uma possibilidade no país que nos obriga a aceitar qualquer desafio. "A gravura é um dos veículos que utilizo. Não abandonei nunca a gravura pela simples razão de que eu periodicamente faço gravuras. Acho que sou daqueles pintores que fazem gravuras. O mestre Goeldi certa vez disse que eu era um pintor que fazia gravuras. Isto ele me disse talvez como uma forma de crítica porque achava que eu não devia usar a cor na gravura. Respondi ao Goeldi, que era um homem restrito e muito explicito no seu conceito. Era um homem que achava que o gravador deveria ser exclusivamente gravador. O mestre Lívio Abramo pensa também desta forma. Eu penso diferente e tenho exemplos que não são deles dois. Basta lembrar Picasso e Matisse, que são dois dos maiores pintores do nosso tempo, foram grandes gravadores. Acho que citando o caso de Goya ou Rembrandt pegando outras épocas, mostro que são dois extraordinários pintores que foram também gravadores. Então quando eu faço a minha gravura ela se parece com a minha pintura. É claro que busco antes de mais nada respeitar sua linguagem específica. Porém, penso na gravura como uma continuação do meu trabalho como artista, como pintor. Um pintor que utiliza a cor. Quando pego o traço, o meu traço é exatamente parte do meu processo criativo, mas antes de nada todas as técnicas que utilizo são para me comunicar com as pessoas e isto é que é fundamental”. E continua: "Se utilizo hoje toda uma iconografia que já é conhecida como meus ferros de passar, minhas frutas estilizadas, é porque acho que a partir de um certo momento nós temos que usar um pouco aquela forma, como diria o La Fontaine de fazer fábulas, com os elementos para que as pessoas entendam aquilo que você está dizendo. As pessoas entendem muito bem".

                                 ILUSTRADOR

Livro Seara Vermelha de 
Jorge Amado, ilustrado
Por Carlos Scliar.Edição
para fora do país.
 "Como Ilustrador tenho uma experiência muito interessante. É como certos escritores, como críticos de arte, isto é, acho que alguns dos textos melhores que tenho sobre a minha obra foram feitos por escritores entre os quais os de autoria de meu padrinho Jorge Amado, o de Vinícius de Moraes, Clarice Lispector e mais alguns outros escritores, da mesma qualidade destes. Eles só escreveram porque tinham afinidade com minha obra. Aí eles não fazem crítica de arte, mas dão um depoimento sobre o convívio com alguém, desmistificando junto ao público, tirando aquela auréola de artista fora do comum. Eles trazem através de uma linguagem, que é uma linguagem que fez desses escritores e poetas que são, tornando o artista, pessoa de convívio do público.Esse papel de esclarecer quem são esses artistas junto ao público é muito importante importante porque cria um contato, uma afinidade”. Por isso mesmo acha que é um pintor e não um ilustrador. Gosta de ilustrar apenas aqueles textos com os quais tem afinidade. "Quando ilustrei o Seara Vermelha, de Jorge Amado, em Paris, em 1949 reconheço que foi muito importante para minha vida de artista e minha formação. Jorge era um homem importante e eu lia tudo que ele escrevia com a sofreguidão de qualquer jovem que redescobria o Brasil. Redescobria porque sendo um homem do sul, o Brasil era desconhecido para mim. Acho que, com a mesma vontade, eu teria ilustrado um Graciliano Ramos ou outros autores que como Jorge me emocionaram".

 


CONVÍVIO

Carlos Scliar e escritor baiano Jorge Amado 
- Me senti capaz de ilustrar aquele texto porque eu tinha um tremendo convívio com a obra da Jorge Amado o também um certo convívio com sul da Bahia que era uma região que de certa maneira ele tinha descrito. Posteriormente ilustrei poemas de Vinícius de Moraes e livros de outros autores que tinham afinidade de temperamento. Agora, recentemente, eu fiz uma capa a pedido do Antônio Callado e fiquei muito espantado quando o convite veio, que era específico, pois ele desejava que a capa fosse feita por mim. Quando li o livro fiquei espantado porque era um livro da melhor qualidade e que tinha me emocionado, e via outra pessoa fazendo outra capa e não eu. Mas quando, de repente, me dei conta que ele conhecendo a minha obra querendo que fizesse aquela capa era possivelmente alguma coisa ligada à minha obra que ele queria. Foi o que fiz e acho que interpretei através da capa que fiz aquela síntese, aquela ideia, aquela espécie de metáfora que eu poderia fazer através de um quadro aparentemente abstrato daquela sugestão que trazia o livro "Reflexos do Baile", do Callado. Só faço Ilustrações de trabalhos que tenham afinidade com minha obra. Infelizmente autores que eu gosto muito e que aprecio no sentido da qualidade da obra confesso que indicaria outro artista para ilustrar, porque acho que a minha obra não seria mais adequada,"

                                                   AS EXPOSIÇÕES

Capa do convite da exposição em 1981 na
Sobre as exposições, salões e bienais, Carlos Scliar disse que há muitos anos tem a posição tomada: "é uma posição tomada não por ser conhecido, consagrado ou por ter uma clientela. Clientela é um fenômeno muito recente no Brasil, que tem quinze anos. Porque até então os pintores viviam de teimosos. Então, na verdade, antes disto eu não participava de salões por uma questão muito simples, porque achava que o salão no Brasil — o Salão de Arte Moderna — significava aquela possibilidade de você ganhar um prémio e ir para Europa. Ora, eu achava que já tinha vivido quatro anos na Europa, portanto já tinha vivido aquela parte e não devia de maneira alguma tirar o lugar de um jovem, que de outra maneira não poderia ir. Era uma posição consciente de quem já tinha coberto a sua parte. Claro que não foi através do salão que eu tive a oportunidade de ir à Europa. Já tinha tido condições segundo Rubem Braga – ter feito um rude prêmio de viagem nas Força Expedicionária do Brasil – FEB, mas que valeu muito esta minha estadia. Se eu voltei vivo, voltei com toda uma experiência também ligada a todo o mundo de arte em guerra, inclusive na Itália que foi muito importante para mim. Foi talvez até decisiva. Acho que até mudou minha linha de trabalho. Mudou de uma maneira radical. Eu que fazia um trabalho socialmente muito engajado ligado a uma realidade social que queria denunciar de repente me dei conta que pela minha própria origem cultural e econômica via uma realidade de janela porque nunca tinha sofrido aquilo, mas era sensibilizado pela miséria que rodeava. Então eu tinha uma consciência política das coisas, mas na verdade achava que o meu protesto estava se fazendo num nível ainda que autêntico e honesto era um pouco desligado da realidade. Possivelmente neste rude prêmio de viagem que foi de 44 a 45 na Itália, sendo soldado, vi de repente que a Guerra era uma coisa tão terrível, era uma coisa tão decisiva que despertou em mim todo aquele desejo de fazer as pessoas terem consciência de que a guerra era uma coisa que deveria ser evitada de qualquer maneira.

Mesmo sabendo que aquela guerra era mais do que justa, pois lutávamos contra o fascismo e nós não tínhamos procurado aquela guerra. Ao contrário, foi ela que veio ao nosso encontro. Tinha consciência que estava participando de uma coisa que era importante, decisiva da minha posição como homem consciente e ao mesmo tempo a guerra era uma coisa que não perdoava nada. Então saí da guerra muito temperado e, principalmente, consciente de que a vida era uma coisa fantástica. Assim, de repente minha pintura começou a ser voltada para o cotidiano que até ontem eu não percebia que era tão fundamental. Quero assim através das coisas que mostra em torno de mim, fazer as pessoas sensíveis à vida”.

                                      MERCADO DE ARTE

 Carlos Scliar gostava de pintar bules.

 Falando sobre o mercado disse Scliar: Acho que o mercado de arte no Brasil tem todos os defeitos e as poucas qualidades de tudo que temos aqui. Isto é, estamos num país em formação onde4 nós mais imitamos os defeitos do que as qualidades que deveríamos aprender. O mercado está calcado fundamentalmente – quando eu penso no mercado é em termo de marchand, em lucros rápidos. São esses tais de lucros rápidos que estão destruindo a nossa paisagem, o nosso passado histórico, que é tão precário e tão pequeno. Então vemos que realmente criam nas pessoas aquela afobação que antes de mais nada é uma falta de tradição, uma falta de respeito com algo que é fundamental para nós que é nossa raiz cultural. Antes de mais nada é manifestação de falta de cultura. Acho que o verdadeiro marchand seria aquele que saberia que o artista é uma galinha dos ovos de ouro e ele tem que cultivar os ovos e não comer a galinha. Mas, infelizmente, o que vem acontecendo na prática é que eles querem comer a galinha. Nós vemos exatamente o marchand apressado querendo rapidamente fazer grandes lucros. Não querem nem que a galinha ponha os ovos, pois querem até negociar o quadro antes de estar terminado. Literalmente é uma falta de tradição. Não estou dizendo nada de original porque quem disse mais ou menos isto de uma maneira lúcida e perfeita foi Di Cavalcanti, há poucos anos atrás, numa entrevista que deu no Rio de Janeiro onde ele dizia que os diferentes setores que estão envolvidos num programa de arte no Brasil eram muitos precários a começar pelos artistas." Ele achava que tendo se formado numa maneira autodidata, num terreno precário eles não sabiam nem se defender profissionalmente. Nem sabiam bem que tinham uma profissão. Isto criava, inclusive em torno deles, um comportamento dos marchands, que também não tendo tradição nenhuma, só tinham a preocupação do lucro rápido e mais rápido possível. Este problema é tão sério que se amanhã a soja der mais dinheiro eles largam as galerias e vão plantar soja. Disse ainda que o público também tinha uma culpa muito grande porque existe uma parte não muito pequena do público que compra por uma questão de "status" em leilões completamente manipulados, quadros perfeitamente manipulados. O Di achava que isto era muito bem-feito, porque essas pessoas não sabiam respeitar o seu dinheiro, que era a única coisa que elas tinham."

- As palavras do Di, que eu achei que colocou com muita justeza, com uma certa severidade e bastante humor, mostram um panorama. Agora temos alguns marchands que começam a desconfiar que têm de trabalhar diferente. Agora nós temos uma faixa não pequena do público em diferentes pontos e quadrantes do país, que começa a comprar quadros, porque gosta de quadros. Temos um público fundamentalmente jovem que deixa de comprar uma geladeira para comprar um quadrinho. Muitas vezes pagando a perder de vista, mas aquele quadrinho é importante para eles e não estão comprando como aplicação. Nós temos pintores hoje que se preocupam mais com esta faixa de público jovem do que com colecionadores, que nós sabemos que se preocupam com as assinaturas e não com os quadros. Então você vê que esta coisa nova que existe no Brasil é o que dá ao país esta carga e faz com que a gente tenha confiança que teremos muito trabalho positivo pela frente. Claro que as dificuldades não serão pequenas, pelo contrário, acho que serão maiores. Mas em compensação nosso conhecimento aumenta um bocadinho”.

 


 OURO PRETO

Foto que fiz numa visita a  Ouro Preto.
Esta cidade é fascinante para o artista pela sua descoberta permanente. É uma cidade que me estimula no sentido de despertar nas pessoas toda aquela monstruosidade que é o não conhecimento daquele patrimônio que a gente vê se destruir pela ignorância, pela safadeza. Quando digo safadeza são aqueles seres que sabem que estão destruindo aquilo, mas que vão obter menos lucro se no terreno que tem uma casa antiga não for permitido que se ponha um arranha céu ou edifício naquele lugar. Então eles deixam a casa cair ainda que seja parte de um monumento. Esta mentalidade está em todo o Brasil, inclusive aqui na Bahia. Esta mentalidade tinha que ser denunciada como vinha sendo denunciada pelo Património Histórico e por inúmeros intelectuais e artistas brasileiros. Eu fiz minha bandeira disto a partir do momento que em 1973 fiz o meu primeiro painel sobre Ouro Preto. Queria mostrar a cidade de uma maneira mais polêmica que pudesse despertar nas pessoas este desejo de brigar pelo nosso patrimônio. De repente, no ano passado, depois de 20 anos ausente do Rio Grande do Sul, Ouro Preto de um trabalho coletivo no Clube de Gravura, a convite de Bagé voltamos para lá. O Grupo dos Quatro e trabalhamos juntos durante um mês depois de vinte anos. O contato com aquele ambiente, no ambiente onde novamente o trabalho emocional predominou sobre o trabalho intelectual. Quando voltei para Ouro Preto para terminar o painel eu não me vi capaz de fazer aquele trabalho de protesto que iniciara antes. Depois de quatro meses de uma luta com o trabalho elaborado, tive que refazê-lo várias vezes, finalmente, saiu um painel lírico e cheguei à conclusão de que o meu painel lírico era o meu protesto, porque na verdade é uma cidade idealizada, porque tudo aquilo que na cidade de Ouro Preto eu não gostava eu não mostrei no painel. Em vez de botar aquela mancha que queria denunciar, resolvi omitir tudo aquilo que tinha sido deformado e fiz a cidade idealizada. Acho que de certa maneira, o painel sensibilizou o público, pelo menos muita gente (eu sei) foi ver a cidade depois de meu painel. E acho que eles devem ter percebido a minha proposição.

                                                  A ARTE BRASILEIRA

Ouro Preto acrílica sobre tela de Scliar.
- Ouro Preto era para mim uma necessidade muito grande, de tomar uma posição, diria assim a favor de uma raiz como fosse uma alavanca, em defesa de uma raiz que é nossa. Onde é que começa e termina uma arte brasileira? Este assunto está em pauta. Cada um de nós dá a sua contribuição e eu estou tentando dar através do meu trabalho. Claro que hoje o meu trabalho em geral tem uma posição conceitual.  Isto é, faço do meu trabalho, se possível uma arma para estimular a sensibilidade e a inteligência das pessoas. Gostaria que vendo um trabalho meu pessoa saísse de uma cuca um pouco fundida para uma boa. Uma boa significa que as pessoas sintam que a realidade que elas imaginam pode ser diferente para cada pessoa. Respeitem, inclusive, a sua própria individualidade porque eu posso despertar nela a sua maneira de ver diferente da minha. Quando alerto as pessoas como num quadro que está na exposição, que tem um texto escrito dentro dele é uma espécie de provocação para o público. Está escrito no quadro: Eu sou uma montanha pintada. E você? Este quadro é importante, na medida em que estou no momento armando toda uma exposição, que fiz em torno de proposições que obrigo a pessoa a entrar, numa outra faixa, que não a da tela pintada. Mas sim do conceito estabelecido ali dentro obrigando uma discussão da pessoa comum com o quadro e consigo própria. Então na medida em que a pessoa diante de um quadro se sente atuar com a sua cuca, eu acho que o quadro tem a sua utilidade, a sua função social também".

                                               FUNÇÃO SOCIAL

Barco pintado no litoral fluminense.
Scliar achava que todo homem tem função social. O artista, atuando sobre uma faixa de público, tem uma obrigação ética de fazer daquilo instrumento, que é   o seu Instrumento de trabalho, de expressão, alguma coisa que sensibilize, que permita que cada homem seja parte deste processo. Isto é patente desde a idade das cavernas quando o primeiro homem fez alguma coisa que foi útil para os outros. Através de um quadro, um conto ou um poema, as pessoas podem despertar para um problema que até aquele momento do contato com um destes instrumentos não pensavam daquele jeito. Na minha opinião, não há obra sem conotação política. Acho que toda obra é parte de um processo. O artista que pensa está desligado, está num papel de alienação. E é um papel político."

                                            SUA PINTURA ATUAL


Scliar e dois trabalhos que expôs no MAMB
Falando sobre sua pintura atual, Scliar adiantou que dizer que minha pintura não me satisfaz era o mesmo que dizer que não gosto dela. Não é nada disto. Mas, ao mesmo tempo, se eu dissesse que estava satisfeito com o resultado que consegui, como se tivesse chegado a um resultado final, francamente eu não estou com o pé no túmulo. Ao contrário, quero viver ainda uns quarenta anos e pintando o máximo. Quanto a esta exposição, é uma oportunidade de vocês compararem vários quadros meus de 1940 até 1977. O painel de Ouro Preto é uma súmula pelo menos de quinze anos de Ouro Preto. Uma súmula lírica, e é um trabalho de protesto, dentro do seu lirismo. Explicava a um amigo que quando eu propus aquele painel, há dois anos atrás, tinha a ideia do painel, não da maneira que fiz. Mas de uma maneira diversa ligada a um painel de protesto para protestar contra a destruição que a cidade vinha sofrendo. Então achava que devia denunciar num painel aquelas coisas por serem fantásticas dentro daquela cidade torta nascida das mãos do homem rude. O construtor de Ouro Freto inventou uma cidade de acordo com uma topografia muito específica e praticamente inventou cada casinha em relação à outra. É como eu dizia ao Emanoel Araújo: é uma cidade cubista. Antes do cubismo já existia Ouro Preto. Portanto, o cubismo estava todo lá lançado. É uma cidade com a perspectiva clássica com um ponto de fuga, que você quebra a cara, pensando que vai estabelecer, analisar a cidade sobre este aspecto, é uma cidade que foi reinventada pelo homem de acordo com cada pedaço de terreno”.

                                                    O RETORNO

 Carlos Scliar  sempre disposto a opinar.
Sobre sua volta à Bahia, Scliar, já expôs na antiga Galeria Querino, na Rua Carlos Gomes, disse que "minha volta à Bahia não é uma volta, e sim um permanente retorno. Na verdade, estou tão ligado à Bahia, mesmo antes de vir através os livros de Jorge Amado. Na verdade, a partir do momento, quando nos meus 14 a 15 anos, li os primeiros romances de Jorge, já fiquei sendo parte daquela imensa quantidade de pessoas que no Brasil afora realmente se ligaram para o Brasil para o resto de sua vida. Em 1941 estive na fazenda do pai dele e ali colhi elementos para ilustração de Seara Vermelha, no sentido de terra, de ambiente, de vivência, e, em 1944 quando vim. Já vim sobre o patrocínio de Jorge Amado e quando depois fiz os painéis em 1973 para o Centro Administrativo também o meu padrinho foi o Jorge. Isto aconteceu depois de uma viagem que fizemos a Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália. É que me empolguei tanto com estas duas cidades que ele, percebendo meu entusiasmo, acabou sendo meu advogado e, de repente, disso resultou o convite para fazer os painéis. Agora esta exposição nasceu da continuidade deste clima através de Fernando Peres a Jacyra Oswald, que tendo visto um painel no Rio de Janeiro queriam este painel exposto aqui. Tendo vindo em dezembro para a exposição da coleção de Gilberto Chateaubriand do qual eu sou um dos padrinhos, tive o convite confirmado, ou melhor, ampliado, pois além do painel faria uma pequena retrospectiva, a qual só foi possível porque eram peças do meu acervo. Portanto, estou aqui na Bahia, que é minha casa porque sempre estive ligado a ela”.