Translate

sábado, 11 de maio de 2024

ARMANDO CR O EMPRESÁRIO QUE VIROU FOTÓGRAFO

Armando CR com duas fotos de sua autoria.

Tenho especial interesse pela fotografia por registrar numa fração de segundos uma cena inusitada reinterpretando a realidade transformando em imagens. Sendo jornalista convivi com muitos fotógrafos durante anos que registravam instantaneamente com sua técnica e astúcia  os fatos jornalísticos. Aprendi na prática que uma fotografia vale realmente mais que muitas palavras. Atualmente com a chegada dos smartphones e a fotografia digital muita gente se arvora à fotógrafo, mas existe uma grande diferença entre aqueles que quase mecanicamente registram um fato ou uma paisagem e os fotógrafos verdadeiros que registram com a cabeça, com o coração, com o sentimento. Esses são parecidos com os pintores diante de uma tela em branco. Eles sentem o ambiente, a luz, procuram um ângulo melhor e eliminam coisas que não lhes interessam na composição. A criatividade prevalece e a câmara é apenas uma ferramenta como se fosse um pincel imaginário. Hoje os smartphones trazem câmeras cada vez mais sofisticadas e as pessoas registram tudo, inclusive sem até nós percebermos. Já as câmeras fotográficas usadas por fotógrafos profissionais têm inúmeros recursos que lhes permitem diferenciar suas fotos das amadoras.  E na tarde de ontem me vi diante de inúmeras fotos de qualidade ímpar ao visitar o Studio do fotógrafo Armando CR, na Rua da Paciência, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Fiz com ele um tour cultural e visual ao examinar as belas e criativas fotografias que ele fez em Marrocos, Myanmar ( antiga Birmânia), que para ele foi a viagem mais produtiva. Esteve em Cuba e na Índia em ambas  por quatro vezes, Camboja, Vietnã, Butão, Veneza, Portugal,  Cachoeira e muitos outros lugares. Agora está programando passar um mês em Bali fotografando. É um verdadeiro festival de cores, cheiros e belezas que vão
Gal Costa, no Festival  MPB,  da  Record.
penetrando em seu corpo através o olhar. É como que se você estivesse fisicamente naqueles locais observando e captando cada detalhe das cores das vestes e dos ornamentos nos corpos dos personagens, e vendo as expressões captadas por suas câmeras alemãs Leicas, tidas como uma das melhores no mercado. Conheço o Armando há décadas e sendo repórter fui entrevistá-lo algumas vezes quando ele era um empresário bem sucedido e a sua empresa Correa Ribeiro S/A Comércio e Indústria, grande exportadora de cacau da Bahia, estava em operação. Depois como comerciante dono das lojas Tio Correa. Hoje, afastado de sua empresa que a transformou numa holding patrimonial ele vive imerso no mundo da fotografia. Não foi de repente que aconteceu esta transformação do empresário num fotógrafo. Sua paixão pela fotografia vem desde jovem, quando estudante registrou nos anos 60 muitos momentos dos festivais de música popular brasileira da TV Record, em São Paulo. 

Armando CR aos oito
anos com sua Brownie.
Mas o seu contato com a fotografia começou ainda mais cedo, ou seja, aos oito anos de idade quando seu avô materno Armando Joaquim de Carvalho lhe presenteou com uma câmera Brownie, de fabricação americana, durante um cruzeiro de navio com toda sua família percorrendo vários países europeus. Com o passar dos anos a primeira câmera se perdeu, mas o gosto pela fotografia permaneceu. Agora para sua satisfação a sua secretária Andressa Santana conseguiu comprar pela internet uma câmara Brownie pela bagatela de R$150,00, igual à que ganhara do seu avô. Hoje ele ostenta numa prateleira do seu Studio junto a foto dele aos 8 anos de idade com sua primeira câmera Brownie dependurada no pescoço. É interessante ressaltar que ele também coleciona fotografias de famosos fotógrafos como do Sebastião Salgado, Mário Cravo Neto, do cubano Alberto Corda, que fez aquela foto famosa de Che Guevara que os estudantes de esquerda costumam ostentar em camisetas e os comunistas em suas manifestações. Tem ainda uma foto do suíço René Burri, falecido em 2014, que foi fotógrafo da agência Magnum Photos por décadas e ficou conhecido por fotografar Che Guevara com um imenso charuto cubano e Pablo Picasso, além de políticos, militares e artiscas, assim como, imagens icônicas de São Paulo e Brasília. Inclusive participou de um Workshop em Cuba promovido pela brasileira a paulista Alessandra Silvestre, casada com o embaixador da França e que moram na ilha caribenha. Neste evento estiveram presentes fotógrafos famosos e ele fez amizade com o colega fotógrafo Mário Dias, que é cubano, e já esteve por lá quatro vezes. Compareceu também ao Workshop o suíço René Burri, fotógrafos americanos, um austríaco e de vários outros países.  os filhos de Che Guevara e o Fidelito, filho do Fidel Castro. Nessas viagens e convivências aprendeu a sair da bolha e a trocar experiências enriquecedoras.

                                         ROMPEU A BOLHA

Armando CR no seu apartamento do
Copan, em São Paulo.Época de militância.
O nosso personagem chama-se Armando de Carvalho Correa Ribeiro, assina como fotógrafo Armando CR, é filho de Carlos Correa Ribeiro Filho e Maria Lúcia Carvalho Correa Ribeiro. Nasceu na maternidade do Hospital Português, em Salvador, no dia 15 de fevereiro de 1944, portanto está com oitenta anos de idade bem vividos. Morou do zero aos 16 anos no famoso edifício Oceania, de frente ao Farol da Barra. Fez seu curso primário na Escola Modelo, que era uma escola particular, mista, pertencente à professora Helena Mateus, conhecida por proporcionar uma boa qualidade de ensino e também por ser disciplinadora. De lá foi para o Colégio Antônio Vieira onde permaneceu até o terceiro ano quando decidiu romper a bolha do conforto de sua família abastada e foi para São Paulo morar no famoso edifício Copan, cujo projeto arquitetônico é de Oscar Niemeyer. Este prédio foi inaugurado em 1966, fica na Avenida Ipiranga, na capital paulista número 200, tem 32 andares e 1.160 apartamentos de dimensões variadas e ocupados por cinco mil pessoas. Imagine o choque que o jovem Armando Correa Ribeiro deve ter sofrido, ele que morava aqui confortavelmente. Em São Paulo fez o vestibular para a Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas onde entrou no dia 31 de março de 1964, exatamente no dia da chamada por muitos de Revolução de 1964 e outros de Contra Revolução, Ditadura Militar e por aí vai. Participou ativamente do movimento estudantil e chegou a ser eleito vice-presidente do Diretório Acadêmico da faculdade com uma votação expressiva.

Foto I e II - Brindes das Lojas Tio Correa.
Foto III - filmete da DM9  no Dia das Mães.
 Foto IV -Trio Elétrico das Lojas Tio Correa
  no carnaval baiano. Estas fotos acima
não são 
de autoria de Armando CR.

Decidiu ir trabalhar numa madeireira e lá tinha um diretor da empresa que era
comunista e possuía muitos livros sobre o marxismo. Com medo de receber a visita do DOPS e da Polícia Federal pediu que guardasse esses livros, e assim ele andava com seu fusca cheio de livros considerados “subversivos”, para cima e para baixo pelas ruas de São Paulo. A sorte é que nunca caiu numa blitz. Montou um pequeno laboratório fotográfico no seu apartamento no icônico edifício Copan e ali revelava fotos dos festivais de música popular e outras que fazia em São Paulo.  No ano de concluir o seu curso de Administração na FGV foi procurado por um diretor da Gillette que estava decidido a trocar os dirigentes aqui no Brasil. Era para ganhar um bom dinheiro cerca de NCR$1.200,00. Seu tio Fernando Correa Ribeiro ao saber da sua decisão resolveu convidá-lo para voltar para Salvador e ingressar na Correa Ribeiro S/A Comércio e Indústria recebendo o salário de NCr$900,00. Portanto um pouco menor que o oferecido pela multinacional. Mas, atendendo aos apelos dos pais e do tio Fernando Correa Ribeiro resolveu voltar e passou a trabalhar terminando como dono da empresa que hoje é uma holding patrimonial.

Baile em Cuba, onde vemos a singeleza
dos gestos.
Lembrou que aprendeu a língua inglesa através de um curso à distância chamado de Calvert School of English e neste curso tinha aulas até de História da Arte. Nas viagens que fez para a Europa e Estados Unidos teve a oportunidade além de conhecer as cidades visitar muitos museus importantes e esta formação do curso de inglês“me ajudou muito em apurar a minha sensibilidade e conhecimentos, e a partir daí desenvolver a arte fotográfica que faço atualmente”, disse Armando CR. 
Adiantou quando retornou e já casado foi morar na Avenida Princesa Izabel, no bairro da Barra Avenida, em Salvador, e montou também um pequeno laboratório para revelar suas fotos. Continuava com a exportação de cacau, mas quando a lavoura cacaueira passou a declinar especialmente com a vassoura de bruxa que dizimou muitas fazendas ele resolveu acabar com a empresa exportadora de cacau. Em 1966 o Armando Correa Ribeiro fundou as famosas lojas Tio Correa que tinha o inconfundível senhor barrigudo com bigodão como marca e chegou a ter 32 lojas espalhadas por várias cidades baianas da região cacaueira e duas em Recife. Uma curiosidade quem criou a marca das lojas foi a empresa de publicidade Publivendas, do saudoso Fernando Carvalho, que
Velha barqueira fotografada no Vietnã.
contratou um freelancer para fazer a marca. Depois passou a ser atendida pela Propeg e finalmente a DM9. Na época o Duda Mendonça  seu amigo, era corretor de imóveis da Construtora Promov e  resolveu abrir uma empresa de publicidade e marketing político juntamente com Zilmar Fernandes e passou a atender as Lojas Tio Correia. As lojas funcionaram de 1968 quando o Armando Correa Ribeiro vendo a inflação alcançar altos patamares de cerca de 80% resolveu se desfazer das lojas e procurou o empresário Israel Portnoy, que era o dono da concorrente Lojas Ypê, que as adquiriu e passou a operar as lojas. O trato era que Israel Portnoy ia operar as Lojas Tio Correa por um ano e se não conseguisse tocar o negócio lhe devolveria. Três meses depois Israel Portnoy o procurou e disse que o negócio estava fechado definitivamente , acertaram os valores, e assim semanalmente 
Menino num mercado na Índia.
o Israel fazia o pagamento parcelado do valor acordado.
Após a venda das lojas o Duda Mendonça o convidou para trabalhar na DM9 e assim ele foi com toda a sua família para São Paulo integrando o marketing político da campanha de Paulo Maluf, que terminou sendo eleito governador de São Paulo, e o Armando Correa Ribeiro ficou por sete anos na capital paulista. Seguiu para Brasília trabalhar na campanha do candidato a governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, que foi eleito. Voltando a Salvador criou o Restaurante Trapiche Adelaide que foi um sucesso, depois o demoliu e construiu um conjunto de  vinte  apartamentos de alto padrão no local. Agora deu um tempo à sua atividade empresarial e vive dedicado à sua arte de fotografar.

                                                         A FOTOGRAFIA

Armando CR fotografou a Menina
da Ilha de Maré e  voltou  a
 fotografá-la dez anos depois.
"E
u precisava me firmar como fotógrafo e nas viagens que fiz e ainda vou fazer ao invés de escrever na ficha do hotel profissão de empresário passei a escrever profissão: fotógrafo, com muito orgulho. Durante a pandemia decidi fazer uns vídeos, criei um canal no YouTube e hoje já tenho 48 vídeos falando das minhas viagens para fotografar e também da minha arte fotográfica, e hoje já tenho 13 mil inscritos e continua crescendo.  “A coisa mais gratificante é quando encontro alguém e fala das minhas fotos. Esta semana encontrei um advogado conhecido e me chamou para ir à sua fazenda fazer umas fotos. Sinto hoje que muitas pessoas já me aceitam como fotógrafo”, disse Armando CR, com entusiasmo de um jovem iniciante. Ele adora fotografar e revelou que sente uma grande sensação de conquista quando consegue capturar algo mais numa fotografia.  “Pode ser um certo olhar, uma expressão significativa, um movimento ou simplesmente o gesto puro e inocente de uma criança. A minha maior satisfação é quando minha foto desperta alegria nas pessoas, quando me descrevem como àquela fotografia lhe tocou, muitas vezes refletidas e descritas  em um sorriso ou mesmo em um quase silencioso , eu gostei.”

Foto de uma tourada em Portugal.Isto
mesmo  na terra lusitana tem touradas .
Falando da arte fotográfica de Armando CR é preciso antes de tudo esquecer o empresário bem sucedido que conheci e olhar com atenção as imagens que  consegue captar com suas câmeras e principalmente com sua aguçada sensibilidade. Posso dizer que Armando é um artista ousado que rompeu a sua bolha de conforto e sai por aí procurando captar a essência das pessoas, das paisagens e objetos que lhes tocam de perto. Sua postura é diferente daquela do turista deslumbrado que sai por aí fotografando tudo. Não, Armando CR sabe o que lhe interessa fotografar, vive emocionalmente aquele momento e vibra quando consegue transformar aquela realidade numa fotografia de qualidade. Suas fotos emanam sentimento como uma tela de um artista. São emoções diferentes? São.  o artista vai criando a cada passo e pode demorar até meses. O fotógrafo muitas vezes conta apenas com fração de um minuto para realizar aquela foto fantástica. Mas, são emoções que surgem com a mesma intensidade e quando um artista recebe um elogio da tela 
Monge  em Mynmar, antiga Birmânia.
que pintou e o Armando CR de sua fotografia. Esses elogios se equivalem. É o reconhecimento explícito de um trabalho feito com suor, emoção e sensibilidade. 
O fotógrafo americano Arnold Newman ficou conhecido por seus retratos ambientais. Ele conseguia capturar a essência das pessoas e também suas obras. Fez retratos de políticos como de John Kennedy e outras celebridades, e falando da arte fotográfica disse: “Nós não tiramos fotos com nossas câmeras nós tiramos fotos com os nossos corações e mentes. Elas são reflexo de nós mesmos... o que somos e o que pensamos”. Ele nasceu em Nova Iorque em 3 de março de 1918 e faleceu em 6 de junho de 2006, na sua cidade natal.

                                          EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Foto na chamada Cidade
Azul, em Marrocos.
Em 1969 – participou da 2ª Bienal da Bahia, Salvador-Ba;  2006 da exposição Bahia, Brasil e o Mundo, no Manhattan Square Salvador - Ba;  2011 da mostra Caboclos de Itaparica, na Biblioteca Juracy Magalhães Júnior, na ilha de Itaparica, Bahia e - expôs na Casa da Cultura Galeno D’Ávelírio , em Cruz das Almas, Bahia;  2014 – expôs no Museu Afro Brasil, em São Paulo e participou da mostra Minha Bahia, na Casa Cor Bahia, em Ilhéus-Bahia ; 2015 da exposição Terra Brasil, na cidade de Vila Nova de Gaia, em Portugal;  da Artists Across Continents, na II Cultural Week Brasil-Noruega Brazilian Embassy, em Oslo, Noruega;  da Artcom International Expo Carrousel du Louvre, em Paris, França; 2016 do Bahia-Brasil Quotidiano no Gat Rossio Hotel, em Lisboa, Portugal;   da exposição O Olhar do Viajante, na Art Embassy Gallery, em Lisboa, Portugal; da 6TH Dimension International Art Show, em Birla Academy of Art & Culture, em Kolkata, ,West Bengali, na Índia; 2017 exposição Uma Índia, dois Olhares, no Museu da Misericórdia, Salvador-Ba;2018 exposição na Embaixada da Índia, Brasília; 2019  exposição na Land + Scape, Forneria – Salvador-Bahia; 2020 exposição Iemanjá no Hotel Fasano, Salvador-Ba;  2023 da exposição Verdade e Liberdade , no Bicentenário de Independência do Brasil na Bahia na Caixa Cultural,  e da XXIII Bienal de Arte Fotográfica Brasileira em Cores, ambas em Salvador-Bahia.


sábado, 4 de maio de 2024

AS ESCULTURAS MINIMALISTAS DELICADAS DE PAULO PEREIRA

Paulo Pereira em seu ateliê com
vários elementos de novas
esculturas que vai montar.
Existe uma perfeita simbiose e harmonia entre o artista Paulo Pereira e as madeiras que utiliza para criar suas esculturas minimalistas cheias de delicadeza e sensualidade. Quando estamos diante da série Agulhas imaginamos as dificuldades que encontrou para chegar àquelas formas finas, delineadas e delicadas com a perfeição que exige muto controle e criatividade. Ao examinarmos a série Dentes aí surge a sensualidade das formas e contornos sinuosos e não relacionamos de imediato que aquelas obras foram inspiradas em dentes humanos, mesmo porque a beleza das esculturas e a sensação de suavidade nos remetem e afastam das lembranças dos sofrimentos que enfrentamos nas cadeiras dos dentistas quando nos submetemos a uma extração ou mesmo a um tratamento dentário qualquer. Sim, porque estamos diante de uma obra de arte que nos eleva o espírito e mostra que os quinze anos que o Paulo Pereira passou fazendo molduras, portanto manipulando as tábuas de cedro, pau d’arco, freijó, mogno, itaúba, angelim e outras para ele e seus colegas lhe proporcionaram uma convivência e conhecimento do que cada tipo de madeira pode lhe oferecer para criar suas esculturas. Hoje completamente dedicado à sua arte escultórica Paulo Pereira carrega este conhecimento e a habilidade de trabalhar suas obras que primam pela ausência de muitos elementos e a presença da delicadeza. Neste processo criativo tem algo de poético e é preciso ter um olhar cuidadoso e sensível para alcançar a dimensão das formas que Paulo Pereira nos apresenta com seu fazer de um construtor de objetos tridimensionais que nos convida a identifica-los. Ah! isto parece uma agulha de costura, ah! este aqui parece um dente. Será? Ele nos coloca num plano de fantasia lúdica num jogo que flui com a busca suave da construção de imagens dentro de nossos saberes.

O artista folheando caderno com 
várias pinturas .
Fui encontra-lo em seu ateliê na Ladeira do Desterro, no bairro de Nazaré, em Salvador. Um local que tenho lembranças de quando estudante porque morei ali num pensionato juntamente com primos e amigos de Ribeira do Pombal. Já adulto estive na casa onde morava o artista Emanoel Araújo, que me chamou algumas vezes para entrevistar artistas seus amigos, que estavam ali hospedados. Um deles foi o polonês radicado no Brasil Frans Krajcberg, já falecido, que estava indignado em outubro de 1975 com pessoas que atribuíam de sua autoria 23 quadros que ele peremptoriamente negava dizendo que "nunca pintei marinhas e os quadros que estão afirmando ser de minha autoria jamais os vi, a não ser quando da realização de leilão numa galeria carioca.” Lembrei-me do Waldeloir Rego grande designer de joias e um etnógrafo de mão cheia autor do livro Capoeira de Angola. Voltando ao Paulo Pereira cujo ateliê dista poucos metros da casa onde moravam Emanoel Araújo e o Waldeloir Rego lá passei boa parte de uma tarde misturado entre tábuas, tubos inox, formões de todos os tipos e tamanhos, goivas, chaves de fendas, serras, serrotes, martelos, prensa, e vários relógios antigos de parede enfim um mundo diferente e de aparência caótica, mas que o Paulo Pereira sabe onde está cada coisa. 

Quatro esculturas feitas em madeira 
e tubo de aço inoxidável.
Disse com orgulho que no meio daquele ambiente que para o visitante pode parecer caótico ele transita com tranquilidade e afirma que até agora só não encontrou um pequeno tubo de cola que desapareceu misteriosamente. Mas, tem a esperança de um dia encontra-lo, diz rindo. Falei sobre o ambiente onde o artista trabalha para mostrar como ele consegue se abstrair do que lhe rodeia e concentra sua energia nas obras que imagina e passa a conceber utilizando a madeira, o aço inoxidável e outros elementos que compõem as suas esculturas. O que me impressiona é o rigor técnico das suas esculturas quando a gente as examina de perto. Procurando ver o que ele estava criando encontrei vários elementos em duas salas como madeiras em formas circulares, já cortadas e polidas, círculos de tubos inoxidáveis, fios e outros materiais que estão sendo manuseados pelo artista para criar as suas novas obras.  Falou da dificuldade de encontrar em Salvador pessoas capazes de fazer um polimento dos materiais que utiliza do jeito que ele exige, e do perigo de ter um assistente porque pode passar a tentar imitar o que o artista faz. Isto já aconteceu com ele.

Paulo com sua primeira escultura.
As obras de Paulo Pereira têm a redução formal com a ausência de muitos elementos e características claras do minimalismo movimento que veio para se contrapor ao expressionismo europeu e surgiu nos Estados Unidos na década de 60, depois se espalhou pelo mundo afora. Muitas vezes o artista chega a estas formas simples pelo ato de criar, de fazer, e encontra ali um porto, um lugar onde se sente apto e seguro para se expressar. Necessariamente não buscou entrar naquele movimento. Foi uma passagem natural que fluiu no decorrer da sua produção artística. Longe de ser cartesiano é um fazer espontâneo que vai buscando se adaptar aos elementos que utiliza e as formas que surgem subjetivamente no seu inconsciente.  O conheci quando estudante ele e mais dois colegas fizeram uma exposição chamada de Alchimia, em novembro de 1987, na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Alemanha -ICBA, hoje, Instituto Goethe, no Corredor da Vitória. Estiveram na sede do jornal A Tarde e fiz um texto sobre o trabalho deles e a pintura de Paulo Pereira tinha uma tendência ao construtivismo.
                                                                  O COMEÇO

Objetos criados por Paulo e que 
foram premiados.
É natural de Salvador, nasceu na Rua Daniel Lisboa, no bairro de Brotas em 29 de março de 1962. É filho de Eliezer da Silva Pereira e de Carmelita Assis dos Santos Pereira, ambos falecidos. Seu pai era estivador, operava guindastes no porto de Salvador e depois foi trabalhar na Petrobras, também operando máquinas. Seu nome completo é Paulo Cesar Santos Pereira. Ele diz que mesmo não sendo pessoas instruídas os seus pais não colocaram qualquer empecilho para ele seguir a sua carreira de artista. Fez seu curso primário numa escola do bairro a Escola Municipal Sebastião Dias, e disse que levou muito bolo de palmatória. Em seguida foi fazer o ginásio no Colégio Estadual João Durval Carneiro, e depois se transferiu para o Colégio Luiz Viana Filho, em Brotas, e finalmente foi concluir o terceiro ano colegial no Colégio Águia, na Praça da Piedade.  Foi neste período que Paulo Pereira como já desenhava desde os 14 anos, e o que despertou para a arte foi uns desenhos que um vizinho chamado Elias, não lembra o sobrenome, fazia com regularidade. Disse que o Elias não é um artista profissional, apenas tem o dom de desenhar. Assim passou a copiar as figuras de revistas e jornais, e quando estava no Colégio Águia filava as aulas para ir ao Museu de Arte Moderna da Bahia, e também para visitar museus e ir às exposições. Depois participou das Oficinas de Expressão Artística, da qual após concluir a faculdade passou a lecionar aulas de pintura e depois de escultura. 

Quatro pinturas feitas em papel.
A ideia inicial era fazer Arquitetura, porém a dificuldade em Matemática o
afastou do projeto. Em 1983 decidiu fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, onde diz ter permanecido quase sete anos, devido às greves constantes que ocorriam na Universidade Federal na luta pela redemocratização do país. Nesta época já desenhava e pintava uns quadros, fazia gravuras, “portanto não cheguei completamente sem experiência na arte na Escola”. Lembra que nos tempos da EBA foi difícil porque ele não dispunha de livros e outros recursos. Confessa que “foi dolorida, a minha busca por um caminho onde realmente me sentisse confortável e também realizado com o trabalho que estava fazendo.” Colecionava a série Gênios da Pintura, lançado pela editora Abril e sempre estava procurando ler e pesquisar. No ano 1989 saiu da escola e casou. Tem um único filho.  Foi trabalhar numa gráfica. Acordava bem cedo e ia para o trabalho. Mas, não era a sua praia e depois de um tempo saiu   do emprego e foi aí que começou a fazer molduras para alguns colegas, atividade em que ficou durante uns quinze
Mais pinturas onde podemos
ver a sua criatividade.
 anos. As exposições de Siron Franco aqui em Salvador foi o Paulo Pereira quem esticou as telas, colocava chassis e fazia as molduras encomendadas pelo galerista Paulo Darzé. Daí vem a sua relação com as madeiras que hoje utiliza para criar suas belas esculturas. Faz questão de dizer que fez o curso de restauração e “estes conhecimentos lhe ajudaram na arte de fazer molduras artesanais diferenciadas para cada obra. “Mas, tive que decidir em continuar moldureiro ou ser artista. Decidi ser artista, larguei as molduras e passei a criar minhas esculturas. Coloquei uma delas na Casa Cor, dei sorte porque as pessoas viram e gostaram do que fiz. Foi quando fui participar de uma exposição na Art Nata Galeria de Arte, de Rita Câmara, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador e de lá para cá nunca mais parei”, conta Paulo Pereira. Esta relação com as madeiras talvez tenha também algo de hereditário porque o pai de sua mãe era carpinteiro, mas tinha muito ciúmes dos seus instrumentos de trabalho e não deixava os netos nem chegar perto. Já o avô de seu pai, portanto seu bisavô, foi um santeiro conhecido na época e fazia muitos santos e restaurações para igrejas e outros clientes, mas Infelizmente ele nunca viu uma imagem feita por ele.

Veja a 
delicadeza.
Neste instante lembrou da primeira escultura que fez durante as aulas da professora e escultora Adele Bálazs, já falecida, na Escola de Belas Artes, da UFBA, e foi buscar para mostrar. Disse que a escultura com formas sinuosas tem muita influência do que a professora fazia e hoje está completamente distanciado. Perguntei por quê não faz mais molduras artesanais. “Talvez venha a fazer para minhas exposições. Não faço mais porque as pessoas  não querem que eu faça do jeito que sei fazer. As molduras eram artesanais e tinham um toque muito pessoal. Fiz para Justino Marinho, Jamison Pedra, Siron Franco, Lígia Aguiar, dentre outros. Quando passei a expor em instituições culturais como na Itaú Cultural, Caixa Cultural, Museu de Arte Moderna da Bahia e também no sul do país passei a ter um mercado que garante a minha sobrevivência.” Hoje disse que faz o que gosta. “Primeiro faço para mim e as coisas foram acontecendo”. Ele acha que é nestas instituições que forma e legitima o artista e não o mercado. Para ele o mercado é uma consequência desta legitimação do artista pelas instituições culturais e então o mercado vai fluindo naturalmente.  Acha estranho o mercado paulista, mas que continua insistindo. Disse que encontrou com o crítico de Arte o Ricardo Resende e ele perguntou como estava indo no mercado paulista. Falou sobre esta dificuldade, mesmo depois de ter exposto em museus paulistas e que o crítico ficou surpreso e elogiou o seu trabalho. Lá já fez uma mostra no Museu Afro Brasil e também no Museu de Arte Contemporânea- MAC.

                                      VOLTA AS OFICINAS DO MAM-BA

Uma pintura em duas folhas do caderno.
O Edgard Filho, que era vice diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, na gestão de Heitor Reis, o convidou para ministrar aulas de pintura nas Oficinas de Expressão Artística. Ele recorda que tinha muita gente idosa que estava ali para ocupar o tempo e as senhoras faziam florzinhas e outros temas que ele procurava incentivá-las a criar livremente. Eram cerca de quarenta ou mais alunos e os que realmente tinham mais talento ele apenas de quando em vez dava uns toques e informações para prosseguirem criando livremente. Inicialmente eram aulas de pintura e depois foi ensinar Expressão Tridimensional e assim se passaram quinze anos até que o governo mudou, e a nova diretora Solange Farkas, que assumiu em 2007, resolveu acabar com as oficinas. Ao mesmo tempo que ensinava, disse que aprendia. Teve uma aluna de pintura e quando mudou para Expressão Tridimensional, ela quis fazer. Questionou, mas ela insistiu e lhe surpreendeu com os trabalhos que fazia e até participou de uma exposição da Galeria da ACBEU. Não lembra o nome da aluna, mas fica a lição para todos que ao ser procurado com insistência por alguém querendo realizar algo procure dar uma chance, esta pessoa pode lhe surpreender.

Três esculturas do artista.
Paulo Pereira lembrou também que pintou três telas e levou para um fotógrafo japonês, que tinha seu estúdio do bairro do Rio Vermelho para que as obras fossem fotografadas. Guarda até hoje as fotos e disse que ficou impressionado porque o fotógrafo oriental fez rapidamente as fotos segurando a câmera fotográfica ao invés de usar o tripé. Também não lembra o nome do japonês, disse que era já um senhor de idade e que muitos artistas o procuravam na época para fotografar suas obras.O Paulo Pereira era pintor e tentou inicialmente se estabelecer com suas pinturas e a passagem para a escultura foi um processo gradual desde aquela primeira escultura que fez na EBA. Lembra que inicialmente criou três esculturas com a forma de espermatozoides e tem uma cabeça que ele disse que se parecem com muletas. Mas, na realidade quis mesmo fazer espermatozoides e isto aconteceu após se submeter a uma operação de vasectomia. A cirurgia lhe marcou muito e resultou nestas peças, que foram premiadas. As pessoas gostaram. Certo dia estava na Lapa e viu um cidadão com muletas. Aquilo lhe impressionou e decidiu fazer três esculturas inspiradas nas muletas. Estas seis esculturas hoje estão no acervo do MAM-Ba. Depois passou a fazer uns objetos utilizando caixas de pinho norueguês que serviam de embalagem para bacalhau e ele conseguia este material reciclado na Perini. Dai em diante a escultura foi se tornando sua principal atividade artística e agora já está há mais de vinte anos. Porém, ele não abandonou totalmente a pintura e vem exercitando com certa frequência. Tive a oportunidade de ver umas belas pinturas neo expressionistas em dois cadernos, que ele guarda com carinho. Um de tamanho médio e outro menor, e algumas dessas pinturas são inspirados em sua mãe. São realmente exercícios que podem se transformar em belas pinturas pela qualidade das cores e da composição.

                                                    EXPOSIÇÕES

Já fez importantes exposições individuais e participou de várias coletivas. Tem obras em museus e acervos particulares, a exemplo no Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana e no Museu de Arte Contemporânea de Curitiba e na Coleção Gilberto Chateaubriand. Em 1986 fez uma  exposição individual no Museu de Arte Moderna da Bahia.  Foi premiado no 12º Salão da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia; em 2002 no IX Salão da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia, recebeu o Prêmio Petrobras; 1998 – premiado no V Salão da Bahia, também no Museu de Arte Moderna da Bahia;1997 no Workshop Brasileiros e Alemães , realizado no MAM-BA foi contemplado com uma viagem de estudos à Alemanha; em seguida participou do Panorama de Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MASP; ganhou uma viagem de estudos aos Estados Unidos .

Exposição coletiva com mais 4 artistas.

Coletivas : 1994 - 1º Salão Baiano de Artes Plásticas – Museu de Arte Moderna – Salvador/BA;  1995 – II Salão Baiano de Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna da Bahia e no  V Salão Alcy Ramalho Filho, Curitiba, no Paraná e do  XXVII Festival International de La Peinture Cagnes-Sur-Mer, na França; em 1996 no III Salão da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia e exposição no  Museu de Arte Moderna – Rio de Janeiro/RJ ; 1997 - Museu de Arte Moderna – São Paulo/SP; 1998 -  Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna, Niterói, Rio de Janeiro e Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, Pernambuco; 2000- Galeria Árvore – Porto/Portugal; Haus der Kulturen der Welt – Berlim/Alemanha; Rumos Visuais – Itaú Cultural – São Paulo/SP; Bahia Agora, Centro Cultural Ramón Alonso Luzzy, Cartagena, Espanha; I Bienal Internacional de Buenos Aires, Museu Nacional de Belas Artes, Buenos Aires, Argentina; 2002 - Mostra Rio Arte Contemporânea I – Rio de Janeiro/RJ e no  Museu de Arte Contemporânea, Curitiba, PR.

sábado, 27 de abril de 2024

CINQUENTA ANOS DE ARTE DE GUACHE MARQUES

Guache Marques em seu ateliê,
no bairro do Rio Vermelho.
  • O artista Guache Marques está completando cinquenta anos de arte e tem uma trajetória de reconhecimento e sucesso da sua produção artística que desde criança manifestou com o seu dom pelo desenho, e atualmente continua buscando novas formas e ferramentas para criar.  É bom lembrar que no período antes de ingressar na Escola de Belas Artes, o que aconteceu no ano de 1974, Guache fazia trabalhos em bico de pena onde o realismo fantástico era muito presente nas obras de vários artistas daqui e de fora. E em 1979 participou do 1º Salão Universitário Nordestino  de Artes Visuais, realizado no foyer do Teatro Castro Alves  quando ganhou o primeiro prêmio com a série Mãe Útero, Mãe Terra e Mãe Dor utilizando a técnica de bico de pena e o estilo realismo fantástico. Tem uma curiosidade aí que ele ficou procurando um nome para a série quando seu amigo o poeta Washington Queiroz de um só fôlego disse: Mãe Útero, Mãe Terra e Mãe Dor.   Ele disse que quando estava na Escola de Belas Artes teve contato com a técnica do pastel seco através do saudoso professor Ailton Lima e produziu muitos trabalhos utilizando esta técnica que no seu entender é difícil de ser executada porque exige o desenho apurado do artista.
  • O artista Guache Marques com uma
    obra recente
    .
  • Durante cinco anos (1980-1985) frequentou as Oficinas de Expressão Artística do Museu de Arte Moderna da Bahia quando teve a oportunidade de participar de um curso ministrado pelo gravador Antônio Grosso, do Rio de Janeiro. Neste período executou diversas gravuras, especialmente litogravuras, técnica “que mais me atraiu pelos recursos de desenho e as possibilidades que ela encerra”. O Antônio Grosso nasceu no Rio de Janeiro, em 1935, e tem um importante papel como professor das mais importantes instituições culturais do país na formação de várias gerações de artistas litógrafos. Ele revela que inicialmente sua arte primava por dar um enfoque social e tinha o homem como elemento central “aglutinador de verdades e paixões tendo como caminho a subjetividade da linguagem surrealista, o que durou o tempo necessário para que me tocasse de outras formas de pensar o homem e seu universo.” Mas, a condição humana não foi abandonada durante a sua trajetória pictórica e assim ele vem conduzindo os seus lápis, pincéis, canetas, as espátulas e outros instrumentos que utiliza para conseguir camadas e texturas que se entrecruzam e se misturam dando às suas telas uma visão da cultura afro de uma forma muito pessoal e bela. Os que gostam de arte quando chegam diante de uma tela pintada por Guache Marques, mesmo com a assinatura não estando facilmente visível, identificam o seu autor porque a obra tem uma marca inconfundível do seu talento nos traços e cores terrosas. Os arquétipos possibilitam a geração de imagens emocionais e os arquetípicos de figuras masculinas exibindo seus dotes de masculinidade, guerreiros.
  • Guache mostra obra com temática
     hominideos.
  • Continuando sua trajetória nos anos 80 dedicou-se à gravura trabalhando nas Oficinas do MAM-Ba e também fez uma
  • série de fotos-desenhos que chamou de “Arquétipos e Arquetípicos” utilizando como base fotografias de Renato Assis retratando os mirorós ressecados pelo sol, que são peixes marinhos, uma espécie de moreia, e que existem em dois tamanhos. Utilizando o grafite, acrílica e nanquim ele conseguiu metamorfosear os peixes em seres humanos e à medida que fazia novos trabalhos os peixes foram ficando mais parecidos com os humanos. Escreveu Guache Marques que “a serialidade conseguida nesses trabalhos dá a ideia da massificação a que chegam as sociedades moderna e contemporânea. Por meio de formas hieráticas e com tratamento expressionista meio grotesco, surgiram esses seres.” As formas hieráticas tem a ver com as coisas sagradas. Nos anos 80 ele participou de feitura de painéis e murais nas ruas de Salvador, dando sua contribuição para a democratização da arte juntamente com artistas oriundos da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Foi nesta época que foram feitos os painéis da Escola de Arquitetura, em 1982; o da Biblioteca Central, também da UFBA, em 1983; do Complexo Escolar Polivalente do Cabula, em 1983; e o Projeto Mural do Rio Vermelho, que era renovado a cada ano no período de 1983 a 1987.
  •                                                     INFLUÊNCIA AFRO
  • Na década de 90 aconteceu uma mudança na sua trajetória artística quando redirecionou sua pintura pesquisando os efeitos visuais da cultura baiana, e decidiu tomar como referência os elementos e símbolos da religiosidade afro-brasileira. Foi assim que surgiram suas pinturas trazendo signos das divindades jeje-nagô e as ferramentas dos orixás. Com o passar do tempo estas referências estão fragmentadas numa pintura mais sofisticada, mais trabalhada em camadas de cores, texturas e geometrizações. Nas visitas que tenho feito e acompanhado de perto a produção das artes visuais na Bahia há algumas décadas noto que neste contexto de nossa cultura, esta mistura de raças, cores, gostos, cheiros e religiosidade transitam por muitos artistas cada um com sua pegada diferenciada. Vi umas telas grandes de Guache Marques e quando você as toca a textura com suas cores únicas, que lembram a terra do nosso sertão tão sofrido, parece um couro tal a sua consistência. E alguns  traços são linhas em altos-relevos que delimitam os espaços e de repente se entrecruzam e se misturam e você se perde nesta trama que dá uma visão muito prazerosa do que o artista se propõe. Noutros ele geometriza os espaços com quadrados e retângulos e pinta vários elementos como se fossem obras distintas. Mas, não. Eles se entrecruzam, estão ali intimamente interligados para formar um conjunto único.
  • Dançarinos  pintados por Guache
    • Marques exibidos no foyer do TCA.

  • Continuando a caminhada chegamos em 2005 quando o Guache Marques se aventurou no mundo da dança. Assim fez algumas instalações no Teatro Castro Alves liderado pelo coreógrafo holandês-piauiense Marcelo Evelyn no projeto “Dançar é...”, e também esta integração da sua arte com o corpo em movimento ocorreu quando trabalhos seus e de outros artistas serviram de inspiração para coreografias no projeto Quarta que Dança, promovido pela Escola de Dança e a Fundação Cultural do Estado da Bahia, no Terreiro de Jesus, Centro Histórico de Salvador-Ba. Paralelamente trabalhava no IRDEB, onde se aposentou fazendo cenários, ilustrações e outros trabalhos ligados à sua especialidade. Durante toda a sua trajetória fez várias exposições individuais e coletivas, e lembro que foi um dos participantes da exposição Geração 70 que organizei com um grupo de jovens artistas oriundos da EBA e que é um marco nas artes baianas. Foi a única vez que vi o Corredor da Vitória engarrafar de tanta gente que compareceu ao Museu de Arte da Bahia para ver a mostra, com uma interrelação de dança, teatro, música e artes plásticas. Enfim, como disse o Guache Marques esta sua trajetória “reflete um processo de busca das formas orgânicas e da geometria, do figurativo ao emblemático.” É nesse universo de experiências que transita, primando pelo rigor das técnicas que usa. Ele é tão organizado que quando cheguei já estava com várias fotos prontas e alguns textos inclusive seu currículo que me foram entregues depois que providenciou um envelope para os acondicionar.
  •                                        O COMEÇO
  • Três gravuras  de autoria 
    do artista Guache Marques.
  • O Guache Marques nasceu no dia nove de janeiro de 1954, no bairro Olhos D’água, em Feira de Santana, Bahia. É filho de uma família que não tinha qualquer ligação com a arte. Seu pai Antônio Marques de Jesus era um torneiro mecânico conhecido na Cidade e sua mãe Terezinha Gomes Marques, do lar. O Antônio Gomes Marques que assina Guache Marques mostrou este gosto e pendor pelo desenho desde a escola primária. Um detalhe curioso é que seu pai sentia orgulho dos desenhos que seu filho fazia e sempre mostrava aos parentes e amigos. Tem quatro irmãos, sendo dois homens e duas mulheres. Seu irmão Paulo Marques gosta de Matemática e terminou sendo professor de várias gerações, depois seguiu a carreira de engenheiro elétrico. Fez seu curso primário, ginásio e colegial no Colégio General Osório, em Feira de Santana e gostava de fazer desenhos dos heróis e de jogadores de futebol da época. Quando chovia ele aproveitava a areia fina do chão alisava e assim desenhava os heróis como Durango Kid, Fantasma, Flexa Ligeira e outros. Depois passou jogar futebol de mesa e assim sentiu a necessidade de fazer seus próprios jogadores utilizando restos de material reciclado de janelas de ônibus. Esses botões representando cada jogador no campo ou na mesa de jogar eram de mica e para deslisar passava parafina. Diz com orgulho que quando criança foi campeão duas vezes na sua rua e que ganhava de muitos marmanjos. Sabedores da sua habilidade de quando em vez aparecia um cartaz ou outro trabalho ligado ao desenho e o Guache Marques passou a ganhar alguns trocados que lhe serviam para comprar novos materiais para sua arte que se iniciava ali. Disse que certa vez o professor mandou que fosse ao quadro negro desenhar uma abelha. Ele desenhou a abelha em tamanho grande e foi uma admiração geral na sala de aula, pela qualidade do seu desenho.
  • Xilogravura de Guache.
  • Guache Marques lembra que tinha habilidade no desenho artístico e na escola aprendeu a usar os materiais como esquadros, réguas, transferidor, o compasso e assim utilizava estes conhecimentos geométricos também para fabricar seus botões. O seu time era o Bangu, do Rio de Janeiro, que na época tinha um grande elenco com Aladim, Paulo Borges, etc. Felizmente hoje é torcedor do Vitória, time que também sou torcedor. Ele cita determinadas partidas, o placar e os autores dos gols e relembra até do dia em que passou a torcer pelo Vitória. Isto foi  quando o Vitória ganhou de 4 x 2 do Bahia com dois gols de Kleber Carioca e dois de Jorge Bassi. Com quatorze anos de idade e cursando o segundo ano ginasial a sua professora de Matemática chamada Irma Amorim, que era poeta e esposa do arquiteto e agitador cultural Amélio Amorim tomou a iniciativa de levar até o seu esposo e solicitou que arranjasse um lugar de estagiário para o Antônio Marques. Amélio Amorim era um arquiteto muito conhecido em Feira de Santana, inclusive tem um Centro de Cultural na cidade que leva o seu nome. Passou quatro anos trabalhando no escritório e sendo canhoto sentiu dificuldade em manejar os compassos, esquadros e normógrafos aranhas para normografar diversos projetos arquitetônicos. O normógrafo é um instrumento auxiliar do desenho. O tipo mais comum é o normógrafo para desenho de caracteres, porém há outros destinados ao desenho de formas geométricas, como círculos e polígonos. Todos estes instrumentos são feitos para destros, daí a sua dificuldade em se adaptar. Neste período fez sua primeira exposição com trabalhos em bico de pena. Era chamado pela família de Toinho, mas um colega do ginásio passou a lhe apelidar de Guaxinim e isto o irritava na época até que dois anos depois passaram a lhe chamar de Guache.
  • Quatro bicos de pena do artista .
  • Disse que chegou a vender alguns bicos de pena, mas perdeu de vista e não sabe
  • por onde andam e se ainda existem. Com quinze anos de idade passou a ajudar nas despesas de casa e foi estudar à noite e a farrear com os amigos. Isto tirou o foco dos estudos e fez um segundo ano científico fraco. Retomou o terceiro ano e estudou com afinco até que em 1974 foi fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Continuavam a lhe chamar de Guaxinim ou de Guache. Mesmo assim não gostava de nenhuma das duas formas do apelido. Porém, quando já estava na Escola de Belas Artes e era conhecido por Antônio Marques um colega da EBA passou e disse “Guache você por aqui?” Foi aí que o apelido se espalhou na faculdade entre sua turma e não mais conseguiu se separar dele. O vendo questionar o apelido a professora Márcia Magno da EBA o incentivou a assinar Guache Marques porque segundo ela era um nome mais forte e diferenciado que Antônio Marques. Terminou se convencendo, e assim é conhecido no mundo das artes na Bahia como Guache Marques, que hoje ostenta com certo orgulho. Quando foi estudar as disciplinas Desenho Artístico I e Desenho II com o professor Ailton Lima, já falecido, e ele viu seus desenhos em bico de pena e imediatamente o convidou para ser o monitor de suas aulas. Gostava tanto da Escola de Belas Artes que passou seis anos por lá, e decidiu sair com receio de ser jubilado. Confessa que foi um aluno aplicado dos professores Riolan Coutinho, Onias Vieira   Camardelli, Ailton Lima, Jamison Pedra,Juarez Paraíso e muitos outros. Quando se formou foi ser professor orientador de xilogravura na Escola de Belas Artes e passou a ganhar uns trocados para garantir a sua sobrevivência.
  • Obra ligada a sua influência politico-social.
  • Lembra que já na década de 80 se afastou de suas influências anteriores e procurou elaborar um discurso plástico próprio que era áspero com preocupação com o social fruto da sua experiência de suas fantasias de criança, a responsabilidade precoce de ajudar no sustento da casa junto com um dos irmãos e a observação das incertezas e opressão política. Disse que “as figuras desenhadas nesse período esmurram o ar como se estivessem à procura da sua própria verdade interior”. Depois de 1982 a 1985 trabalhou fazendo gravuras apesar de sua dificuldade em manusear goivas, pontas secas, ácidos e impressoras de grande porte nas Oficinas do MAM, em Salvador-Ba. Destaca que duas litogravuras que fez neste período um Xangô e um Totem com Cabeças que no seu entender “são precursores de uma fase que já se anunciava: a dos signos afro e sua presença na cultura afro-brasileira”. Prosseguindo em 1983 começou a fazer obras que “despisse o homem de suas vicissitudes, que avocassem a sua contraditória condição humana, do homem como arquétipo de si mesmo.” Foi quando surgiram os trabalhos em foto-desenho redesenhando silhuetas de peixes que encontrou nas fotografias de Renato Marcelo Assis (in memoriam) que foi seu colega quando trabalhava no IRDEB. Com o colega chegou a visitar a Feira de São Joaquim para comprar os peixes ressecados chamados de mirorós que são comercializados para servirem de tira-gostos em feiras livres espetados num palito de madeira. Em 1994 passa a pintar com tinta acrílica sobre tela com cores terrosas e texturas evocando os signos afros, e permanece nesta técnica até hoje e cada dia mostra sua evolução criando texturas e formas muito criativas.
  •                                      PREMIAÇÕES E EXPOSIÇÕES
  • Esta instalação foi premiada na I Bienal
    do Recôncavo, em 1990.
  • Em 2004 foi premiado no V Mercado Cultural com uma dessas pinturas com o primeiro prêmio de Fomento as Artes concedido pela UNESCO ; 1º Prêmio em Desenho no I Salão Nordestino de Artes Visuais, no TCA , em 1979 ; 1º Prêmio em Desenho no Gabinete Português de Leitura , em 1976; Menção Honrosa na Bienal do Recôncavo com uma instalação, São Félix-Bahia, em 1990 e Menção Honrosa no I Encontro de Arte da FUNCISA – Fundação Cidade do Salvador, com uma instalação, em 1997. Tem obras nos acervos dos museus: Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM-BA, no MAB- Museu de Arte da Bahia, Museu de Castro Alves, em Castro Alves-Ba; no acervo da Associação Cultural Brasil Estados Unidos; na Faculdade de Geologia da Ufba; Gabinete Português de Leitura; Museu Regional de Feira de Santana, CUCA e no Museu de Arte |Contemporânea de Feira de Santana- MAC.
  • Catálogos de várias exposições.
  •  Já fez oito exposições individuais e diversas participações em exposições coletivas. Individuais: em 2008 a exposição Signos, no Museu Regional de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira , em Feira de Santana; 2004, 2005 e 2006 Exposições de pinturas em acrílica sobre tela no Projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova do Artista, no Hotel Sofitel Costa do Sauipe-Bahia; 2003 -Exposição com Sala Especial, no V Mercado Cultural no Conjunto Cultural da Caixa ,em Salvador-Ba; 2002 – Exposição de Pinturas e Arte Digital, na Galeria ACBEU-Salvador; 1999- exposição Emblemas da Africanidade, na Aquarela Café, no Farol da Barra, Salvador-Ba; 1998 - A Condição Humana, na Galeria da Associação Cultural Brasil Estados Unidos – ACBEU e  em 1974-  Exposição Realismo Fantástico, na Galeria de Arte de Feira de Santana – GAFS, Feira de Santana-Ba.
  • Os bicos de pena Mãe Útero,Mãe
    Terra e Mãe Dor, premiados.
  • Coletivas: dezenas de coletivas nas cidades de Feira de Santana, Salvador, Cachoeira, na Bahia; Curitiba, no Paraná; no Rio de Janeiro-RJ e fora do país em Macau, na China; Londres, Inglaterra; e Paris, na França e Buenos Ayres, na Argentina. Vejamos: 2023 - Exposição em Homenagem ao Bicentenário do 2 da Independência da Bahia na Galeria Cañizares, Salvador-Ba; 2022 - participou da exposição Encruzilhada no Museu de Arte Moderna da Bahia;2021 -Exposição de Totens chamada de Caminho da Fé em homenagem a Irmã Dulce;2020 - Mostra Virtual de Outdoors da Paulo Darzé Galeria de Artes-Salvador-Ba; 2019 - exposição Muncab Movimento – no Museu Nacional da Cultura Afro Brasileiro, no Centro Histórico – Salvador-Ba; 2019 -  Exposição 90 Olhares para Matilde Matos, no Di Mercatto e na Assembleia Legislativa do Estado da Bahia , Salvador-Ba; 2017 – Exposição Agosto da Artes, no Museu Rodin, Palacete da Artes, Salvador-Ba; 2016 – Exposição Agosto da Artes na Capela do Solar do Unhão, Museu de Arte Moderna da Bahia – Salvador-Ba; 2016 – Exposição 40
  • Obra feita  na técnica pastel seco.
  • Anos de Linguagens Contemporâneas, no MAM-BA, Salvador-Bahia; 2016 – Exposição 20 anos do Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana – MAC; 2015 - exposição Tempo & Linguagens, na Galeria Paulo Darzé; 2015 – Exposição Papiro , no Shopping Salvador; 2014 -   Exposição Cores da Bahia , no foyer do Teatro do IRDEB, Salvador-Ba;  2014 – Exposição Formato 30 x 30 na Galeria Carlo Barbosa, no Centro Universitário de Cultura e Arte, em Feira de Santana-Bahia; Exposição Formato 30 x 30 na Galeria Nelson Dahia, no SESC/SENAC, Pelourinho, Salvador-Bahia; 2014 -  Exposição MAC Parade, no Museu Rodin, com 120 esculturas de macacos pintadas por artistas, Salvador-Bahia; em 2013 - participou de sete coletivas;2012 Exposição Circuito das Artes do Museu de Arte da Bahia, Salvador-Ba;2011 - de mais quatro coletivas; 2010 - de dez exposições inclusive a de Londres chamada de Brasilians on The Movie; 2009 - de mais quatro; 2008 -  de sete coletivas; 2007 até 1985  - de muitas  coletivas entre as quais a de 1985- da Geração 70, no Museu de Arte da Bahia, que foi um marco na história das artes visuais na Bahia. Seguiram várias outras exposições.