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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

MÁRCIA MAGNO E A LEVEZA DE SUAS NOVAS GRAVURAS - 28 DE SETEMBRO DE 1980


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  DOMINGO, 28 DE SETEMBRO DE 1980

MÁRCIA MAGNO E A LEVEZA DE SUAS NOVAS GRAVURAS


"Meu trabalho é transparente, colorido e forte.Sempre fiz xilogravuras e a força da minha fase atual é o abstrato geométrico, são trabalhos simétricos que partem das laterais e convergem para o centro das telas. Assim, Márcia Magno, baiana, formada pela Escola de Belas Artes da UFBa., começa falando da sua exposição de Xilogravuras Policromadas, na Capela do Solar do Unhão até 30 de setembro.
Os trabalhos de Márcia tem uma forte ligação com o afetivo, o suave e com sua personalidade marcante.São formas geométricas habilmente construídas com uma transparência de cores refletidas num concretismo de objetos construídos e destinados a um espaço natural. A combinação dos círculos e dos triângulos superpostos em estados, resultam em formas quase naturais sugerindo uma beleza de emoção e sentimento do externo feminino, em contraste com a ordem, a elaboração das faixas de linhas retas completamente perfeitas e literalmente belas.
A transferência das gravuras de Márcia tem um valor relevante, pela plasticidade implícita e pelo dimensionamento do espaço. A polivalência espacial e os acordes cromáticos tornam-se mais harmônicos pelas concordâncias de luminosidade e croma. São persistentes e sugestivas impressões superpostas, a procura consciente e sensível de novos efeitos visuais.
Sobre sua arte falou Juarez Paraíso:”... Na gravura de Márcia Magno, o instinto, o emocional, a cor de forte impacto longe da timidez dos tons griso dos primeiros tempos da gravura colorida, se contrapõe ao racional, à abstração geométrica. Márcia rompe o sentido clássico da simetria, qualidade estrutural mais imediata do seu trabalho, retomando-a em função de um conceito formal mais eficiente, onde o dualismo figura rundo é reversível, rico de implicações visuais. A simetria torna-se mais plástica- continua Juarez- mais dinâmica, pois a reversibilidade permite, em diferente níveis de espaço, o confronto de estruturas diferenciadas, a articulação virtual de um contexto assimétrico” finaliza.
Para Márcia, o grande encanto do seu trabalho são as arraias”, feitas em papel mais fino e que levam até três impressões. São realmente um achado, identificam-se com o gesto cultural de um povo. Acrescenta conteúdos na utilização dos elementos naturais, o vento. Novos estímulos visuais são acrescentados, se empinadas, movimenta-se a gravura no espaço; mutantes matrizes de deslocando entre céu, nuvens e arco-íris.As arraias, como todo trabalho de Márcia Magno, são resultados de um sentimento claro, transparente e azul que habita o interior de seu ser.

CADERNO DE ANOTAÇÕES DE DA VINCI EM LEILÃO
Uma das páginas do codex Leicester de Da Vinci

Um dos mais valiosos manuscritos do mundo ainda de propriedade particular -um caderno de anotações escrito e ilustrado por Leonardo da Vinci- será levado a leilão em dezembro, podendo alcançar até o recorde absoluto de ser arrematado por 10 milhões de dólares.
Até hoje, o maior lance feito num leilão de arte ocorreu em Nova Iorque no começo do ano pelo quadro de Joseph Turner,  Juliet And Her Nurse.
O manuscrito foi enviado a Christies pela família do conde de Leicester e será levado à Leilão no dia 12 de dezembro.Devido aos enormes encargos fiscais que enfrentam, os curadores das propriedades da família Leicester resolveram vender, entre outros tesouros, o codex Leicester, como é conhecido o manuscrito de Da Vinci.
A família nobre inglesa comprou o manuscrito em 1717 de um colecionador italiano, Giuseppe Ghezzi, que na época comentou amargamente que se desfazia do caderno que mesmo então já era considerado uma excepcional obra de arte por causa do poder do ouro.
O manuscrito é considerado um documento único não apenas por ter sido feito por um artista imortal, mas também porque nele Da Vinci descreveu a luz secundária da lua, 200 anos antes da ciência confirmá-la.

O SERTÃO FOCALIZADO

Acostumado com as casas de barro batido como única opção de abrigo, o sertanejo estranha o interesses de estudiosos e visitantes em fotografar ou colher informações sobre seu modo de vida. Agora o sertão baiano volta a ser temática de uma exposição fotográfica de Edgar Ricardo Von Buetter, que será realizado no Museu Guido Vianna, da Fundação Cultural de Curitiba, no Paraná. Sempre ele vem à Bahia em busca de  subsídios para seu estudo etnográfico que realiza e que tem apoio de organismos suíços. Quase não permanece em Salvador, prefere visitar as regiões à margem do São Francisco, onde aliás, consegue documentar grande parte de sua obra fotográfica.Pela qualidade desta fotografia acima podemos aquilatar a importância deste trabalho documental e etnográfico que Buettner faz em nossa Bahia.

MUSEU DO INCONSCIENTE REPRODUZIDO EM LIVRO

O artista Artur Bispo do Rosário e sua obra
que está no Museu do Inconsciente
A Funarte, o Museu de Imagens do inconsciente e a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do inconsciente lançaram o livro Museu de Imagens do Inconsciente, na sala do Conselho Curador da Fundação Nacional de Arte- Rua Araújo Porto Alegre, 80. O livro reproduz obras de sete internos do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio, e tem a coordenação editorial do crítico Mário Pedrosa, assessorado por Themira de Oliveira Brito, secretária geral da Sociedade Amigos do Museu.
Os textos sobre os artistas esquizofrênicos são de Mário Pedrosa, José Lins do Rego, Ferreira Gullar, Sérgio Millet, Martha Pires Ferreira e Marinho de Azevedo, além da psiquiatra Nise da Silveira, que escreveu o histórico sobre o museu, o único do mundo e que funciona no Centro Psiquiátrico Pedro II.
As 80 reproduções, entre pinturas a óleo e guache, desenhos e modelagens, foram feiras pelo fotógrafo Humberto Franceschi, um apaixonado pelo trabalho da Seção de Terapêutica Ocupacional do hospital. O critério de seleção das obras levou em conta, exclusivamente, a qualidade dos artistas.
O livro, de 192 páginas e tiragem de 5 mil exemplares, foi produzido pelo Departamento de editoração da Funarte e faz parte da coleção Museus Brasileiros. Ele pode ser adquirido pelo Reembolso Postal ou na Loja Funarte- Rua México, 101- por CR$800.

DALI E SEUS BIGODES BRANCOS

O pintor espanhol Salvador Dali reagiu dizendo que nada era mais falso que sua anunciada morte, pois estava trabalhando num novo quadro intitulado Cavalo Muito Alegre. Disse o divertido artista que “se algum dia eu morrer- o que não é certo-  espero que as pessoas dos cafés de Figueres (Catalunha) digam que Dali morreu, mas não totalmente”.
Ele deu uma extensa entrevista à revista Câmbio 16 e apareceu numa das fotos que ilustra a reportagem (pela primeira vez) com seus bigodes brancos e mostrando uma foto de sua esposa Gala, quando jovem. Prometeu ainda que no dia 15 de outubro, quando reaparecerá em público, proferirá um discurso no qual “finalmente resolverei o segredo dos meus bigodes”. Negou, ainda, que estivessem em dificuldades financeiras e também as notícias de que seu secretário particular Enrique Sabater tivesse enriquecido as suas custas. Foi o próprio Sabater que encaminhou o questionário previamente elaborado  pelo editor da revista Câmbio 16, e este, afirmou também, que “Dali não é o meu melhor negócio”

OS TRAÇOS GESTUAIS DE SÉRGIO, NO MUSEU DE ARTE -10 DE NOVEMBRO DE 1980


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  DOMINGO 10 DE NOVEMBRO DE 1980

OS TRAÇOS GESTUAIS DE SÉRGIO, NO MUSEU DE ARTE

Sérgio Rabinovitz fez sua primeira individual na Mini Galeria Acbeu, em 1975, e depois esteve estudando nos Estados Unidos. Dos jovens artistas baianos, Sérgio é um dos poucos que dispõe de informações necessárias para uma conscientização do trabalho plástico.
Sérgio com uma de suas obras
Não é um simples artesão que pega a goiva ou outro instrumento qualquer e faz uma forma ou figura plástica. Ele sabe porque está fazendo e como fazer. Agora, Sérgio volta com mais uma exposição, desta vez na Galeria do Museu de Arte da Bahia, na Pousada do Carmo, a partir do dia 20, numa promoção da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Quem faz a apresentação é Mário Cravo Neto, também um jovem artista, o qual afirma”que traços caligráficos, símbolos visuais de uma intensa claridade definem a forma ancestral de expressão e comunicação”.
Esta forma de expressão de Sérgio realmente nos faz relembrar os traços gestuais dos homens das cavernas. A espontaneidade que brotou daqueles homens que procuravam abrigo nas cavernas e lá deixaram sua expressão. As manadas de búfalos, veados e alguns ursos solitários. Outros, apenas, traçaram riscos sem um significado maior. Mas, Sérgio vai mais longe, quando idealiza seus traços e escolhe suas cores, visando uma comunicação com o homem do século XX. Sua arte, sua gravura tem contemporaneidade. Vamos deixar que o próprio Sérgio fale do que pretende mostrar na Galeria da Pousada.
Disse ele que desde que surgiu a ideia para a realização da exposição, há pouco mais de um ano, que vem trabalhando na sua concretização.Levou em consideração o vasto recinto, as imensas paredes grossas e o altíssimo pé direito do imóvel e daí formulou um trabalho que vai interagir, pois as gravuras são de grande porte. Para Sérgio, este grupo de trabalho segue a mesma linha gestual e caligráfica os anteriores, só que perdeu o caráter intimista da mostra que realizou tão logo retornou de Nova Iorque. É um trabalho reintegrado com a nossa paisagem.

XII PANORAMA DE ARTE ATUAL BRASILEIRA, 
NO MAM PAULISTA
Trabalho de Ronaldo Paiva
utilizando a técnica água
forte e água tinta

O Museu de Arte Moderna de São Paulo, Parque Ibirapuera, vai inaugurar no dia 13 o seu décimo-segundo Panorama de Arte Atual Brasileira. A mostra anual, organizada em rodízios, apresenta pintura, desenho e gravura, escultura e objeto. Neste ano, o MAM exporá desenhistas e gravadores.
Neste vasto território a ninguém é dado conhecer os muitos artistas com qualidade para participarem do Panorama. Esse fato incontestável motivou a abertura do Panorama/80 a quantos ele quisessem participar, submetendo-se a júri da seleção. Pareceu à Comissão de Arte ser essa medida democrática, capaz de preencher ausências apontadas pela crítica e de admitir o talento jovem menos difundido. Conseqüentemente, convidou artistas em menor número, para abrigar em seu espaço os inscritos aceitos; gravadores: 25 convidados, 16 inscritos aceitos. Ao todo 110 artistas, com 330 obras.
A Caixa Econômica Federal, no seu tradicional empenho de colaborar para difundir cultura, patrocinou os prêmios: Prêmio MAM, Desenho/80, cem mil cruzeiros; Prêmio MAM, Gravura/80 , cem mil cruzeiros; Prêmio C.E.F., Desenho/80, cinqüenta mil cruzeiros; Prêmio C.E.F, Gravura/80, cinqüenta mil cruzeiros.Esses prêmios serão atribuídos nos próximos dias de entregues na data da inauguração.


AS MÃOS DO CRISTO DE MÁRIO CRAVO

Não são as mãos de um pianista esculpidas em ferro. Trata-se de um detalhe do Cristo que o escultor Mário Cravo fez para a Cidade de Vitória da Conquista, o qual reinará eternamente com seus braços amarrados e abertos abençoando aquela cidade. Porém, antes de deixar Salvador, o Cristo foi fotografado por Carlos Santana, de A Tarde que conseguiu este detalhe de grande força plástica. O cravo quase desaparece e as mãos parece movimentar-se numa tecla de um imenso plano. Na verdade, são as mãos cravejadas e sofridas do Cristo, que até hoje continua, como símbolo, sendo cravejado pelos gananciosos que esmagam aqueles que tem as mãos calejadas e as barrigas vazias.


O RECORDE DO PINTOR ARGENTINO  EMÍLIO PETORUTTI

Obra O Quinteto, de Petorutti
Uma obra cubista do pintor argentino Emílio Petorutti foi adquirida em Nova Iorque por 190 mil dólares - CR$11.400,00 ,estabelecendo um recorde no preço alcançado por uma obra individual de um artista latino-americano, por uma obra de arte Argentina e por uma obra de Petorutti, segundo informou uma porta-voz das galerias Aquavella.
A obra O Quinteto , de 1927,foi posta à venda pelo Museu de San Francisco, e foi adquirida pelas galerias Aquevella ,de Nova Iorque  em um leilão na casa especializada Sotheby’s que recebeu a soma sem precedentes de 1.699,250 dólares ou seja CR$101.955.000,00.
Segundo a porta-voz , foram leiloadas 113 obras de artistas latino-americanos entre elas seis pinturas da coleção particular do falecido Nelson Rockfeller.No mesmo leilão também foi quebrado o recorde de preço alcançado pela obra do mexicano Julio Castellanos, com a compra de O Dia de São João por 46 mil dólares -  CR$2.760.000,00.
O recorde anterior pelo preço alcançado por uma obra de um artista latino-americano foi estabelecido em maior deste ano, também em leilão pela Sotheby’s quando um quadro com o título de Modesta, do pintor mexicano Diego Rivera foi arrematado por 120 mil dólares -  CR$7.800.000,00.



UMA CASA DE ARTE E A POLUIÇÃO

Esta coluna não é somente minha, mas também de todos aqueles que desejam movimentar este mercado, falar dos valores e de tudo que diz respeito às artes visuais. Hoje, público este artigo de meu amigo Wilson Rocha sobre a atuação de uma casa de arte onde ele faz algumas considerações sobre o comportamento do nosso mercado. Vejamos:
“O problema crítico das vanguardas, a decadência e morte dos salões e das bienais e os grandes descalabros mundanos da manipulação mercadológica estão promovendo, principalmente nas grandes cidades, uma enorme dispersão na própria arte, de quem cria e de quem olha. A crise de energia e as outras grandes crises generalizadas, que em decorrência disso estão debilitando a economia de todos os países, representam uma séria ameaça à sobrevivência das instituições oficiais de cultura. E, por sua vez, os efeitos da contracultura lamentavelmente está conduzindo a maioria dos artistas jovem a uma exploração equívoca das raízes da arte popular, num reaproveitamento falso,  em que nada permanece da autenticidade da arte popular genuína.
Na Bahia dos últimos anos, tem sido visível a todos os que se encontram mais ou menos ligados à produção e ao consumo das artes visuais, incluindo o teatro e a dança, a desoladora realidade de não se poder afastar a impressão do mediocridade do ambiente de província, sem confronto e sem crítica, e onde os mentores da vida cultural vivem os dias de um delírio turístico ou continuam dormindo um interminável sono burocrático. E já não é mais possível falar em tradição, porque tradição tornou-se sinônimo de mola propulsora para atrair o turismo, a maioria das vezes, num esquema tão artificial que não reside à menor análise ética nem estética. Improvisados e apressados marchands de subúrbio  -mercadores espertos manipulando compradores desavisados-transformaram Salvador em uma Cidade de muito artista e pouca arte. A poluição pictórica, repleta de folclorismos e ingenuismos comerciais, surrealismos e até vanguardismos surrados, Aliciou multidões de marginais da arte- vira-latas da pintura, acadêmicos, pintores de domingo e até falsificadores ridicularizados por uma pretensiosa e delirante supervalia, perigosamente reunidos e montados em tristes vernissagens.
“Mas, outras idéias felizmente surgiram e se impuseram desde logo, a tal ponto esse interesse se acentuou de três anos para cá, como constatamos agora preenchendo o vazio e a insipidez dos programas dos nossos modorrentos museus e absurdas galerias de arte, o aparecimento, em 1977, de uma casa de arte que vem confirmar o crédito de confiança e apoio que tem granjeado junto ao público verdadeiramente interessado na apreciação e no consumo das artes plásticas- a Teresa Galeria de Arte, localizada entre o Teatro Maria Bethânia e o Hotel Meridien, num belo casarão centenário, provavelmente a mais antiga mansão do bairro do Rio Vermelho, primeiro passo para uma cidade mais humanizada pela arte, idéia plausível e corajosa e uma experiência gratificante de sua diretora, a senhora Teresa Freitas. Um exemplo de uma promoção de cultura apoiada  em bases empresariais, um projeto integrado de diversos departamentos, amplas salas de exposição, loja de material de arte, molduraria de classe superior, pioneira no uso de madeiras finas de lei, com emprego de pátinas, ouro velho e restaurações, além de setores de gravura, desenho e decoração e o Café Concerto Strike 1878, agradável ponto de encontro entre os artistas e o público.
“N o acervo da galeria- considerado um dos melhores do país em pesquisa realizada em 1978 pela Revista Arte Hoje-, encontram-se obras de artistas renomados, como Picasso, Salvador Dali; Lasar Segall, Portinari, Djanira, Scliar, Iberê Camargo, Mário Cravo Jr., Emmanuel Araújo, Genaro de Carvalho, Vasco Prado, Clóvis Graciano, Teruz, Bianco, Bustamante, Augusto Rodrigues, Zoravia Bettiol, Clara Melro, Juarez Machado, Fernando Coelho, Bel Borba, Nair de Carvalho, e muitos outros. A galeria, que mantém um escritório de arte me Londres e um convênio com o Trevo Galeria de Arte, do Rio, tem realizado notáveis exposições de artistas de São Paulo, Rio e Bahia e promove mostras periódicas especiais e individuais, sem ônus para o expositor, se impressão de catálogo- o Salão do Mês, que recentemente mostrou-nos a energia da cor e a força da obra de Edval Ramosa, artista brasileiro com larga vivência na Itália. Muito simpática, ainda a atuação da primeira galeria local a se interessar por mostras individuais de artistas da fotografia, como Júlio Angeleri Valente”.

NEGADO O DESMEMBRAMENTO DA COLEÇÃO DE ARTE SACRA -27 DE OUTUBRO DE 1980


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 27 DE OUTUBRO DE 1980 

NEGADO O DESMEMBRAMENTO DA COLEÇÃO DE 
ARTE SACRA


Apesar de fortes rumores na cidade que a coleção sacra Abelardo Rodrigues, composta por 770 peças, seria desmembrada, foi negada, ontem, pela diretora do Museu de Arte Sacra, Liana Gomes Silveira, que, entretanto, informou que, possivelmente, algumas destas peças serão emprestadas para uma exposição que se realizará quando da inauguração do Solar do Ferrão, dependendo apenas de aprovação do reitor Macedo Costa, da UFBa.
Em barro, marfim e madeira, estas peças motivaram há alguns anos uma polêmica entre os governos da Bahia e de Pernambuco, já que a Bahia adquiriu o acervo da família de Abelardo em 1973, mas os pernambucanos não queriam que as peças deixassem aquele estado. Depositadas no Museu de Arte Sacra, em 1975, muitas peças, entretanto, permanecem encaixotadas, devido à falta de espaço para dar ao público a oportunidade de ver estes trabalhos, muitos do século XVI.
Foi visitando este acervo, no ano passado, que a condessa de Augsburg resolveu abrir um parêntesis na obra que realiza com aço inoxidável e que a fez produzir trabalhos como a escultura de um Cristo em bronze, inspirado numa talha de coleção de Abelardo, intitulada Cristo Rezando no Horto. Segundo ela, a criação desses santos constitui-se num desafio, “um querer devolver ao mundo do século XX, já tão pobre de crenças e valores humanos, a beleza contida naquelas imagens feitas por monges escultores”. E começou por Salvador a exposição que, depois de São Paulo, irá para Madrid, Lisboa, Paris e Roma.
A museóloga Valdete Paranhos está concluindo um levantamento iconográfico das 770 peças do acervo e ainda não conseguiu identificar a imagem de um santo negro de olhos azuis trazendo um cetro nas mãos. De seis santos negros que já conseguiu identificar, nenhum tem as características desta peça que, apesar disso, está exposta nas dependências do museu. Segundo ela, a enchente ocorrida em Recife prejudicou um pouco tais obras, mas aqui chegando foi providenciada a sua restauração e imunização.
Um dos trabalhos que sempre atraí a atenção de turistas e do público de maneira geral é um Cristo em tamanho natural feito em madeira, do século XVIII, e que inclusive já foi exposto em Brasília. Da mesma forma é a imagem de São Jerônimo numa miniatura feita em madeira.
Abelardo Rodrigues nasceu em 1908, mas a coleção foi iniciada por seu pai Augusto Rodrigues, que gostava de colecionar coisas raras.
Abelardo viveu no Rio de Janeiro e participou do movimento de renovação da década de 30, tendo convivido com Portinari, Goeldi, Heitor dos Prazeres e Pancetti, já que era pintor, desenhista e trabalhou com arquitetura paisagística.
Mas, na coleção não existe nenhum trabalho seu, pois a maioria é esculturas dos séculos XVI a XIX. Em Recife, ele fundou a Escolinha de Arte, que durante oito anos dirigiu e orientou.

FILME MOSTRA A FORÇA DA GRAVURA FEITA NA BAHIA


A Gravura na Bahia é o filme que será estreado amanhã, às 21 horas, no Teatro Maria Bethânia. O filme localiza a geração de gravadores da década de 60, a mais importante até hoje, nesta área de produção artística na Bahia. Trata-se de um filme documental, de caráter didático, que pretende situar e definir período mais significativo da gravura baiana.
É um filme de 35mm realizado pela Yuna Filmes, firma baiana de produção e distribuição cinematográfica, onde aborda as origens da implantação da gravura moderna na Bahia, destacando o atelier da Escola de Belas Artes da 28 de Setembro, a presença dos mestres responsáveis pelo ensino das diversas técnicas de gravura como: Mário Cravo, Hansen Bahia, Henrique Oswald e Adan Firnekaes.
Segundo Juarez Paraíso, o responsável pelo texto do filme, esse trabalho visa acima de tudo valorizar a gravura como arte maior, uma vez que existe um grande preconceito tanto de desenho como de gravura, por ser feita em papel. Os poucos colecionadores refém que se criou com a pintura feita no preto e branco. Contudo a gravura é um meio de expressão semelhante aos outros. O preconceito também de ser um trabalho reproduzido interfere em grande escala no mercado, mas a noção de original não tem nenhum significado intrínseco do trabalho- esclareceu Juarez- obviamente a gravura deve prevalecer pelo seu conteúdo, apesar de ser muito mais barata do que qualquer obra de arte.
Nesse filme é mostrado poucos artistas conhecidos na Bahia, mas que são de importância fundamental, isto para dar oportunidade e como também valorizar a obra local.
Apontou como os principais geradores da década de 60,a mais importante até hoje, na área de produção artística: Calasans Neto,José Maria, Hélio Oliveira, Sônia Castro, Juarez Paraíso, Leonardo Alencar, Edison da Luz, Gilberto Oliveira, Gley Melo e Edísio Coelho, como os artistas mais destacados , sendo que Renato da Silveira é tido como representante de uma geração de gravadores. A música foi especialmente composta por Tom Tavares e a montagem por José Humberto, a fotografia foi realizada por Rino Marconi8 com a assistência de Alonso Rodrigues. A produção é de Vadoca Melo e a direção e assistência de direção respectivamente de Juarez Paraíso e Humberto Rocha.
O filme é centralizado nas motivações da produção da gravura na Bahia, ressaltando as características da chamada Escola Baiana da Gravura, havendo capítulo especial dedicado`à gravura popular. O filme visa dar ao espectador uma visão concisa da história da gravura, principalmente apresentando os trabalhos mais representativos de suas fases.
O custo da produção ficou em torno de CR$500 mil utilizando todo o pessoal de Salvador, só a parte de finalização foi feita no Rio de Janeiro, porque contribui para o aumento do custo da produção. Revelaram ainda que, não contou com a ajuda de nenhum órgão do governo, o que dificultou muito o trabalho, contudo agradecem a colaboração por parte da proprietária do teatro Maria Bethânia, Gilka Maria, que concedeu o teatro para realização da projeção, como também a Antonio celestino que cedeu todo o acervo para as pesquisas( Sônia Araújo).

EXPOSIÇÃO DE ARISTAS ALEMÃES

Serigrafias a cores do artista alemão Ridiger Utz Kampmann expostas no Icba, na Vitória

Espaços é o nome da exposição que o Icba – Instituo Cultural Brasil Alemanha está apresentando, reunindo doze coleções de 30 folhas, representativas da Arte Gráfica contemporânea na República Federal da Alemanha. A mostra, que se estenderá até 9 de novembro, tem a participação dos artistas Grasel, Otto Hajet, Erwin Heerrich , Rudiger Utz, Dieter Krieg, entre outros. Na apresentação da mostra, o crítico Dieter Honinsch destaca que “ os artistas sempre têm sentido especial fascinação para o problema de representar o espaço sobre uma superfície plana. É longo o caminho percorrido desde o fundo dourado dos quadros da Idade Média... até chegar a converter a tela ou ao papel a simples superfície plana como ponto de partida de toda a reflexão artística”,
Diz que, a partir do momento em que se descobriu uma realidade pictórica autônoma, a arte não podia limitar-se simplesmente à realidade “ mas sim começou , ela mesma, criar condições que haveriam de influenciar diretamente o espectador”. Segundo Dieter, esta exposição não se propõe a definir o espaço , porém, pretendo mostrar quão diferente podem ser a concepção e a representação do espaço por parte  de artistas. Um aspecto, porém, vale, de modo geral, a todos eles: em contraposição a seus esforços do passado no sentido de procurar abrir a superfície do quadro,dando ilusão de uma janela, os artistas de hoje tratam de partir da realidade bidimensional de seu trabalho e definir exatamente sua relação com o espectador”.





ARTISTAS DE JOINVILE NO MUSEU DE ARTE DA BAHIA -13 DE OUTUBRO DE 1980


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  DOMINGO, 13 DE OUTUBRO DE 1980

ARTISTAS DE JOINVILE NO MUSEU DE ARTE DA BAHIA
Edson Machado com o instrumento de tortura do intelectual

Seis artistas de Joinvile estão expondo no Museu de Arte da Bahia e representam várias tendências num confronto onde inexiste unidade. A ideia de trazer novos valores merece aplausos. Uma iniciativa que deve ser imitada pelos dirigentes de nossas instituições culturais, que poderiam levar jovens artistas baianos para exporem suas obras em outras cidades.
Visitando a exposição, no dia de sua abertura, verifiquei que nem todos os expositores tem um trabalho apurado. O Índio Negreiro da Costa, por exemplo, vem expondo desde 1967, já participou de mais de trinta mostras entre individuais e coletivas e o seu desenho, a bico de pena, apresenta uma arquitetura pesada, sem maior criatividade, inclusive com relação ás figuras humanas. Um trabalho clichê que não suportaria uma crítica mais apurada.
Também, o Moacir Moreira (Moa) que procura denunciar através de seus estandartes o aniquilamento da fauna com utilização de cores suaves, fica no nível de um tamanho artesanal sem grande importância plástica.
Edson Busch Machado é conhecido, em Joinvile por seus desenhos, porém, nos apresenta objetos onde sua interferência, ás vezes, inteligente, consegue certa forma atrair a atenção, especialmente pelas máquinas antigas que compõem a sua obra. Na verdade, o que existe de mais significativo em todo o conjunto de obras do Edson é uma máquina antiga onde ele colocou um papel com manchas vermelhas e nas teclas da máquina colou percevejos com as pontas para cima, mostrando a tortura do intelectual. Noutra, trocou a tradicional fita de máquina por outra, verde e amarelo.
Confesso que estas interferências de certa forma estão banalizadas. Mas, valeu pela sua intenção em realizar algo que, para ele, é novidade.
Nilson Delai - preocupado com a luta dos homens e pássaros, trabalhou com ecoline deixando espaços brancos significativos. Em suas composições há algo do fantástico.
Antônio Mir, espanhol, natural de Lorca, pintor, gravador, escultor, atualmente trabalhando com o metal. Sua matéria-prima principal são lâminas metálicas onde ele consegue bons efeitos trabalhando com ácido e seringas etc.Talvez seja o que de melhor esteja exposto no Museu de Arte Moderna da Bahia.
Finalmente, Hamilton Machado, desenhista e gravador que usa a superposição, mas nada de importância.
Eles vieram com a apresentação do crítico Harry Laus que na apresentação do catálogo da exposição afirma que os artistas escolhidos para esta exposição, não pretendem deslumbrar ninguém. São todos jovens (entre 28 e 33 anos) e aceitaram com alegria o convite para divulgar sua cidade, num confronto de tendências aparentemente em luta, mas cada qual dando apoio e consistências umas às outras. O experiente Harry Laus realmente está com plena razão, os jovens artistas de Joinvile não deslumbram ninguém, e, têm muito que realizar para conseguir.

FEIRA LIVRE DE ARTE NA ESCOLA DE BELAS ARTES


Está aberta a Primeira Feira Livre de Arte que agora atenderá a população todas as sextas-feiras no pátio da Escola de Belas Artes. A feira dará oportunidade aos alunos de venderem seus trabalhos a preços acessíveis, possibilitando, por outro lado, uma melhor integração entre o povo e os trabalhos artísticos, abrindo novas perspectivas para os artistas novos e modificando a concepção das artes tradicionalmente de galerias.
Na última sexta-feira, cem alunos estavam inscritos e entre os objetos vendidos constaram quadros, gravuras, litografia, impressão, cerâmica a preços que variaram entre CR$200,00 e CR$8 mil. O estudante Albano de Ávila Moaba, que ajudou a montar a feira, vendeu alguns trabalhos antes da abertura oficial da feira, que considera da maior importância, porque assim os alunos tem oportunidade de divulgar seus trabalhos.
Com um ponto de ônibus funcionando na porta do estabelecimento, a curiosidade é geral e muita gente é atraída com as obras expostas, o que já é um ponto positivo para os alunos que já vêem sucesso para as próximas feiras. Zu Campos, que apesar de ser aluno da EBA, já é profissional tendo realizado dezoito exposições em vários estados brasileiros, diz que trabalha com madeira desde 1966. O primeiro trabalho que vendeu na feira foi para uma professora que pegou CR$2 mil.
A ideia da feira foi das melhores para Zu Campos.
Explica que é difícil se chegar às galerias e que os alunos por imposição do curso fazem diversos trabalhos que se acabam em casa.Somente de uma das técnicas que teve aulas, ele diz que dispõe de trinta trabalhos em casa e que agora terá oportunidade de vendê-los. O evento ainda segundo o entalhador, dá condições a que o público se acostume com as obras que lhe chega às mãos de maneira simples, sobre os mesmos balcões de frutas livres.
A inauguração da feira foi feita pelo diretor da EBA, Herbert Viana de Magalhães, que via tal necessidade como prioritária neste centro artístico, considerado dos mais importantes do país. Pretende que a feira seja incorporada à vida da cidade. Independente da vendagem dos objetos de arte, outras manifestações se evidenciam como a apresentação de um palhaço para as crianças e presença de poetas. Pretendem os estudantes construir um tablado para que artistas possam apresentar trabalhos teatrais. Como por exemplo, valente Júnior aproveitou a feira para vender suas poesias em exemplares que custam CR$50,00.
Antes da inauguração, as bancas forma percorridas pelo vice-reitor José Calasans, da UFBa., Professor Jairo Simões pelo diretor da EBA, representante do prefeito Mário Kertész que além de incentivar a idéia se ofereceram para ajudar no que for possível. Esta feira acontecerá todas as sextas-feiras de 9 às 18 horas e sendo o local considerado dos melhores pelos estudantes (Ângela Barreto).

OBRAS DO V SUAP

Tenho em meu poder as fotos dos trabalhos premiados no V Salão Nacional Universitário de Artes Plásticas, as quais vou publicar por etapas. Hoje, publico a que retrata os três trabalhos premiados de Bel Borba. E deixo o depoimento de Ivo Vellame sobre esta promoção vitoriosa. Vejamos: “Foi o V SNUAP a moldura de ouro do que já foi feito na Bahia em termos de amostragem de uma arte jovem e universitária. O seu grande êxito, que na expressão do João Vicente Salgueiro, diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas, foi maravilhoso e surpreendente, deve-se a muitos, deve-se a uma heróica equipe de trabalho, à grande concorrência por parte de universitários de diversos estados do país, ao alto nível das obras expostas, algo que creditamos à competente e séria comissão julgadora e à divulgação que do V SNUAP foi feita pela imprensa baiana durante muitos meses. Foi igualmente um trabalho sério desenvolvido por muitos na Coordenação Central de Extensão da UFBa., a razão maior para o que aí está- um salão soberbo, rico em premiação e de incontestável alto nível."


ARTISTA ALEMÃO IRONIZA OS DIREITOS HUMANOS - 21 DE SETEMBRO DE 1980.


JORNAL A TARDE, DOMINGO, 21 DE SETEMBRO DE 1980. 

ARTISTA ALEMÃO IRONIZA OS DIREITOS HUMANOS

Convidados pelo institutos Goethe do Brasil para excursionar por várias cidades brasileiras, o artista plástico Benistoph Meckel já expôs os seus trabalhos em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Em Salvador Além da exposição A Declaração Universal dos Direitos Humanos foram promovidos, paralelamente, simpósios, sessões de leitura e encontros, posto que Meckel, também, exerce a atividade de escritor, tendo sido eleito recentemente membro da “Deutsche Akademie fur Sprache und Dichtung”, a Academia de Letras da Alemanha.
Autor de 25 publicações que incluem poesia, prosa, contos e um romance, o “Bockshon”, Meckel, em junho deste ano esteve colocado em primeiro lugar na lista dos dez melhores livros mensalmente selecionados pela Rádio Sudoeste da República Federal Alemã com o livro “Suchbild/uber meinen Vater”.
“Os direitos humanos são aqueles direitos e liberdades inerentes, inalienáveis e invioláveis do indivíduo. O direito natural é a base filosófica do Estado e do Direito. Os direitos humanos são garantidos pelas mais modernas constituições como direitos básicos, como por exemplo na República Federal da Alemanha, através do Art. 1 da Constituição. Um dos objetivos das Nações Unidas é a proteção dos direitos humanos, proclamados e adotados pela Assembléia Geral da Nações Unidas a 1.º de dezembro de 1948. Depois de tão histórica medida, a Assembléia solicitou, a todos os países membros, que publicassem o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e é a partir destas fundamentações que Meckel apresenta suas 31 gravuras, todas carregadas de um tratamento irônico a que a própria realidade factual conduz.
Dentro do contexto de engajamento social do artista e escritor, os temas como “a opressão da mulher pelo homem, o descaso do poder estatal pela liberdade e dignidade humanas, bem como os abusos cometidos contra a garantia de propriedade distorcida pelo capitalismo”, são parte de sua crítica.
No MAMB, dia 12 passado, Meckel realizou uma palestra para os baianos, sobre suas experiências tanto como artista plástico quanto como escritor, com apresentação de slides.

CINCO ARTISTAS MOSTRARAM A MODERNA ARTE DO CHILE

Tela de Franulic,conhecido
pintor chileno,integrou
a mostra
Em comemoração à data da independência do Chile, a Galeria Portal, numa iniciativa inédita, prestou sua homenagem a esta nação irmã, de um passado histórico dedicado às artes, promovendo, ao lado do Consulado do Chile, de 10 a 17 de setembro passados, a Semana da Arte Chilena, que reuniu cinco pintores chilenos de tendências variadas: Ali Argandoña, Alejandro Goycoolea, Flor Maria Kecher, Franulic, e Floreal Arias.
A arte no Chile tem sua origem já no período colonial, isto é, nos meados do século XVI. Os jesuítas, incansáveis colonizadores, estabeleceram imensos ateliês em todas as suas missões, nas quais obras religiosas eram recriadas no novo espírito barroco americano. Além disso, havia, também, desde os primórdios da vida urbana,guildas patrocinadas pelos conselhos municipais, obedecendo à tradição medieval. A academia de San Luís foi fundada em 1797 e, com a abertura das fronteiras americanas, no início do século XIX, foram para o Chile numerosos contingentes de artistas estrangeiras adeptos do movimento romântico, os quais influenciaram grandemente o mundo artístico. O interesse da classe dominante favoreceu o estabelecimento da Academia de Belas-Artes. Mais tarde, foi criada, paralelamente a Academia de Escultura, tendo ambas sido incorporadas à Faculdade de Belas –Artes da Universidade do Chile.
As exposições nacionais realizadas bienalmente, bem como as mostras do Congresso de Santiago, em que o termo “escola chilena” foi usada pela primeira vez, muito incentivaram as artes. O Salão Nacional considerado o certame oficial mais antigo das Américas, teve sua origem naquelas exposições. Os dois grupos mais representativos dos artistas no país são a Sociedade de Belas Artes e a Associação Chilena de Pintores e Escultores. A criação da Escola da Escola de Belas-Artes da Universidade do Chile e o estabelecimento do Prêmio  Nacional de Arte, além do Prêmio Honorifíco do Salão Nacional, que já se fez tradição, foram os eventos mais importantes e que maior influencia exerceram sobre a arte chilena neste século.

OS ARTISTAS

Alejandro Goycootea - Se inspira na figura humana, aliando a ela traços abstracionistas que proporcionam à obra em todo marcante e expressivo. Há quatro anos no Brasil, é formado em Arquitetura e Urbanismo e cursou a Faculdade de Belas-Artes da Universidade Católica do Chile.
Seus quadros revelam a figura humana segmentada pelo fundo arquitetônico de sua tendência. No início da carreira, sofreu a influência do professor Mário Toral, da Faculdade do Chile. Hoje, já liberto, utiliza técnicas variadas como o óleo, pastel, o grafite e tinta acrílica. Transpondo à tela a sua transfiguração do real, através do sonho, do abstrato de seus nus, na sua subjetiva visão pessoal.

Flor Marla Kocher- Gravadora, desenhista e pintora, radicada no Brasil há vários anos, estudou na Escola de Belas Artes do Chile, em seguida, desejando pesquisar e conhecer novos tipos e costumes, viajou pela Bolívia, Peru, Uruguai, Argentina e finalmente, Brasil, Sua integração no meio artístico brasileiro se deu quando frequentou a escola Panamericana de Artes, onde conheceu alguns artistas que a ajudaram a desenvolver seu relacionamento. Perez Sola fala de sua obra: “A obra gráfica de Flor Maria, aparentemente simples, mas mística e profunda, nos traz um suave sopro dos Andes. Escolhe uma das técnicas mais difíceis na qual já se fez muito, e há tanto por se fazer. Há tempo acompanha sua luta em transformar um pedaço de metal ou madeira em sua mensagem sensível, real mas profundamente latino-americana para oferecer-nos hoje o início do seu canto em forma de gravura”.

Ali Argandonã- Ao ser chamada de abstracionista ou cubista por alguns críticos, diz que prefere não ser rotulada por nenhuma escola ou tendência-“Minha arte é livre, pinto o que me fala à alma, como a transparência das cores, o reflexo do sol, as cores límpidas dos mares” Participou de inúmeras exposições do Chile, Rio de Janeiro e São Paulo. Radicada no Brasil há três anos, teve como grande incentivadora a Sra. Habuba Farah Ricetti, que é membro do Comitê Brasil da Unesco e com quem estudou a teoria da cor e estética da arte, durante um ano.

Floreal Arias - As cenas do cotidiano de sua gente, de seu povo, são a inspiração deste artista chileno, que traz em sua obra o traço acadêmico e neo-clássico. Preocupado com o modo de vida dos mais carentes, retrata com fidelidade os aspectos e momentos de um povo simples e sofrido. Realizou várias exposições pela América Latina, fixando-se no Brasil há vários anos. De inspiração folclórica, seus quadros mostram um figurativo com registros da realidade de sua concepção de vida.

Franulic- Radicado no Brasil há muitos anos, participou de inúmeras exposições pelo Brasil e pelo mundo. Pintor e escultor de renome mundial, abandonou a figura, deixou de lado a pintura figurativa, descritiva e narrativa, optando por formas cosmológicas em que surge uma nítida procura de linguagem artística, um diálogo com as formas e as cores, cujo ponto final não é um impasse de criação, mas ao contrário, uma colocação direta do que quer dizer. Franulic é liberto de modismos e escolas, procura, isto sim, interrogar as formas e as idéias que estão acumuladas em sua memória. E tanto as idéias particulares como as universais acabam por materializa-se em obras de arte.

250 ANOS DE ALEIJADINHO

O governo de Minas decidiu ignorar as dúvidas históricas sobre o ano de nascimento de Aleijadinho e declarou através do decreto, “o período de 29 de agosto de 1980 a 29 de agosto de 1981 o ano de Antônio Francisco Lisboa”, durante o qual promoverá eventos comemorativos dos 250 anos de nascimento do escultor.
O decreto estabelece que as comemorações serão realizadas em Ouro Preto, onde Aleijadinho nasceu e foi enterrado, Mariana e Congonhas do Campo, cidade em que está o mais volumoso acervo escultórico do artista mineiro. As comemorações serão programadas e promovidas por uma comissão especial, composta pela coordenadoria de cultura.
Uma diferença de oito anos separa as duas versões sobre o ano de nascimento de Aleijadinho, no dia 29 de agosto, no Bairro Bom Sucesso, da antiga Vila Rica. Ao decidir comemorar agora os 250 anos de nascimento do artista, o governo de Minas preferiu a versão de uma certidão de idade, encontrada pelo deputado e professor Rodrigo José Ferreira Bretãs, na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Por este documento, Aleijadinho nasceu em 1730, mas sua autenticidade é colocada em dúvida, por registrar Manuel Francisco da Costa como pai do artista em vez do arquiteto Manuel Francisco Lisboa.

OS CABOCLOS DE BELY

Depois dos nus que embelezam as paredes de vários colecionadores, a artista francesa Bely está pintando baseada numa temática ligada a nossas origens. Agora, Bely aaba de concluir um quadro com 1,50 metro quadrado que enfeita entrada principal do Hotel Marazul, que foi inaugurado esta semana na Barra. Bely está fascinada, com o modo de viver dos baianos e a integração existente entre todas as raças. Neste seu novo trabalho ela pintou as figuras gordas e descansadas de alguns negros e negras, que prefere chamar de caboclos, com suas cestas de cajus e flores.

PINACOTECA PAULISTA É DESTAQUE COM EXPOSIÇÃO TODOS OS MESES DO ANO
Caminho da Festa, obra de José Antônio da Silva

Todos os meses a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo promove a exposição de peças de sua pinacoteca e sempre destaca uma artista a cada mês. Nos três últimos, foram escolhidos Sérgio Milliet (julho) Enrico Vio (agosto) e neste mês corrente, José Antônio da Silva. De Sérgio Milliet que nasceu em São Paulo em 1898 e morreu em 1966,foi mostrada uma tela Paisagem de São Vicente, que retrata os arredores de São Paulo. Sabemos que, as cidades praianas e os arredores foram um dos mais cultivados temas dos pintores paulistas dos anos 30 e 40. Como "pintor de domingo” que Milliet deixa transparecer nesta tela a falta de conclusão. Formado em Ciências Econômicas e Sociais em Genebra, Suíça e integrou o Movimento de 22. Foi crítico literário e de arte, ensaísta, poeta e tradutor.
Enquanto o Enrico Vio nasceu em Veneza, na Itália em 18774 e morreu em 1960 em São Paulo. Dele foi exposta Velhice Tranqüila, tema que nos reporta à temática similar, corrente no século XVII, na Holanda.
Contudo, Vio tratou o tema com expressividade em pinceladas mais amplas, além de valorizar os elementos pela luminosidade.
José Antônio da Silva ou simplesmente Silva é um dos bons primitivos e sua tela Caminho da Festa nos apresenta o cavalo a passo largo, a picada na mata, o bicho entre os arbustos, o passarinho pousado na árvore ao lado do ninho, o urubu à espreita, extenso matagal e o sol ao alto.
Como disse Rubem Braga, Silva conhece a fundo “os milagres simples da composição e com um notável “senso de cores”.
Deixando de lado sua origem no trabalho rural ele fixou-se em 1946, em São José do Rio Preto, em São Paulo, dedicando-se à pintura como autodidata, foi descoberto numa exposição de artistas locais, pelos críticos Paulo Mendes de Almeida e Lourival Gomes Machado, participou da I Bienal de 1951.
Recebeu um prêmio pelo Museu Arte Moderna de Nova Iorque; da II Bienal Hispano-Americana de Havana, em 1954, e as bienais de Veneza de 1952 e 1966. Foi editado um livro sobre sua obra, com textos de Theon Spanudis, em 1977. O curioso é que Silva é autor de romances também ingênuos, quanto a sua pintura.
 











ARLINDO GOMES UM ESCULTOR QUE ENRIQUECE A NATUREZA - 24 DE NOVEMBRO DE 1980

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  24 DE NOVEMBRO DE 1980

ARLINDO GOMES UM ESCULTOR QUE ENRIQUECE
 A NATUREZA
Esculturas de Arlindo feitas em madeira.
O ato de pesquisar a natureza já soma pontos. Enquanto milhões de pessoas vivem sentadas nos assentos de velozes carros pelas grandes metrópoles, outros, poucos, buscam um contato maior com a natureza. Procuram encontrar a descobrir a beleza que existe nos mares, nas florestas e nos campos. Vivem melhor, embora aparentemente não, porque não dispõem dos sofisticados aparelhos domésticos e não manejam computadores. Arlindo é uma dessas pessoas pacientes e observadoras. Dos troncos inertes que encontra nas florestas e nos campos ele faz vibrar a sua criatividade. Os galhos mortos renascem, ganham vida e força. Parecem renascer para a eternidade talhados com maestria e ganha até uma aparência de humano, encobertos por uma pele lisa e brilhante. Tudo nos faz crer que renascidos poderão assistir a vitória do artista.
Calado e recolhido em seu atelier num edifício no corredor da Vitória, o qual despeja suas janelas e portas para a Baía de Todos os Santos ele vive e recria o seu mundo de galhos e troncos retorcidos ou lisos. Humilde e bom. Um homem que merece  uma atenção maior de todos aqueles que gostam e militam no mercado de arte.
Sua exposição está na Galeria Cavalete, no Clube Baiano de Tênis até o próximo três de dezembro.

                                                       DOIS ESCULTORES

Seus colegas Mário Cravo e Antônio Rebouças, também mestre na arte de talhar o ferro, o bronze ou a madeira escreveram algumas palavras sobre a obra de Arlindo Gomes as quais publico agora:
                          
                             MÁRIO CRAVO
Existem pretendentes inúmeros à escultura, diríamos mesmo ao talhe-direto, porém poucos conseguem o colóquio com o material eleito.
Progressivamente tomo consciência de que poucos comportamentos de base definem a vocação do artista.
Sem um obsessivo relacionamento com a madeira, o escultor entalhador, não alcançará o envolvimento com a matéria, e sem este, dificilmente poderá surgir experiências sensoriais de maiores sutilezas.
Se as mãos não se tornarem raízes, estas não serão redivivas, se do toque do profundo amor não surgirem as “novas árvores”, por certo pouca vida transmitirão.
Do suor, da carícia, do “calo do amor” físico e espiritual nasce a aura, a atmosfera da permanência e a vibração do ato criador.
Arlindo Gomes trata as raízes com o toque mágico do perfeito amante, a dose de carinho com curvas e fibras, cortes de envolvimento para evidenciar ritmos, domínio das superfícies do lenho que readiquirem peles acetinadas, brilhantes e opacas.
Da lição de dedicação coadunada com a permanência, brota magnífica lição do ofício e é com respeito que parabenizo Arlindo, pelo gesto de sua contribuição humilde e profundamente concisa, autodidata e exemplarmente universal."

ANTÔNIO REBOUÇAS

“Não será inexata a classificação que estabelecer para o aprendizado de Arte, 4 categorias distintas:
A primeira, abrangendo os primitivos e ingênuos onde a arte participa de uma matriz atávica chegando a sugerir uma formação orgânica integrante do próprio artista.
A segunda, a dos artistas considerados autodidatas, aqueles que são os mestres de si mesmos.
A terceira, a dos artistas escolarizados, aqueles que, tudo que sabem, foi apreendido através das professoras de Arte!!!
A quarta aqueles que se fizeram artistas, aprendendo arte com a natureza e neste caso está Arlindo, procurando salvar na praia deserta ou na floresta esquartejada pelo homem, aquele tronco no seu último suspiro.
Ele faz, com a mesma emoção da criança e separa a sua boneca preferida, para brincar com os seus amigos, e acrescenta aqui e ali, e às vezes em tudo, o mistério da sua sensibilidade de artista, e assim, Arlindo, irmanado com os segredos da vida se fez escultor! Provando ser verdadeira a tese que sustenta, ser o artista, antes de tudo, um ser bom. Sobre o mérito de cada trabalho tem o espectador o seu direito amplo de opinar."

                   ALBERY E SEU VÔO CEGO NA MIRA DA LIBERDADE

Vinte e cinco telas em óleo, sete desenhos, algumas cerâmicas e um só tema ligando todos eles: o vôo livre. Essa é a exposição que Albery inaugurou, na Realidade Galeria de Arte, Rio de Janeiro. A sensação de liberdade, essencial ao processo criativo, o visual extremamente belo que o voar oferece são as explicações -se é que se pode explicar para a homenagem ás asas, que o artista plástico rende nesta sua 9ª Exposição no Brasil desde que voltou de Paris, em 1978.
O Céu Sem Limites, nome escolhido para a mostra, além da não limitação espacial sugerida, abrange também a não limitação a um único estilo ou técnica, apesar de serem todas as peças do mesmo autor e do voo estar presente, de alguma forma, em sua totalidade. Não é bem a inspiração através do espaço amplo que o voo dá, é um estado de espírito favorável a descoberta de elementos que fazem parte da própria criatividade.
Conseguir sobreviver no Brasil como artista plástico é sabidamente difícil. Viver bem com o produto da arte, mais difícil ainda Albery sobrevive e vive muito bem, seu nome é conhecido nacional e internacionalmente. Não nega que tenha galgado posições difíceis, em termos artísticos, no Brasil. Mas também não esconde as muitas dificuldades iniciais, nem camufla sua história com lances de sortes e acasos. “Foi tudo muito batalhado mesmo ", conta o artista, que ficou famoso por retratar com um estilo muito próprio, os cabelos em formas de medusas, serpentes e arabescos, as mulheres, principalmente da alta sociedade.

                                   GRANDE DESCOBERTA ARTÍSTICA EM MILÃO

Foi o próprio Leonardo da Vinci quem pintou uma cópia da sua famosa obra A Virgem da Rochas segundo afirmou o professor de Latin e Grego, Grazioso Sironi e um jovem estudante chamado Arnaldo Ganda.
Encontraram-se sinais de que Leonardo trabalhou não só sobre a versão original da citada obra, mas que também de vez em quando, ela era levada para outro lugar onde Leonardo e os seus colaboradores realizavam uma réplica.
Existem duas versões de A Virgem das Rochas de Leonardo, uma no Museu do Louvre de Paris e a outra na Galeria Nacional de Londres. Procedem da Igreja de São Francisco de Milão ( a maior dessa cidade depois do Duomo, catedral).
Encontraram no arquivo histórico de Milão, documentos datados de 18 de agosto de 1508 que provam que a confraternidade da conceição (encarregado do pagamento da obra) autorizava o seu translado da sede até uma câmara do convento ou uma capela, por um período de quatro meses para facilitar o trabalho de Leonardo e do seu grupo.
O trabalho realizava-se sob as ordens de Leonardo e tinha como objetivo ser vendido. O lucro foi de 820 liras imperiais mas não se pagou a recompensa suplementar que havia sido perdida, mas sem uma quantia menor.

                                              A ROUPA DO POLÍTICO

Uma cena comum num palácio qualquer, em qualquer lugar. São velhos e moços que chegam do interior do estado para avistarem-se com o chefe. Para melhorar a aparência arranjam de véspera alguma roupa: paletó e gravata. Rumam para o palácio e lá recebem os últimos retoques dos amigos.
O paletó geralmente é maior, a camisa e a gravata não combinam com a roupa, mas não importa. Acham que estão bem e cruzam garbosamente as salas e salões do palácio para falar com o chefe, trazendo ao peito a segurança que serão bem recebidos, porque votos não lhe faltam. Alceu Tamer, fotógrafo arguto flagrou estes dois políticos ajeitando-se minutos antes do encontro “histórico”. Uma cena comum para muitos palacianos, porém gloriosa, para os tabaréus. No alto, um homem petrificado com suas vestes impecáveis assiste o desenrolar desta cena engraçada e patética. É preciso cuidar da aparência, mas principalmente do espírito, da consciência e enxergar adiante. Muitas vezes o chefe não está com a razão e esconde seu poder coisas que é preciso saber.
Mas, ao tabaréu não interessa nada disto a fórmula de sua vida acostumada com a seca tenaz, com a chuva que provoca também seus estragos, reza e clama por Deus. Acredita também em inverdades ditas com empostação. A verdade é para ele quase cega, provinda de um bilhete para uma autoridade inferior ou de uma ordem a ser cumprida no interior. Saído dos lugarejos empoeirados, só pode coitado ficar envaidecido com os pisos brilhantes e escorregadios dos palácios...