Translate

terça-feira, 5 de abril de 2022

O LEGADO DE GENARO REVELADO EM "TECENDO MEMÓRIAS"

Foto 1. O Encontro . Foto 2. Nair no papel de musa
inspiradora. Foto 3.O casal na casa do
Campo Grande
 "Criar é, sobretudo não morrer", esta frase do grande artista baiano, nascido em Salvador, Genaro de Carvalho, nos chama a criar, realizar, fazer enquanto vivemos. É um chamamento que nos convoca a participar. Fico feliz quando vejo sua companheira por décadas Nair de Carvalho lutando como uma leoa para preservar a autenticidade de toda obra que Genaro construiu em vida. São suas tapeçarias, suas pinturas, suas ilustrações e tudo que ele criou. Nair quer reunir em dois livros, como se fossem "livros tombos", disse ela com entusiasmo. Um levantamento feito por quem participou e testemunhou. Portanto, uma fonte primária de alto valor. Não lhe contaram, não lhe disseram foi ela própria que viu, que acompanhou grande parte da trajetória vitoriosa de Genaro de Carvalho, enquanto criava suas obras de grande valor artístico, cultural e econômico. Ela lamenta  a destruição de vários murais .
Aqui farei também um recorte das memórias que Nair de Carvalho ouviu e registrou de sua sogra d. Celina Carvalho, de outros parentes e dos amigos mais íntimos relatando os primeiros anos do artista. Foram relatos de terceiros até o momento que o conheceu em 1955. A partir daí as experiências foram compartilhadas entre Genaro de Carvalho  e Nair até 1971, quando ele faleceu precocemente aos 44 anos de idade.
Os primeiros desenhos de Genaro .

Nair de Carvalho com sua generosidade me enviou o primeiro volume que ela classificou como uma espécie de "livro tombo", e tem o título de "Tecendo Memórias, e é dele que vou falar. Ao abrir o livro nas primeiras páginas temos uma foto em plena juventude do casal celebrando o primeiro encontro em 1955, que resultou em anos de convivência. Ela mesma escreveu: "Deste encontro nasceu também um projeto de vida, de amor, de cumplicidade, de arte. Víamos a quatro olhos. Genaro, o mestre, o mago, de quem eu sabia e queria ser a inspiração".

Genaro escolhendo as obras para uma
exposição, em 1945
.
Espero que Nair de Carvalho sirva de exemplo para que os descendentes e herdeiros do legado de outros artistas baianos dos movimentos acadêmico e modernista tenham o mesmo cuidado e a mesma dedicação em zelar pelo que eles deixaram de contribuição para a arte baiana e brasileira.
Sei que o mercado de arte andou capengando nestes últimos anos. Mas, à medida que a sociedade se desenvolve e se fortalece economicamente a tendência é que este mercado comece a pulsar com mais força. As pessoas vão adquirir obras de arte para colocar nas paredes de suas casas e apartamentos. A presença de uma obra de arte numa casa é uma dádiva, porque quem a observa certamente a reage de alguma forma.  Uns mostrando certo conhecimento, pertencimento, e outros vão dar opiniões às vezes fora dos padrões estéticos, mas também importantes. Por que importantes? Porque a obra de arte mexeu com sua
"Pássaro e dois girassóis", uma bela tapeçaria,
de 1968
.
sensibilidade, mesmo que esse indivíduo não disponha de conhecimento e intimidade com a arte. Lembro ter ouvido de uma senhora que trabalhou em minha casa depois de observar as obras que tenho nas paredes, ao conversar com o caseiro comentou: "Este homem deve ser doido! Para que ele quer tantos quadros nas paredes?". Portanto, as obras de arte mexeram com ela. E depois deste dia, eu mesmo a presenciei na sala  em silêncio olhando os quadros.

Sabe-se que estão aparecendo depois do ressurgimento do mercado de arte muitas obras falsas de artistas baianos e até de outras praças, principalmente obras que têm facilidade de serem reproduzidas através de gráficas, usando copiadoras de alta resolução. Já vimos casos até de discussão de autoria de obra de arte terminar na Justiça. O pior é que a falsificação é grosseira e ganhou a "boca do povo”, como se diz numa conversa informal. 

Mural do Hotel da Bahia, em 1952.

Atenta a este momento a artista Nair de Carvalho está garimpando as obras de Genaro de Carvalho para reunir nesses dois "livros tombos." Ao falar comigo ao telefone ela disse que "este segundo volume será um livro duro, com muitas reproduções das obras de Genaro de Carvalho, para que as pessoas saibam que essas são as obras verdadeiras criadas por ele. Tenho visto muitas obras falsas atribuídas a Genaro sendo comercializadas em galerias e leilões. Fico indignada com isto". 
Neste seu primeiro volume no "Tecendo Memórias" ela reproduz inúmeras obras de Genaro feitas desde os anos 30 até 1968, e trás ainda textos de críticos de arte da época em que Genaro de Carvalho viveu e produziu sua arte de grande valor estético.

                                                              OS PRIMEIROS PASSOS

A casa  onde o conheci
trabalhando
.
Conta Nair que o Genaro Antônio Dantas de Carvalho, nasceu no dia 10 de novembro de 1926, na Rua da Gamboa de Cima, em Salvador. Quando ele fez seus primeiros trabalhos assinava Antônio, e que ela o aconselhou a mudar para Genaro. Assinava Antônio porque seu pai era um admirador do arquiteto catalão Antoni Gaudí. Nair relata toda a trajetória de sua infância e o período escolar. Conta que em 1944 vai estudar no Rio de Janeiro, no bairro de Belfort Roxo, depois mudou para a Rua Voluntários da Pátria. Foi estudar no Colégio Andrews e Desenho, com Henrique Campos Cavalheiro, pintor, desenhista, caricaturista,

ilustrador e professor, na Sociedade Brasileira de Belas Artes". Durante à noite trabalhava no jornal O Globo redesenhando vinhetas de H.Q. de Pafúncio, D. Marocas e outros. Em 1938, a família, mudou-se para uma nova casa na Praça do Campo Grande, nº 3, e aos 23 anos de idade recebe o convite do governador Octávio Mangabeira para realizar o que consideravam na época "o maior mural das Américas", no então Hotel da Bahia. O mural foi inspirado em temas baianos, e utilizou a técnica de afresco seco. Levou um ano e meio para concluir. Nesta época estava estudando na Escola de Belas A|rtes de Paris, quando o governador fez o convite para decorar o Hotel da Bahia que estava em construção. Infelizmente as belas plantas que ele pintou no mezanino do hotel foram apagadas .
Conheci o Genaro de Carvalho num domingo pela manhã quando em companhia de um amigo carioca resolvemos dar uma caminhada para lhe mostrar de perto a Cidade. Passeamos pelo Campo Grande, mostrei-lhe o Teatro Castro Alves, o Hotel da Bahia, falei que ali tinha um lindo mural feito pelo Genaro de Carvalho. Até aquele momento não sabia que ele residia ali próximo. Ao atravessar a rua para ir até o Passeio Público nos deparamos com uma casa aberta, parecendo uma galeria de arte, com muitos pequenos quadros emoldurados na parede. 

"Casario, óleo sobre madeira,
 de 1940
.
Sendo jornalista curioso e amante da arte fui conferir o que  era. Para minha surpresa lá estava o artista Genaro de Carvalho sentado com um vegetal nas mãos e um estilete cortando para pesquisar as suas entranhas, e certamente usar numa futura obra. Apreciamos as pequenas obras, que depois soube que eram os cartuns que ele fazia como modelos para serem transformados em tapetes. Foi muito gentil, trocamos algumas frases e fomos embora. Não lembro exatamente o ano exato , mas  foi na década de 60. 

Em 1954, o tapeceiro francês Jean Lurçat viu seu mural no Hotel da Bahia e desejou conhecer o autor da obra. Lurçat é considerado o renovador da arte da Tapeçaria Mural, e o convida para seu discípulo na cidade de Saint Ceré, na França. Diz Nair de Carvalho que o francês "se surpreendeu a constatar que Genaro já tinha feito muita coisa em tapeçaria."

                                                   CUMPLICIDADE

Porém, ao chegar o ano de 1955 Nair de Carvalho se transforma "em musa, mulher, companheira e cúmplice na vida e no amor". No ano seguinte realiza uma série "Igrejas Barrocas", para o sr. Henrique Adler, dono da fábrica de brinquedos Estrela, que mantinha uma galeria na empresa, com uma coleção de obras de artistas brasileiros. Em 1968 Nair o convenceu que suas formas já não tinham aquele vigor da juventude e que não queria mais posar nua. Mesmo assim ele continuou pintando a série "de Memória". Passou a desenhar e pintar girassóis e depois vieram novos modelos vivos. 

Desta data em diante Genaro e Nair  eram presenças constantes nos eventos sociais e culturais que se realizavam em Salvador e até mesmo em outras capitais. Era um casal colunável, como se dizia no jargão jornalista. Nesta época a sociedade baiana costumava promover encontros e festas memoráveis privês que eram registradas nas colunas sociais principalmente na de July, no jornal A Tarde. E sempre o casal Genaro e Nair da Carvalho era presença nas páginas dos jornais. 

                                                MORTE PRECOCE 

A última foto.
Em maio de 1970 Genaro de Carvalho foi internado na Clínica São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro por duas vezes portador que era de um aneurisma impossível de ser operado. Atualmente é quase uma operação corriqueira. Voltou para Salvador e aqui passou por outros tratamentos. Foi proibido de usar qualquer material que exalasse cheiro, passando a fazer diversos desenhos a lápis para as séries "Nus Femininos”, "Frutos" e "Flores". Abandonou suas idas para à Praça Municipal onde gostava de assistir ao pôr do Sol, sentado numa das cadeiras da Cubana onde tomava um "frapê" de coco e comia um bolinho da casa.  Não pintava mais  e fez suas últimas exposições em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, onde sentiu-se mal, e se recusou a ser internado outra vez. 
No sábado do dia 2 de julho de 1971, por volta das 10 horas da manhã, entrou em coma até dar seu   último suspiro.
 Portanto, este projeto de Nair de Carvalho é uma justa homenagem a este grande artista, que mesmo tendo falecido precocemente deixou uma obra memorável para ser apreciada e enaltecida pelas futuras gerações. O primeiro volume do " livro tombo" idealizado e narrado por Nair de Carvalho é rico em  detalhes interessantes e de muitas informações repletas de emoções. Ela mostra toda a trajetória do artista, seus amigos, suas inúmeras exposições aqui e fora do país, as pessoas importantes que se encantaram com o sua obra. Além de dezenas de reproduções cobrindo desde os primeiros desenhos até os últimos trabalhos, quando já estava debilitado. Vale a pena ler.

 

sábado, 2 de abril de 2022

A OBRA VIBRANTE E ECLÉTICA DE MÁRCIA MAGNO

Márcia na solenidade de entronização
do busto de Nelson Mandela feito por ela
em agosto de 1991.
A artista Márcia Magno tem uma capacidade de transitar em alguns dos principais segmentos das artes plásticas. Ela é gravadora, pintora e escultora. Atualmente é uma das mais requisitadas artistas na Bahia para fazer esculturas, bustos e baixos relevos de personalidades. Suas obras escultóricas estão se multiplicando a cada dia. Esta sua versatilidade vai nos mostrando a extensão do seu talento nato e sua capacidade de expressão que nos toca de perto. Lembro do colorido e das tramas de suas pipas, quando fez a sua exposição na Capela do Solar do Unhão. Recordo de suas pinturas geométricas centradas nos cubos, e mais recentemente nos apresenta esculturas que estão sendo colocadas em espaços públicos e privados  cumprindo vários papéis: o da homenagem às personalidades e também a oportunidade das pessoas apreciarem com mais liberdade. Oportunidade não só de ver  a obra de arte,  mas também de tocar  e até de fazer uma foto de recordação junto a uma dessas esculturas instaladas nesses espaços. Márcia é baiana de Salvador e foi batizada como Márcia de Azevedo Magno Baptista, filha de Edith Mendes de Aguiar Azevedo e Renato Olímpio Goes de Azevedo.

Esta é a série das primeiras gravuras
 da artista
.
As gravuras de Márcia nos revelam uma forte ligação com o afetivo, o suave e com sua personalidade artística marcante e identitária.  São formas geométricas habilmente construídas com uma transparência de cores refletidas num concretismo de objetos e formas destinados a um espaço natural. A combinação dos círculos e dos triângulos superpostos  resultam em formas quase naturais sugerindo uma beleza de emoção e sentimento do externo feminino, em contraste com a ordem, a elaboração das faixas de linhas retas  perfeitas e literalmente belas. 

A transparência das gravuras de Márcia têm um valor relevante, pela plasticidade implícita e pelo dimensionamento do espaço. A polivalência espacial e os acordes cromáticos tornam-se mais harmônicos pelas concordâncias de luminosidade e cromatismo. São persistentes e sugestivas impressões superpostas, a procura consciente e sensível de novos efeitos visuais.
Suas pipas ganham os céus de Salvador, as galerias e as casas das pessoas que as adquirem. Lembramos que as pipas são brincadeiras de garotos pobres que habitam os bairros populares da maioria das cidades brasileiras. Elas dançam nos espaços sob o comando de verdadeiros malabaristas. São meninos vivos, alegres e brincalhões que fazem os seus pegas onde as únicas vítimas são alguns metros de linha  e as arraias que se desprendem das mãos dos vencidos. Uma batalha portanto, onde vence  o mais hábil e aquele que tem uma linha melhor temperada. Foi exatamente dentro deste universo tão comum e belo, que a artista Márcia Magno foi encontrar o suporte que considerou adequado para realizar sua obra. 
Série onde a artista usou o computador
como ferramenta. 
Boa observadora encontrou ainda nas pipas os desenhos feitos sem 
muita pretensão por àqueles garotos humildes.
Procurou melhorar a geometria com o que aprendera na Escola de Belas Artes da Bahia e o chamamento do social que viveu na Faculdade Nacional de Filosofia, e na Escola Nacional de Belas Artes, ambas no Rio de Janeiro, foram suficientes para lhes dar o  conteúdo necessário e conceber uma obra interessante e acima de tudo vibrante. Suas gravuras ganharam força de expressividade  e logo depois foi uma das poucas selecionadas para participar do Salão Carioca  de Belas Artes , onde expôs  na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1980. Foi aluna e conviveu com importantes próceres da arte  e da intelectualidade carioca como Mário Barata, Eduardo Portela, Moema Toscano, Geraldo Edson de Andrade. Antes de vir para Salvador ainda morou uma temporada nos Estados Unidos e lá frequentou ateliers de artistas, sempre procurando aprender e desenvolver o seu talento.
Este belo mural está na instalado na Faculdade
 de Educação da UFBA.
Ela fez alguns murais importantes em Salvador sendo que três deles estão em locais frequentados por estudantes e professores. O que realizou como trabalho do seu Mestrado chamado Alquimia está na Faculdade de Química; um segundo na Faculdade de Educação e o terceiro no Pavilhão de Aulas da UFBA. Foi professora das disciplinas de Arte Mural, Xilogravura, Modelagem e Desenho, e diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia de 1988 a 1992. Neste período implantou e coordenou dos cursos de Desenho Industrial ( Design Gráfico) e o Curso Superior de Decoração (Design de Interiores), além de implantar o Mestrado de Artes. Coordenou a Galeria Cañizares onde realizou importantes exposições. Foi nesta época que promoveu como curadora as exposições Mulheres em Movimento I e II, mostrando a atuação das mulheres da Escola de Belas Artes  desde a sua fundação.  Promoveu ainda a primeira exposição sobre Arte Digital na Bahia chamada de Arte em Computação - Belas Artes Computer Grafics, em 1992.
A estátua de Zumbi no
 Terreiro de Jesus.
Atualmente, tem se dedicado a realizar esculturas, bustos e baixo relevos de personalidades baianas. Muitos dessas obras  estão nas ruas da Cidade como  os busto  de Dorival Caymmi, no final de linha de Itapoã; de Mãe Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, que está na Lagoa do Abaeté; de um dos fundadores do Ilê Ayê, o Apolônio, mais conhecido por Popó , que fica na sede da entidade no bairro do Curuzu;  O busto  de Nelson Mandela, Presidente da África do Sul; de Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá , além de baixos relevos do professor Thales de Azevedo, do construtor Norberto Odebrecht e  do jornalista Jorge Calmon. Fez ainda as estátuas de Zumbi dos Palmares, que está no Terreiro de Jesus; a do escritor  João Ubaldo Ribeiro, na praça Nossa Senhora da Luz, na Pituba , e a do professor Humberto Castro Lima, na reitoria da Fundação Baiana de Medicina, em Brotas. 
Agora está ultimando o busto   do geógrafo baiano Milton Santos, que foi homenageado recentemente com o nome da antiga Avenida Ademar de Barros, no bairro de Ondina, que passou a ser chamada de
Márcia e a filha Paula Magno com
a estátua de João Ubaldo Ribeiro.

Avenida Milton Santos. Este busto que está realizando será entronizado na avenida que recebeu o seu nome.  Certamente, muitas outras virão a ocupar outros espaços sob o buril desta artista  que nos encanta com suas formas, suas cores e muita criatividade. A cada escultura concluída vem aprimorando a sua técnica. 
Márcia Magno iniciou sua carreira artística no Rio de Janeiro onde frequentou a Escola Normal de Belas Artes e o Curso de Artes Decorativas. Ela me relatou que já estava ambientada com o movimento de artes do Rio de Janeiro e que tinha muitos contatos com artistas, críticos de artes e galeristas. Ao chegar a Salvador passou um tempinho até se adaptar e atualmente está completamente integrada . Ela ingressou na  Escola de Belas Artes onde se graduou e depois foi professora assistente e titular . No ano de  1988 foi nomeada Diretora. Foi durante sua gestão que foram criados os cursos de Desenho Industrial e o Curso Superior de Decoração, e o Mestrado em Artes.  Ensinou alguns anos nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia , que sempre foi um espaço importante para o aprendizado para muitos jovens e artistas iniciantes que frequentam as oficinas em busca de aprimoramento. Também já foi membro de vários júris de artes plásticas e  realizou muitas exposições individuais e coletivas aqui e em outros estados, tendo sido ainda premiada em alguns salões de arte . Nesta foto ao lado a artista Márcia com a filha Paula Magno que também é escultora e vem trabalhando com ela na  concepção de algumas esculturas. 


LIANE KATSUKI EXPONDO EM AMSTERDAM

Colar "Caminhos para o Encontro"
Com mais de trezentas exposições individuais e coletivas realizadas aqui e em vários países da Europa a baiana de Entre Rios Liane Katsuki vem se destacando internacionalmente a cada dia como designer de joias e escultora. Depois de concluir seu curso no  Brasil, na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia,  complementou seus estudos nas escolas de Belas Artes de Paris e Toulouse, na França. Em seguida buscando ampliar seus conhecimentos foi se especializar em   joalheria  em Toulouse, na França e em Emmen, na Holanda. Já teve seu trabalho reconhecido através de duas premiações importantes como o De Beers Diamond e o Tahitian Pearl Trophees, e trabalhou para importantes personalidades da moda a exemplo de Pierre Cardin.Tem esculturas de sua autoria espalhadas por alguns países da Europa  como França, Holanda, Espanha e também no Brasil. Já morou na França, Japão, Holanda e Espanha. Atualmente está residindo na Holanda. Agora está expondo suas joias na Art Fair, em Amsterdam, que é um centro importante de comercialização de joias e diamantes
Liane Katsuki na Art Fair em Amsterdam, na Holanda.
já vários séculos. Dizem os críticos de lá que as joias de Liane Katsuki apresentam características especiais com sua linguagem única  e sempre fiel à qualidade dos materiais que utiliza como também explora todas as possibilidades que esses materiais oferecem. Ela tem um conceito que transita entre a ortodoxia do novo  classicismo e a modernidade. Suas joias são proporcionais, harmônicas, modulares e totalmente integradas com a natureza. Suas  joias têm  outra característica é que elas se relacionam e se complementam entre si .Tudo isto é resultado de muito estudo, muitas horas dedicadas às suas joias que lhe permitem hoje o domínio dos materiais combinando elementos diferentes, criando volumes leves dando uma visão tridimensional. 
Escultura em bronze "Encontros".
 Falando sobre sua arte a artista baiana Liane Katsuki disse " que o artista é um precursor do seu tempo, do seu momento histórico e social. Como tal, ele se sente responsável ante seus contemporâneos e sobre si  mesmo. A coerência do  seu trabalho e sua criatividade não podem estar dissociados da sua visão de mundo.
Tem como missão a verdade, caminhando em linha reta e em solidariedade. Não se curva diante das dificuldades e dos atalhos. Diante dos desafios do triunfo ou do fracasso tem que colocar seus princípios fundamentais. Meu trabalho está pensado e criado com emoção e equilíbrio. Alma e corpo, coração e razão. Não me permito deslizes técnicos. Por isto busco a perfeição dentro da linguagem mais pura da técnica, respeitando e domando os materiais que me permitem exteriorizar minha mensagem interior".

quinta-feira, 17 de março de 2022

AS HISTÓRIAS PLÁSTICAS DE MURILO RIBEIRO

Vemos ai no dia da abertura da exposição o artista Murilo
Ribeiro recebendo convidados e verbalizando suas histórias.
 Estive visitando a exposição de Murilo Ribeiro que está até o dia 16 de abril no Museu de Arte da Bahia, que fica no Corredor da Vitória. São 59 telas em óleo sobre tela que ele produziu durante a pandemia aproveitando a reclusão forçada para pesquisar os grandes mestres da pintura e até da Literatura.Em seguida partiu para pintar suas obras utilizando uma técnica apurada superpondo leves camadas de tintas que deu um resultado muito bom e uma unidade nas cores e nas formas no conjunto das obras expostas. O artista assumiu a postura de um contador de histórias criando narrativas através das figuras que foi desenhando e pintando, e também nas situações que os envolve. Realmente é um jogo entre a fantasia e a realidade, como que brincando de um teatro que navega nos universos  da comédia e do drama. Os personagens criados ou imaginados por Murilo Ribeiro surgem dentro deste clima de camadas de tintas  dando  um ar mais adequado ao tempo em que viveram neste mundo.  Ele conseguiu elaborar  uma pintura fosca através um verniz que acrescentou após pintar suas telas a óleo. Desde 2008 que Murilo Ribeiro  não expunha suas obras sendo que esta  exposição foi realizada  no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal. Faz questão de afirmar que suas pinturas atuais não são ilustrações, as imagens que pintou traduzem as histórias que queria contar. São histórias que surgiram dentro de sua liberdade criativa, quase não tem nada a ver com as pinturas ou livros onde foi buscar sua inspiração. Foram apenas simples referências. Esta busca foi  um start para daí começar a criar  suas próprias histórias, embora os personagens possam estar numa obra de um grande pintor clássico ou moderno e na Literatura. Murilo Ribeiro pintou cento e quatro  telas, mas o espaço do Museu de Arte da Bahia só lhe permitiu expor 59 obras , e ele pretende ainda levá-las para expor em Atlanta, onde reside sua única filha, e  também em outra galeria em São Paulo. Com suas leituras e pesquisas, inclusive nas redes sociais ele criou uma pléiade de personagens e situações que passou a desenvolver nas telas. Notamos que as obras têm espaços escuros, cores mais densas e variados tons superpostos.

                                    ALGUMAS DAS HISTÓRIAS PINTADAS  PELO ARTISTA

"A chegada de Vincent em Paris", cidade que gostava muito.

O artista Vincent van Gogh já tinha feito algumas viagens à Paris quando trabalhava na galeria de seu tio dos 16 aos 27 anos , porém em fevereiro de 1886 voltou sem avisar ao seu irmão Theo, e depois pediu desculpas por não te-lo avisado. Nesta sua viagem conheceu obras de pintores impressionistas que haviam deixado de lado seus ateliers e passaram a pintar em parques, ruas, bosques e a vida cotidiana  em busca de mais luminosidade e cores. Com isto mudou sua forma de pintar que vinha realizando na Holanda basicamente inspirado em cenas de bares, no campo com os trabalhadores rurais utilizando cores mais escuras. Desta vez ele permaneceu dois anos em Paris, e certo dia  teria se manifestado assim: "Paris é Paris, só há uma Paris. E por mais dura a vida aqui possa estar, e mesmo se ficasse ainda pior e mais dura, o ar francês  mantém lúcido o espírito e faz-nos bem, infnitamente bem!". O Museu de d´Orsay tem mais de 2 mil esculturas e obras dos impressionistas e pontilhistas franceses e de outros países. Vincent  van Gogh tem  lá muitas obas  expostas atualmente. Obras que ele fez nos arredores, parques e nas ruas de Paris. E o Murilo Ribeiro criou uma história desta  viagem de Vincent à Paris que reproduzo uma foto do sua tela feita em acrílica. 

"A Ovelha Negra ", obra em óleo sobre tela.
Outra história contada por Murilo através de sua arte é o da Ovelha Negra baseada  na fábula criada
pelo escritor hondurenho Augusto Monterroso, que residiu na Nicarágua alguns anos e depois no México. Dizem que ele reinventou este gênero literário criando várias fábulas . No livro "A Ovelha Negra e outras fábulas", estão reunidas 40 delas. São curtas e cheias de metáforas e ironias que nos levam a refletir sobre várias situações vivenciadas pelo homem . Reflexões que tratam da condição humana,da  injustiça social,  política, inveja, vaidade,vergonha, orgulho, amor e ódio, perdão. Enfim, das situações criadas pelo ser humano. O curioso é que ele sempre escolhia um animal como seu personagem para expressar o que pretendia.  Esta fábula da Ovelha Negra que Murilo escolheu para criar sua história plástica  trata de um homem honesto que resolveu mudar para um certo povoado e lá passou a viver. Os moradores costumavam  roubar uns aos outros, e assim mantinham o equilíbrio do lugar. Acontece que o novo morador dificilmente saía e como sua casa não podia ser roubada por ele estar sempre presente provocou um desequilíbrio.O novo morador passou a não ser desprezado e hostilizado. Na fábula de Moterroso  a ovelha ficou triste e saiu pelo bosque onde terminou adormecendo. Quando acordou estava branca igual as demais . Tem outros detalhes da fábula, mas o objetivo é falar sobre a importância da honestidade. Vale a pena ler as fábulas do Monterroso.
"A Chegada dos Pintores Venezianos àToledo", na Espanha.
A
qui Murilo representou dentro de sua visão "A Chegada dos Pintores Venezianos à Toledo", na Espanha. Sabemos  El Grecco que era natural da ilha de Creta, que na época pertencia ao principado de Veneza. Ele morou em Veneza  onde trabalhava como pintor e arquiteto , e em seguida foi para Toledo , e aí pintou grande parte de suas obras. Chamava-se Doménikos Theotokópoulos e assinava suas obras com este nome original.
Outro que migrou foi Tintoretto, nascido em Veneza em 1518 batizado como  Giovanni Battista Robusti levou o apelido de Tintoretto porque seu pai tinha uma lavanderia e tinturaria. Era também chamado de O Furioso devido suas obras apresentarem dramaticidade e efeitos de luz. Foi um dos precursores do barroco. Outros pintores também migraram para Toledo , mas vamos ficar por aqui.
O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 2018, num domingo à noite,  foi  uma tragédia anunciada porque toda a comunidade intelectual sabia da precariedade de suas instalações marcadas pela falta de uma manutenção adequada por parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época o reitor era Roberto Lehrer, um militante de esquerda conhecido. Já haviam sido publicadas na imprensa fotos mostrando as gambiarras dentro das dependências do Museu e os recursos empregados na sua manutenção eram insuficentes, embora o governo de então, e os  ministros  da Educação e da Cultura soubessem que ali estavam guardadas e expostas 20 milhões de peças que eram parte da História do nosso país.
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu".
 Hoje técnicos estão trabalhando na recuperação ou reconstituição de peças danificadas pelo fogo. Milhares de outras foram perdidas entre elas o fóssil de Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado.Calcula-se a idade em 11 mil anos. A metade do acervo do museu foi consumida pelo fogo.
As chamas começaram depois das 19 horas quando foram encerradas as visitas. Haviam apenas quatro vigilantes de plantão e o fogo foi  intenso e se alastrou rapidamente porque havia muita madeira na composição do prédio e também objetos de fácil combustão. Por isto,  praticamente a ação dos bombeiros não surtiu o efeito esperado. Os bombeiros ainda tiveram dificuldades para utilizar a água para apagar o fogo. 
O museu foi criado em 1818 por D. João VI e tinha completado 200 anos de existência. Foi neste prédio que a princesa Leopoldina , casada com d. Pedro I, assinou  a Declaração de Independência do Brasil, em 1822. Anos depois foi palco da primeira Assembleia  Constituinte da República nos anos 1890/91, marcando o fim do Império no Brasil.
Sensibilizado com esta tragédia Murilo Ribeiro pintou 
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu". Realmente os administradores fantasmas não foram competentes e diligentes a ponto de evitar que esta tragédia destruisse grande parte da cultura e da História de nosso país com o desaparecimento de milhares de peças colecionadas e guardadas através dos duzentos anos. 
"Assédio"e o abuso no universo do politicamente correto.
 Ele também tratou em sua exposição de um assunto que hoje está presente nos noticiários dos telejornais, nos jornais impressos, nos rádios e redes sociais que é o exagero do politicamente corrreto que transformou uma simples paquera em assédio sexual. Agora temos assédio moral, assédio disto e daquilo inibindo o relacionamento saudável entre as pessoas.
Diz o Dicionário que o " assédio pode ser configurado como condutas abusivas exaradas por meio de palavras, comportamentos, atos, gestos, escritos que podem trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo o seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho." E chegam a classificar os tipos de assédio moral,sexual e virtual.  O assédio moral ocorre com a exposição de uma pessoa a situações de constrangimento, humilhação e perseguição de forma contínua e prolongada. 2. Agressões psicológicas. O assédio psicológico é uma violência emocional. ...
  • 3.Assédio sexual está tipificado no Artigo 216-A do Código Penal — constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício do emprego, cargo ou função. Pena: detenção de 1(um) a 2 (dois) anos. 4. Assédio virtual, onde as tecnologias de informação e comunicação, como  as redes sociais, são utilizadas como ferramentas para importunar, intimidar, perseguir, ofender ou hostilizar alguém.Portanto, hoje é preciso ter muito cuidado ao abordar alguém numa paquera e tornou-se perigoso insistir num amor não correspondido à primeira vista porque você pode ser enquadrado num dispositivo legal. 
  • NR- Quero agradecer a jornalista Cleide Nunes e ao fotógrafo Fernando Barbosa, da Ascom,  do Museu de Arte da Bahia, pelas fotos que publico ilustrando este texto.



segunda-feira, 14 de março de 2022

ALMANDRADE EXPÕE EM SÃO PAULO E LANÇA LIVRO

Foto 1.Sobrecapa  e
capa do livro. Foto 2.
Projetos de esculturas.
O artista baiano Almandrade o maior expoente da arte conceitual e construtivista na Bahia estará expondo  a partir do dia 16 até o dia 20, a Oca, no Parque Ibirabuera, em São Paulo, juntamente com Montez Magno, que é  de Timbaúba, em Pernambuco, e está com 88 anos de idade. Também serão expostas obras de  Sérvulo Esmeraldo, cearense, falecido em  2017. O nome da exposição é Geometria Sensível. A mostra foi organizada pela Acervo Galeria de Arte, de Salvador, que reuniu obras desses três artistas nordestinos unidos pela geometria, precisão e a lógica . São trabalhos concebidos dentro de um rigor conceitual, mas que trazem no seu conjunto forte dose de sensibilidade, poesia e criatividade.

A curadora Denise Mattar na sua apresentação . afirma que "o conjunto deixa nítido o quanto a produção artística abstrata do Nordeste se reveste de características particulares, mais próximas da produção latino-americana, da chamada geometria sensível de artistas como Torres-Garcia Carmelo Arden Quin ou Jesus Soto, do que o concretismo europeu de Theo van Doesburg ou Max Bill. São muitas as razões históricas e culturais que levaram a este resultado".

Voltando para o Almandrade, batizado como Antônio Luiz Morais de Andrade, arquiteto, polêmico, artista plástico e mestre em desenho urbano, professor de Teoria da Arte, é natural de São Felipe, interior da Bahia onde nasceu em 1953. Tem ainda dois projetos de livros em andamento. Um pela Fundação Getúlio Vargas  que seria publicado através de recursos provenientes da Lei Rouanet, e outro aqui na Bahia sob a coordenação da Marco Peltier com patrocinador baiano. Mas, ele não tem ideia de quando esses livros poderão ser publicados. Por isto, que ele fez este dos 50 Anos de Arte e classificou como Volume I.

Desde a década de 1970 que  vinha produzindo uma obra completamente distanciada da grande maioria dos artistas baianos que se apresentava através de outras formas como o figurativo e o expressionismo. Os seus trabalhos ao serem observados mostram o rigor do desenho e a sutileza dos traços e espaços deixando claro que por trás está um arquiteto conscio deste jogo permeado de sensibilidade. São obras que exigem do espectador um olhar mais sutil,mais demorado para que possa deixar penetrar as imagens a serem decodificadas de acordo com as informações que cada um dispõe.Neste livro estão inseridos vários textos, inclusive este de minha autoria que transcrevo:

                                            Almandrade

Obra O Horizonte do Quarto,
acrílica sobre tela, de 1990
"Venho acompanhando a sua trajetória há alguns anos. Ele começou figurativo e num processo gradual de somar informações desaguou na arte conceitual. Evidente que sua formação de arquiteto contribuiu para isto de forma definitiva .Nos anos 70 Almandrade já mostrava suas obras, numa Salvador ainda distante de absorver este tipo de arte. Agora ele retorna à pintura com esta mosta, revelando que isto ocorre desde a metade dos anos 90, defendendo que as possibilidades da pintura ainda não se esgotaram. Fiquei feliz em reencontrar um Almandrade cada vez mais reflexivo e flexível. A chegada dos anos vai nos pondo com o olhar mas generoso mais crítico é verdade, porém, disposto a dialogar , e notar que as diferenças existem e que elas andam e vivem fora de nosso mundo ou dos nossos traços e círculos .O que não podemos abrir mão é da nossa capacidade crítica e de reflexão. Ninguém é proprietário da verdade. Ninguém deve ser condenado por pintar de um jeito ou de outro. Cada um deve se expressar como entender que deve, cabendo ao marchand, ao colecionador ao crítico e ao próprio mercado prover e enaltecer com seus instrumentos a produção de arte. 

Àqueles que mesmo com talento, ficarem ou estejam momentaneamente fora do mercado, certamente um dia serão reconhecidos e colocados nos seus devidos lugares. Esta é a marcha da vida, esta é a dinâmica que norteia todas as profissões. Relendo um texto escrito por Almandrade no ano 2000 onde ele defende : "A independência da obra de arte com relação ao repertório de um público principalmente, criou uma expectativa em torno de sua leitura. Hoje em dia, o artista é solicitado a prestar esclarecimentos sobre o significado de sua obra, como se fosse possível alguma tradução verbal". Acredito que isto acontece quando o observador não tem informações que lhes assegurem a compreensão da obra de arte. Como estamos num país de pouca leitura, onde a obra de arte ainda é muito limitada a museus, exposições e colecionadores abastados é evidente que existe uma dificuldade quase generalizada, principalmente se você não produz uma arte figurativa de fácil entendimento. A decodificação depende de cada um de nós. Se fizermos um exercício mandando algumas pessoas lerem um conto, e em seguida solicitarmos que revelem suas interpretações sobre o texto lido vamos ter surpresas agradáveis. E, isto é compreensível e importante pela capacidade de cada uma das pessoas de absorverem e decodificarem ou não as informações ali contidas. É por esta razão que na juventude Almandrade ficava inquieto com a falta de compreensão do público com suas obras.

Obra Poema-Objeto, acrílica sobre
madeira, 1973
Almandrade possui uma formação intelectual acima da  maioria dos artistas baianos, e isto contribui ainda hoje para
aguçar suas inquietações. Ele tem posição firme contra a  ditadura do mercado, o que considero compreensível.  Também, discordo das regras do mercado e devemos  continuar lutando contra elas. Porém, o mais importante de  tudo isto é que reecontrei um Almandrade maduro, mais  compreensivo com as coisas da vida, acima de tudo um  artista,  que mesmo enfrentando todas as dificuldades  pessoais  interpostas pelo mercado e pela dificuldade de  compreensão imediata de sua arte, ele prossegue firme  aprimorando a qualidade de sua produção. "

Já o Alexandre Bonfim fez também um texto que  Almandrade inseriu no livro com o título sobre a poesia do  artista: "Os malabarismos de uma consciência intensamente  lírica" que diz :"A poesia de Almandrade faz-se, antes de  tudo,  daqueles temas essenciais da condição humana, tão  preciosos para os homens do nosso tempo, distanciados da  razão de existir. Uma perplexidade em constante estado de  nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade múltipla e absurdo. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos com a densidade real e com todos os seus limites e frustrações:"cidade perplexa / embalagem hostil / inútil divertimento". O eu lírico dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas possibilidades de salvação ou transcedência  ( encontradas, como veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica): "o andarilho inocente / repete o caminho / sem encontrar / uma saída". Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos labirintos kafkianos, em que todas as direções nos encaminham , na verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de possuir sua voz própria e peculiar, Almandrade recria , portanto, aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja , o seu famoso José".

                                        TRAJETÓRIA

Obra Poema Visual em nanquim
- 21x30cm, de 2013.
 Conta no livro Almandrade que deu início ao seu trabalho   entre a literatura e as artes visuais em 1972 ainda no colégio   quando participou de um salão estudantil. A poesia veio   primeiro e em seguida se interessou pelas artes plásticas.   Através da poesia concreta chegou ao concretismo e depois   à  arte conceitual movimento que teve seu auge na década   de  1970. A partir de então passou a utilizar vários suportes   para se expressar como o desenho, pintura, escultura,   instalação, poema visual dentro da opção estética . Isto já se   vão 50 anos !

 Diz ainda Almandrade que depois dos primeiros ensaios   figurativos nos anos 1970 e 1971 decidiu pela geometria ,   "desenvolvendo um produto ora pictórico, ora linguístico,   como um lugar de reflexão,solitário,à margem do circuito   baiano. A experi|ência gráfica proveniente do curso de arquitetura foi decisiva na formalização do projeto gráfico no poema e em outros suportes. E finaliza dizendo que "esta publicação é apenas um pequeno recorte que registra o meu compromisso com a linguagem desde os anos 70 ,no silêncio do circuito de arte. Hoje mantenho meu projeto, entre o conceitual, o construtivo e a poesia visual . É sempre a busca do impossível".

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Em  1975 - Poemas Visuais, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1977- Instrumentos de Separação, Instituto Goethe, Salvador / BA; 1978 - O Prazer do Hermético ou o Hermético do Prazer, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1979 -  Artifícios de Gargalhadas,  Instituto de Arquitetos, Salvador / BA ; 1980  - O Sacrifício do Sentido, Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1983 - Desenhos, Instituto Goethe, Salvador / BA ; Esculturas de Carpete, Funarte, Rio de Janeiro / RJ; 1985 - Esculturas, Objetos e Desenhos, Foyer do Teatro Castro Alves , Salvador / BA; 1986 - Instalação, Desenhos e Poemas Visuais, Galeria, Metropolitan, Recife/PE; Desenhos e Ideias, Fundação Cultural do Distrito Federal Brasília/DF; 1990 - Pinturas, Esculturas e Objetos, Escritório de Arte da Bahia, Salvador / BA ; 1992 -Jardim Para Meditação, Teatro Gregório de Mattos, Salvador / BA; 1994 - Esculturas, Objetos e Pinturas, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; Lançamento do vídeo imagens e imagens, de Luiz Rosemberg Filho com poema do artista ; 1995 - A Arte de Almandrade , Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1997 - Pinturas, Esculturas, Instalação, Livros e Objetos, Centro Cultural , São Paulo/SP ; Pinturas, Esculturas e Poemas - Prêmio Copene de Cultura e Arte , Prova do Artista, Salvador/BA ; 2000 - Mostra Retrospectiva , Museu de Arte Moderna, Salvador /BA ; 2001- Pequenos Formatos, Galeria ACBEU, Salvador/BA; Almandrade, Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, Salvador/BA; 2002 - Pensamentos, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro /RJ; 2003 - Esculturas, Instituto Goethe, Salvador/BA ; 2004 - Pinturas, Sofitel Suítes Costa do Sauipe, Bahia ; 2005 - Instalação, Conjunto Cultural da Caixa, Salvador/BA; 2009 -Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, Salvador / BA; 2011 - Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, São Paulo/SP; Um Olhar do Artista Sobre Seu Trabalho , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA; 2013 - Gravuras e Pinturas, Studio R Krieger, Curitiba/PR ; 2014- Poemas Visuais e Instalação , Casa das Rosas, São Paulo/SP ; 2015 - Entre a Palavra e o Conceito , Roberto Alban Galeria, Salvador/BA; Do Poema Visual à Poética do Plano e Espaço, Baró Galeria, São Paulo / SP; 2016 - Solo ArteBa , Baró Galeria, Buenos Aires; 2017 -Poemas Visuais, Desenhos, Pinturas, Esculturas e Instalações, Gabinete de Arte K20, Brasília/DF; O Conceito Entre o Verbo e a Visualidade, Baró Galeria, São Paulo/SP; 2018 - O Sentido do Original na Gravura, Baró Galeria, São Paulo/SP;
Investigações Visuais, Luciana Caravello Arte Contemporânea,
Rio de Janeiro/RJ; 2019/2020 - Pensar o Jogo, Museu Nacional, Brasília/DF; 2022 - Gravura: Geometria e Poesia - Gravura, Gravuras no Brasil Galeria, São Paulo/SP;  Labirinto para a Curiosidade do Olhar, Galeria Murilo Castro, Belo Horizonte/MG.


EXPOSIÇÕES COLETIVAS


Em 1972 -I Salão Estudantil, Instituto dos Arquitetos, Salvador/BA ; 1973 - Cinco Artistas, Biblioteca Central, Salvador/BA ; XIII Bienal Internacional - com grupo Etsedron , São Paulo/SP; 1978 - Paralelo 78, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador/BA; 1979 - Artes plásticas Universitária Hoje, Foyer do Teatro Castro
Alves, Salvador/BA ;1980 - Agora Mostra Sete , Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1981 - Salão Nacional de Artes Plásticas Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro/RJ; Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal ,São Paulo/ SP; 1982 - Universo do Futebol, Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ; 1985 - Tendências do Livro de Artista no Brasil, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/ SP ; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/SP ; Tendências do Livro de Artista no Brasil, Arte Brasileira Atual ; Galeria de Arte UFF, Niterói / RJ; 1986 - I Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA; I Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, Fortaleza/CE ; I Mostra Internacional de Poesia Visual, Centro Cultural, São Paulo/SP; 1987 - Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal, São Paulo/SP, 1988 - Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA ; 1989- Salão Nacional de Artes Plásticas, Funarte, Rio de Janeiro/RJ ; 1991 - Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix / BA ; 1994 - Salão MAM-Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA;  1996 -Salão Unama de Pequenos Formatos, Universidade da Amazônia Galeria de Arte, Belém/PA ; 1997 -Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; 1998 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1999 - Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 100 Artistas Plásticos da Bahia, Museu de Arte Sacra, Salvador/BA ; Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA;  Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro /RJ ; Arte Salvador 450 Anos, Fundação Cultural de Curitiba Solar do Barão, Curitiba/PR ;  2000 - Exposição ACBEU Magalhães Neto, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; 2002 - Brazilian Visual Poetry, Mexic - Arte Museum, Austin-Texas/EUA ; 2005 - A Arte Anterior à Arte, Caixa Cultural, Salvador/BA ; 2007 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 2010 - Coleção de Escultura, Da República à Contemporaneidade, Caixa Cultural, São Paulo/SP  ; Geometrias Gestos e Grafias, Arte Plural Galeria, Recife/ PE ; MAC - 14 Anos, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana/BA; 2012 - Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição: A Gênese do Gabinete do Desenho, Gabinete do Desenho, São Paulo/SP, Economia da Montagem : Monumentos, Galerias, Objetos MARGS, Porto Alegre/RS ; Cromomuseu. Pós-Pictorialismo no Contexto Museológico - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, Porto Alegre/RS ; 2013 -Tupy Todos os Dias , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ BA ; XIII Salão Nacional de Itajaí, Itajaí /SC; 2014 -Distrações da Memória , Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS ; 3a Bienal da Bahia, Salvador/BA ;The Beautiful Game: O Reino da Camisa Canarinho, Museu dos Direitos Humanos, Porto Alegre/RS; 2015 – 10ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre/RS ; Destino dos Objetos, Fundação Vera Chaves Barcelos, Viamão/RS ; 2016 - Tendência do Livro de Artista no Brasil : 30 Anos depois , Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; 40 Anos de Linguagem Contemporânea no MAM-Ba, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Desordem , Baró / Emma Thomas , São Paulo/SP ; X Bienal de Literatura, Curitiba/PR ; 2018 -Palavra Viva, SESC Palladium, Belo Horizonte/MG ; Palavra Coisa, Galeria Carbono, São Paulo/SP ; Livro de Artista , Museu de Arte da Bahia;  2019 - Novas aquisições , Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo/SP; Berlin Bahia , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Abertura 1980, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto/SP; Experimentus Linha Clara, Igreja São Vicente, Évora/Portugal ; À Nordeste , Sesc 24 de Maio, São Paulo/SP; The 55 Project , Atchugarry Fundation, Miami/EUA ; 2021- BAHIA for ÉVORA , Museu Nacional Frei Manoel do Cenáculo Évora / Portugal; 2022 - Gravuras , Gravuras no Brasil, Galeria, São Paulo/SP; 2023 - Compaixão-Escritas Poligráficas , Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, Évora/Portugal.


COLEÇÕES
Museu de Arte Moderna da Bahia; Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro); Museu de Arte do Rio de Janeiro; Pinacoteca Municipal de São Paulo; Museu Afro (São Paulo); Museu Nacional de Brasília; Museu da Cidade Salvador ; Museu de Arte do Rio Grande do Sul; Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul Brazil Golden Art, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Recife; Museu de Arte Abraham Palatinik Natal; Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana-BA ; Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Fundação Vera Chaves Barcelos -RS ; Museum of Contemporary Art  MCA, Chicago ; Museu Jumex - México.
 

PRÊMIOS
Em 1981 - 1° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1982 - 2° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1986 -Prêmio Funarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco ; 1989 - Prêmio Aquisição 11 Salão Nacional de Artes Plásticas; Rio de Janeiro ; 
1997 - Prêmio Copene de Cultura e Arte, Salvador.