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domingo, 26 de abril de 2026

JENNER AUGUSTO UM MODERNISTA SERGIPANO NA BAHIA

O pintor Jenner Augusto no ateliê.
 O artista sergipano Jenner Augusto era pintor, escultor, cartazista, ilustrador, desenhista e gravador. Gostava de retratar o povo humilde e as paisagens de sua terra e com seu jeito calmo meio desconfiado ia trilhando o seu caminho que desde início não foi fácil. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas seis meses de idade e sua mãe era professora primária da família Silveira que tinha um pensamento político considerado avançado contra os coronéis que dominavam a cena política da época. Por isto a carreira de sua mãe foi tumultuada e como castigo os políticos de então sempre a puniam com nova transferência para uma cidade desconhecida. Portanto, durante sua infância morou em várias cidades sergipanas e a sua mãe nunca abriu mão de suas convicções políticas. Para ajudar no sustento da família começou a trabalhar cedo e foi engraxar sapatos, pintar paredes, ser vendedor de lojas e até cantor de cabaré, já que tinha uma voz privilegiada, e também trabalhou como revisor do jornal Correio de Aracaju, onde seu irmão Junot Silveira era o redator-chefe. O mestre Junot veio antes para Salvador e foi professor, diretor do Colégio Mário Augusto Teixeira de Freitas, no bairro de Nazaré, presidente por muitos anos da Imprensa Oficial do Estado - IOE que editava e imprimia o Diário Oficial do Estado, e depois se tornou Empresa Gráfica da Bahia – EGBA, e o DO hoje é online. Junot Silveira trabalhou também em A Tarde durante muitos anos até sua aposentadoria. Voltando ao artista Jenner Augusto foi na cidade de Lagarto, segundo consta no livro “Jenner, Cores de Uma Vida”, escrito em parceria de Mário Britto e Zeca Fernandes, este último neto do artista, que Jenner começou a fazer letreiros de propaganda e cartazes de filmes de caubóis para o cinema de Mané Dentista que se descobriu pintor. Sendo autodidata disse que “aprendeu a juntar óleo e pigmentos, adicionar a medida exata do secante, corrigir cor suja substituindo o preto pelo azul”, na sua lida com os pintores de paredes.

Alagados um tema que lhe tornou conhecido.
Quando residiu em Laranjeiras conheceu a obra de Horácio Hora, que era um artista conceituado sergipano que faleceu em 1890, em Paris. Lá existe a Casa Laranjeiras onde está o legado deste importante mestre da pintura e o Jenner Augusto passou a se interessar pelo desenho copiando as obras de Horácio Hora e em seguida passou a fazer seus próprios desenhos. Até que em 1944 muda-se de Laranjeiras para Aracaju, e sua evolução no desenho já é visível. Foi trabalhar nos escritórios dos donos do jornal Folha da Manhã. Já um ano depois toma coragem e realiza sua primeira exposição, e começa a se entrosar no ambiente cultural e artístico da cidade participando de algumas exposições coletivas. Sob forte influência de Cândido Portinari pintou as paredes do Cacique Bar com murais “baseados em cenas históricas, no folclore e nos costumes de Sergipe." Hoje o Cacique Bar foi reformado e a obra de Jenner Augusto restaurada, e é considerada o marco do início do modernismo na capital sergipana. Ficou em Aracaju até 1949 quando através uma carta resposta de Cândido Portinari aconselhando-o a estudar mais o desenho e procurar um local mais adiantado nas artes que ele decidiu vir morar em Salvador. 
Cenas da História e Costumes de Sergipe,
detalhe do mural que pintou no Cacique Chá.
 Um marco do modernismo em Sergipe.
Seu irmão Junot Silveira já era um jornalista conhecido na cidade e arranjou um emprego garantindo assim a sua sobrevivência financeira. Trabalhou como assistente no ateliê de Mário Cravo Júnior e passou a se integrar ao grupo renovador da arte baiana que se opunha ao academicismo da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. O mais velho do grupo era o Mirabeau Sampaio e os demais Mário Cravo Júnior, voltava de Syracuse, nos Estados Unidos, onde estudara com Ivan Mestrovic. Jenner Augusto vinha de Aracaju com uma experiência de dez anos;  Carlos Bastos tinha estudado em New York; do Paraná veio Poty; do Rio de Janeiro o Henrique Oswald; de São Paulo o Lênio Braga; o Agnaldo Manoel dos Santos, de Itaparica;  Hansen, de Hamburgo, na Alemanha; Di Prete, da Itália; o Marcelo Grassmann, de São Simão, interior de São Paulo; Udo Knoff,  da Prússia Oriental; Carybé, de Buenos Aires, na Argentina; Raimundo de Oliveira, de Feira de Santana; Pancetti ,  Campos de Jordão; da Bahia vieram ainda o  Rubem Valentim, Genaro de Carvalho, que chegara de Paris  e Lygia Sampaio, a única mulher do seleto grupo.

Coroinhas na Praia outro tema que é muito
apreciado por colecionadores de Jenner.
Portanto, estava formado o grupo de modernistas que juntos trocavam novas  ideias e experiências para criar obras que rompessem com o academicismo que ainda insistia em permanecer tendo a Escola de Belas Artes como um baluarte a ser vencido. Eles se reuniam informalmente na maioria das vezes na casa de Mário Cravo Júnior e arranjaram até um quadro onde Rubem Valentim se encarregou de fazer algumas anotações. De 1950 para cá veio outra geração de modernistas com Juarez Paraíso, Emanoel Araújo, Sante Scaldaferri, Edson da Luz, Calasans Neto, Floriano Teixeira, que chegou do Maranhão.

O festejado crítico de arte Antonio Bento escreveu que “não deixa de ser curioso para a crítica de arte observar que os dois maiores paisagistas da Bahia a partir de meados do século vinte, tenham sido filhos de outros estados: o paulista Pancetti e o sergipano Jenner, este vizinho fronteiriço e, consequentemente, quase íntimo ou, pelo menos bem mais próximo da visualidade e dos sentimentos comuns aos filhos de sua terra de adoção.” Dizia Jenner Augusto que a Bahia lhe servia de inspiração lírica, enquanto o Nordeste pelo seu lado trágico. Mas, sua relação com a Bahia era tanta que decidiu morar definitivamente aqui e passou mais de trinta anos em sua casa-ateliê no bairro do Rio Vermelho.

Uma bela paisagem onde  Jenner demonstra
 o equilíbrio da paleta de cores que escolhia.
Em 1950 participa pela primeira vez do Salão Baiano de Belas Artes juntamente com seus colegas do grupo de modernistas.  Três anos depois casa com também sergipana Maria Luiza Mendonça e participa do Salão Nacional de Arte Moderna no qual esteve presente regularmente até 1962. Em 1953 executou um afresco chamado de Evolução do Homem para o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, Bahia, levando um ano a ser concluído. Em 1966 o artista sergipano já era conhecido em todo o país e foi convidado pelo governo americano a fazer sua primeira exposição internacional na Filadelfia, chamada Baianos na Filadelfia e a partir de então expôs na Holanda, Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Bélgica.

Tornou-se muito conhecido por pintar como ninguém a paisagem baiana e principalmente os Alagados expressando todo o contexto que envolve este bairro de edificações muito precárias onde o sofrimento dorme e acorda com seus moradores. Conhecendo através da literatura e de minhas observações pessoais é verdade que podem dizer que ele sofreu apenas influência de Horácio Hora e de Cândido Portinari no início de sua jornada porque o artista Jenner Augusto desenvolveu sua arte moldada em sua personalidade de quietude e com ar de melancolia. Costumava chamar as séries que

.
Sempre que viajava aproveitava para
fazer esboços do que via pelo caminho.
pintava de momentos e que as cores que empregava dependia do seu estado de espírito, portanto encontramos na produção do artista obras com cores vibrantes e outras com as cores mais fechadas , mais densas, lembrando um clima europeu.  Era um exímio desenhista e ilustrou o livro Os Caminhos de Casa, de Odorico Tavares, um incentivador das artes na Bahia, e depois Tenda dos Milagres, do grande escritor baiano e seu amigo Jorge Amado. Anos depois os dirigentes de A Casa Jorge Amado reuniram desenhos do artista e fizeram uma publicação acompanhando de textos de Jorge e James Amado, Mirabeau Sampaio, Carybé, Glauber Rocha, Vinicius de Moraes, Mário Schenberg, dentre muitos outros, enaltecendo a sua obra e a qualidade dos seus desenhos. Também chegou a fazer algumas esculturas, mas nunca as expôs. Geralmente esculpia e presenteava a seus amigos e parentes, inclusive tem uma feita de barro de São Cosme e Damião que foi presenteada à sua esposa Luiza, que era seu braço direito que cuidava da parte de divulgação e comercialização de suas obras.

COMO ERA JENNER

Reuni seu filho Guel Silveira, também artista plástico consagrado e o neto Zeca Fernandes, formado em Ciências Sociais, fotógrafo e galerista, para revelarem um pouco como era o artista Jenner Augusto na sua intimidade. Coube a Guel como inventariante cuidar e dividir o legado pai, e Zeca seu filho e neto de Jenner  era talvez o que mais conviveu e se afeiçoou ao avô. Eles moravam no bairro da Graça e Jenner no Rio Vermelho, mas as visitas eram muito frequentes. Revelou Zeca que foi mesmo a partir dos catorze anos que seu avô passou a lhe falar sobre arte. “Ele tinha uma mania ao pintar um quadro colocar de costas encostado na parede do ateliê, sem assinar. Depois ele vinha já assinava e colocava na

O artista Guel Silveira, filho de Jenner e
Zeca Fernandes que é seu filho  .
Zeca foi o  neto mais próximo de Jenner.
moldura. Eu chegava e começava a virar e olhar o que ele tinha pintado e nunca reclamou. Outras pessoas ele não deixava mexer nas obras antes de assinar. Se você olhar com cuidado os quadros do meu avô verá que as bordinhas estão descascadas porque ele colocava na moldura ainda com a tinta sem secar. Não tinha paciência de secar para colocar moldura”. 
Lembraram que sua mãe e avô Luiza tinha um conhecimento sobre arte muito importante, além de ser um excelente marchand da obra de Jenner Augusto. Também ele conviveu com muitos artistas não só brasileiros como de artistas estrangeiros. Seu filho Guel Silveira ressaltou que "havia entre os artistas da época de Jenner Augusto uma convivência muito forte e de amizade entre eles e hoje sinto falta disto. Eles se encontravam, aos domingos sempre havia um almoço, um encontro deles. " Acrescentou em seguida  o Zeca Fernandes um fato interessante que "o pintor pernambucano que residia em Paris, Cícero Dias, ia realizar uma exposição em Salvador e mandou suas obras enroladas da capital francesa. Quando chegaram Jenner Augusto, que era  seu amigo fraterno, mandou emoldurar, montou toda a exposição e procurou vender . Quando  Cícero Dias chegou já estava tudo pronto. Quanto à  sua mãe Luiza tinha amizades com artistas de outros países. Inclusive um certo conhecimento com a Françoise Gilot (1921-2023) que era pintora francesa, escritora e musa de Pablo Picasso, conhecida como a única mulher a deixá-lo. Eles viveram juntos entre 1943 e 1953, tiveram dois filhos, Claude e Paloma. Gilot construiu uma carreira artística própria bem-sucedida, separando-se de Picasso devido à natureza exigente e sufocante do relacionamento. A esposa de Jenner Augusto tinha consigo um livro autografado por Françoise que guardava com muito carinho.

Jenner  chegou a cantar nos cabarés da noite
baiana . Aí ele pintou uma cena do mangue, como
também eram chamados os cabarés na época.
Falando da obra de Jenner Augusto seu neto Zeca Fernandes disse ainda “ser um admirador da sua produção e sempre que se detém com mais atenção diante de um quadro dele descobre um detalhe interessante. São momentos de  contemplações muito prazerosas e afetivas. Ele acordava cedo ia para o ateliê pintar, meio dia almoçava, descansava um pouco, voltava para o ateliê, e já no final da tarde saía para ver alguma paisagem ou resolver problemas pessoais, ver uma galeria, um museu, uma nova exposição. Sempre saía com um caderno na mão para rabiscar algo que lhe interessava. Muitas vezes ia direto a um local como Lagoa do Abaeté, alagados ou Dique do Tororó desenhar in loco”. E retruca: “hoje seria impossível diante da violência que vivemos hoje em Salvador.” Tanto o Guel Silveira e seu filho Zeca disseram que gostam mais da fase de Jenner Augusto dos anos 50 quando fazia uma pintura expressionista. A casa de meu pai era sempre aberta aos amigos, principalmente aos pintores e escritores seus amigos e lá constantemente estavam falando de algo ligado às artes. Crescemos assim com meu pai repassando para nós informações sobre modernismo brasileiro e a arte que estava sendo feita nos grandes centros europeus e nos Estados Unidos."

Jenner também ia para a Lagoa de Abaeté p
pintar a paisagem e as lavadeiras.
No tempo que Jenner morou no Rio de Janeiro entre os anos 70 e 90 quando os filhos iam visitá-lo com seus netos o artista  gostava de levá-los ao shopping da Gávea que na época tinha galerias de arte, além de visitar museus e outros espaços culturais. Durante essas visitas  gostava de falar sobre o artista que estava expondo, sua arte e se o conhecia pessoalmente do ser humano, etc.Shopping da Gávea, foi inaugurado em maio de 1975 e ficou conhecido  entre os anos 70 e 90 como um polo cultural e artístico, funcionando com um conceito de "galeria" de rua, com corredores amplos e foco em arte, cultura e livrarias, teatro e lojas de antiguidades . O local era famoso pela Galeria de Arte Anna Maria Niemeyer e por lojas conceituadas como a loja de discos Gramophone. O artista Jenner Augusto morava num apartamento na Gávea que ficava próximo ao shopping e depois de visitar a galeria e outros locais sentavam para fazer um lanche.

Carybé, Mário Cravo Júnior e Carlos Bastos .
Calasans Neto, Floriano Teixeira e Jenner
Augusto, sentados.
Disse Zeca Fernandes que sua relação com o avô se consolidou a partir dos seus catorze anos já quando morava na Casa do Rio Vermelho. Ele era talvez o único que Jenner Augusto deixava mexer nos quadros que acabara de pintar e também em outras coisas do ateliê. Guel relembrou que seu pai hospedava em sua casa os pintores Aldemir Martins,
(1922-2006), pintor cearense, ilustrador e escultor ; Kazuo Wakabayashi , nasceu em Kōbe, (1931- 2021) foi um artista plástico nipo-brasileiro;Manabu Mabe (1924·1997) nasceu Kumamoto, Japão morreu em São Paulo aos 73 anos; Arcanjo Ianelli ,Nascido e falecido em São Paulo (1922-2009), foi um influente artista, escultor, desenhista e pintor brasileiro; o carioca Orlando Rabello Teruz 1902 -1984) foi um pintor e professor brasileiro; o mineiro Inimá José de Paula , nasceu Itanhomi - MG (1918 -1999) foi um pintor, desenhista e professor brasileiro, dentre outros. 
Contou ainda Guel que o relacionamento e a cumplicidade entre os artistas da época era tanto que quando seu pai chegou ainda jovem de Aracaju era muito pobre e o argentino Carybé ,que também passava alguns apertos na vida dividia a sopa com ele. Ele ficou emocionado ao contar este detalhe, adiantou que está se perdendo aquele intercâmbio que existia entre os artistas , os colecionadores e algum cliente que ia ao ateliê do artista e lá via até o seu processo criativo e muitas vezes se estabelecia uma amizade. Hoje muitos artistas têm contratos de exclusividade e as vendas são obrigatoriamente feitas através a intermediação do galerista ou marchand.

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