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| O pintor Jenner Augusto no ateliê. |
O artista sergipano Jenner Augusto era
pintor, escultor, cartazista, ilustrador, desenhista e gravador. Gostava de
retratar o povo humilde e as paisagens de sua terra e com seu jeito calmo meio
desconfiado ia trilhando o seu caminho que desde início não foi fácil. Seu pai
faleceu quando ele tinha apenas seis meses de idade e sua mãe era professora
primária da família Silveira que tinha um pensamento político considerado
avançado contra os coronéis que dominavam a cena política da época. Por isto a
carreira de sua mãe foi tumultuada e como castigo os políticos de então sempre
a puniam com nova transferência para uma cidade desconhecida. Portanto, durante
sua infância morou em várias cidades sergipanas e a sua mãe nunca abriu mão de
suas convicções políticas. Para ajudar no sustento da família começou a
trabalhar cedo e foi engraxar sapatos, pintar paredes, ser vendedor de lojas e
até cantor de cabaré, já que tinha uma voz privilegiada, e também trabalhou
como revisor do jornal Correio de Aracaju, onde seu irmão Junot Silveira era o
redator-chefe. O mestre Junot veio antes para Salvador e foi professor, diretor do Colégio Mário Augusto Teixeira de Freitas, no bairro de Nazaré, presidente por muitos anos da Imprensa Oficial do Estado - IOE que editava e
imprimia o Diário Oficial do Estado, e depois se tornou Empresa Gráfica da
Bahia – EGBA, e o DO hoje é online. Junot Silveira trabalhou também em A Tarde durante
muitos anos até sua aposentadoria. Voltando ao artista Jenner Augusto foi na
cidade de Lagarto, segundo consta no livro “Jenner, Cores de Uma Vida”, escrito
em parceria de Mário Britto e Zeca Fernandes, este último neto do artista, que
Jenner começou a fazer letreiros de propaganda e cartazes de filmes de caubóis
para o cinema de Mané Dentista que se descobriu pintor. Sendo autodidata disse
que “aprendeu a juntar óleo e pigmentos, adicionar a medida exata do secante,
corrigir cor suja substituindo o preto pelo azul”, na sua lida com os pintores
de paredes.
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| Alagados um tema que lhe tornou conhecido. |
Quando residiu em Laranjeiras conheceu a obra
de Horácio Hora, que era um artista conceituado sergipano que faleceu em 1890,
em Paris. Lá existe a Casa Laranjeiras onde está o legado deste importante
mestre da pintura e o Jenner Augusto passou a se interessar pelo desenho
copiando as obras de Horácio Hora e em seguida passou a fazer seus próprios
desenhos. Até que em 1944 muda-se de Laranjeiras para Aracaju, e sua evolução
no desenho já é visível. Foi trabalhar nos escritórios dos donos do jornal
Folha da Manhã. Já um ano depois toma coragem e realiza sua primeira exposição,
e começa a se entrosar no ambiente cultural e artístico da cidade participando
de algumas exposições coletivas. Sob forte influência de Cândido Portinari pintou
as paredes do Cacique Bar com murais “baseados em cenas históricas, no folclore
e nos costumes de Sergipe." Hoje o Cacique Bar foi reformado e a obra de Jenner
Augusto restaurada, e é considerada o marco do início do modernismo na capital
sergipana. Ficou em Aracaju até 1949 quando através uma carta resposta de
Cândido Portinari aconselhando-o a estudar mais o desenho e procurar um local
mais adiantado nas artes que ele decidiu vir morar em Salvador.
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Cenas da História e Costumes de Sergipe, detalhe do mural que pintou no Cacique Chá. Um marco do modernismo em Sergipe. |
Seu irmão Junot
Silveira já era um jornalista conhecido na cidade e arranjou um emprego
garantindo assim a sua sobrevivência financeira. Trabalhou como assistente no
ateliê de Mário Cravo Júnior e passou a se integrar ao grupo renovador da arte
baiana que se opunha ao academicismo da Escola de Belas Artes, da Universidade
Federal da Bahia. O mais velho do grupo era o Mirabeau Sampaio e os demais Mário
Cravo Júnior, voltava de Syracuse, nos Estados Unidos, onde estudara com Ivan
Mestrovic. Jenner Augusto vinha de Aracaju com uma experiência de dez anos; Carlos Bastos tinha estudado em New York; do
Paraná veio Poty; do Rio de Janeiro o Henrique Oswald; de São Paulo o Lênio
Braga; o Agnaldo Manoel dos Santos, de Itaparica; Hansen, de Hamburgo, na Alemanha; Di Prete,
da Itália; o Marcelo Grassmann, de São Simão, interior de São Paulo; Udo Knoff,
da Prússia Oriental; Carybé, de Buenos
Aires, na Argentina; Raimundo de Oliveira, de Feira de Santana; Pancetti , Campos de Jordão; da Bahia vieram ainda o Rubem Valentim, Genaro de Carvalho, que
chegara de Paris e Lygia Sampaio, a
única mulher do seleto grupo.
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Coroinhas na Praia outro tema que é muito apreciado por colecionadores de Jenner. |
Portanto, estava formado o grupo de
modernistas que juntos trocavam novas ideias e experiências para criar
obras que rompessem com o academicismo que ainda insistia em permanecer tendo a
Escola de Belas Artes como um baluarte a ser vencido. Eles se reuniam
informalmente na maioria das vezes na casa de Mário Cravo Júnior e arranjaram
até um quadro onde Rubem Valentim se encarregou de fazer algumas anotações. De
1950 para cá veio outra geração de modernistas com Juarez Paraíso, Emanoel
Araújo, Sante Scaldaferri, Edson da Luz, Calasans Neto, Floriano Teixeira, que
chegou do Maranhão.
O festejado crítico de arte Antonio Bento escreveu
que “não deixa de ser curioso para a crítica de arte observar que os dois
maiores paisagistas da Bahia a partir de meados do século vinte, tenham sido
filhos de outros estados: o paulista Pancetti e o sergipano Jenner, este
vizinho fronteiriço e, consequentemente, quase íntimo ou, pelo menos bem mais
próximo da visualidade e dos sentimentos comuns aos filhos de sua terra de
adoção.” Dizia Jenner Augusto que a Bahia lhe servia de inspiração lírica,
enquanto o Nordeste pelo seu lado trágico. Mas, sua relação com a Bahia era
tanta que decidiu morar definitivamente aqui e passou mais de trinta anos em
sua casa-ateliê no bairro do Rio Vermelho.
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Uma bela paisagem onde Jenner demonstra o equilíbrio da paleta de cores que escolhia. |
Em 1950 participa pela primeira vez do Salão
Baiano de Belas Artes juntamente com seus colegas do grupo de modernistas. Três anos depois casa com também sergipana
Maria Luiza Mendonça e participa do Salão Nacional de Arte Moderna no qual
esteve presente regularmente até 1962. Em 1953 executou um afresco chamado de
Evolução do Homem para o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, Bahia, levando um ano a ser concluído. Em 1966 o artista sergipano já era conhecido em
todo o país e foi convidado pelo governo americano a fazer sua primeira
exposição internacional na Filadelfia, chamada Baianos na Filadelfia e a partir
de então expôs na Holanda, Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Bélgica.
Tornou-se muito conhecido por pintar como
ninguém a paisagem baiana e principalmente os Alagados expressando todo o
contexto que envolve este bairro de edificações muito precárias onde o
sofrimento dorme e acorda com seus moradores. Conhecendo através da literatura
e de minhas observações pessoais é verdade que podem dizer que ele sofreu
apenas influência de Horácio Hora e de Cândido Portinari no início de sua
jornada porque o artista Jenner Augusto desenvolveu sua arte moldada em sua
personalidade de quietude e com ar de melancolia. Costumava chamar as séries
que
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Sempre que viajava aproveitava para fazer esboços do que via pelo caminho. |
pintava de momentos e que as cores que empregava dependia do seu estado de
espírito, portanto encontramos na produção do artista obras com cores vibrantes
e outras com as cores mais fechadas , mais
densas, lembrando um clima europeu. Era um exímio desenhista e
ilustrou o livro Os Caminhos de Casa, de Odorico Tavares, um incentivador das
artes na Bahia, e depois Tenda dos Milagres, do grande escritor baiano e seu amigo
Jorge Amado. Anos depois os dirigentes de A Casa Jorge Amado reuniram desenhos do artista e fizeram uma publicação
acompanhando de textos de Jorge e James Amado, Mirabeau Sampaio, Carybé,
Glauber Rocha, Vinicius de Moraes, Mário Schenberg, dentre muitos outros,
enaltecendo a sua obra e a qualidade dos seus desenhos. Também chegou a fazer
algumas esculturas, mas nunca as expôs. Geralmente esculpia e presenteava a
seus amigos e parentes, inclusive tem uma feita de barro de São Cosme e Damião
que foi presenteada à sua esposa Luiza, que era seu braço direito que cuidava da parte de
divulgação e comercialização de suas obras.
COMO ERA JENNER
Reuni seu filho Guel Silveira, também artista
plástico consagrado e o neto Zeca Fernandes, formado em Ciências Sociais, fotógrafo
e galerista, para revelarem um pouco como era o artista Jenner Augusto na sua
intimidade. Coube a Guel como inventariante cuidar e dividir o legado pai, e
Zeca seu filho e neto de Jenner era talvez o que mais conviveu e se afeiçoou ao
avô. Eles moravam no bairro da Graça e Jenner no Rio Vermelho, mas as visitas
eram muito frequentes. Revelou Zeca que foi mesmo a partir dos catorze anos
que seu avô passou a lhe falar sobre arte. “Ele tinha uma mania ao pintar um quadro
colocar de costas encostado na parede do ateliê, sem assinar. Depois ele vinha
já assinava e colocava na
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O artista Guel Silveira, filho de Jenner e Zeca Fernandes que é seu filho . Zeca foi o neto mais próximo de Jenner. |
moldura. Eu chegava e começava a virar e olhar o que ele tinha pintado e nunca reclamou. Outras pessoas ele não deixava mexer nas obras antes de assinar. Se você olhar com cuidado os quadros do meu
avô verá que as bordinhas estão descascadas porque ele colocava na moldura
ainda com a tinta sem secar. Não tinha paciência de secar para colocar
moldura”.
Lembraram que sua mãe e avô Luiza tinha um
conhecimento sobre arte muito importante, além de ser um excelente marchand da
obra de Jenner Augusto. Também ele conviveu com muitos artistas não só
brasileiros como de artistas estrangeiros. Seu filho Guel Silveira ressaltou
que "havia entre os artistas da época de Jenner Augusto uma convivência muito forte e de amizade entre eles
e hoje sinto falta disto. Eles se encontravam, aos domingos sempre havia um
almoço, um encontro deles. " Acrescentou em seguida o Zeca Fernandes um fato interessante que "o pintor
pernambucano que residia em Paris, Cícero Dias, ia realizar uma exposição em
Salvador e mandou suas obras enroladas da capital francesa. Quando chegaram Jenner Augusto, que era seu amigo fraterno, mandou emoldurar, montou toda a exposição e procurou vender . Quando Cícero Dias chegou já estava tudo pronto. Quanto à sua mãe Luiza tinha amizades com artistas de outros países. Inclusive um certo conhecimento com a Françoise Gilot (1921-2023) que era pintora
francesa, escritora e musa de Pablo Picasso, conhecida como a única mulher a
deixá-lo. Eles viveram juntos entre 1943 e 1953,
tiveram dois filhos, Claude e Paloma. Gilot construiu uma carreira artística
própria bem-sucedida, separando-se de Picasso devido à natureza exigente e
sufocante do relacionamento. A esposa de Jenner Augusto tinha consigo um livro
autografado por Françoise que guardava com muito carinho.
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Jenner chegou a cantar nos cabarés da noite baiana . Aí ele pintou uma cena do mangue, como também eram chamados os cabarés na época. |
Falando da obra de Jenner
Augusto seu neto Zeca Fernandes disse ainda “ser um admirador da sua produção e
sempre que se detém com mais atenção diante de um quadro dele descobre um
detalhe interessante. São momentos de contemplações muito prazerosas e afetivas. Ele
acordava cedo ia para o ateliê pintar, meio dia almoçava, descansava um pouco,
voltava para o ateliê, e já no final da tarde saía para ver alguma paisagem ou
resolver problemas pessoais, ver uma galeria, um museu, uma nova exposição.
Sempre saía com um caderno na mão para rabiscar algo que lhe interessava.
Muitas vezes ia direto a um local como Lagoa do Abaeté, alagados ou Dique do
Tororó desenhar in loco”. E retruca: “hoje seria impossível diante da violência
que vivemos hoje em Salvador.” Tanto o Guel Silveira e seu filho Zeca disseram
que gostam mais da fase de Jenner Augusto dos anos 50 quando fazia uma pintura expressionista.
A casa de meu pai era sempre aberta aos amigos, principalmente aos pintores e
escritores seus amigos e lá constantemente estavam falando de algo ligado às
artes. Crescemos assim com meu pai repassando para nós informações sobre
modernismo brasileiro e a arte que estava sendo feita nos grandes centros
europeus e nos Estados Unidos."
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Jenner também ia para a Lagoa de Abaeté p pintar a paisagem e as lavadeiras. |
No tempo que Jenner morou no Rio de Janeiro
entre os anos 70 e 90 quando os filhos iam visitá-lo com seus netos o artista gostava de levá-los ao shopping da Gávea que na época tinha galerias de arte,
além de visitar museus e outros espaços culturais. Durante essas visitas gostava de falar sobre o artista que estava expondo, sua arte e se o conhecia
pessoalmente do ser humano, etc. O Shopping da Gávea, foi inaugurado em maio de 1975 e ficou
conhecido entre os anos 70 e 90 como um
polo cultural e artístico, funcionando com um conceito de "galeria"
de rua, com corredores amplos e foco em arte, cultura e livrarias, teatro e
lojas de antiguidades . O local era famoso pela Galeria de Arte Anna Maria
Niemeyer e por lojas conceituadas como a loja de discos Gramophone. O artista
Jenner Augusto morava num apartamento na Gávea que ficava próximo ao shopping e
depois de visitar a galeria e outros locais sentavam para fazer um lanche.
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Carybé, Mário Cravo Júnior e Carlos Bastos . Calasans Neto, Floriano Teixeira e Jenner Augusto, sentados. |
Disse Zeca Fernandes que sua
relação com o avô se consolidou a partir dos seus catorze anos já quando morava
na Casa do Rio Vermelho. Ele era talvez o único que Jenner Augusto deixava
mexer nos quadros que acabara de pintar e também em outras coisas do ateliê. Guel
relembrou que seu pai hospedava em sua casa os pintores Aldemir Martins, (1922-2006), pintor cearense, ilustrador e
escultor ; Kazuo Wakabayashi , nasceu
em Kōbe, (1931- 2021) foi um
artista plástico nipo-brasileiro;Manabu Mabe (1924·1997) nasceu
Kumamoto, Japão morreu em São Paulo aos 73 anos; Arcanjo Ianelli ,Nascido e
falecido em São Paulo (1922-2009), foi
um influente artista,
escultor, desenhista e pintor brasileiro; o carioca Orlando Rabello
Teruz 1902 -1984) foi um pintor
e professor brasileiro; o mineiro Inimá José de Paula , nasceu
Itanhomi - MG (1918 -1999) foi um pintor,
desenhista e professor brasileiro, dentre outros. Contou ainda Guel que o
relacionamento e a cumplicidade entre os artistas da época era tanto que quando
seu pai chegou ainda jovem de Aracaju era muito pobre e o argentino Carybé ,que
também passava alguns apertos na vida dividia a sopa com ele. Ele ficou
emocionado ao contar este detalhe, adiantou que está se perdendo aquele
intercâmbio que existia entre os artistas , os colecionadores e algum cliente
que ia ao ateliê do artista e lá via até o seu processo criativo e muitas vezes
se estabelecia uma amizade. Hoje muitos artistas têm contratos de exclusividade
e as vendas são obrigatoriamente feitas através a intermediação do galerista ou
marchand.
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