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sábado, 28 de março de 2026

O CIENTISTA QUE ABRAÇOU O BORDADO PARA EXPRESSAR A SUA ARTE

O artista Roberto Lisboa concentrado em seu
novo bordado para expressar sua arte.
O artista Roberto Lisboa que assina RL é um cientista do ramo da Genética que fez mestrado na USP de Piracicaba e doutorado nesta área na Espanha. Devido a problemas de saúde está aposentado e através de um amigo foi a uma exposição no Museu de Arte da Bahia que tinha um programa  visita aos ateliês de três artistas, e num deles  viu alguns bordados. Atualmente o bordado como arte está presente em vários países e é uma forma de expressão pessoal e política que utiliza a agulha, linha e tecido como suas ferramentas para criar obras cheias de significação, subjetivas, rompendo a linha da decoração funcional. Esta forma de produzir arte também resgata a memória de nossos ancestrais e permite a fusão com a arte contemporânea transformando através de suas formas em narrativas visuais únicas e de grande expressividade. Na visita à exposição Roberto Lisboa tomou conhecimento que a Tininha Llanos, que é uma artista visual e gestora cultural, estava coordenando uma oficina de bordado num imóvel localizado no bairro de Santo Antônio, em Salvador . 
Nesta obra uma homenagem ao Burle Marx.
Durante nossa conversa lembrou que estava no Parque Lage,no Rio de Janeiro assistindo uma palestra do cenógrafo Hélio Eichbauer (1941-2018)conhecido como um dos renovadores da cenografia brasileira moderna e também por transitar em várias gerações de artistas, quando ele insistia afirmando “vocês devem bordar”. O Hélio discorreu sobre a qualidade e as possibilidades que o bordado oferecia. Roberto Lisboa depois de ouvir Hélio Eichbauer e participar desta oficina de bordado   começou a bordar, e hoje está ganhando notoriedade como um artista visual que borda com muita categoria. Inclusive fez uma exposição chamada RIO em 2018-2019 em Juazeiro, na Bahia com vários bordados que são tão perfeitos, que se você olhar de relance, imagina que são pinturas. A temática que usou são as carrancas, os cangaceiros e outros elementos ligados às manifestações culturais e religiosas do entorno do Velho São Francisco.

                                                ESPANTO

Foto 1 - Canudos de Antônio Conselheiro,
2019.Foto 2- Série Carrancas do São
 Francisco, MinasGerais ,2018. Foto 3 -
 Série Carrancas do São Francisco - Jaguar.
A primeira vez que vi um homem bordando foi nos idos dos anos setenta na zona rural do município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Era um senhor negro que tranquilamente e solitariamente sentado numa cadeira com as pernas cruzadas estava ali concentrado num pedaço de pano e com uma agulha ia dando seus pontos. Curioso me acerquei dele e perguntei se podia fotografá-lo, e pacientemente balançou a cabeça concordando. Em seguida lhe fiz algumas perguntas, inclusive com quem aprendera a bordar, e me respondeu que foi com sua genitora. Enquanto insistia em trocar algumas palavras ele não parava de enfiar a agulha no pano e pude ver algumas imagens de animais e árvores que estava criando com seus pontos. O pano não tinha desenhos pré-estabelecidos, tudo saía da sua mente criativa. Agradeci e nunca mais soube deste artista anônimo. Agora fui procurar a foto preciosa no meio das centenas de outras que fiz durante minhas andanças de repórter do jornal A Tarde e da revista Manchete, mas ainda não a encontrei. Vou continuar procurando...

Passado um tempo fui visitar minha mãe em Ribeira do Pombal que era uma viciada em bordados, a ponto de a agulha de metal ferir seus dedinhos que já estavam com a pele mais fina e frágeis devido aos seus quase noventa anos. Ela fazia lindas toalhas de mesa, colchas enormes que demoravam meses para serem finalizadas e sempre presenteava seus parentes e amigas com algum bordado.  Lhe falei que tinha encontrado um homem bordando e ela imediatamente levantou a cabeça e disse. “Não é possível, homem bordando? Este mundo está perdido!” O espanto de minha mãe pode hoje parecer estranho e até preconceituoso, mas não era. No contexto social da época bordar era ocupação de mulher, ali elas se encontravam e conversavam por horas. Outras preferiam bordar solitariamente. Minha mãe tinha a companhia de minha irmã que aprendeu com ela e até pouco tempo fazia também seus bordados. Quando viva minha mãe  inspecionava para verificar se “estava tudo certinho”. Quando minha irmã errava era aconselhada a desmanchar e voltar a fazer. Bordado é uma prova de resistência, paciência e um trabalho que ajudou e ajuda na sobrevivência financeira de muita gente por este mundo afora.

Roberto Lisboa com um bordado onde
sobressai a figura humana e  vegetação.
Atualmente o bordado foi alçado à categoria de arte, ultrapassou a linha tênue que separa o artesanato da arte. Sabemos que a arte é a expressão do artista, pessoal, tem sentimento, estética ou intelectual. Já o artesanato tem sua função precípua de criar utensílios domésticos ou decorativos. Mas, os artistas já utilizam as ferramentas dos bordados como as agulhas, panos e linhas para criar suas obras cheias de significação e sentimentos. É uma forma nova de se expressar artisticamente e está dentro de um movimento chamado de slow que começou na Itália no segmento da alimentação e tem como objetivo a desaceleração, a fuga da pressa e do digital para dar ênfase aos trabalhos feitos a mão. Sem saber que estava “aderindo” a este movimento costumo sempre ao entrevistar tomar minhas anotações a mão. Gravo as entrevistas, mas, só uso a gravação quando tenho alguma dúvida porque não é fácil acompanhar escrevendo o que as pessoas falam. Voltando ao bordado numa rápida pesquisa que fiz fiquei sabendo que surgiu com o ponto cruz, cujos registros remontam na pré-história. “No tempo das cavernas o ponto cruz era usado nas costuras das vestes, feitas com peles de animais. As agulhas eram confeccionadas de ossos e no lugar das linhas usavam as tripas de animais ou fibras vegetais”. Os principais tipos de bordados segundo a Wikipedia são: bordado livre, ponto cruz (clássico em X), ponto russo (efeito 3D), e técnicas refinadas como Richelieu (recortes) e bordado com fitas.

Estudantes  na Exposição Povos e Plantas.
NOSSO ARTISTA

O cientista-artista Roberto Romão Lisboa nasceu em nove de junho de 1968 em Juazeiro, na Bahia, e é filho de Francisco Romão Carneiro e Terezinha Lisboa Romão. Seu pai era empresário, tinha uma torrefação de café e sua mãe professora do Estado e também gostava de fazer os seus bordados. Estudou o primário no Educandário São Francisco e foi transferido para o Colégio Motiva que era um estabelecimento de ensino muito moderno para os padrões da época. Depois seus pais acharam que o Motiva era moderno demais e  o matricularam no Colégio Dom Bosco, em Petrolina, cidade coirmã de Juazeiro. Estudou e  graduou-se em 1990 em Agronomia pela Universidade Estadual do Médio São Francisco. Em 1991 entrou num Grupo de Pesquisas de Genética e foi fazer uma pós graduação em Recife em 1991, passando por Piracicaba em São Paulo e Nova Viçosa em Minas Gerais, e na Embrapa em Petrolina. Fez o mestrado na Universidade de São Paulo de Piracicaba - USP,  no Departamento de Genética e estudou as melancias em três regiões do país.

O cientista Roberto Lisboa pesquisando 
as plantas nos arredores de Madri.
Quando fui ao seu encontro no apartamento no bairro da Graça, em Salvador, foi logo me dizendo que faz parte da quinta geração em Genética depois de Mendel. O cientista citado por Roberto Lisboa é o monge beneditino Gregor Mendel (1822-1884) nascido na Morávia que ficou famoso como o Pai da Genética. Cruzando ervilhas ele conseguiu informações valiosas sobre a hereditariedade. Mesmo sem muito conhecimento a respeito de divisão das células e do material genético o cientista foi capaz de propor como as características são transmitidas aos descendentes de maneira correta e aceita até hoje. .

Começamos a conversar sobre sua carreira. Fiquei sabendo que foi orientado no seu mestrado por um cientista brasileiro da quarta geração de geneticistas que foi o Paulo Sodré Martins, já falecido, que por sua vez fora orientado  pelo alemão Friedrich Gustav Brieger (1900-1985) pioneiro botânico e geneticista alemão. Foi o patriarca acadêmico da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, doutor em botânica e livre-docente na área de genética pela Universidade de Berlim e membro da Academia Brasileira sde Ciências.

Já o geneticista Roberto Lisboa pesquisou as melancias que são cultivadas e muito

Bordado da série Aprés Burle Marx - Entre
Manguezais , de 2019.
apreciadas no Brasil, especialmente no Nordeste. Ele diz ter encontrado mais de duas dezenas de variações, oito cores de polpa, mais de vinte cores de sementes, e de casca além dos sabores. Fiquei sabendo que as melancias foram trazidas para o Brasil durante o tráfico de escravos africanos. Disse que existem  duas origens possíveis que vieram com os bantos e sudaneses. Comparou com muitas melancias existentes no mundo, inclusive com as da Rússia, que tem um grande centro de sementes. Ganhou uma bolsa de estudos e foi para Espanha em 1995 onde ficou seis meses na Universidade Politécnica de Madri, e voltou como especialista em Recursos Genéticos Vegetais . Fez um concurso para professor substituto para a Universidade Federal de Sergipe e começou a dar aulas em 1995 e foi até 1996, era um contrato de um ano e pouco. Fez o mestrado na Universidade Estadual de Piracicaba- USP, em São Paulo. Em 1997 voltou para a Espanha através de uma segunda bolsa para fazer o seu doutorado. Foi quando soube de um concurso para professor na Universidade de Feira de Santana. Foi aprovado e teve que suspender o doutorado. Depois retornou em 1999 à Madri para continuar o doutorado, onde permaneceu quatro anos preparando sua tese ligada a Ecologia Espacial que disse ser um trabalho inovador usando padrões especiais e processos ecológicos orientado pelo pesquisador Adrián Escudero, quando estudou uma população de plantas do sul de Madri e em 2003 conclui o doutorado.

O Rei da Vela,  Linha de algodão em tela,2018.
Voltou para a Bahia e em 2005 montou um grupo de pesquisas em Recursos Genéticos Vegetais com a participação com todas as universidades da Bahia que tinham alguma interlocução nesta área. Ajudou a montar a Rede de Recursos Genéticos da Bahia juntamente com outros pesquisadores. Hoje abrange todo o Nordeste e criaram a Sociedade Brasileira de Recursos Genéticos e dois programas de pesquisas de pós-graduação um na UFRB – Universidade Federal Rural da Bahia ,em Cruz das Almas, e outro na Universidade Federal de Feira de Santana.  Foi convidado em 2009 para ser examinador de um concurso na Universidade Rural do Rio de Janeiro e soube de uma exposição comemorativa dos cem anos do arquiteto Burle Marx. Adiou seu retorno e disse ficar impressionado ao constatar  que Burle Marx tinha feito muitos estudos sobre os cactos. è que por coincidência Roberto Lisboa estava estudando os cactos e sua formas de cultivar e preservar. Em 2012 decidiu voltar pro Centro de Pesquisas do Instituto do Jardim Botânico Burle Marx e foi recebido pelo pesquisador Gustavo Martineli. Passou a estudar Burle Marx e tentou duas bolsas na CAPES e no CNPQ para estudar a fundo os trabalhos desenvolvidos por ele, mas não conseguiu.

Obra Copacabana de Engana, de 2019.
 Fez duas publicações nas revistas Science e Nature de um trabalho sobre o semiárido no mundo com a participação de vários cientistas e publicaram nestas duas revistas, ele foi o pesquisador chefe no Brasil.  Montou uma exposição Plantas e Povos, em Juazeiro ,na Bahia,  contratou um grupo do Rio de Janeiro entre eles  o Hélio Eichbauer para preparação e montagem da mostra. Seus  colegas que participava do grupo de geneticistas do Nordeste cederam muitos materiais e foram enviados para Juazeiro onde foi montada e exposição que durou  duas semanas. Conseguiu inicialmente  um ônibus da universidade de Juazeiro e quando voltou para as aulas em Ferida de Santana seus  alunos estavam certos que iriam para Petrolina visitar a exposição . Eles  ficarima hospedados nas instalações  do Exército e de la ainda iriam visitar a Embrapa em Petrolina. Aconteceu que por razões que não sabe o então reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana resolveu suspender o ônibus e isto revoltou os alunos. O cientista Roberto Lisboa disse que  muitos alunos de escolas públicas do segundo grau de Petrolina e Juazeiro já tinham visitado a exposição. Foi assim que seus alunos de Feira de Santana criaram muitos problemas com a negativa do reitor e ele  começou a ter problemas de saúde, teve que se afastar e depois solicitou sua aposentadoria.

                        EXPOSIÇÕES E ATIVIDADES

Vemos nesta obra o sanfoneiro e plantas
do Nordeste
.
Frequentou a Escola de Artes visuais do Parque Laje e o Espaço Tom Jobim (2012-2014), e os cursos de Arte e Filosofia do cenógrafo  e intelectual  Hélio Eichbauer. Depois de dar início a pesquisa com aulas de bordado botânico no ateliê da artista visual Tininha Llanos, seguiu com Cristiane Mohallen no Sesc/SP e com  Tammy Yamada Lamarão, no espaço Fox, Belém do Pará. Estudou Desenho de Observação com os artistas Jaison Santos da Conceição/ MAMBA e Pedro Marighella, no Ativa Ateliê, ambos em Salvador-BA.
Em 2014 organizou a Exposição Plantas e Povos, Juazeiro-BA, com grande sucesso de público.  Expôs seus bordados em  2019 na  Casa Cor-SP ; na Casa Philos, na Feira Literária de Paraty, no estado do Rio de Janeiro;  e fez uma  exposição individual Rio+, Espaço Potó, Petrolina-PE,  e o Catálogo Rio+. Em 2024 -  Si tu No Estás, Trinta Galeria de Arte Contemporânea, Santiago de Compostela, Espanha.

Workshop: Bordados e Narrativas, Fundação Bienal de Cerveira, Cerveira, Portugal; Árvore Cooperativa de Artistas, Porto, Portugal e no  Museu de Arte Moderna, Salvador-BA.

 

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