Na
conversa que tivemos em seu ateliê na Rua do Castanheda, em Salvador, disse que
ultimamente tem feito poucas intervenções porque a Cidade está muito mais
violenta e corre perigo todas às vezes que vai se apropriar de um pedaço de
“pele tatuada da Cidade”. Também porque tem muitas obras em seu ateliê que
ainda precisam ser demandadas pelo mercado. Confessou que para a arte que ele
produz o mercado é um pouco restrito, porque o apreciador ou possível comprador precisa
ter uma sensibilidade aguçada para perceber a mensagem, todo o conceito e
contexto de sua arte.
MULTIFACETADO
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O homem de aparência frágil e pacato se transforma no palco num selvagem cantor de rock punk. |
O
artista Willyams Roberto Martins Santos nasceu em onze de março de 1959 na
cidade de Teresina, no estado do Piauí. Filho de do perito da Polícia Federal
Francisco Ferreira Santos e de d. Maria das Graças Santos. Estudou o primário
na Escola Marechal Rondon, pertencente ao Exército Brasileiro, o ginásio e o
colegial no Liceu Piauiense, que é a mais antiga escola pública do Piauí. Foi
fundada em 1845 em Oiras, a primeira capital do Piauí e transferido em 1853
para Teresina. Aos vinte e dois anos Willyams Martins foi convidado por um
casal que tinha um grupo de teatro de bonecos a trabalhar com eles passado um
tempo vieram se apresentar em Salvador onde permaneceram por três meses. Só que
Willyams se apaixonou pela Cidade e decidiu ficar e “estou aqui até hoje”. Ele
perdeu o contato com o casal que teve que voltar porque a esposa engravidou, e
lamenta porque disse que “sempre procuro cativar as amizades. Mas, infelizmente
algumas a gente perde com o tempo e a distância”. Aqui começou a se entrosar no
meio teatral e foi trabalhar com o diretor Walter Seixas, no Instituto
Cultural Brasil-Alemanha - ICBA que depois se transformou em Instituto Goethe, na encenação
da peça A Morta, de Oswald de Andrade, escrita em 1937, que vem a ser a última
e considerada a mais densa peça do poeta modernista. É apresentada em três
quadros: O País do Indivíduo, O País da Gramática e o País da
Anestesia. Ele foi auxiliar de cenografia com Márcio Meireles, além
de fazer uma pequena figuração.
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Várias peles das cidades neste cavalete para depois serem esticadas nos chassis. |
Quando
lhe indaguei que este trabalho não garantia sua sobrevivência respondeu que
trouxe algum dinheiro fruto do seu trabalho em Teresina, e assim ia se mantendo. Em seguida passou a pintar e vender camisas, foi fazendo outros serviços alternativos e
participando de algumas montagens de peças de teatro até que foi trabalhar no
Colégio Apoio, no Corredor da Vitória, com o professor José Nilton. Este
emprego conseguiu através um anúncio no jornal A Tarde para trabalhar como
desenhista gráfico e passou a fazer as ilustrações do Módulos das disciplinas
escolares. Fez em 1989 vestibular para a Escola de Belas Artes e montou uma banda de rock punk chamada Jovens Sem Lei juntamente com Eduardo Tadeu, que
também estudava na EBA na década de oitenta. O nome inicial
era Jovens Sem Lei, foi quando durante um ensaio na casa de Eduardo mais conhecido por Dudu RIP, que fazia o back vocal e cedeu o espaço para eles ensaiarem, na
cidade Baixa, aí a sua sobrinha chegou e foi logo perguntando:” Tio eu preciso
fazer meu dever de classe, o senhor me ajuda agora?” Aí captaram o nome e a
banda passou a se chamar Dever de Classe. Já o vocalista Dudu RIP depois em 1984 fundou outra banda de rock punk a Proliferação com Henrique
Simões (Kiko) o baixista, Ricardo Trindade na guitarra e Wellington  |
Quatro capas da publicação artesanal fanzine Espunk. |
Bastos
(Pattus) era o baterista. Depois de fazer o vestibular para a
Escola de Belas Artes disse ter passado quase dez anos estudando por causa das greves constantes e
também porque criou a banda e uma revista Fanzine o Estado Social do Punk - ESPUNK e lhe
ocupava muito. Ele desenhava, escrevia e ainda cantava na banda . Esta sua relação com o
canto vem desde jovem quando cantava no coral do Centro de Estudos e Pesquisas
Interdisciplinares - CESPI, em Teresina, sua cidade natal, dirigido pelo maestro
carioca Reginaldo Carvalho. Já o fanzine punk rock é sempre uma publicação
independente, meio artesanal e integrante da contracultura, utilizado para a
divulgar a cena do punk rock desde a década de 70.
Disse ser uma
pessoa multifacetada e que as pessoas ficam surpresas quando ele está cantando
porque sofre uma verdadeira mutação. O homem calmo, de aparência frágil e
contido se transforma num ser selvagem quando canta as músicas do rock punk. Gosta de se expressar com corpo, a voz e outras linguagens de que dispõe. Muitas das peles que
usa para suas obras revelou que são frutos “de noites de andanças pelas ruas da Cidade. Tudo isto ele considera uma catarse ao me expressar usando ferramentas
diferentes. Após sua graduação em 2006 concluiu o seu Mestrado em Artes Visuais, e em 2019 o doutorado também em Artes Visuais com a tese Processos Criativos, ambos títulos conquistados na Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia.
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Um dos cartazes que foram espalhados pela Cidade pelos grafiteiros contra as ações do artista. |
Voltando às peles tatuadas das cidades ele vê cada quadro que delineia com seu olhar e
depois se apropria como folhas de um grande e variado livro que procura
preservar. Conquistou o em 2007 Prêmio Braskem de Cultura e
Arte com o conjunto de obras que intitulou de Peles Grafitadas e que
foram exibidas na exposição da Galeria Solar do Ferrão, no Pelourinho, Centro
Histórico de Salvador, com a curadoria de Roaleno Costa que escreveu:” Willyams
deseja mais que apenas a representação da Cidade, quer possuir seus pedaços,
seus depoimentos, fragmentos de cada história do dia-a-dia que se registram nos
muros desgastados pelo tempo, reafirmando que ali, tem histórias a contar”.
Foi aí que alguns pichadores e grafiteiros fizeram
protestos e criaram um cartaz chamando de ladrão. Experiência pior ele já tinha
enfrentado em São Paulo quando a polícia o flagrou tirando um pequeno pedaço de
pele num viaduto e o conduziu até a delegacia. Foi aberto um processo e
Willyams Martins foi condenado a prestação de serviço comunitário, mesmo
mostrando que era um trabalho voltado para sua tese de doutorado. Foi obrigado
a prestar serviço comunitário junto ao grupo de percussão feminino a Banda Didá que toca samba-reggae
e foi fundado em 1993 por Neguinho do Samba, em Salvador, Bahia. Quanto
aos protestos dos cartazes espalhados por Salvador chegou a ver nos
bairros do Comércio, Federação e Centro da Cidade o artista decidiu resgatar alguns deles que ostenta com um pouco de orgulho do seu trabalho transgressor,
criativo
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Foto 1 - Cartaz da exposição. Foto 2- Paredes da Galeria do Mercado pichadas. Foto 3 - Obra vandalizada. Foto 4 - Obra pichada. No dia seguinte vieram e roubaram. |
e que também contribui para a sua preservação. Lembrou que até o cantor Caetano Veloso falou
na época defendendo o seu trabalho e fez referência a apropriação do artista
francês, Marcel Duchamp que se apropriou até de um vaso sanitário industrial, colocou numa exposição . O artista criou o conceito de ready made, que corresponde ao transporte
de um elemento da vida cotidiana, a “princípio não reconhecido como artístico”,
para o campo das artes. Exatamente o que o artista piauiense radicado aqui faz
quando transporta um pedaço de pele da cidade e o transforma em arte.
Afirmou que depois
da fala do cantor durante um show a reação diminuiu.
Outro episódio desagradável aconteceu em 2024, em
Teresina, no Piauí, onde ele foi convidado a remover as peles do Mercado
Central, que ia entrar em reforma. O convite era para retirar as imagens dos
açougues, das paredes de outras lojas e resultou numa boa produção. No dia da
exposição que aconteceu numa matiné, às 10 horas da manhã, chegaram
dois grafiteiros picharam e danificaram as obras. No dia seguinte apareceu
outro grafiteiro e pegou um dos trabalhos e levou para casa. Depois desses
episódios Willyams Martins está mais receoso e principalmente depois do aumento
desenfreado da violência em Salvador. Na realidade ele já se apropriou de peles
tatuadas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Teresina,
Porto Alegre, Salvador, em Timon, no estado do Maranhão, em Rosário na
Argentina e em Vila Alegre no Chile.
EXPOSIÇÕES
INDIVIDUAIS – Em 2023 - Exposição Manifesta, Câmara dos Vereadores,
Salvador-BA. 2022 - Além do Mercado - Galeria do Mercado Velho,
Teresina-PI. 2020 - Movimento das Ruas, Museu de Arte Moderna da Bahia,
Salvador-BA. 2013
 |
"Sunset no Sertão", Teresina. |
- Peles do Cárcere, Roberto Alban Galeria de
Arte, Salvador-BA. 2012 - Festival FAN, Festival de Arte Negra,
Estação Central do Metrô, Belo Horizonte-MG. 2010 - Projeto
Cidade Ideal, Espaço Cultural Barroquinha Salvador-BA. 2009 - A
Árvore Já é a Imagem do Mundo, Centro Cultural dos Correios, Salvador-BA. 2007
- Peles Grafitadas, Galeria Solar Ferrão, Salvador-BA. COLETIVAS
- 2023 – Pistarama, Instalação em site specific de Dominique
Gonzalez-Foerster, Pinacoteca Agneli, Turim- Itália. 2019 O
Espaço Dividido, Galeria do Goethe-Instituto, Salvador -BA. 2018
- Estado Bienal, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 2015 -
ART RIO - Exposição, Feira de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Um Canto,
Dois Sertões - 90 Anos de Bispo do Rosário, Exposição Museu Bispo do Rosário de
Arte Contemporânea, Rio de Janeiro-RJ. 2013 - Aproximações Contemporâneas,
Roberto Alban Galeria de Arte, Salvador-BA. 2009 - Temporada de
Projetos, Exibição de Projeto Conversa com Artista, Paço das Artes. SP; 36
Salão de Arte Contemporânea de Santo André, Santo André-SP; 14º Salão UNAMA de
Pequenos Formatos, Belém-PA.
Vemos acima o protesto feito por Willyams Martins contra a violência em sua terra que chamou de "Sunset no Sertão", no ano de 2010, em Terezina. Sunset traduzindo para o português significa por-do-sol ou entardecer e esses corpos enrolados em lençóis brancos e amarrados estão prontos para serem jogados no Rio Poty.
Prêmios,
Bolsas, Residências artísticas e Editais. Em 2022 - Salões de Artes
Visuais da – 64° Edição, Secult, Salvador - BA. 2020 – ConVida,
Live, Realização - Sesc - Rio. Rio de Janeiro-RJ. - Arte de Passagem III –
Itinerância pela Arte Contemporânea da Bahia, Lei Aldir Blanc, Salvador-BA. 2018
- Residência Artística, Edital Mobilidade Cultural, Secult - BA. Em Teresina,
PI. The Real Fake, Residência Artística, Curatoria Forense, São Paulo-SP. 2017
- Prêmio de
 |
| Pele da Barão de Cotegipe III, retirada em 2007. |
Residência Artística Monsenhor Chaves, Teresina-PI; Residência Artística
Artur Bispo do Rosário, Rio de Janeiro-RJ; Arte de Passagem II, Uma Itinerância
pela Arte Contemporânea da Bahia. Salvador-BA. 2016 - Residência
Artística, Cooperativa de Arte, Villa Alegre- Chile. 2015 -
Residência Artística Internacional – Cooperativa de Arte Roleplay em Taxco-México.
2014 - Arte de Passagem I, Galeria Castro Alves, Centro Histórico,
Salvador-BA. 2012 - Salinas Compartilhada, Oficina de Arte,
Programa BNB/BNDES de Cultura. Salinas-BA.
Bienais - Em 2018 - 19ª Bienal Sur,
Duralex Sed Lex, Representação Brasileira. Rosário-Argentina. 2017
- XIX Bienal Internacional de Cerveira, Da Pop Arte às Transvanguardas, Apropriações
da Arte Popular, Portugal. 2014 - III Bienal Internacional da
Bahia, Salvador-BA. 2011 - XI Bienal Internacional de Santos.
Santos-SP.
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