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sábado, 21 de março de 2026

AS PELES TATUADAS DAS CIDADES RESGATADAS POR WILLYAMS MARTINS

Willyams Martins retirando pedaço da pele
da cidade para transformar em arte
O
s muros e paredes das grandes cidades apresentam  marcas do tempo as  manchas, sujeira de todo tipo, raízes de árvores, restos de cartazes de políticos, produtos e de espetáculos os mais diversos. Mas, o que sobressai são as inscrições feitas por anônimos e também por pichadores e de alguns grafiteiros que deixam registradas as suas assinaturas. É um verdadeiro caleidoscópio de cores , formas e traços que encontramos ao caminharmos e observarmos em cada rua, avenida, viaduto ou praça. É como se fossem tatuagens feitas nas peles das cidades. Essas ações provocadas com ajuda do sol e da chuva e pelas mãos invisíveis durante às noites causam interrogações a uns e até indignação a outras pessoas, que as classificam como sujeira e vandalismo, enquanto outras mais sensíveis buscam e enxergam beleza e criatividade por trás daquelas formas, riscos e manchas. Na realidade são mensagens entrecortadas que estão ali registradas pelo gesto de cada traço e nas mensagens aleatórias que podemos encontrar. Essas peles tatuadas das cidades são uma demonstração de vida, de pulsação e da necessidade do ser humano de se
 Pele de São Félix ,que se apropriou em 2007.
 comunicar. Tem os que sem sentir buscam se comunicar até com eles mesmos e os pichadores que saem com rolos, pincéis e tintas dispostos a escalar paredes e até desafiar a lei. Para eles estão se expressando e para os donos dos imóveis pichados se tratam de vândalos que devem ser punidos. Finalmente, tem os grafiteiros que procuram muitas vezes autorização e até são pagos por proprietários para deixarem ali a sua arte. Essas manifestações vêm num crescendo que às vezes os pichadores e grafiteiros encontram até dificuldades para encontrar um espaço onde possam deixar as suas assinaturas e serem vistos pelos moradores.

Tem ainda dentro deste mundo das peles tatuadas das Cidades um personagem diferenciado que enxerga nelas a possibilidade de expressar sua arte através um trabalho cuidadoso e delicado de apropriação. Trata-se do artista visual, ator e músico de punk rock o piauiense Willyams Martins, radicado em Salvador há muitos anos, que ao percorrer as ruas, avenidas e praças ele vai observando atentamente os muros, as paredes e as “tatuagens” ali deixadas pelo tempo e por
Pele da Cidade de Cartaz político e grafites
retirada no bairro Canela, em Salvador, 2018
.
anônimos que riscaram, desenharam ou até sujaram. O artista seleciona um determinado pedaço de muro, delimita e passa uma resina, cola um pedaço de tecido voil e depois cobre com mais resina transparente. Espera secar e após a secagem corta com um estilete e leva para sua casa. Lá estica num chassi e está pronta mais uma obra de arte fruto desta apropriação que é contestada pelos pichadores e grafiteiros. O artista não retira nada que tenha assinatura deles, apenas as partes onde existem intervenções anônimas e aleatórias. Por este seu trabalho de apropriação de pedaços das peles das cidades já recebeu até um processo em São Paulo e aqui foi alvo de um protesto dos pichadores e grafiteiros que espalharam alguns cartazes pelos muros da Cidade o acusando de ladrão. Alguns sugerem que ele faça alguma interferência depois de esticar “a pele da cidade” nos chassis porque assim tinha uma participação maior do artista. Porém outros acham que perderia a originalidade e que a sua ação em observar, trabalhar para retirar “as peles “dos muros já seria  uma interferência a mais e perde a originalidade.

Pele retirada no Campo Grande,  
em Salvador , 2007.
Consciente desta sua apropriação ele escreveu no catálogo de sua exposição Peles Grafitadas, de 2007: “Hoje à noite coloquei, mais uma vez, minhas mãos contra a matéria – muro. Realizei outra “ofensiva selvagem” ... O vazado, a sutura e o corte da película, revelam a ação contra a “ordem estabelecida”. Descobri que o contato com a superfície mural é limite, e que o desejo de liberdade gera o ato de descolar o que ela reproduz, sem interferência. Percebi que a Cidade é um sampler de grafites articulados em um mesmo som. Lembrei que o muro pode também desmoronar, ao mesmo tempo que é suscetível de receber modificações infinitas, fazendo emergir dali suas próprias expressões. Tento compreender suas imagens grafitadas...”
Na conversa que tivemos em seu ateliê na Rua do Castanheda, em Salvador, disse que ultimamente tem feito poucas intervenções porque a Cidade está muito mais violenta e corre perigo todas às vezes que vai se apropriar de um pedaço de “pele tatuada da Cidade”. Também porque tem muitas obras em seu ateliê que ainda precisam ser demandadas pelo mercado. Confessou que para a arte que ele produz o mercado é um pouco restrito, porque o apreciador ou possível comprador precisa ter uma sensibilidade aguçada para perceber a mensagem, todo o conceito e contexto de sua arte.

                                          MULTIFACETADO

O homem de aparência frágil e pacato se
transforma no palco num selvagem
 cantor de rock punk.
 O artista Willyams Roberto Martins Santos nasceu em onze de março de 1959 na cidade de Teresina, no estado do Piauí. Filho de do perito da Polícia Federal Francisco Ferreira Santos e de d. Maria das Graças Santos. Estudou o primário na Escola Marechal Rondon, pertencente ao Exército Brasileiro, o ginásio e o colegial no Liceu Piauiense, que é a mais antiga escola pública do Piauí. Foi fundada em 1845 em Oiras, a primeira capital do Piauí e transferido em 1853 para Teresina. Aos vinte e dois anos Willyams Martins foi convidado por um casal que tinha um grupo de teatro de bonecos a trabalhar com eles passado um tempo vieram se apresentar em Salvador onde permaneceram por três meses. Só que Willyams se apaixonou pela Cidade e decidiu ficar e “estou aqui até hoje”. Ele perdeu o contato com o casal que teve que voltar porque a esposa engravidou, e lamenta porque disse que “sempre procuro cativar as amizades. Mas, infelizmente algumas a gente perde com o tempo e a distância”. Aqui começou a se entrosar no meio teatral e foi trabalhar com o diretor Walter Seixas, no  Instituto Cultural Brasil-Alemanha - ICBA que depois se transformou em Instituto Goethe, na encenação da peça A Morta, de Oswald de Andrade, escrita em 1937, que vem a ser a última e considerada a mais densa peça do poeta modernista. É apresentada em três quadros: O País do Indivíduo, O País da Gramática e o País da Anestesia.  Ele foi auxiliar de cenografia com Márcio Meireles, além de fazer uma pequena figuração.

Várias peles das cidades neste cavalete para
depois serem esticadas nos chassis.
Quando lhe indaguei que este trabalho não garantia sua  sobrevivência respondeu que 
 trouxe algum dinheiro fruto do seu trabalho em Teresina, e assim ia se mantendo. Em seguida  passou a pintar e vender camisas, foi fazendo outros serviços alternativos e participando de algumas montagens de peças de teatro até que foi trabalhar no Colégio Apoio, no Corredor da Vitória, com o professor José Nilton. Este emprego conseguiu através um anúncio no jornal A Tarde para trabalhar como desenhista gráfico e passou a fazer as ilustrações do Módulos das disciplinas escolares. Fez em 1989 vestibular para a Escola de Belas Artes e  montou uma banda  de rock punk chamada Jovens Sem Lei juntamente com Eduardo Tadeu, que também estudava na EBA na década de oitenta. O nome inicial era Jovens Sem Lei, foi quando durante um ensaio na casa de Eduardo mais conhecido por Dudu RIP, que fazia o back vocal e cedeu o espaço para eles ensaiarem, na cidade Baixa, aí a sua sobrinha chegou e foi logo perguntando:” Tio eu preciso fazer meu dever de classe, o senhor me ajuda agora?” Aí captaram o nome e a banda passou a se chamar Dever de Classe. Já o vocalista Dudu RIP depois em 1984 fundou  outra banda de rock punk a Proliferação com Henrique Simões (Kiko) o baixista, Ricardo Trindade na guitarra e Wellington
Quatro capas da publicação
artesanal fanzine  Espunk.
Bastos (Pattus) era o baterista
.
 Depois de fazer o vestibular  para a Escola de Belas Artes disse ter  passado quase dez anos estudando por causa das greves constantes e também porque criou a banda e uma revista Fanzine o Estado Social do Punk - ESPUNK e lhe ocupava muito. Ele desenhava, escrevia e ainda cantava na banda . Esta sua relação com o canto vem desde jovem quando cantava no coral do Centro de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares - CESPI, em Teresina, sua cidade natal, dirigido pelo maestro carioca Reginaldo Carvalho.  Já o fanzine punk rock é sempre uma publicação independente, meio artesanal e integrante da contracultura, utilizado para a divulgar a cena do punk rock desde a década de 70.  
Disse ser uma pessoa multifacetada e que as pessoas ficam surpresas quando ele está cantando porque sofre uma verdadeira mutação. O homem calmo, de aparência frágil e contido se transforma num ser selvagem quando canta as músicas do rock punk. Gosta de  se expressar com corpo, a voz e outras  linguagens de que dispõe. Muitas das peles que usa para suas obras revelou que são frutos “de noites de andanças pelas ruas da Cidade. Tudo isto ele considera uma catarse ao me expressar usando ferramentas diferentes. Após sua graduação em 2006 concluiu o seu Mestrado em Artes Visuais, e em  2019 o doutorado também em Artes Visuais com a tese  Processos Criativos, ambos títulos conquistados na  Escola de Belas Artes, Universidade  Federal da Bahia. 

Um dos cartazes que foram espalhados
pela Cidade pelos grafiteiros contra
as ações do artista.
Voltando às peles tatuadas das cidades ele vê cada quadro que delineia com seu olhar e depois se apropria como folhas de um grande e variado livro que procura preservar. Conquistou o em 2007 Prêmio Braskem de Cultura e Arte  com o conjunto de obras que intitulou de Peles Grafitadas e que foram exibidas na exposição da Galeria Solar do Ferrão, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, com a curadoria de Roaleno Costa que escreveu:” Willyams deseja mais que apenas a representação da Cidade, quer possuir seus pedaços, seus depoimentos, fragmentos de cada história do dia-a-dia que se registram nos muros desgastados pelo tempo, reafirmando que ali, tem histórias a contar”.

Foi aí que alguns pichadores e grafiteiros fizeram protestos e criaram um cartaz chamando de ladrão. Experiência pior ele já tinha enfrentado em São Paulo quando a polícia o flagrou tirando um pequeno pedaço de pele num viaduto e o conduziu até a delegacia. Foi aberto um processo e Willyams Martins foi condenado a prestação de serviço comunitário, mesmo mostrando que era um trabalho voltado para sua tese de doutorado. Foi obrigado a prestar serviço comunitário junto ao grupo de percussão feminino a Banda Didá que toca  samba-reggae e  foi fundado em 1993 por Neguinho do Samba, em Salvador, Bahia.  Quanto aos protestos dos cartazes espalhados por Salvador  chegou a ver nos bairros do Comércio, Federação e Centro da Cidade o artista decidiu resgatar alguns  deles que ostenta com um pouco de orgulho do seu trabalho transgressor, criativo

Foto 1 - Cartaz da exposição. Foto 2- Paredes
da Galeria do Mercado pichadas. Foto 3 - Obra 
vandalizada. Foto 4 - Obra pichada. No dia
seguinte vieram e roubaram
.
e que também contribui para a sua  preservação. Lembrou que até o cantor Caetano Veloso falou na época defendendo o seu trabalho e fez referência a apropriação do artista francês, Marcel Duchamp que se apropriou até de um vaso sanitário industrial, colocou numa  exposição . O artista  criou o conceito de ready made, que corresponde ao transporte de um elemento da vida cotidiana, a “princípio não reconhecido como artístico”, para o campo das artes. Exatamente o que o artista piauiense radicado aqui faz quando transporta um pedaço de pele da cidade e o transforma em arte. 
Afirmou que  depois da fala do cantor durante um show a reação diminuiu.

Outro episódio desagradável aconteceu em 2024, em Teresina, no Piauí, onde ele foi convidado a remover as peles  do Mercado Central, que ia entrar em reforma. O convite era para retirar as imagens dos açougues, das paredes de outras lojas e resultou  numa boa produção. No dia da exposição que aconteceu numa matiné, às 10 horas da manhã,  chegaram dois grafiteiros picharam e danificaram as obras. No dia seguinte apareceu outro grafiteiro e pegou um dos trabalhos e levou para casa. Depois desses episódios Willyams Martins está mais receoso e principalmente depois do aumento desenfreado da violência em Salvador. Na realidade ele já se apropriou de peles tatuadas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Teresina, Porto Alegre, Salvador, em Timon, no estado do Maranhão, em Rosário na Argentina e em Vila Alegre no Chile.

 EXPOSIÇÕES 

INDIVIDUAIS – Em 2023 - Exposição Manifesta, Câmara dos Vereadores, Salvador-BA. 2022 - Além do Mercado - Galeria do Mercado Velho, Teresina-PI. 2020 - Movimento das Ruas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 2013

 "Sunset no Sertão",  Teresina.
 
- Peles do Cárcere, Roberto Alban Galeria de Arte, Salvador-BA. 2012 - Festival FAN, Festival de Arte Negra, Estação Central do Metrô, Belo Horizonte-MG. 2010 - Projeto Cidade Ideal, Espaço Cultural Barroquinha Salvador-BA. 2009 - A Árvore Já é a Imagem do Mundo, Centro Cultural dos Correios, Salvador-BA. 2007 - Peles Grafitadas, Galeria Solar Ferrão, Salvador-BA. COLETIVAS - 2023 – Pistarama, Instalação em site specific de Dominique Gonzalez-Foerster, Pinacoteca Agneli, Turim- Itália. 2019 O Espaço Dividido, Galeria do Goethe-Instituto, Salvador -BA. 2018 - Estado Bienal, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 2015 - ART RIO - Exposição, Feira de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, Um Canto, Dois Sertões - 90 Anos de Bispo do Rosário, Exposição Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, Rio de Janeiro-RJ. 2013 - Aproximações Contemporâneas, Roberto Alban Galeria de Arte, Salvador-BA. 2009 - Temporada de Projetos, Exibição de Projeto  Conversa com Artista, Paço das Artes. SP; 36 Salão de Arte Contemporânea de Santo André, Santo André-SP; 14º Salão UNAMA de Pequenos Formatos, Belém-PA. 
Vemos acima o protesto feito por Willyams Martins contra a violência em sua terra que chamou de  "Sunset no Sertão", no ano de 2010, em Terezina. Sunset traduzindo para o português significa por-do-sol ou entardecer e esses corpos enrolados em lençóis brancos e amarrados estão prontos para serem jogados no Rio Poty.

Prêmios, Bolsas, Residências artísticas e Editais. Em 2022 - Salões de Artes Visuais da – 64° Edição, Secult, Salvador - BA. 2020 – ConVida, Live, Realização - Sesc - Rio. Rio de Janeiro-RJ. - Arte de Passagem III – Itinerância pela Arte Contemporânea da Bahia, Lei Aldir Blanc, Salvador-BA. 2018 - Residência Artística, Edital Mobilidade Cultural, Secult - BA. Em Teresina, PI. The Real Fake, Residência Artística, Curatoria Forense, São Paulo-SP. 2017 - Prêmio de

Pele da Barão de Cotegipe III, retirada em 2007.
Residência Artística Monsenhor Chaves, Teresina-PI; Residência Artística Artur Bispo do Rosário, Rio de Janeiro-RJ; Arte de Passagem II, Uma Itinerância pela Arte Contemporânea da Bahia. Salvador-BA. 2016 - Residência Artística, Cooperativa de Arte, Villa Alegre- Chile. 2015 - Residência Artística Internacional – Cooperativa de Arte Roleplay em Taxco-México. 2014 - Arte de Passagem I, Galeria Castro Alves, Centro Histórico, Salvador-BA. 2012 - Salinas Compartilhada, Oficina de Arte, Programa BNB/BNDES de Cultura. Salinas-BA.

Bienais - Em 2018 - 19ª Bienal Sur, Duralex Sed Lex, Representação Brasileira. Rosário-Argentina. 2017 - XIX Bienal Internacional de Cerveira, Da Pop Arte às Transvanguardas, Apropriações da Arte Popular, Portugal. 2014 - III Bienal Internacional da Bahia, Salvador-BA. 2011 - XI Bienal Internacional de Santos. Santos-SP. 

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