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segunda-feira, 18 de maio de 2020

ONDE E COMO ESTÁ O ACERVO DO MUSEU DA CIDADE ?

Fachada do Museu da Cidade fechado há vários anos

"Qualquer coisa que vocês façam contra a sua   preservação e o bom funcionamento,
me faz sofrer 
como se fosse atingida pessoalmente".
Elyette Guimarães de Magalhães, idealizadora do Museu da Cidade do Salvador.
Ela faleceu no dia 20 de agosto de 2017.
Vivemos numa Cidade rica em História e Cultura porém seus gestores - tanto do Estado  quanto da Prefeitura - ao invés  de incentivar e promover os mais significativos movimentos culturais e seu patrimônio histórico e cultural os colocam em segundo plano.Focam no Carnaval, que é uma festa que dá a eles visibilidade, e engana o povo. É o que os cientistas políticos costumam chamar de "circo". Observe que ano após ano o número de dias dedicados ao Carnaval só aumenta, invadindo até a Semana Santa, antes guardada com muito respeito pelos católicos. Os investimentos são vultuosos e sempre dão a desculpa que é patrocínio da empresa privada. Por quê não arranjam patrocínio para os eventos culturais, a manutenção e compra de novas obras para os museus? Simplesmente, porque isto não dá muita visibilidade e votos. Preferem que o povo fique cada vez mais inculto e tome-lhe circo. Hora de balançar a bunda !
Catálogo de inauguração do Museu
da Cidade 
Fiz esta introdução para falar de um absurdo cometido pelo Prefeito ACM Neto que foi o fechamento do Museu da Cidade do Salvador, localizado no coração do Centro Histórico, que é o Largo do Pelourinho, naquele tradicional casarão amarelo, que fica colado com outro ocupado pela Casa de Jorge Amado, de cor azul.
Orixás de autoria do artista Alecy,
conhecido cenógrafo
 O Museu da Cidade do Salvador está fechado desde a primeira administração do atual prefeito sob a alegação que iria sofrer uma reforma.- e ninguém sabe por onde anda seu rico acervo e como está sendo conservado. Procurei alguma nota pública no site da Fundação Gregório de Mattos ou mesmo no em várias publicações  sobre este absurdo, e só encontrei reclamação de turistas que se dirigiram ao Museu e encontraram  as portas lacradas sem qualquer aviso, inclusive as existentes nas redes sociais. Coisas dos péssimos gestores que hoje comandam o nosso Estado.
 Olhe que o Museu continua nos guias dedicados ao turismo como  está em funcionamento. Nem este cuidado eles têm de informar ao público para evitar constrangimento e frustração.
 O que queremos saber é onde está o rico acervo deste museu que foi reunido com dedicação e esmero , por sinal por uma mulher dinâmica casada com Jaime Magalhães , um dos irmãos do avô do ACM Neto, a saudosa Elyette de Guimarães Magalhães, que veio a falecer em 20 de agosto de 2017, com o museu já lacrado.
Obra de Presciliano Silva ,
" A Sé sob o Luar"
  
O MUSEU 
Este Museu da Cidade do Salvador tinha um rico acervo e poderia ter sido acrescentados muitos objetos e obras de arte de valor histórico e cultural no decorrer dos anos após sua fundação. Mas, como diz um blog conhecido "A Bahia é a terra do já teve", os que a administram tratam de destruir o que que bom encontram pela frente. Isto vem acontecendo com este museu, que se propunha a contar a História da Cidade através de objetos que pertenceram a grandes baianos como Castro Alves , esculturas, pinturas, trajes de Orixás e  adereços de prata e ouro usados no período Colonial . No acervo constam obras de Presciliano Silva,Mendonça Filho,Alberto Valença , Henrique Oswald, João Alves, Geraldo Rocha, Caribé, Jenner Augusto, Carlos Bastos,esculturas de Agnaldo Silva, jóias do joalheiro e etnógrafo Waldeloir Rego, e da artista Liane Katsuki, hoje morando na Holanda;coleção de bonecas de pano, mostrando como brincavam as crianças na Salvador colonial, tradição esta  ainda hoje presente no interior do Estado. Portanto, encontrávamos por lá uma série de obras e objetos importantes reunindo manifestações sagradas e profanas. 
Escultura de Agnaldo 
 Silva- Máscara II
Lembro do dia da inauguração em 5 de julho de 1973 , e a satisfação de Elyette de Guimarães Magalhães andando de um lado para outro nos salões do Museu cumprimentando os convidados.
Ela escreveu no catálogo datado de  março de 1975 " Qualquer coisa que vocês façam contra a sua preservação e o bom funcionamento, me faz sofrer como se fosse atingida pessoalmente. Esta casa é como se fora a minha casa".
Joias de Baiana - Festa Sagrada
- em ouro

Em setembro de 1978 promoveu o I Encontro de Arte da FUMCISA - que era a Fundação Museu da Cidade do Salvador, que administrava o museu , reunindo obras de dezenas de artistas. Escrevi na época nesta coluna : O Encontro é organizado por Elyette Magalhães e aqui devo registrar o seu esforço em realizar exposições com certa coerência de qualidade e temporalidade".
Parte dos objetos da Coleção do poeta
Castro Alves.
 Atualmente, o que vemos são reações de indignação como da turista paulista Suellen Galhego que foi visitá-lo em março de 2019, baseada num Guia Turístico da Cidade do Salvador. Ela encontrou o Museu fechado. Daí  registrou , entre muitos outros, nas redes sociais :" Fui visitar o museu, porém para minha desagradável surpresa quando cheguei, descobri que ele foi fechado para reforma e nunca mais foi reaberto."
Portanto, é um problema de prioridade. Preferem destinar milhões e milhões de reais para blocos e artistas milionários durante o Carnaval do que investir na Cultura e particularmente em nossos museus.













sábado, 16 de maio de 2020

O QUE FOI A EXPOSIÇÃO GERAÇÃO 70

Visão de uma das salas onde foi montada a
exposição no Museu de Arte
A exposição Geração 70 que coordenei juntamente com o saudoso amigo, e meu ex-professor de Geografia, no colégio Salesiano, Ivo Vellame, surgiu de umas conversas entre nós e alguns jovens artistas oriundos da Escola de Belas Artes, da UFBa , onde ele era diretor.
Estávamos no ano de 1985,quando havia um certo marasmo em Salvador dos movimentos artísticos. A nossa ideia foi evoluindo e queríamos continuar com este movimento chamando outros artistas e realizando novas exposições. Eu trabalhava no então prestigioso jornal a A Tarde, que era o maior do Norte e Nordeste , e tinha repercussão quase tudo que ali era publicado.
O maestro Fred Dantas com seus músicos
 deram um show
Diante das dificuldades financeiras só conseguimos reunir 10 artistas, também devido ao espaço reduzido que nos foi cedido  no Museu de Arte da Bahia , localizado no Corredor da Vitória. 
Foi uma das  maiores de todas as mostras em presença  de público , naquela época. No dia da exposição o trânsito ficou prejudicado em frente ao prédio do Museu de Arte da Bahia. Tivemos apresentação de Dança, sob a direção de Livia Serafim, de Teatro,  e a Orquestra de Fred Dantas animou a exposição. Foi um dia de alegria em Salvador. 
Performance comandada pela dançarina
Lívia Serafim
Um agradecimento ao Heitor Reis, que teve sensibilidade e não mediu esforços para apoiar a exposição, quando era Coordenador  Artes Visuais da Fundação Cultural da Bahia. Lembro que até o governador Antônio Carlos Magalhães esteve visitando a exposição. Também, conseguimos um patrocínio do Banco Econômico , este banco baiano que tanto ajudou a cultura da nossa terra , e as obras sociais de irmã Dulce. Foi perseguido até o seu fechamento no governo de Fernando Henrique Cardoso , juntamente com o Bamerindus, do Paraná, o então presidente do Banco Central da época era o jovem  Gustavo Franco.

ARREMEDOS

Estes arremedos que alguns vivem insistindo  fazer com o nome da Geração 70 pode representar tudo, menos àquele momento histórico de 26 de julho de 1985. Era outro ambiente cultural, era outra atmosfera  que vivia o país e particularmente Salvador. Alguns dos artistas que participaram não estão mais aqui como o Fred Schaeppi e Chico Diabo. Todos envelhecemos e  tomamos outros caminhos que não coincidem com aqueles que eu e Ivo Vellame levamos adiante.
Nunca quis tutelar ninguém, nem mesmo levantar bandeiras . Mas, é preciso respeitar as ausências, e o que fizemos naqueles dias de dificuldades, inclusive evitando divergências, quase intransponíveis, pera  levar a cabo esta exposição que marcou época.
Capa do catálogo da exposição que marcou
época
Lembro que alguns artistas mais afoitos, e que ficaram de fora da exposição Geração 70 realizaram uma mostra alternativa - estava em moda coisas alternativas - no foyer do TCA , mas não tiveram sucesso. Foi um fracasso. Mas, valeu pela rebeldia. Então partiram para tentar desqualificar a exposição Geração 70, inclusive com a ajuda de alguns professores da Escola de Belas Artes. De nada adiantou. A mostra foi vitoriosa e retumbante. Coisas do provincianismo baiano.
O nosso interesse, meu e de Ivo Vellame , era continuar com este movimento realizando outras exposições com artistas desta geração que ficaram de fora. Porém,  diante das divergências resolvemos parar por ai. Inclusive porque percebemos  ingratidões , e a dificuldade de convivência entre  alguns do grupo.
Nós não registramos o nome Geração 70, mas, os arremedos nunca chegarão de perto a representar àquela mostra histórica. Se alguém um dia for escrever sobre a História da Arte recente da Bahia não pode esquecer esta exposição realizada no Museu de Arte da Bahia, em 26 de julho de 1985.
Contamos com as presenças do governador Antônio Carlos Magalhães; do Secretário do Trabalho e Bem Estar Social, Rafael Oliveira; dos artistas Carlos Bastos, Nilda Spencer, Clyde Morgan,  do político Fernando Schmidt,  ex-Diretora da Fundação Cultural, Olívia  Barradas, e de muitos e muitos outros que prestigiaram a exposição. Foi um sucesso !

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS MIRAGENS DE SIRON FRANCO

"A Vigésima Sétima Miragem", este  boi vermelho .
Morador de Goiânia o  Siron Franco sempre foi um artista inserido nos fatos que aconteceram e acontecem em nosso país. Já fez algumas de suas principais exposições denunciando as vítimas de crimes , e também daquele acidente que contaminou e matou várias pessoas devido a manipulação de produtos radioativos, já enfocou a matança de animais silvestres, a defesa das nossas matas, a dureza do regime militar  etc.
Portanto , sua arte está sempre focada em algo real que de alguma forma o incomoda e instiga . Ou seja , o que move o artista são estes acontecimentos que permeiam os noticiários nacionais ou internacionais , o que demonstra ser um artista plugado e antenado na realidade que o cerca . Sendo assim , sua arte tem um conteúdo político e social. 
"Décima Quarta Miragem" , aberta a interpretações
Por ter uma capacidade criativa muito extensa  pode também pintar uma série de obras pelo prazer de pintar , tirando inspiração armazenada em informações e sentimentos outros que permeiam a sua mente aguçada , inclusive sonhar e imaginar miragens que permeiam a sua vida. 
Como diz o Charles Casac , no catálogo de sua exposição , ora na Galeria Paulo Darzé , "Na década de 1960 elaborou a série Era das Máquinas , depois vieram prostitutas travestidas de madonas , executivos e exercício de perversão , anjos espiões e voyeurs , orgias e divertimentos dos reis , comandantes militares e oprimidos sob o clima da opressão , que marcou o regime militar período esse em que o léxico do artista estava em formação ".
Estes ciclos ou momentos de sua  trajetória são como páginas de um livro ou cenas de um filme documentando a produção  pictórica de Siron Franco.
Atualmente com a temática  Miragens fica difícil ou quase impossível alguém interpretar estas visões oníricas de Siron Franco porque são muito pessoais , e a arte quando precisa ser explicada cai num campo que prefiro deixar de lado. Vamos  sentir e admirar as cores , os traços , as figuras sutilmente sugeridas ou não , e nos  emocionar com este conjunto de elementos  que vibram como notas musicais numa escala infinita.
Siron Franco ao lado do
galerista Paulo Darzé.
É neste campo da ilusão que está conduzida esta nova exposição deste grande artista de renome nacional e internacional . Diz ele no livro-catálogo da sua mostra que não se importa com as críticas e que não responde apesar de ler e reler.
Está portanto dando uma clara demonstração que se importa sim com as críticas a ponto de ler e reler. Se não se importasse nem as lia ou  olhava. Também ,  disse que é bem humorado . É verdade . É muto bem humorado e falante , agradável e envolvente como um artista que vibra como suas obras de cores fortes e traços marcantes.
Imagem do humor de Siron Franco
Ninguém , tenho certeza , que gosta de arte vai  querer faze-lo triste , ao contrário , eu mesmo quero vê-lo sempre alegre , produzindo a fazendo o sucesso que merece pela qualidade da sua obra e seu jeito de ser . 
Estive algumas vezes com Siron , desta vez infelizmente não pude encontrá-lo por estar com alguns problemas que exigiam a minha presença.
Quando você começa a falar do Brasil , das dificuldades que o país vem enfrentando através dos anos , especialmente nas últimas décadas ele acha que nosso Brasil  " é muito cruel com seu povo, é extremamente perverso . Este é um país onde morrem tantas crianças de fome e não dá para esquecer suas tragédias . Disto eu brado e meu brado é minha arte . Sempre estive envolvido com o povo e não aceito o as coisas como são".
 Perfeito , os que tem alguma sensibilidade , independente de ideologias , também ficam revoltados com os privilégios exagerados , com as discrepâncias , com a roubalheira , com os fundos eleitorais , que tiram dinheiro da saúde e da educação para financiar a corrupção.
Você se manifesta com sua arte , e eu aqui com meus textos e posts em todas as plataformas digitais . Isto  porque amamos o nosso país e a sua gente. Um abraço e mais sucesso para você.
A exposição permanece até o próximo dia 13 de dezembro, e a Galeria Paulo Darzé fica na rua dr. Chrysippo de Aguiar, 8, uma transversal do Corredor da Vitória, Salvador, Bahia. www.paulodarzegaleria.com.br


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

UM ARTISTA COM OLHOS ABERTOS PARA O MUNDO

O artista Sérgio Rabinovitz em seu Home-Atelier no bairro de Amaralina.
Sua primeira experiência foi buscar uma opção para sua felicidade individual. Estudou Física e depois Arquitetura , mas sempre deixando pelo meio do caminho. A arte o chamava , e solitariamente começou a fazer alguns trabalhos até que seu pai um grande violinista da Orquestra Sinfônica da Bahia o  pegou pela mão e apresentou-lhe ao saudoso artista  Calazans Neto. Este grande gravador que encantou a nossa Bahia e o Brasil com sua arte focando nas cabras,  baleias, nos mistérios do Abaeté , no mar de Itapuã com suas embarcações e também no casario colonial . Assim começou sua trajetória artística . Calá com seu jeito cheio de generosidade colocou as ferramentas da xilogravura em suas mãos ,  ensinou-lhe a imprimir , e depois de um período disse que não tinha mais nada para ensinar . Fez uma carta de apresentação para Mário Cravo , sem antes dizer pode voltar quando quiser para imprimir ou trabalhar em suas gravuras e lhe presenteou com uma pequena xilogravura.
Lá chegando notou que o espaço da gravura estava um pouco deixado de lado pelo mestre Mário Cravo envolvido em suas esculturas modernas.  Ai ele teve que limpar e preparar as ferramentas e a prensa para continuar sua busca numa perspectiva de vida que lhe tornasse plenamente feliz. Os que conheceram Mário Cravo  , o grande escultor , reconhecido mundialmente , sabem do temperamento aberto e instigante. Neste atelier passou muita gente importante inclusive o gravador Oswaldo Goeldi chegou a realizar alguns trabalhos naquela prensa , que teve que ser recuperada.

BOLSA NOS ESTADOS UNIDOS

Cartaz anuncia  lançamento do livro
Foi ai que tomou conhecimento de um concurso para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos promovido pela Fundação Fulbrightc  para a Wesleyan University , que fica no estado de Connecticut. Coube a diplomata americana Frances Switt , uma ativista cultural que teve presença importante na Bahia nos meios culturais nos anos 70 em nossa Cidade , avaliar juntamente com artistas baianos e Sérgio Rabinovitz foi selecionado.
Sérgio chegou a fazer uma exposição na sede da Associação Cultural Brasil - Estados Unidos , que funcionava no Corredor da Vitória em 8 de agosto de 1975. Esta mostra aconteceu logo após a inauguração da sede da entidade , que por coincidência teve como atração uma exposição de Calazans Neto . Eram gravuras que ele produziu depois de uma viagem aos Estados Unidos insprada  nos jazzistas populares de New Orleans . Já a exposição de Sérgio as gravuras foram impressas nos ateliers de Mário Cravo e Emanoel Araújo , que ele conhecera nesta época.
Lembra Sérgio Rabinovitz  que ao chegar aos Estados Unidos um mundo novo se abriu naquela universidade que tinha uma metodologia de ensino aberta e um acervo de gravuras fantástico com obras de Picasso, Rembrandt , Dürer , Paul Gauguin e de  outros monstros da arte mundial. O importante é que os alunos podiam consultar este material como elemento de referência e pesquisa. Isto causou um grande impacto no jovem artista baiano que lá permaneceu um ano e meio, seguindo depois para Nova Yorque.

                                                VAI PARA NOVA IORQUE

Obra recente onde vemos uma samambaia interferindo.
 Foi estudar noutra universidade especializada em arte. " Era o lugar que todo mundo que queria estudar arte gostaria de estar", diz o artista . Foi a Cooper Union Arts School. Tinha que se virar para morar em Nova Iorque e passou a estudar gravura, litografia, gravura em metal, misturando com litogravura. Foi ai  que começou a romper os limites da gravura e a interferir usando materiais descartados  que estavam ali no atelier da universidade . Ai já as transformava em desenho. Começou a desenhar sem sentir e dai para desenhar em papel foi um passo normal.
Nesta universidade os professores davam metas e submetia os alunos a uma crítica coletiva dos colegas . Não tinha agenda rígida e muitas vezes nem precisava ficar em sala de aula . Tinha que apresentar o produto , o resultado. Eram ministradas  aulas de História da Arte, que davam a base de conhecimento. "Eu me apresentava para projetar os slides das aulas, e assim ganhava alguma grana que era paga pela própria Universidade. Com isto prestava mais atenção e aprendia mais ", diz Sérgio . Em 1978 se graduou em bacharel em Artes Plásticas. 
Ficou por lá até 1979, mesmo terminando o curso. Estava num momento que era mais fácil ficar lá do que vir pra cá e começar tudo de novo. Um professor lhes disse mais ou menos assim  "Você quer ser um cisne num pequeno lago ou ser um pato num universo bem maior? " Foi ai que respondeu que queria ser um cisne em seu próprio país , não por vaidade, mas para produzir e mostrar sua arte aqui.
De lá para cá Sérgio Rabinovitz consolidou sua carreira como um artista que utiliza de vários materiais para expressar sua arte. Já fez inúmeras exposições aqui e no exterior e vive exclusivamente de sua arte.
    
ABERTO AO MUNDO

Passei uma tarde agradável com Sérgio em seu atelier .
Seu Home-Atelier é um braço estendido a colecionadores do mundo inteiro, inclusive aos galeristas que levam seus clientes para conhecer pessoalmente o artista. Também seus trabalhos  estão lá  dispostos como se fosse num acervo de uma galeria ou numa reserva técnica de um museu.
Ele pretende ainda abrir seu atelier para visitas programadas de escolas quando  mostrará as suas obras e explicará como são produzidas. Fará ainda Workshops para despertar novos valores e contribuir para aprimorar as técnicas da gravura e pintura.
 Sérgio  é um artista ligado em seu tempo, em sua contemporaneidade. A arte produzida por ele pode ser colocada em qualquer museu de arte moderna do mundo . Ele  está atento a isto colocando à disposição de colecionadores e museus nas várias plataformas digitais que estão  ai disponíveis. 



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

UMA EXPOSIÇÃO À ALTURA DO GÊNIO LEONARDO DA VINCI

O cartaz da mostra que impactou milhares de baianos
 Nada menos que umas cem mil pessoas visitaram a exposição O Gênio dos Gênios - Leonardo Da Vinci  organizada pelo engenheiro e artesão Thales de Azevedo Filho, no Palacete da Artes, no bairro da Graça, em Salvador. 
Foi uma das surpresas agradáveis que tive nos últimos anos em termos de exposição , e a revelação de um grande artista capaz de reproduzir em maquetes funcionais várias invenções do gênio Da Vinci.
Uma visão parcial do salão onde estava a
maioria das obras.
Fui visitar a exposição no último dia, e tinha tenta gente que quase as pessoas não conseguiam se movimentar, inclusive famílias acompanhadas de crianças, as quais na espontaneidade que lhes é peculiar mexiam nas maquetes com frenesi.
Está fazendo 500 anos da morte do grande gênio italiano ( 1452- 1519) e o engenheiro Thales Filho  levou nada menos que doze anos construindo suas maquetes reproduzindo as invenções de Da Vinci . Ele informou que  visitou várias exposições no exterior,  e assim foi construindo suas maquetes como a do avião, stand-up, boia de salvamento, escafandro, várias máquinas de guerra, navios civis e militares, além de apresentar algumas reproduções de suas obras marcantes e lá estava a Mona Lisa. 

O paraquedas
criado pelo gênio 
Outro destaque foi a instalação de um Anemômetro feito de tubos cônicos com raios de abertura capaz de medir a intensidade do vento. Os visitantes se divertiram muito ,  e embora houvessem vários monitores, eles não conseguiam atender a todos. Assim,  as pessoas mexiam espontaneamente nas manivelas e hastes colocando as maquetes para funcionar. Portanto, além da surpresa das maquetes elas proporcionam uma formidável participação e interação com o público.
O engenheiro e artista Thales de Azevedo
 Filho  segurando na maquete do casco
de um navio militar .




Quando chegava para visitar a exposição encontrei o diretor do Museu Rodin, que funciona no Palacete das Artes, Murilo Correia Ribeiro. Ele estava muito satisfeito e surpreso com a participação do público e disse que vai promover gestões para que a mostra retorne,  tão logo cumpra outras pautas previamente programadas.

terça-feira, 30 de abril de 2019

CHICO VIEIRA E SEU ABSTRACIONISMO TROPICAL

Chico Vieira trabalhando  em seu atelier
O artista Chico Veira é uma dessas figuras integradas  à paisagem do Centro Histórico de nossa Salvador. Ele mais do que ninguém, porque nasceu  na Rua 28 de setembro, e atualmente mora e mantém o seu atelier na Rua do Açouguinho, número 4. Vive  produzindo sua arte, pintando ou fotografando tudo que acha interessante. Como bom baiano adora conversar, e ao encontrar um amigo de longas datas, especialmente se havia muito tempo que não se encontravam , ai o papo se estica e a alegria contagia.
Por várias vezes, fui procurado pelo artista no início de sua caminhada pelos corredores da arte. Estava iniciando , e me impressionou sua capacidade de sintetizar os volumes , sem detalhar as fachadas dos casarios , utilizando um colorido especial.
Diz o artista que suas obras apresentam uma mistura do barroco trazido da Europa , que pode ser notado nas espirais que as compõem, e "harmoniza a fé e a razão". Com suas linhas e cores  procura esta miscigenação de culturas tanto a europeia, indígena, e predominante a africana. Lembra que
Obra mostra oabstracionismo
 e no centro uma imagem
do Pelourinho.
"são fragmentos do barroco, trazido pelos portugueses, do geometrismo dos índios e africanos ", que segundo ele lhe permite esta linguagem visual e pictórica do que denomina de Abstracionismo Tropical.
Seu nome é Francisco Carlos Vieira Borges, nascido em 1948, assina Chico Vieira. Estudou nas escolas públicas do Centro Histórico,foi recruta da Marinha do Brasil, e também frequentou a Escola de Belas Artes , quando funcionava na 28 de Setembro.
O saudoso professor  Vivaldo Costa Lima, que foi chamado pelo então prefeito e depois governador Antônio Carlos Magalhães para comandar a restauração do Centro Histórico que estava totalmente em ruínas lhe abriu as portas e mostrou a importância da cultura africana.
Trabalhei algum tempo no início da restauração com o professor Vivaldo Costa Lima, que tinha um temperamento intenso, e vibrava com aquele trabalho.
 Lembro do seu embate com o empresário e saudoso Deraldo Motta que queria instalar o Sesc no casarão onde o mestre Pastinha ensinava sua capoeira de Angola. Terminou o Pastinha sendo desalojado, e foi viver o resto de seus dias num dos casarões da rua que dá acesso ao centro do Pelourinho, se não me engano o de número 14.

Neste belo casarão funciona
o ateliê do artista
Chico trabalhou nos serviços de restauração do  Museu  do Carmo, participou das feiras de artes da Praça da República, em São Paulo, e da Praça General Osório, no Rio de Janeiro.
Em 1971 ganha bolsa para a Escola de Belas Artes de Berlim, e em 1975 consegue  bolsa ,
da Fundação Gulbenkian para estudar gravura em metal em Portugal.Chico Vieira diz que na Alemanha  "descobri novos horizontes". Depois foi morar em Barra Grande, no município de Vera Cruz, e no início dos anos 90 retornou ao seu berço natal, o Pelourinho.
Já fez inúmeras exposições aqui e fora do país. Portanto, tem uma bagagem suficiente para se apresentar aos que gostam das artes visuais.
O Chico Vieira batizado como Francisco Carlos Vieira Borges era um desses personagens baianos que você encontra no Centro Histórico de Salvador com os cabelos desgrenhados, a barba crescida e camiseta colorida, de bermudas e empunhando uma sandália japonesa. Nasceu e se criou naquele ambiente do Pelourinho portanto era uma pessoa completamente integrada aquele espaço e um dos autênticos representantes da fauna local. Gostava de batucar e tomar umas cervejinhas para alegrar. Mas, por trás desta figura singular tinha um artista vigoroso e experiente que já tinha vivido alguns anos na Europa e lá estudou em importantes instituições. Em 1971 ganhou uma bolsa de estudos e foi para a Alemanha frequentar a Escola de Belas Artes de Berlim onde ficou até 1974, e em 1975 ganhou outra bolsa de estudos para cursar Gravura em Metal concedida pelo Governo Português na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Lá conheceu sua esposa Ana Ortigão com quem tem três filhos, todos morando em Portugal. O Chico Vieira sempre gostava de identificar suas obras dentro de uma visão antropológica, talvez numa clara influência dos ensinamentos do mestre Vivaldo Costa Lima. Quando pintava pessoas sempre dizia que a obra é da série Antropologia Visual, principalmente se tinha alguma participação dessas pessoas que residem ou trabalham na área do Centro Histórico. Até os vídeos que fazia quando ocorria um evento o Chico Vieira me enviava e lá estava escrito Antropologia Visual. Enquanto a sua obra propriamente a dita cacicava de um abstracionismo tropical porque ali estão inseridos elementos que marcam muito nossa situação cultural e geográfica.
Obra da atual produção do
artista

Era o último dos filhos do casal Carlito Vieira Borges e Clarissa Azevedo Reis, porque seus pais tiveram cinco filhos e todos os quatro irmãos já haviam falecido. Nasceu em 4 de outubro de 1948 na Ladeira de São Francisco, número 3, em Salvador, quando a área ainda estava completamente degradada e ali funcionava o que chamamos de baixo meretrício. Durante a entrevista rindo Chico Vieira disse que sua mãe era uma espécie de agiota e emprestava dinheiro a juros para as prostitutas e outras pessoas que viviam ali. Estudou o primário e o ginásio em escolas da área na Escola Urânia da Bahia e na Escola São Lourenço. Quando sua mãe faleceu tinha apenas 14 anos de idade. Na juventude participou do movimento estudantil contra a ditadura militar, e também do tropicalismo que dominou a Bahia, dos carnavais na Praça Castro Alves e frequentou nas tardes de domingo as sessões dos cinemas Jandaia, Pax e Tupi na Baixa dos Sapateiros. Em 1966 seus parentes resolveram colocá-lo na Escola de Aprendizes Marinheiros, que funciona na Cidade Baixa, em Salvador. Foi muito importante para sua formação porque tinha excelentes professores além de disciplina e formação do cidadão. Ficou na Marinha por três anos e concluiu o segundo grau.

                          OPTOU PELA ARTE

Chico Vieira em seu ateliê do Pelourinho.
Naquela época a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia funcionava num prédio em estilo colonial na Rua 28 de Setembro, portanto no Centro Histórico, e foi quando em 1968 ele fez o vestibular sendo aprovado. Também estudava no curso livre de alemão no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, que até hoje funciona no Corredor da Vitória, atualmente com o nome de Instituto Goethe. Enquanto estudava trabalhou na restauração do Museu do Carmo e participava das feiras de arte do Terreiro de Jesus, em Salvador. Também chegou a expor suas obras nas feiras de artes das praças da República, em São Paulo, e da General Osório, no Rio de Janeiro.

Toda esta sua trajetória contou com o apoio irrestrito do professor Vivaldo Costa Lima, já falecido, que foi o homem que liderou a restauração da área nos governos de Antônio Carlos Magalhães e nos subsequentes. Eles iniciaram e concluíram grande parte da reforma do Centro Histórico de Salvador. Com muita competência e determinação Vivaldo Costa Lima defendia que os moradores locais deveriam permanecer e para isto criou uma política de qualificação profissional. Para as crianças tinham vários programas com vistas a criar condições de uma sobrevivência digna. Trabalhei no início da recuperação do Centro Histórico juntamente com o meu amigo o saudoso Gey Espinheira que era o responsável pelos programas sociais. Nos formamos em Ciências Sociais na mesma turma da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFBA, que funcionava na Av. Joana Angélica onde hoje está o Ministério Público Estadual. Como eu tinha também a formação em Comunicação trabalhava na Assessoria de Imprensa. Vivaldo era etnógrafo, um homem culto e muito temperamental. Presenciei alguns embates dele por discordar de orientações vindas dos governos federal e estadual porque tudo era feito de comum acordo entre o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia -IPAC e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

O professor Vivaldo Costa Lima procurava de todas as formas proteger os locais e quem cuidava desta parte, deste contato direto era o Gey Espinheira por ser uma pessoa calma e que compreendia inclusive a resistência de alguns moradores que eram contra a reforma. A situação local era tão caótica que lembro que o fotógrafo Magno Cardoso, ia fazer a documentação dos imóveis em ruínas e tinha que ser acompanhado de algum segurança porque senão a máquina era roubada. Poucos tinham a coragem de andar pelo Maciel de Cima e Maciel de Baixo e outras ruas do Centro Histórico. Em outra ocasião eu estava fazendo uma reportagem com um fotógrafo da revista Manchete, do Rio de Janeiro, quando apareceu um ladrão e tentou arrebatar a sua máquina fotográfica Rolleyflex. Não conseguiu e entrou num daqueles casarões em ruínas. Até hoje o Centro Histórico ainda oferece perigo para os locais e visitantes.

Chico falando do chamamento que
acreditava  ter recebido.

                                        CHAMAMENTO

Voltando ao Chico Vieira depois desta permanência na Europa ele contou que
seus parentes daqui da Bahia ficaram preocupados porque não dava notícias. Na época sua família morava no bairro de Castro Neves, em Salvador. Foi então que um irmão seu conseguiu uma fotografia 3 x 4 dele que estava num álbum de quando servia na Marinha do Brasil e levou até o seu tio Antônio Vieira, que chamava de tio Tonho que era pai de santo em Maragogipe, no interior da Bahia. O tio amarrou a foto no pé de um pombo e fez um “trabalho” pedindo para que ele voltasse. Revelou ainda o Chico Vieira “que no ano de 1976 um dia estava numa praia em Portugal com a família quando recebi inexplicavelmente uma espécie de chamamento e decidi voltar para Salvador.” Falou ainda que seu tio Tonho todos os anos no dia do aniversário em 11 de agosto, ele fazia um ritual com matança de animais e isto ficou marcado em sua infância.

 Chico Vieira trouxe a mulher e os filhos, um menino e duas meninas.” Foram morar em Itaparica e lá construíram uma casa em Barra Grande onde moraram de 1983 a 1986. Nesta época pinta obras contando a História do Brasil de 1500 a 1900, concluindo em 1987 utilizando a técnica mista e de colagens e inicia o Projeto Pró-Índio. Vivia da pintura e da ajuda da família da esposa. Um dia o sogro já idoso veio a Salvador com a intenção de leva-los para Portugal porque ele precisava dividir os bens que tinha. Foi aí que Chico Vieira concordou que ele levasse o menino para lhe fazer companhia. O Chico Vieira botou o pé firme e não aceitou voltar. Tempos depois a esposa teve que retornar a Portugal com as duas filhas e estão por lá até hoje. Nesta obra ao lado vemos sua habilidade no desenho e no uso das cores. Obra feita en nanquim e aquarela sobre papel fabriano que ele denominou de Cabeça Ecológica.

                                                                                                                                                                                                         LEMBRANÇAS

De sua permanência em Portugal lembrou que Lisboa estava numa efervescência social, política e cultural muito grande. Foi a época da chamada Revolução dos Cravos e da independência de várias colônias portuguesas na África.  Tinha a Casa de Angola, em Lisboa e lá conheceu vários líderes revolucionários africanos entre eles Samora Moisés Machel. Foi um líder moçambicano socialista que liderou a Guerra da Independência de Moçambique e seu primeiro presidente após a independência em 1975 e morreu em 1986. Disse o Chico Vieira que vivenciou muito do movimento na Revolução dos Cravos.  Atestam os livros de História que “Foi um levante militar e popular que ocorreu em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, e encerrou a longa ditadura liderada por Antônio Salazar. Nos anos 1970, os portugueses enfrentavam uma grave crise econômica, o que gerou insatisfação com o governo português. Além disso, as lutas pela independência das colônias portuguesas na África fizeram com que essa insatisfação se intensificasse.”

EXPOSIÇÕES

Sua primeira exposição individual foi realizada em 1973 em Berlim, entre os anos de 1977, e em 80 participa da Bienal de São Paulo e fez uma exposição individual no ICBA, em Salvador; em 1981 retorna à Europa e faz exposições em Berlim e Lisboa. Em 1986 expõe no Museu da Cidade do Salvador, que funcionava no casarão no Largo do Pelourinho, ao lado da Casa de Jorge Amado. Em 1993 saiu da ilha de Itaparica e decidiu retornar ao Pelourinho e instala o seu ateliê, e aí volta a se entrosar com o movimento artístico local; em 1997 participa da exposição coletiva Pinte o Pelô e também em 1999 de outra coletiva na cidade de Mineapolis, nos Estados Unidos chamada de Expo 500 anos; em 2000 de uma mostra na Galeria do IPAC; 2000 de uma coletiva de artistas brasileiros chamada de Encontros do Fim do Mundo, em Algarve, Portugal; de 2001 a 2003 participa de várias exposições coletivas e individual no Algarve, Portugal; 2003 fez uma individual na Casa 8, em Salvador, Arte Espontânea Brasileira; em 2007 lança o álbum de gravura em metal Abstracionismo Tropical, em Genebra, na Suíça; participa da instalação Pintou Natal no Pelô e em 2012 fez uma exposição de pinturas na Casa da Nigéria da Bahia comemorativa do quarto aniversário de inauguração .

O economista Dilton Machado escreveu um texto sobre a trajetória de Chico Vieira que aqui reproduzo em parte: “Todo este mosaico vivencial se traduziu naquilo que Chico Vieira denominou como abstracionismo tropical, expressão manifestada através de pinturas que saltam das telas em cores e formas que refletem predominantemente a brasilidade decorrente de nossas origens africanas e indígenas.” E continua: É gratificante sentar na Rua do Açouguinho, em frente ao seu ateliê, e observar o impacto que sua obra causa nos passantes, sejam eles baianos, turistas estrangeiros, emergentes das classes C e D, privilegiados com maior poder aquisitivo, intelectuais letrados, estudantes em formação, idosos, adultos, jovens, crianças e até os muito doidos que circulam perdidos pela área parecendo não conseguir desgrudar da sensação hipnótica e convidativa que seu trabalho produz”.






quinta-feira, 25 de abril de 2019

MUSEU AFRO REÚNE OITO ARTISTAS EM EXPOSIÇÃO

O mestre Juarez ao lado de Márcia Magno sua
esposa e escultora de renome tendo ao
fundo o ônibus que pintou do Projeto Axé.
Nas minhas idas ao Centro Histórico tive a felicidade de encontrar o artista Chico Vieira, que reside no Pelourinho , e estava fazendo sua caminhada. Havia uns 30 anos que não o encontrava pessoalmente, e juntos resolvemos ir ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira , que fica  na Rua do Tesouro. 
Lá visitamos a exposição Muncab em Movimento  que reúne os artistas Juarez Paraíso, Juraci Dórea, César Romero, J. Cunha, Guache Marques ,  Yedamaria e Babalu. 
Esta exposição valoriza os "aspectos da cultura matriz africana, destacando a sua influência sobre a cultura brasileira", explica no texto de apresentação o atual diretor da instituição o poeta e compositor José Carlos Capinan.
As faixas emblemáticas de Cesar Romero
Observando as obras vemos que estes artistas, com suas visões e técnicas diferenciadas, tem um laço forte de união nesta mostra, onde a influência afro é uma forte presença . Todos são oriundos da
Geração 70, com exceção de Juarez Paraíso que tem uma década de antecedência. 
Tive ainda o prazer de encontrar José Carlos Capinan, o autor de Ponteio, que ganhou juntamente com Edu Lobo o III Festival de MPB da TV Record, em 1967. Hoje ele dirige o Museu Afro ,  e é um entusiasta desta mostra que precisa ser mais divulgada para receber um número de visitantes à altura de sua importância.
Obra de Gauche com símbolos afros
Capinan nos convida a visitar o MUNCAB e ressalta que logo na chegada o visitante se surpreende com um belo gradil construído em chapas de ferro e com esculturas narrando as "contribuições dos afros descendentes à nossa cultura criando assim a diversidade cultural mais bem sucedida do Planeta. O gradil  intitulado de "As Histórias de Ogum" é de autoria do artista J. Cunha , tem além de sua importância artística a função pedagógica, diz o poeta, "além de oferecer aos visitantes  um belo momento de fruição estética..."

                                                        A 

EXPOSIÇÃO

Os oráculos de J. Cunha com motivos afros.



Obra de Juraci Dórea homenageia
grandes nomes da arte mundial.
O mestre Juarez Paraíso dispensa apresentação por sua grande bagagem e pelo domínio de várias técnicas de artes plásticas e gráficas. Já realizou esculturas , murais em edifícios públicos e privados. Grande fotógrafo , além de autor de figurinos, cenários. É difícil encontrar uma atividade artística onde o Juarez não tenha dado a sua contribuição, até mesmo nas festas populares como no Carnaval da Bahia. Ele apresenta um trabalho que fez em colaboração ao Projeto Axé. Trata-se de um ônibus que foi pintado com motivos afros. Este ônibus é utilizado pelo projeto para exposições móveis e em outras ações culturais. Juarez levou três meses para execução do trabalho. 

Juraci Dórea
traz uma homenagem à História da Arte e referências a  Mondrian e  Duchamps .Homenageando Mondrian  ele apresenta três objetos minimalistas, silenciosos, que lembram estilingues ou cabides. Juraci está  sempre ligado à cultura nordestina, a sua literatura de cordel ,  onde sua arte está centrada.
César Romero mostra três obras com suas faixas emblemáticas,  que lhes permite infinitos movimentos com belas variações de cores.
J.Cunha apresenta 15 oráculos em madeira  com elementos afros . Sua produção artística é identificada pelas referências de matrizes africanas  que utiliza há muitos anos. 
Guache Marques mostra pinturas muito bem elaboradas tecnicamente . Também, as obras tem uma influência afro ,e se destacam entre várias outras  integrantes desta mostra. Tem se ocupado em fazer obras com raízes africanas . Atualmente ,está aos  poucos dissolvendo as imagens de símbolos e quase partindo para uma abstração, como uma evolução natural . Tem trabalhado em pintura acrílica e gravuras digitais , onde imprime , e depois atua com tintas. Quase são monotipias, guardando uma identidade, porque houve um retrabalho. Desde os anos 90 que ele vem se inspirando nas raízes das matrizes africanas. 
Obra da saudosa Yedamaria que deixou
um legado de sua arte de qualidade.
Finalmente, dois artistas já falecidos. A professora e grande artista Yedamaria, que morreu em 2016, tem duas belas pinturas expostas ,onde ressalto suas cores vivas lembrando o nosso sol tropical.
Seu nome era Yeda Maria Correia de Oliveira. Morreu aos  84 anos, sendo encontrada morta no apartamento onde morava, no bairro da Pituba, em Salvador. De acordo com pessoas próximas à artista, ela foi encontrada no apartamento, por uma vizinha, . Yeda morava sozinha e sofria de diabetes e hipertensão.E Babalu que nos deixou um legado com seu universo pictórico calcado nos movimentos populares , também tem três obras participando desta importante mostra. Ele faleceu em 2008 era irmão de J. Cunha. Era uma referência na arte primitiva , conjugando o barroco com o popular , e tinha um humor poético apurado. Não deixe de visitar.