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sábado, 17 de maio de 2025

TIMÓTEO LOPES E SUAS GRAVURAS IMPACTANTES

 

O artista Timóteo Lopes com  obras de sua
 autoria no ateliê que mantém no Carmo.
O artista Timóteo Lopes é graduado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e atualmente está concluindo o mestrado na mesma instituição. Baiano de Salvador ele trabalha com gravura, fotografia, objetos, esculturas e intervenções urbanas. Gosta de fazer xilogravuras de médio e de grandes formatos, e a exemplo de todos os jovens artistas, defende a democratização da arte, quer mostrar e dividir a sua produção em espaços públicos onde as pessoas possam apreciá-las. A temática de sua produção gira em torno de elementos da natureza, cenas do cotidiano  e retratos de pessoas conhecidas ou não. Afirma que sua arte tem referências nas manifestações dos povos primitivos das cavernas, ou seja, na arte rupestre e primitiva, mas também dialoga com as artes que utilizam as novas tecnologias.

Obra  premiada, A Despedida 
de  D. Flor. Matriz  com 
1,60 x 2,20 m , 2018.
Na realidade a arte sempre reflete as informações que o artista acumulou nos seus estudos e nas suas vivências, o seu estado de espírito no momento da criação, suas crenças e visão diante do universo, natureza, de um objeto ou uma pessoa. A capacidade de representar é onde se encontra a essência, a individualidade e a identidade de cada artista. O Timóteo Lopes já demonstra que está seguindo esta trilha, e suas xilogravuras atestam a busca por uma identidade criativa. Escreveu que aborda “conexões entre o mundo ao redor e as histórias humanas, explorando materiais diversos e técnicas tradicionais, como a pintura, fotografia e, especialmente a xilogravura, desenvolvendo um diálogo visual que reflita a diversidade da experiência humana”Suas xilos apresentam uma característica técnica especial com centenas de pequenos sulcos  superficiais. Os sulcos  não adentram outras camadas do compensado que lhe serve de suporte para sua arte. Também com a ajuda de goivas e ferramentas mais modernas ele consegue criar texturas únicas através a multiplicidade desses pequenos sulcos que vai alinhando ao redor ou dentro da própria figura que esculpe.

                                                 O ARTISTA

 

Timóteo manejando a prensa
onde imprime gravuras  de
pequenos  formatos.
Matriz de xilogravura  Em Permanente
Modo Avião. Entalhe em compensado
 de  ipê com 1,15 x 1,10 m, de 2025.
Seu nome de batismo é Timóteo Lucas Lopes Brandão e nasceu em Salvador em vinte e nove de janeiro de 1988. Seus pais, o militar reformado, combatente da II Guerra Mundial, José Machado Brandão, e sua mãe d. Tânia Rosali Ribeiro, que é professora primária  do Estado, ora aposentada. Seu pai já faleceu, e ele não tem quase nenhuma lembrança, porque o falecimento aconteceu quando  ainda era criança. Moravam ele e sua mãe  na casa da avó materna no bairro do Jardim Cruzeiro, e recorda das brincadeiras com seus colegas no tempo que as crianças ainda podiam jogar bola na rua, andar de bicicleta. Também  assistiam desenhos animados pela televisão. Lembrou ainda  que desde criança gostava de riscar as paredes  de sua casa e também de locais onde não havia moradores, e que fazia uns desenhos em círculos. Ele e seus colegas passaram a promover competições para saber quem conseguia desenhar melhor os personagens dos desenhos animados. Disse que nessas competições quase sempre se sobressaía com seus desenhos. Estudou parte do primário na Escola da Península, no bairro da Ribeira, e em seguida sua mãe foi ensinar em escolas do subúrbio de Salvador, quando decidiu colocá-lo numa escola próxima onde ela ensinava. Curso o ensino médio no Colégio Francisco de Assis, que funcionava na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré, em Salvador, e no local hoje tem um estacionamento de veículos.

Quando completou treze anos foram morar no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico da capital baiana, e aos vinte e cinco anos de idade decidiu sair de casa. Para sobreviver passou a fazer free lancer em fotografia, chegando a montar um Studio com uns colegas que inicialmente funcionou no bairro da Mouraria, e depois mudaram para o bairro do Canela. Também estagiou durante dois anos no Museu Eugênio Teixeira Leal, no Museu de Arte da Bahia e na Caixa Cultural, todos em Salvador.

Em 2009 decidiu fazer vestibular para Arquitetura, sendo aprovado , cursou cerca de um ano e meio. Em 2011 larga a arquitetura e faz vestibular para a Escola de Belas Artes, ambos os cursos da Universidade Federal da Bahia. Graduou-se em bacharel em Artes Plásticas em 2018, e em 2022 iniciou o Mestrado, o qual está prestes a concluir. Hoje sua mãe reside no bairro do Largo Dois de julho .Como possuía um pequeno apartamento trocou  por uma casa ,em péssimo estado de conservação, no Centro Histórico de Salvador. De lá para cá vem reformando o imóvel, e hoje já tem boas condições de habitabilidade, e aí instalou o seu ateliê. O imóvel fica na Ladeira do Baluarte, número 6, uma casa em estilo colonial, de cor azul, onde Timóteo Lopes expõe suas obras e recebe a clientela. Sempre está promovendo oficinas de gravura, e tem esta pegada de gostar de repassar seus conhecimentos para pessoas que curtem e queiram aprender a arte da gravura, especialmente da xilogravura. Depois de adquirir o imóvel casou, teve uma filha e esta responsabilidade o obrigou a trabalhar mais ainda em busca do sustento da família.


                                        A GRAVURA


Quatro xilogravuras coladas no muro do
projeto A Cara da Rua, 2022. Obra
premiada no 64º Salão de Artes da Bahia.
Durante o curso médio coube  a professora de nome Suzana, da quinta série no Educandário Nossa Senhora do Carmo, lhe apresentar a arte de fazer xilogravura. O Timóteo Lopes não lembra do sobrenome da professora Suzana que levou para a sala de aula as ferramentas e pedaços de compensados para os alunos fazerem suas xilogravuras. Confessa que esta experiência nunca saiu da sua cabeça, e disse ainda que a professora ao dar as ferramentas aos alunos teve o cuidado de alertar para tomarem cuidado para não se cortarem. Ele fez a xilogravura de uma árvore. 
Quando foi fazer a graduação em artes plásticas na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, se matriculou  na disciplina de Gravura I, que era ministrada pelo professor Julian Wrobel, artista plástico e professor especialista nas diferentes técnicas de gravura. Foi aí que aumentou o seu interesse pela técnica da gravura, e de lá para cá nunca mais parou . Durante o curso de Gravura I  em pouco tempo ao invés de fazer uma gravura conseguia entregar duas, e até  três .   O  professor vendo seu interesse e facilidade passou a lhe dar mais materiais. Foi se desenvolvendo e em seguida passou a relacionar a gravura com a fotografia. Ele fotografa e depois transporta as imagens para as placas de compensado, e neste processo vai criando suas composições.
Intervenção em Porto Alegre, 2022.
Quando terminou a graduação fez um trabalho que é o retrato de uma senhora com o charuto na boca. “Fiz a foto e resolvi fazer uma gravura de 1,70 por 2,40cm. Era um desafio. Consegui fazer, e percebi o feedback das pessoas aparovando o meu trabalho". Em 2019 participou da Bienal Professora Malie Kung Matsuda e expôs uma xilogravura saindo vencedor em dois prêmios :de votação popular, com 90% dos votos, e também o prêmio de aquisição. Esta obra encontra-se no acervo da Escola de Belas Artes,da Universidade Federal da Bahia.

                                     EXPOSIÇÕES

Xilogravuras da série Retrato do Invisível,
2023. Xilos  sobre o mobiliário urbano .
Obra premiada na 14ª Edição do Projeto
Arte ao Cubo, em Palmas, Tocantins
.
INDIVIDUAIS - Em 2024 -  Traços do Invisível, Galeria Cañizares, Salvador- BA ; 2023 Retratos do Invisível - Projeto Arte ao Cubo SESC Palmas - TO. COLETIVAS  - Em 2025 – 20º Salão de Artes Visuais de Ubatuba Ubatuba-SP;52º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto , Santo André- SP;  2023 – Exposição A gravura na Bahia a Partir da EBA/UFBa , Galeria Cañizares , Salvador-BA; 2022 – Exposição Ações e Reações nos Processos Artísticos - Galeria Cañizares, Salvador-BA ; 64º Salão Regional de Artes da Bahia - Museu de Arte da Bahia- MAB , Salvador-BA ; Exposição Saravá - Projeto Gás  - Galeria Anita Schwartz , Rio de Janeiro-RJ; 2019 -I Bienal de Artes Visuais Professora Malie Kung Matsuda, Palacete das Artes, Salvador-BA;  2018 - Exposição Onze,  Galeria
Obra Musicians, óleo sobre tela, de 2017.
Cañizares, UFBA, Salvador-BA; 2017 - I Mostra Gráfica, Museu de Arte Moderna da Bahia-MAM, Salvador-BA.

       PREMIAÇÕES

Em 2024 – Premiado em  3º Lugar no 30º Salão de Artes Plásticas de Praia Grande, São Paulo; Premiado em 2º Lugar na Categoria Desenho e Gravura, no Salão de Arte Contemporânea de Campo Mourão, Paraná;  2023 - Artista Selecionado para o Projeto de Ocupação Arte ao Cubo no SESC-Tocantins, Palmas;  2022 - Prêmio Aquisição do 64º Salão Regional de Artes da Bahia ;  2019 - 1°Lugar da Bienal de Artes Visuais Professora Malie Kung Matsuda, Palacete das Artes , Salvador-BA.

 


sábado, 10 de maio de 2025

MARIA LUEDY E A MATERIALIDADE DA SUA ARTE DO PAPEL

Maria Luedy trabalhando 
em sua Ophicina do Papel.
 A artista visual mineira Maria Luedy  gosta da natureza, espiritualidade e da presença. Seu trabalho é alquímico porque transforma  elementos naturais, especialmente as fibras , em materialidades numa perfeita harmonia com o espaço . Se considera uma artista matérica que vai transformando as fibras em vários níveis de estruturas . Também ressaltou que tem dentro dela um certo nomadismo intelectual e seus ateliês são locais que ela visita ou reside temporariamente , se relaciona e colhe os materiais, como fez com o algodão na Índia, a taboa e o araticum no Sitio do Conde,  e a piaçava em Nilo Peçanha, no Baixo sul da Bahia. Disse que seu interesse está focado nas  fibras residuais e esta relação com as fibras e as técnicas que já trabalha e domina vão lhe conduzindo no seu processo criativo de produção de papéis e de vários objetos. Este é o seu discurso como artista porque acredita nos entrelaces para a construção das coisas através destes diálogos. Vê alguma relação da  efemeridade da vida , que  pode se fragilizar em determinados momentos, e em outras situações   se fortalecer, e que isto também acontece com o papel. Destacou que os objetos duros, resistentes são feitos de minúsculas partículas de fibras, desde o pó para fazer uma parede, a uma fibra usada na fabricação de uma peça de automóvel. Citou a fibra óptica que tem a capacidade com seus filamentos contínuos finíssimos, geralmente feitos de vidro ou plástico os quais transmitem luz, permitindo a transmissão de dados em alta velocidade e com baixa perda de sinal. Tem uma vida profissional muito ativa participando de eventos os mais variados, dá palestras, promove oficinas de papel , expõe e ainda acha tempo para fazer alguns cursos aqui e em outros estados.

Maria Luedy abraça uma piaçava
no município de Nilo Peçanha.
Para ela temos que viver em contato com a natureza, e se diz seguidora da geopoética criada pelo escritor e pensador escocês   Kenneth White que objetiva oferecer ao mundo um novo arcabouço baseado numa relação radicalmente renovada com aquilo que é chamado de natureza. O pensador "procura ainda compreender as poéticas do mundo natural, ou seja, as maneiras incontáveis como as estruturas se criam, espontaneamente, em todas as escalas e em todas as partes da natureza, incluindo a humana”.  Disse Maria Luedy que se alinhou a esta corrente de pensamento e se vê como uma pessoa que trabalha muito com as evidências quando faz uma imersão naquele lugar se relacionando com as pessoas e os materiais que ali encontra. Trata-se do que o pensador norueguês chama de nomadismo intelectual.

Quando fala em materialidades está se referindo ao conjunto de materiais como os múltiplos tipos de fibras, corantes, colas e os papéis usados que recicla através de processos de cozimento e misturas transformando-os em novos produtos que são reutilizados como suportes de suas criações. Mantém no Centro Histórico a sua Ophicina do Papel, onde trabalha e cria suas obras a partir desta alquimia. Ela tem uma forte presença nas redes sociais onde expõe suas obras, basta dizer que só na plataforma Instagram encontrei cinco contas, onde podemos observar inúmeras fotos de suas atividades aqui e fora do país, e algumas dessas contas não exibem postagens recentes.

                                   TRAJETÓRIA

Maria Luedy montando suas obras
para a Exposição Open Art,
na França, em 2023.
A artista Maria Luedy Mendes nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em trinta e um de dezembro de 1963, e aos dois anos de idade seus pais se mudaram para o Rio de Janeiro. O seu genitor Beethoven Gontijo Mendes era mineiro e sua mãe Sahada Luedy Mendes, da região sul da Bahia. Seu pai já tinha morado na Itália e gostava de arte, inclusive lhe presenteou com alguns catálogos de exposições e de museus que visitou. Em sua casa tinha obra de Alberto da Veiga Guignard, ou simplesmente Guignard, que nasceu em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro em 25 de fevereiro de 1896 e faleceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 25 de junho de 1962. Ele se notabilizou por pintar a paisagem mineira. Tinha também obras de Nello Nuno de Moura Rangel, natural de Viçosa, Minas Gerais, onde nasceu em 1939 e veio a falecer em Belo Horizonte em dois de junho de 1975. Era pintor e desenhista mineiro que ficou conhecido como o precursor da pintura neoexpressionista por volta dos anos 80, influenciando vários outros artistas locais.  Portanto, em sua casa havia um ambiente propício para que a menina Maria Luedy fosse despertada para as artes. Desde criança que passou a desenhar. Seus pais vieram morar em Salvador e foi estudar pintura na Panorama Galeria de Arte com o professor Euler Pereira Cardoso aos sete anos, e dois anos depois já participou de uma exposição coletiva com outros colegas.

A artista Maria Luedy exibe
material que reciclou e vai
utilizar em suas obras.
Estudou no Colégio Sofia Costa Pinto, no Corredor da Vitória, e  concluiu o colegial no Colégio Sartre, no bairro da Graça, ambos em Salvador. Entrou para a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia com apenas 17 anos de idade em 1983.  Foi a um Festival de Inverno em Diamantina e lá participou de uma Oficina de Papel, quando teve contato com papeleiros e várias técnicas de trabalhar com o papel. Ela recebeu em 1983 um convite do professor Vivaldo Costa Lima, que foi o Diretor do IPAC e coordenou a reforma do Centro Histórico de Salvador, para instalar a sua Ophicina do Papel e está até hoje. Atualmente disse que realiza uma pesquisa matérica da cadeia operatória do papel e que já extrapolou fazendo também estruturas de objetos utilizando materiais de resíduos. Graduou-se em Artes Plásticas em 1990 e em 2016 graduou-se em  Decoração ,ambos pela Universidade Federal da Bahia . Se especializou em Moda, Arte e Contemporaneidade, pela UNIFACS. Em 2000  fez o Mestrado em Artes Visuais  e em 2017 o Doutorado em Artes Visuais, pela UFBA. Defendeu a tese de doutorado “O Lado Sensível da Piaçava: A Fibra Negra Quilombola no Encontro com a Arte e o Design”, sendo bem avaliada. No período de quinze anos ministrou alternadamente aulas na UNIFACS, FTC e na Escola de Belas Artes, da UFBA, como professora substituta.  Atualmente está focada nas materialidades fibrosas presentes na arte , no artesanato afro-baiano e suas matrizes tecnológicas têxteis. Integra alguns grupos de estudos e pesquisas sempre procurando repassar e aprender novos processos nesta interação com fazeres distintos.

Objeto criado pela artista para o
arquiteto David Bastos, na
 Casa Cor, 2024
.
A artista Maria Luedy é uma entusiasta da Arte do Papel e fala com emoção desta alquimia em transformar fibras naturais e rústicas através do cozimento e da mistura dos materiais até transformá-los no que chama de superfície viva. Se considera uma tecelã aquática que faz e desenvolve artesanalmente a arte design. Na sua Ophicina de Papel, localizada no Carmo, no Centro Histórico de Salvador, desenvolve uma linha de design autoral de convites, luminárias, espelhos, e vários outros objetos que são comercializados. Disse que sempre está aberta para repassar conhecimento sobre a Arte do Papel e já ministrou cursos, palestras e coordenou oficinas em várias instituições inclusive no SENAC e na Limpurb, onde ficou por dois anos. No ano passado ela e seu professor orientador Paulo Souza foram selecionados para apresentar em Lyon, na França, sua pesquisa O Lado Sensível da Piaçava, a Matéria Afro Diaspórica Brasileira, no 36º Congresso de História da Arte que teve como tema Matéria e Materialidade na Arte. Na ocasião Maria Luedy declarou que “é de grande importância revelar os ciclos da piaçava, cujo artesanato, uma herança afro-indígena dos territórios quilombolas do Baixo Sul da Bahia, ressalta a criatividade dos descendentes dos africanos da região.”

                                   O  MERCADO

Obra feita com fibras de algodão, corantes
indianos e suturas com fios de ouro, 2023.


Quando lhe perguntei durante nossa conversa sobre o mercado para este tipo de arte Maria Luedy respondeu de pronto que ela vai criando demandas, promovendo sua história e mostrando o que faz, e o que é capaz de fazer. Recentemente, fez uns convites para um grupo de advogados paulistas onde no papel estavam impregnadas sementes variadas. Com isto incentivou as pessoas para depois de tomar conhecimento do objetivo do convite  pudessem plantar as sementes, e assim novos arbustos, hortifrutis e árvores vão surgir na natureza. Continuou  Maria Luedy “é uma gama muito grande de possibilidades, e procuro explorá-las para mostrar a minha arte. Sei trabalhar com qualquer tipo de papel, sou uma especialista em papel, vivo disto,  luto e sobrevivo com isto”.

Projetos de cardápios feitos de tecidos
e papéis reciclados. Isto na moda chama-se
Upcycling, e envolve criatividade e 
sustentabilidade, de 2019.
Quando falei  da recusa de alguns artistas, e mesmo colecionadores, em trabalhar e  adquirir obras de arte feitas com papel, argumentando que  vivemos nos trópicos e aqui a umidade ataca muito o papel causando fungos, além das traças, baratas e cupins que comem o material  ela retrucou dizendo que tem trabalhos feitos há 30 anos com papel de fibras de bananeira e estão intactos. Lembrou também que as bibliotecas, arquivos públicos e privados no mundo inteiro guardam  nos seus acervos obras e documentos centenários feitos de papel e estão em perfeito estado. O problema é a conservação que deve ser de qualidade.
Pedi ao seu amigo e colega Zivé Giudice que desse sua opinião  sobre a obra de Maria Luedy. Vejamos “A matéria na obra de Maria Luedy. Materialidade um termo recorrente nos textos dos curadores e no vocábulo dos artistas. Nesses, via de regra, a apropriação da matéria, é quase sempre a tentativa de validação da obra como um objeto conceitual e vanguardista. Nem sempre logram êxito nessa, digamos, empreitada. Maria Luedy parece ir além dessa manobra. Todo o seu tempo e eu conheço esse tempo, foi movido pela curiosidade e pesquisa com matérias; algumas inusitadas no universo das artes visuais, outras, descobertas, com seu senso de acuidade, em objetos utilitários ou de representações de culturas primitivas. Em Luedy, a matéria cumpre um papel de ordem conceitual e provoca sentidos como o visual, auditivo e tátil.”

                              O PAPEL

Papel feito  na China.
 Esta relação do homem com o papel é bem antiga e sua invenção é atribuída a
Cai Lun por volta de 105 d.C. Ele que era o diretor das Oficinas Imperiais em Luoyang, na China,  “desenvolveu um processo de fabricação do papel usando resíduos têxteis prensados, criando um suporte que absorvia melhor a tinta”. Hoje temos papéis originários de vários tipos de fibras, a exemplo do famoso papel japonês feito de cascas de arroz e outras fibras, conhecido também por papel Xuan. É muito utilizado para caligrafia, pintura e outras artes. Tem uma superfície fina e translúcida permitindo a absorção de tinta em cores variadas.

Já no Brasil o primeiro jornal impresso em papel  foi a Gazeta do Rio de Janeiro de 1808 coincidindo com a chegada da Corte Portuguesa com Dom João VI. Anos depois existiam aqui muitos jornais com uma imprensa atuante, principalmente em defesa de ideais políticos. Cada grupo tinha o seu jornal, e as notícias primavam por atacar o opositor. Ao chegar Dom João VI, o Príncipe Regente, criou a Imprensa Régia, que segundo os historiadores, foi fundamental para a modernização da imprensa no Brasil e para a divulgação de atos oficiais do governo. Consta que em 1870 o Príncipe mandou vir de Portugal os primeiros papeleiros com o objetivo de fabricar papel e baratear os custos da matéria prima. Atualmente existem uma infinidade de tipos de papéis usados para os mais variados fins possibilitando aos artistas se expressarem com mais desenvoltura. Não podemos deixar de salientar que também a chegada da tecnologia digital vem dia a dia substituindo o papel através de computadores, celulares, tabletes e outras ferramentas eletrônicas à disposição do homem moderno. Também muitos artistas já estão utilizando essas ferramentas em suas criações.

                                EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Em 2024 - Exposição Entrelaces, na Galeria Cañizares, Escola de Belas Artes da UFBA ; 2020 – Exposição Coletiva Os Tons e as Cores do Café, no  Café Latitude 13 Casa Galeria, Salvador-Ba; 2019 – Exposição no Restaurante Casa de Tereza, Salvador-Ba; Exposição  Um Brinde ao Café II, no  Café Cafelier, Salvador-Ba;  2018 – Exposição  Oca-Oco, na Galeria Cañizares, Salvador-Bahia; Exposição  Secando Minhas Lágrimas, na Praia do Forte, Mata de São João -Ba; 2017 – Exposição A Nous a Nous la Liberte, Salvador- Ba;  Exposição Individual  Oca - Ocos,  Escola de Belas Artes, Salvador-Ba; 2016 – Exposição  Arte e Design, Galeria Cañizares, Salvador-Ba; Exposição  Luminis And Flowers, na Felissa Joias,  Salvador  Shopping, Salvador-Ba; 2015- Exposição no Instituto Cervantes, Salvador-Ba; Exposição Lumini Sinuosa, na Escola de Medicina da Bahia, Salvador-Ba; Exposição Materialidade Textil, na  Galeria Cañizares, Salvador-Ba; Exposição  Outono Iluminado,  na Felissa Joias, Salvador Shopping, Salvador-Ba; Exposição  Todo Mundo é Igual , na  Pimenta e Música,   Praia do Forte, Mata de São João-Ba; 2014 – Exposição  Tenho Algo a Dizer, Galeria ACBEU, Salvador-Ba; 2013 - Exposição Fragilidades Cotidianas, Galeria ACBEU, Salvador-Ba; Exposição Coletiva no  Salvador Shopping e Atelier Leonel Mattos; 2012 – No Museu Rodin, Salvador-Ba; Exposição  Peixes Ancestrais, na Praia do Forte, Mata de São João-Ba;   2011
Exposição Entre Folhas , na Escola de Belas Artes, com a participação de  Maria Virginia Gordilho, Salvador-Ba; Exposição  Mandalas da Índia, no Hand Made Paper Sri Aurobindo,  em Pondicherry, Índia; 2010 -   Exposição Guardares, na Galeria Cañizares com a participação de  Maria Virginia Gordilh0, Salvador-Ba; Exposição  Santanna, na Galeria Prova do Artista e Igreja Senhora de Santanna, Salvador-Ba;  Exposição  s/título, no  Palacete das Artes, Salvador-Ba; 2009 -Exposição  Outros Papéis, participação de  Maria Virginia Gordilho, Galeria Cañizares, Salvador-Ba; 2008 - Exposição  Modelitos Alados, Museu Carlos Costa Pinto, Salvador-Ba; 2006 – Exposição  Flor Barroca, na  Ecodesign Compay, Brasil;  2005 – Exposição Lanternas Vermelhas, Escola de Educação da UFBa, Salvador-Ba; 2002
Exposição realizada em 2019 .
-  Exposição Art in Box, na Galeria  ACBEU, Salvador-Ba; 2000 - Exposição  Adriano, Galeria  ACBEU, Salvador-Ba; Exposição Primavera, no  Liceu das Artes e Ofícios, Salvador-Ba; 1999 -  Exposição Bahia, Branca Branca, MAM- Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; Exposição O Papel Tridi, na Escola de Belas Artes da UFBA, Salvador-Ba; Exposição  Os Papéis do Papel, Galeria ACBEU ,Salvador-Ba; 1998 - Exposição Bagagem , Museu de Geologia da Bahia, Salvador-Ba;   Exposição FIARPA, Brasil; 1997 -  Exposição Contrastes,  Galeria Cañizares, Salvador-Ba; 1996 -   Exposição As Ruas do Pelô, Sebrae , Salvador-Ba; Exposição Colagens de Vida,  Casa Cor Bahia, Salvador-Ba; Exposição  Os Papéis do Papel,  Vitória- Espírito Santo; 1995 - Exposição  Erótikus, Museu da Cidade, Salvador-Ba; 1994 - Exposição Luz e Matéria,  Ophicina do Papel, Salvador-Ba;  Exposição Retrospectiva II, Salvador-Ba; 1992 - O Caminho é do Índio - Museu das Árvores Queimadas, Limpurb, Salvador-Ba; Exposição  Raso Fundo, Escola de Belas Artes, da UFBA,Salvador-Ba; 1987 -  Exposição  Entre o Meio e o Fim, Salvador-Ba; Exposição Papa - Papel Artesanal Produção e Arte, com a  participação de Ana Maria Villar, na EBA-UFBa. 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

LEONEL MATTOS EXPONDO EM PORTO SEGURO

O artista pintando um  retrato
e obra que atesta a sua
capacidade criativa.

 O  artista Leonel Mattos está expondo na cidade de Porto Seguro, interior da Bahia, a convite na Secretaria de Turismo e Cultura do município um conjunto de obras que atesta a sua criatividade e a variedade de temas que ele magistralmente domina. A mostra intitulada de Leonel Mattos – Sem Recortes ficará durante um mês no prédio tombado pelo Instituto do Patrimônio Público – IPHAN, a icônica Casa de Câmara e Cadeia Pública, inaugurada em 12 de fevereiro de 1772, no século XVIII. As obras expostas trazem uma visão parcial da trajetória de sua produção, e o artista tem uma identidade pictórica conhecida principalmente pelos elementos simplificados e repetidos que lembram uma ave. 
Estão também expostas pequenas telas que formam uma série de retratos de amigos e pessoas que o visitaram no seu ateliê do bairro da Saúde, local que o artista Edvaldo Assis, que nos deixou recentemente, dividia com ele. Também não podia faltar obras com a temática afro-brasileiro principalmente Orixás, que se transformou numa onda a representatividade da cultura afro por artistas de todos os recantos deste país.

Visitantes da exposição em
 Porto Seguro-BA
.

Já escrevi durante décadas sobre a arte de Leonel Mattos e ele continua com suas cores vibrantes pintando as coisas desta Bahia e a sua gente. É um artista que tem uma necessidade impulsiva de pintar  cada vez  colocando para fora como uma verdadeira catarse os seus personagens e elementos pictóricos que surgem em sua cabeça, formando composições as mais variadas e belas. Tem uma vasta produção, inclusive vem se arriscando no tridimensional trabalhando em objetos e esculturas. Tudo isto demonstra que ele não tem receio de percorrer, arriscar e seguir em busca de novos horizontes. Não frequentou a academia, mas desde 1971 vem trilhando o seu caminho enfrentando percalços e dificuldades quase intransponíveis. Já pintou com a presença muito forte do figurativo, e hoje sua arte está bem mais solta e tendendo ao imponderável.

sábado, 3 de maio de 2025

EDSOLEDA PINTA INSPIRADA NA ANCESTRALIDADE

Edsoleda pintando no ateliê.
Há décadas que Edsoleda Santos  começou a pintar  umas formas orgânicas, em seguida ainda na década de 60 vieram composições inspiradas na paisagem urbana, onde mesclava os casarões coloniais com os prédios mais modernos em suas aquarelas e depois em pinturas de acrílica sobre tela . Nas composições já incluía rendas e figuras humanas , as festas cívicas e religiosas incorporadas à vida dos baianos. Finalmente, afloraram os sentimentos da convivência desde criança com a bisavó e um tio ligados à religião dos Orixás. Foi aí que ela terminou optando por seguir este caminho influenciada por seus ancestrais. Já escreveu e ilustrou doze livros sobre os Orixás, e está em vias de concluir o décimo terceiro, todos publicados pela Solisluna Editora unindo a natureza, a religião e a arte. Evidente que sua produção atual passou a ter como tema principal o candomblé com toda sua exuberância de cores, danças, a riqueza dos seus trajes e outras ferramentas que identificam cada um dos orixás. Mas, a produção de Edsoleda é diferenciada, sofisticada,uma produção artística realizada com muita técnica e criatividade. Foi premiada com um desenho na 1ª Bienal Internacional de Artes Plásticas da Bahia e no Salão de Vitória do Espírito Santo, dentre outros prêmios. Disse ter pesquisado várias técnicas durante a sua trajetória artística diversificada como pintora, figurinista, design gráfica e ilustradora.

                                               QUEM É

Quatro aquarelas sobre papel da artista.
Seu nome de batismo é Edsoleda Maria Maciel Santos, nasceu em cinco de fevereiro de 1939, filha de Jorge Adalberto Santos e d. Maria de Lourdes Maciel. Tem poucas lembranças do pai apenas que fazia contabilidade e que tinha uma voz de barítono. “Meu pai cantava muito bem, inclusive num coral e era fã de Vicente Celestino, mas fumava que nem uma caipora, então adoeceu e morreu cedo. Já na minha primeira exposição ele andava adoentado. Era muito amigo do pai de Dorival Caymmi, que morava nos Bandeirantes e sua família  na Ladeira dos Tupis, no bairro de Brotas, em Salvador. Ele ia para lá levando seu violão e os desenhos da filha Edsoleda Santos debaixo do braço os quais mostrava aos amigos com muito orgulho . Sua mãe e tias não gostavam e achavam que aquilo não ia levar a nada e nem garantir o seu futuro. “Edsoleda disse que ele foi realmente uma pessoa que apoiou a minha decisão de ser artista. A minha família não apoiava e quando decidi estudar na Escola de Belas Artes minhas tias e outros parentes não gostaram, mesmo porque a escola funcionava na Rua 28 de Setembro, que na época era em pleno brega.”  Disse que certo dia vinha descendo a Rua 28 de Setembro à caminho da Escola de Belas Artes quando encontrou umas conhecidas de suas tias. Elas ficaram surpresas, e uma delas perguntou: O que você está fazendo aqui? Foi aí que respondi eu estudo ali, e apontou para o antigo e majestoso prédio da Escola. Lembrou que elas fizeram caras de espanto e desaprovamento.

Edsoleda Santos e alguns livros de sua
autoria sobre os orixás.
Estudou o primário no Liceu Brasileiro de Educação, que funcionava bem no meio da Ladeira da Fonte Nova, no bairro de Nazaré, em Salvador, e o professor era Eufrates Meireles. ele tinha a pedagogia antiga e aplicava bolo quando os alunos erravam ou faziam alguma traquinagem, e não valorizava a arte. Quando acontecia ela fazer algum desenho num dos cadernos escolares ele mandava escrever cem vezes: Não devemos riscar os cadernos.  Foi em seguida estudar no Ginásio Bahiano de Ensino, que funcionava no Campo da Pólvora, do professor Hugo Baltazar da Silveira, e depois recebeu uma bolsa de estudos para o Colégio de Aplicação, onde terminou o ginásio e fez o colegial. Ali como era um colégio modelo, pertencente a Universidade Federal da Bahia,  tinha vários professores de faculdades. Certo dia resolveram fazer um Teste Vocacional com os alunos. Foi um trabalho com questionários, várias etapas,  profundo e quando saiu o resultado para ela deu que sua vocação era para artes. Edsoleda Santos tinha passado em quase todas as disciplinas no Colégio de Aplicação, mas perdeu a disciplina Física, na primeira e segunda épocas. Lembra que o professor era muito rigoroso. Como na Escola de Belas Artes podia entrar apenas com a conclusão do ginasial, decidiu fazer o vestibular nos anos 60,com apenas dezessete anos.  Já em 1965 fez sua primeira exposição na Galeria Convivium, que ficava na Rua Senador Costa Pinto. O professor e artista visual Juarez Paraíso era diretor da galeria e os proprietários os irmãos  Antoni Bloise e  Liana Bloise.

                                  FORMAÇÃO

Três representações de Exu, Laroyê,
e Baiana do Acarajé.
Na Escola de Belas Artes passou quatro anos fez Bacharelado em Artes Plásticas e em seguida   Licenciatura em Desenho, porque “eu era uma pessoa pobre e precisava trabalhar”. Quando estava ainda estudando trabalhou como recepcionista na Sutursa, que era o órgão de turismo da Prefeitura Municipal, e sua função consistia em falar das igrejas, do casario colonial e dos pontos turísticos da Cidade aos turistas que visitavam a Cidade. Em 1970 surgiu um concurso para professor do ensino médio. Fez o concurso, foi aprovada e passou a trabalhar no Colégio Estadual Severino Vieira, no bairro de Nazaré, em Salvador, que era dirigido pela professora Amália Magalhães. Disse que a diretora  criou um Centro de Educação Artística e gostava muito de arte. Lá estavam também Emília Biancardi, ligada à música a cultura, Elíbia Portela, Nildéia Andrade e Nini Gondim,  dentre outros. Ela apresentou um projeto de arte As Quatro Estações, que foi aprovado e  passou a trabalhar com os alunos e até funcionários. Cuidava   das vestes, alegorias e adereços dos desfiles olímpicos e também montavam peças teatrais. Considera que foi um período prazeroso, e de aprendizagem. Quando Amália Magalhães foi afastada do cargo de diretora Edsoleda Santos  afirmou que  decidiu também sair. Nesta época já trabalhava no Departamento Cultural, da Universidade Federal Bahia, cujo Diretor era o professor espanhol Valentim Calderon, que era arqueólogo. Ele queria que ela fizesse os desenhos de pedras e outros artefatos, mas confessa que não gostava de copiar, e que havia no departamento uma colega que tinha extrema facilidade em fazer este trabalho. "Ela copiava tudo certinho." Aí  permaneceu  fazendo cartazes e outros trabalhos ligados à divulgação e  comunicação. 

Litografia  duas iabás, de Edsoleda.
Em seguida foi trabalhar na Coordenação da Extensão, e o cargo era de Figurinista. Fez o Mestrado e sua tese foi Oxum, todo o universo de Oxum. Trabalhou com Conceição Castro, hoje professora aposentada da Escola de Dança da UFBA, criadora do Grupo Odundê, que teve um papel importante na divulgação da dança baseada em nossas origens. Foi ela quem convidou Edsoleda para criar o figurino e os adereços. Queria figurinos inspirados na força e energia dos orixás. A artista  foi assistir muitos ensaios e passou a desenhar os dançarinos em movimento  no palco.  Surgiu então com mais força seu interesse pelas coisas de santo. Este trabalho durou  dez anos e neste período foram apresentados vários espetáculos. Esta oportunidade de desenhar corpos em movimento foi muito importante para a artista Edsoleda Santos quando foi   ilustrar seus livros onde  as figuras  aparecem dançando, se movimentando. 

Veio o período Collor de Melo e viu que tudo parou, não tinha como crescer. Na época conversando com uma amiga ficou sabendo  que ia ter um concurso para o mestrado na Escola de Belas Artes. Decidiu fazer o concurso mesmo sabendo que era mais destinado aos professores . Foi aprovada , e escolhida sua  orientadora  a professora e artista visual Celeste Almeida . Seu objetivo era fazer carreira como escultora, mas lhe inscreveram para Pintura. Edsoleda Santos  tinha estudado escultura  com o professor Ismael de Barros, logo  quando entrou para a Escola de Belas Artes e  depois foi aluna  também de escultura de Juarez Paraíso . Para sua surpresa  quando recebeu  o resultado do concurso tinha passado  em primeiro lugar, concorrendo com vários professores. Fez um memorial e uma série de  aquarelas.   Coube à professora  Maria Helena Flexor a  correção  das provas escritas. Lembrou que ela  lhe disse que a sua prova estava perfeita, e recebeu na prova escrita 9,99. 

Composição com a velha Salvador e prédios
modernos envolvidos numa renda.
Depois  passou a se interessar em estudar e ver toda a parte bibliográfica  do candomblé. Já tinha a pesquisa de campo com sua bisavó Ebami Maria Augusta Pires, conhecida por Ebami,  e com o tio Raimundo Pires  , pois iam para as festas da Casa de   Maria Bernadete  dos Santos, a Dona Detinha, no terreiro de  Awzidi Junçara . Ele era filho de santo de d. Detinha, e tinha  referência Tatakamukengue. A mãe de santo d. Detinha    era de Ogum com Nanã. 
Edsoleda Santos  desde criança lembra que  assistia as festas  do candomblé. Quando sua bisavó  veio a falecer ela adoeceu com uma doença de pele e a mãe de santo d. Detinha jogou os búzios e revelou que “sua bisavô  já  nasceu feita, e você é herdeira, e tem uma missão na sua vida.” Não quis lhe passar qualquer remédio caseiro ligado ao candomblé para a doença de pele que ela estava acometida, porque segundo d. Detinha os parentes não iam aceitar , e aconselhou a procurar um médico. Isto ficou para trás, aconteceu há muitos anos, e hoje Edsoleda Santos pinta e escreve sobre os Orixás e manifestações ligadas a religião de origem africana, e tem convicção que está cumprindo a missão que lhes destinaram seus ancestrais.

                                                    REFERÊNCIAS

Xangô numa bela pintura de
acrílica sobre tela de Edsoleda.
O professor Juarez Paraiso escreveu em 1967: “Edsoleda Santos é um extraordinário exemplo, principalmente se considerarmos as transformações por que tem passado, tanto sugestivas quanto autênticas e espontâneas. De uma estrutura ortogonal, onde predominam os grandes planos geométricos e transparentes, suporte plástico da linguagem lírica, Edsoleda Santos atinge a maturidade de um franco expressionismo, surpreendentemente rico de implicações surreais, onde a curva melhor reflete as influências locais, geográficas, onde o barroco é a referência suprema". 
Também o artista e professor Riolan Coutinho deixou o seu testemunho em 1973: "A monumentalidade arquitetônica e barroca de suas composições, aliada ao colorido lírico e poético, talvez seja a característica mais marcante de seus trabalhos atuais. E a Bahia lá está: luminosa, colorida, monumental, decorativa, doce, quente, poética e cheia de mistério".

                                        EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Em 1965 - Galeria Convivium – Salvador-Ba; 1966 - Galeria Convivium – Salvador-Ba; 1973 - Galeria de Arte da Bahia, Salvador-Ba; 1974 - Museu de Arte Moderna da Bahia MAM, Salvador-Ba; 1975 - Série de Aquarelas  Histórias em Quadrinhos , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; 1981 - “ O Atelier “ Vitória da Conquista, Vitória da Conquista-BA; 1987 - Bon Vivant - Galeria de Eventos, Salvador-Ba; 1988 - Galeria do Complexo SESC-SENAC, Salvador-Ba; 1993 - Instalação Oferenda às Águas de Oxum- Galeria Cañizares , Salvador-Ba; 1995 - Onímàle Odó - As lendas de Oxum Galeria Solar Ferrão, Salvador-Ba; 1997 - Tramas Visuais no Universo Onírico - Galeria ACBEU, Salvador-Ba; 1997 - Ilustração de Três Poemas de Amor, na Comemorativa 150 Anos de Nascimento de Antônio de Castro Alves, com exposições das obras no Teatro Castro Alves, Salvador-Ba; 2000 - Bahia Mito Magia e Rendas - Conjunto Cultural da Caixa, Salvador-Ba;  2003 - Florais de Bach : Uma Jornada Poética - Conjunto Cultural da Caixa, Salvador-Ba.

                               EXPOSIÇÕES COLETIVAS 

E1965 - Coletiva - Instituto Cultural Brasil - Alemanha, onde foi escolhida por uma comissão formada por Genaro de Carvalho, Adam Firnekaes, Jacyra Oswald e Juarez Paraíso, para representar a nova geração de artistas baianos na Alemanha ; II Salão de Arte Moderna do Distrito Federal1966 – 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia - Prêmio Estadual de Desenho ;  III Salão de Arte Moderna do Distrito Federal1967 - Recebeu o 3º Prêmio de Desenho no 2º Salão Nacional de Artes, concedido pela Reitoria da Universidade Federal do Espírito Santo; 1970 - Coletiva Bahia Década 70 - Prêmio de Aquisição BANEB;  Criação e Coordenação do

Pintura de Oxóssi e o dragão.
desfile As Quatro Estações para as Olimpíadas Baianas da Primavera, promoção do Colégio Severino Vieira, premiada em primeiro  lugar; 1971 - Criação e Coordenação do desfile Olimpíada Intergalática, para as Olimpíadas Baianas da Primavera, promoção do Colégio Estadual Severino Vieira; 1972 - Coletiva Festival do Caribe1980 – 1º lugar no Concurso de Cartaz para o Festival de Arte - Bahia 80; 1983 - Coletiva Itinerante - Circuito do Nordeste1984 - Coletiva em homenagem à Mãe Menininha do Gantois1985 - Criação de Figurinos para o filme Jubiabá dirigido por Nelson Pereira dos Santos; Coletiva de litogravuras nas Oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia1992 - Classificada em 1º lugar no primeiro Mestrado em Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia ; 1994 - Pesquisa de Moda Século XVI para os figurinos da peça dirigida por Manoel Lopes Pontes “A Mandrágora”; 2001 - Participação do livro + 100 Artistas Plásticos da Bahia com exposição das obras no Museu de Arte Sacra; 2004 - Coletiva “ Arte Negra Brasileira “ Pelourinho2007 - Exposição ao ar livre em homenagem a Cosme e Damião, no Campo Grande Coletiva Mulheres em Movimento, na Galeria Cañizares2010 - Coletiva -  Jornada Ecológica Move Arte2015 -Convidada Especial no Salão Bahia Marinhas ; 2016 - Coletiva - Artes Visuais na Bahia – A Produção da Mulher na Contemporaneidade - Museu de Arte da Bahia2020 - Participação da XXIV edição do evento Antônio, Tempo, Amor e Tradição com o tema Toinho por Toda Parte - Realização virtual na forma de Instagram de 1º a 13 de junho; 2021 - Participação da XXV edição do evento - Antônio, Tempo Amor e Tradição com o tema - Toinho por Toda a Parte com instalações de arte na Casa Atelier do professor Luiz Mário, em transmissão virtual de 1 a 13 de junho; Criação de vinheta para o portal de abertura do Museu Virtual Casa de Ganho do Grupo Musical - As Ganhadeiras de Itapuã, projeto desenvolvido pela Solesluna;  2022 - 13 de janeiro Inauguração do Projeto de Arte Pública Caminho da Fé autoria do artista plástico Juarez Paraíso, do qual participou com a obra linear - Cortejo das Baianas; 2023- Exposição na Galeria Cañizares em homenagem ao Bicentenário do 2 de Julho -Independência da Bahia.

                                                      FEIRAS LITERÁRIAS

Em  2010 – 21ª Bienal Internacional do Livro - São Paulo como artista ilustradora dos livros Oxalufã e A Dama de Branco; 2011 - Autora e ilustradora dos livros Ibeji e Oxum nas comemorações do Novembro Negro, patrocinado pela Fundação Pedro Calmon Ilustrações para o livro 21 Poemas de Amor, autoria Cyro de Mattos2012 - Outubro Literário - Shopping SalvadorParticipação na FLICA - Cachoeira Ba; 2013 - Participação na Feira Internacional de FrankfurtParticipação na Feira Internacional de Frankfurt
Iemanjá com belas tonalidades de azuis 
e ao fundo silhuetas de igrejas
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2014 - Participação na Feira Internacional do livro infantil de Bolonha2015 - Participação do Salão do Livro em Paris; 2016 - Lançamento do livro Iemanjá no espaço Ciranda Café Cultura & ArtesFeira do Livro UFBA no CAMPUS comemoração dos 70 anos UFBA2017 - Paraguaçu Feira de Impressos no Palacete das ArtesParticipação na Mesa - Mestres do Saber – FLIPELÔColômbia - Medellin, exposição de livros na conferência de Valéria Pergentino, editora da Solesluna sobre - Alteridade, identidade e diferença nos livros para crianças; Feira do Livro de Sarah nos Emirados Árabes2023 - A Feira do livro de Pacaembu - São PauloPalestrante, “Nas asas da ancestralidade, , FLIPF Festa Literária Internacional de Praia do ForteBate-papo – Imaginários Plurais e suas representações simbólicas na Literatura 14 de julho no Museu de Arte da BahiaBate-papo na FLIPELÔ em homenagem a Mãe Stella de Oxóssi participantes: Enéas Guerra, designer gráfico, diretor da Solesluna, Edsoleda Santos artista visual e designer gráfico e Nelson Pretto professor universitário, Bate-papo sobre Arte Ancestral no Espaço Empoderamento - Casa Vale Do Dendê, na Festa Arte e Identidade no Instagram; 2024 - 26 de setembro. Contação da história de Ibeji para as crianças da Escola Gira GirouExposição Negras Memórias do design Brasileiro 14 Bienal Brasileira do Design Centro de Convenções – Aracaju.