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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O PINTOR DE GRANDES MURAIS E PAINÉIS


    Esta é a segunda versão do painel feito em tinta óleo sobre madeira  .A primeira foi destruída no incêndio em 1978.
Vou falar hoje de um pintor modernista baiano que se notabilizou por ter um desenho refinado, talvez o que melhor desenhava entre os modernistas daqui, que construiu um universo onírico com sua técnica apurada do realismo mágico. Ele transformava seus modelos muitas vezes em anjos e duendes e criava uma atmosfera única. Seu nome de batismo é Carlos Frederico Bastos, que nasceu em 12 de outubro de 1925, no bairro boêmio do Rio Vermelho, em Salvador, Bahia. Foi criado pelos avós  e seu dom vem de seu avô João Correia Soares de Araújo  que gostava de pintar. Ele faleceu aos 79 anos em 12 de março de 2004.
Carlos Bastos tem uma obra grandiosa e reconhecida em todo o país e até fora daqui . Mas, sua carreira artística começou com uma exposição na Biblioteca Pública, que ficava na Praça Municipal, e alguns de seus quadros foram vandalizados  . Produziu 46 painéis e 18 murais, sendo que 10 deles foram destruídos e dois estão inacabados por divergências religiosas, além de centenas de outras obras . Quanto aos painéis três estão em locais desconhecidos.  Entre os mais conhecidos destruídos estão o painel da Assembleia Legislativa devorado por um incêndio em 1978 e os murais do Bar Anjo Azul.

Este é o belo mural que está escondido por trás de prateleiras de remédios de uma farmácia .

NOSSO MURALISTA E PAINELISTA
Ainda neste texto falo  sobre a arte do muralismo, para destacar o nome deste  artista  que é um grande mestre desta técnica que foi o pintor Carlos Bastos. Ele deixou murais e painéis 
memoráveis como aquele da Assembleia Legislativa, cujo primeira versão foi destruída num incêndio ocorrido em 1978 . No painel  A Procissão do Senhor  dos Navegantes  o artista pintou 142 personalidades dentro da galeota que leva a imagem do Senhor  no dia 1º de Janeiro. O painel foi refeito  e entraram novas personagens na Galeota, totalizando 170.
Um dos grandes problemas do muralismo é a falta de conservação e respeito pela obra do artista. Aqui em Salvador temos vários exemplos de murais destruídos, abandonados ou ultrajados. Um deles é de autoria de Carlos Bastos, que ele fez sob encomenda para um banco BBVA, na Cidade Baixa .Este  mural está ainda lá no prédio onde hoje funciona uma farmácia , e a obra fica completamente comprometida por prateleiras de remédios. O dono não teve a sensibilidade de respeitar os limites da obra, talvez por falta de conhecimento da sua importância. Ele deveria utilizá-la como mais um atrativo  para seu comércio , tal a beleza da obra ( Foto ao lado)
Famoso mural no Bar Anjo Azul que foi um point importante de intelectuais , artistas
e boêmios na década de 60 em Salvador.
A ARTE DO MURALISMO
Desde os tempos imemoriais que o homem sentiu a necessidade de se expressar e para isto utilizou das paredes de cavernas ou pedras para deixar ali marcadas algumas de suas atividades. Conhecemos desde os primeiros anos ginasiais as pinturas rupestres onde o homem primitivo pintava árvores, animais e cenas de caça. O tempo foi passando e o homem descobriu novos pigmentos e que as paredes emassadas e ainda frescas eram ideais para fazer suas pinturas. Ai surgiu o muralismo que é uma pintura feita diretamente sobre uma parede  . Portanto, é diferente de outras maneiras de pintar porque está muito ligada à arquitetura. A técnica mais usada é a do afresco que nonsiste na aplicação de pigmentos de cores diferentes , diluídos em água, sobre a argamassa ainda umedecida.
Civilizações antigas como as grega e romana usaram muito do muralismo e podem ser apreciados nas ruínas de Pompeia e Herculano,na Índia nos murais das Grutas de Ajanta e na China feitos na dinastia Ming.
No século XIII Giotto impulsionou a técnica do muralismo , e no Renascimento surgem as obras-primas  com os afrescos da Capela Sistina, no Vaticano, por Michelangelo e a Última Ceia , de Leonardo da Vinci. Depois com o aparecimento dos vitrais e tapeçarias os murais ficaram em desuso.
Porém, os pintores modernos Picasso, Matisse, Léger, Chagall e Miró dentre outros, pintaram murais, além dos pintores muralistas mexicanos  Diego Rivera (1886-1957), David Alfaro Siqueiros (1896-1974) e José Clemente Orozco (1883-1949),que usaram seus murais para passar mensagens revolucionárias para o povo. Mas, antes deles na era pré-colombiana já se faziam murais.
Em Portugal surgiram os murais de azulejos. Aqui conhecemos em nossas igrejas barrocas baianas a arte do muralismo através dos grandes e belos murais de azulejos com composições simples e também com cenas inteiras de momentos históricos trazidos pelos portugueses. A título de curiosidade existe um desses painéis que retrata a cidade de Lisboa, antes do terremoto, no claustro da Igreja de São Francisco de Assis, no Terreiro de Jesus, em Salvador, Bahia. Lá existem muitos murais  de azulejos portugueses que grande beleza e valor histórico. Vale a pena visitar.
Já os painéis são mais comuns porque o artista pode realizar sua obra no conforto do seu atelier e depois ser transportado e fixado na parede escolhida pelo cliente. Este painel pode ser feito sobre tela, madeira, alvenaria e outros materiais. Geralmente tem grandes dimensões, como acontece com os murais, e são muito apreciados, e mais conservados porque podem ser removidos e fixados em outro local.
Mural Vida de São João Batista, óleo sobre parede de 274 x 708 cm no Parque da Cidade,RJ

PRINCIPAIS MURAIS E PAINÉIS
Vamos aqui relacionar e falar ligeiramente sobre os principais murais e painéis criados pelo grande pintor baiano Carlos Bastos, que deixou uma obra digna de ser apreciada e mais valorizada , inclusive pelo mercado tal a qualidade do seu traço, suas composições e pinturas.
No livro Carlos Bastos, editado pela construtora Odebrecht no ano 2000 estão lá os principais murais e painéis, com belas ilustrações e textos de vários críticos, escritores e jornalistas inclusive dois de minha autoria escritos em 1985 e 1996.
1- O primeiro painel foi realizado em madeira no ano de  1947 sobre o Centenário de Castro Alves, no Clube Bahiano de Tênis, e posteriormente  destruido. 
2-Murais no bar Anjo Azul chamados de Alegoria ao Anjo , óleo sobre parede com 230 x 600 cm, também destruídos.
3-Painel  Jogos Infantis ,óleo sobre madeira 259,5 x 254,5 cm, na Escola Parque em 20 de agosto de 1949.
4-Painel A Salvação , óleo sobre madeira 250 x 600 cm ,no Hotel Royer Collard, em Paris, localização atual desconhecida, realizado em 1950.
5-Mural Cortejo para São Sebastião , feito em 1951 óleo sobre parede de 350 x 450 cm o atelier do artista ,no Rio de Janeiro, atualmente coberto por uma camada de tinta.
6-Painel - em forma de biombo Alegorias, óleo sobre madeira, no Rio de Janeiro, coleção particular, em 1953.
7-Painel Mercado Modelo em Salvador, óleo sobre madeira Rio de Janeiro, 1953.
8-Mural - Chegada de uma Nobre Família Portuguesa à Bahia no século XIX, óleo sobre parte  de 400 x 800 cm , destruído,feito em 1953.
9-Mural Casal de Namorados , óleo sobre parede 250 x 300 cm , destruído,coleção particular, Salvador 1953.
10-Painel para Ruth de Almeida Prado, óleo sobre madeira , Rio de Janeiro, 1954.
11-Painel na Capela particular de Nelson Parente,Rio de Janeiro,1954.
12-Painel em forma de biombo Alegorias, óleo sobre tela de 170 x 150 cm, Salvador, 1954.
13-Mural - A Vida de Dom Quixote,restaurante Cervantes, destruído, Rio de Janeiro 1955.
14-Painel - Bahia, coleção poeta Augusto Frederico Schimidt, Rio de Janeiro, 1955.
15-Mural Casarios da Bahia, óleo sobre parede , de 350 x 450 cm pintado sobre o mural anteriormente feito pelo artista  Cortejo para São Sebastião,Copacabana, Rio de Janeiro, 1957.
16-Mural A família Bastos 350 x 1500 cm, na Fazenda Quixaba, Itaberaba, Bahia , em 1958.
17-Mural Flutuador de 250 x 1700 cm óleo sobre parede na sede da Associação Atlética da Bahia, Salvador, de 1958, destruído.
18-Mural A vida da Cidade no princípio do século XIX, óleo sobre madeira 500 x 207 cm hall do edifício Big, Praça da Inglaterra, Salvador , 1959.
19-Mural restaurante árabe ,rua Guedes de Brito, Salvador , destruído, 1959.
20-Mural no Hotel Thêmis, óleo sobre parede, destruído, de 1960.
21-Painel A Feira de Água de Meninos , óleo sobre madeira de 170 x 220 cm , coleção Maria Emília Bastos Ribeiro, Salvador, 1960.
22-Painel Ascensão de Santa Luzia , óleo sobre madeira de 300 x 250 cm , Hospital Santa Luzia, Salvador, 1960.
23-Mural  Alegoria no teto do Solar da Jaqueira, em Salvador, destruído, de  1960.
24-Painel As Quatro Estações , óleo sobre madeira coleção de Maria Aparecida Pinto Aleixo, Rio de Janeiro, 1960.
25-Mural Comércio no Porto de Salvador no Princípio do século XIX, óleo sobre parede de 410 x 2100 cm ,no Banco Bilbao Vizcaya,Salvador, 1961.
26-Mural no teto da sacristia do Convento de Santa Tereza. Óleo sobre madeira de 800 x 300 cm, de 1961 destruído.
27-Mural da sala de banho no Solar da Jaqueira , óleo sobre madeira, 300 x 250 cm , Alegoria ao Brasão da Jaqueira, destruído, Salvador, Bahia, 1961.
28-Painel Vista da Cidade do Salvador, óleo sobre madeira 110 x 221 cm , Banco Nacional, Av. Estados Unidos, Salvador, 1963.

29-Painel A Procissão óleo sobre madeira 206 x 920 cm , edf Martins Catharino, rua da Ajuda, Salvador, 1964.( Foto acima)
30-Painel O Gaúcho e a Baiana , óleo sobre madeira, Banco da Lavoura e Mercantil do Rio Grande do Sul, localização atual desconhecida, 1965.
31-Painel Natureza Morta, óleo sobre madeira 094 x 143 cm Coleção Murilo Leite, 1965.
32-Painéis Conde dos Arcos,Maria Quitéria I, Caramuru e Thomé de Souza, óleos sobre madeira de 240 x 170 cm .agência Banco Itaú, Piedade, Salvador, 1965.
33-Painel Auto-Retrato com Amigos, óleo sobre madeira 073 x 220 cm , Museu de Arte de Feira de Santana, Bahia, 1966.
34-Painel Ascensão de Cristo, óleo sobre madeira 240 x 170 cm ,Coleção Manual Tanajura, Salvador, Bahia, 1966.
35-Painel Anjo com Tocheiro , óleo sobre madeira, 300 x 200 cm Coleção Virgílio Motta Leal, Salvador, 1966.
36-Painel A Feira , óleo sobre madeira de 120 x 220 cm , Coleção Itazil Beneício dos Santos, Salvador, 1967.
37-Painel sobre biombo Baianas com Anjo, óleo sobre madeira 180 x 320 cm , de 1967, Coleção Delfim Chamadoira Vilan, Salvador.
38-Painel Piquenique à Noite, óleo sobre madeira de 111 x 222 cm, Coleção Ângelo Calomn de Sá, Salvador, 1967.
39-Painel - A Ceia de Cristo, óleo sobre madeira 120 x 220 cm Coleção Fernando Spínola, Salvador, 1967.
40-Painel Era Uma Vez , óleo sobre madeira 114 x 220 cm , Coleção do artista, Salvador, 1968.
41-Painel - O Anjo Hippie , óleo sobre madeira, 120 x 220 , localização desconhecida, 1968.
42-Mural - no teto da residência de Dilton Portela Lima, óleo sobre madeira, de 1969.
43-Painel O Cristo, óleo sobre madeira, 80 x 220 cm , Coleção Juracy Magalhães, Rio de Janeiro, 1971.
44-Murais Vida de São João Batista, óleo sobre parede 274 x 708 cm, inacabados , Capela Parque da Cidade, Rio de Janeiro, 1972.
45-Painel Casamento Hippie, óleo sobre tela 170 x 320 cm , Coleção Humberto Balby, Rio de Janeiro, 1972.
46-Painel A Procissão do Bom Jesus dos Navegantes, óleo sobre fibra de vidro, retratando 142 personalidades que levou dois anos para ser pintado, e foi destruído num incêndio em 11.11.1978, no Plenário da Assembléia Legislativa da Bahia.
47-Painel O Beijo , óleo sobre madeiram 160 x 660 cm, no Iate Clube da Bahia, 1973.
48-Painel Mosteiro de São Bento, óleo sobre madeira , 080 x 220 cm , Mosteiro de São Bento, Salvador, 1974.
49-Painel Trompe-l'oeil, óleo sobre parede, do qual resta apenas um detalhe, Galeria 13, rua Alfredo Brito,Pelourinho, Salvador, 1977.
50-Painel Auto-Retrato , óleo sobre madeiram de 220 x 160 cm, Coleção do artista, Salvador 1977.
51-Painel  Retrato de Martha Vasconcelos, óleo sobre madeira 160 x 220 cm , Coleção de Martha Vasconcelos, 1977.
52- Painel A Chegada dos Orixás na Bahia, óleo sobre tela colada sobre madeira de 293 x 480 cm, no Centro Empresarial Iguatemi, Salvador, 1979.
53-Painel O Anjo  óleo sobre tela de 110 x 210 cm, Coleção Milton Martinelli, Salvador, 1979.
54-Painel Retrato de Conceição Nunes Brook, óleo sobre tela 169 x 114 cm, Coleção Rosalva Nunes,Salvador, 1981.
55-Painel A Chegada de D. João VI na Bahia em 1808, óleo sobre madeira, 220 x 800 cm , Memorial da Faculdade de Medicina da Ufba, Salvador, de 1982.
56-Painel  A Pregação de Moisés, óleo sobre tela 169 x 114 cm, Coleção Marcus Kertzman, Salvador, 1982.
57-Painel Santo Antônio da Irmã Dulce, óleo sobre madeira, 220 x 160 cm , Salvador, 1983.
58-Painel Em Busca da Paz, óleo sobre madeira, Biblioteca Central da UFBA, campus de Ondina, Salvador,  de 180 x 160 cm, de 1983.
59-Painel Salvador Presente e Futuro, óleo sobre madeira de 80 x 220 cm, consta que estaria na Prefeitura Municipal, Salvador, mas não consegui localizar, de 1984.
60-Painel Retrato de Jorge e Zélia Amado, óleo sobre tela de 114 x 169 cm , Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, Salvador, 1985.
61-Painel O Encanto da Sereia, óleo sobre madeira de 160 x 220 cm , Coleção Paulo José Montanha Goulart, Salvador, de 1986.
62-Painel As Quatro Estações , óleo sobre madeira , Condomínio Lac Leman, Jardim Apipema, Salvador, de 1989.
63-Painel Ascensão de Cristo, óleo sobre madeira de 440 x 160 cm , Igreja da Ascensão, Centro Administrativo da Bahia, Salvador, de 1992.
64-Painéis  São Francisco de 220 x 160 cm, Imaculada Conceição de 220 x 80 cm e São Benedito de 220 x 80 cm, todos em óleo sobre madeira, Capela de São Francisco de Assis, Fundação Garcia D'ávila, Praia do Forte ,em Mata de São João, Bahia, de 1993.
65-Painel O Presente , óleo sobre madeira 207 x 80 cm , Coleção Particular, de 1993.
66-Painel A Procissão do Bom Jesus dos Navegantes , óleo sobre madeira  1000 x 1600 cm , retratando 170 personagens no Plenário da Assembléia Legislativa da Bahia, Salvador,de 1994.
67-Painéis Os Quatro Elementos da Natureza: A Água, O Fogo , O Ar e a Terra, óleos sobre madeira  com 110 x 170 cm , Coleção do Artista, de 1966.



 






domingo, 2 de agosto de 2020

O CRIADOR DA TAPEÇARIA-MURAL NO BRASIL

        Mural que você pode apreciar no restaurante no Hotel da Bahia. Uma obra que merece ser vista por todos os baianos.
É bom sempre lembrar das pessoas que em vida construíram um legado importante, não de riqueza,  mas de arte e beleza. Num desses acasos da vida me chegou às mãos através do amigo e artista conceituado Justino Marinho  um farto material sobre a vida e obra de um dos artistas baianos mais consagrados que é o Genaro de Carvalho. Artista emblemático que já teve textos escritos enaltecendo sua criatividade por Jorge Amado,os poetas Manuel Bandeira , Augusto Frederico Schmidt e Ferreira Goulart, além de inúmeros críticos de arte importantes dentre eles o  Clarival Prado Valadares . 
Portanto, é de certa forma uma ousadia falar sobre ele depois de tantos elogios feitos por estes grandes intelectuais . Mas, aprendi durante algumas décadas de atividade jornalística diária a conviver com muita gente de alta linhagem intelectual , até mesmo de poder político e econômico. Assim, me sinto estimulado a escrever algumas palavras sobre Genaro, contribuindo para manter sempre viva a sua arte rica em cores do nosso micro universo tropical.
O artista Genaro de Carvalho
Ele nasceu num pedacinho de terra privilegiado de nossa Salvador, na Gamboa de Cima, exatamente na rua Newton Prado, 59,casa esta debruçada sobre o mar da Baía de Todos os Santos, no dia 10 de novembro de 1926, e foi batizado como Genaro Antônio Dantas de Carvalho. Aos quatro anos de idade deu uma clara demonstração que trazia consigo a vontade de criar. De posse de uma caixa do tônico , conhecido na época o Glefina ,  recortou e fez uma montagem tentando reproduzir a Ilha de Itaparica, que se descortinava no horizonte. Utilizou ainda do Azul de Metileno para colorir a sua "obra" infantil e dar-lhe mais beleza.
Em março de 1944 viaja para o Rio de Janeiro  e vai  estudar Desenho na Sociedade de Belas Artes, com o professor Henrique Cavalheira, enquanto paralelamente  cursou o  científico no Colégio Andrews. Tendo entrado em contato com a arte feita naquela época no sul do país, e mesmo no exterior, já em setembro do mesmo ano integra o grupo de artistas baianos que decidiu romper com o academicismo que tinha a Escola de Belas Artes como guardiã. Foi ai que juntamente com Carlos Bastos e Mário Cravo Jr começou a mostrar sua arte com elementos do modernismo. Depois de realizar duas exposições no Rio de Janeiro , só no ano de 1947 expõe pela primeira vez individualmente na Bahia, na Biblioteca Pública de Salvador, e no ano seguinte na icônica Boite Anjo Azul.
Os tapetes de Genaro são
inconfundíveis.
Ganha uma bolsa de estudos e vai para Paris  sendo aluno de André Lhote e da École National de Beaux Arts de Paris. Ao terminar a bolsa decidiu percorrer a Itália para ver de perto os clássicos. Voltando assinou uma coluna no então Jornal da Bahia  chamada de Pintura onde discorreu sobre importantes artistas entre eles Van Gogh ( 1853-1890),(Winslow Homer,(1836-1910) Paul Cézanne ( 1839-1906), Maurice Utrillo ( 1883-1955), Georges Rouault,(1871-1958), Georges  Braque (1862-1963), e Paul Gauguin,(1848-1903) dentre outros .
Foi nesta viagem à Europa que descobriu os tapetes e em particular a tapeçaria-mural. Mostrou seu primeiro tapete ainda em Paris na Galeria Mai denominada Plantas Tropicais. 
Em 1950  ao regressar participou da 1a. Bienal de São Paulo, e pintou em afresco seco, os murais do Hotel da Bahia, que denominou de Festas Regionais de 200 metros quadrados , que lhe consumiu dois anos e meio de trabalho.
Fez dezenas de exposições aqui e no exterior e tem obras espalhadas em vários museus brasileiros  e de outros países , além de estar presente em coleções particulares importantes.
Está na coleção Plásticos da Bahia editado pelo professor Junot Silveira, na época Diretor da IOB, que editava o Diário Oficial da Bahia, e depois se transformou na Empresa Gráfica da Bahia. A apresentação é de Jorge Amado que à certa altura escreve : "Estamos diante de um artista em plena maturidade criadora ou seja , no instante do completo domínio de seu ofício, quando tudo se torna mais difícil,mais duramente conquistado, quando a obra se realiza numa complexidade de buscas e de soluções. " E em outro trecho diz : "Sua tapeçaria nasce da pintura , uma pintura que é a luz da Bahia e sua sabedoria popular".
 
                          ENCONTRO
Desenho de Dona Flor
Num domingo pela manhã saí com a família para dar uma volta no Campo Grande. Nesta ocasião morava na Rua Sabino Silva, no bairro do Chame Chame . Depois de apreciar a beleza do monumento da Independência da Bahia, conhecido por monumento ao Caboclo, resolvemos ir até o Passeio Público. Ao chegar nas imediações do Hotel da Bahia, na calçada do lado oposto, avistamos uma casa que estava com as portas abertas e nas paredes muitos pequenos quadros expostos. Resolvemos entrar e ninguém menos estava ali sentado com uma pequena faca nas mãos e uma batata. Era o artista Genaro de Carvalho que naquele momento estava fazendo suas pesquisas para criar uma nova tapeçaria. Conversamos alguns instantes e ele sempre calmo e disposto a explicar para aquelas pessoas estranhas e curiosas , embora não conhecessem quase nada da arte da tapeçaria. Se este encontro tivesse ocorrido recentemente certamente estaria aqui publicando algumas fotos.Mas, na época poucas pessoas dispunham de máquina fotográfica, e claro o celular não existia.
Outra curiosidade sobre Genaro é que  tinha muito cuidado em preservar as mulheres da Ilha de Itaparica que teciam os seus tapetes. Alguns dizem que ele mantinha um certo mistério e não gostava muito de falar sobre elas para evitar que outras pessoas as procurassem para tecer  tapetes. Mas, um galerista famoso na época descobriu o "segredo" e passou a fazer tapetes e procurou as tecelãs da Ilha.
Não se sabe o desfecho final, mas o galerista, e também tapeceiro, continuou sua jornada. Porém, os
Tapetes com frutos e
folhas.
tapetes de Genaro de Carvalho têm uma marca própria pelas suas composições e cores especiais. É fácil reconhecer um tapete de sua autoria pelos desenhos de folhas, flores ,borboletas e outros elementos tropicais, é é claro pela composição e o colorido . Até hoje é o melhor e mais famoso tapeceiro do Brasil.
Também, é bom lembrar que  fazia suas pinturas em cartões que enviava para as tecelãs e costumava acompanhar o trabalho com muito zelo. Muitos destes originais  emoldurava e colocava nas paredes de sua casa. Além disto Genaro era um exímio desenhista , e para finalizar algumas palavras do artista que estão no catálogo da exposição que fez na Galeria Astréia, em São Paulo :"A arte que faço é uma arte de amor,sempre foi.Faço porque gosto, e desejo que outros gostem também.Nunca foi nem será uma arte hermética,não é uma arte de revolta nem uma arte de protesto,mas isso não quer dizer que esteja de acordo com as dores do mundo contemporâneo".Isto foi em dezembro de 1968.



quarta-feira, 29 de julho de 2020

GALERIAS CONVIVIUM,MANOEL QUERINO E OXUMARÉ

A Rua Chile nos anos 70 era muito chic.
Vamos falar agora sobre três galerias de arte que tiveram importante papel em apresentar aos baianos a arte moderna e de vanguarda  que estava sendo produzida no sul do país e até no exterior. São as Galerias Convivium, Manoel Querino e a Oxumaré. Todas localizadas no Centro da Cidade. A Galeria Convivium na Rua Senador Costa Pinto,nº114, a Manoel Querino, na Rua Carlos Gomes e a Oxumaré na Ladeira de São Bento.  Nesta época nos anos 60 e 70 o Centro da Cidade era muito frequentado, sendo as Rua Chile e Avenida Sete de Setembro os principais núcleos do comércio varejista com lojas chics como a Sloper; Souto Maia; Adamastor ( loja masculina) ; Os Gonçalves  e a Africana (tecidos); Duas Américas e  Mesbla ( magazines) ; a Granfina ; depois surgiu a Florensilva, num prédio majestoso; a Casa Marconi , que vendia eletrodomésticos e bicicletas; a Leão de Ouro, sapataria ; as farmácias Chile e Caldas, dentre muitas outras. Enfim, era realmente os locais onde os baianos procuravam as novidades para uso pessoal ou para equipar suas residências. 
Naquela época as famílias costumavam sair de suas casas e ir andando da Avenida Sete de Setembro até a Rua Chile e vice-versa ,  no início da noite para apreciar as vitrines e depois iam saborear um sorvete na A Primavera , que ficava próxima ao Relógio de São Pedro ou na Sorveteria Cubana, que até hoje encontra-se instalada ao lado do Elevador Lacerda, na Praça Municipal, famosa por seu milk shake e os bolinhos de ovo. Os principais cinemas funcionavam na área como o Cine Guarani,  Cine Glória ( vizinho ao então prédio de A Tarde) o Cine Art , na Rua da Ajuda; o  Cinema Excelcior e Cine Liceu,da Praça da Sé e imediações e o Cine Capri, no Largo Dois de Julho. Havia um fluxo significativo de pessoas na área. É bom lembrar que a Cidade era pacata , não tinha esta violência assustadora de hoje.
 
GALERIA CONVIVIUM
A casa onde funcionou a
Galeria Convivium.
 
A Galeria Convivium foi fundada pelos irmãos Albertoni  e  Liana Bloise com o objetivo de expor artistas de vanguarda e funcionou durante menos de dois anos na Rua Senador Costa Pinto, nº 114. A Liana era uma artista que trabalhava com tecidos criando obras vanguardistas as quais provocavam muita inquietação. Depois de um período a direção artística da Galeria foi entregue ao mestre Juarez Paraíso que prosseguiu nesta disposição de expor obras  vanguardistas. 
Lembra Juarez Paraíso  a Galeria " tinha a proposta de só expor arte de vanguarda e assim operamos durante sua breve ,mas importante existência. Lá organizamos o melhor e mais avançado que existia na Bahia e no Brasil." E continua : "expomos obras de Reynaldo Eckenberger, José Maria de Souza, Francisco Liberato,  dentre outros. O pessoal do grupo da Nova Figuração Brasileira como Antônio Dias, Rubens Gerchman."
Confessa Juarez Paraíso que a Galeria faliu porque gastava muito e vendia pouco. Fizemos ainda alguns cursos e oficinas, mas nunca visando lucros.Tínhamos uma excelente estrutura arquitetônica com duas grandes salas de exposição, um bar fantástico, que foi o recanto para discussões e palestras ,mas principalmente bate papos e encontros de artistas. Lá você encontrava pessoas talentosas e bonitas da Bahia como Liana Bloise, Edsoleda Santos, Elizabeth Rothers,dentre muitas outras "
Anna Georgina , Liana Bloise e Emanoel Araújo.
Ele  disse ainda que a Galeria Convivium "foi uma parte muito importante de minha vida e atendeu de forma eficaz aos anseios de muitos artistas emergentes e de grande talento, todos lutando contra a maré, devido ao latifíndio cultural da época e a existência dos artistas oficiais de sempre".
A Liane Bloise utilizava a elementos da moda como objetos de arte, e o então Diretor do Museu de Arte de São Paulo - Masp, Pietro Maria Bardi escreveu um artigo  defendendo a integração entre a Arte e a Moda.
Quando a Galeria encerrou suas atividades , Liana Bloise me presenteou a Galeria com tudo que tinha dentro. "Mas, não foi possível continuar, porque na época eu não tinha a menor condição financeira para mantê-la. ". Não recebeu um centavo como diretor artístico da Galeria e  tinha criado no corredor na galeria como  local para expor quadros de 60x50,tamanho quase padronizado,dos artistas mais importantes das décadas de 50 e 60 , doados por eles. Depois do fechamento Juarez procurou outro  local adequado para eles, e ofereceu a coleção para a Universidade Federal da Bahia,na época através de Valentin Calderon de La Vara, braço direito do então reitor Roberto Santos. Solicitou de todos os artistas que tinham doado uma nova doação oficial dos quadros para a UFba. Apenas uma herdeira de um dos artistas não concordou respondendo que "já tinha um candidato para a sua venda".
"As vendas na Galeria Convivium eram muito fracas porque todos os que fizeram exposições lá eram inusitados e ninguém estava preocupado em vender", finalizou Juarez. Como o mercado é implacável com os que mesmo tendo talentos e objetivos nobres não conseguem cobrir seus custos e usufruir de algum lucro terminam enfrentando dificuldades e encerrando as atividades.

GALERIA QUERINO

O edifício Derick onde
funcionou a Querino.

A Galeria Manoel Querino foi fundada em 1963 pelo jornalista Renot em sociedade com alguns amigos, e foi palco de grandes exposições de artistas conhecidos nacional e até internacionalmente como em 1963  Di Cavalcanti, Djanira, Manabu Mabe, Aldemir Martins, Antônio Bandeira   , José de Dome,João Alves, Jenner Augusto , Hansen Bahia, Calasans Neto, Genaro de Carvalho , o escultor Agnaldo dos Santos  e Carlos Bastos .
Em 1964 Heitor dos Prazeres e também a primeira individual de Fernando Coelho; Carlos Scliar em 1965; em 1966 Kazuo  Wakabayashi e 1967 Franz Krajcberg .e muitos outros. 
A Galeria funcionava no térreo do edificio Derick, de propriedade de d. Veleda Lanat. Este edifício tem saída para a Avenida Sete de Setembro e a rua Carlos Gomes.
Lembra Reinaldo Marques, filho de Renot  que nesta época seu pai foi pioneiro em realizar leilões de arte em Salvador juntamente com o leiloeiro oficial Orlando Pereira, no Clube Baiano de Tenis. 
Cabia ao professor Clarival Prado Valadares, que era um dos sócios da galeria,  orientar as exposições a serem realizadas.
O artista baiano de Poções, atualmente residindo em Vitória da Conquista, Adilson Silva , 77 anos, disse que sua primeira exposição foi na Biblioteca Pública, na Praça Municipal, junto com Geraldo Rocha, já falecido, que expôs desenhos, e ele pinturas. Em seguida fez a sua primeira individual na Galeria Querino, "que era uma galeria top, bem estruturada, que nada devia às grandes galerias do Rio de Janeiro e São Paulo."
Apresentação de Mário Cravo
para a exposição de Adilson

 Na sua época apresentou exposições de importantes artistas do país. "Quem escreveu o texto me apresentando foi Mário Cravo Jr, que tinha chegado recentemente da Alemanha.Lembro que foi um sucesso de público e de vendas. Depois fui para o Rio de Janeiro onde passei 40 anos . Retornei à Vitória da Conquista  e já estou aqui há 15 anos, produzindo e bem adaptado. Hoje com a internet a gente vive conectado com o mundo inteiro de qualquer lugar. Tenho minha esposa e filha que me ajudam nesta conexão que considero muito importante para o artista ", disse Adilson Santos
Quando falei sobre a vida curta das galerias Adilson Santos lembrou de uma conversa que teve com Giuseppe Irlandini, famoso galerista carioca, que disse mais ou menos assim: para se montar uma boa galeria a pessoa tem que levar pelos menos antes uns dez anos fazendo um bom acervo e contatos com artistas e colecionadores. Senão acaba abrindo a galeria e perdendo tempo e dinheiro"
Adilson Santos em seu atelier .

O italiano-carioca  abriu  a Galeria Irlandini em 1968, que era uma das principais do sul do país. Ele nasceu em Bolzano, na Itália em 1924 e faleceu no Rio de Janeiro em 1997. Era pintor,gravador,restaurador,tapeceiro e se transformou em grande galerista. Chegou ao Brasil em 1948. Era também pintor de paisagens, marinhas, monumetos ,casarios,naturezas-mortas com flores e figuras humanas.
Voltando ao personagem Renot ele tinha muito prestígio em Salvador . Seu nome Renot  foi escolhido quando  foi trabalhar no Jornal da Bahia escrevendo uma coluna social chamada Grand Mond, sobre a sociedade baiana . Esta coluna terminou sendo transferida para o jornal Estado da Bahia, pertencente na época ao poderoso grupo de comunicação Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Passou então a dirigir um programa na TV Itapoã ,  entrevistando personalidades, além de manter a coluna no jornal e um programa na rádio Sociedade da Bahia, todos do mesmo grupo de comunicação. 
Renot assinando uma obra
de sua autoria. Foto Google
A Galeria era um grande sucesso, com várias exposições sendo vendidas por antecipação. Tinha o apoio incondicional de Odorico Tavares, que era Diretor dos Diários Associados, na Bahia, colecionador e um grande incentivador das artes plásticas. Mesmo assim a galeria, como as demais da época, teve uma vida breve que não chegou a cinco anos de funcionamento.
Em finais dos anos 60 Renot mudou para São Paulo e, em 1972 inaugurou a Galeria Renot, nos Jardins, na Capital paulista ,  promovendo exposições importantes como as de Francisco Rebolo,Aldemir Martins,Pennacchi, José Antônio da Silva,Cícero Dias, Rubens Gerchaman, Di Cavalcanti e João Alves , dentre outros. Em 2006 Renot se aposentou e passou o trabalho com arte para seu filho Reinaldo Marques que hoje faz leilões e exposições importantes em São Paulo e outras capitais. Ele trabalhou diretamente com o pai de 1987 até o ano 2000.

                                           GALERIA OXUMARÉ

O edificio Oxumaré.
 A primeira Galeria Oxumaré funcionava no Passeio Público e foi fundada nos anos 50 pelo professor Carlos Eduardo da Rocha em parceria com Zittelman de Oliva e Manuel Cintra Monteiro. Foi a primeira galeria que expôs obras de arte moderna em Salvador, e também realizou as primeiras exposições de Carybé, Carlos Bastos, Hansen Bahia, Raimundo Oliveira e de outros artistas que surgiam no cenário artístico da Bahia.  Também foi a primeira a comercializar obras de arte profissionalmente. Os artistas Jenner Augusto, expôs em 1952, Rubem Valentin em 1954, e em 1958  Aloísio Magalhães, com apresentação de Wilson Rocha. Também expôs o artista paulista Aldo Bonadei (nascido em 1906 e faleceu em 1974 .
A Galeria promoveu o II Salão Baiano de Belas Artes, agora com participação de artistas mulheres, e  funcionou até os anos 1961.
Depois o arquiteto e colecionador Domenico Gatto, construiu o prédio Oxumaré ,  Avenida Sete de Setembro, 89, ( Ladeira de São Bento) e lá o casal Pedro Fragoso e Káttya fundou a nova Galeria Oxumaré.  
A Galeria funcionava no prédio do mesmo nome que  tem  nove andares, e 80 anos de idade , é um dos edifícios que contam a história do desenvolvimento de Salvador, tem a classificação C.
Lembra o artista Edvaldo Gato, que não é parente de Domenico Gatto, que as exposições eram muito concorridas a ponto de as instalações da galeria não comportarem o número de presentes, e as pessoas se espalhavam pelo corredor onde funcionavam algumas outras lojas, e o hotel a partir do primeiro andar. "As exposições na Oxumaré eram acontecimentos cultural e social de relevância. Muita gente comparecia porque os expositores eram artistas daqui e de fora muito qualificados."
O artista Adilson Silva participou de uma coletiva na Galeria Oxumaré , mas tem poucas lembranças do vernissage. Lembra que o convite era muito simples com os nomes dos artistas expositores, mas que as exposições eram muito concorridas. 
NE-Diante das dificuldades de fontes primárias e falta de documentação este artigo está aberto a novas contribuições .




























 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

FLORIANO TEIXEIRA E A VIDA EM MINIATURA


AS GALERIAS LE DÔME E PANORAMA

O casarão onde funcionou a Galeria Le Dôme, antes 
da reforma feita pelos irmãos Cardoso.
A Galeria Le Dôme foi criada pelo artista Euler  e seus irmãos Eckener e Publio Cardoso em novembro do ano 1965  na Rua Leovigildo Filgueiras, 24, no bairro da Fazenda Garcia, em Salvador. Este nome foi escolhido em homenagem ao artista sergipano José de Dome. A ideia  surgiu devido Euler enfrentar dificuldades para expor suas obras nas poucas galerias que funcionavam naquela época em Salvador, que ´preferiam artistas consagrados.
Conheci o artista José de Dome, em Curitiba ,nos anos 60. Estava hospedado num hotel e ao solicitar a chave do meu apartamento chegou ao balcão da recepção o artista sendo  reconhecido por mim , e conversamos alguns minutos. À noite ao retornar ele tinha deixado uma aquarela de sua autoria na portaria do hotel para mim, a qual  tenho até hoje no escritório . Este era o José de Dome uma pessoa amável e de grande talento. Nunca mais tive a oportunidade de encontrá-lo. Ele nasceu na cidade de Estância, em Sergipe, em 1921, e faleceu em Cabo Frio,  Rio de Janeiro, em 1982. Seu nome era José Antônio dos Santos, e tinha este apelido porque sua mãe era uma tecelâ conhecida na cidade e chamava-se Dometila .No sertão costumam apelidar os filhos de José de sicrano, Maria de fulana etc.
O governador Lomanto Junior com os 
 irmãos Cardoso. Eckener ,Euler -de
 cachimbo- e Publio, sócios da galeria
  Conta Anna Georgina que " tudo começou numa tarde de domingo, depois do almoço no apartamento de meu avô Alfredo Gomes Cardoso, no bairro do Canela, numa conversa entre meu pai Euler de Pereira Cardoso com os irmãos Publio e Eckener resolveram abrir uma galeria de arte.
Colocaram vários nomes para votação em família e Le Dôme Galeria de Arte venceu. Como nós morávamos no bairro do Garcia, em frente ao Colégio Antônio Vieira, meu pai saiu para procurar uma casa . Foi quando encontrou uma disponível para aluguel  junto ao Colégio das Sacramentinas e resolveu alugar. Fez uma reforma , passamos  a fazer o fichário das pessoas a serem convidadas para a inauguração e convidamos os artistas que iriam participar da coletiva de inauguração."

 Foi um acontecimento cultural e social de grande relevância para a Cidade de Salvador naquela época , e contou inclusive com a presença do Governador Antônio Lomanto Júnior e a nata da sociedade baiana, entre de políticos, empresários, jornalistas ,muitos artistas e outros convidados.
Ao lado a foto de alguns dos artistas que participaram da mostra de inauguração da Le Dôme: Oscar Caetano, Joceval Machado, Adilson Santos, João Carrera, Euler Cardoso, José Arthur, Sá Menezes, Vera Seabra, Odete Valente, Lúcia Good Grooves, Anna Georgina, Célia Azevedo e Margarida Alves. Tinha obras ainda de Genaro de Carvalho, Adam Finerkaes e Itamar Espinheira, que não aparecem na foto.
Conta Eduardo Evangelista em seu artigo " Primeiras Galerias", publicado no suplemento Cultural de A Tarde, em 28 de abril de 1990 , que para a inauguração foram distribuídos 4.500 convites ,quantidade que se repetiu em outras mostras, provocando um frenesi durante os vernissages com a galeria sempre cheia de convidados.
Ele diz textualmente que " os vernissages na então Galeria Le Dôme aconteciam num clima teatral, com todo um aparato de recepcionistas fardadas para atender o público, garçons em alvos uniformes , o grande salão de exposição apinhado de convidados e iluminado por um candelabro com 136 lâmpadas em forma de vela, além de uma feérica iluminação em spots voltados para o teto."
Rômulo Serrano e  obra sua autoria.
Ele descreve ainda o luxo de uma bela cortina de veludo vermelha fechando o fundo do salão e  a escadaria que dava acesso ao primeiro andar, de onde por volta das 21 horas, o artista expositor descia a escada com toda a pompa de um espetáculo. Ai os fotógrafos espocavam seus flashes e o coquetel era servido aos convidados."
O primeiro artista a expor individualmente na Le Dôme foi Rômulo Serrano ,que era um bancário a exemplo dos irmãos Euler , Eckener e Públio Cardoso. A mostra teve a apresentação do escritor Jorge Amado. Durou pouco este luxo porque em 1967 os irmãos se separaram. A  Le Dôme Galeria de Arte foi transferida para o Desterro e Euler fundou sua Panorama Galeria de Arte em 17 de julho de 1967.
A Panorama, no
Largo Dois de Julho.
O artista e galerista  Euler Cardoso fundou a Panorama Galeria de Arte que passou a funcionar no lugar onde antes era a Le Dôme , na Leovigildo Filgueiras, nº 24,no Garcia , até que  a proprietária do casarão d. Veleda Lanat resolveu vender o imóvel para a construção de um prédio, obrigando assim a Galeria ser transferida . No local foi construído  o edifício Maurício de Nassau.
Foi quando em 1970 em caráter emergencial se instalou na Praça Inocêncio Galvão, nº48,  no Largo Dois de Julho ,defronte ao antigo Cinema Capri. Em 1973 mudou para o Jardim Brasil, na rua Belo Horizonte, nº 148, bairro da Barra  Avenida. Teve dois endereços no Jardim Brasil. Daí voltou para o bairro do Garcia, na Rua Pacífico Pereira, nº 34, na Curva Grande . Finalmente, se  estabeleceu em 1970 na rua Nelson Gallo, 19, no bairro do Rio Vermelho, até encerrar suas atividades em 2012, após 45 anos de presença no cenário artístico baiano.
                                                    
                                                                  PARTICIPAÇÃO
Anna Georgina e o crítico Wilson Rocha
na exposição  de tapeçarias da artista.
A artista Anna Georgina, filha de Euler Cardoso ,teve  uma presença importante na trajetória das duas galerias que eram de seu pai e de seus tios . Atuou como professora em vários cursos realizados na galeria, promoveu salões, exposições e também é uma marchand de renome no cenário artístico baiano.
O patrono da Panorama Galeria de Arte era o professor Emídio Magalhães, foi quem a inaugurou com uma exposição individual de suas obras. O logotipo foi desenhado por Carlos Estivallet, Também já falecido.
Aí a casa, no Rio Vermelho, onde
funcionou  a Galeria Panorama.
Lembra Anna Georgina que no primeiro ano fizeram ainda exposições de Herval Moreira, Alcides Naval ( Rio de Janeiro), Ana Maria Doria, Adam Finerkaes, Célia Azevedo, Jayme Hora, Newton Silva, Carlos Augusto Bandeira e o lançamento da revista DEC - Decora, Executa e Cria.  Dezenas de outros artistas fizeram exposições na Panorama e promoveram o Salão de Arte Infantil; Salão dos Estreantes; Salão dos Novos; Festival de Arranjos Florais; Coletiva da Primavera e Natal; Exposição de Arte Sacra; Concurso da Marinha de Arte ; Salão Euler Cardoso e junto com a Caixa Econômica Federal fez a exposição Arte Mulher, no Shopping Barra.
Ela sempre teve muita disposição e um envolvimento com o fazer artístico ao lado de seus pais. Com o falecimento do Euler foi morar com sua mãe e juntas tocaram a galeria por alguns anos, até o seu encerramento. Foram 45 anos de muita luta e   alegria que terminou com o fechamento da galeria em 2012.
Após a morte de Euler a Anna e sua
mãe d. Yolanda tocaram a galeria
por vários anos.
Lembra Anna Georgina que a sociedade entre os irmãos Euler  (seu pai)  , Eckener e Publio Cardoso durou apenas dois anos porque eles se desentendiam muito. Uma das razões foi que Euler era mais receptivo e gostava que os visitantes permanecessem mais tempo na galeria conversando sobre arte e outros assuntos, enquanto o Eckener era mais pragmático e não concordava com àquelas permanências, que muitas vezes o incomodavam.  Daí resolveram se separar e surgiu a Panorama Galeria de Arte , enquanto o Eckener se transferiu com a Le Dôme para o bairro do Desterro.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

GALERIA BAZARTE E O MISTÉRIO DO SEU CASTRO

O prédio onde funcionou a Bazarte,
atualmente uma loja de materiais de
construção.
O comerciante paulista do bairro do Brás  José Marques Castro ou seu Castro, como era chamado por todos , era uma figura diferenciada que chegou aqui na década de 50. Montou uma loja de roupas masculinas, na Avenida Joana Angélica, na esquina que fica em frente onde funcionava a Faculdade de Direito,  antes de ser transferida para o Vale do Canela. Tempos depois foi se enfronhando com o movimento cultural baiano.  Abriu sua Galeria Bazarte, na Rua Politeama de Cima, nº 34, no bairro do Politeama . Resolveu abrir  em contragosto de sua esposa. Passou a exercer seu trabalho de marchand vendendo obras dos principais artistas da época , a maioria professores da Escola de Belas Artes. Eles frequentavam a galeria e alguns quase diariamente iam trocar ideias . Não era uma galeria como as demais. Muito simples em suas instalações e ainda misturava artistas acadêmicos,  primitivos , santeria e até mesmo obras de cerâmica dos oleiros de Maragogipinho.
Dizem que ele pintava e gostava de restaurar imagens. Mas, mesmo aos mais íntimos se negava a mostrar seus trabalhos de arte.
Entusiasmado com o Novo Expressionismo que efervescia no sul do país, especialmente em São Paulo  começou a receber artistas jovens em sua galeria  avaliando e orientando. Alguns  em situação econômica mais difícil  acolheu no mesmo prédio onde funcionava sua galeria.
Em pouco tempo a Bazarte tornou-se um ponto de encontro e um centro de referência de artistas não apenas plásticos, mas também atores, cantores ,fotógrafos, cineastas e dançarinos .Tinha  bar e um pátio onde as pessoas ficavam conversando sobre arte. O curioso é que seu Castro não tinha aquela preocupação primordial com o lucro, ele objetivava movimentar o cenário artístico local. Isto lhe trazia uma satisfação imensurável.
                                          ROMPIMENTO
Foi a época em que um grupo de artistas rompeu com o academicismo que reinava na Escola de Belas Artes e passou a criar obras dentro de uma visão modernista. Assim a presença de Castro foi de extrema importância  porque reuniu  artistas integrantes  e de fora da EBA. Entre estes artistas estavam  Jamison Pedra, Juarez Paraíso,  o argentino Reinaldo Eckenberger  , Edison da Luz, Sônia Castro (1934-2015) , Terciliano Jr , o alemão, de Hamburgo, Karl Heinz Hansen,( que depois adotou o nome Hansen Bahia) ,  o outro alemão Adam Firnekaes, Eurico Luiz, Carlos Estivalet e também cantores como Edil Pacheco, o cineasta Kabá Gaudenzi, dentre outros.
Como escreveu o saudoso cineasta  Kabá Gaudenzi em 25 de maio de 1996 no suplemento cultural do Jornal A Tarde  a galeria Bazarte "era um centro de intercâmbio de linguagens e convivência transgeracional e humanística".
Coincidindo com este período foi criado o Museu de Arte Moderna que passou a funcionar no foyer do Teatro Castro Alves. Sua fundadora foi a arquiteta Lina Bo Bardi, o qual depois foi transferido para o Solar do Unhão ,onde está até hoje. Lá você pode apreciar importantes obras de arte como também uma bela escada de madeira de autoria da arquiteta unindo os dois pavimentos do edifício .
O artista Juarez Paraíso em foto
datada de 1971.Reprodução.
O mestre Juarez Paraíso teve uma participação e presença importante na Galeria Bazarte e ele relembra assim:"Embora de suma importância para a “internacionalização da arte moderna na Bahia”, Cidade do Salvador, a Segunda Geração de Artistas Plásticos Modernos, Geração 60, pode ser considerada como a Geração Esquecida, espremida pelos nossos famosos pioneiros modernistas, Geração 50 e os governos militares, principalmente a partir do AI-5. 
Para a formação desta importante Segunda Geração de artistas modernos da Bahia, contribuíram os artistas mais ligados à Escola de Belas Artes e aqueles que frequentavam, mais assiduamente, a Galeria Bazarte do seu Castro , ex-comerciante tornado Galerista, por opção de vida , sensibilidade e amor às artes plásticas. Lembro-me que o seu Castro, como era mais chamado, dava abrigo, moradia, aos artistas que precisavam. A galeria tornou- se uma verdadeira república de artistas, com um único benfeitor,  em lugar do “marchand “, o seu Castro.  Este abnegado benfeitor dos artistas , principalmente emergentes, também tinha um enorme e valioso terreno em Jauá que franqueou aos artistas, com a condição de que fossem lá morar nos lotes doados.
A sua intenção e esperança era formar uma comunidade exclusivamente de artistas . Artistas consagrados como João José Rescala, restaurador e professor da EBA, também ganhou o seu lote. O sonho dissolveu-se, diante da incompreensão e ganância de alguns, que chegaram inclusive a vender os terrenos doados.
 Concorrendo com a EBA,  a galeria Bazarte tinha também uma   prensa de xilogravura, utilizada na realização de xilos que compuseram edições de importantes álbuns, que contam a história da gravura na Bahia . Um dos artistas formados na galeria Bazarte , Terciliano Jr., ainda possui alguns destes álbuns.
Muitos foram os artistas que, umbilicalmente, fizeram parte e foram beneficiados pela Confraria criada e liderada pelo seu Castro, dentre eles Jamison Pedra. Kabá, Edison da Luz , Terciliano Jr. , Sônia Castro, Gley Melo, Renato da Silveira, Celuque, Reinaldo Eckenberger e  Emanoel Araújo."
Também foi na Bazarte que a conhecida Escola Baiana de Gravura, criada na Escola de Belas Artes, contou com o  seu incentivo, e os artistas iniciantes a oportunidade de trabalhar  e terem suas obras divulgadas com a publicação de  seis álbuns de gravuras ."
Ai o criativo Edison da Luz,
sempre disposto a polemizar. 
Para lembrar um pouco desta época conversei também com o artista Edison da Luz, hoje com 80 anos, e continua produzindo e polemizando. Ele lembra que neste período o movimento cultural baiano estava em plena evolução e "o seu Castro ajudou muitos de nós, inclusive hospedando alguns no prédio onde funcionava a galeria. "Seu Castro gostava muito de realizar workshops com artistas de várias tendências discutindo e dando suas impressões sobre a arte feita naquela época. Eram momentos de debates calorosos e muito enriquecedores."
Disse que o primeiro contato com o seu Castro ocorreu numa visita que fez   à Galeria  levando algumas gravuras que tinha feito na Escola de Belas Artes. Lá chegando mostrou ao marchand e incentivador da arte que " gostou  dos meus trabalhos, e daí em diante passei a frequentar  durante vários anos". Prossegue  Edison da Luz afirmando que "o seu Castro orientou vários artistas, hoje famosos, alguns já se foram, mas a sua importância para a arte baiana foi fundamental."
A maioria das escolas de Belas Artes , inclusive a da Bahia, foi criada tendo como espelho a École de Beaux Artes de Paris. Certamente o espírito do academicismo dominava todas elas. Porém, nos anos 60 já existia em todo o país movimentos visando o rompimento com esta corrente. Assim o Novo Expressionismo e outras correntes surgiam com toda a força. Foi neste momento de procura de novas formas de expressão que o seu Castro  passou a exercer sua influência aqui.


Terciliano Jr em seu
atelier tem boas
lembranças .
                   
                        HOMENAGEM

O artista Terciliano Jr. ao completar 50 anos de atividades artísticas  em 1972 fez uma exposição, no Sesc, de Pompeia, em São Paulo , juntamente com o escultor Chico Diabo, já falecido. Nesta exposição ele prestou uma homenagem ao seu Castro  e escreveu este texto  no catálogo:
"Há 30 anos atrás a Bahia estava com o céu azul mais do que o normal . O sol brilhava de forma tão grandioso que os paralelepípedos da Ladeira do Pelourinho refletiam as fachadas dos casarões de antanho como um espelho. O mar era uma explosão de cores em fusão marítima, a água ao mesmo tempo era clara e transparente dando para ver Yemanjá lá no fundo com os peixes acariciando seus cabelos . A lagoa do Abaeté cercada de verde com as flores amarelas protegida por Oxóssi. O céu azul protegido por Oxalá, a areia alva, a água negra da cor da minha pele, serviam como composição da beleza de Oxum. Todos os negros ,brancos e mulatos baianos cantavam para todas as divindades radicadas na Bahia pela chegada de um branco, preto e mulato paulista que seria batizado, adotado e confirmado por todos os deuses afro-baianos. J. Castro era o seu nome. Ou seu Castro como todos nós o chamávamos .Tornou-se filho da Bahia, amigo e companheiro dos artistas e intelectuais baianos. Fundou a Galeria Bazarte . E de lá nasceram Reinaldo Eckenberger, Terciliano Jr., Emanoel Araújo, Chico Diabo, Edy Star, Edison da Luz, Kennedy Bahia, Kabá Gaudenzi, Luana  (manequim),Carlos Henrique e Eurico Luiz. Os que passaram João José Rescala, Raimundo Oliveira, Sônia Castro, Reinaldo Brito, Gley Melo, Jamison Pedra e muitos outros. Amigo de Genaro de Carvalho, Juarez Paraíso e Jorge Amado, tendo por este último uma grande admiração.
Ele descobriu um recanto poético baiano, e o pretendia transformar numa vila
Gravura de Sônia Castro
do Álbum nº 4
residencial dos artistas em Arembepe Em uma tarde ensolarada e cercada de beleza por todos os lados no local citado, ouviu através o ronco do mar, auxiliado pela brisa que existe algo de maravilhoso por ali. Era uma Atlântida que existe ( ou existia, porque ele se foi com seu Castro) e ele ia mostrar para a Bahia e o mundo, a sua existência. O próprio Gilberto Gil ouviu o relato do seu Castro. J. Castro foi um fruto paulista  para a alimentação cultural baiana. Ramificou sua sabedoria os pincéis, formões e palavras para que as pessoas dessem continuidade , e depois criassem seus caminhos em traços, formas e composições para o mundo. A Bahia ficou de luto. O terreiro de Amoreira lá em Itaparica foi reivindicado por todos os Orixás para a cerimônia de Egun. O acervo da Bazarte só recordações de um prelúdio de glória".

Em 2008 o artista Terciliano Jr. foi homenageado pela Academia de Artes e Ciências e Letras de Paris, pelos relevantes serviços prestados à Cultura brasileira, principalmente a baiana.
O cantor e compositor baiano Edil Pacheco lembra que seu Castro gostava muito de samba e  das presenças do maestro Carlos Lacerda, da dupla Tom e Dito . Se apresentou algumas  vezes por lá ,e sempre era um ambiente onde se respirava arte. Também não tem nada registrado sobre a Galeria como fotos, programas , cartazes etc.
O artista Renato da Silveira lembra que esteve poucas vezes na Bazarte numa delas participando de um debate sobre "Arte pela Arte",  contra a arte engajada. Disse que entre os debatedores estava o consagrado tapeceiro Genaro de Carvalho. Sua atuação na época era montando exposições nas faculdades. Diz que expôs na Faculdade de Economia ( que ficava na Praça da Piedade), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas ( funcionava na Avenida . Joana Angélica, onde onde está o Ministério Público) e na Faculdade de Arquitetura, entre outras. Lembra da atuação do seu Castro e de seu interesse em ajudar novos talentos. 

                                      MISTERIOSO
Reprodução de  foto do
 seu Castro com  cigarro
preso nos lábios.

Podemos dizer que o seu Castro era uma figura realmente ímpar.  Descendente de portugueses , e ao chegar em Salvador na década de 50 montou sua loja de roupas masculinas no início da Avenida Joana Angélica, e um de seus funcionários foi o ator Geraldo Del Rey.
 Resolveu abrir uma galeria de arte em contragosto com sua esposa. Passou a exercer seu trabalho de marchand vendendo obras dos principais artistas da época , a maioria professores da Escola de Belas Artes . Eles frequentavam a galeria e alguns quase diariamente iam trocar ideias com ele.
Depois seu Castro conheceu o Novo Expressionismo paulista e passou a  exercer uma grande influência entre os artistas especialmente os jovens . Acolheu vários deles que moravam nos quartos divididos por tabiques no velho casarão, onde embaixo funcionava a Galeria Bazarte. Também alguns estrangeiros que aportaram aqui neste período foram acolhidos  como o  argentino Reinaldo Eckenberger que morou no prédio da galeria  ainda  frequentada por Hansen Bahia, Carybé e Adam Firnekaes e outros.
O ambiente era de festa e cultura. O bar servia batidas de várias frutas e outras bebidas para a rapaziada , mas o ambiente não tinha drogas. Apenas as bebidas alcóolicas,  afinal estávamos sob a tutela do regime militar.
 Havia um velho piano que sempre era acionado por jovens músicos, especialmente pelo pessoal do Seminário de Música , da Universidade Federal da Bahia. Muitas vezes aos sábados eram exibidos filmes de arte como de Jean-Luc Godard , Ingmar Bergman , Woody Allen, Charlie Chaplin, dentre outros através um projetor que era emprestado pelo então diretor da USIS, que antecedeu a ACBEU, e também funcionava nas imediações.
Gostava de influenciar sempre com o objetivo de divulgar o Novo Expressionismo  que estava efervescendo no sul do país, especialmente em São Paulo de onde viera.
Publicou seis álbuns de xilos de gravadores baianos , impressos na antiga Empresa Gráfica da Bahia, onde incluía desde artistas primitivos aos que estudavam ou já tinham terminado seus cursos na Escola de Belas Artes da Bahia, alguns inclusive tornaram-se professores de alta relevância como o alemão Adam Firnekaes.
Não satisfeito por acolher e incentivar os artistas ele ocupou um terreno entre em Jauá com o objetivo de criar uma Vila dos Artistas. Assim o escritor Guido Guerra, os artistas Leonardo Alencar, Jamison Pedra , Edison da Luz ,Terciliano Jr e muitos outros demarcaram seus lotes para a construção de casas. No centro pretendia erguer um grande galpão onde seria a oficina coletiva de criação. Com seu volkswagen transportava materiais com o intuito de tornar seu sonho realidade. Como era uma área desabitada, e as terras devolutas pertencentes ao município de Camaçari foi fácil a sua ocupação.
Jamison Pedra jovem , época em que
frequentava a Galeria Bazarte.
Jamison lembrou ainda que tanto Caetano como a Gal Costa participaram de vários saraus às sextas realizadas na Bazarte.

Porém, em determinado momento muito entusiasmado com seu novo projeto imaginou que tinha encontrado a Atlântida depois que se deparou com algumas moedas antigas. Seu sonho não se concretizou a maioria das casas não foi construída . Sabe-se que o único que finalizou na época foi o saudoso Guido Guerra.
Lembra Jamison Pedra que ele e seu pai depois lutaram para concluir  a sua casa , e que enfrentou muita dificuldade para regularizar o terreno .
Neste período seu Castro se envolveu   com uma mulher bem mais jovem que ele. Contam que devido ao ciúme com o novo amor passou a não querer receber mais ninguém em sua galeria. Os tempos mudaram, e o  afastamento foi tão grande que não se  sabe ao certo quando  morreu, de quê morreu e onde estaria sepultado. Sabemos que seu Castro era um fumante inveterado e isto certamente deve ter contribuído para sua morte.

                                                  ÁLBUNS DE GRAVADORES 
Capa do Álbum nº1
Foram publicados seis álbuns .Consegui identificar  apenas quatro e a duras penas confirmar os nomes do integrantes desses álbuns  . Ainda vou tentar encontrar os demais, se é que existiram. Mas, soube que os dois outros foram dedicados à Capoeira e o Maculelê.

O álbum de número 01 - intitulado Gravadores Baianos é composto por dez xilogravuras e tem a apresentação de Lydia Borja  e participam os artistas: Reinaldo Eckenberger, Edivaldo Souza, Edison da Luz, Carlos Estivallet, Gilberto Oliveira, Gley Melo, Jamison Pedra, Kabá, Sônia Castro e Terciliano Jr.
O álbum de número 2 intitulado Temas Populares ,é composto de 20 xilogravuras de artistas primitivos e tem a apresentação do professor Carlos Eduardo da Rocha. Os artistas são: Ana Lúcia, Carlos Henrique, Carmem França, Chico Sampaio, Laurentino Reis, Pedroso e Vivaldo Sampaio.
Capa do Álbum nº 3
O álbum de número 3 intitulado Gravadores Baianos tem a apresentação de Lydia Borja . Os artistas são: Adam Firnekaes, Ângelo Hodrick, Reinaldo Eckenberger, Edison da Luz, Edivaldo Souza, Eduardo Reis, Estivallet, Gley Melo, Jamison Pedra, Kabá Gaudenzi, Sônia Castro, Terciliano Jr. e Thereza.

O álbum de número 4 intitulado São João na Bahia - Textos e Melodias  tem artigos escritos por Adroaldo Ribeiro Costa, Edivaldo Souza, Hildegardes   Vianna, Magda Alzira, Enderich, Maria Edísia, Marieta Alves ,Plínio Almeida , Vasconcelos Mais e Wanda Viana Monte. Os artistas são: Edison da Luz, Edivaldo Souza, Carlos Estivallet, Laurentino Reis, Licídio Lopes, Thereza e Vivaldo Santos.
NA -Este é um artigo aberto à novas informações. Na medida em que conseguir terei o maior prazer em anexar ou mesmo suprimir o que for necessário.
De Reynivaldo Brito