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quarta-feira, 29 de julho de 2020

GALERIAS CONVIVIUM,MANOEL QUERINO E OXUMARÉ

A Rua Chile nos anos 70 era muito chic.
Vamos falar agora sobre três galerias de arte que tiveram importante papel em apresentar aos baianos a arte moderna e de vanguarda  que estava sendo produzida no sul do país e até no exterior. São as Galerias Convivium, Manoel Querino e a Oxumaré. Todas localizadas no Centro da Cidade. A Galeria Convivium na Rua Senador Costa Pinto,nº114, a Manoel Querino, na Rua Carlos Gomes e a Oxumaré na Ladeira de São Bento.  Nesta época nos anos 60 e 70 o Centro da Cidade era muito frequentado, sendo as Rua Chile e Avenida Sete de Setembro os principais núcleos do comércio varejista com lojas chics como a Sloper; Souto Maia; Adamastor ( loja masculina) ; Os Gonçalves  e a Africana (tecidos); Duas Américas e  Mesbla ( magazines) ; a Granfina ; depois surgiu a Florensilva, num prédio majestoso; a Casa Marconi , que vendia eletrodomésticos e bicicletas; a Leão de Ouro, sapataria ; as farmácias Chile e Caldas, dentre muitas outras. Enfim, era realmente os locais onde os baianos procuravam as novidades para uso pessoal ou para equipar suas residências. 
Naquela época as famílias costumavam sair de suas casas e ir andando da Avenida Sete de Setembro até a Rua Chile e vice-versa ,  no início da noite para apreciar as vitrines e depois iam saborear um sorvete na A Primavera , que ficava próxima ao Relógio de São Pedro ou na Sorveteria Cubana, que até hoje encontra-se instalada ao lado do Elevador Lacerda, na Praça Municipal, famosa por seu milk shake e os bolinhos de ovo. Os principais cinemas funcionavam na área como o Cine Guarani,  Cine Glória ( vizinho ao então prédio de A Tarde) o Cine Art , na Rua da Ajuda; o  Cinema Excelcior e Cine Liceu,da Praça da Sé e imediações e o Cine Capri, no Largo Dois de Julho. Havia um fluxo significativo de pessoas na área. É bom lembrar que a Cidade era pacata , não tinha esta violência assustadora de hoje.
 
GALERIA CONVIVIUM
A casa onde funcionou a
Galeria Convivium.
 
A Galeria Convivium foi fundada pelos irmãos Albertoni  e  Liana Bloise com o objetivo de expor artistas de vanguarda e funcionou durante menos de dois anos na Rua Senador Costa Pinto, nº 114. A Liana era uma artista que trabalhava com tecidos criando obras vanguardistas as quais provocavam muita inquietação. Depois de um período a direção artística da Galeria foi entregue ao mestre Juarez Paraíso que prosseguiu nesta disposição de expor obras  vanguardistas. 
Lembra Juarez Paraíso  a Galeria " tinha a proposta de só expor arte de vanguarda e assim operamos durante sua breve ,mas importante existência. Lá organizamos o melhor e mais avançado que existia na Bahia e no Brasil." E continua : "expomos obras de Reynaldo Eckenberger, José Maria de Souza, Francisco Liberato,  dentre outros. O pessoal do grupo da Nova Figuração Brasileira como Antônio Dias, Rubens Gerchman."
Confessa Juarez Paraíso que a Galeria faliu porque gastava muito e vendia pouco. Fizemos ainda alguns cursos e oficinas, mas nunca visando lucros.Tínhamos uma excelente estrutura arquitetônica com duas grandes salas de exposição, um bar fantástico, que foi o recanto para discussões e palestras ,mas principalmente bate papos e encontros de artistas. Lá você encontrava pessoas talentosas e bonitas da Bahia como Liana Bloise, Edsoleda Santos, Elizabeth Rothers,dentre muitas outras "
Anna Georgina , Liana Bloise e Emanoel Araújo.
Ele  disse ainda que a Galeria Convivium "foi uma parte muito importante de minha vida e atendeu de forma eficaz aos anseios de muitos artistas emergentes e de grande talento, todos lutando contra a maré, devido ao latifíndio cultural da época e a existência dos artistas oficiais de sempre".
A Liane Bloise utilizava a elementos da moda como objetos de arte, e o então Diretor do Museu de Arte de São Paulo - Masp, Pietro Maria Bardi escreveu um artigo  defendendo a integração entre a Arte e a Moda.
Quando a Galeria encerrou suas atividades , Liana Bloise me presenteou a Galeria com tudo que tinha dentro. "Mas, não foi possível continuar, porque na época eu não tinha a menor condição financeira para mantê-la. ". Não recebeu um centavo como diretor artístico da Galeria e  tinha criado no corredor na galeria como  local para expor quadros de 60x50,tamanho quase padronizado,dos artistas mais importantes das décadas de 50 e 60 , doados por eles. Depois do fechamento Juarez procurou outro  local adequado para eles, e ofereceu a coleção para a Universidade Federal da Bahia,na época através de Valentin Calderon de La Vara, braço direito do então reitor Roberto Santos. Solicitou de todos os artistas que tinham doado uma nova doação oficial dos quadros para a UFba. Apenas uma herdeira de um dos artistas não concordou respondendo que "já tinha um candidato para a sua venda".
"As vendas na Galeria Convivium eram muito fracas porque todos os que fizeram exposições lá eram inusitados e ninguém estava preocupado em vender", finalizou Juarez. Como o mercado é implacável com os que mesmo tendo talentos e objetivos nobres não conseguem cobrir seus custos e usufruir de algum lucro terminam enfrentando dificuldades e encerrando as atividades.

GALERIA QUERINO

O edifício Derick onde
funcionou a Querino.

A Galeria Manoel Querino foi fundada em 1963 pelo jornalista Renot em sociedade com alguns amigos, e foi palco de grandes exposições de artistas conhecidos nacional e até internacionalmente como em 1963  Di Cavalcanti, Djanira, Manabu Mabe, Aldemir Martins, Antônio Bandeira   , José de Dome,João Alves, Jenner Augusto , Hansen Bahia, Calasans Neto, Genaro de Carvalho , o escultor Agnaldo dos Santos  e Carlos Bastos .
Em 1964 Heitor dos Prazeres e também a primeira individual de Fernando Coelho; Carlos Scliar em 1965; em 1966 Kazuo  Wakabayashi e 1967 Franz Krajcberg .e muitos outros. 
A Galeria funcionava no térreo do edificio Derick, de propriedade de d. Veleda Lanat. Este edifício tem saída para a Avenida Sete de Setembro e a rua Carlos Gomes.
Lembra Reinaldo Marques, filho de Renot  que nesta época seu pai foi pioneiro em realizar leilões de arte em Salvador juntamente com o leiloeiro oficial Orlando Pereira, no Clube Baiano de Tenis. 
Cabia ao professor Clarival Prado Valadares, que era um dos sócios da galeria,  orientar as exposições a serem realizadas.
O artista baiano de Poções, atualmente residindo em Vitória da Conquista, Adilson Silva , 77 anos, disse que sua primeira exposição foi na Biblioteca Pública, na Praça Municipal, junto com Geraldo Rocha, já falecido, que expôs desenhos, e ele pinturas. Em seguida fez a sua primeira individual na Galeria Querino, "que era uma galeria top, bem estruturada, que nada devia às grandes galerias do Rio de Janeiro e São Paulo."
Apresentação de Mário Cravo
para a exposição de Adilson

 Na sua época apresentou exposições de importantes artistas do país. "Quem escreveu o texto me apresentando foi Mário Cravo Jr, que tinha chegado recentemente da Alemanha.Lembro que foi um sucesso de público e de vendas. Depois fui para o Rio de Janeiro onde passei 40 anos . Retornei à Vitória da Conquista  e já estou aqui há 15 anos, produzindo e bem adaptado. Hoje com a internet a gente vive conectado com o mundo inteiro de qualquer lugar. Tenho minha esposa e filha que me ajudam nesta conexão que considero muito importante para o artista ", disse Adilson Santos
Quando falei sobre a vida curta das galerias Adilson Santos lembrou de uma conversa que teve com Giuseppe Irlandini, famoso galerista carioca, que disse mais ou menos assim: para se montar uma boa galeria a pessoa tem que levar pelos menos antes uns dez anos fazendo um bom acervo e contatos com artistas e colecionadores. Senão acaba abrindo a galeria e perdendo tempo e dinheiro"
Adilson Santos em seu atelier .

O italiano-carioca  abriu  a Galeria Irlandini em 1968, que era uma das principais do sul do país. Ele nasceu em Bolzano, na Itália em 1924 e faleceu no Rio de Janeiro em 1997. Era pintor,gravador,restaurador,tapeceiro e se transformou em grande galerista. Chegou ao Brasil em 1948. Era também pintor de paisagens, marinhas, monumetos ,casarios,naturezas-mortas com flores e figuras humanas.
Voltando ao personagem Renot ele tinha muito prestígio em Salvador . Seu nome Renot  foi escolhido quando  foi trabalhar no Jornal da Bahia escrevendo uma coluna social chamada Grand Mond, sobre a sociedade baiana . Esta coluna terminou sendo transferida para o jornal Estado da Bahia, pertencente na época ao poderoso grupo de comunicação Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Passou então a dirigir um programa na TV Itapoã ,  entrevistando personalidades, além de manter a coluna no jornal e um programa na rádio Sociedade da Bahia, todos do mesmo grupo de comunicação. 
Renot assinando uma obra
de sua autoria. Foto Google
A Galeria era um grande sucesso, com várias exposições sendo vendidas por antecipação. Tinha o apoio incondicional de Odorico Tavares, que era Diretor dos Diários Associados, na Bahia, colecionador e um grande incentivador das artes plásticas. Mesmo assim a galeria, como as demais da época, teve uma vida breve que não chegou a cinco anos de funcionamento.
Em finais dos anos 60 Renot mudou para São Paulo e, em 1972 inaugurou a Galeria Renot, nos Jardins, na Capital paulista ,  promovendo exposições importantes como as de Francisco Rebolo,Aldemir Martins,Pennacchi, José Antônio da Silva,Cícero Dias, Rubens Gerchaman, Di Cavalcanti e João Alves , dentre outros. Em 2006 Renot se aposentou e passou o trabalho com arte para seu filho Reinaldo Marques que hoje faz leilões e exposições importantes em São Paulo e outras capitais. Ele trabalhou diretamente com o pai de 1987 até o ano 2000.

                                           GALERIA OXUMARÉ

O edificio Oxumaré.
 A primeira Galeria Oxumaré funcionava no Passeio Público e foi fundada nos anos 50 pelo professor Carlos Eduardo da Rocha em parceria com Zittelman de Oliva e Manuel Cintra Monteiro. Foi a primeira galeria que expôs obras de arte moderna em Salvador, e também realizou as primeiras exposições de Carybé, Carlos Bastos, Hansen Bahia, Raimundo Oliveira e de outros artistas que surgiam no cenário artístico da Bahia.  Também foi a primeira a comercializar obras de arte profissionalmente. Os artistas Jenner Augusto, expôs em 1952, Rubem Valentin em 1954, e em 1958  Aloísio Magalhães, com apresentação de Wilson Rocha. Também expôs o artista paulista Aldo Bonadei (nascido em 1906 e faleceu em 1974 .
A Galeria promoveu o II Salão Baiano de Belas Artes, agora com participação de artistas mulheres, e  funcionou até os anos 1961.
Depois o arquiteto e colecionador Domenico Gatto, construiu o prédio Oxumaré ,  Avenida Sete de Setembro, 89, ( Ladeira de São Bento) e lá o casal Pedro Fragoso e Káttya fundou a nova Galeria Oxumaré.  
A Galeria funcionava no prédio do mesmo nome que  tem  nove andares, e 80 anos de idade , é um dos edifícios que contam a história do desenvolvimento de Salvador, tem a classificação C.
Lembra o artista Edvaldo Gato, que não é parente de Domenico Gatto, que as exposições eram muito concorridas a ponto de as instalações da galeria não comportarem o número de presentes, e as pessoas se espalhavam pelo corredor onde funcionavam algumas outras lojas, e o hotel a partir do primeiro andar. "As exposições na Oxumaré eram acontecimentos cultural e social de relevância. Muita gente comparecia porque os expositores eram artistas daqui e de fora muito qualificados."
O artista Adilson Silva participou de uma coletiva na Galeria Oxumaré , mas tem poucas lembranças do vernissage. Lembra que o convite era muito simples com os nomes dos artistas expositores, mas que as exposições eram muito concorridas. 
NE-Diante das dificuldades de fontes primárias e falta de documentação este artigo está aberto a novas contribuições .




























 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

FLORIANO TEIXEIRA E A VIDA EM MINIATURA


AS GALERIAS LE DÔME E PANORAMA

O casarão onde funcionou a Galeria Le Dôme, antes 
da reforma feita pelos irmãos Cardoso.
A Galeria Le Dôme foi criada pelo artista Euler  e seus irmãos Eckener e Publio Cardoso em novembro do ano 1965  na Rua Leovigildo Filgueiras, 24, no bairro da Fazenda Garcia, em Salvador. Este nome foi escolhido em homenagem ao artista sergipano José de Dome. A ideia  surgiu devido Euler enfrentar dificuldades para expor suas obras nas poucas galerias que funcionavam naquela época em Salvador, que ´preferiam artistas consagrados.
Conheci o artista José de Dome, em Curitiba ,nos anos 60. Estava hospedado num hotel e ao solicitar a chave do meu apartamento chegou ao balcão da recepção o artista sendo  reconhecido por mim , e conversamos alguns minutos. À noite ao retornar ele tinha deixado uma aquarela de sua autoria na portaria do hotel para mim, a qual  tenho até hoje no escritório . Este era o José de Dome uma pessoa amável e de grande talento. Nunca mais tive a oportunidade de encontrá-lo. Ele nasceu na cidade de Estância, em Sergipe, em 1921, e faleceu em Cabo Frio,  Rio de Janeiro, em 1982. Seu nome era José Antônio dos Santos, e tinha este apelido porque sua mãe era uma tecelâ conhecida na cidade e chamava-se Dometila .No sertão costumam apelidar os filhos de José de sicrano, Maria de fulana etc.
O governador Lomanto Junior com os 
 irmãos Cardoso. Eckener ,Euler -de
 cachimbo- e Publio, sócios da galeria
  Conta Anna Georgina que " tudo começou numa tarde de domingo, depois do almoço no apartamento de meu avô Alfredo Gomes Cardoso, no bairro do Canela, numa conversa entre meu pai Euler de Pereira Cardoso com os irmãos Publio e Eckener resolveram abrir uma galeria de arte.
Colocaram vários nomes para votação em família e Le Dôme Galeria de Arte venceu. Como nós morávamos no bairro do Garcia, em frente ao Colégio Antônio Vieira, meu pai saiu para procurar uma casa . Foi quando encontrou uma disponível para aluguel  junto ao Colégio das Sacramentinas e resolveu alugar. Fez uma reforma , passamos  a fazer o fichário das pessoas a serem convidadas para a inauguração e convidamos os artistas que iriam participar da coletiva de inauguração."

 Foi um acontecimento cultural e social de grande relevância para a Cidade de Salvador naquela época , e contou inclusive com a presença do Governador Antônio Lomanto Júnior e a nata da sociedade baiana, entre de políticos, empresários, jornalistas ,muitos artistas e outros convidados.
Ao lado a foto de alguns dos artistas que participaram da mostra de inauguração da Le Dôme: Oscar Caetano, Joceval Machado, Adilson Santos, João Carrera, Euler Cardoso, José Arthur, Sá Menezes, Vera Seabra, Odete Valente, Lúcia Good Grooves, Anna Georgina, Célia Azevedo e Margarida Alves. Tinha obras ainda de Genaro de Carvalho, Adam Finerkaes e Itamar Espinheira, que não aparecem na foto.
Conta Eduardo Evangelista em seu artigo " Primeiras Galerias", publicado no suplemento Cultural de A Tarde, em 28 de abril de 1990 , que para a inauguração foram distribuídos 4.500 convites ,quantidade que se repetiu em outras mostras, provocando um frenesi durante os vernissages com a galeria sempre cheia de convidados.
Ele diz textualmente que " os vernissages na então Galeria Le Dôme aconteciam num clima teatral, com todo um aparato de recepcionistas fardadas para atender o público, garçons em alvos uniformes , o grande salão de exposição apinhado de convidados e iluminado por um candelabro com 136 lâmpadas em forma de vela, além de uma feérica iluminação em spots voltados para o teto."
Rômulo Serrano e  obra sua autoria.
Ele descreve ainda o luxo de uma bela cortina de veludo vermelha fechando o fundo do salão e  a escadaria que dava acesso ao primeiro andar, de onde por volta das 21 horas, o artista expositor descia a escada com toda a pompa de um espetáculo. Ai os fotógrafos espocavam seus flashes e o coquetel era servido aos convidados."
O primeiro artista a expor individualmente na Le Dôme foi Rômulo Serrano ,que era um bancário a exemplo dos irmãos Euler , Eckener e Públio Cardoso. A mostra teve a apresentação do escritor Jorge Amado. Durou pouco este luxo porque em 1967 os irmãos se separaram. A  Le Dôme Galeria de Arte foi transferida para o Desterro e Euler fundou sua Panorama Galeria de Arte em 17 de julho de 1967.
A Panorama, no
Largo Dois de Julho.
O artista e galerista  Euler Cardoso fundou a Panorama Galeria de Arte que passou a funcionar no lugar onde antes era a Le Dôme , na Leovigildo Filgueiras, nº 24,no Garcia , até que  a proprietária do casarão d. Veleda Lanat resolveu vender o imóvel para a construção de um prédio, obrigando assim a Galeria ser transferida . No local foi construído  o edifício Maurício de Nassau.
Foi quando em 1970 em caráter emergencial se instalou na Praça Inocêncio Galvão, nº48,  no Largo Dois de Julho ,defronte ao antigo Cinema Capri. Em 1973 mudou para o Jardim Brasil, na rua Belo Horizonte, nº 148, bairro da Barra  Avenida. Teve dois endereços no Jardim Brasil. Daí voltou para o bairro do Garcia, na Rua Pacífico Pereira, nº 34, na Curva Grande . Finalmente, se  estabeleceu em 1970 na rua Nelson Gallo, 19, no bairro do Rio Vermelho, até encerrar suas atividades em 2012, após 45 anos de presença no cenário artístico baiano.
                                                    
                                                                  PARTICIPAÇÃO
Anna Georgina e o crítico Wilson Rocha
na exposição  de tapeçarias da artista.
A artista Anna Georgina, filha de Euler Cardoso ,teve  uma presença importante na trajetória das duas galerias que eram de seu pai e de seus tios . Atuou como professora em vários cursos realizados na galeria, promoveu salões, exposições e também é uma marchand de renome no cenário artístico baiano.
O patrono da Panorama Galeria de Arte era o professor Emídio Magalhães, foi quem a inaugurou com uma exposição individual de suas obras. O logotipo foi desenhado por Carlos Estivallet, Também já falecido.
Aí a casa, no Rio Vermelho, onde
funcionou  a Galeria Panorama.
Lembra Anna Georgina que no primeiro ano fizeram ainda exposições de Herval Moreira, Alcides Naval ( Rio de Janeiro), Ana Maria Doria, Adam Finerkaes, Célia Azevedo, Jayme Hora, Newton Silva, Carlos Augusto Bandeira e o lançamento da revista DEC - Decora, Executa e Cria.  Dezenas de outros artistas fizeram exposições na Panorama e promoveram o Salão de Arte Infantil; Salão dos Estreantes; Salão dos Novos; Festival de Arranjos Florais; Coletiva da Primavera e Natal; Exposição de Arte Sacra; Concurso da Marinha de Arte ; Salão Euler Cardoso e junto com a Caixa Econômica Federal fez a exposição Arte Mulher, no Shopping Barra.
Ela sempre teve muita disposição e um envolvimento com o fazer artístico ao lado de seus pais. Com o falecimento do Euler foi morar com sua mãe e juntas tocaram a galeria por alguns anos, até o seu encerramento. Foram 45 anos de muita luta e   alegria que terminou com o fechamento da galeria em 2012.
Após a morte de Euler a Anna e sua
mãe d. Yolanda tocaram a galeria
por vários anos.
Lembra Anna Georgina que a sociedade entre os irmãos Euler  (seu pai)  , Eckener e Publio Cardoso durou apenas dois anos porque eles se desentendiam muito. Uma das razões foi que Euler era mais receptivo e gostava que os visitantes permanecessem mais tempo na galeria conversando sobre arte e outros assuntos, enquanto o Eckener era mais pragmático e não concordava com àquelas permanências, que muitas vezes o incomodavam.  Daí resolveram se separar e surgiu a Panorama Galeria de Arte , enquanto o Eckener se transferiu com a Le Dôme para o bairro do Desterro.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

GALERIA BAZARTE E O MISTÉRIO DO SEU CASTRO

O prédio onde funcionou a Bazarte,
atualmente uma loja de materiais de
construção.
O comerciante paulista do bairro do Brás  José Marques Castro ou seu Castro, como era chamado por todos , era uma figura diferenciada que chegou aqui na década de 50. Montou uma loja de roupas masculinas, na Avenida Joana Angélica, na esquina que fica em frente onde funcionava a Faculdade de Direito,  antes de ser transferida para o Vale do Canela. Tempos depois foi se enfronhando com o movimento cultural baiano.  Abriu sua Galeria Bazarte, na Rua Politeama de Cima, nº 34, no bairro do Politeama . Resolveu abrir  em contragosto de sua esposa. Passou a exercer seu trabalho de marchand vendendo obras dos principais artistas da época , a maioria professores da Escola de Belas Artes. Eles frequentavam a galeria e alguns quase diariamente iam trocar ideias . Não era uma galeria como as demais. Muito simples em suas instalações e ainda misturava artistas acadêmicos,  primitivos , santeria e até mesmo obras de cerâmica dos oleiros de Maragogipinho.
Dizem que ele pintava e gostava de restaurar imagens. Mas, mesmo aos mais íntimos se negava a mostrar seus trabalhos de arte.
Entusiasmado com o Novo Expressionismo que efervescia no sul do país, especialmente em São Paulo  começou a receber artistas jovens em sua galeria  avaliando e orientando. Alguns  em situação econômica mais difícil  acolheu no mesmo prédio onde funcionava sua galeria.
Em pouco tempo a Bazarte tornou-se um ponto de encontro e um centro de referência de artistas não apenas plásticos, mas também atores, cantores ,fotógrafos, cineastas e dançarinos .Tinha  bar e um pátio onde as pessoas ficavam conversando sobre arte. O curioso é que seu Castro não tinha aquela preocupação primordial com o lucro, ele objetivava movimentar o cenário artístico local. Isto lhe trazia uma satisfação imensurável.
                                          ROMPIMENTO
Foi a época em que um grupo de artistas rompeu com o academicismo que reinava na Escola de Belas Artes e passou a criar obras dentro de uma visão modernista. Assim a presença de Castro foi de extrema importância  porque reuniu  artistas integrantes  e de fora da EBA. Entre estes artistas estavam  Jamison Pedra, Juarez Paraíso,  o argentino Reinaldo Eckenberger  , Edison da Luz, Sônia Castro (1934-2015) , Terciliano Jr , o alemão, de Hamburgo, Karl Heinz Hansen,( que depois adotou o nome Hansen Bahia) ,  o outro alemão Adam Firnekaes, Eurico Luiz, Carlos Estivalet e também cantores como Edil Pacheco, o cineasta Kabá Gaudenzi, dentre outros.
Como escreveu o saudoso cineasta  Kabá Gaudenzi em 25 de maio de 1996 no suplemento cultural do Jornal A Tarde  a galeria Bazarte "era um centro de intercâmbio de linguagens e convivência transgeracional e humanística".
Coincidindo com este período foi criado o Museu de Arte Moderna que passou a funcionar no foyer do Teatro Castro Alves. Sua fundadora foi a arquiteta Lina Bo Bardi, o qual depois foi transferido para o Solar do Unhão ,onde está até hoje. Lá você pode apreciar importantes obras de arte como também uma bela escada de madeira de autoria da arquiteta unindo os dois pavimentos do edifício .
O artista Juarez Paraíso em foto
datada de 1971.Reprodução.
O mestre Juarez Paraíso teve uma participação e presença importante na Galeria Bazarte e ele relembra assim:"Embora de suma importância para a “internacionalização da arte moderna na Bahia”, Cidade do Salvador, a Segunda Geração de Artistas Plásticos Modernos, Geração 60, pode ser considerada como a Geração Esquecida, espremida pelos nossos famosos pioneiros modernistas, Geração 50 e os governos militares, principalmente a partir do AI-5. 
Para a formação desta importante Segunda Geração de artistas modernos da Bahia, contribuíram os artistas mais ligados à Escola de Belas Artes e aqueles que frequentavam, mais assiduamente, a Galeria Bazarte do seu Castro , ex-comerciante tornado Galerista, por opção de vida , sensibilidade e amor às artes plásticas. Lembro-me que o seu Castro, como era mais chamado, dava abrigo, moradia, aos artistas que precisavam. A galeria tornou- se uma verdadeira república de artistas, com um único benfeitor,  em lugar do “marchand “, o seu Castro.  Este abnegado benfeitor dos artistas , principalmente emergentes, também tinha um enorme e valioso terreno em Jauá que franqueou aos artistas, com a condição de que fossem lá morar nos lotes doados.
A sua intenção e esperança era formar uma comunidade exclusivamente de artistas . Artistas consagrados como João José Rescala, restaurador e professor da EBA, também ganhou o seu lote. O sonho dissolveu-se, diante da incompreensão e ganância de alguns, que chegaram inclusive a vender os terrenos doados.
 Concorrendo com a EBA,  a galeria Bazarte tinha também uma   prensa de xilogravura, utilizada na realização de xilos que compuseram edições de importantes álbuns, que contam a história da gravura na Bahia . Um dos artistas formados na galeria Bazarte , Terciliano Jr., ainda possui alguns destes álbuns.
Muitos foram os artistas que, umbilicalmente, fizeram parte e foram beneficiados pela Confraria criada e liderada pelo seu Castro, dentre eles Jamison Pedra. Kabá, Edison da Luz , Terciliano Jr. , Sônia Castro, Gley Melo, Renato da Silveira, Celuque, Reinaldo Eckenberger e  Emanoel Araújo."
Também foi na Bazarte que a conhecida Escola Baiana de Gravura, criada na Escola de Belas Artes, contou com o  seu incentivo, e os artistas iniciantes a oportunidade de trabalhar  e terem suas obras divulgadas com a publicação de  seis álbuns de gravuras ."
Ai o criativo Edison da Luz,
sempre disposto a polemizar. 
Para lembrar um pouco desta época conversei também com o artista Edison da Luz, hoje com 80 anos, e continua produzindo e polemizando. Ele lembra que neste período o movimento cultural baiano estava em plena evolução e "o seu Castro ajudou muitos de nós, inclusive hospedando alguns no prédio onde funcionava a galeria. "Seu Castro gostava muito de realizar workshops com artistas de várias tendências discutindo e dando suas impressões sobre a arte feita naquela época. Eram momentos de debates calorosos e muito enriquecedores."
Disse que o primeiro contato com o seu Castro ocorreu numa visita que fez   à Galeria  levando algumas gravuras que tinha feito na Escola de Belas Artes. Lá chegando mostrou ao marchand e incentivador da arte que " gostou  dos meus trabalhos, e daí em diante passei a frequentar  durante vários anos". Prossegue  Edison da Luz afirmando que "o seu Castro orientou vários artistas, hoje famosos, alguns já se foram, mas a sua importância para a arte baiana foi fundamental."
A maioria das escolas de Belas Artes , inclusive a da Bahia, foi criada tendo como espelho a École de Beaux Artes de Paris. Certamente o espírito do academicismo dominava todas elas. Porém, nos anos 60 já existia em todo o país movimentos visando o rompimento com esta corrente. Assim o Novo Expressionismo e outras correntes surgiam com toda a força. Foi neste momento de procura de novas formas de expressão que o seu Castro  passou a exercer sua influência aqui.


Terciliano Jr em seu
atelier tem boas
lembranças .
                   
                        HOMENAGEM

O artista Terciliano Jr. ao completar 50 anos de atividades artísticas  em 1972 fez uma exposição, no Sesc, de Pompeia, em São Paulo , juntamente com o escultor Chico Diabo, já falecido. Nesta exposição ele prestou uma homenagem ao seu Castro  e escreveu este texto  no catálogo:
"Há 30 anos atrás a Bahia estava com o céu azul mais do que o normal . O sol brilhava de forma tão grandioso que os paralelepípedos da Ladeira do Pelourinho refletiam as fachadas dos casarões de antanho como um espelho. O mar era uma explosão de cores em fusão marítima, a água ao mesmo tempo era clara e transparente dando para ver Yemanjá lá no fundo com os peixes acariciando seus cabelos . A lagoa do Abaeté cercada de verde com as flores amarelas protegida por Oxóssi. O céu azul protegido por Oxalá, a areia alva, a água negra da cor da minha pele, serviam como composição da beleza de Oxum. Todos os negros ,brancos e mulatos baianos cantavam para todas as divindades radicadas na Bahia pela chegada de um branco, preto e mulato paulista que seria batizado, adotado e confirmado por todos os deuses afro-baianos. J. Castro era o seu nome. Ou seu Castro como todos nós o chamávamos .Tornou-se filho da Bahia, amigo e companheiro dos artistas e intelectuais baianos. Fundou a Galeria Bazarte . E de lá nasceram Reinaldo Eckenberger, Terciliano Jr., Emanoel Araújo, Chico Diabo, Edy Star, Edison da Luz, Kennedy Bahia, Kabá Gaudenzi, Luana  (manequim),Carlos Henrique e Eurico Luiz. Os que passaram João José Rescala, Raimundo Oliveira, Sônia Castro, Reinaldo Brito, Gley Melo, Jamison Pedra e muitos outros. Amigo de Genaro de Carvalho, Juarez Paraíso e Jorge Amado, tendo por este último uma grande admiração.
Ele descobriu um recanto poético baiano, e o pretendia transformar numa vila
Gravura de Sônia Castro
do Álbum nº 4
residencial dos artistas em Arembepe Em uma tarde ensolarada e cercada de beleza por todos os lados no local citado, ouviu através o ronco do mar, auxiliado pela brisa que existe algo de maravilhoso por ali. Era uma Atlântida que existe ( ou existia, porque ele se foi com seu Castro) e ele ia mostrar para a Bahia e o mundo, a sua existência. O próprio Gilberto Gil ouviu o relato do seu Castro. J. Castro foi um fruto paulista  para a alimentação cultural baiana. Ramificou sua sabedoria os pincéis, formões e palavras para que as pessoas dessem continuidade , e depois criassem seus caminhos em traços, formas e composições para o mundo. A Bahia ficou de luto. O terreiro de Amoreira lá em Itaparica foi reivindicado por todos os Orixás para a cerimônia de Egun. O acervo da Bazarte só recordações de um prelúdio de glória".

Em 2008 o artista Terciliano Jr. foi homenageado pela Academia de Artes e Ciências e Letras de Paris, pelos relevantes serviços prestados à Cultura brasileira, principalmente a baiana.
O cantor e compositor baiano Edil Pacheco lembra que seu Castro gostava muito de samba e  das presenças do maestro Carlos Lacerda, da dupla Tom e Dito . Se apresentou algumas  vezes por lá ,e sempre era um ambiente onde se respirava arte. Também não tem nada registrado sobre a Galeria como fotos, programas , cartazes etc.
O artista Renato da Silveira lembra que esteve poucas vezes na Bazarte numa delas participando de um debate sobre "Arte pela Arte",  contra a arte engajada. Disse que entre os debatedores estava o consagrado tapeceiro Genaro de Carvalho. Sua atuação na época era montando exposições nas faculdades. Diz que expôs na Faculdade de Economia ( que ficava na Praça da Piedade), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas ( funcionava na Avenida . Joana Angélica, onde onde está o Ministério Público) e na Faculdade de Arquitetura, entre outras. Lembra da atuação do seu Castro e de seu interesse em ajudar novos talentos. 

                                      MISTERIOSO
Reprodução de  foto do
 seu Castro com  cigarro
preso nos lábios.

Podemos dizer que o seu Castro era uma figura realmente ímpar.  Descendente de portugueses , e ao chegar em Salvador na década de 50 montou sua loja de roupas masculinas no início da Avenida Joana Angélica, e um de seus funcionários foi o ator Geraldo Del Rey.
 Resolveu abrir uma galeria de arte em contragosto com sua esposa. Passou a exercer seu trabalho de marchand vendendo obras dos principais artistas da época , a maioria professores da Escola de Belas Artes . Eles frequentavam a galeria e alguns quase diariamente iam trocar ideias com ele.
Depois seu Castro conheceu o Novo Expressionismo paulista e passou a  exercer uma grande influência entre os artistas especialmente os jovens . Acolheu vários deles que moravam nos quartos divididos por tabiques no velho casarão, onde embaixo funcionava a Galeria Bazarte. Também alguns estrangeiros que aportaram aqui neste período foram acolhidos  como o  argentino Reinaldo Eckenberger que morou no prédio da galeria  ainda  frequentada por Hansen Bahia, Carybé e Adam Firnekaes e outros.
O ambiente era de festa e cultura. O bar servia batidas de várias frutas e outras bebidas para a rapaziada , mas o ambiente não tinha drogas. Apenas as bebidas alcóolicas,  afinal estávamos sob a tutela do regime militar.
 Havia um velho piano que sempre era acionado por jovens músicos, especialmente pelo pessoal do Seminário de Música , da Universidade Federal da Bahia. Muitas vezes aos sábados eram exibidos filmes de arte como de Jean-Luc Godard , Ingmar Bergman , Woody Allen, Charlie Chaplin, dentre outros através um projetor que era emprestado pelo então diretor da USIS, que antecedeu a ACBEU, e também funcionava nas imediações.
Gostava de influenciar sempre com o objetivo de divulgar o Novo Expressionismo  que estava efervescendo no sul do país, especialmente em São Paulo de onde viera.
Publicou seis álbuns de xilos de gravadores baianos , impressos na antiga Empresa Gráfica da Bahia, onde incluía desde artistas primitivos aos que estudavam ou já tinham terminado seus cursos na Escola de Belas Artes da Bahia, alguns inclusive tornaram-se professores de alta relevância como o alemão Adam Firnekaes.
Não satisfeito por acolher e incentivar os artistas ele ocupou um terreno entre em Jauá com o objetivo de criar uma Vila dos Artistas. Assim o escritor Guido Guerra, os artistas Leonardo Alencar, Jamison Pedra , Edison da Luz ,Terciliano Jr e muitos outros demarcaram seus lotes para a construção de casas. No centro pretendia erguer um grande galpão onde seria a oficina coletiva de criação. Com seu volkswagen transportava materiais com o intuito de tornar seu sonho realidade. Como era uma área desabitada, e as terras devolutas pertencentes ao município de Camaçari foi fácil a sua ocupação.
Jamison Pedra jovem , época em que
frequentava a Galeria Bazarte.
Jamison lembrou ainda que tanto Caetano como a Gal Costa participaram de vários saraus às sextas realizadas na Bazarte.

Porém, em determinado momento muito entusiasmado com seu novo projeto imaginou que tinha encontrado a Atlântida depois que se deparou com algumas moedas antigas. Seu sonho não se concretizou a maioria das casas não foi construída . Sabe-se que o único que finalizou na época foi o saudoso Guido Guerra.
Lembra Jamison Pedra que ele e seu pai depois lutaram para concluir  a sua casa , e que enfrentou muita dificuldade para regularizar o terreno .
Neste período seu Castro se envolveu   com uma mulher bem mais jovem que ele. Contam que devido ao ciúme com o novo amor passou a não querer receber mais ninguém em sua galeria. Os tempos mudaram, e o  afastamento foi tão grande que não se  sabe ao certo quando  morreu, de quê morreu e onde estaria sepultado. Sabemos que seu Castro era um fumante inveterado e isto certamente deve ter contribuído para sua morte.

                                                  ÁLBUNS DE GRAVADORES 
Capa do Álbum nº1
Foram publicados seis álbuns .Consegui identificar  apenas quatro e a duras penas confirmar os nomes do integrantes desses álbuns  . Ainda vou tentar encontrar os demais, se é que existiram. Mas, soube que os dois outros foram dedicados à Capoeira e o Maculelê.

O álbum de número 01 - intitulado Gravadores Baianos é composto por dez xilogravuras e tem a apresentação de Lydia Borja  e participam os artistas: Reinaldo Eckenberger, Edivaldo Souza, Edison da Luz, Carlos Estivallet, Gilberto Oliveira, Gley Melo, Jamison Pedra, Kabá, Sônia Castro e Terciliano Jr.
O álbum de número 2 intitulado Temas Populares ,é composto de 20 xilogravuras de artistas primitivos e tem a apresentação do professor Carlos Eduardo da Rocha. Os artistas são: Ana Lúcia, Carlos Henrique, Carmem França, Chico Sampaio, Laurentino Reis, Pedroso e Vivaldo Sampaio.
Capa do Álbum nº 3
O álbum de número 3 intitulado Gravadores Baianos tem a apresentação de Lydia Borja . Os artistas são: Adam Firnekaes, Ângelo Hodrick, Reinaldo Eckenberger, Edison da Luz, Edivaldo Souza, Eduardo Reis, Estivallet, Gley Melo, Jamison Pedra, Kabá Gaudenzi, Sônia Castro, Terciliano Jr. e Thereza.

O álbum de número 4 intitulado São João na Bahia - Textos e Melodias  tem artigos escritos por Adroaldo Ribeiro Costa, Edivaldo Souza, Hildegardes   Vianna, Magda Alzira, Enderich, Maria Edísia, Marieta Alves ,Plínio Almeida , Vasconcelos Mais e Wanda Viana Monte. Os artistas são: Edison da Luz, Edivaldo Souza, Carlos Estivallet, Laurentino Reis, Licídio Lopes, Thereza e Vivaldo Santos.
NA -Este é um artigo aberto à novas informações. Na medida em que conseguir terei o maior prazer em anexar ou mesmo suprimir o que for necessário.
De Reynivaldo Brito

























terça-feira, 30 de junho de 2020

DERALDO LIMA UMA MISTURA DE ARTISTA E MECENAS

A figura icônica de Deraldo Lima com sua barba e  
cabelos brancos longos e trajes multicoloridos
.
 O sertanejo  batizado com o nome de  Deraldino Batista Lima , mais conhecido como Deraldo Lima,  nasceu na cidade de Inhambupe, que dista 153 Km de Salvador, e tem uma população hoje estimada em 40 mil habitantes. Seus pais tinham  poucos recursos e muitos filhos.  Era o décimo primeiro , sendo que depois dele nasceram mais quatro, perfazendo um total de 15 irmãos .
Ainda criança sofreu um acidente com o incêndio de uma rede , então seus avós vieram buscá-lo e o levaram para a fazenda Serra do Aporá. Ainda jovem  veio para Salvador. Aqui Deraldo Lima fez amizade com um  estudante de  Medicina que o aconselhou a abrir uma galeria de arte, onde pudesse reunir  amigos e expor seus trabalhos de  arte. Foi assim que em 1963  fundou  a Galeria dos Novos ,  na Rua Alfredo Brito 33, hoje conhecida como a Porta do Carmo. Ai se apresentaram gratuitamente no início de suas carreiras Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ederaldo Gentil, Edil Pacheco e muitos outros. Depois abriu o Arts Bar na mesma Rua Alfredo Brito nº 8, sendo que na frente montou sua  galeria arte e nos fundos um restaurante.  Bar este  que continuou  a ser muito frequentado por estudantes, intelectuais como Jeová de Carvalho , e os artistas  Carlos Bastos, Sante Scaldaferri, dentre muitos outros. Era uma espécie de bar cult onde poetas populares, atores sem muita expressão frequentam , recitavam os seus versos e faziam suas apresentações, e muitos deles eram gays. Também sua galeria e bar funcionaram na rua Rui Barbosa . Nesta época já era conhecido até na Rússia, Estados Unidos, em vários países da Europa e América do Sul.
A Galeria 13, na Rua do Gravatá 37, era
o local  
de encontro com a arte .
     DIFICULDADES 
Devido a frequência acentuada de homosexuais sempre era alvo de batidas policiais através da então Delegacia de Jogos e Costumes,que funcionava na Rua da Misericórdia . Sob o pretexto que era necessário de uma licença especial os policiais apareciam depois de denúncias anônimas. O famoso policial Manoel Quadros ,que aterrorizou Salvador nos anos 70, esteve algumas vezes por lá acompanhado de outros policiais.
Por não ter fins lucrativos enfrentou dificuldades, passando algumas temporadas fechado ou tendo que mudar para outros endereços
.O chamado Centro Histórico era uma área degradada habitada por uma população carente, e em várias ruas os velhos prédios  eram ocupados por prostíbulos.
Já com o nome de Galeria 13, Deraldo Lima se transferiu para a Rua Ignácio Accioly , 23, ,  hoje  funciona  uma pousada. Finalmente,  se estabeleceu no prédio onde também morou com uma tia por vários  anos na Rua do Gravatá , 37.  
 Com sua espessa barba branca, cabelos longos e camisas multicoloridas Deraldo Lima se tornou uma figura icônica do Centro Histórico e nos meios artísticos, especialmente entre os artistas que não tinham acesso às grandes galerias e circuitos de arte sofisticados. Na época que fundou sua Galeria dos Novos, em 1963, existiam duas galerias na Cidade a Querino e a Bazarte que expunham geralmente artistas consagrados . Ele era um porto seguro para os jovens e artistas sem recursos para  que pudessem se expressar e expor sua arte. Um animador cultural que tinha uma capacidade enorme de ouvir e de ajudar os artistas que o procuravam.
Deraldo não tinha religião inclusive certa vez disse que religião tem duas coisas : engana o povo e quem as dirige vive bem às custas dos outros. Assumiu sua homossexualidade já com idade avançada, e disse que ficou bem mais feliz .
Tinha comprado uma casa no subúrbio em São Tomé de Paripe , onde cultivava uma pequena horta. Estava feliz porque a zona rural sempre lhe atraía. Ao subir numa escada para consertar o telhado de Eternit caiu ,  e só foi encontrado morto 24 horas horas depois. Deraldo faleceu com mais de 80 anos de idade em 4 de abril de 2014 , e foi sepultado no Campo Santo.

                                                          REGISTROS

Aqui Deraldo em sua casa no subúrbio
de  Salvador de São Tomé de Paripe.
Publiquei em minha coluna  no jornal A Tarde algumas notas sobre a Galeria 13  que então ficava na Rua Ignácio Accioly , 23. Aqui mostro dois registros. Fiz outras publicações sobre as atividades da galeria  na coluna que  sempre foi aberta a todos os artistas que me procuravam ou quando recebia seus catálogos de exposição. Atualmente está na internet e continua aberta a todos que desejarem anunciar suas exposições ou novos trabalho no endereço:  reynivaldobritoartesvisuais.blogspot.com

1-SUIÇO NA GALERIA 13
"Palco de inúmeros encontros entre artistas de vanguarda e, especialmente, abrigo para aqueles que não conseguem presença constante na mídia, a Galeria 13, na época, dirigida por Deraldo Lima, localizada na Rua Ignácio Accioly ,23, esteve fechada por algum tempo, com a mudança do proprietário para o subúrbio. Agora, ela está sendo reaberta, com a mostra do suíço Jan Wrambeck e uma novidade - um pequeno bar e restaurante. Às terças e aos sábados, serão oferecidas comidas típicas e européias, portanto, é mais um local para encontros informais entre artistas e boêmios. Lá, pode-se falar inglês, dinamarquês, sueco, alemão, italiano e português, pois o pessoal dialoga em todos esses idiomas. Então, o papo sobre arte tem novamente a Galeria 13 como referência. Quanto ao trabalho do sueco Wrambeck, é de vanguarda, pode ser exibido em qualquer grande galeria de uma metrópole. Ele utiliza óleo sobre tela, acrílica e colagens." Publiquei em 26 de junho de 2001.

2-ENTALHES DE COSME NASCIMENTO
"A Galeria 13 apresenta a primeira exposição individual de entalhe do artista baiano Cosme Nascimento.
São 20 trabalhos que pertencem a diversas fases artísticas, desde o ano de 1975. Cosme afirma não possuir uma consciência plena de suas verdadeiras influências, embora me digam que elas estejam enraizadas na arte negra.
Além de entalhador ele é também pintor, já tendo um acervo de quase 80 quadros a óleo, guardados no atelier que funciona em sua própria residência. Os trabalhos que compõem a exposição da Galeria 13 foram executados com apenas dois instrumentos: formão e guiva." Publiquei em 26 de julho de 2013.
3-No Facebook tem uma página com estes dizeres "A Galeria XIII é uma página virtual."
"Não mais funciona fisicamente. Seus membros que ainda resistem tentando trazer de volta seu espaço físico, se encontram todo último sábado de cada mês em Stella Maris. Através do Coletivo G13 Art & Poesia que é nosso grupo de atores, poetas e artistas plásticos, escritores, músicos, bailarinos e dançarinos entre muitas outras artes.Tentamos resgatar o antigo espaço físico que ora se encontra fechado. Não perdemos o foco que nosso querido amigo Deraldo Lima tinha em mente: resgatar o espaço para proclamar todas as artes da cidade do Salvador para o mundo. Essa ainda é a meta."

quinta-feira, 25 de junho de 2020

IVO VELLAME E SEU ENTUSIASMO PELOS NOVOS TALENTOS

Ivo Vellame, (primeiro à direita)
À  esquerda vemos  Reynivaldo Brito,o Reitor da Ufba,
  professor Luis Fernando Macedo Costa. Não consegui
identificar os demais que aparecem na foto.
Conheci Ivo Vellame no Colégio Salesiano  , localizado no bairro de Nazaré, em Salvador, Bahia ,  nos idos dos anos 50 quando era um dos internos da chamada divisão dos Menores. Existiam três divisões a dos Menores, Médios e Maiores. Esta separação era feita pelos padres salesianos com o objetivo de evitar conflitos , hoje conhecidos por buillyngs ,que acontecem durante o relacionamento entre  crianças e adolescentes. 
Ivo Vellame, aos 30 anos.
O professor Ivo Vellame ensinava no curso ginasial as disciplinas História e Geografia. Sempre entusiasmado por tudo que fazia, lembro do seu  esforço em transmitir conhecimentos a mim e meus colegas, a maioria de origem do interior do Estado. Não éramos muito estudiosos e disciplinados, embora o Salesiano primasse por uma disciplina rígida , fora dos padrões de hoje.
Depois fui encontrá-lo como professor de História da Arte, da Escola de Belas Artes, da UFBA, onde chegou a ser seu Diretor, além de Pró-reitor de Graduação da Universidade Federal da Bahia. Nesta ocasião trabalhava no jornal A Tarde e o professor Ivo com seu entusiasmo natural , sempre trazia um aluno ou um novo talento que  entendia  merecer incentivo. 
Certa vez me levou durante uma tarde ensolarada  para conhecer um jovem que trabalhava com spray  e aerógrafo na garagem de sua casa, no bairro do Canela. Confesso que naquele instante não saí muito entusiasmado pelo que vi. Porém, o entusiasmo de meu ex-professor, e então  amigo Ivo era tanto, que resolvi ficar calado. Tomei as anotações necessárias e fiz um pequeno texto para a minha coluna de Artes Visuais. O Professor Ivo estava certo. Atualmente este jovem, que tateava os seus primeiros passos, foi estudar na Escola de Belas Artes, e é um dos mais talentosos artistas da sua geração.
Participei como jurado de vários Salões Universitários que  promovia, bem como  de outros eventos que ocorreram nos anos 70 e 80. Sempre estávamos conversando através do telefone  ou em  encontros casuais. Mesmo àqueles que tiveram pouco contato pessoal com Ivo Vellame puderam ver sua atuação em seus escritos nos catálogos de exposições e mesmo nas reportagens de jornais e revistas.
Ivo Vellame era  um desses personagens envolvidos com a Arte feita na Bahia , a qual  não cansava de procurar maneiras de incentivar. Sabemos que este segmento cultural transita num ambiente de  divergência e concorrência , onde grupos se estabelecem naturalmente  por afinidades filosóficas, ideológicas e conceituais. Muitas vezes esses grupos são antagônicos e se repelem. O professor Ivo com seu jeito singular conseguia transitar entre esses grupos sempre procurando uma participação mais abrangente e democrática . Nasceu em 2 de janeiro de 1930 e faleceu aos 65 anos de idade, em 16 de agosto de 1995.

DEPOIMENTOS - 
Malba ,  viúva de Ivo Vellame
Malba Vellame - " É fácil falar sobre Ivo Vellame, professor, Diretor da Escola de Belas Artes, Pró-Reitor e Crítico de Arte reconhecido nacionalmente. Um estudioso e dedicado às Artes Plásticas. Suas aulas eram apaixonantes porque ele prendia a atenção pela maneira de dissertar a matéria e por sua empolgação, que contaminava os ouvintes. Eu mesma fui sua aluna na Belas Artes, depois de casada,  e posso atestar o que digo.
Contribuiu de modo intenso na formação dos artistas das gerações das décadas de 70 e 80 como Zivé, Murilo, Guache Marques, Bel Borba e tantos outros. Foi um excelente pai e um ótimo avô. Era alegre e gostava de dançar o que fazíamos na Boite Kirsch, no Ondina Apart Hotel, e de frequentar o  Bar Canoa, no então Hotel Meridian. Nasceu no dia 2 de janeiro de 1930 e faleceu em 16 de agosto de 1995 aos 65 anos de idade, e tinha  muita vida para viver".

Professor Juarez Paraíso

Juarez Paraíso - "Ivo Vellame era professor no Ginásio Baiano de Ensino, dirigido pelo notável educador Hugo Balthazar da Silveira. Ivo ensinava História e eu Trabalhos Manuais e Desenho, no curso noturno. Dos nossos constantes encontros e conversas, nasceu uma sólida amizade. Ivo Vellame era também funcionário do Centro de Estudos Afro-Orientais criado em 1959, por Agostinho da Silva, no reitorado de Edgard Santos. Disse-me que, por motivos pessoais, estava se desligando do CEAO, ocasião na qual o convidei para ensinar na Escola de Belas Artes. Como seria apenas uma transferência, e pela confiança nas minhas escolhas, o Diretor da escola, o professor e pintor Mendonça Filho, atendeu ao meu pedido. Eram tempos dos anos de 1960, quando a Escola estava abandonando as antigas metodologias do realismo-acadêmico e adotando novas teorias e práticas criativas. A cadeira de História da Arte era ensinada pelo notável professor Conceição Menezes, e, como não havia disponibilidade imediata, Ivo ficou como meu assistente da Cadeira de Modelo Vivo. Ficou encarregado de organizar uma pequena biblioteca com livros referentes a presença do modelo vivo no desenho e na pintura. Mas foi um mero pretexto para a sua presença na Escola, que se concretizou definitiva, até o seu falecimento.  Neste interregno, sua presença tornou-se importante, imprescindível, não só para a Escola, como Diretor (1976-1980) e professor de História da Arte, mas também para o cenário artístico baiano, como Crítico de Arte. Ocupou uma importante função no Departamento Cultural da UFBA, foi responsável pelo Salão Nordestino de Artes Plásticas, Salões Universitários de Artes Plásticas e Visuais, 1° Feira de Arte Experimental, e muitos outros importantes acontecimentos. Fui brindado com uma crítica sua sobre os meus trabalhos de Arte."


Fernando Freitas Pinto-" Ivo Vellame foi um importante professor, historiador da Arte Contemporânea,  da Escola de Belas Artes, Critico de Arte e Pró- Reitor de Graduação da Universidade Federal da Bahia.
Tive o privilégio da sua amizade e de vivenciar   a sua cátedra .Escrevia com inteligência e fluência nas avaliações e valorizações das Artes Plásticas e Visuais, nos contextos da estética, técnica, historicidade, ideia criativa e beleza. Temas esses que também geravam boas discussões que deixaram saudade!!
Tenho dois belos escritos de sua autoria que fazem parte da minha memória artística e guardo também boas recordações e lembranças de sua amizade.
Ivo, faleceu em 1995, aos 65 anos , deixando um legado de sabedoria, intelecto e amor à família, a Arte e a Cultura." 
Na foto vemos da direita para esquerda Ivo, sua esposa Malba, Graça Bittencourt e Fernando Freitas Pinto.

Bel Borba - "Nosso saudoso Ivo Vellame foi meu professor de História, no colégio Antônio Vieira,
O artista Bell Borba
quando eu tinha 12 anos de idade. Só nos reencontramos quando  me visitou no atelier do Canela, seis anos depois, e na ocasião me fez o convite para uma exposição individual na Galeria Cañizares , da Escola de Belas Artes da UFBA. Exposição essa que seria o meu primeiro vernissage em 1975.
Por diversas vezes o professor Ivo  fez a defesa de artistas baianos no início de suas carreiras estimulando, promovendo e premiando jovens talentos aqui, e em diversos outros estados do Brasil.
Durante muitos anos Ivo Vellame  acompanhou minha produção com seu olhar experiente, análise e crítica construtiva. Foi muito importante para me situar no início da minha carreira,  principalmente graças a ele  voltei minha atenção para fora da Bahia, e comecei a participar os salões nacionais, em diversos estados do Brasil, e até fora do país , conquistando destaque e prêmios ."
O artista Zivé Giudice 

Zivé Giudice - "Um diretor e professor comprometido conceitualmente com a Escola de Belas Artes e um democrata. Quando cheguei à Escola , na década de 70, dois professores, de pronto, mantive um permanente diálogo; Juarez Paraíso e Ivo Vellame. Os dois representavam de modo efetivo, uma ideia de contemporaneidade da instituição, na construção de um currículo que incorporasse o pensamento e os conceitos contemporâneos das  artes plásticas. Ivo era um incansável na articulação com outros centros acadêmicos e com a própria UFBA, representada pela  Coordenação de Extensão, para a consolidação dos Salões Universitários. Logrou êxito nos seus pleitos. Salvador sediou importantes salões durante sua gestão. Na segunda metade dos anos 70, tivemos a ideia de criarmos um atelier coletivo num dos galpões, o Nº 9, depois do expediente das aulas. Fui conversar com Ivo Vellame para que autorizasse o acesso à Escola. Estávamos em pleno governo militar, e como se sabe, estudantes reunidos fora do período de aula, era terminantemente proibido. Ivo, com seu espírito democrata, fazendo advertência para não nos excedermos, liberou. Nesse galpão se originou, por afinidades conceituais, e por afeto, o que se conhece como Geração 70. Ivo Vellame, deu um fundamental contribuição à EBA, administrativa e conceitualmente falando."


Caetano Dias - " Cursei Letras na UCSAL e não Artes Plásticas na EBA, uma pena porque  perdi a oportunidade de ter ampliado as minhas possibilidades de percepção e compreensão do universo da arte com pessoa tão positiva, cordial e de grande sensibilidade, especialmente no campo das artes visuais.  Mesmo nos poucos  momentos de convivência com ele na EBA, ousaria dizer que  foi uma bússola na minha vida artística, por tanta franqueza, empatia e saber. 
Esses instantes foram de  fundamentais ensinamentos, e também na leitura de seus escritos que balizaram o meu percurso artístico, poderia afirmar que cursei a Escola de Belas Artes em brevíssimos pontos de generosidade com o grande mestre." A foto ao lado o autorretrato do artista