domingo, 4 de junho de 2017

SEGUNDA GRANDE EXPOSIÇÃO DE BURLE MARX EM NEW YORK


Republicado de IstoÉ Independente
Crédito: Tyba
PINTURA ABSTRATA Roberto Burle Marx em seu ateliê, nos anos 1980. Os azulejos que decoram as paredes também são de sua autoria (Crédito: Tyba)


Roberto Burle Marx – Brazilian Modernist/ The Jewish Museum, NY/ até 18/9






PAISAGISMO URBANO Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988
PAISAGISMO URBANO
Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988 (Crédito:Burle Marx& Cia Ltda)

Paulistano, e “naturalizado” carioca, Roberto Burle Marx atuou desde o final dos anos 20 até sua morte, em 1994. Nesse arco de quase 70 anos de trabalho, desenvolveu uma obra multidisciplinar, “tão variada quanto fascinante”, segundo Jens Hoffman, o curador da grande retrospectiva de sua obra, organizada no The Jewish Museum. Esta é sua segunda exposição individual em Nova York. A primeira foi no MoMA-NY, em 1991, o primeiro solo dedicado a um arquiteto paisagista jamais realizado no museu nova-iorquino. Pintura, escultura, arquitetura, mosaico, cerâmica, gravura, design de joias, figurino de teatro, colecionismo e até culinária estão entre as suas habilidades, evocadas pela nova exposição, que apresenta um criador muito além dos importantes jardins tropicais que o consagraram no Brasil. “Um homem renascentista no século 20”, define o curador.
Ainda assim, o paisagismo é de fato sua marca distintiva. “O brasileiro é indiscutivelmente um dos mais influentes arquitetos paisagistas do século 20”, destaca Hoffman. Ele criou cerca de 2 mil jardins – em parte, nunca realizados – e descobriu cerca de 50 espécies de plantas. Antes de Burle Marx, os jardins brasileiros seguiam o padrão francês, valorizando as simetrias e a flora importada. Ele quebrou a regra, ao se interessar e valorizar a natureza local, nativa da Amazônia, da Mata Atlântica e da caatinga, tida então como “incivilizada”. Ao levantar a bandeira da brasilidade, Burle Marx está para o paisagismo assim como Villa-Lobos está para a música erudita, Tarsila do Amaral para a pintura e a poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade para a literatura.





Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum
Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum (Crédito:Paula Alzugaray)

Embora tenha iniciado a carreira como pintor figurativo, investindo em retratos e naturezas mortas – Burle Marx foi assistente de Portinari no final dos anos 1930 –, a exposição mostra como o criador abraça a abstração como princípio guia de seu design e paisagismo urbano. Com o partido geométrico, Burle Marx pode ser considerado um precursor dos movimentos de abstração geométrica que surgem na Venezuela e no Brasil, como o Concretismo e Neoconcretismo. O artista foi um pioneiro principalmente porque sua geometria desafiava categorias e buscava “o equilíbrio no desequilíbrio”.
Isso se reflete diretamente nos primeiros jardins, desenhados já no início dos anos 1930, sob influência da Bauhaus; em sua primeira obra pública comissionada pelo governo brasileiro, o jardim do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, – um ícone da arquitetura moderna brasileira –, em 1937. Mas se consagra no design de pavimentos de parques e avenidas como o calçadão de Copacabana, hoje o símbolo máximo da cidade.
Acompanhada de uma publicação de 210 páginas, a exposição reúne peças – entre elas a tapeçaria criada em 1969 para a Prefeitura de Santo André (SP) –, esmiúça projetos e atualiza a influência do artista no mundo de hoje, ao apresentar trabalhos de artistas contemporâneos. Integram a mostra a francesa Dominique Gonzalez-Foerster, as brasileiras Paloma Bosquê e Beatriz Milhazes – que mostra no saguão do museu a instalação “Gamboa” (2013), composta por móbiles feitos de flores artificiais – e o compositor Arto Lindsay, autor da paisagem sonora “Butterflies, Molasses” (2016), especialmente composta para a exibição.