quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MANOEL BOMFIM O EMISSÁRIO DOS ORIXÁS

Manoel Bomfim na sua exposição na galeria da
Federação do Comércio
Quero registrar mais uma vez a obra de um dos

mais tradicionais artistas de origem popular de nossa Bahia. Trata-se de Manoel Bomfim que faleceu no dia 19 de março do ano passado , e está enterrado no Cemitério Bosque da Paz, no bairro de Nova Brasília, e poucas pessoas tiveram conhecimento do seu passamento.
Bomfim era um negro típico da Bahia, ligado ao candomblé, morador antigo do bairro do Rio Vermelho e depois mudou-se para um prédio na Boca do Rio.
 Tinha a conversa fácil e agradável , além de sua risada inconfundível, dando uma  aparência que era feliz eternamente. Gostava de falar de seus trabalhos plásticos sempre ligados a coisas do candomblé, principalmente os Orixás. Pintou,fez tapeçaria  e esculpiu centenas de Orixás que hoje estão espalhados em coleções daqui e de fora do país. Era ogã confirmado da Casa Branca,tinha portanto conhecimento e envolvimento com o mundo dos Orixás.
Esta escultura em forma de
uma telha retrata um Orixá.
Me foi presenteada pelo
saudoso Manoel Bomfim.
Trabalhou como servente na Escola de Belas Artes e foi através desta convivência com a arte e os professores e alunos  que descambou para iniciar seus primeiros passos na escultura dos Orixás. Terminou sendo professor auxiliar de Modelagem. Lembro que em novembro de 2002 ele comemorou 50 anos de arte. Estava visivelmente alegre com as exposições que iria realizar mostrando pinturas e esculturas. Era uma realização e reconhecimento de todos estes anos de muito trabalho e dificuldades. Na realidade o trabalho não veio lhe proporcionar uma vida mais confortável ou seja não lhe deu grandes vantagens financeiras.
 Sempre teve uma vida humilde com seus filhos e sua esposa Maria Augusta Gomes do Bonfim que era muito conhecida por preparar um gostosíssimo bacalhau de martelo e uma batida de limão inesquecíveis nos encontros com os colegas artistas. Numa conversa recente que tive com seu filho, e também artista João Augusto Bonfim  se queixou que não deram  a devida atenção à memória de seus pais, ambos falecidos,que eram  pessoas especias. Hoje,  João Augusto e o Manoel, filhos do mestre dos Orixás.estão formados pela Escola de Belas Artes da Ufba e trabalhando com arte.
O patriarca Manoel Bomfim - ele gostava de assinar com m, embora fosse batizado com n de Bonfim, uma homenagem ao Senhor do Bonfim - fez sua primeira exposição em 1963 na então Galeria Bazarte, de José de Almeida Castro,que ajudou muitos artistas que hoje estão ai como os líderes de mercado, sendo que muitos inclusive já faleceram.
Manoel Bomfim nasceu em 25 de maio de 1928,portanto, faleceu perto de completar 88 anos em 19 de março de 2016.Deixou um legado artístico que precisa ser estudado por algum aluno da Escola de Belas Artes através de uma tese de mestrado ou coisa que o valha mostrando esta sua trajetória de servente até professor auxiliar de Modelagem , sem esquecer que era  tapeceiro, pintor e escultor.
Lembro que em janeiro de 2003 ele estava expondo na Galeria da Casa do Comércio e fui encontrá-lo. Estava contentíssimo com a exposição  e na época reproduzi este pequeno texto de Jorge Amado que diz : "Manoel do Bonfim é um filho do povo da Bahia, cuja arte ingênua, porém verdadeira, nasce diretamente das fontes da cultura popular,e se mantém fiel às suas origens despida de artificialismos, modismos integrada nas tradições e na vida.
O caminho do artista Bonfim foi traçado por ele próprio, com seus próprios meios, com sua obstinação.Aprendeu com o povo, nas rodas de samba,nos candomblés,nas escolas de capoeira,nos carurus de Cosme e Damião, na rampa do Mercado , ao lado dos pescadores,dos barraqueiros, da gente pobre,aprendeu com os Orixás".
O festejado e saudoso escritor Jorge Amado sabia dizer em poucas linhas a essência da obra de um artista, principalmente quando se tratava de um artista que viesse do seio da cultura popular, fonte onde bebeu incansavelmente para escrever seus belos e grandiosos romances.