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sábado, 11 de janeiro de 2025

A NATUREZA NA OBRA DE LEONARDO ALENCAR

 Leonardo Alencar tendo ao fundo
uma obra de  sua autoria
 .Foto Google.

Jornal A Tarde - Artes Visuais Sábado,  3 de maio de 1975 .
(texto reescrito)

O mar exerce uma grande influência na pintura do sergipano-baiano Leonardo Alencar. Assim, ele vai  criando seus pescadores, peixes e barcos em seu ateliê, cuja janela descortina para a praia de Amaralina. É o casamento entre o criador e a temática que diariamente estão em perfeito contato. Agora ele está trabalhando para sua próxima exposição que será realizada no corrente mês, na Galeria Cañizares, onde mostrará 40 gravuras inéditas com a temática pescador, e todas realizadas no seu segundo ateliê que fica na praia do Jauá. Ele explica o seu fascínio pelo mar dizendo “sempre fui muito fascinado pela presença do mar e do homem no mar. Hoje por exemplo, vejo com tristeza duas máquinas destruindo e aniquilando o mar e o pescador. A primeira delas é a indústria, a tecnologia que lança diariamente toneladas de detritos os mais diversos, e, a segunda é o turismo que traz como consequência a quebra da ingenuidade, do calor e aconchego da gente simples que é o pescador. Sua vida está cada vez mais difícil porque os peixes estão  mais longe da beira da praia, devido a poluição e o barulho das cidades. Assim, sua vida além de mais difícil, corre maior risco porque são obrigados a viajar por várias milhas em busca do sustento.

Obra Papagaios com Cajus, óleo sobre
tela, de 1982.  
Seu trabalho artístico sempre foi calcado numa realidade brasileira e Leonardo Alencar participou ativamente do movimento artístico há poucos anos atrás. Hoje, muita gente pensa que Leonardo Alencar se afastou. Mas, para esses que pensam assim ele diz: “Quando se fala em participar da vida artística baiana, lembro-me que existe uma política muito séria entre os chamados pintores acadêmicos e os jovens. Acontece que eu era um jovem pintor e tive uma participação ativa nos mais variados setores em busca de uma oportunidade para a arte que fazíamos naquela época. Assim, organizamos seminários, palestras, debates e íamos aos jornais para divulgar nosso trabalho. Hoje vejo que não exerço uma participação intensa porque realizo o meu trabalho no ateliê e faço minhas exposições. Mas, isto não significa que tenha me ausentado de um compromisso ou mesmo que não devo participar do movimento artístico baiano. Devo dizer que tenho um imenso respeito pelos pintores jovens, e constantemente procuro discutir tudo aquilo que é novidade. O que não aceito é a presença de grande número de pintores que erradamente são chamados de primitivos. Sim, erradamente porque muitos deles são primários e não primitivos. Considero primitivos autênticos e representantes de uma cultura popular os que criam ex-votos, fazem tabuletas de circos mambembes, os quais não receberam nenhuma influência dos apelos visuais do mundo moderno. Basta dizer que normalmente recebemos centenas de apelos visuais e fora outras circunstâncias que envolvem o homem. Ora, um indivíduo que mora em Salvador já sofreu grande ataque assistindo televisão, indo ao cinema, lendo jornais e revistas, vive numa cidade urbana, não pode ser um autêntico primitivo. Certamente os seus valores e costumes já sofreram grande alteração, daí não aceitar esta confusão estabelecida entre o primário e o primitivo”.

Mini obra a óleo sobre Eucatex , de 1976
Disse ainda Leonardo Alencar que estava um pouco ausente da vida artística baiana, porque durante três dias da semana está viajando para Aracaju, atendendo a um chamado da Universidade Federal de Sergipe, onde ministra um curso de Desenho. É um trabalho – diz Leonardo Alencar - muito importante porque estou levando para aquele Estado técnicas que muitos não conheciam. Hoje estamos com um grupo que trabalha em continuidade, uma espécie de laboratório onde fazemos pesquisas e estudos.” Leonardo Alencar ministrou por três meses um curso de xilogravura e atualmente ensina Desenho e Pintura, em regime de ateliê livre. Considera este seu trabalho semelhante aquele feito pelo artista e gravador Hansen Bahia há uns quinze anos atrás.” E conclui – Acredito que a participação do artista não pode ser medida com fronteiras, pois ela tem que ser globalizada. É por isto que ainda estou participando”.

                                                      DIFÍCIL

Obra Pássaro Verde, mini quadro a óleo 
sobre Eucatex.
O artista Leonardo Alencar também está fazendo algumas obras  tendo o cavalo como temática. Ele acha que a forma do cavalo é uma das mais difíceis de ser executada em termos plásticos. “Além do mais, é preciso ver que os animais que retrato transmitem tudo aquilo que penso e vejo da vida. A propósito, estou preparando um álbum onde aparecerão os cavalos mais importantes da História  entre os quais: Silver, do Zorro; Marengo ,de Napoleão Bonaparte e Attila o cavalo de  Átila, o Rei dos hunos. O cavalo sempre teve participação muito importante para a humanidade, como meio de transporte em tempos de paz e na guerra. Até na Alquimia o cavalo está presente e o vejo a figura do cavalo selvagem aquele que melhor representa o artista, um criador. O cavalo selvagem sou eu e todos que têm força de criar”. Quanto aos peixes, estou trabalhando numa série de 25 trabalhos a óleo. Acho que é a forma plástica mais fácil, porém de grande conotação simbólica. Mas, creio que a relação plena e objeto na figura do peixe é muito difícil e exige uma participação criadora muito forte. Aí o artista tem de dar tudo de si para uma boa composição plástica”.

                                             ARTE CONTEMPORÂNEA

Esta foto  feita em Sergipe quando ele
fez 70 anos de idade. Estava contente
com a nova exposição.
Foto Google.
Falando sobre arte contemporânea Leonardo Alencar declarou que dentro de poucos tempo retornará ao cavalete. Esta volta não diz nada de reflexão e sim uma maneira de humanização. Como membro do Instituto de Arte Contemporânea de Londres, Leonardo Alencar afirma que o instituto está obrigando os seus integrantes a trabalhar com o cavalete. Porque do contrário ficamos naquele momento em que se fundem o artista e o projetista industrial. Assim aparecem os múltiplos e a natureza é desprezada pelo artista. Aparecem os múltiplos e o artista esquece a realidade social em que vive. É certo que a arte contemporânea, a arte cinética ou qualquer nome que dermos não perde a sua importância e o sentido de pesquisa. O que afirmo é que ela chegará a um ponto de saturação e haverá o retorno à natureza. Ela deve ser estudada e pesquisada, mas não reflete nossa realidade brasileira. Assim a arte industrializada terá que recorrer à arte de cavalete como forma de abrir os seus caminhos para a humanização”.

Obra a óleo sobre tela Mulher. 
- A arte é um processo de sublimação. Não devem existir fórmulas. Ela traz ´- segundo alguns teóricos um sentido de complexo de Édipo, de volta às origens. No entanto o artista plástico precisa conhecer tudo que está sendo feito no campo das artes plásticas. Deve desenhar e pintar muito, mas também ler para ter informações. É por isto que olho com muito carinho a arte contemporânea, os jovens artistas. Procuro também fazer  os meus desenhos do meu jeito. É uma extensão espontânea da minha própria personalidade, pois somente assim surge a individualidade e representam uma continuidade da criação no meu trabalho de arte.”

SUA JUVENTUDE 

 Quando jovem seu temperamento inquieto resultava em certos problemas familiares. Mas, o que queria o menino Leonardo era pintar. Assim partiu para a cidade no interior de Alagoas à beira do São Francisco onde foi trabalhar com um mestre de obras pintando paredes de uma igreja. Teve um professor de Desenho o Valter Barros , que foi o responsável por uma verdadeira revolução da arquitetura do Nordeste. Este professor morreu jovem, mas não desanimou Leonardo. Ele aprendera com o mestre de obras Olívio Martins a respeitar seu material de trabalho, lavando os pincéis, lavando os recipientes onde  guardava as tintas. Mas, sua família continuava irredutível. Uma família de juristas que tinha um filho com grande facilidade para aprender línguas não entendia porque ele insistia em ser pintor. Queriam transformá-lo num diplomata ou talvez num professor de línguas, nunca num artista. Porém, Leonardo não desistiu e passou a exercer outras atividades paralelas como locutor de rádio, rádio ator, produtor, adaptador de novelas, chegando a aterrorizar o Estado com um trabalho de adaptação que fez. Mesmo assim o dinheiro que conseguia ganhar em grande parte era aplicado na arte. Em 1967 começou a ter suas primeiras experiencias com a cenografia. Houve um concurso no Teatro Amador em Sergipe e teve a oportunidade de conhecer Pascoal Carlos Magno. Fazendo cenografia viajou por alguns estados e conheceu a Bahia. Ficou encantado com nossas praias e com o cheiro do mar e o azul do céu de
O Peixe , bela xilogravura de Leonardo .
Salvador. Sabia que ia voltar. Acontece que em 1960 foi apresentado por seu tio Emilio Fontes a Vasconcelos Maia, então Diretor de Turismo, da Prefeitura de Salvador, escritor  e um agitador cultural. Assim realizou sua primeira exposição no Belvedere da Sé.  Depois passou dois anos como bolsista da Biblioteca Pública, que era dirigida por Péricles Diniz, grande incentivador das artes na Bahia. Nesta mesma época, foi ao Rio de Janeiro onde realizou uma exposição individual na Biblioteca Nacional. Quando terminou a bolsa de estudos já trabalhava no ateliê de Mário Cravo Júnior  e Jenner Augusto muito lhe ajudou.

Assim, a pintura de Leonardo Alencar pode ser dividida, do ponto de vista técnico em duas partes: antes de vir à Bahia e depois de conhecer inclusive, técnicas de mistura de tintas, melhoria do Desenho etc. Já do ponto de vista de motivação não houve qualquer mudança, apenas ele pintou as cores da cidade mágica que é Salvador. É por isto que ele chega a ver com certo pessimismo o que chamou de "assistindo passivamente a desumanização de quanto ao movimento artístico baiano, ele considera como de paralisação. “estamos que vivendo um hiato que vai definir os artistas da nossa geração como: José Maria, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Emanoel Araújo e outros. O mercado é o suporte de um movimento artístico e no momento por enquanto não existe, é insignificante. Além de achar que nós estaremos no clímax do processo criador daqui a alguns anos”.

                                           QUEM É

Outro peixe sendo pintado por Leonardo
Alencar. Foto Google.
O artista  Leonardo Fontes de Alencar nasceu em 7 de abril de 1940 na cidade de Estância, em Sergipe. É filho de Clodoaldo de Alencar e Eurydice Fontes de Alencar. O interesse pela pintura começou desde criança seu primeiro contato foi com as revistas de histórias em quadrinhos que eram muito populares na época. Mas, foram as obras de J. Inácio , Álvaro dos Santos e Florival dos Santos que lhe despertou a vontae de continuar pintando. Recebeu o incentivo do professor Jordão Oliveira, e lá nos anos 60 fez sua exposição. No ano seguinte expôs na Escola Nacional de Belas Artes, na Galeria Macunaíma, no Rio de Janeiro. De volta a Salvador ganha uma bolsa de estudos para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Depois em 1963 foi estudar Cenografia na Escola de Teatro, da UFBA.

O Pato, xilogravura de Leonardo Alencar.
Graças a amizade com o colecionador alemão Ernst August Esteves viajou para a Europa onde foi artista residente num programa das Indústrias Teves. De 1971 a 1974 morou em Londres, vindo residir em Salvador até os anos 80. Casou-se pela terceira vez em 82 com Racilda Aragão de Alencar, que passou a cuidar da produção de suas exposições. Teve quatro filhos em casamentos anteriores. Em 1991, ilustrou o livro O Homem de Branco, do escritor baiano Adonias Filho, que foi editado somente na Inglaterra, com o título The Man in White. Passou a ser membro em 1997 do Metropolitan Museum of New York.

O artista plástico Leonardo Fontes de Alencar faleceu no dia 1º de outubro de 2016 em um hospital de Aracaju, em Sergipe. Segundo familiares, ele estava internado há mais de um mês na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), por causa de uma infecção causada por complicações em uma cirurgia de câncer de pele. Sua  esposa Cacilda Aragão de Alencar com quem viveu por  34 anos disse na ocasião “que estava cuidando dele com muito carinho. E que ele transmitia paz enquanto viveu.”

 

sábado, 4 de janeiro de 2025

EURO PIRES DECIDIDO A PRIORIZAR A SUA PINTURA

O artista Euro Pires ultimando uma obra 
inspirada na festa de Iemanjá
.

 Fui encontrar o artista plástico  e cenógrafo premiado  Euro Pires em sua casa   onde tem o seu ateliê. Sempre procuro entrevistar os artistas em seus ambientes de trabalho para sentir de perto como criam e conhecer um pouco de todo o processo de criação. O Euro Pires mora numa rua tranquila chamada de Edgard Barros, próximo da igreja de São José, no bairro de Amaralina, Salvador, Bahia. É um artista autodidata multifacetado que faz cenografias, figurinos, adereços, decorações para eventos e festas populares, esculturas e pinturas. É verdade que dedicou grande parte de sua vida à cenografia, figurino e decorações para as festas populares.  Porém, declarou que enquanto criava a cenografia para o espetáculo de dança "Ser Tão Encantado"  reencontrou o caminho da pintura. Isto aconteceu durante a pandemia e foi como acordar de um sono profundo e  decidiu que a partir daquele dia a pintura deveria ser seu objetivo principal. Atualmente vem intensificando a criação de inúmeras obras, muitas de grande porte, tendo por ponto de partida a arte naif, mas com uma pegada mais elaborada por ser uma pessoa culta, informada e ter um desenho apurado. A história de vida de  Euro Pires tem ainda uma particularidade curiosa. Ele estudou até o quarto ano na Escola Bahiana de Medicina e chegou a trabalhar como assistente de um grande especialista em cirurgia plástica facial nos hospitais Espanhol e Português. Integrava uma equipe que fazia muitas cirurgias diariamente e sua vida era praticamente dentro de um centro cirúrgico. De repente decidiu que não era aquilo que queria e partiu para se dedicar às artes plásticas. 

Vemos quatro obras de Euro Pires com  
apurada técnica de pintura e composição
.
Quando abandonou a carreira promissora de Medicina disse que passou momentos de indecisão e  frequentou muitas vezes a Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus, refletindo e pedindo ajuda para encontrar o seu caminho. Ficou dois anos nesta dúvida até que sua mãe tomou conhecimento através de um primo de que ele tinha desistido de ser médico e que não estava frequentando a Faculdade. Sua mãe decidiu que ele teria que sair de casa e procurar resolver sua vida. Foi quando viajou para Itamaraju e por lá ficou um ano e meio trabalhando com o pai e fazendo algumas pinturas. Estávamos no ano de 1979 quando decidiu retornar a Salvador e passou a frequentar as Oficinas de Expressão Artística do Museu de Arte Moderna e foi estudar litografia com o artista e professor Paulo Rufino. Já era um artista que sabia pintar e desenhar. Conversando com o professor Juarez Paraíso disse que tinha largado a Faculdade de Medicina este o aconselhou a continuar dizendo mais ou menos assim: “com o diploma de médico você vai para qualquer lugar e encontra trabalho. Com Belas Artes não tem nada garantido.” Mas, ele estava decidido e ficou cerca de quatro anos frequentando aulas esporádicas e fazendo trabalhos com Juarez Paraíso e outros artistas como as decorações de carnavais e de ruas para outras festas populares.

                                                   QUEM É

Euro  falando de sua trajetória.
O Euro Pires Sampaio Filho nasceu em 21 de agosto de 1957, na cidade de Itapetinga, que dista 562 Km de Salvador e está localizada na região centro-sul da Bahia. É filho de Euro Pires Sampaio e Edila Carvalho Sampaio. Seu pai era gerente do Banco Econômico da Bahia e depois Banco Bamerindus. De Itapetinga a família mudou para Itambé, Castro Alves e onde o Euro Pires fez o segundo ano primário. A família novamente mudou de domicílio tudo isto por conta da atividade de seu pai que era transferido para estruturar as agências bancárias. Foram para Ipiaú e estudou com as irmãs Nanci e Neide Marques, quando tinha oito anos de idade eram conhecidas educadoras da cidade. Depois foi estudar no Ginásio Agrícola Municipal de Ipiaú onde estudou parte do ginásio. Este ginásio foi estadualizado e ele continuou estudando até que sua família mudou para Ilhéus e lá concluiu o ginásio. Em 1972 veio para Salvador e foi estudar o colégio no tradicional Colégio da Bahia, e aí concluiu o segundo grau. Seu pai saiu do banco e abriu 0 posto de gasolina Bem-Te-Vi, na BR-101, perto da cidade de Itamaraju. Sua ideia era fazer vestibular para Arquitetura e terminou fazendo para Medicina, sendo aprovado na Escola Bahiana de Medicina e em Veterinária, na Universidade Federal da Bahia. Mas, decidiu estudar Medicina onde ficou durante cinco anos.

Nesta obra retratou  amigas da juventude.
Quando largou a Medicina para sobreviver desenhava e pintava roupas  para Amelinha Nogueira, de Juazeiro, que costurava e vendia aos lojistas.  Começou a trabalhar com cenografia  em 1983 trabalhou com Dilson Midlej ele desenhava e o Euro Pires pintava e executava as peças com os marceneiros. Fizemos algumas exposições juntos em 1986 no Museu de Arte da Bahia e em 1987 no Shopping Iguatemi. Mas, confessa que um grande aprendizado foi trabalhando nas decorações dos carnavais com a equipe de Juarez Paraíso, principalmente na armação das peças nas ruas, onde apareciam todo tipo de problema e tinham que buscar soluções.  Lembra que com o passar do tempo ele ficava responsável por corrigir as peças que tinham sido cortadas ou pintadas erradas. Isto criou nele um nível de exigência que o acompanha até hoje. Como procura de todas as formas evitar erros ficou conhecido por ser exigente, ou seja, um cenógrafo chato, brinca Euro Pires.
Trabalhou também algum tempo no ateliê de Babalu e com seu irmão J. Cunha que criou e ainda faz as fantasias e toda a indumentária do Bloco afro Ilê Aiyê. Mas, o teatro lhe puxou e dedicou vários anos a fazer figurinos e cenografias para as escolas de Balés e peças de teatro, onde trabalhou com vários diretores e foi premiado.

                                              EXPOSIÇÕES

Em 1980 - Genaro Galeria de Arte ; 1982/1984 - Exposições – Oficinas de Expressão Plástica – MAM ; 1984 - Expo Bahia Verão – Hotel Merídien – SSA ; 1985 -Exposição Ploft -Museu de Arte da Bahia ; 1986 -Exposição Coletiva – Shopping Piedade;  1987 – Exposição Argh! – Shopping Center Iguatemi ; 1989 - Arte Itapetinga – Loja Maçônica – Itapetinga ; 1991- Exposição Sedução - Zouk Santana Bar;  1992 - Feira de Arte de Vilas do Atlântico – Espaço Preamar ; 1995 - Bienal do Recôncavo – Museu Dannemann – São Félix – Bahia ; 2002 - Art Itapetinga 50 Anos - Itapetinga ; 2015 - A Arte e o Utilitário – Faculdade de Medicina da Bahia Terreiro de Jesus ; 2015 -  Exposição  Antônios – ME Ateliê – Ladeira do Boqueirão – Carmo ;  Exposição Manifesto Poético - Casa de Castro Alves ;  2022 – Exposição Encruzilhada – MAM – Salvador- Bahia .

                                                       CENOGRAFIAS

Cenografia do espetáculo de dança 
   Ser Tão Encantado.
Em 1985 o artista Euro Pires foi indicado como Destaque no Bahia Aplaude pela cenografia do espetáculo na “Na Selva das Cidades", considerado pela crítica e premiado como o Melhor Espetáculo do Ano. Ele disse que “a partir deste trabalho, os convites para novos cenários não pararam de acontecer e que foi premiado várias vezes.” Criou em 1987 executou os cenários de “A Bela e a Fera" e "Intimidades", dirigidos por Deolindo Checcucci; "Auê Um Programa Musical, Melhor Espetáculo Infantil - direção de Andrea Elisa; 1998 – “Cuida Bem de Mim", peça educacional do Liceu de Artes e Oficio da Bahia em parceria com a Secretária de Educação e Cultura do Estado da Bahia, direção de Luiz Marfuz. "Assis Valente - Um Musical Brasileiro" e "Abismo de Rosas", dirigidas por Fernando Guerreiro. "Lagrima de um Guarda-Chuva” sob a direção de Carmem Paternostro; "Equus" (Cenário e figurino) - direção de Fernando Guerreiro; "Angel City" - direção de Deolindo Checcucci , Prêmio de Melhor Cenário no XII Teatro Universitário de Blumenau- PR, ; "Isso Assim Assado no Inferno" (figurino) - direção de Hebe Alves; "Carne Fraca" - direção de Fernando Guerreiro; "Eu, Brecht" - direção de Deolindo Checcucci, 1998; "Prisioneiros da Balança" - direção de Elisa Mendes; "Clarices" - direção de Nadja Turenko; "Lábios Que Eu Beijei" , Melhor Espetáculo do Ano - direção de Paulo Henrique Alcântara; "O Palhaço Nu" - direção de Nelson Vilaronga; "Over Duplo" - direção de Elisa Mendes ;  Em 1999
Esta obra retrata uma
menina que se apaixonou
na infância. A mãe coloriu
seu cabelo de loiro.
- "Sonhos de Uma Noite de Verão" - direção de Márcio Meirelles ; "Idiotas Que Falam Outra Língua” - direção de Fernando Guerreiro, 1999; "Anjos no Espelho" (cenário e figurino) - direção de Tom Carneiro e Gideon Rosa; "Na Rua, na Lua, na Tua" - cenário e figurino , Prêmio COPENE de Melhor Espetáculo Infantil - direção Deolindo Checcucci; "De Alma Lavada" - direção de Adelice Souza, 1999; "Pró Míscua e Pró Fana" (cenário e figurino) - direção de Fernando Marinho; "Criação de Carros Alegóricos para desfile comemorativo dos 500 anos do Brasil; Cenário de Graxeira, Graças a Deus - direção de Fernando Marinho; 2000 - cenografia e figurino de adereços de "O Vôo da Asa Branca", espetáculo premiado com a COPENE de Teatro Ano 2000; 2001 - Cenografia dos shows do projeto Sua Nota é um show, "Rainhas em Xeque" em parceria com a artista plástico Bel Borba com direção de Carmem Panternostro; Figurino do espetáculo "Boca de Ouro" direção de Fernando Guerreiro, encenado num trem da Rede Ferroviária Metropolitana de Salvador; 2002 - cenário da peça teatral "Setembrina"  - direção de Paulo Dourado; cenografia do programa "Tenda Salvador" da TV Salvador cenografia do Programa "Todos os Tons" TV Salvador "cenografia do programa "Contra Plano" TV Salvador cenografia do programa "Baluarte". TV Salvador, cenário e figurino da peça teatral "A Boa" direção de Gil Vicente Tavares; 2003 - Cenário do programa "Aprovado" TV Bahia ; Cenografia do espetáculo infantil “A Turma da Caixola" direção João Lima –  cenografia e figurinos do espetáculo infantil "Flicts" – direção de Fernando Guerreiro - ; cenografia e figurino do espetáculo "O Sonho de Percival" - direção de André Actis; cenografia do filme "Snake King" - direção de arte Csaba Kertesz
Obra Cajus de Louças e Balas Perdidas.

- produção americana filmada na Bahia; 2004 -  Cenografia do espetáculo teatral "Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia" espetáculo comemorativo dos trinta anos da Fundação Cultural do Estado da Bahia - Direção de Fernando Guerreiro; 2005 -  Palhaços! Quem? – Direção Rino Carvalho; 2008 - O Indignado – Direção de Fernando Guerreiro, e Os Javalis com direção de Gil Vicente Tavares; 2009 - Escândalo Com Fernando Guerreiro; 2010 - Luz Negra com Rino Carvalho. Trabalhou ainda como cenógrafo e figurinista do espetáculo "Irmã Dulce - O Anjo Bom da Bahia", "Inteiramente Nus" e "A Mulher de Roxo" todos sob a batuta de Deolindo Checcucci.


sábado, 21 de dezembro de 2024

NEN CARDIM USA REJEITOS DO RIO E MAR EM SUA ARTE

Nen  procurando materiais em estaleiro
para criação de suas esculturas.
V
ou falar hoje de outro artista do interior da Bahia desta vez de Nen Cardim, da cidade de Valença, que dista 255 Km de Salvador, considerada a Capital do Baixo Sul. Foi lá que o artista passou maior parte de sua vida e reside até hoje. Lembra que acompanhava o seu tio Elói Cardim para trabalhar na construção naval e o pai embarcando para pescar no Rio Una e no mar. O município tem uma rica tradição de construção de embarcações de pequeno e médio portes e foi observando as sobras de madeiras, resultado dos cortes para a construção das embarcações e mesmo pedaços de embarcações substituídos durante os reparos e reformas que eram jogados fora que aguçaram a criatividade de Nen Cardim. Ele já participou de vários salões regionais e foi premiado na VI Bienal do Recôncavo quando ganhou o prêmio viagem com a série Articulações e foi expor na galeria do Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha - Icbra, em Berlin, e na Suíça, no Centro Cultural Dannemann. Participou de uma coletiva em Portugal, no Museu de Comporta e Melides juntamente com escultores do Senegal, Benin e brasileiros de Minas Gerais e Bahia. Foi premiado também na XXVI Edição dos Salões de Artes Visuais da Bahia, promovido pela Fundação Cultural da Bahia, em 2022.

Nen com  escultura
de sua autoria.
Desde 1992 que vem desenvolvendo o seu trabalho escultórico e posso afirmar que suas obras têm uma significação forte, ligação com as tradições da construção naval e da luta dos pescadores em se lançar diariamente ao amanhecer ao rio e o mar em busca da sobrevivência. Sua obra tem uma identidade própria. Ele usa este material reciclado e dá nova vida ressignificando os pedaços de madeiras, boias e outras ferramentas usadas na construção naval e na pescaria, antes abandonados e os transformando em obras de arte. É um autodidata que vem vencendo todas as dificuldades como a distância entre seu local de produção e os grandes centros urbanos que concentram o consumo de obras de arte,  de divulgação e locais para expor os seus trabalhos. Mostra preocupação com o meio ambiente e disse que sua busca por materiais para trabalhar acontece nas margens do Rio Una onde ficam localizados os estaleiros e também nas praias, como a de Guaibim, em Valença.    Locais apropriados para garimpar os pedaços de madeiras abandonados e até mesmo outros objetos usados por pescadores e  grandes embarcações. Ele adianta que a busca por esses materiais e a sua reutilização serve de alerta mostrando a necessidade de preservar e proteger o meio ambiente para que “possamos conviver num Planeta mais digno, mais cidadão e mais humano”.

                                                        QUEM É

Nen  mostrando materiais  que
 usar em sua arte escultórica
.
O seu nome de batismo é Florisvaldo Cardim do Nascimento Filho, nasceu no dia 25 de novembro de 1973, na cidade de Valença, Bahia. É filho de Florisvaldo Cardim no Nascimento e de d. Claudina Matos Malta. O casal teve sete filhos e desde os treze anos de idade que Nen Cardim começou a fazer algumas peças de artesanato para vender e ajudar no sustento da família. Transformou um prego de ripa numa ferramenta para esculpir suas peças em cerâmica e assim comercializava no bairro onde morava e nos arredores. Depois em 1992 passou a pintar e fazer suas primeiras esculturas em madeira reciclada. Disse que não teve escola de arte, mas que os salões regionais serviram de inspiração e aprendizado, pois teve oportunidade de conhecer obras em pintura e escultura de vários artistas e isto abriu seu horizonte. Em 1997 participou do XXVI Salão Regional de Artes Plásticas, em Valença, com três esculturas feitas de madeira e boias de vidro, de fabricação chinesa, que na época os pescadores de sua cidade usavam. Ressaltou que hoje essas boias de vidro usadas por pescadores e que atualmente  foram substituídas por boias de isopor e plástico. Foi premiado em primeiro lugar neste salão. Em 1999 recebeu a Medalha de Menção Honrosa no XXVII Salão Regional de Artes Plásticas de Alagoinhas. Em 2002 conquistou o Grande Prêmio Viagem à Europa com duas esculturas chamadas de Articulação I e Articulação II que expôs na Bienal do Recôncavo promovida pelo Centro Cultural Dannemann, São Félix, Bahia, quando foi passar um mês em Berlin, na Alemanha e expôs na Galeria do ICBRA – Instituto Cultural Brasileiro -Alemão, o qual foi fundado em 1995.

Quatro esculturas feitas com materiais
reciclados.
Ele lembrou de um pequeno acidente que ocorreu quando foi desmontar sua exposição chamada Relíquias do Terceiro Extrato, no Centro Cultural dos Correios, em Salvador, e uma de suas esculturas que estava exposta tem uma arcada da boca de um tubarão e que uma pessoa que o ajudava a desmontar se distraiu e terminou recebendo uns cortes no braço ao se chocar com os dentes do peixe. Brincando disse “o tubarão mordeu o rapaz depois de morto”. Podemos imaginar o perigo que representam os tubarões para o ser humano nos mares que são os seus habitats naturais. Também esta viagem para a Alemanha não foi tão tranquila porque teve problemas na Alfândega para liberação de suas obras e por isto teve que retornar antes. Também não observou que suas obras estavam avaliadas em 5 mil euros e quando foi conversar para vende-las pediu cinco mil reais, portanto deixou de receber aos valores de hoje mais de vinte e cinco mil reais. Tinha gasto na viagem com seus próprios recursos cerca de quatro mil e poucos reais. Mas, ele considerou muito importante a sua ida pois teve contato com a arte feita num dos maiores polos produtores da arte contemporânea do mundo.

Esta obra foi premiada no MAB.
Disse que sua origem indígena vem de sua avó materna chamada Umbelina que era do povoado de Barcelos do Sul,   distante 25 Km da cidade de Camamu, e hoje tem uma população de pouco mais de dois mil habitantes. Os índios nativos que habitavam a região da baía de Camamu, no sul da Bahia, eram os Macamamus , e a sua aldeia era conhecida por Camamu. Possivelmente a avó de Nen Cardim é descendente desta tribo. Você olhando pra ele vemos logo os traços indígenas da mistura de sua mãe filha de Umbelina e de seu pai um caboclo natural de Valença. Também esta sua habilidade com as mãos vem de sua avó que era uma exímia na feitura de redes de pesca e de sua mãe uma artesã nata que pintava as vestimentas das caretas nos festejos do carnaval e em outras manifestações populares, além de fraldas de bebês, que na época que não eram descartáveis, e também outros panos de utilidade doméstica.

Estudou o primário da Escola Monsenhor André Costa até a terceira série, localizada no bairro do Tempo, e depois foi para a Escola Eraldo Tinoco, no bairro da Bolívia, ambas em Valença, onde concluiu o primário. Em seguida foi estudar no Ginásio Gentil Paraíso Martins e aí cursou até a oitava série. Depois foi para o Colégio Estadual de Valença – Coesva  cursando até o segundo ano. Vinte anos depois resolveu se inscrever no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos – Encceja, logo após a pandemia e concluiu o curso colegial. É um programa do Governo Federal que “foi realizado pela primeira vez em 2002 para aferir competências, habilidades e saberes de jovens e adultos que não concluíram o Ensino Fundamental ou Ensino Médio na idade adequada.”

Escultura  em madeira,
boia de vidro e corrente.
PRÊMIOS -Em 2022 - Premiado no Salão de Artes Visuais da Bahia - 64° Edição, 30 anos; 2009 - Contemplado no edital Matilde Mattos, Curadoria e montagem de exposição ; Medalha Ouro em Londres na II Mostra Internacional de Arte Brasileira - Centro Cultural Lauderdale House-London;  2008 ; Menção Honrosa Bronze na II Mostra Internacional de Artes Visuais Salão Nobre do Estádio de Pacaembu ; 2006 - 1º Lugar Prêmio Oficial da Fundação Cultural do Estado da Bahia ; Menção Honrosa Salão de Artes Plásticas de Juazeiro ; Grande Prêmio Viagem à Europa na Bienal do Recôncavo - Centro de Cultura Dannemann – Bahia; 2º Lugar I Salão de Arte Contemporânea do Consulado da Holanda na Bahia e Sergipe ;1999-2000 -1º Lugar no XXVII Salão Regional de Artes Plásticas - Centro de Cultura – Valença e no  Júri Popular no XXVII Salão Regional de Artes Plásticas - Centro de Cultura de Valença; 1977 - Menção Honrosa no XXVII Salão Regional de Artes Plásticas - Alagoinhas - Bahia .

OBRAS EM ACERVOS - No Museu Afro - Brasil - São Paulo; Centro Cultural dos Correios – Bahia; Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha – Berlin; Centro Cultural Dannemann –Suíça; Centro Cultural Dannemann - São Felix – Ba; AMBA - Arte e Música do Brasil e África; Fundação Cultural do Estado da Bahia; Galeria da Aliança Francesa Salvador – BA; Galeria Maré Alta Morro de São Paulo – Ba e na Galeria Ponto de Encontro Morro de São Paulo - Ba.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS - Em 2013 - Exposição individual Relíquias do Terceiro Extrato, Ministério da Cultura e Correios; 2004 - Exposição Individual - Centro de Cultura de Valença – BA; Exposição no Centro Cultural Dannemann - Suíça; Exposição no Instituto Cultural Brasileiro na Alemanha; 2003 - ICBRA - Berlin - Alemanha, Obras da série “Articulações”.

Cartaz da exposição em Londres.
COLETIVAS - Em 2009 -  II Mostra Internacional de Arte Brasileira - Centro Cultural Lauderdale House Arts Centre & ICSA ; 2008 - II Salão Internacional de Artes Visuais realizado pelo ICSA - Instituto Cultural Século e Arte São Paulo Brasil ; Participação DA VI Bienal do Recôncavo – BA ; Participação na mostra Paralela à Bienal Internacional de São Paulo, no Museu Afro-Brasil ; Selecionado para Primeira Bienal Internacional no México (Universidade Chapingo); 2000 -Exposição de Artistas premiados no Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia Galeria: Solar do Ferrão / Pelourinho – Salvador – Bahia ; 1992-2006 - Participações nos Salões Regionais de Artes Plásticas da Bahia entre as  Cidades Participantes: Valença, Alagoinhas, Juazeiro, Itabuna, Feira de Santana, Itaparica, São Felix, e Jequié; Consulado da Holanda – Salvador; l Salão de Arte Contemporânea ; 2004 -  Participação na VII Bienal do Recôncavo - São Félix ; 2006 – Participação da Mostra Contemporaneidade no Conjunto Cultural dos Correios, Salvador – Ba; Participação na Exposição 50 anos de Arte na Bahia ; Exposição Contemporaneidade - Correios ; 2009 - Exposição O Brasil e o Mundo, os Melhores da Arte Brasileira ; 2002 – 2003 -Vl Bienal do Recôncavo - Centro Cultural Dannemann e da Exposição 50 anos de Arte na Bahia - Uma Homenagem a Matilde Mattos.

sábado, 14 de dezembro de 2024

ÊNIO CELESTINO DIVIDIDO ENTRE A PINTURA E A POESIA

 

Ênio Celestino pintando em seu ateliê 
na cidade de Serrinha, Bahia.
O pintor e poeta Ênio Celestino Mota é uma dessas pessoas que fala pausadamente e durante a conversa você sente que ele está em outro plano. É um homem do interior que vive e respira aquele ambiente onde ainda é possível viver com alguma tranquilidade. Quando menino a gente costumava dizer que as pessoas assim parecem viver no mundo da Lua. Exatamente são essas pessoas sensíveis e criativas que ficam neste plano e parecem terem dificuldade de se conectar e às vezes serem entendidos por nós que nos achamos normais, e talvez não vejamos tão normais assim aos olhos de outras pessoas. Ele reside em Serrinha, sua cidade natal, no interior da Bahia, mas já morou alguns anos em Salvador e até mesmo no Rio de Janeiro sempre procurando aprender e aprimorar o seu ofício de artista e mostrar suas obras. É um bom desenhista e aquarelista, também gosta de pintar em acrílica sobre tela. Aqui vamos saber mais um pouco sobre o Ênio Celestino, é assim que assina suas obras, e conhecer sua trajetória até os dias de hoje.

Obra abstrata  em acrílica sobre tela.
O Ênio Celestino divide o seu tempo desenhando, pintando, ensinando sua arte a terceiros e escrevendo as suas poesias. Portanto, é um pintor-poeta ou poeta-pintor, como queiram chamar, porque ele confessa que a arte visual vai buscar na literatura as imagens e vice-versa. É um sonhador sensível vivendo numa cidade do sertão da Bahia e desde criança vive envolvido com a arte. Seu pai Esdras Maciel Mota era um dos donos do cine Teatro Marajó, em Serrinha, e uma espécie de agitador cultural. Ele levou para lá artistas da Jovem Guarda como Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e também cantores populares românticos como Waldick Soriano, Nelson Ned e muitos outros destas gerações. Ênio ainda era criança quando o Cine Teatro Marajó exibiu o filme Otelo, baseado da obra do escritor inglês William Shakespeare. Trata-se da narrativa de um herói que era general e espécie de governador do Chipre, onde lutou contra os turcos e se apaixona com Desdêmona, sua esposa, e termina assassinando por ciúmes. Disse que o pai chegou a trazer o ator principal do filme e que contavam ser um negro alto, forte e de olhos verdes. Não lembra o nome do ator. Um dos que interpretaram o papel de Otelo em filme foi o ator inglês Eamonn Walker, que é negro, mas o Ênio Celestino não conseguiu lembrar o nome.

                                                    QUEM É

Obra  aquarela e desenho.
O nosso personagem nasceu em vinte e dois de agosto de 1960 na cidade de Serrinha, no sertão baiano e foi batizado com o nome de Ênio Celestino Mota. Seus pais eram Esdras Maciel Mota e d. Núria Hupsel Celestino. Disse que durante sua infância assistiu muitos filmes no Cine Teatro Marajó e que depois seu pai saiu da sociedade e d tempos depois o cinema fechou. Hoje existem duas salas de cinema num shopping em Serrinha.  Estudou o primário na Escola Leobino Cardoso Ribeiro e o ginásio no Colégio Estadual Rubem Nogueira. Aos dezesseis anos veio para Salvador morar na casa de um tio e foi estudar no Colégio Estadual Lomanto Júnior, no bairro de Itapuã, e em seguida no Colégio Estadual Manoel Devoto, no bairro do Rio Vermelho. Na época o diretor do Colégio era o professor Remy de Souza que tomando conhecimento do talento artístico de Ênio Celestino fez uma carta de recomendação para uma museóloga do Museu de Arte Sacra da Bahia solicitando que encaminhasse o jovem para a Escola de Belas Artes afim de aprimorar e desenvolver seu talento artístico. Ela apresentou ao professor Juarez Paraíso que era professor da EBA e também dava aulas particulares. Mas ,ele não conseguiu cursar por falta de recursos. Foi então que conseguiu se inscrever nos cursos livres dos professores Graça Ramos e Oscar Caetano. Isto foi por volta do ano 1976 e assim aprendeu técnicas de pintura, desenho e também conheceu e aprendeu a utilizar outros materiais.

Outra bonita aquarela do Ênio.
Foi trabalhar como funcionário público no Colégio Cidade de Curitiba, no bairro do Engenho Velho de Brotas, ali permanecendo durante oito anos. Com o passar dos anos chegou à conclusão que ali não era seu lugar e pediu demissão. Abriu um atelier juntamente com o Hector, que era filho de um pintor argentino, no Jardim Brasil e posteriormente alugaram uma casa no bairro da Graça. Teve muitos alunos e lembra que deu aulas de pintura até a d. Maria Amélia, esposa do ex-governador Roberto Santos, e também a Ângela, filha de Mãe Menininha do Gantois e muitas outras pessoas. A escola funcionava durante os três turnos. Levaram três anos com a escola até que resolveu voltar para Serrinha. Nesta época a empresa Vale do Rio Doce estava se instalando na cidade vizinha de Teofilândia e muitos funcionários preferiam morar em Serrinha por ser mais desenvolvida. Foi aí que conheceu alguns funcionários da empresa que tinham um nível intelectual e poder aquisito mais elevados e conseguiu comercializar algumas obras de sua autoria. Disse que esta relação continua até hoje e de quando em vez está enviando novas obras até para outros estados onde esses funcionários foram transferidos.Tem uma conta no Instagram onde publica suas obras plásticas e também suas poesias.

                                       ENCONTROS

Pintura expressiva de Jovem em
acrílica sobre tela
.
Em 1986 viajou para o Rio de Janeiro onde passou uma temporada visitando galerias e também indo a vernissages. Foi quando compareceu a uma exposição do arquiteto e aquarelista Carlos Leão, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Carlos Leão foi sócio do escritório de arquitetura de Lúcio Costa que juntamente com Carlos Niemeyer planejou Brasília. Além de arquiteto era pintor, desenhista e aquarelista e gostava de pintar mulheres enaltecendo a beleza e a sensualidade. Esteve no Parque Lage porque ficou impressionado com as aquarelas do Carlos Leão e lá conheceu por acaso outro artista o Alberto Kaplan. Ele estava na lanchonete do Parque Lage quando se sentou perto dele o Kaplan e começaram a conversar e  terminou lhe aconselhando a  se inscrever num dos cursos ministrados ali.
Acrílica sobre tela  com figuras 
e animais do seu interior.
Nesta época o Kaplan ministrava cursos de desenho na Universidade estadual do Rio de Janeiro, e aquarela na UERJ, e também no Centro de Aquarela da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Lembrou de outro encontro desta vez aqui com o gravador Calasans Neto em Salvador.  O Ênio Celestino dava aulas de desenho e aquarela a uma senhora na Rua das Amoreiras e ela conhecia o artista baiano que morava próximo. Aí combinaram e foram falar com o mestre Calá que os recebeu daquele seu jeito fraterno que sempre tratava as pessoas. Mostrou suas aquarelas e Calá escreveu um pequeno texto. Tem ainda textos sobre sua obra de Floriano Teixeira, dentre outros.

Expôs em algumas galerias de Salvador como o Escritório de Arte da Bahia, com Denilson Oliveira; na Galeria Ada, de Adailda Carvalho, que ficava no bairro do Itaigara. Gosta de poetizar e no Instagram tem algumas poesias de sua autoria a exemplo desta de nome Volta: "Perdi o caminho de volta. /Na manhã prolongada pela estiagem,/ a poeira se esconde na estrada./As amendoeiras estão intactas lá fora,/e a sua semente plantada sobre minha infância,/ainda está guardada na memória,/como um monumento – noutro ângulo te devoro!/Tenho amêndoas dentro de mim./A cidade floresceu na premissa da terra/pródiga em alimento e trabalho/para

Composição de objetos e mulher 
também em acrílica sobre tela.
sustento da prole, quase sempre numerosa./E à procissão eterna de sonhos que o homem/ nordestino arrasta por áridas veredas./Este Nordeste dos confiáveis oligarcas...”./Aos invasores , por natureza própria do termo:/ Estrangeiro. Clandestino. / Endurecer o pensamento para enfrentar os / dias que virão talvez piores. - Mas unicamente/ por esse halo a bondade reluz!”

                REFERÊNCIAS 

Alguns artistas já escreveram sobre a obra de Ênio Celestino entre eles Floriano Teixeira, Calasans Neto e o angolano  Albano Neves. Os críticos Ivo Vellame, Aldo Tripodi, Claudius Portugal, dentre outros. O artista Floriano Teixeira escreveu em maio de 2019 “O Ênio Celestino é um artista plástico que trabalha em silêncio. Profundo silêncio mesmo. O sei interesse maior é pela difícil técnica da aquarela. Técnica velhaca que ele domina com segurança. Os seus temas são figurativos retratando os tipos populares no Nordeste. Bom desenhista, Ênio Celestino trata as suas figuras e objetos com elegância dando a eles a importância e a bravura do povo que habita esta discriminada região deste grande e pobre País. Ênio Celestino é um dos muitos heróis que insiste em fazer arte neste Brasil em que cultura é quase crime”.

Antes em outubro de 1989 meu saudoso amigo Ivo Vellame professor da Escola de Belas Artes e um dos grandes incentivadores da arte na Bahia escreveu: “Ênio Celestino Mota, participou do Curso de Extensão sobre História da Arte Contemporânea, ministrado por mim na Escola de Belas Artes, da UFBA mostrando excelente aproveitamento. Na oportunidade em que o mesmo foi meu aluno, conheci parte de sua produção artística – aquarelas e desenhos, que me impressionaram pelo apuro técnico, pelo sentido de contemporaneidade, pela criatividade e por refletirem a região em que o artista vive - o interior baiano”

EXPOSIÇÕES COLETIVAS E SALÕES

Em 1999 - Teatro Santa Cecilia- Petrópolis/RJ ;  1998 - Espaço Cultural Trapos e Cia - Salvador/BA ; 1ª Gincana de Pintura do Centro de Amaralina - Salvador/BA; Café Calypso - Salvador/BA ; 1997 - XVIII Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia -Feira de Santana/BA ; 1996 - "13 Artistas"- Espaço Cultural Alambique - Salvador/BA ; 1990 - Ada Galeria de Arte -Salvador /BA ; 1989 Escritório de Arte da Bahia- Salvador/BA ;  Época Papel e Presente - Salvador/BA; Teatro Municipal de Ihléus - Ilhéus/BA ; 1988 - Praça Euvaldo Luz- Shopping Barra- Salvador/BA ;Paulo Darzé Galeria de Arte - Salvador/BA.

PREMIAÇÃO: 1988 - Prêmio Artista Plástico do Ano - Galeria 13 ,Salvador/BA.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
2007- O Casarão -Morro de São Paulo/BA ; 2005 - INTERNET: Sertão, Anjos e Bêbados; Contra-Ponto - www.contra-ponto.cib.net ; 1993 - Fundação Casa de Jorge Amado - Salvador/BA ; 1991- Bar Vinícius de Morais - Salvador/BA; Museu Regional de Arte da UEFS - Feira de Santana/BA ; Espaço Cultural Miraflores – Serrinha / BA .