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sábado, 28 de janeiro de 2017

PICHADORES E GRAFITEIROS E O ESPAÇO

Ai está um exemplo da pichação que enfeia
tanto as grandes cidades.
Fico revoltado quando vejo uma cidade completamente tomada por pichações que só dizem respeito a atitude  de frustração de pessoas que invejam os que têm patrimônio. Eles não podem ver um muro pintado que chegam furtivamente nas madrugadas e picham. Não  conformados disputam entre si quem é capaz de pichar mais alto. Assim, prédios de até 10 andares são pichados. Os monumentos são preferidos pelos pichadores que também não respeitam nem os grafiteiros. Picham os grafites.
Existem grafites de qualidade e outros que são verdadeiras porcarias . Muitos não merecem espaço algum. São violentos, mal feitos, grosseiros ou fazem apologia de ditadores ou de ideologias carcomidas pelo tempo,  a exemplo de um  em São Paulo que trazia  o rosto do Chaves, da Venezuela. 
O grafite é uma arte efêmera que ocupa um espaço público ou privado e permanece ali enquanto o proprietário permitir ou mesmo o gestor público. Ninguém é dono do espaço pelo simples fato de estar ali um grafite de sua autoria ou porque chegou primeiro. Não é um jogo ganho. Simplesmente, o grafite está sujeito às intempéries, e também a ação de pessoas que não gostam e não querem aquelas figuras, algumas vezes horrorosas, que contribuem para a poluição visual que enfrentam as grandes cidades.
Sou daqueles que acham que o grafite bom deve ser documentado, fotografado e filmado para que fique registrado e até guardado num museu para ser mostrado quando bem convier. Mas, não sou a favor de sua perenidade nas ruas, porque esta não é a função da arte efêmera. O mesmo acontece com as performances, hoje, tão comuns nos salões, galerias e bienais.
Noto que existe um egocentrismo daqueles que fazem grafite a ponto de  considerar sua obra intocável. Não é, e não deve ser. Deve haver sempre uma rotatividade para que outros grafiteiros possam mostrar sua arte naquele lugar. Esta coisa de lugar marcado está errado, é um contra-senso porque o espaço é público, portanto, pertence a todos. E, se o proprietário do muro quiser mudar o grafite, apoio totalmente porque o espaço é dele e cede a quem quiser.
Kids , belo grafite do Eduardo Kobra,
que merece ser fotografado e filmado para
sua preservação.

Sei que existe muita diferença entre pichação e grafite. A pichação apresenta rabiscos sujando muros e fachadas de prédios, até monumentos importantes  com palavras incompreensíveis ou de protesto. Existe uma disputa entre verdadeiras gangs para ver quem picha mais alto e eles marcam territórios.
Já o grafite tem um cunho artístico, e atualmente vários grafiteiros já expõem em museus e galerias em todo o mundo. Esta arte de rua deve ser fotografada e filmada para ser preservada, porque  está sujeita a se deteriorar com a ação do sol, das chuvas, e também de pessoas que por alguma razão resolvem deixar ali a sua marca ou mesmo ser danificada por pichadores.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MANOEL BOMFIM O EMISSÁRIO DOS ORIXÁS

Manoel Bomfim na sua exposição na galeria da
Federação do Comércio
Quero registrar mais uma vez a obra de um dos

mais tradicionais artistas de origem popular de nossa Bahia. Trata-se de Manoel Bomfim que faleceu no dia 19 de março do ano passado , e está enterrado no Cemitério Bosque da Paz, no bairro de Nova Brasília, e poucas pessoas tiveram conhecimento do seu passamento.
Bomfim era um negro típico da Bahia, ligado ao candomblé, morador antigo do bairro do Rio Vermelho e depois mudou-se para um prédio na Boca do Rio.
 Tinha a conversa fácil e agradável , além de sua risada inconfundível, dando uma  aparência que era feliz eternamente. Gostava de falar de seus trabalhos plásticos sempre ligados a coisas do candomblé, principalmente os Orixás. Pintou,fez tapeçaria  e esculpiu centenas de Orixás que hoje estão espalhados em coleções daqui e de fora do país. Era ogã confirmado da Casa Branca,tinha portanto conhecimento e envolvimento com o mundo dos Orixás.
Esta escultura em forma de
uma telha retrata um Orixá.
Me foi presenteada pelo
saudoso Manoel Bomfim.
Trabalhou como servente na Escola de Belas Artes e foi através desta convivência com a arte e os professores e alunos  que descambou para iniciar seus primeiros passos na escultura dos Orixás. Terminou sendo professor auxiliar de Modelagem. Lembro que em novembro de 2002 ele comemorou 50 anos de arte. Estava visivelmente alegre com as exposições que iria realizar mostrando pinturas e esculturas. Era uma realização e reconhecimento de todos estes anos de muito trabalho e dificuldades. Na realidade o trabalho não veio lhe proporcionar uma vida mais confortável ou seja não lhe deu grandes vantagens financeiras.
 Sempre teve uma vida humilde com seus filhos e sua esposa Maria Augusta Gomes do Bonfim que era muito conhecida por preparar um gostosíssimo bacalhau de martelo e uma batida de limão inesquecíveis nos encontros com os colegas artistas. Numa conversa recente que tive com seu filho, e também artista João Augusto Bonfim  se queixou que não deram  a devida atenção à memória de seus pais, ambos falecidos,que eram  pessoas especias. Hoje,  João Augusto e o Manoel, filhos do mestre dos Orixás.estão formados pela Escola de Belas Artes da Ufba e trabalhando com arte.
O patriarca Manoel Bomfim - ele gostava de assinar com m, embora fosse batizado com n de Bonfim, uma homenagem ao Senhor do Bonfim - fez sua primeira exposição em 1963 na então Galeria Bazarte, de José de Almeida Castro,que ajudou muitos artistas que hoje estão ai como os líderes de mercado, sendo que muitos inclusive já faleceram.
Manoel Bomfim nasceu em 25 de maio de 1928,portanto, faleceu perto de completar 88 anos em 19 de março de 2016.Deixou um legado artístico que precisa ser estudado por algum aluno da Escola de Belas Artes através de uma tese de mestrado ou coisa que o valha mostrando esta sua trajetória de servente até professor auxiliar de Modelagem , sem esquecer que era  tapeceiro, pintor e escultor.
Lembro que em janeiro de 2003 ele estava expondo na Galeria da Casa do Comércio e fui encontrá-lo. Estava contentíssimo com a exposição  e na época reproduzi este pequeno texto de Jorge Amado que diz : "Manoel do Bonfim é um filho do povo da Bahia, cuja arte ingênua, porém verdadeira, nasce diretamente das fontes da cultura popular,e se mantém fiel às suas origens despida de artificialismos, modismos integrada nas tradições e na vida.
O caminho do artista Bonfim foi traçado por ele próprio, com seus próprios meios, com sua obstinação.Aprendeu com o povo, nas rodas de samba,nos candomblés,nas escolas de capoeira,nos carurus de Cosme e Damião, na rampa do Mercado , ao lado dos pescadores,dos barraqueiros, da gente pobre,aprendeu com os Orixás".
O festejado e saudoso escritor Jorge Amado sabia dizer em poucas linhas a essência da obra de um artista, principalmente quando se tratava de um artista que viesse do seio da cultura popular, fonte onde bebeu incansavelmente para escrever seus belos e grandiosos romances.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

REGISTROS DE PASSAGENS DE SÉRGIO RABINOVITZ

Sérgio autografando meu exemplar de
Registros de Passagens.
Revi pessoalmente o pintor Sérgio Rabinovitz depois de alguns anos. Foi no lançamento de seu livro de Registros de Passagens , no último dia 13, na Galeria Paulo Darzé. A sala principal da galeria estava cheia de conhecidos frequentadores de vernissagens e deste tipo de evento cultural . A alegria era geral, enquanto Claudius Portugal  organizador do livro, e Sérgio autografavam os exemplares que foram distribuídos gratuitamente entre os presentes.
Tenho acompanhado a obra de Sérgio Rabinovitz desde a década de 70 quando ele retornou de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, onde chegou influenciado pelos grafites que via diariamente nas ruas de New York. Assim seus trabalhos iniciais tinham uma forte marca do gestual, de um grafismo vigoroso e moderno. O artista é de certa forma metódico naquilo que pretende realizar, e assim vai construindo uma obra coerente através dos anos.
Claudius e Sérgio na noite de autógrafos.
Ao folhear o livro encontramos cerca de 80 trabalhos em preto e branco onde ele capta a essência de momentos do que acontece nas praias, nas ruas, becos ,praças e mesmo nas casas de Salvador. São cenas do cotidiano desta cidade mágica como a puxada de rede, o vendedor de passarinho, as festas populares. Cada obra é uma crônica visual. As obras nos levam a imaginar a movimentação das pessoas, a alegria estampada em rostos negros marcados pelo sol e o salitre deste mar que banha a nossa costa.
Filho de músicos, inclusive seu pai Salomão Rabinovitz era solista da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia e por diversas vezes esteve comigo para divulgar seus concertos no jornal A Tarde, onde trabalhava. Porém, não sabia que Sérgio andou tocando flauta doce e até viajou pelo Brasil afora em suas apresentações musicais.
O tradicional baba na praia
Frequentou os ateliês do saudoso Calasans Neto. e também de Mário Cravo. Diz Sérgio no depoimento a Claudius Portugal que no atelier de Calá "tive a pedra de toque para minha escolha colocando em minhas mãos alguns instrumentos de corte, de xilogravura, uma goiva, formões, mostrando como se cortava a madeira e me mandando para casa trabalhar e trazer o resultado". Já com Mário Cravo ele tem contato com a gravura em metal, a escultura em ferro, e ele "me ensina a ser capaz de minha arte".
A puxada de rede na orla de Salvador
Em 1979 gradua-se bacharel em Artes Plásticas pela Cooper Union for the Advancement of Science and Arte, em New York. Foi exatamente no seu retorno que tivemos o primeiro contato quando ele me mostrou trabalhos que tinha feito sob a influência dos grafites que cobriam as paredes e muros da grande metrópole americana..
Portanto, ao olhar estas obras integrantes do livro tive a impressão que Sérgio acabara de desembarcar num sonho onírico em nossa cidade, como aconteceu em Nova Iorque há vários anos. Sérgio  se delicia com as cenas urbanas desta magia miscigenada que encantam os olhos de todas as pessoas que têm alguma sensibilidade. Os traços são firmes, econômicos. Sim, porque com poucos traços e gestos ele compõe as paisagens que nos deixam reflexivos tentando preenche-las ou não  com  elementos presentes e ausentes.
Hora do passeio na Barra.

Talvez , estivesse em momentos
contemplativos observando o vaivém das marés, o andar de lá pra cá das pessoas, enquanto a brisa refrescava o seu corpo.
Quero registrar que este livro foi editado com o patrocínio da Assembleia Legislativa, que vem fazendo um trabalho cultural digno de elogios com lançamentos de livros que enriquecem a cultura baiana.

domingo, 27 de novembro de 2016

OBRA DE TATTI MORENO REGISTRADA EM LIVRO

Ai está o Tatti com seu carro escultura que causou frenesi
na época quando trafegava pelas ruas de Salvador.
Ao folhear o livro A Arte de Tatti Moreno me transportei aos anos de 1960, quando tive o primeiro contato com ele ao ser designado pela Chefia de Reportagem do jornal A Tarde para fazer uma entrevista com um jovem artista que morava no bairro da Graça e teria feito uma escultura num carro. A pauta não dava maiores detalhes sobre o feito do artista, e tão pouco do seu autor.
Quando lá cheguei, encontrei um jovem  nu da cintura para cima , cabelos encaracolados, envolvido na garagem de sua casa com suas ferramentas de trabalho e ansioso em mostrar sua última criação. Foi aí que me surge um Fusca  transformado em escultura com cara de monstro e dentes afiados, nariz projetado e olhos grandes.
Tatti foi logo falando de sua expectativa de no domingo seguinte dar uma volta triunfal na Fonte Nova, na partida entre o Bahia e Vitória, garantia de casa cheia . Lembro que a volta foi rápida e que muitos torcedores nem perceberam do que se tratava, já que o foco era a partida entre  os maiores rivais do futebol baiano.E assim, aconteceu a apoteose do seu trabalho escultórico, que  atraía a curiosidade das pessoas quando saia pelas ruas de Salvador .
O artista teve algumas dificuldades para conseguir um documento da polícia de trânsito, que relutava em dar autorização para que aquele estranho carro circulasse pelas ruas da cidade.
Os comentários variavam. Uns diziam tratar-se de  extravagância de um playboy, outros apenas que era uma coisa estranha que andava. Evidente, que naquela época não se tinha à disposição o volume de informações que temos hoje , inclusive sobre uma obra de arte, e estava no auge as extravagâncias de alguns milionários como o Baby Pignatary, Jorginho Guinle, inclusive de alguns endinheirados baianos.
No meu acervo estão dois orixás
esculpidos por Tatti. Tenho preferência
por este Oxóssi de 60 cm.



Na parte traseira  de seu carro-escultura ele instalou uma fonte luminosa que jorrava água em até 2 metros de altura; na lataria fez algumas  máscaras, parte do capô se movia mostrando os  dentes dourados, e no lugar dos faróis os olhos se movimentavam. Tinha a cor preto e  dourado .
Era na verdade uma obra de arte, onde o artista fazia seu protesto contra a massificação do consumo através do automóvel. Imagine que a insipiente indústria automobilística estava apenas começando no Brasil e já assustava o Tatti, devido ao apego que as pessoas demonstravam, já naquela época, ao automóvel. Esta escultura depois foi participar de uma exposição do Rio de Janeiro e nunca mais soube do seu paradeiro.

Nos anos seguintes, passei a me interessar mais por arte e acompanhei a trajetória de Tatti, que a cada ano ganhava prestígio, e suas esculturas passaram a ser adquiridas por colecionadores daqui e de fora do Brasil. Hoje, um escultor consagrado, o Tatti continua com seu jeitão descontraído , sempre disposto a realizar novos trabalhos, fiel à sua temática calcada na arte afro-brasileira.Já esculpiu insetos, máscaras e totens. Porém, o seu forte são os Orixás.
A propósito para sua cidade criou àquelas belas e grandes esculturas representando os Orixás que estão no Dique do Tororó, local dedicado ao culto de Oxum, a Rainha das Águas Doces . Suas esculturas são referência, e mesmo uma atração turística a mais para os que nos visitam ,e até mesmo para os baianos que passam pelo local. Todos querem fazer uma foto, que fica bonita de qualquer ângulo que você focar.
As  esculturas de Tatti Moreno ressaltaram
mais ainda a beleza natural do Dique do Tororó.
São doze Orixás , sendo que oito ficam no espelho d'água -Oxalá,Oxum,Xangô,Yemanjá,Yansã,Ogum,
Logun- Edé e Nanã, e outras quatro , na terra que são Exu, Oxumaré,Ogun-Edé e Ossanha. São esculturas com sete metros de altura , em estrutura de ferro, revestida de fibra de vidro, polietileno, para evitar ferrugem. Estão dispostas em círculo, numa formação das cerimônias do candomblé.
Ele já tem muitas esculturas em áreas públicas e privadas em várias cidades e capitais brasileiras. Recentemente, fez aquela escultura de Jorge e Zélia Amado que está no bairro do Rio Vermelho.
Faço este registro com muita satisfação em ver o Tatti Moreno cada vez mais criativo, cada vez mais sua trajetória sendo festejada e, agora, eternizada neste belo trabalho de Claudius Portugal.

sábado, 15 de outubro de 2016

CARTA DOS ARTISTAS SOBRE MUSEUS

Proposta para os Museus de Arte.

Os museus de arte se destacam como instituições facilitadoras do desenvolvimento cultural e educacional, um espaço privilegiado de produção, reprodução e divulgação de conhecimento a serviço do pensamento crítico da sociedade e sua historia. Em particular os museus de arte tratam das artes visuais, como é o caso do Museu de Arte Moderna da Bahia, (MAM-BA) idealizado pela arquiteta Lina Bobardi para também ser um museu escola. Ao conciliar a arquitetura histórica com a intervenção interna, mesclar a preservação do antigo com as exigências contemporâneas indispensáveis a instalação de um museu, a arquiteta criou o que hoje é um espaço para reflexão cultural de reconhecimento nacional e internacional.
O Conceito atual de museu, com suas atividades socioculturais, lhe deu visibilidade, por assumir um importante e poderoso papel na economia e na credibilidade da imagem de uma cidade. Nas palavras de Mário Pedrosa no texto “Arte Experimental e Museus” publicado em 1960, diz ele: “ Diferente do antigo museu, do museu tradicional que guarda em suas salas as obras primas do passado, o de hoje é, sobretudo, uma casa de experiências.  É um para- laboratório . É dentro dele que se pode compreender o que se chama de arte experimental, de invenção”. Ou seja, uma arte que se relacione com a cidade de forma viva.

O MAM-BA faz parte desse novo conceito de museu.
Historicamente, mas, sobretudo pela natureza do objeto a que se dedica, que é o de implementar e difundir as artes visuais, é que  o Museu de Arte Moderna esteve sempre vinculado á fundação Cultural do Estado, instituição  com a qual fez o diálogo pertinente; o diálogo das linguagens Artísticas atuais.
No ano de 2003, no Governo Paulo Souto, os museus foram retirados da estrutura da Fundação Cultural do Estado da Bahia e incorporados ao IPAC (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia).

Nós Artistas Plásticos, abaixo assinados, em reunião no MAM-BA, (destacamos nessa oportunidade a presença de Chico Liberato, Diretor por 12 anos do museu) para discutirmos uma pauta que contemplava temas como Reforma do museu, Revitalização das Oficinas, Bienal da Bahia, Salões e Projetos Expositivos, sugerimos a discussão de um tema fundamental para a plena realização do MAM-BA, como de resto, dos museus de arte: a volta dos museus ao seu lugar de origem, ou seja, a Fundação Cultural do Estado da Bahia.  Esta reivindicação, há muito tem sido expressa pelos Artistas Visuais, às gestões anteriores do IPAC e da Secretaria Estadual de Cultura.
Depois de exaustiva discussão, nós artistas, pelo já exposto acima, e por compreendermos a natureza da Instituição IPAC como um órgão fundamental na preservação do patrimônio material e imaterial do Estado da Bahia, inclusive do sítio histórico do Solar do Unhão e por  considerarmos que o diálogo das linguagens, carece de uma interlocução que se afeiçoe à natureza dos museus de arte. Decidimos por levar o nosso pleito ao Exmo. Secretario de Cultura, Sr. Jorge Portugal e subsequentemente ao Exmo. Governador do Estado da Bahia, Dr. Rui Costa.

Imbuídos do espírito cooperativo, e do estrito desejo de colaborar com a gestão da cultura na Bahia, ao tempo em que manifestamos o nosso apreço ao IPAC, subescrevemos:

EDVALDO DE ASSIS E SEU MUNDO DE SIMPLICIDADE E GRANDEZA

Edvaldo Assis, hoje com 75 anos, e a beleza de suas obras
Estamos vivendo num mundo digital de amores e relações fluidas que se dissipam num clic de uma tela de computador. Um mundo onde as relações entre as pessoas se transformam em imagens que nem são guardadas. Elas desaparecem na "nuvem,"como estão desaparecendo as amizades devido a distância, polarização de ideias e posições políticas ou sociais. Mas, longe deste mundo fervilhante e insensível gravitam outras pessoas que carregam em si aquele calor da amizade, aquela chama de criatividade , aquela calma que nos leva a pensar que ainda há salvação. Não a salvação divina, mas a salvação das coisas simples, salvação da amizade sincera, e aquela sensação e emoção quando as encontramos depois de algum tempo .
Este calor humano é uma característica forte neste homem simples de Santo Amaro da Purificação que constrói o seu mundo  em seu imenso atelier, cheio de salões repletos de livros, quadros e esculturas.
Senti que ele está deslocado do tempo e de lugar. Ao olhar os seus quadros onde retrata, dentro de sua visão pictórica impressionista a paisagem baiana, com seus casarios centenários, suas igrejas plantadas no alto dos morros, e outros prédios históricos, como o antigo e já desaparecido Mercado Modelo, Edvaldo de Assis apresenta-se como   um lutador que quer mostrar ao mundo que ele tem uma memória que precisa ser compartilhada e vivenciada por todos aqueles que se dispõem a perder um tempo, e fixar os olhos alguns minutos em uma de suas telas cheias de luz dos trópicos, o romantismo e a saudade do passado. Também  pinta cenas da atualidade com a luz e a mesma intensidade de suas cores bem distribuídas.
Lembro quando ele chegava a redação do Jornal A Tarde com seu jeito simples e envolto numa timidez que era difícil tirar algumas palavras de sua boca. Quando  perguntado mostrava uma tela que acabara de pintar, e a entrevista sempre ficava restrita por falta de maiores informações. 
O antigo ( já desaparecido) Mercado Modelo
 e os saveiros
Convidado para fazer o prefácio deste livro pelo amigo e colega Otto Freitas, revivi na mente as vezes que estive com Edvaldo Assis na redação do jornal, e também, em algumas vernissages. Sempre daquele seu jeito de interiorano tímido. Isto no meu entender lhe prejudicou de alguma forma, como também a falta de um agente, galerista ou marchand que talvez  pudesse levar com afinco e vigor as suas obras a colecionadores e galeristas de outros lugares. Sim, porque não existe só a arte das performances que se diluem no ar ou a arte contemporânea. dos grandes centros urbanos.
A arte que Edvaldo de Assis realiza é também da mais alta importância, e nós baianos somos pródigos em descartar artistas de valor. Lembro de Ivan Bastos, Reginaldo Bonfim e o próprio Carlos Bastos, Genaro de Carvalho , já falecidos, e outros que precisam ser melhores reconhecidos, lembrados e festejados com exposições retrospectivas, catálogos e livros. 
Em boa hora este livro sobre Edvaldo de Assis é lançado com ele ainda vivo  e produzindo para que fique ai registrado para a História da Arte da Bahia e que futuras gerações possam conhecer quem foi este artista que pintou as ruas , os casarões, as praias e tantos outros lugares de nossa terra.
Foi complicado encontrar o Edvaldo Assis. Primeiro,tive que solicitar a alguns amigos uma pista do seu telefone. Através do seu colega Leonel Mattos soube que ele seu atelier ficava no bairro da Saúde próximo a uma molduraria. Consegui o telefone da molduraria do Edvaldo ( não é o Assis) que me passou para uma filha, que tinha o telefone do Edvaldo Assis.Assim, pude falar com ele e marcar uma data para visitá-lo antes de escrever o prefácio. Queria sentir e saber como andava o personagem sobre quem iria escrever.
O pintor Edvaldo Assis em frente ao seu atelier
no bairro da Saúde
Finalmente, nos encontramos . Fui recebido na porta do atelier, e após subir uma escada até o primeiro andar,  me vi diante de um imenso salão onde praticamente vive o Edvaldo Assis, transitando entre outros salões que se intercomunicam. Ali  passa o dia inteiro desenhando , pintando e conversando com os poucos amigos que o visitam. O local é na rua Júlio Barbuda, 4, bairro da Saúde, uma ladeira íngreme e tortuosa, onde não existe a possibilidade de você estacionar, porque sempre está completamente tomada de carros. As casas antigas do bairro da Saúde não possuem garagens e as pessoas estacionam onde conseguem uma vaga. 
Edvaldo de Assis embora mais velho continua o mesmo. Fala mansa, olhar triste e simples como um típico interiorano. Nascido em 1941, em Santo Amaro da Purificação, morou em Oliveira dos Campinhos e Nazaré do Jacuípe  acompanhando sua avó, com quem sempre tinha uma grande afinidade.Sua mãe claro, teve também um importante papel em sua vida, e fica emocionado quando lembra que ela faleceu há poucos meses.
Este menino pobre e sensível deixava de comprar brinquedos em troca de revistas como a O Cruzeiro, Manchete, gibis, e era fã do famoso caricaturista Péricles, com seu personagem O Amigo da Onça, que tanto sucesso fez nos anos 50 e 60.
Estudou na então Escola Agrícola em São Bento das Lages, em São Francisco do Conde. Depois veio trabalhar no jornal Diário de Notícias, do grupo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand,  no setor de distribuição.
Uma visão parcial de um dos salões do seu atelier
com estante e quadros.
Lembra que foi o fotógrafo Oscar Freire de Carvalho que ao ver seus desenhos resolveu lhe levar ao Palácio da Aclamação para pedir uma bolsa de estudos para ele ao então governador Juracy Magalhães, que só depois da segunda tentativa conseguiram o contato. O governador Chamou seu auxiliar Josaphat Marinho e deu-lhe a incumbência de providenciar a bolsa de estudos. Foi assim que Edvaldo Assis foi estudar na antiga Escola de Belas Artes, que funcionava na 28 de setembro, no Centro Histórico. Lá ampliou seus horizontes e teve contatos com os mestres da pintura baiana como Réscala, Mendonça Filho dentre outros, o que lhe possibilitou continuar este caminho da pintura expressionista com traços acadêmicos.
Mas, a vida sempre foi muito difícil para Edvaldo Assis, que teve que largar a Escola de Belas Artes.  Lembra que o mestre Réscala reclamou de suas faltas e insistiu para que não largasse o curso. Mas, a situação financeira não permitiu. Como  fazia retratos a carvão para ajudar nas despesas foi observado pelo comerciante português Manoel Pinto, dono da loja Império das Louças, que ficava no Relógio de São Pedro, e iria abrir uma filial no bairro da Calçada. O português ficou tão entusiasmado com ele que foi falar com seu chefe no Diário de Notícias o José Muniz oferecendo vantagem  com salário melhor. Assim lá se vai o Edvaldo Assis trabalhar na filial do Império das Louças, na Calçada, e assim a distância, difícil de ser vencida naquela época, entre a Calçada e o Centro Histórico contribuiu para seu afastamento definitivo da Escola de Belas Artes.  Neste ínterim ele ainda fez uma incursão como desenhista pelos corredores da TV Itapoan, que pertencia ao grupo Diários Associados .
O conjunto do Solar do Unhão fixado na tela por
este artista impregnado de baianidade.
Depois de várias décadas pintando, sua vida ainda continua cheia de dificuldades com sua mulher doente e alguns filhos ainda dependendo do seu ofício de pintor. Também, os tempos mudaram. Os jornais impressos estão encolhendo, e aquele acolhimento que tinha de quando chegavam nas redações sendo recebido com respeito por mim, Aldo Tripodi ( recentemente falecido), e mesmo fora deste ambiente por  outras pessoas que apoiavam os artistas com suas reportagens e textos críticos, a exemplo do meu amigo professor Ivo Vellame, de saudosa memória. Haviam também galeristas como Jacy Brito, de O Cavalete , no Rio Vermelho, grande incentivadora que lançou  vários artistas emergentes , que que hoje estão ai vitoriosos no mercado de arte; Deraldo Lima, da Galeria  13, no Centro Histórico; Rag, na Bôca do Rio; Panorama Galeria de Arte, na Barra,  fundada em 1967, por Euler de Pereira Cardoso, que realizou dezenas de  exposições e contribuiu para a formação de muitos artistas, e antes  a Bazarte, que ficava no Politeama,de José de Almeida Castro que se transformou numa espécie de oficina para os artistas, graças ao espírito de mecenato de seu criador; e mais alguns,que promoviam encontros e exposições desses artistas, inclusive lançando muitos iniciantes no mercado, e os apoiando até que alcançassem voos mais altos.
Guardei para o fechamento deste pequeno texto esta frase de Edvaldo Assis que resume tudo que afirmo sobre o atual ambiente de trabalho e a dificuldade de divulgação das obras desses artistas: "Minha vida difícil, continua". Se você for ouvir outros artistas vai também constatar esta dificuldade.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OBRAS DE AMÍLCAR DE CASTRO EM SALVADOR

Obra de Amílcar de Castro onde ressai  forte gestual
A partir de 2 de dezembro os baianos poderão apreciar obras do escultor mineiro Amílcar de Castro , as quais permanecerão aqui até o dia 1º de outubro na Galeria Paulo Darzé, no Corredor da Vitória.
São 20 esculturas em madeira, ferro e aço corten além de 31 pinturas , sendo seis em papel e 25 sobre tela com a curadoria de Rodrigo Castro, que também assina o livro/catálogo quando diz que " Hoje ou em qualquer tempo, Amílcar de Castro sempre irá surpreender e preencher nosso olhar, nossa alma, com o inusitado, o novo, a arte pura de um mestre que, com sabedoria, empurrou o fim para um depois, mais e muito além do tempo. Possível apenas quando a vida e a arte, mutuamente atraídas, realizam o incomum, o raro e impensável”. 
Esta mostra é uma síntese de alguns períodos de criação do artista com a utilização de materiais diversos como suporte de sua arte forte e vibrante.Integrante do movimento neoconcreto Amílcar de Castro marcou presença no panorama das artes brasileiras . Teve um papel destacado quando da reforma do Jornal do Brasil elaborando a visualização gráfica, que na época chamava-se de diagramador.
Amílcar foi escultor,gravador,desenhista,diagramador, cenógrafo e professor de composição, escultura, desenho e teoria da forma na Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.
                                                                                                              

                                                                                       O ARTISTA
Amílcar de Castro com uma de suas esculturas


Nasceu em Paraisópolis, Minas Gerais, em 8 e junho de 1920, e veio a falecer em 22 de novembro de 2002, vítima de insuficiência cardíaca, após complicações decorrentes de uma angioplastia coronária.
Formado em Direito exerceu a advocacia , mas a arte exercia um fascínio que o levou a inscrever-se na Escola de Arquitetura e Belas Artes, onde frequentou o Curso Livre de Desenho de Pintura ministrado por Guignard e Escultura Figurativa com Franz Weissmam. Em 1952 muda-se para o Rio de Janeiro indo trabalhar como diagramador no Jornal do Brasil, que na época era um dos mais importantes jornais do país. Trabalhou também nas revistas Cigarra e Manchete,vindo a realizar o projeto gráfico do Jornal do Brasil, que revolucionou o visual dos periódicos brasileiros.
Sua primeira escultura foi apresentada na II Bienal de São Paulo, e em 1955  recebe o Prêmio de Escultura do Salão de Arte Moderna da Bahia.Participa das exposições do grupo concretista de São Paulo e Rio de Janeiro , Ganha vários prêmios .
Em Salvador participou em 1951 do III Salão Baiano de Belas Artes, e em 1955 recebeu o Prêmio de Escultura do Salão Nacional de Arte Moderna da Bahia, além de expor em coletivas e individuais .