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sábado, 3 de janeiro de 2026

DANIEL FREIRE E SUA ARTE FOCADA EM SENTIMENTOS PROFUNDOS

O artista Daniel Freire pintando em seu ateliê .
De Barcelona, Espanha  - 
O artista Daniel Freire é pintor figurativo, ilustrador de jornais e livros, atualmente desenvolve experimentos com a fotografia. Sua pintura traduz a solidão e a individualidade  presentes nas cidades modernas. Com sua câmera ele costuma fotografar pessoas anônimas nas ruas, praças, bares e no metrô em outros locais públicos.  Essas fotos são de   personagens  quase sempre expressando melancolia, tristeza e solidão. Além de ser técnico especializado no conserto de máquinas fotográficas analógicas, e o seu uso está se transformando numa tendência na Europa e em outros continentes. É baiano de Salvador, formado em Artes Plásticas, pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Cofundador e coeditor da revista de arte Boardilla, Brasil, Espanha e Itália. Tem obras em coleções particulares e acervos no Brasil, Itália, Espanha, Suécia, Estados Unidos, Suíça, Etiópia, França e Japão. Mora em Barcelona, na Espanha, onde tem seu ateliê e já realizou algumas exposições individuais e coletivas. Nossa conversa aconteceu através chamada de vídeo e mensagens pelo WhatsApp.

Quatro obras bem expressivas de Daniel Freire.
Seu nome de batismo é Daniel Freire Figueiredo, nasceu em nove de julho de 1974 em Salvador. Seus pais Altino José Figueiredo , médico psiquiatra e sua mãe d. Nadja Freire Figueiredo é psicóloga. Moravam no bairro do Stiep e depois se mudaram para o bairro do Itaigara,ambos na capital baiana. Estudou o primário nas Escolas Júnior Sociedade Civil Limitada, que funcionava no Costa Azul e depois na Girassol, no Itaigara.  Também durante sua infância teve aulas de pintura com o professor da Escola de Belas Artes da UFBA, no Atelier de Luiz Mário Costa Freire , e já adolescente com Gabriel Lopes Pontes. Em seguida a família decidiu ir morar numa fazenda entre os municípios de Alagoinhas e Araçás. Estudou o ginásio e o colegial no Colégio Dínamo, em Alagoinhas, que é uma instituição de ensino tradicional, fundada em 1976, e oferece desde a educação infantil ao ensino médio. Em 1993 fez o vestibular para a Escola de Belas Artes. Chegou a dividir um ateliê com os artistas Anderson Santos e Elias Santos, na Ladeira dos Aflitos e passou a ilustrar algumas reportagens no jornal Correio da Bahia. Em 1996 decidiu ir residir em São Paulo, onde permaneceu cerca de um ano e meio estudando pintura a óleo e modelagem. Lá estudou com o artista e professor José Antônio Van Acker, natural de São Paulo, capital, onde nasceu em 1931 e faleceu no ano 2000.  Era pintor, desenhista, gravador, escultor e professor. Cursou a Escola de Belas Artes de São Paulo entre 1951 e 1954. Ministrou cursos livres de apreciação artística, história da arte, escultura: modelagem em argila e talha em madeira e pedra, pintura e desenho em seu ateliê, a partir de 1969. Na década de 70, torna-se professor de escultura na Faculdade Santa Marcelina e de desenho, pintura, escultura e apreciação artística no Ateliê Arte Viva. Foi uma bela experiência estudar com Van Acker.

Daniel gosta de fotos PB. O artista
pintando no seu ateliê em Barcelona.
O artista Daniel Freire volta para Salvador e conclui o seu curso na Escola de Belas Artes e já começou a alimentar a ideia de ir morar em Barcelona, na Espanha, imaginando como todo jovem que as coisas seriam mais fáceis na Europa. Mas, na realidade não é isto que acontece em Barcelona, que pertence a região da Catalunha, os catalães são  conscientes de sua nacionalidade e territorialidade. Sabemos que a Catalunha  é uma comunidade autônoma da Espanha  localizada na extremidade leste da Península Ibérica. É designada como uma nacionalidade e pelo seu Estatuto de Autonomia, e  é composta por quatro províncias: Barcelona​​GironaLérida e Tarragona. “A capital e a maior cidade é Barcelona, ​​o segundo município mais povoado de Espanha e a quinta área urbana mais populosa da União Europeia.” Existe lá até um movimento radical contra a presença de turistas, que são tantos, que essas pessoas chegam a molestá-los. O artista Daniel Freire está adaptado com os costumes e a vida em Barcelona onde ele de quando em vez participa de exposições coletivas e até já realizou algumas individuais. Trabalha numa empresa alguns dias na semana consertando máquinas fotográficas analógicas, e tem também sua oficina para realizar esses consertos. É o chamado plano B que a maioria dos artistas é obrigado a exercer para ter uma sobrevivência digna, e assim poder fazer a sua arte com liberdade e tranquilidade.

Obra Alex I, óleo sobre tela , 2003.
Na Universidade de Barcelona-UB frequentou o Curso de Belas Artes durante um ano de 2004-2005, e elogiou as boas instalações da universidade, mas que não teve um aprendizado como esperava. Destacou apenas as aulas de gravura da professora Ana Vives, e também o custo era de 500 euros semestrais. Ele queria pintar com tinta óleo, mas o professor de pintura preferia a tinta acrílica por causa do cheiro. Disse Daniel Freire que não entendia esta implicância do professor porque a sala de pintura tinha exaustor e o cheiro da tinta quase não se percebia. Também disse que na Europa existem muitas galerias e locais onde o artista tem que pagar para expor. Se você não é um artista conhecido do mercado onde a exposição será realizada normalmente não dá um retorno que justifique pagar para expor.

O crítico de arte espanhol Ramon Casalé, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, ao analisar a pintura de Daniel Freire escreveu que "a solidão e a falta de afeto aparecem refletidas com rigor na pintura de Daniel Freire de uma

Obra Elias , óleo sobre tela , 2002-2003.
perspectiva figurativa, que chamaria de realismo ambiental”, nos mostra o comportamento de personagens preocupados e entediados que podem ser encontrados em um bar ou cafeteria de qualquer cidade. Eles parecem estar meditando ou pensando em seus problemas, com um cigarro na boca, tomando uma bebida ou apenas descansando os braços na mesa com os olhos fechados. Se observarmos a pintura de Daniel Freire nos evoca cenas costumbristas e intimistas de Hooper ou mesmo as arrogantes e expressivas de Freud. O realismo dos retratos e dos interiores combinam perfeitamente com o hiper-realismo das naturezas-mortas, em que os objetos do cotidiano - sapatos, copos, chapéus - são seus principais protagonistas. Seja de uma forma ou de outra, Daniel Freire nos aproxima de um ambiente em que o silêncio e a solidão só são quebrados pelo barulho dos passos ao descer algumas escadas, pelo tilintar dos copos ao bater-se ou pelas vozes das pessoas”

Obra da série Rostos da Bahia.
Os costumbristas que escreve o Casalé refere-se ao "costumbrismo que é a interpretação literária ou pictórica da vida cotidiana, maneirismos e costumes locais, principalmente no cenário hispânico e, particularmente , no século XIX". Citou  também de Hooper se referindo ao pintor "americano Edward Hooper (1882 -1967) foi um pintor , artista gráfico e ilustrador norte-americano conhecido por suas misteriosas pinturas de representações realistas da solidão na contemporaneidade." Já quando fala de Freud trata-se do pintor  Lucian Freud (1922-2011), neto do psicanalista Sigmund Freud, um renomado artista britânico focado em arte figurativa, conhecido por seus retratos e nus de intenso realismo psicológico, muitas vezes desconfortáveis e reveladores da condição humana, usando técnicas como empasto pesado para explorar a carne e a experiência subjetiva, mesmo em um período dominado pela arte abstrata."(Wikipédia)

O próprio Daniel Freire me informou que gosta de fotografar pessoas anônimas, muitas vezes sem elas perceberem na sua solidão, na sua individualidade numa

Obra Sapatos e Chapéu, 2002.
praça e em outros locais públicos e trabalha esta figura humana dentro da concepção do seu fazer artístico. Ele mesmo me deu a impressão de personificar uma dessas figuras que o Ramon Casalé magistralmente captou. O artista se exilou espontaneamente deixando o seu país para trás e foi para uma cidade onde pulsa a arte, e que é diariamente invadida por milhares de turistas de todo o mundo. Aí deve ter enfrentado muitos perrengues e com certeza de quando em vez se depara com dificuldades porque se é difícil a gente viver em nosso país, imagine em outro, e numa cidade catalã, onde seu povo há anos luta por independência, tem seu idioma próprio, e é muito territorialista. No entanto o artista  Daniel Freire disse que gosta de morar em Barcelona e assim vem construindo e fortalecendo seus laços de amizades e profissionais para tocar a sua vida com mais tranquilidade e conforto pessoal. 

                          EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Em 2025 - Exposição Corpo Cidadão, um recorte sobre o tema corpo do acervo do MAC,Museu de Arte Contemporânea da Bahia, obra “A Alegria de Cam” adquirida para o acervo do museu.  2023 – Ramas, Exposição individual de pintura, desenho e gravuras na Sala de exposições da Asociación Ô Diluvi, Barcelona -Espanha. 2021 - Metropolis Film Exhibition , Exposição coletiva de Fotografia, Lomography Embassy Barcelona, Espanha. 2020 - Comité Invisible, Exposição Coletiva Estudio

Obra da Série Joaquim de Prada IV ,
óleo sobre papel, inacabado,2025.
 
55, Barcelona – Espanha. 2019 - The XPan doesn't fit in my pocket, Exposição Coletiva de Fotografia. Lomography Embassy Barcelona-Espanha. 2018 - Artistes VAC’ 18, Exposição Coletiva, Sala d’Exposiciones Torre del Baró, Viladecans- Espanha Exposição Ahora somos 4, coletiva e inauguração del novo atelier em Barcelona C/ Martí, 55, térreo – Barcelona – Espanha. 2014 – Matéria e Memória, Exposição Coletiva e lançamento da Revista Boardilla, Centro Cultural Casa Elizalde – Barcelona – Espanha. 2012 - Barcelona 12 anos. Exposição individual de pintura. LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha. 2011 - Cinc Cèntims, Mostra coletiva de pintura, escultura e fotografia, LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha; Odiseas” - Barcelona: Muchas Islas. Un viaje por concluir, retrospectiva de 10 anos de pintura; Exposição individual de pintura. Berheads espai d’art – Barcelona-Espanha; Ítacas - Retrospectiva 10 anos de pintura em Barcelona-Espanha e Exposição individual de pintura. Lletraferit espai d’art – Barcelona-Espanha. 2010 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística; Exposição individual de pintura. Salvador - Bahia - Brasil. 2008 - Expo em Casa. Exposição individual. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona-Espanha; In Vino Veritas, Exposição Coletiva Interativa. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona – Espanha. 2006 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística em Barcelona, Exposição de obra pictórica e gráfica em Barcelona; Prêmio de Pintura Jovem da Galeria Sala Parés - Banco de Sabadell, Barcelona-Espanha; Cinco obras 
Obra A Alegria de Cam, pertence ao acervo do
Museu de Arte Contemporânea da Bahia,2025.
selecionadas, expostas na Sala Parés e publicadas em catálogo.  2005 - Prêmio Laus 05, Barcelona, Obra selecionada, exposta e publicada em catálogo. Galeria Iris, Barcelona-Espanha ;  Exposição Coletiva,  Seis selecionados para o acervo de arte da Galeria Yanko Zapatos, Barcelona-Espanha. Durante um ano e três meses reproduz em tela as coleções da marca, ademais produz desenhos e ilustrações para campanhas da empresa junto com a agencia S.C.P.F. Os quadros realizados nesse período são expostos em Barcelona, Madrid, Valencia, Tokio e Shanghai; Publicação de um dos quadros na revista Telva, no 789 – Janero.  2004-2005 -  Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. Exposições Coletivas da Galeria; 2003 -  Grand Hotel Baglioni - 35 anos da Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. - Exposição e evento comemorativo dos 35 anos da Galeria.  2002 - Gallerie Engelskirchen, Colônia – Alemanha, Exposição Coletiva, Untitled ;  Siena Espai d’Art, Ciutadella - Menorca. 2001 e 2002 - Exposição Coletiva e acervo artístico. TallerGaleria, Barcelona. Exposições Coletivas e acervo artístico. 1996 - Centro Cultural Brasil-Estados Unidos Exposição Coletiva, Untitled); Galeria da Escola de Bllas Artes da Bahía. Exposição individual.  1994 - Centro Cultural Casa do Benin, Exposição Coletiva, Undecaegos.1992 - Aliança Francesa Exposição Coletiva, Histórias em Quadrinhos. 
Esta obra acima de Daniel Freire A Alegria de Cam é uma releitura da pintura A Redenção de Cam que pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foi pintada em 1895 pelo pintor espanhol Modesto Brocos ( 1852-1936) e é considerada uma pintura racista. Contam os historidores de arte que a pintura foi feita logo após a abolição da escravidão e da proclamação da República no Brasil. É de conhecimento de todos que na busca pelo desenvolvimento naquela época o Brasil adotava uma política chamada de Europa branca como referência, embora nossa população nada tinha de semelhança com a européia. Já o título da obra nos remete aos princípios biblícos da maldição de Noé sobre seu filho Cam . Noé dormiu embriagado de vinho e Cam expôs a nudez do pai aos irmãos como zombaria. Ao acordar, o pai então amaldiçoou Cam, a ser “servo dos servos”. Há inclusive versões que descrevem Canaã e os descendentes de Cam como negros.

FORMAÇÃO

Nego Fugido, Caretas de Acupe, distrito
de Santo Amaro da Purificação, Bahia.
Escuela de Bellas Artes na Universidad de Barcelona – UB, Artes Plásticas. Barcelona - Espanha. 2004 – 2005De 2000 a 2001 - La Llotja. Curso monográfico de desenho e pintura. Barcelona - Espanha.1999 - Museu de Arte Moderna da Bahía. Prof. Antonello Labatti. Gravura em Metal. Nível 1 e 2. Bahia - Brasil. De 1997 a 1998 - Atelier do mestre J. Van Acker. Modelado, desenho e pintura. São Paulo - Brasil;  Studio de Fotografia Wladimir Rómulo Fontes. Fotografia básica e laboratório inicial. São Paulo - Brasil. De 1996-1997 - Escola Professor Edson Barbosa. Classes de perspectiva, desenho técnico e estrutural. Bahia - Brasil. De 1993- 1997 - Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahía. Artes plásticas. Bahia - Brasil. De 1987 a 1989 - Studio Claroscuro. Classes de desenho, serigrafia, aerografia, pintura e desenho de comics. Bahia - Brasil. Desde os anos 90 trabalha com a fotografia analógica e processos experimentais. É um trabalho desenvolvido paralelamente ao da pintura.


sábado, 27 de dezembro de 2025

ROSALVO SANTANA O SANTEIRO DE MARAGOGIPINHO

 Rosalvo Santana esculpindo
 imagem de São José de 1,30cm
.
O santeiro Rosalvo  Santana é filho de um oleiro de Maragogipinho conhecido como Mestre Roxinho que passou anos e anos fazendo peças utilitárias de cerâmica. Ele nasceu em vinte e quatro de abril de 1964 e desde criança que esta atividade está presente em sua vida, mas seus pais tentaram desviá-lo para que abraçasse outra atividade mais lucrativa e que lhe garantisse uma sobrevivência tranquila. Foi assim que resolveram colocar para estudar. Fez o primário na Escola Municipal Joana Angélica, o ginásio e o curso de Contabilidade no Colégio Estadual Professor Rocha Pita, em Aratuípe. Lembrou que ia para a escola de canoa, bicicleta e até a pé, e que foi uma época muito difícil. Acontece que a arte da cerâmica já estava entranhada em sua vida e aqueles bois e bonequinhos que fazia na infância nunca saíram de sua mente. É verdade que não passava muito tempo ao lado dos pais na olaria porque no processo de produção de peças vidradas é utilizado o chumbo, que ao entrar em contato com o fogo exala uma fumaça tóxica . Seus pais Amiordes Santana e Maria das Dores Araújo procuravam evitar a presença do filho neste ambiente para preservar a sua saúde. De nada adiantou e o Rosalvo Santana decidiu que iria trabalhar com o barro. Em 1990 ao completar dezoito anos veio à Salvador para dar um curso de modelagem no barro de peças utilitárias e conversando com alguns alunos um deles observando a facilidade que ele tinha para o desenho sugeriu que tentasse modelar imagens de santos. Atento aos comentários Rosalvo Santana decidiu fazer uma santa de barro.
Rosalvo trabalhando na queima
de suas imagens no forno a lenha
.
 Escolheu esculpir a imagem de Nossa Senhora da Conceição e expôs juntamente com as peças utilitárias em 1992 na Feira dos Caxixis que se realiza em Maragogipinho durante a Semana Santa, há mais de trezentos anos. Para sua surpresa uma senhora pagou um valor superior ao que ele havia pedido reconhecendo assim o seu trabalho e o seu talento. Aí foi o começo de um caminho vitorioso, e hoje Rosalvo Santana já é conhecido em vários estados como um dos santeiros que trabalha com cerâmica produzindo imagens de vários santos e santas. Lembrou que começou a participar de exposições e numa coletiva com a presença de vários santeiros que foi realizada no Palácio Rio Branco percebeu que a maioria das imagens tinham o mesmo formato e composição. “Eram quase todas iguais ou muito parecidas. Neste dia senti a necessidade de fazer algo diferente para que minhas peças tivessem algo que as outras não têm. Foi aí que se esforçou e   seu trabalho foi evoluindo, e hoje é diferenciado, fruto de suas observações da iconografia tradicional.  Suas imagens têm um panejamento e uma composição únicos que variam a cada peça que esculpe. Ele declarou que procura sempre nunca repetir a mesma composição e, portanto, cada peça de sua autoria é única. Este diferenciamento podemos constatar nas dobras, redobras e pregueados dos mantos e vestes das imagens, além do número e colocação dos anjinhos que compõem a obra. Suas imagens são resultado também da mistura
Passando a pátina numa imagem
de São Jorge.
que faz dos estilos barroco com o rococó para criar suas imagens. “Quem adquire uma imagem feita por mim sabe que não obedeço rigorosamente a iconografia tradicional sempre estou acrescentando ou retirando algo. Assim a pessoa está adquirindo uma imagem de Santa Luzia, de Nossa Senhora da Conceição, de São Jorge, de Nossa Senhora da Aparecida ou de Nossa Senhora Desatadora de Nós de autoria de Rosalvo Santana. Por exemplo o São Francisco que faço é como se ele já estivesse no céu". Acrescentou que seu filho Rosalvo Maltez Santana , conhecido por Rosalvinho, também suas imagens são diferentes das feitas pelo pai Rosalvo. “Desde o começo quando meu filho decidiu ser santeiro o incentivei a fazer suas imagens olhando  a iconografia e sempre acrescentando ou retirando algo para ficar sendo uma obra dele. Diferente das minhas e de outros santeiros desde Brasil afora. Hoje posso afirmar que as minhas imagens e as de Rosalvinho  são diferentes entre si e também de muitas que vemos por aí”.

Seu trabalho é totalmente artesanal e o barro que utiliza para esculpir as imagens  adquire por peso e vem em sacos de linhagem do distrito de Aratuípe, que fica a cerca de uns dez quilômetros de onde reside. É retirado dos mesmos barreiros onde os oleiros de Maragogipinho há muito tempo retiram ou adquirem para fazer suas peças utilitárias. 

A Rainha dos Anjos , de 2023.

O santeiro Rosalvo Santana durante nossa conversa falou que o barro vem com muitas impurezas como raízes, pedras de vários tamanhos e areia. “Tenho que fazer um processo de decantação para purificar o barro que vou usar em minhas peças, a chamada goma de argila. As imagens normalmente têm 30, 45 ou 60 cm. Estes tamanhos são os preferidos pelas pessoas que adquirem as imagens que faço e muitas já são feitas por encomenda.” Segundo o artista ele demora cerca de uma semana para concluir uma peça. Falando da queima das peças no forno rudimentar de lenha disse que no princípio perdia muitas peças que se quebravam com o calor, mas que hoje já aprendeu a manha e quase não acontece mais ama quebra. Atualmente o forno fica em torno de 800 graus e deixa as imagens durante doze horas queimando. Existem na região quase duzentas olarias às margens do rio Jaguaripe e seus afluentes e esta  atividade  envolve o trabalho de homens e mulheres. Normalmente para fazer as peças de cerâmica utilitárias e de decoração trabalham famílias inteiras cabendo aos homens fazer a modelagem e as mulheres dão o acabamento e a pintura.

Há uns cinco anos que não mais participa da Feira dos Caxixis porque não consegue juntar um número suficiente de imagens para expor. Sempre é convidado, mas não tem participado porque sua produção é pequena. Tudo começa com a feitura de uma placa de barro que em seguida ele une as extremidades formando uma espécie de cone, e vai esculpindo acrescentando e retirando os excessos. Quando a imagem está semipronta com o panejamento e as vestes ele vai acrescentando os anjinhos,   e outros elementos integrantes da composição. Cada anjo é feito separadamente, e o santeiro ressaltou que “os anjinhos dão muito trabalho para fazer”. Também as mãos são colocadas depois,
O santeiro Rosalvo Santana exibe orgulhoso
mais uma nova imagem
.
   e deixa um pequeno furo nas cabeças de algumas  imagens porque se o cliente desejar colocar uma coroa ele pode adquirir pronta nas casas especializadas em trabalhar com metais preciosos ou encomendar a um ourives . Com a coroa de metal  ficará ainda mais diferenciada a  imagem do  santo de sua devoção. Às vezes Rosalvo Santana faz uma dezena de anjinhos e vai descansar, porque disse que  fica estressado por procurar ser fiel aos detalhes. O santeiro recebe encomenda de todo o país através as redes sociais e disse que despacha para fora dentro de uma embalagem de madeira garantindo assim que a obra chegue intacta na casa do cliente. Aqui em Salvador a entrega é feita por uma pessoa de sua confiança. Cada peça a depender do tamanho pesa entre cinco a oito quilos.

Outro detalhe interessante são as ferramentas que Rosalvo Santana utiliza na feitura de suas imagens entre elas as espátulas de vários formatos, estecas, rastelo, boleador e uma que me chamou a atenção foi o ferrão de arraia. Esta ferramenta é uma improvisação criativa do artista diante das dificuldades de encontrar na época que iniciou seu ofício na localidade onde reside a ferramenta

Rosalvo trabalhando com o ferrão 
de arraia para ultimar detalhes
.
 mais adaptada ao seu modo de esculpir alguns detalhes . Sabemos que ele mora numa região do município de Aratuípe, que dista cerca de 70 quilômetros de Salvador, e tem hoje perto de nove mil habitantes, onde a pesca artesanal é uma das principais atividades, e que por lá tem uma grande incidência de arraias. Para capturá-las os pescadores tradicionalmente utilizam uma ferramenta chamada ferrão de arraia. Isto levou Rosalvo Santana a esta improvisação do ferrão de arraia para sua atividade de santeiro. O artista disse que usou uma lixa e também cortou o ferrão de arraia e que utiliza para fazer as dobras do panejamento, os cabelos e as unhas, e serve também para o polimento das imagens. Finalmente, Rosalvo Santana utiliza uma pátina da cor do barro que serve, segundo informou, para dar um refinamento na imagem e cobre os poros do barro. Ele compra uma base acrílica mistura com água e faz a pátina mais clara ou mais escura. 

                                          HISTÓRIA

Antigamente os saveiros traziam os produtos agrícolas e utilitários do Recôncavo Baiano e daqui levavam os industrializados. As embarcações atracavam no cais do antigo Mercado Modelo que foi destruído completamente por um incêndio e

Cerâmicas chegam à Feira de São Joaquim
transportadas por saveiros
Fotos Google
em seguida suas ruinas foram demolidas dando lugar aquele espaço onde hoje está a escultura de Mário Cravo Junior. O velho mercado foi construído em 1912 e destruído pelo fogo em 1969. A partir de 2 de fevereiro de 1971, passou a ocupar o edifício da 3ª Alfândega de Salvador, uma construção de 1861 em estilo neoclássico tombada pelo patrimônio histórico. Também são ainda  descarregadas no cais próximo a antiga Feira de Água de Meninos, que também sofreu um grande incêndio em 1964. As cerâmicas produzidas às margens do rio Jaguaripe e seus afluentes vêm também em canoas. 
Existem registros que um oleiro de Maragogipinho chamado de Patrício encheu uma canoa de peças feitas por ele e foi até Nazaré das Farinhas expor e vender aproveitando o fluxo de pessoas durante a Semana Santa e desta forma surgiu a famosa Feira dos Caxixis. 
Eram peças utilitárias feitas ainda sem pinturas. “Os engobes reativos que são suspensões argilosas especiais, com adição de fritas que é um material vítreo usado na cerâmica, conhecido como frita cerâmica, que resulta da fusão de matérias-primas e é fundamental para esmaltes e vidrados, tornando-os mais seguros e com melhor acabamento , que reagem durante a queima para criar texturas, movimentos e cores únicas na cerâmica . Na região os oleiros usam também Tauá e tabatinga para ornamentar a maioria das peças. Mais recentemente foi criado o Festival do Artesanato em Aratuípe que já está na sua terceira edição, e que é realizado durante o mês de novembro, procurando atrair e incentivar esta atividade do município.

                                           EXPOSIÇÕES

Exposição Salão de Artesanato Raízes
Brasileiras, São Paulo, 2024.
Participou da II Feira da Produção de Itapagipe e da IlI Feira da Produção de Itapagipe promovidas pelo SEBRAE. Em .Em  1998  IV Bienal do Recôncavo - Centro Cultural Dannemann ; da Exposição no Mosteiro de São Bento – Salvador-BA; Exposição na ADA Galeria de Arte- Salvador – BA; Feira Baiana de Negócios da Chapada Norte-  FEBAN, Jacobina-BA; Exposição no  Instituto Mauá – Pelourinho. Salvador-BA. Em 1999 - Vencedor do Concurso de Presépio - IPAC/98 – 1º Prêmio; Exposição na Galeria Solar do Ferrão; Feira de Arte na Praça, EMTURSA, Salvador-BA. Em 2006 - Feira Internacional de Artesanato e Arte Popular -FENEART, Recife-PE.  2014 - Festival Artes do Sagrado – Salvador-BA; da Exposição Santeiros do Sagrado, Museu Palacete das Artes. 2017 - Participação do Documentário "Em Torno Dos Mestres" .2018 - Exposição Artesãos da Fé - Museu da Misericórdia, Salvador-BA. 2021- Exposição Igreja da 
Rosalvo e seu filho também ceramista
conhecido por Rosalvinho
.Foto Google
Graça, em Salvador-BA. Em 2023 - Primeiro Festival da Cerâmica Maragogipinho-BA; 
Exposição Arte dos Mestres - São Paulo. 2024 - Primeira Edição de Feira Nacional de Artesanato da Bahia- FENABA e da Feira de Santeiros do Nordeste - EMTURSA .
Coletivas Regionais: * Exposição Coletiva em Nazaré das Farinhas-BÀ; Exposição Coletiva em Cachoeira-BA e Exposição Coletiva em Santo Antônio de Jesus-BA. * Congresso Nacional de Cerâmica - Museu Alfredo Andersen-Curitiba-PR 2006. Oficina 12 - Rosalvo Santana. Tema: O Barro Princípio de um Caminho que Sempre se Solidifica.



 

 

 

 

 


 

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sábado, 20 de dezembro de 2025

NILA CARNEIRO E SEU MURALISMO CONTEMPORÂNEO

Nila Carneiro trabalhando no mural da mãe 
de santo Stella de Oxóssi, 2017.
A muralista baiana Nila Carneiro é dessas mulheres que aceitam desafios de subir em andaimes com mais de dez metros acima do solo e ficar horas e horas manejando o pincel e outras ferramentas para deixar numa parede de grandes dimensões a sua arte. Esta feirense vem se destacando como uma das principais artistas da arte urbana contemporânea não somente na Bahia, mas porque não dizer,  breve em todo o nosso país. Iniciou fazendo desenhos dos rostos dos parentes, vizinhos e amigos, e assim foi fortalecendo o seu dom de criar imagens que nos encantam pelo traço e as tonalidades que usa. Gosta também de pintar as flores e plantas porque segundo ela é a sua busca por representar “o feminino associado ao selvagem e conectado com os símbolos da natureza”. Nila é intensa e tem murais em ruas, lojas, creches, hospitais e muitas outras instituições com temas os mais diversos. O seu traço serve como um condutor de comunicação imediata com as pessoas que se deparam com um desses murais e param alguns segundos para olhar e examinar suas formas, suas cores e as mensagens que a artista deixou ali para serem decodificadas.

 Mural em homenagem a São Jorge no
Ogunjá com 1.800 metros , em 2021.
A artista é graduada em Design Industrial pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e além de muralista atua como designer e ilustradora. Sua arte é livre e carregada de significados o que podemos constatar em pequenos recortes onde ela se expressa nas redes sociais. Num deles escreveu:
“Há muitos anos deixei o teto da violência. Lembro da primeira vez que vi o mar aos dezenove  anos e respirei a leveza do que seria a minha desesperada liberdade. Chorei muito sem perceber que já́ era livre o suficiente pra demonstrar alguma fragilidade e foi um lindo encontro entre o mar de dentro e o mar de fora. Um lindo encontro de almas / águas salgadas.” Esta intensidade de sentimentos serve de energia para preencher grandes espaços com suas formas e criações fundamentadas na sua realidade feminina. Nila Carneiro faz uma arte livre e impregnada desses significados particulares com a sua aguçada percepção de mulher. Após pintar um mural representando a pele, que é o maior órgão do corpo humano, assim se expressou:Representar graficamente o maior órgão do nosso corpo é um desafio afetuoso. Olhar pra si mesmo e para o outro. Perceber e significar nossas diferenças, cicatrizes, variações de cor, a beleza de cada detalhe presas neste tempo/espaço. Significar esse invólucro intermediário entre o interno e o lado de fora e seus atravessamentos nos permite sentir o mundo e pertencer a ele.”
Conciliou sua carreira artística com a profissão de designer no Teatro Castro Alves, Funceb até recentemente . Foi de 2010 a 2019 Designer e Coordenadora de Design na Sede da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Funceb, entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, SecultBa, onde já produziu inúmeras peças gráficas, publicações, catálogos e ilustrações, marcando também sua trajetória no campo das artes da Bahia. Foi responsável, de 2013 a 2015, pela identidade visual e direção de arte do Lalá Multiespaço, espaço cultural multilinguagem localizado no Rio Vermelho, em Salvador.
Uma bela ilustração de Nila Carneiro.
 Em 2024, pintou um mural no prédio da Secretaria de Sustentabilidade e Resiliência de Salvador, Secis e criou a arte base do Festival Literário e Cultural de Feira de Santana, Flifs, sendo uma das homenageadas do evento. Foi convidada pela Brahma para criar um mural em homenagem ao Bar da Curva, em referência ao lançamento do filme O Auto da Compadecida II, em Campina Grande - PB. Também desenvolveu duas artes exclusivas para a Danone, indústria alimentícia em uma ativação de marca na Praia do Forte, na Bahia. Participou da campanha Só Havaianas  com o mural Caminho se Abre Andando, na Igreja da Penha, bairro da Ribeira, em Salvador. Em 2023, retratou Maria Odília — a primeira médica negra do Brasil — em quatro pinturas e um mural para a Escola de Saúde Pública da Bahia. Foi a primeira artista a ocupar o monumento Caixa D’água do Tomba, ícone de Feira de Santana, como parte do projeto Narrativas Visuais do SESC-BA, em uma residência artística. Integrou a comissão de Seleção dos Salões de Artes Visuais da Bahia e criou os murais KAO, para o fashion Film Cor de Pele / SPFW da marca Dendezeiro, e Mãe, uma pintura no apartamento onde moraram os pais do ator Lázaro Ramos, hoje o imóvel foi transformado numa ONG para acolher pessoas resgatadas do trabalho análogo à escravidão. Em 2022, participou da campanha Pinta a Rua, promovida pela Vivo, com ilustrações que viraram filtros interativos para celular. Em 2021, criou uma arte exclusiva para o YouTube Shorts, participou de uma ação mural para o Nubank durante o Afropunk Bahia e colaborou com a Adidas em uma intervenção artística na camisa Pride do Flamengo. Seu trabalho também teve projeção internacional: em 2019, foi convidada pela marca Ipanema para compor a coleção Ipanema Graffiti
Mulher entre as ervas na SECIS,
no Comércio
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Entre suas grandes obras em Salvador, destacam-se: Larissa Luz, no Dique do Tororó, parte do projeto City Forests da Converse All Star; em 2020 o mural São Jorge Protetor na Av. Ogunjá – maior mural do Nordeste, com 1.800m2. Em 2019 - Mulher Selvagem e Resiliente, no Comércio – para a Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência. Em 2018 o mural - Mãe Baía , no Baêa Sauipe Resorts, Costa do Sauipe;  Em 2017 - Grande Mãe na Creche Mãe Nildete, Alto de Coutos – campanha O Bem Inspira da Rede Bahia;  Mãe Stella de Oxóssi – O Nosso Tempo é Agora, no  Conselho Regional de Enfermagem da Bahia, Barris ; Em 2016 - Mulher - Natureza Selvagem, no Hospital da Mulher, Largo de Roma,  em parceria com Sista Katia;  Projeto Mural da Receita Federal, Salvador-BA; Mural Águas Fluviais na Nova Concha Acústica, do Teatro Castro Alves, Campo Grande, em parceria com Sista Kátia;  Oxum e a Cidade das Mulheres , no  prédio da Receita Federal, Comércio – parte do Projeto Mural. Em 2015, expôs no projeto Eyes of The Street em Londres. Em 2013, teve uma ilustração publicada no Calendar of Tales, uma parceria entre Neil Gaiman e Blackberry, e na revista Latidos Visuales – Las Mejores Ilustraciones Latinoamericanas 2013, sendo finalista do Prêmio de Ilustração Latino-Americana, em Palermo. Participou das edições do Circuito das Artes em 2013-2016, em Salvador e publicou ilustrações na editoria Mestres da Cultura do periódico Agenda Cultural Bahia entre 2010 e 2013. Ilustrou o livro Na Nossa Pele, Continuando a Conversa, autoria de Lázaro Ramos. Festa Oferendas do LáLá Multiespaço -2014 e 2013, Salvador-BA. Fez poucas exposições porque sua atividade  de muralista não lhe permitiu tempo disponível para realizá-las. Porém, algumas coletivas  marcam até o momento sua trajetória: Exposição Rítmos Visuais: uma jornada pela História da Micareme, no Sesc de Feira de Santana-Bahia e a Exposição Josephine Baker 50: Uma História de Ativismo, Engajamento e Resiliência por Nila Carneiro. Em 2013 - Expo Inverno Astral no Espaço Xisto Bahia-Salvador-BA. Em 2012 - Boutique Jezebel, Salvador-BA; Expo Súbita no Lalá Multiespaço Salvador-BA; Festival Internacional Vivadança, no Teatro Vila Velha, Salvador-BA.

                                              HISTÓRIA

Mural em Lauro de Freitas-BA , 2017.
A artista Nila Carneiro Almeida, este é o seu nome de batismo, nasceu em vinte e um de junho de 1983 na cidade de Feira de Santana, interior da Bahia, seu pai Wilson da Conceição Almeida e d. Alana Mabel Carneiro Almeida. Moravam no bairro de Sobradinho, próximo ao estádio de futebol Joia da Princesa. Estudou o primário da Escola Sítio do Pica-pau Amarelo, era uma escolinha de bairro, e o ginásio na Escola Cooperativa onde permaneceu durante um ano, e daí foi para o Colégio Visão, onde terminou os cursos ginasial e colegial. Sempre estudou em instituições particulares. Sua mãe além de cuidar da casa é bordadeira e trabalha fazendo peças da indumentária das pessoas ligadas ao candomblé. Ela borda Richelieu que é uma técnica “clássica e sofisticada de bordado vazado, originária da França, que cria desenhos recortando pedaços do tecido e contornando as bordas vazadas com pontos delicados, como o ponto caseado (picots), para formar desenhos de flores, folhas ou geométricos, resultando em um efeito de renda, tradicionalmente feito em branco sobre tecidos claros como linho e algodão.”  Lembrou que a mãe faz bordados de panos da Costa, chales, saias, blusas, roupas dos Orixás e toalhas de mesa. Desde criança ficava curiosa com a paciência dela de levar alguns meses para concluir o bordado de uma colcha ou de uma toalha de mesa. A d. Alana é uma exímia bordadeira a ponto de seus bordados serem usados por filhas , mães e pais de santo de Cachoeira, Salvador e Feira de Santana. Observando o trabalho minucioso de sua mãe a Nila Carneiro sempre procurava fazer seus desenhos e foi assim que passou a desenhar rostos de parentes e amigos. Foi tomando gosto e decidiu em 2002 prestar vestibular para Desenho Industrial, 
Mural em preto e branco, e sua expressividade
continua firme!
na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e na EBA teve uma relação muito proveitosa com colegas  de outros cursos. Disse que passou a trocar ideias e até às vezes  assistir aulas de  disciplinas  e foi percebendo que era muito mais feliz desenvolvendo a sua arte do que trabalhando como design. Depois de formada ainda passou mais de uma década atuando como design gráfico fazendo catálogos de arte, avaliava marcas e todos os materiais gráficos eram feitos ou avaliados por ela. Durante esses treze anos ela disse que chegou um momento que  não mais  se adaptou às mudanças de gestão e foi obrigada a fazer exclusivamente a sua arte. Atualmente está dividida entre seu ateliê em Feira de Santana, onde tem mais espaço, para trabalhar com telas maiores, além da convivência com seus familiares. Aqui ela reside num apartamento no bairro de Amaralina. Está preparando sua primeira exposição individual. Informou  que a razão de ter até agora realizado poucas exposições coletivas e nenhuma individual  é porque esteve estes anos  trabalhando regularmente, cumprindo horários e que agora chegou a hora. Hoje considera que  já tem um repertório individual para realizar sua exposição com obras que lhe satisfaçam. Já pintou algumas telas em grandes formatos e está entusiasmada com o resultado.

Mural da Coleção Cor de Pele , 2023.
Os murais quase  sempre são  encomendados por pessoas ou instituições e geralmente fazem
homenagens a grandes nomes da nossa cultura. Agora se acha pronta para galgar mais este degrau e vem trabalhando com intensidade e satisfação. . Revelou estar se "empenhando muito, estou pronta para me expor.” Quando pronunciou esta frase que agora está pronta para se expor eu retruquei. Ora, você para mim está pronta desde que fez o primeiro mural numa rua e se expôs no momento em que começou a pintar esse mural, e também durante vinte e quatro horas   sua obra está ali exposta ao público. Nila Carneiro riu e respondeu dizendo que “os murais são encomendas de pessoas ou instituições, muitas vezes são retratos de orixás e outros personagens ligados à nossa cultura. Sei que a criação é minha, é verdade, mas tem alguns limites. Enquanto  pinto as telas eu me sinto mais livre porque todo o processo está em minhas mãos, não se trata de uma encomenda.” Ela fez seu primeiro mural numa casa de Ricardo Dantas, que residia no bairro do Rio Vermelho em Salvador-BA e foi uma Iemanjá.
Mural no resort na Costa do Sauipe,
 Mata de São João, Bahia.
Como acontece com muitos murais este também de autoria de Nila Carneiro desapareceu, porque o seu amigo meses depois mudou para um novo  endereço. Gosta de pintar mais as mulheres, e sempre conhecidas da nossa cultura e também do seu imaginário. "São pessoas que não existem e são mulheres em lugares de poder. Como sou do interior passei algum tempo tendo dificuldade de conseguir os conhecimentos que procurava.” Ela acha que está trabalhando dentro desta sua visão. 
 Disse  quando ela e outras mulheres saem às ruas parece que os homens acham que  não deveriam estar ali e que sofre de quando em vez algum assédio. Suas obras discutem estas questões. "Meus trabalhos que estou pintando  agora são mais abstratos e trago estas mulheres para todos estes lugares, tentando quebrar paradigmas. Ainda estou em processo de criar minhas obras da exposição e também vou expor meus bordados. São telas de 2m x1m e de 1m x 1m. Faço também obras em mini telas". Portanto, ela vai da mini tela a murais de dezenas de metros. Vai expor primeiro no Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana, a terra onde nasceu, e depois pretende expor em Salvador. Quando falei do mercado Nila Carneiro  respondeu que é "galerista de si mesma, e que não lhe desperta muito interesse pelo mercado de arte e porque não se imagina inserida nele". Recebe as propostas para realizar os murais através de indicações ou mesmo porque o cliente viu algum mural de sua autoria e gostou, e entra em contato através as redes sociais. Recebe a maioria das propostas por e-mail e por mensagens de WhatsApp . Ultimamente disse que tem procurado de quando em vez pesquisar, questionando como funciona e se algum dia vai ou não se inserir neste mercado muito competitivo.