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sábado, 10 de janeiro de 2026

TÁRCIOV E O REFINAMENTO DO GRAFITTI URBANO

O artista TárcioV ultimando uma obra de um 
cangaceiro em seu ateliê.
O artista TárcioV é conhecido como um dos grafiteiros da cena urbana de Salvador, e suas incursões estão espalhadas em vários pontos da cidade. As imagens chamam a atenção dos que passam, e se dispõem a perder alguns segundos olhando e refletindo sobre suas mensagens. O desenho é de qualidade e a gestualidade surge como um elemento determinante da liberdade de criação. Vemos na sua arte a presença da figura humana, animais e elementos da cultura popular, principalmente das religiões afro-brasileiras. Quando falamos em grafitti nos reportamos às grandes metrópoles como Nova Iorque, São Paulo, Berlim e Londres que têm suas paredes, especialmente muros e prédios abandonados utilizados como suportes para esta arte urbana que trás no seu conteúdo o protesto de jovens que muitas vezes estiveram à margem desta sociedade consumista. Atualmente o grafitti está nas grandes e médias galerias em todo o mundo e alguns deles são consagrados como grandes artistas a exemplo de Jean-Michel Basquiat, que foi um grafiteiro e artista plástico neoexpressionista americano icônico, famoso por seu pseudônimo Samo, que iniciou sua fama nas ruas de Nova York nos anos 70. No Brasil temos o Kobra e Os Gêmeos - Gustavo e Otávio Pandolfo - , que são os mais famosos com obras em várias partes do Planeta. Aqui na Bahia destaco o TárcioV, a Rebeca, que tem um traço que lembra Os Gêmeos, Samuca, Denissena, Afro, dentre outros. Cada um com sua expertise e características que deixam marcados nos locais mais visíveis possíveis para que sua arte seja apreciada democraticamente por todos que transitem pelas ruas.
O mural de  mil metros quadrados ocupa três 
laterais de prédios na Rua da Misericórdia
.

A grande maioria dos grafiteiros provém das periferias das grandes cidades e muitos deles começam pichando prédios abandonados e muros esquecidos, e eles se diferenciam dos pichadores  e têm códigos de conduta distintos.  O grafitti é uma arte visual mais bem elaborada e muitas vezes seus autores são autorizados a fazer os grafitis e até mesmo remunerados por seu trabalho. Cito o TárcioV que tem um belo grafitti mostrando baianas e pescadores  da nossa terra e foi pintado para o evento Casas Conceito 2025 que ocupou  quatro prédios, sendo que  três são  tombados pelo IPHAN– totalizando 5.300m², com a participação de 30 escritórios de arquitetura e mais de 40 profissionais  das áreas de design, paisagismo, iluminação e arte, localizados  no Centro Histórico de Salvador. 
Foi exatamente este grafitti que me chamou a atenção e tomei a iniciativa de procurar o artista para esta nossa conversa. Lembrou que durante a pandemia fez um grande mural no edifício Carlos Chiacchio, no Comércio, onde  pintou um pescador em pé olhando para a Baía de Todos os Santos. Ele considera um marco importante na sua trajetória e deu o nome “Um Pescador da Cidade Velha”, e fica próximo ao Mercado Modelo. Pintou em 2022 e tem trinta e dois metros. É a representação de seu orixá Logum Edé, e como no contrato está especificado que não podia fazer alusão a qualquer símbolo ligado a religiosidade ele criou este personagem do pescador.
O mural O Pescador na lateral de 
prédio no Comércio, Salvador.
Já a pichação é focada na escrita com letras e símbolos, muitas vezes difíceis de serem decifrados pelo cidadão comum e funciona como se fosse um alfabeto próprio que é usado entre os pichadores. Esses pichadores não são autorizados a pichar, e sua atividade é considerada ilegal como um ato de vandalismo e sem valor artístico. Este movimento não vem apenas da periferia e está presente nos viadutos e em prédios abandonados, em nossas universidades principalmente as estatais, tanto nas estaduais como nas federais que estão completamente pichadas não só suas fachadas como também as paredes internas. Aqui em Salvador por exemplo tem o pichador Panthro , cujo nome é inspirado num personagem das histórias em quadrinhos. O Panthro era um general no reino de Thundera e grande amigo do Rei Claudus. O pichador baiano   tem por característica pichar em locais altos, usando rapel para alcançar cada vez mais altura. 

                                                  QUEM É

Intervenção numa barraca de amigo na
ilha de Maré
.
O artista TárcioV é natural de Salvador onde nasceu em treze de abril de 1987 no Hospital da Sagrada Família e foi batizado como Tárcio Renan Vasconcelos Moreira, filho de José Domingues Moreira e d. Virginia Maria Vasconcelos Moreira. Cresceu no bairro de Castelo Branco e como a maioria das crianças da sua geração teve uma infância repleta de atividades brincantes jogando peladas, trepando em árvores em busca de frutos, tomando banho na chuva e na Bica, que era uma pequena queda d’água que existia no bairro antes do riacho se transformar num esgoto a céu aberto, graças a inoperância da empresa responsável pelo fornecimento de água e do esgotamento sanitário dos governos que se sucederam desde àquela época. Lembrou que sempre que chovia aparecia um animal silvestre como teiú, cobra e até preguiça. Fez o primário na Escola Bosque Encantando, o ginásio da Escola Adventista do Sétimo Dia, e o colegial no Colégio Santa Clara do Desterro, no bairro de Nazaré. Desde jovem que passou a grafitar nas ruas de Salvador, juntamente com vários amigos. Resolveu fazer o vestibular para Licenciatura em Desenho para Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e tinha vontade de ensinar. Porém, não frequentou 
Mural num paredão no bairro de Baixa de
Quintas, Salvador.
normalmente as aulas entre os anos de 2006 a 2011, até que não mais apareceu para concluir o curso. 
Quando indaguei a razão de ter desistido de continuar estudando na EBA foi enigmático e respondeu que “não me formei, mas me informei. A minha escola vem do grafitti e paralelamente sempre gostei de ilustrar. Sou muito grato a meus pais que me deram uma boa educação e lá em casa tinha uma estante com alguns livros que ficava no quarto do meu irmão mais velho. Eu sempre pegava para ler e ver as ilustrações. Desde 2003 que comecei a participar do movimento de grafitagem e fiz meu primeiro grafitti em 2004, no bairro de Castelo Branco. Eu mostrei para a turma de grafiteiros que existia em Castelo Branco entre eles o Lee 27, Verme, Tiau e eles gostaram e disseram “Isto cabe na rua”, foi aí que decidiu grafitar. Esses caras andavam de skates, usavam roupas bem largas, eram tatuados e os jovens do bairro ficavam admirados da vida que eles levavam." Neste interim seus  pais sempre lhes orientaram para buscar uma atividade que lhe
O TárcioV pintou este Mural na fachada da
Casa de Yemanjá, no Rio Vermelho, 2025. 
garantisse uma sobrevivência digna. Foi aí que o TárcioV foi fazer o curso de Design Gráfico, na Real Dados, que funcionava na Avenida Joana Angélica, onde aprendeu a usar os programas CorelDraw e Photoshop.  Um colega do bairro que trabalhava numa confecção que fazia serigrafia disse que os seus desenhos davam para fazer camisetas e outras peças de vestuário. Foi assim que  conheceu o empresário que tinha uma confecção chamada Vents Camiseta, localizada na Avenida Vasco da Gama. Ele viu os desenhos e concordou que ele passasse a fazer as ilustrações para serem utilizadas nas camisetas e materiais do surf que ele fabricava. Foi trabalhar de início como estagiário do colega que lhe indicou na confecção que fazia basicamente moda praia, e depois o TárcioV passou a desenhar e criar estampas diariamente. A confecção tinha um banco de dados de pranchas, camisetas, pontos turísticos, animais marinhos e muitos outros objetos de moda praia e ele trabalhava com essas imagens integrando com as ilustrações que  criava.

Capa do livro ilustrado 
pelo artista TárcioV.
Disse o artista que certo dia chegou uma demanda da rede Globo que estava gravando a série Canto da Sereia, com a atriz Isis Valverde, em Salvador.  Como não era um serviço  remunerado alguns colegas ilustradores da confecção não quiseram fazer foi então que o TárcioV resolveu criar duas ilustrações usando uma caneta Bic para escanear no dia seguinte. Pensou que não seriam aceitas, mas ao  retornar para trabalhar o dono da confecção gostou, mandou escanear e entregou as camisetas aos produtores da série Canto da Sereia. O pessoal também aprovou e assim as imagens do ator vestido na camiseta “bombou muito nas redes sociais”, disse TárcioV. A série  estreou em janeiro de 2013, e a arte criada por por ele  apareceu no último episódio . O personagem do ator João Miguel usou uma camiseta com a estampa de Yemanjá. Era a primeira vez que seu nome ganhou algum destaque. Foi aí que os cantores Carlinhos Brown e Saulo também vestiram as camisetas com a estampa, e Bel Marques , do Chiclete com Banana , gravou parte de um dvd usando também uma dessas camisetas com suas ilustrações de Yemanjá. 
Foi então que várias marcas de confecção de Salvador passaram a lhe procurar para fazer estampas para suas peças. Fez muitas ilustrações de Orixás, “e na época eu não era ligado ao candomblé. Atualmente TárcioV  é Ogan de Oxum e seu santo é Logun Edé que é o orixá da riqueza, fartura, beleza e transformação, filho de Oxum e Oxóssi, que habita os rios e as matas.
 Diante desta divulgação um empresário da marca Armadillo, chamado Ricardo Gonzalez, lhe convidou dizendo que ele precisava expandir seus horizontes e foi para o Rio de Janeiro no ano 2012 onde  passou a ser assistente do empresário. Lá conheceu muitos artistas, grafiteiros que era fã, frequentou o Parque Lage e desenhou com modelo ao vivo. Depois de um ano decidiu voltar porque precisava fazer uma cirurgia no joelho.
Mural na ala de desembarque do aeroporto  
de Salvador.
Já recuperado recebeu o convite de sua amiga Rose Andrade para participar de um estúdio de ilustração para publicidade que ela estava montando em São Paulo. Trabalhou durante um anona  e depois pediu para sair, e foi viver de sua arte grafitando e ilustrando permanecendo  um ano na capital paulista. Fez um grafitti na famosa Rua 23 de Março. Ficou sem grana e retornou “para a casa de mamãe  no bairro do Castelo Branco”. Conheceu a atual esposa casou e hoje é pai de um casal de crianças. Tinha muitos clientes free lancer e trabalhou muito criando ilustrações de tartarugas e baleias jubartes para o Projeto Tamar e assim vem tocando a vida. Atualmente está focado em desenvolver o seu trabalho autoral, com narrativas próprias e expressar coisas que deseja falar e mostrar. Disse que está engatinhando porque sabe que é difícil vender seu próprio peixe. "Estou me familiarizando com os contatos de galerias, estudando esta pegada de contrato, selo de certificação e outros elementos do atual mercado de arte." Não tem ainda uma galeria que lhe represente, e segundo ele alguns contratos são restritivos. Mas, está estudando e deve escolher alguma para lhe representar.

Este mural está no Beco de Ana Bundão ,
no bairro do Santo Antônio
.
 Outro mural que tem especial atenção é um que fez na fachada na Casa de Yemanjá no bairro do Rio Vermelho. Embora não seja um mural grande é um dos seus preferidos. O último foi o que fez para o evento  Casas Conceito na Rua da Misericórdia, no Centro Histórico de Salvador, que tem mil metros e ocupa a fachada lateral de três prédios e foi concebido durante dezessete dias. Falou das críticas que vem sofrendo por parte de pessoas. 
Também sente orgulho do mural que pintou no Beco de Ana Bundão , no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, no Centro Histórico de Salvador . Ele fez este  mural acima com a imagem de Santo Antônio que também é muito apreciado pelas pessoas que já tiveram a oportunidade de conhecer.

 EXPOSIÇÕES E MURAIS

Em 2004 - Inicia seus primeiros grafittis e murais nas ruas de Salvador. 2005 - Frequenta as oficinas do Mam-Bahia tomando aulas no curso Serigrafia em papel. 2006 - Ingressa no curso de Desenho e Plástica Escola de Belas Artes pela Universidade Federal da Bahia. 2008 - Exposição Coletiva Graffiti Salvador na Caixa cultural Salvador- BA. 2009 - Exposição Coletiva Bienal da Une Salvador- Ba. 2011 - Exposição coletiva Sinais Urbanos no Centro Cultural dos

Correios, Salvador- BA. 2012 - Desenvolve ilustrações para Jornal A Tarde e Marcas do segmento de moda Salvador, Rio de janeiro e São Paulo. 2013 - Muda-se para o Rio de Janeiro onde trabalha como Designer de estampas para marca de moda masculina Armadillo-Rio. 2014 - Muda-se para São Paulo; Artista convidado, Pimp My Carroça, Virada Cultural São Paulo; Exposição de Artistas Brasileiros, México 70, Cidade do México; Participa do mural coletivo Grande Area em Salvador, projeto contemplado através da Funarte Minc. Curadoria Xico Chaves. 2015 - Participa e promove feiras de arte e exposições coletivas em locais não convencionais em Salvador- BA; Projeto fachada loja El Cabriton São Paulo. 2016 - Desenvolve murais Coletivos e graffitis em Salvador-BA. 2017- Exposição Individual Avamunha, Bar e Galeria Oliveiras; Ministra aulas de Graffiti Paisagem Sonora, Santo Amaro-BA; 2018 - Oficina de Graffiti Uneb, Euclides da Cunha- BA; Campanha o Bem Inspira, Tv Bahia. 2019
TárcioV pintando mural na cidade de Feira 
de Santana, Bahia.
- Ilustração para capa de Livro Colonização e Quilombos; Participa do projeto Fabrica de Grafitti, edição Feira de Santana-BA; Customizações de Objetos Cênicos para o Programa Caldeirão do Hulk. Rede Globo. Rio de Janeiro.
2020 - Vive e trabalha de modo recluso e remoto em virtude do período pandêmico. 2021 - Mural em fachada de Edifício, Carlos Kiaph, Virada Sustentável Salvador. Trevo Produções. 2021- Ilustrações para vídeo Clipe Oloxá a Cura, Luedji Luna e Ministério Público; Ilustrações de capa e miolo para livro Xirê Epistemológico. Curadoria Cristiano Santana Rio de Janeiro-RJ. 2022 - Pintura Mural para Casa Mar, crow work de arte, Salvador-BA; Pintura Mural para fachada Casa da Mãe, Salvador-BA; Painel Interno Mural Tv Aratu, Salvador-BA; Artista selecionado para executar pintura Mural CCR Metrô Bahia. 2023 - Exposição Individual Navegantes, curadoria Yellow Frog Galery, Salvador- BA; mural interno para Restaurante Amalá, Salvador-Ba; Ilustrações de capa e miolo para Livro Escrevivências Poéticas. Secretaria de Educação. 2025 – Pinta o mural com uns mil metros quadrados ocupando as laterais de quatro prédios na Rua da Misericórdia, integrando o evento Casas Conceito.

 

 

 


sábado, 3 de janeiro de 2026

DANIEL FREIRE E SUA ARTE FOCADA EM SENTIMENTOS PROFUNDOS

O artista Daniel Freire pintando em seu ateliê .
De Barcelona, Espanha  - 
O artista Daniel Freire é pintor figurativo, ilustrador de jornais e livros, atualmente desenvolve experimentos com a fotografia. Sua pintura traduz a solidão e a individualidade  presentes nas cidades modernas. Com sua câmera ele costuma fotografar pessoas anônimas nas ruas, praças, bares e no metrô em outros locais públicos.  Essas fotos são de   personagens  quase sempre expressando melancolia, tristeza e solidão. Além de ser técnico especializado no conserto de máquinas fotográficas analógicas, e o seu uso está se transformando numa tendência na Europa e em outros continentes. É baiano de Salvador, formado em Artes Plásticas, pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Cofundador e coeditor da revista de arte Boardilla, Brasil, Espanha e Itália. Tem obras em coleções particulares e acervos no Brasil, Itália, Espanha, Suécia, Estados Unidos, Suíça, Etiópia, França e Japão. Mora em Barcelona, na Espanha, onde tem seu ateliê e já realizou algumas exposições individuais e coletivas. Nossa conversa aconteceu através chamada de vídeo e mensagens pelo WhatsApp.

Quatro obras bem expressivas de Daniel Freire.
Seu nome de batismo é Daniel Freire Figueiredo, nasceu em nove de julho de 1974 em Salvador. Seus pais Altino José Figueiredo , médico psiquiatra e sua mãe d. Nadja Freire Figueiredo é psicóloga. Moravam no bairro do Stiep e depois se mudaram para o bairro do Itaigara,ambos na capital baiana. Estudou o primário nas Escolas Júnior Sociedade Civil Limitada, que funcionava no Costa Azul e depois na Girassol, no Itaigara.  Também durante sua infância teve aulas de pintura com o professor da Escola de Belas Artes da UFBA, no Atelier de Luiz Mário Costa Freire , e já adolescente com Gabriel Lopes Pontes. Em seguida a família decidiu ir morar numa fazenda entre os municípios de Alagoinhas e Araçás. Estudou o ginásio e o colegial no Colégio Dínamo, em Alagoinhas, que é uma instituição de ensino tradicional, fundada em 1976, e oferece desde a educação infantil ao ensino médio. Em 1993 fez o vestibular para a Escola de Belas Artes. Chegou a dividir um ateliê com os artistas Anderson Santos e Elias Santos, na Ladeira dos Aflitos e passou a ilustrar algumas reportagens no jornal Correio da Bahia. Em 1996 decidiu ir residir em São Paulo, onde permaneceu cerca de um ano e meio estudando pintura a óleo e modelagem. Lá estudou com o artista e professor José Antônio Van Acker, natural de São Paulo, capital, onde nasceu em 1931 e faleceu no ano 2000.  Era pintor, desenhista, gravador, escultor e professor. Cursou a Escola de Belas Artes de São Paulo entre 1951 e 1954. Ministrou cursos livres de apreciação artística, história da arte, escultura: modelagem em argila e talha em madeira e pedra, pintura e desenho em seu ateliê, a partir de 1969. Na década de 70, torna-se professor de escultura na Faculdade Santa Marcelina e de desenho, pintura, escultura e apreciação artística no Ateliê Arte Viva. Foi uma bela experiência estudar com Van Acker.

Daniel gosta de fotos PB. O artista
pintando no seu ateliê em Barcelona.
O artista Daniel Freire volta para Salvador e conclui o seu curso na Escola de Belas Artes e já começou a alimentar a ideia de ir morar em Barcelona, na Espanha, imaginando como todo jovem que as coisas seriam mais fáceis na Europa. Mas, na realidade não é isto que acontece em Barcelona, que pertence a região da Catalunha, os catalães são  conscientes de sua nacionalidade e territorialidade. Sabemos que a Catalunha  é uma comunidade autônoma da Espanha  localizada na extremidade leste da Península Ibérica. É designada como uma nacionalidade e pelo seu Estatuto de Autonomia, e  é composta por quatro províncias: Barcelona​​GironaLérida e Tarragona. “A capital e a maior cidade é Barcelona, ​​o segundo município mais povoado de Espanha e a quinta área urbana mais populosa da União Europeia.” Existe lá até um movimento radical contra a presença de turistas, que são tantos, que essas pessoas chegam a molestá-los. O artista Daniel Freire está adaptado com os costumes e a vida em Barcelona onde ele de quando em vez participa de exposições coletivas e até já realizou algumas individuais. Trabalha numa empresa alguns dias na semana consertando máquinas fotográficas analógicas, e tem também sua oficina para realizar esses consertos. É o chamado plano B que a maioria dos artistas é obrigado a exercer para ter uma sobrevivência digna, e assim poder fazer a sua arte com liberdade e tranquilidade.

Obra Alex I, óleo sobre tela , 2003.
Na Universidade de Barcelona-UB frequentou o Curso de Belas Artes durante um ano de 2004-2005, e elogiou as boas instalações da universidade, mas que não teve um aprendizado como esperava. Destacou apenas as aulas de gravura da professora Ana Vives, e também o custo era de 500 euros semestrais. Ele queria pintar com tinta óleo, mas o professor de pintura preferia a tinta acrílica por causa do cheiro. Disse Daniel Freire que não entendia esta implicância do professor porque a sala de pintura tinha exaustor e o cheiro da tinta quase não se percebia. Também disse que na Europa existem muitas galerias e locais onde o artista tem que pagar para expor. Se você não é um artista conhecido do mercado onde a exposição será realizada normalmente não dá um retorno que justifique pagar para expor.

O crítico de arte espanhol Ramon Casalé, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, ao analisar a pintura de Daniel Freire escreveu que "a solidão e a falta de afeto aparecem refletidas com rigor na pintura de Daniel Freire de uma

Obra Elias , óleo sobre tela , 2002-2003.
perspectiva figurativa, que chamaria de realismo ambiental”, nos mostra o comportamento de personagens preocupados e entediados que podem ser encontrados em um bar ou cafeteria de qualquer cidade. Eles parecem estar meditando ou pensando em seus problemas, com um cigarro na boca, tomando uma bebida ou apenas descansando os braços na mesa com os olhos fechados. Se observarmos a pintura de Daniel Freire nos evoca cenas costumbristas e intimistas de Hooper ou mesmo as arrogantes e expressivas de Freud. O realismo dos retratos e dos interiores combinam perfeitamente com o hiper-realismo das naturezas-mortas, em que os objetos do cotidiano - sapatos, copos, chapéus - são seus principais protagonistas. Seja de uma forma ou de outra, Daniel Freire nos aproxima de um ambiente em que o silêncio e a solidão só são quebrados pelo barulho dos passos ao descer algumas escadas, pelo tilintar dos copos ao bater-se ou pelas vozes das pessoas”

Obra da série Rostos da Bahia.
Os costumbristas que escreve o Casalé refere-se ao "costumbrismo que é a interpretação literária ou pictórica da vida cotidiana, maneirismos e costumes locais, principalmente no cenário hispânico e, particularmente , no século XIX". Citou  também de Hooper se referindo ao pintor "americano Edward Hooper (1882 -1967) foi um pintor , artista gráfico e ilustrador norte-americano conhecido por suas misteriosas pinturas de representações realistas da solidão na contemporaneidade." Já quando fala de Freud trata-se do pintor  Lucian Freud (1922-2011), neto do psicanalista Sigmund Freud, um renomado artista britânico focado em arte figurativa, conhecido por seus retratos e nus de intenso realismo psicológico, muitas vezes desconfortáveis e reveladores da condição humana, usando técnicas como empasto pesado para explorar a carne e a experiência subjetiva, mesmo em um período dominado pela arte abstrata."(Wikipédia)

O próprio Daniel Freire me informou que gosta de fotografar pessoas anônimas, muitas vezes sem elas perceberem na sua solidão, na sua individualidade numa

Obra Sapatos e Chapéu, 2002.
praça e em outros locais públicos e trabalha esta figura humana dentro da concepção do seu fazer artístico. Ele mesmo me deu a impressão de personificar uma dessas figuras que o Ramon Casalé magistralmente captou. O artista se exilou espontaneamente deixando o seu país para trás e foi para uma cidade onde pulsa a arte, e que é diariamente invadida por milhares de turistas de todo o mundo. Aí deve ter enfrentado muitos perrengues e com certeza de quando em vez se depara com dificuldades porque se é difícil a gente viver em nosso país, imagine em outro, e numa cidade catalã, onde seu povo há anos luta por independência, tem seu idioma próprio, e é muito territorialista. No entanto o artista  Daniel Freire disse que gosta de morar em Barcelona e assim vem construindo e fortalecendo seus laços de amizades e profissionais para tocar a sua vida com mais tranquilidade e conforto pessoal. 

                          EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Em 2025 - Exposição Corpo Cidadão, um recorte sobre o tema corpo do acervo do MAC,Museu de Arte Contemporânea da Bahia, obra “A Alegria de Cam” adquirida para o acervo do museu.  2023 – Ramas, Exposição individual de pintura, desenho e gravuras na Sala de exposições da Asociación Ô Diluvi, Barcelona -Espanha. 2021 - Metropolis Film Exhibition , Exposição coletiva de Fotografia, Lomography Embassy Barcelona, Espanha. 2020 - Comité Invisible, Exposição Coletiva Estudio

Obra da Série Joaquim de Prada IV ,
óleo sobre papel, inacabado,2025.
 
55, Barcelona – Espanha. 2019 - The XPan doesn't fit in my pocket, Exposição Coletiva de Fotografia. Lomography Embassy Barcelona-Espanha. 2018 - Artistes VAC’ 18, Exposição Coletiva, Sala d’Exposiciones Torre del Baró, Viladecans- Espanha Exposição Ahora somos 4, coletiva e inauguração del novo atelier em Barcelona C/ Martí, 55, térreo – Barcelona – Espanha. 2014 – Matéria e Memória, Exposição Coletiva e lançamento da Revista Boardilla, Centro Cultural Casa Elizalde – Barcelona – Espanha. 2012 - Barcelona 12 anos. Exposição individual de pintura. LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha. 2011 - Cinc Cèntims, Mostra coletiva de pintura, escultura e fotografia, LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha; Odiseas” - Barcelona: Muchas Islas. Un viaje por concluir, retrospectiva de 10 anos de pintura; Exposição individual de pintura. Berheads espai d’art – Barcelona-Espanha; Ítacas - Retrospectiva 10 anos de pintura em Barcelona-Espanha e Exposição individual de pintura. Lletraferit espai d’art – Barcelona-Espanha. 2010 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística; Exposição individual de pintura. Salvador - Bahia - Brasil. 2008 - Expo em Casa. Exposição individual. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona-Espanha; In Vino Veritas, Exposição Coletiva Interativa. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona – Espanha. 2006 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística em Barcelona, Exposição de obra pictórica e gráfica em Barcelona; Prêmio de Pintura Jovem da Galeria Sala Parés - Banco de Sabadell, Barcelona-Espanha; Cinco obras 
Obra A Alegria de Cam, pertence ao acervo do
Museu de Arte Contemporânea da Bahia,2025.
selecionadas, expostas na Sala Parés e publicadas em catálogo.  2005 - Prêmio Laus 05, Barcelona, Obra selecionada, exposta e publicada em catálogo. Galeria Iris, Barcelona-Espanha ;  Exposição Coletiva,  Seis selecionados para o acervo de arte da Galeria Yanko Zapatos, Barcelona-Espanha. Durante um ano e três meses reproduz em tela as coleções da marca, ademais produz desenhos e ilustrações para campanhas da empresa junto com a agencia S.C.P.F. Os quadros realizados nesse período são expostos em Barcelona, Madrid, Valencia, Tokio e Shanghai; Publicação de um dos quadros na revista Telva, no 789 – Janero.  2004-2005 -  Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. Exposições Coletivas da Galeria; 2003 -  Grand Hotel Baglioni - 35 anos da Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. - Exposição e evento comemorativo dos 35 anos da Galeria.  2002 - Gallerie Engelskirchen, Colônia – Alemanha, Exposição Coletiva, Untitled ;  Siena Espai d’Art, Ciutadella - Menorca. 2001 e 2002 - Exposição Coletiva e acervo artístico. TallerGaleria, Barcelona. Exposições Coletivas e acervo artístico. 1996 - Centro Cultural Brasil-Estados Unidos Exposição Coletiva, Untitled); Galeria da Escola de Bllas Artes da Bahía. Exposição individual.  1994 - Centro Cultural Casa do Benin, Exposição Coletiva, Undecaegos.1992 - Aliança Francesa Exposição Coletiva, Histórias em Quadrinhos. 
Esta obra acima de Daniel Freire A Alegria de Cam é uma releitura da pintura A Redenção de Cam que pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foi pintada em 1895 pelo pintor espanhol Modesto Brocos ( 1852-1936) e é considerada uma pintura racista. Contam os historidores de arte que a pintura foi feita logo após a abolição da escravidão e da proclamação da República no Brasil. É de conhecimento de todos que na busca pelo desenvolvimento naquela época o Brasil adotava uma política chamada de Europa branca como referência, embora nossa população nada tinha de semelhança com a européia. Já o título da obra nos remete aos princípios biblícos da maldição de Noé sobre seu filho Cam . Noé dormiu embriagado de vinho e Cam expôs a nudez do pai aos irmãos como zombaria. Ao acordar, o pai então amaldiçoou Cam, a ser “servo dos servos”. Há inclusive versões que descrevem Canaã e os descendentes de Cam como negros.

FORMAÇÃO

Nego Fugido, Caretas de Acupe, distrito
de Santo Amaro da Purificação, Bahia.
Escuela de Bellas Artes na Universidad de Barcelona – UB, Artes Plásticas. Barcelona - Espanha. 2004 – 2005De 2000 a 2001 - La Llotja. Curso monográfico de desenho e pintura. Barcelona - Espanha.1999 - Museu de Arte Moderna da Bahía. Prof. Antonello Labatti. Gravura em Metal. Nível 1 e 2. Bahia - Brasil. De 1997 a 1998 - Atelier do mestre J. Van Acker. Modelado, desenho e pintura. São Paulo - Brasil;  Studio de Fotografia Wladimir Rómulo Fontes. Fotografia básica e laboratório inicial. São Paulo - Brasil. De 1996-1997 - Escola Professor Edson Barbosa. Classes de perspectiva, desenho técnico e estrutural. Bahia - Brasil. De 1993- 1997 - Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahía. Artes plásticas. Bahia - Brasil. De 1987 a 1989 - Studio Claroscuro. Classes de desenho, serigrafia, aerografia, pintura e desenho de comics. Bahia - Brasil. Desde os anos 90 trabalha com a fotografia analógica e processos experimentais. É um trabalho desenvolvido paralelamente ao da pintura.


sábado, 27 de dezembro de 2025

ROSALVO SANTANA O SANTEIRO DE MARAGOGIPINHO

 Rosalvo Santana esculpindo
 imagem de São José de 1,30cm
.
O santeiro Rosalvo  Santana é filho de um oleiro de Maragogipinho conhecido como Mestre Roxinho que passou anos e anos fazendo peças utilitárias de cerâmica. Ele nasceu em vinte e quatro de abril de 1964 e desde criança que esta atividade está presente em sua vida, mas seus pais tentaram desviá-lo para que abraçasse outra atividade mais lucrativa e que lhe garantisse uma sobrevivência tranquila. Foi assim que resolveram colocar para estudar. Fez o primário na Escola Municipal Joana Angélica, o ginásio e o curso de Contabilidade no Colégio Estadual Professor Rocha Pita, em Aratuípe. Lembrou que ia para a escola de canoa, bicicleta e até a pé, e que foi uma época muito difícil. Acontece que a arte da cerâmica já estava entranhada em sua vida e aqueles bois e bonequinhos que fazia na infância nunca saíram de sua mente. É verdade que não passava muito tempo ao lado dos pais na olaria porque no processo de produção de peças vidradas é utilizado o chumbo, que ao entrar em contato com o fogo exala uma fumaça tóxica . Seus pais Amiordes Santana e Maria das Dores Araújo procuravam evitar a presença do filho neste ambiente para preservar a sua saúde. De nada adiantou e o Rosalvo Santana decidiu que iria trabalhar com o barro. Em 1990 ao completar dezoito anos veio à Salvador para dar um curso de modelagem no barro de peças utilitárias e conversando com alguns alunos um deles observando a facilidade que ele tinha para o desenho sugeriu que tentasse modelar imagens de santos. Atento aos comentários Rosalvo Santana decidiu fazer uma santa de barro.
Rosalvo trabalhando na queima
de suas imagens no forno a lenha
.
 Escolheu esculpir a imagem de Nossa Senhora da Conceição e expôs juntamente com as peças utilitárias em 1992 na Feira dos Caxixis que se realiza em Maragogipinho durante a Semana Santa, há mais de trezentos anos. Para sua surpresa uma senhora pagou um valor superior ao que ele havia pedido reconhecendo assim o seu trabalho e o seu talento. Aí foi o começo de um caminho vitorioso, e hoje Rosalvo Santana já é conhecido em vários estados como um dos santeiros que trabalha com cerâmica produzindo imagens de vários santos e santas. Lembrou que começou a participar de exposições e numa coletiva com a presença de vários santeiros que foi realizada no Palácio Rio Branco percebeu que a maioria das imagens tinham o mesmo formato e composição. “Eram quase todas iguais ou muito parecidas. Neste dia senti a necessidade de fazer algo diferente para que minhas peças tivessem algo que as outras não têm. Foi aí que se esforçou e   seu trabalho foi evoluindo, e hoje é diferenciado, fruto de suas observações da iconografia tradicional.  Suas imagens têm um panejamento e uma composição únicos que variam a cada peça que esculpe. Ele declarou que procura sempre nunca repetir a mesma composição e, portanto, cada peça de sua autoria é única. Este diferenciamento podemos constatar nas dobras, redobras e pregueados dos mantos e vestes das imagens, além do número e colocação dos anjinhos que compõem a obra. Suas imagens são resultado também da mistura
Passando a pátina numa imagem
de São Jorge.
que faz dos estilos barroco com o rococó para criar suas imagens. “Quem adquire uma imagem feita por mim sabe que não obedeço rigorosamente a iconografia tradicional sempre estou acrescentando ou retirando algo. Assim a pessoa está adquirindo uma imagem de Santa Luzia, de Nossa Senhora da Conceição, de São Jorge, de Nossa Senhora da Aparecida ou de Nossa Senhora Desatadora de Nós de autoria de Rosalvo Santana. Por exemplo o São Francisco que faço é como se ele já estivesse no céu". Acrescentou que seu filho Rosalvo Maltez Santana , conhecido por Rosalvinho, também suas imagens são diferentes das feitas pelo pai Rosalvo. “Desde o começo quando meu filho decidiu ser santeiro o incentivei a fazer suas imagens olhando  a iconografia e sempre acrescentando ou retirando algo para ficar sendo uma obra dele. Diferente das minhas e de outros santeiros desde Brasil afora. Hoje posso afirmar que as minhas imagens e as de Rosalvinho  são diferentes entre si e também de muitas que vemos por aí”.

Seu trabalho é totalmente artesanal e o barro que utiliza para esculpir as imagens  adquire por peso e vem em sacos de linhagem do distrito de Aratuípe, que fica a cerca de uns dez quilômetros de onde reside. É retirado dos mesmos barreiros onde os oleiros de Maragogipinho há muito tempo retiram ou adquirem para fazer suas peças utilitárias. 

A Rainha dos Anjos , de 2023.

O santeiro Rosalvo Santana durante nossa conversa falou que o barro vem com muitas impurezas como raízes, pedras de vários tamanhos e areia. “Tenho que fazer um processo de decantação para purificar o barro que vou usar em minhas peças, a chamada goma de argila. As imagens normalmente têm 30, 45 ou 60 cm. Estes tamanhos são os preferidos pelas pessoas que adquirem as imagens que faço e muitas já são feitas por encomenda.” Segundo o artista ele demora cerca de uma semana para concluir uma peça. Falando da queima das peças no forno rudimentar de lenha disse que no princípio perdia muitas peças que se quebravam com o calor, mas que hoje já aprendeu a manha e quase não acontece mais ama quebra. Atualmente o forno fica em torno de 800 graus e deixa as imagens durante doze horas queimando. Existem na região quase duzentas olarias às margens do rio Jaguaripe e seus afluentes e esta  atividade  envolve o trabalho de homens e mulheres. Normalmente para fazer as peças de cerâmica utilitárias e de decoração trabalham famílias inteiras cabendo aos homens fazer a modelagem e as mulheres dão o acabamento e a pintura.

Há uns cinco anos que não mais participa da Feira dos Caxixis porque não consegue juntar um número suficiente de imagens para expor. Sempre é convidado, mas não tem participado porque sua produção é pequena. Tudo começa com a feitura de uma placa de barro que em seguida ele une as extremidades formando uma espécie de cone, e vai esculpindo acrescentando e retirando os excessos. Quando a imagem está semipronta com o panejamento e as vestes ele vai acrescentando os anjinhos,   e outros elementos integrantes da composição. Cada anjo é feito separadamente, e o santeiro ressaltou que “os anjinhos dão muito trabalho para fazer”. Também as mãos são colocadas depois,
O santeiro Rosalvo Santana exibe orgulhoso
mais uma nova imagem
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   e deixa um pequeno furo nas cabeças de algumas  imagens porque se o cliente desejar colocar uma coroa ele pode adquirir pronta nas casas especializadas em trabalhar com metais preciosos ou encomendar a um ourives . Com a coroa de metal  ficará ainda mais diferenciada a  imagem do  santo de sua devoção. Às vezes Rosalvo Santana faz uma dezena de anjinhos e vai descansar, porque disse que  fica estressado por procurar ser fiel aos detalhes. O santeiro recebe encomenda de todo o país através as redes sociais e disse que despacha para fora dentro de uma embalagem de madeira garantindo assim que a obra chegue intacta na casa do cliente. Aqui em Salvador a entrega é feita por uma pessoa de sua confiança. Cada peça a depender do tamanho pesa entre cinco a oito quilos.

Outro detalhe interessante são as ferramentas que Rosalvo Santana utiliza na feitura de suas imagens entre elas as espátulas de vários formatos, estecas, rastelo, boleador e uma que me chamou a atenção foi o ferrão de arraia. Esta ferramenta é uma improvisação criativa do artista diante das dificuldades de encontrar na época que iniciou seu ofício na localidade onde reside a ferramenta

Rosalvo trabalhando com o ferrão 
de arraia para ultimar detalhes
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 mais adaptada ao seu modo de esculpir alguns detalhes . Sabemos que ele mora numa região do município de Aratuípe, que dista cerca de 70 quilômetros de Salvador, e tem hoje perto de nove mil habitantes, onde a pesca artesanal é uma das principais atividades, e que por lá tem uma grande incidência de arraias. Para capturá-las os pescadores tradicionalmente utilizam uma ferramenta chamada ferrão de arraia. Isto levou Rosalvo Santana a esta improvisação do ferrão de arraia para sua atividade de santeiro. O artista disse que usou uma lixa e também cortou o ferrão de arraia e que utiliza para fazer as dobras do panejamento, os cabelos e as unhas, e serve também para o polimento das imagens. Finalmente, Rosalvo Santana utiliza uma pátina da cor do barro que serve, segundo informou, para dar um refinamento na imagem e cobre os poros do barro. Ele compra uma base acrílica mistura com água e faz a pátina mais clara ou mais escura. 

                                          HISTÓRIA

Antigamente os saveiros traziam os produtos agrícolas e utilitários do Recôncavo Baiano e daqui levavam os industrializados. As embarcações atracavam no cais do antigo Mercado Modelo que foi destruído completamente por um incêndio e

Cerâmicas chegam à Feira de São Joaquim
transportadas por saveiros
Fotos Google
em seguida suas ruinas foram demolidas dando lugar aquele espaço onde hoje está a escultura de Mário Cravo Junior. O velho mercado foi construído em 1912 e destruído pelo fogo em 1969. A partir de 2 de fevereiro de 1971, passou a ocupar o edifício da 3ª Alfândega de Salvador, uma construção de 1861 em estilo neoclássico tombada pelo patrimônio histórico. Também são ainda  descarregadas no cais próximo a antiga Feira de Água de Meninos, que também sofreu um grande incêndio em 1964. As cerâmicas produzidas às margens do rio Jaguaripe e seus afluentes vêm também em canoas. 
Existem registros que um oleiro de Maragogipinho chamado de Patrício encheu uma canoa de peças feitas por ele e foi até Nazaré das Farinhas expor e vender aproveitando o fluxo de pessoas durante a Semana Santa e desta forma surgiu a famosa Feira dos Caxixis. 
Eram peças utilitárias feitas ainda sem pinturas. “Os engobes reativos que são suspensões argilosas especiais, com adição de fritas que é um material vítreo usado na cerâmica, conhecido como frita cerâmica, que resulta da fusão de matérias-primas e é fundamental para esmaltes e vidrados, tornando-os mais seguros e com melhor acabamento , que reagem durante a queima para criar texturas, movimentos e cores únicas na cerâmica . Na região os oleiros usam também Tauá e tabatinga para ornamentar a maioria das peças. Mais recentemente foi criado o Festival do Artesanato em Aratuípe que já está na sua terceira edição, e que é realizado durante o mês de novembro, procurando atrair e incentivar esta atividade do município.

                                           EXPOSIÇÕES

Exposição Salão de Artesanato Raízes
Brasileiras, São Paulo, 2024.
Participou da II Feira da Produção de Itapagipe e da IlI Feira da Produção de Itapagipe promovidas pelo SEBRAE. Em .Em  1998  IV Bienal do Recôncavo - Centro Cultural Dannemann ; da Exposição no Mosteiro de São Bento – Salvador-BA; Exposição na ADA Galeria de Arte- Salvador – BA; Feira Baiana de Negócios da Chapada Norte-  FEBAN, Jacobina-BA; Exposição no  Instituto Mauá – Pelourinho. Salvador-BA. Em 1999 - Vencedor do Concurso de Presépio - IPAC/98 – 1º Prêmio; Exposição na Galeria Solar do Ferrão; Feira de Arte na Praça, EMTURSA, Salvador-BA. Em 2006 - Feira Internacional de Artesanato e Arte Popular -FENEART, Recife-PE.  2014 - Festival Artes do Sagrado – Salvador-BA; da Exposição Santeiros do Sagrado, Museu Palacete das Artes. 2017 - Participação do Documentário "Em Torno Dos Mestres" .2018 - Exposição Artesãos da Fé - Museu da Misericórdia, Salvador-BA. 2021- Exposição Igreja da 
Rosalvo e seu filho também ceramista
conhecido por Rosalvinho
.Foto Google
Graça, em Salvador-BA. Em 2023 - Primeiro Festival da Cerâmica Maragogipinho-BA; 
Exposição Arte dos Mestres - São Paulo. 2024 - Primeira Edição de Feira Nacional de Artesanato da Bahia- FENABA e da Feira de Santeiros do Nordeste - EMTURSA .
Coletivas Regionais: * Exposição Coletiva em Nazaré das Farinhas-BÀ; Exposição Coletiva em Cachoeira-BA e Exposição Coletiva em Santo Antônio de Jesus-BA. * Congresso Nacional de Cerâmica - Museu Alfredo Andersen-Curitiba-PR 2006. Oficina 12 - Rosalvo Santana. Tema: O Barro Princípio de um Caminho que Sempre se Solidifica.



 

 

 

 

 


 

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