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sábado, 1 de junho de 2024

A ARTE VISCERAL E EMOTIVA DE RAMIRO BERNABÓ

Ramiro com  esculturas no
seu ateliê  em Patamares.
Faleceu ontem de insuficiência respiratória , (dia 17 de julho de 2026) o escultor e pintor Ramiro Bernabó e foi sepultado hoje no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Ramiro estava com setenta e nove anos de idade e vivia em sua casa-ateliê no bairro de Patamares, rodeado de uma vegetação exuberante. Saía pouco de casa e a última vez que o encontrei foi em julho de 2024 quando ele esteve em meu escritório. Veio dirigindo o seu carro e estacionou  numa das cinco plataformas de garagem. O prédio é moderno ,tem trinta e quatro andares e vários elevadores. Ele ficou angustiado com a estrutura e o tempo inteiro reclamava. Perdemos mais um grande artista, um dos melhores de sua geração. Como sabem era filho do velho e famoso Carybé.

Ao olhar uma escultura, pintura ou desenho de Ramiro Bernabó você não consegue tirar os olhos ou passar batido, como se diz numa conversa singular, porque os cortes rudes e os traços densos nos prendem como se fossem imãs e nos convidam a examiná-los com mais cuidado àquelas obras tridimensionais e suas pinturas e  desenhos repletos de imagens coloridas. A madeira usada revela nos cortes profundos e irregulares que foram feitos usando uma energia diferenciada que precisou sair do seu interior e se libertar. Os cortes foram feitos com força e raiva e lembram um lenhador imerso numa floresta densa obrigado a usar toda sua capacidade física para vencer as dificuldades que se apresentaram. O mesmo acontece com os desenhos do artista e vemos claramente que aqueles traços largos foram feitos num momento onde a gesticulação foi impulsionada por uma energia que saiu do seu interior como as águas incontroláveis que viajam pelos campos durante uma tempestade. Diria que é um trabalho visceral, um trabalho cheio de emoção onde o artista se sente impelido a deixar registradas suas angústias e seus dissabores como uma catarse em busca da paz. São como momentos dramáticos de uma peça teatral e o resultado merece que todos se levantem e gritem bem alto Bravo! Esta saudação de Bravo deixo aqui registrada para o conjunto da obra de Ramiro Bernabó. Suas esculturas monumentais antropomorfas nos encantam e ao mesmo tempo nos levam a questionar as incertezas e oscilações da vida. São obras de presenças fortes e vigorosas e de uma expressividade à toda prova.

Esculturas na sua residência.
Ramiro Bernabó consegue imprimir na madeira e no papel com seus desenhos as digitais das suas angústias e os conflitos que permeiam a sua existência. Não tem telefone celular, e-mail e não usa redes sociais. Vive como um ermitão num espaço rodeado por um pedaço de Mata Atlântica e com suas esculturas de barro e madeira espalhadas pelos cantos e algumas na vegetação que teima em envolve-las. Seu mundo transita entre a mata e o mar. Sua casa plantada no meio a um pedacinho da floresta fica em Patamares, bairro da orla de Salvador e o artista tem também uma predileção pelo mar. Por diversas vezes disse que sempre gostou de mergulhar e apreciar os peixes que povoam a orla de Salvador e são presenças constantes em seus desenhos e esculturas . Gosta também de registrar seus momentos em poemas e mais recentemente num caderno onde diariamente escreve como está se sentindo e os fatos que vivenciou naquele dia. Quando conversamos chegou a ler por alguns minutos trechos deste seu diário que na verdade revela a essência de sua existência.

                                                               SUA TRAJETÓRIA

Nesta foto de Pierre Verger, de 1950,
vemos Nancy, Ramiro e Carybé na festa
da Conceição da Praia, em Salvador.
O escultor e pintor Ramiro Bernabó carrega consigo o fardo de ser filho de Carybé um dos mais festejados artistas em nosso país que viveu em Salvador durante décadas e aqui construiu e consolidou sua carreira artística. O Ramiro também nasceu em Buenos Aires, no bairro do Palermo, em 6 de maio de 1947. Seu pai foi morar com sua mãe Nancy Colina Bernabó num antigo apartamento juntamente com um irmão e irmã do esposo na Rua Urgatete. Quando Ramiro tinha três anos de idade migraram para o Brasil no ano de 1970. Ele cresceu vendo seu pai, e os amigos  Jenner Augusto, Carlos Bastos, Floriano Teixeira, Mirabeau Sampaio, Pancetti e outros artistas daqui trabalhando, especialmente o Mário Cravo Junior, fazendo suas esculturas de ferro fundido, aço inoxidável e madeira. Tornou-se muito amigo do seu filho o fotógrafo Mário Cravo Neto, já falecido. É um autodidata e o gosto pela arte se materializou na década de 60, e em 1967 fez sua primeira exposição de desenhos na Galeria Álvaro Santos, em Aracaju, Sergipe. Em 1988 ganhou o prêmio Copene de Cultura e Arte e de lá já fez várias exposições individuais e coletivas aqui, em outros estados e até fora do país.

Ramiro sentado numa cadeira-escultura
 na sala especial que também é uma
escultura gigante.
Na conversa que tivemos Ramiro lembrou que vieram para a Bahia no navio da companhia de navegação Blues Starline. Disse que quando passou a entender tomou um choque cultural com as praias, as coisas do Mercado Modelo, as festas populares, os bondes e os pescadores. Foram morar num casarão no Largo de Santana, no bairro do Rio Vermelho, e ali fez sua primeira amizade com o Roque, não lembra o sobrenome, mas falou que ele tinha uma rinha de galo nos fundos de sua casa. Naquela época era normal as pessoas colocarem os galos para brigar até que o presidente Jânio Quadros, em 18 de maio de 1961 através de um decreto proibiu a rinha de galos em todo o país. Ramiro fez amizade também com Manolo, que era filho do senhor chamado de Jesus, dono da Padaria do bairro. Visitou os ateliês de Pancetti, em Itapuã, e de Raimundo Oliveira, dentre muitos outros. No domingo seu pai costumava leva-lo para assistir os desenhos animados no Cine Guarany. Disse que presenciou Carybé fazer suas gravuras em metal na sua casa do Rio Vermelho para o livro Macunaíma, que hoje é uma raridade bibliográfica. Foram impressos apenas cem exemplares, e um exemplar pode valer mais de duzentos mil reais. Conheceu o Mário Cravo Neto, chamado de Mariozinho, quando já estava com cinco anos de idade e a amizade se consolidou na adolescência. Recordou que durante a adolescência ele e 
Vemos seis pinturas em papel com  cenas
noturnas , paisagem , cotia e abstratos.
Mariozinho fizeram uma coleção de insetos incentivado por Octávio Mangabeira Filho, Otavinho. “Íamos aos domingos para o bairro da Graça e ele nos ensinava a guardar os insetos em caixas apropriadas. Depois quando adultos cada um foi para um lado. Tive muitos poucos amigos e passei a ocupar o meu tempo já em 1967 para cá fazendo minha arte e assim enfrentava o meu tédio. Neste período conheci os cineastas André Luiz de Oliveira e Rogério Duarte e entramos neste negócio de Tropicália. Foi um período complicado porque a juventude passou a usar drogas. Hoje tudo mudou estou imerso na arte fazendo minhas esculturas e meus desenhos. A arte evita que eu entre numa depressão. Tem uns que preferem viver imersos em dinheiro.” confessa Ramiro Bernabó.

Fez o segundo grau no Colégio Dois de Julho,em Salvador-Ba e em seguida foi aprovado no vestibular para a Faculdade de Arquitetura, da Universidade Federal da Bahia. Não passou do primeiro ano porque inconformado com as constantes greves terminou abandonando o curso e nunca mais voltou. 

Escultura  de Ramiro Bernabó, no
condomínio onde reside.
O Mário Cravo Neto que tinha a mesma idade do Ramiro  Bernabó nasceu em 20 de abril de 1947, faleceu  em 9 de agosto de 2009. 
Contou ainda que nos anos de 1974 conheceu um rapaz cearense chamado Benedito que fazia letreiros em pranchas de madeira e resolveu experimentar. Assim iniciou criar  letreiros em madeira e daí em diante percorreu o caminho natural passando a fazer suas esculturas. A primeira foi em 1983 com um pedaço de cedro que tinha sobrado de uns murais que seu pai Carybé tinha feito. Gostou e de lá para cá já fez centenas de esculturas de todos os tamanhos e formas, usando vários tipos de materiais e ferramentas .  Recordou que certo dia viu um homem cortando uma jaqueira com uma motoserra no bairro de Brotas , em Salvador. Aí resolveu comprar o tronco e posteriormente adquiriu  uma motoserra para trabalhar. Neste interim soube que estavam derrubando umas árvores no bairro do Candeal,também em Salvador. Se dirigiu até o local e conseguiu pegar vários troncos que lhes serviram para fazer muitas  esculturas e móveis de arte.

Ramiro com o diário onde registra
suas atividades e sentimentos.
Continuando a conversa Ramiro Bernabó olhou para o lado e apontou o dedo indagando: “Está vendo aquela poltrona-escultura ali? Ela foi feita com um tronco de um oitizeiro gigante que peguei no Candeal”.  Também mostrou a escultura de um peixe que está ainda finalizando,  utilizando de uma pedra dessas usadas para fazer meio fio das ruas da Cidade. Afirmou que encontrou a pedra abandonada no bairro de Itapuã, e como era pesada precisou de ajuda  para recolher e trazer para seu ateliê. Notou que quando foram buscar a tal pedra alguns moradores ficaram observando e meio chateados, mas faz questão de dizer que a pedra estava ali abandonada e sem qualquer utilidade. Disse que atualmente para ele é mais fácil trabalhar com  pedra do que com madeira. Outro momento interessante desta sua trajetória é que esteve recentemente numa pedreira na cidade de Milagres, no interior da Bahia, e começou a fazer uma escultura gigante num bloco de pedra pesando algumas toneladas. O seu projeto era fazer um furo no bloco de pedra de dois metros por dois metros pesando umas vinte toneladas criando uma escultura. Mas, teve que abandonar o projeto porque alguns trabalhadores cismaram com aquilo e começaram a achar estranho. Disse Ramiro Bernabó que devem ter pensado assim: “Aquele cara branco veio aqui para furar uma pedra? Outros acharam que era coisa de bruxaria." Disse que gastou uns dez mil reais alugando gerador e máquinas para fazer a escultura, mas que abandonou o projeto. " A ideia era trazer a escultura para cá", lamenta o artista.  

Ramiro mostra pintura em papel.
Como podemos ver a trajetória de Ramiro Bernabó tem caminhos próprios e assim ele vem construindo sua identidade como artista se distanciando do que seu pai fazia. Suas obras têm este distanciamento e  identidade autoral. Num texto escrito por seu pai Carybé para uma exposição  ressaltou o seguinte: “Ramiro viveu, num ateliê. Desde pequeno a figura do tio Roberto, a magia dos desenhos saindo da ponta do pincel, a música nas cores da paleta misturando, virando outras cores e o pai também lidando com esses mistérios num espetáculo diário que foi acendendo sua curiosidade.  Já na Bahia com o grupo renovador das artes e em segunda casa, a casa de Mário Cravo conviveu com o som da escultura, a pancada do macete na goiva, o fritar da solda, o chiar da serra, a marcação do machado, o ferro na bigorna imitando a araponga; podia estar tirando uma jaca, mas pelo ruído, sabia se se tratava de um Exu de ferro ou se de um tronco estava saindo enorme, gigantesco o Conselheiro pregando em fúria, Lampião, uma carranca, sereias ou Aganjú.

Ramiro com esculturas de cerâmica no
terreno de sua casa.
Dentro dele todos esses personagens pintados nas paredes ou saídos de troncos, do fogo das forjas, de ferro ou de pau, coloridas, vivendo nas telas ou no papel forma-se acomodando-se, tornando familiares, amigas, seu material de sonhos, o mundo silente de peixes no fundo do mar, algas, corais formaram uma potência, um extrato que um dia chegou a suas mãos e saiu mundo afora. Ramiro é autodidata. Vivendo e vive e viveu rodeado de artistas não pediu emprestado a ninguém, num confronto constante de seu mundo e o mundo que rodeia, observa, indaga, analisa e, quando dá um passo é um passo seguro com o respaldo de soluções achadas e resolvidas em carne própria, uma alegria”.

E o saudoso escritor Jorge Amado também escreveu um texto que aqui transcrevo um pequeno trecho. “Tive a possibilidade de entender a origem da arte de Ramiro, o cerne de sua criação, quando me foi dado ler, em prova de amizade e confiança, alguns poemas de sua autoria: o mundo dramático do artista se desnuda nos versos onde coração e tripas estão expostos, carne dolorida, peito aberto. A afirmação da arte de Ramiro coloca-nos diante de uma conquista realizada e com extrema consciência, de uma vitória obtida em luta sem quartel – a arte custa ao criador o preço alto, mas vale a pena” ....

Ramiro gosta de tocar tambores no    ateliê,
tendo ao fundo seu colega Leonel Mattos.
Vejam este poema Mata de autoria do Ramiro Bernabó: “Era um dia de nuvens, era uma manhã, /o homem subia o morro, o barro grudado nos sapatos/os frutos no chão e a terra vermelha. /As borboletas pousam na sua camisa /como que perdidas, perplexas de ver seu mundo acabar./Os insetos esvoaçam encima das frutas, enlouquecidos,/moscas, vespas e formigas como ébrios perdidos./ Esse morro que era verde com mil plantas/ agora deixa de ser seu âmago./ Seu mundo acabou para sempre./Seu microssistema deu lugar à ruas de lama./ As mariposas voam ao redor como dizendo:/ Somos amigas, somos boas, ou talvez busquem o suicídio/ asas azuis com bolinhas pretas / confundiram o homem com a árvore./ Enquanto os micos pulam buscando um novo lar,/ um besouro sai dos troncos caídos,/ abrindo as asas se coçando todo./Estranho tanta vida, tantos pequenos dramas,/ tantos pedidos no ar./ E lá no fundo os edifícios testemunham estáticos/ uma destruição que ninguém vê.”

                                               EXPOSIÇÕES

Ramiro com autorretrato 
ainda por terminar.
Entre as exposições estão: 1967 – Exposição de Desenhos na Galeria Álvaro Santos, Aracaju-SE ; 1972 – Exposição de Gravura em Metal, no Museu Regional de Feira de Santana-BA; 1973 - Exposição Desenhos, em A Galeria, São Paulo-SP; 1975 – Exposição de Gravuras e Desenhos com Carybé, em A Galeria, São Paulo-SP e Exposição de Desenhos e Esculturas , no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; 1977 – Exposição de Gravura em Metal, na Galeria da Pousada do Carmo, Salvador-BA; 1979 – Exposição de Gravura em Metal, na Galeria ACBEU, Salvador-BA; 1981 – Exposição Gravuras em Metal, na Kattya Galeria de Arte, Salvador-BA; 1982 – Exposição de Gravuras,  na Galeria de Exposiciones Petroperu, em Lima, no Peru; 1986 -Exposição de Desenhos, na Galeria O Cavalete, em Salvador-BA; 1988 – Exposição de Esculturas e Pinturas, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, MASP – São Paulo-SP; 1990 – Exposição de Pinturas a Óleo, na Galeria Bonino, no Rio de Janeiro-RJ; 1993 – Exposição de Esculturas em Madeira, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; 1995 – Exposição de Esculturas em Madeira, no Terminal Rodoviário de Salvador; 1996- Exposição Mobiliário em Madeira, na Casa Cor, Salvador-BA; 1997 – Exposição da Escultura em Madeira, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; 1998-Exposição da Escultura Floresta Construída, no Liceu de Artes e Ofícios, Prêmio COPENE de Cultura e Arte; 2000- Exposição no  Parque de Esculturas , da escultura Arte da Mata, Itacaré-BA; 2001 – Exposição de Cerâmicas, na Galeria da Aliança Francesa, Salvador-BA; 2004 – Exposição Coleção Metrópolis de Arte Contemporânea , no Espaço Cultural CPFL, em Campinas-SP; 2006/2007 – Exposição Viva a Cultura Viva, no Museu Afro Brasil de São Paulo-SP; 2007 – Exposição Comemorações , na Galeria da EBEC , Salvador-BA e em  2018 – Exposição Matéria Onírica, no Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA.

 

 

 

 

 


sábado, 25 de maio de 2024

ELISA GALEFFI E SUA ARTE EM DIFERENTES SUPORTES

A artista pintando em seu ateliê em Araras,
no estado  do Rio de Janeiro.
Todos que estudaram na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia e acompanharam e acompanham o crescimento  das artes visuais nas últimas décadas quando ouvem ou veem escrito este sobrenome Galeffi recordam do professor e crítico de arte Romano Galeffi que ministrou suas aulas na EBA, escreveu livros e artigos na imprensa local. Hoje vamos conhecer melhor uma de suas filhas a Elisa Romano Galeffi, que assina suas obras como Elisa Galeffi, nascida em Salvador no dia quinze de maio de 1955, juntamente com sua irmã gêmea e também artista plástica Virginia Romano Zart. Seu pai Romano Galeffi era professor de Filosofia da Arte e Estética, e sua mãe Maria Luigia Magnavita Galeffi, professora de italiano, na Faculdade de Letras, na Universidade Federal da Bahia. Eles vieram da Itália para a Bahia em 1948, 

Elisa se inspira na natureza que lhe
cerca no sítio onde reside atualmente.
portanto no pós guerra, quando o reitor Edgard Santos estava empenhado em instalar a Universidade Federal da Bahia e para isto recrutou professores daqui e de fora do país. Foram os tempos áureos da Universidade Federal da Bahia. Aqui o professor Romano Galeffi fundou a cadeira de Estética e sua esposa Maria Luigi Magnavita foi ministrar aulas de italiano na então Faculdade de Filosofia e Letras da UFBA, que funcionava na Avenida Joana Angélica, em Salvador, e tiveram  cinco filhos. A grande maioria dos filhos é professor e um deles tem uma pizzaria. Sua mãe também fundou a Associação Cultural Ítalo- Brasileira Dante Alighieri, que funcionava na sede do Clube Casa D’Itália, no bairro do Campo Grande, e depois foi transferida para sua sede atual na Rua General Labatut, no bairro dos Barris, também em Salvador.
                                      
                                                 SUA TRAJETÓRIA

Peixe pintado em  madeira
sobra de uma construção.
Falando de sua infância lembrou que nos primeiros anos moravam no bairro do Politeama e que depois seu avô Pasquale Magnavita fez um prédio de nove andares no bairro dos Barris, na Rua Travessa dos Barris, que fica atrás da Biblioteca Central. Ela e seus irmãos não brincaram na rua como acontecia na época, principalmente com as crianças que moravam em bairros populares ou no
interior do Estado. Neste prédio moravam também as famílias de seus tios e assim as brincadeiras eram com irmãos e primos no playground. Sua família é da região da Calábria, na Itália, e seus avós chegaram à Bahia em 1913 antes da Primeira Guerra mundial. Foi o pároco da cidade onde eles moravam, na Itália, que avisou que a guerra estava prestes a romper e era melhor saírem para ficarem seguros. Foi assim que vieram e aqui tiveram catorze filhos.

Pássaros pintados em tijolos
 de demolição.
A Elisa Galeffi fez seu curso primário no Instituto Dante Alighieri e o curso colegial no Colégio das Mercês, que funcionava na Avenida Sete de Setembro, em Salvador. Em 1974 prestou vestibular para a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e relembrou que no início ficou receosa de desistir do curso. Mas, prosseguiu e passou a fazer oito matérias por semestre, e assim terminou a faculdade em quatro anos. Disse que foi uma aluna dedicada e que graças ao que aprendeu na Escola de Belas Artes tem um gosto especial em experimentar. Ao concluir o seu curso na Escola de Belas Artes em 1978 conseguiu uma bolsa de estudos para estudar Design na Universitá Internazionale Dell’Arte, em Florença, Itália , de 1979 a 1980 – “Conservação e Restauração de Obras de Arte” na Universitá Internazionale Dell’Arte; em 1980 estudou Restauração de Bens Móveis na Escola de Belas Artes da UFBA e em 2007 Arte e Filosofia” , Latu Sensu , na Pontifícia Universidade Católica (PUC) – Rio de Janeiro/RJ.

Fotografia de Elisa  Galeffi.
Foram anos de muito aprendizado porque como sabemos a cidade de Florença é um grande museu a céu aberto e lá você respira arte todo tempo. Lá estão obras importantes de Michelangelo como a bela escultura de David, dentre outras. Elisa Galeffi voltou em 1980 . Ela  é dessas artistas que gosta de resolver todas as etapas do seu trabalho artístico. Disse que quando tentou terceirizar alguma etapa não se deu muito bem, então prefere ela mesma realizar todas as fases de suas obras. Criou uma marca chamada Tuto a Mano e passou a fazer objetos em série para vender. Abriu um bazar e assim fazia estamparias em almofadas, tangas, lenços de cabeça e muitos outros produtos. Brincando ela lembrou que até hoje seu tio o arquiteto Pasquale Magnavita tem umas almofadas que ela fez.

Trabalhou  de 1982 a 1991  como Conservadora e Restauradora,  e depois foi ser professora nas Oficinas de Expressão Artística do Museu de Arte Moderna da Bahia, MAM-Ba  ensinando  Desenho de Padronagens e Estamparia sobre Tecido . Em 1980 foi professora de História da Arte, na Universidade Católica de Salvador.

Acrílica s/tela inspirada na flora local.
Em seguida trabalhou restaurando obras de arte. Lembra que a Bahia tinha um mercado de arte ainda incipiente e que os artistas promoveram uma campanha para que ao construir um prédio as construtoras fossem obrigadas a colocar uma obra de arte nos seus empreendimentos imobiliários. Foi criada uma lei municipal com esta finalidade e isto funcionou por um determinado período, mas depois esta obrigatoriedade foi relaxada.

                                         GOSTA DE EXPERIMENTAR 

Pássaro pintado numa ferramenta.
Ela tem um olhar atento e gosta de experimentar e utilizar todo tipo de suporte, além  de restauração de obras de arte e de móveis antigos. Em Florença teve a oportunidade de aprender a lidar com o moderno e o antigo e aqui restaurou móveis de sua própria casa e de parentes, porque segundo me disse  é importante valorizar os materiais de que esses móveis são feitos. Em 1984 se casou e o esposo foi transferido pela Odebrecht onde trabalhava para a cidade do Rio de Janeiro. Hoje estão morando numa casa que construíram na zona rural próxima a cidade de Araras-RJ. Os dois filhos já estão adultos e tocando suas vidas. Reconhece que nunca foi uma artista de carreira, mas que foi fazendo coisas durante sua trajetória e no período que morou no Rio de Janeiro viu as dificuldades para expor numa galeria. Diante disto vai fazendo suas experiências, procura utilizar outros suportes para expressar a sua arte, faz fotografias e na sua convivência com o campo tem se dedicado a captar as formas e cores da fauna e da flora. Falando da vegetação disse que cada folha  tem um mundo particular e rico e assim vai registrando esses detalhes. Tem uma folha mais verde, outra vai envelhecendo uma parte fica amarela, depois seca. Outra fica retorcida, outra se bifurca, etc. Também gosta de andar no campo e na praia e sempre encontra uma raiz , um pedaço de tronco, uma boneca abandonada, uma pedra e recolhe esses materiais para depois utilizá-los em suas obras. Ela tem uma série de esculturas e objetos feitos com este material
Máscara em madeira, pregos,
arame e arruelas
 .
reciclado. Me disse que lá no Vale das Videiras, onde mora, usam muito o que chamam de nó de pinho para acender o fogo das lareiras e que esta madeira tem formas incríveis. “Tenho necessidade de retratar o design criado por Deus e a sua multiplicidade de formas e cores”, adianta Elisa Galeffi. Até uma ferramenta agrícola ela transformou num pássaro. Por falar em pássaro com uns velhos tijolos de uma demolição Elisa Galeffi fez uma série de pinturas representando os pássaros da região e alguns exóticos. Gosta mais de trabalhar com tijolos já usados porque têm uma textura melhor enquanto os novos as suas faces são mais lisas. Fez também uma série de máscaras usando restos de madeira que são utilizados para fazer cercas, grampos de pregar arame, pregos e parafusos.  Realmente este olhar atento da Elisa Galeffi é o que lhe impulsa a continuar criando.

Também trabalha usando o stencil que é uma espécie de molde vazado onde o artista tem diversos tipos de desenhos, escolhidos de acordo com a sua necessidade e a temática que vai trabalhar. Lembro que uma das formas de imprimir em série nos anos 70 usávamos o stencil para fazer os textos de protestos e alguns colegas conseguiam fazer desenhos nas matrizes e assim produzíamos jornais que eram distribuídos entre os estudantes. Este tipo de stencil não era de folhas de acetato, era de um material que lembra o papel. Quando a gente datilografava as teclas da máquina de escrever furavam o papel e por ali a tinta penetrava quando a gente colocava esta matriz para rodar no mimeógrafo. Atualmente existem stencil que já vem com os desenhos que são perfeitos porque usam o laser para cortar as folhas de acetato.Alguns artistas preferem eles mesmos fazer os desenhos na folha de acetato.

 

                                        EXPOSIÇÕES E CRÍTICA

Monogravura  feita no Parque
Lage-RJ , em 1991.
 Quando expôs Séries , no Espaço BAHVNA, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador,   a Elisa Galeffi apresentou várias assemblages que são obras feitas com objetos diversos reciclados e colecionados. A propósito sua colega Lígia Aguiar que já expôs muitos artistas quando tinha sua galeria Abaporu, no Pelourinho, escreveu: “Ausente da cena artística de Salvador, desde 1991, quando se transferiu para o Rio de Janeiro, a artista baiana Elisa Galeffi, retorna agora e retoma o seu lugar até então adormecido. Com a mostra Séries, nos brinda com objetos, pinturas e fotografias, realizadas entre os anos 2000 e 2010. Expõe a sua delicada poética e deixa exposto o talento para ressignificar o óbvio. Reinventa a partir de materiais colecionados ao acaso. Tira partido da fotografia com as surpresas encontradas em caminhadas habituais pela urbe, onde brinca com o jogo de luz e sombra sobre os resíduos descartados. O resultado é de uma riqueza de forma e cor, com belas e contemporâneas composições. A sua verve Duchampiana dá um novo sentido às coisas tiradas da sua função, como as formas hexagonais destacadas pelo equilíbrio de cores, formadas com tampas de garrafas pet; a série de relógios com suporte de bacias de alumínio, nas quais Elisa nos envolve e nos leva a querer parar o tempo em nossas lembranças juvenis. Da sua natureza cordial e bem humorada surgem os objetos com um refinado humor. É o caso dos Filhos da Placa Mãe, e do ótimo e ambíguo título de um dos trabalhos: Ishtar, a Deusa do Amor e Sua Aranha Devoradora de Corações artista mexe com a sua memória afetiva e o seu bem estar, para nos deliciar e prender com as tramas coloridas dos minuciosos objetos de impecável fatura. Na maioria, são trabalhos que denotam a sua preocupação com o meio ambiente, e um olhar atento para o novo e o inesperado.”

Primavera, lápis de cor sobre
 fotografia digital, 2016.
.
EXPOSIÇÕES - 2018 “Segundo Tempo” – Mostra Coletiva no Palacete das Artes – Salvador; 2013 – “Mostra Coletiva 30 x 30 (pequenos formatos)” – Galeria Nelson Dahia – Senac Pelourinho – Salvador ; 2011 – “Series” – Individual – Espaço Bahyna – Salvador; 2010 – “Series” – Exposição individual – Casa Versal – São Paulo/SP; 2004 – Coletiva – Galeria Gourmet- Espaço Cultural Shopping Downtown – Rio de Janeiro/RJ; “Caixas Culinárias” – Exposição individual – Café Venâncio,  Leblon – Rio de Janeiro/RJ; “Em Algum Lugar do Brasil” – Exposição individual no Unicentro Belas Artes – São Paulo/SP; 2002 – “Gávea Circular” — Gávea – Rio de Janeiro/RJ ; 1999 – “VII Arte de Portas Abertas” – Santa Teresa – Rio de Janeiro/RJ; 1998 – V e VI “Arte de Portas Abertas” – Santa Teresa – Rio de Janeiro/RJ; “Abstração dos Sentidos” – Pintura sobre Panôs –Exposição individual – Galeria da Associação Cultural Dante Alighieri – Salvador e na “Babilônia Feira Hyppie” – Participação com material de arte aplicada em decoração no Jóquei Clube – Rio de Janeiro/RJ; 1993 – “Coletes Para Mocinhos e Bandidas” – Exposição individual no Rio Design Center – Leblon – Rio de Janeiro/RJ; 1992 – “Impressões” – Com o artista Antônio Vieira – Galeria de Arte da Casa do Estudante do Brasil – Pinturas e impressões sobre tecido - Rio de Janeiro/RJ; 1991 – Mandalas – No evento “Nova Era” – Hotel da Bahia – Salvador ; 1989 – “Mandalas” – Exposição individual – Shopping Barra –Salvador; 1988 – “Tecendo a Forma” – Com as artistas Inha Bastos e Ângela Cardoso – Galeria Fazarte – Salvador; “Caleidoscópio” – Exposição individual – Espaço e Restaurante Pituaçú – Salvador; 1985 – Mostra “Camelô Artístico”, aplicação de objetos de camelô nas Artes Plásticas – Praça da Igreja de Santana - Rio Vermelho –Salvador; 1981 – “Flexo, Reflexo” – Exposição Coletiva – Eucatexpo Galeria de Arte – Salvador; 1980 – “A Natureza é o Tema” , Galeria O Cavalete – Clube Bahiano de Tênis – Salvador; e Coletiva “Cinque Brasiliani” – Casa Dello Studente –Florença – Itália; 1977 – Exposição dos Diplomados da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia – Galeria Canizares – Salvador – BA; 1970 – “Primeiro Salão de Estreantes” – Panorama Galeria de Arte– Salvador e em 1968 – Exposição dos Estudantes Secundaristas – Gabinete Português de Leitura- Salvador - BA.

sábado, 18 de maio de 2024

ESCULTURAS COM REFERÊNCIAS DO SERTÃO DE FLORIVAL OLIVEIRA

Florival Oliveira no seu ateliê em Riachão
do Jacuípe, Bahia.

 O artista Florival Oliveira é natural da cidade de Riachão do Jacuípe, interior da Bahia, onde nasceu em dezoito de agosto de 1953 e depois de estudar o primário foi fazer o segundo grau no Colégio João Campos. Veio em 1975 para Salvador fazer o vestibular na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia  e aqui permaneceu algumas décadas. Porém, a terra natal o chamou de volta, e agora está morando num sítio em Riachão do Jacuípe onde tem seu ateliê e vem desenvolvendo suas esculturas de madeira que são apreciadas pelos amantes das artes tridimensionais. Ele diz com satisfação que sua “mãe d. Raulinda Oliveira Carvalho era filha de um autêntico vaqueiro chamado Antônio Geminiano de Santana. Seu pai era agente estatístico, e filho de um homem de negócios  de Feira de Santana chamado de Francisco Pinheiro de Carvalho. Eram duas realidades antagônicas. "Somos cinco filhos e todos tiveram uma tendência artística, mas como meu pai morreu muito cedo, eu tinha dezenove anos de idade quando ele faleceu de um acidente automobilístico, e tive de tocar a vida em frente sempre pensando em ser artista”. Desde criança que ele andava pelas cordoarias, sapatarias, carpintarias, cerâmicas e marcenarias em todas essas oficinas observando o dia-a-dia dos artesãos. Ficava olhando eles trabalharem e isto criou em si desde cedo uma vontade de mexer com a madeira, couro e outros materiais. o artista  acredita que sua arte sofre até hoje influências destas vivências que ficaram marcadas desde a infância em seu inconsciente.

Esculturas em madeira
de sua autoria.
Também gostava de música e até cantava em dupla na Cidade e chegou com alguns colegas a viajar até Feira de Santana para comprar uns instrumentos musicais e formaram uma banda de rock. Recorda da alegria quando compraram os instrumentos e trouxeram numa Rural Willis para Riachão do Jacuípe. Chegaram a fazer três festas tocando com a banda que chamava Os Invencíveis. Paralelamente iniciou fazer alguns entalhes sob influência de seu pai que gostava de pintar. Disse que um dia seu pai, que era amigo do prefeito João Campos,de Riachão do Jacuípe,  que também era o médico da cidade, o levou até sua fazenda em busca de algum tronco de umburana para que pudesse fazer uma escultura. Terminou não encontrando e depois das conversas com os anfitriões voltaram para Riachão do Jacuípe. Fazia uns entalhes de ex-votos, índios da Ilha de Marajó, figuras exóticas da Ilha de Páscoa e até egípcias. Esta sua inclinação para a arte escultórica segundo Florival Oliveira “me levou para onde estou até hoje. Também pintava umas telas”. Em 1959 seu pai fundou junto com amigos o Clube Euterpe Jacuipense, em Riachão do Jacuípe, e lembra ele que pintou nas paredes do salão de dança umas faixas sinuosas imitando as serpentinas coloridas e uns círculos lembrando os confetes que eram muito presentes nos carnavais da época. Hoje Florival Oliveira identifica estas imagens que seu pai fez unindo um confete no outro, uma serpentina noutra e como sendo figuras neoconcretas. Depois ele foi para a Lira 8 de setembro. Ai Florival Oliveira chama a atenção que numa cidade que não tinha muitos habitantes, contava naquela época com duas filarmônicas.

                                      AS PRIMEIRAS OBRAS

Foto I - Entrada de  uma roça  com
um xique-xique. Foto II -Escultura
inspirada na caatinga.
Lembra que seu pai arranjou umas tábuas de pinho e fez algumas placas de entalhes que foram as suas primeiras expressões artísticas. Também foi ele que lhe apresentou o compasso, réguas, transferidor, os esquadros e lápis. Como ele era agente estatístico e trabalhava no Intituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE tinha que fazer mapas e estatísticas e até mesmo dos limites do município . Iniciou e concluiu os estudos entre altos e baixos na escola pública, mas não encontrou na mesma aquilo que já estava latente no seu íntimo. Recém formado como Técnico em Contabilidade, pelo Colégio João Campos (1974), foi contratado para trabalhar na Empresa de Exportação José Wilson Carneiro & Cia e no mesmo ano migrou para a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Bahia-EMATER-BA como auxiliar de escritório e lá permaneceu até 1976. De maneira que quando o Florival Oliveira foi trabalhar na EMATER-BA também passou a fazer mapas estatísticos e desenhos necessários aos projetos rurais. Tinha que delimitar as áreas, e lhe davam as referências e ele desenvolvia os mapas dos projetos para que o banco financiasse o produtor rural.

Performance que fez no Museu de Arte Moderna
na Bahia utilizando folhas de jornais
.
Já na Escola de Belas Artes em 1978 participou de um grupo chamado Integração Artística, ligado também a Escola de Teatro, que funcionava vizinha a de Belas Artes. Organizaram um movimento coletivo com teatro, música, dança e artes plásticas. Neste interim junto com Gilson Rodrigues, já falecido, foram decorar o Teatro Vila Velha para o famoso Baile das Atrizes.  Surge uma Semana Experimental dentro da Escola de Belas Artes e o Florival Oliveira foi trabalhar utilizando o jornal como material para suas esculturas. Lembra que fez uma instalação usando folhas de jornal, pintou e depois salpicou de preto. Aí fez uma performance usando sua experiência teatral. Disse que “a escolha do jornal tem a ver com uma questão social e que se inspirou naquela época nos moradores de rua que tinha visto na Rua Carlos Gomes, em Salvador.” Arranjou um fraque emprestado pela colega Elisa Galeffi, que pegou do seu pai o professor de Estética, da Escola de Belas Artes, Romano Galeffi e assim se apresentou no Teatro Santo Antônio. Lembra que foi aluno por dois semestres do professor Galeffi e que o mesmo entendia muito de Estética, mas que achava difícil. Chegou a comprar um livro de sua autoria para tentar entender, mas confessou que era muito complicado, e que o professor  entendia as dificuldades dos alunos para entender seus ensinamentos de Estética. Também disse que a professora Zélia Uchoa lhe chamou para estudar modelo vivo com ela. Respondeu que ia fazer, mas não copiando o modelo vivo, mas que ele lhe disse que iria fazer síntese do movimento do corpo. “Passei o semestre com ela e este estudo da anatomia humana me ajudou e comecei a ter uma relação com o gesto, lembrando os Jacques Pollack.

Escultura  de arame galvanizado.
No seu texto de apresentação Florival Oliveira escreveu sobre suas vivências e também da trajetória como profissional das artes começou ainda como estudante em 1979, sendo contratado para compor o quadro de professor na Escola Santa Clara do Desterro em Salvador, onde passou a lecionar Desenho Geométrico. Em 1980, ingressou no serviço público pela Fundação Cultural da Bahia, designado para trabalho no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) onde na sequência exerceu várias funções nas oficinas como: monitor; técnico em assuntos culturais; supervisor técnico, posteriormente foi promovido à Coordenador das Oficinas (MAM) até 2006. A partir dessa data, assumiu a função de professor de litografia e xilogravura. No ano de 2016 encerrou suas atividades nesta instituição mediante aposentadoria. Nesse interim, fez curso livre de cinema, teatro introdução à música, cinema de animação e gravura. Cheguei a ser supervisor das Oficinas de Expressão Artística, onde fiquei 36 anos, até me aposentar. Juarez Paraíso coordenou até 1988 as oficinas quando o Heitor Reis veio a ser o diretor do museu. As oficinas foram muito importantes para as artes plásticas na Bahia que chegou a ter dezoito artistas ensinando. Disse que Virgínia Medeiros, escultura, e Stella Carrozzo, História da Arte foram neste período as últimas que entraram como professoras nas Oficinas.

                                       PERMANÊNCIA NA EBA

Objeto, de Florival Oliveira.
Durante sua permanência na Escola de Belas Artes a partir de 1976 quando iniciou o curso, disse que foi um momento de muita alegria e teve que procurar um emprego para se sustentar. “Em 1977 ingressou no curso de cinema do Clube de Cinema da Bahia no Instituto de Cultura Brasil Alemanha (ICBA), tendo como professores Guido Araújo, Jean Claude Bernardet, Dieter Young, Bráulio Tavares e Orlando Sena. Ação que estimulou novos aprendizados a partir da construção de uma ideia cinematográfica na bitola S/8 tendo como resultado o documentário “Pião de Motor”. Faz questão de dizer que nunca foi um ator que se destacasse, inclusive tinha pouco texto em suas apresentações. Realizou diversas apresentações em praças públicas e em comunidade de bairros do Marotinho e Pelourinho, em Salvador;

Participou do festival de São Cristóvão - SE. Fez Teatro de Câmara: Leitura dramática no Teatro Santo Antônio - Peça "Os Fuzis da Senhora Carrà” e também do chamado teatro tradicional ou teatrão atuando como ator em “Oxente Gente Cordel”, peça premiada pelo projeto Mambembe, em turnê pelo Brasil no Teatro Vila Velha, em Salvador; Teatro Parque em Brasília; Teatro Nacional de Comédias, no Rio de Janeiro e no Teatro Pixinguinha, em São Paulo. Ainda pelo Teatro Livre da Bahia, atuou como ator na peça "Gracias a la Vida” (1978), apresentada no Teatro Vila Velha, em Salvador e no Teatro Parque, Brasília). Peça-Prêmio Martins Gonçalves. Ministrou oficinas filantrópicas de xilogravura em diversas escolas

Escultura em madeira  feita com a junção 
de vários elementos
.
Nas suas idas para Riachão do Jacuípe esteve numa marcenaria onde eram feitas
portas que a parte superior formava um semicírculo e viu restos de madeira cortados nesta forma. Conseguiu com o dono da marcenaria este material que ia ser descartado e contratou um carroceiro que transportou o material para um espaço que ele tinha na cidade. Isto foi em 1997 e começou a trabalhar fazendo suas esculturas e no ano seguinte fez uma exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia com esculturas feitas usando este material. Também já tinha outras obras criadas anteriormente utilizando folhas de jornais, arame e fibras, as quais juntou com as esculturas de madeira para esta exposição no MAM-Ba. Foi aí que abraçou a escultura em madeira. Disse que a sinuosidade presente em suas esculturas tem a ver com o embate com ele próprio. “Eu desenho na madeira estes elementos sinuosos e mandou cortar na marcenaria e depois monto minhas esculturas. Sempre digo que minhas esculturas têm a influência do sertão, tem muito a ver com as coisas de lá. Tenho uma história de vivência, tive próximo a mim um homem que era vaqueiro, que era meu avô materno e as vivências no campo. Aqui descubro a caligrafia, a escrita que leva a cultura do boi, e daqui retiro o arco. Sempre nos meus desenhos estava formando este meu trabalho escultórico”, afirmou Florival Oliveira com a influência das coisas do sertão.

 Em Salvador ele pintou com outros artistas alguns muros, inclusive um na curva

Florival Oliveira mostra   xilogravura.
na Rua da Paciência, no Rio Vermelho, onde todos os anos a pintura era renovada. Já aí ele pintava trazendo as referências vivenciadas em sua terra natal. Em 1985 foi ao Rio de Janeiro e conseguiu participar da exposição Escrita e a Caligrafia da Arte Brasileira, na Funarte, e o curador foi Marc Berkovitz, que era diretor da Funarte, e da exposição O Desenho Brasileiro, na Escola do Parque Lage, sendo curador Marcos Lontra. Foi convidado a fazer uma individual na Galeria Contemporânea, no Rio de Janeiro. Tinha todo material pronto, mas estava casado com dois filhos e não teve condições de ir montar a exposição. Perdeu esta oportunidade importante. De lá para cá não tem parado.  Atualmente sua produção está limitada a dois trabalhos por mês, porque segundo ele a madeira exige muito esforço individual para montar a escultura. Trabalha com madeira, ferro e aço inoxidável. Trouxe recentemente dois trabalhos para a Galeria Paulo Darzé que contam a história da uma vaca Jersey chamada Pombinha, que estava parida recentemente e um boi grande rompeu a cerca que os separava e subiu nela, que não aguentou o peso do boi e terminou morrendo. O Florival guardou os ossos e inspirado neles criou estas duas esculturas. São estruturas tridimensionais vazadas e podem ficar na parede, dependuradas ou mesmo no chão em estruturas apropriadas.

                                                    EXPOSIÇÕES

Florival e sua obra na Exposição  
da Geração 70, no Museu de Arte 
da Bahia.
Tem obras nos acervos de museus daqui e de Feira de Santana além de coleções particulares e já fez várias exposições individuais e coletivas. Numa exposição de gravuras realizada em Salvador, seu colega e arquiteto Almandrade escreveu: "Figuras que não são figuras, flutuando no universo do papel, criando uma dialética do preto e do branco. São formas desconhecidas, fabricadas por uma técnica e uma psicologia que significam aquilo que o olhar imagina, atravessando o mundo real e se instalam no mundo da linguagem e do sentimento. Não são estrelas porque não brilham, são signos, quem sabe buracos negros que captam as emoções do espectador e revelam uma luminosidade inacreditável, como espelhos que refletem ansiedades de quem os completa.

As gravuras de Florival Oliveira são puras imagens que registram além da definição de seus contornos, as texturas naturais de madeira. A mão do artista delimita um território, formas sem a ligação com as referências habituais, quase silenciosas, que é preciso escutá-las como se escuta os sonhos. Possivelmente códigos secretos de um inconsciente que se manifesta, na estreita relação do artesanato e da inteligência que fazem da arte um lugar de meditação. Há uma ausência, um deserto. Um invisível gravitando entre o trabalho e o corpo de observador. Um teorema para o conhecimento e a imaginação resolverem."

Gravura de autoria de Florival Oliveira.
Sua primeira exposição foi em 1976 no Clube Euterpe, em Riachão do Jacuípe,
Bahia; na I Feira Experimental de Arte, da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. 1977 - Semana Experimental de Arte da EBA, UFBA. 1978 - Salão Baiano de Artes Visuais, no foyer do Teatro Castro Alves. Salvador-Ba. 1979- I Salão de Artes plásticas Universitária Hoje, na Galeria Cañizares,Salvador-Bahia;1979 - IV Salão Nacional Universitário, em Florianópolis, Santa Catarina; Exposição na Galeria do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Salvador-Ba; Exposição no Gabinete Português  de Leitura, Salvador-Ba; Exposição na Galeria Atelier, em Vitória da Conquista-Ba;1979 - Encontro Regional de Bolsa de Artes, EBA-UFBA; Exposição Cadastro, no Museu de Arte Moderna da Bahia; Exposição Coletiva, na Prefeitura  Municipal de Santo Amaro da Purificação-Ba e  na I Feira de Ideias, Salvador-Ba. 1980 - Exposição Poemas Cartazes, no ICBA, Salvador-Ba; Semana Franco Brasileira, MAM-Ba; Exposição Agora Mostra Sete, no Museu de Arte Moderna da Bahia. 1981- 35 Anos da Gravura na EBA-UFBA; IV Salão Nacional de Artes, Rio de Janeiro-RJ, Encontro de Artistas do Nordeste, no MAM-BA e Exposição Coletiva na Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciências - SBPC, em Salvador-Bahia. 1982 - Painel do Cine Glauber Rocha e Painel Coletivo, na Escola Parque Salvador-Ba. 1983 -Circuito de Arte do Nordeste, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Coletiva e, Feira de Santana-Ba, Clube de Campo Cajueiro, Painel coletivo no Muro do Rio Vermelho, Salvador-Ba e Exposição de Gravura, no Solar do Ferrão, Salvador-Ba. 1984 - 
Bela escultura em madeira e parafusos
que sugere uma tensão .
Encontro de Artistas Brasileiros, no Museu de Arte Moderna ,Salvador-Ba, Exposição Artistas , no Centro de Convenções , Salvador-Ba, Painel Coletivo no Muro do Rio Vermelho, Salvador-Bahia e Exposição Coletiva de  Gravura, no MAM-Ba.1985 - Exposição de Geração 70, no Museu de Arte da Bahia, Exposição  Origem da Paz, no Museu de Arte da Bahia, Exposição Caligrafia e Escritura Brasileira, na Funarte, no Rio de Janeiro, Exposição Desenho Brasileiro, no Parque Lage, no RJ, Painel Coletivo, na Escola de Arquitetura da UFBA e o Painel n Semana do Índio, no ICBA.1986 - Exposição na Galeria Época, Salvador-Ba, Exposição na Galeria O Cavalete, Exposição no Galpão e Exposição na Galeria da ACBEU. 1987 - Exposição na Galeria Raimundo Oliveira, em Feira de Santana-Ba. 1988 - Exposição no Instituto do Cacau, Salvador-Ba, Exposição Dez Gravadores Baianos, na Galeria O Cavalete, Feira da Cultura Baiana, Buenos Aires, na Argentina e Expo na Galeria FazArte, Salvador-Ba. De 1989 a 2019 fez mais quarenta e cinco exposições entre individuais e coletivas aqui, em outros estados e fora do país.

Entre os prêmios estão: 1978 - Prêmio Mambembão com a peça de cordel Oxente Gente, no Teatro Livre da Bahia; Prêmio Martins Gonçalves, no Teatro Livre da Bahia, com a peça Gracias a lá Vida.1980 -Prêmio Funarte de Xilogravura no V Salão Nacional Universitário, Salvador, Bahia. 1986 - Prêmio Animation com o filme de animação Garrancho, na Office Nacional du Film, Universidade Federal da Bahia.