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sábado, 6 de abril de 2024

A ARTE DE ARUANE GARZEDIN DISCUTE O ESPAÇO URBANO X HOMEM

Aruane Garzedin com obras recentes
em seu ateliê no bairro de Pituba.
O meu primeiro contato com a obra de Aruane Garzedin aconteceu em fevereiro de 1998 quando expôs na Galeria Frazão, no bairro do Rio Vermelho, Salvador, obras inspiradas na praia contextualizando o espaço público e as pessoas que as frequentam. Na época escrevi um pequeno texto na minha coluna Artes Visuais, do Jornal A Tarde, e fui reencontrá-la agora já madura com uma trajetória artística consolidada. É arquiteta de formação, professora aposentada de Urbanismo e Paisagismo, da Faculdade de Arquitetura, da Universidade Federal da Bahia, com mestrado e doutorado. Além desta experiência acadêmica Aruane Garzedin trabalhou em órgãos da Prefeitura Municipal envolvida com o urbanismo e paisagismo. Também escreve versos e contos e se divide com a pintura que é o que mais nos interessa aqui.  Lembra que seu livro de contos "Sobre quatro patas há um lugar seguro", foi premiado com edição pelo selo João Ubaldo Ribeiro. Vejo que sua arte  tem uma pegada expressionista e a figura humana é uma presença constante em quase todas suas telas. A figuração sem uma definição realista, mas envolvida entre linhas e camadas de tintas, às vezes monocromáticas outras não. E no jogo de seus personagens sempre tem algo com a crítica social e a defesa do espaço público  onde as pessoas se posicionam. 
A artista concentrada trabalhando numa
nova obra em seu  ateliê.
Portanto, ao pintar a Aruane Garzedin não deixa de trazer seu sentimento de arquiteta e em determinado momento sentiu a necessidade de sair às 
ruas para se expressar nos muros da Cidade levando sua preocupação com o espaço público . Escolheu a d. Nita e a vaca como personagens para sua incursão nesta arte efêmera povoando os muros da Cidade de belos grafites criativos e cheios de significação com suas mensagens.  Todos sabem da efemeridade das obras pintadas em muros porque quase sempre sofrem ataques, não são conservadas, os muros dão lugar a novas edificações, até mesmo uma planta ou erva daninha podem danificá-las, o que acontece com frequência. Ela lembrou que um de seus grafites localizado no bairro da Pituba foi danificado num acidente de carro que se chocou com o muro. Para sua surpresa e satisfação pessoal os moradores da casa telefonaram chamando-a para recuperar o grafite, e assim ela o fez. 

Retrato com o fundo negro
e uso de poucas cores.
 A propósito a atual administração municipal vem dilapidando o patrimônio público colocando à venda várias áreas verdes, como a encosta do Corredor da Vitória e outros locais que merecem ser preservados, já que nossa Cidade é uma das menos arborizada do país.  Salvador precisa urgente de um plano de arborização para aumentar o sombreamento e melhorar o clima, defende a artista-arquiteta. Na exposição que fez em 2008 na Caixa Cultural, localizada na Rua Carlos Gomes, em Salvador-Ba que chamou de Membranas da Cidade ela escreveu: “Na tentativa de explorar e de expressar os significados da Cidade contemporânea busco inspiração nessas superfícies nuas e expostas da Cidade, ainda que sejam aquelas que mais escondem do que a mostram. O processo de apropriação social dos muros da Cidade nos fornece um caminho para uma linguagem plástica, e também para o fazer artístico e é um processo que não tem projeto e nem um fim previamente definido”.

                                                O COMEÇO

Ai vemos as cores aparecendo, ainda
timidamente .
A Aruane Garzedin nasceu em Salvador, a 10 de dezembro de 1959 e na cidade que é a porta da Chapada Diamantina, na Bahia concluiu o seu curso primário onde já demonstrava seu interesse pelo desenho. Seu nome é de origem libanesa seu pai Evandro Garzedin era comerciante e sua Maria Solange Santos Garzedin, professora. Depois de concluir o primário veio com 13 anos estudar no Colégio Maristas, no bairro do Canela, em Salvador, e ao terminar o curso colegial fez vestibular para a Arquitetura. “Na verdade, eu não sabia se  queria inicialmente fazer Arquitetura. Pensava em fazer vestibular para Artes Plásticas,”disse Aruane Garzedin. Mas sofreu algumas restrições por esta sua preferência, o que era natural na época já que ser artista não era uma profissão bem vista, principalmente pela dificuldade de sucesso, já que a arte era pouco apreciada na sociedade baiana. Ela também chegou à conclusão que por ser uma pessoa independente refletiu que se fizesse  Artes Plásticas seria mais difícil conseguir sua independência econômica. Então partiu para o vestibular de Arquitetura, e hoje é uma pessoa   independente e respeitada profissionalmente. Lembra que no início do curso teve alguma dificuldade e só foi mesmo se identificar quando passou a estudar as disciplinas Urbanismo e Paisagismo. “Foi aí que me encontrei. Porque sempre gostei das questões da Cidade, os espaços públicos, a jardinagem, as praças.” Ela até hoje tem esta preocupação com a relação dos espaços públicos  com sua visão de contribuir para a melhoria da convivência social na Cidade.  Acha que a Cidade tem a capacidade de melhorar ou piorar a vida das pessoas e estas preocupações estão de alguma forma presentes em suas obras.

Este belo grafite mostra uma cena que
 acontece no interior das residências ,
onde ela grafitou numa  casa
abandonada no bairro da Federação.
A primeira experiência em Urbanismo foi quando estagiou no Plano Diretor da sua cidade natal Jacobina, depois trabalhou com o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, que fez as passarelas nas principais avenidas de Salvador e também o Hospital Sarah Kubistchek. Disse Aruane Garzedin que foi uma aprendizagem muito rica   porque visitou muitos bairros fazendo levantamentos e diagnósticos. Depois desta foi trabalhar na Companhia de Renovação Urbana de Salvador - RENURB, no bairro da Lapa, que era uma empresa de capital misto, que fazia muitos projetos urbanísticos. Ai Aruane Garzedin trabalhou nos projetos de praças e jardins da Cidade do Salvador. Fez alguns  cursos livres aqui e   no exterior. Trabalhou com a equipe da arquiteta Beatriz Secco, de Brasília, e depois continuou nesta área do paisagismo na Companhia de Habitação de Salvador - COHAB e Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade de Salvador - SUMAC.
 Aruane fez um desenho  que reproduz e
 cola nos locais que deseja. D. Nita participa
 de protestos a exemplo deste contra o
BRT, que tem se mostrado ineficiente.



Não tem experiência de trabalhar no setor privado. Ela acha que no serviço público sempre surgem obstáculos, interferências, é fácil engavetar e mudar o seu projeto, e que muitas vezes estas ações terminam prejudicando todo um trabalho feito com dedicação pensando em melhorar a Cidade. Como urbanista disse estar completamente frustrada pelo que vê hoje em dia em Salvador. E ao passarmos pela orla marítima mostrou alguns espaços de convivência com bancos de costas para o mar, com fileiras de coqueiros nas calçadas e outros espaços mal concebidos. Aruane acha que o coqueiro é inadequado para ser plantado numa calçada porque um coco pode se desprender e fazer uma vítima fatal e também    não gera o sombreamento tão necessário. Seria muito mais interessante o plantio de árvores adequadas que aguentem os ventos e a maresia, as quais dariam sombreamento e melhoria da convivência social entre as pessoas. Defende também que algumas calçadas são muito estreitas e precisam ser alargadas para dar mais espaços aos moradores , inclusive aos cadeirantes, e ser um local de conversa. Entende que temos que arborizar esta Cidade e a necessidade de conscientizar as pessoas sobre a importância das árvores. "Com as árvores  podemos colocar bancos para as pessoas conversarem, para que haja um entrosamento maior entre os moradores e melhor uso do espaço público na Cidade". Seu novo projeto artístico Cidade Desafeto,mistura de realidade e ficção para colocar em cheque os falsos conceitos desse urbanismo depredador", adianta Aruane.

Este grafite na Pituba ela teve que refazer  
por solicitação do morador após ter sido
danificado por um acidente de trânsito.
Informou ainda que o conflito e a preocupação com a acessibilidade começaram a existir principalmente da década de 80 para cá. Ela concorda que algumas árvores que foram plantadas por Guilhard Moniz especialmente as amendoeiras e barrigudas poderiam ser erradicadas, mas para isto é preciso ter um planejamento de reposição imediata de outras espécies e com mudas com 1,80 m de tamanho mais adequadas ao espaço urbano. Mesmo reconhecendo que as amendoeiras sujam muito com suas folhas que caem e os frutos que atingem muitas vezes as pessoas e carros, mas que elas amenizam o clima com seu sombreamento. “Veja quando temos umas três amendoeiras juntas num dia de sol a gente sente que debaixo delas o ambiente fica mais agradável”, adianta Garzedin. É verdade!

                                                                 SUA ARTE

Obra em acrílica sobre tela da exposição
Membranas da Cidade, de 2008. 
Aruane Garzedin   já passou por algumas fases e  sua pintura  é figurativa tendendo ao abstrato. Procura incorporar outros elementos e gosta de trabalhar as texturas com camadas de tintas. "Minha pintura tem algo do clima, algo psicológico de me interessam, algo que evoca algumas coisas que estão até fora daquele desenho”, disse Aruane Garzedin. 
E prosseguiu: "O meu trabalho artístico está sempre em transformação a partir de novos conceitos e procedimentos da experimentação que vai me levando a outros caminhos. Das correntes artísticas da arte moderna, o expressionismo é a que mais me inspira. Gosto da gestualidade das pinceladas , das superfíceis mais densas de matéria,bem como do uso do  desenho de forma livre. Enfim, o meu trabalho tem muito de figurativo, embora nem sempre ,mas sem um sentido realista ou narrativo".
Falou ainda que não sofreu influência de artistas, mas que admira  o holandês Rembrandt e Egon Sheile. Quando ela pintou alguns retratos, no começo da sua carreira de artista plástica a presença de tons escuros tem muitas vezes influência do psicológico que o artista está vivendo quando de suas pinturas. O Rembrandt foi o maior pintor holandês de todos os tempos (16006-1669) e usava uma técnica com um fundo escuro da tela, sobressaindo o retrato, apresentando uma dramaticidade das figuras humanas que pintava. Usava também temas bíblicos e mitológicos, com detalhes das joias e vestimentas, e outra característica é que gostava de pintar em telas menores. Também citou o austríaco Egon Schiele (1890-1918) e suas obras tem a presença da sexualidade explícita. Ele produziu vários autorretratos, inclusive em alguns aparece nu, e suas obras mostram corpos contorcidos, o que é uma das características marcantes de sua produção, e é tido como um dos expoentes do início do expressionismo. Porém, entendo que sua arte é expressionista, este movimento de vanguarda que surgiu na Alemanha a partir de 1910 que traz uma forte crítica sociopolítica e pinta com mais liberdade sem a preocupação de mostrar a figura real. Usa camadas de tinta, empasta tudo de acordo com seus sentimentos e sua sensibilidade. Aruane destacou também outros "pintores modernos e contemporâneos que lhe inspiraram em vários aspectos, como por exemplo: a gestualidade da pintura de Iberê Camargo, a materialidade das telas de Antoni Tapies e Anselm Kiefer, o registro do tempo  na obra de Daniel Senise, as manchas de cores em Richard Diebenkorn, para citar alguns, além de artistas da arte urbana."

Veja este pequeno texto extraído da apresentação feita pelo saudoso poeta Ildásio Tavares quando ela expôs no Centro Cultural da CEF :"Todo processo de expressão da arte consiste numa metaforização do real em que a verdade final  (que o artista pretende mostrar) passa por um maior ou menor distanciamento da realidade contingente; sofre uma maior ou menor distorção em seus componentes, reordenados e reagrupados para ganharem um sentido novo, mais verdadeiro que o real, vez que este se escuda em falsas aparências e ao oferecer uma vida melhor para o ser humano, todavia limitam-na; diminuem-na; estrangulam-na nas angústias do cotidiano".
Obra da série Praias onde a artista pintou
uma cena do cotidiano das praias baianas
.
A personagem D. Nita que criou ao grafitar os muros da Cidade do Salvador tem até perfil no Instagram, onde estão seus principais grafites e segundo este perfil “é filha de Oxum, não gosta de muros e nem de preconceitos. Amorosa e corajosa, era do lar, agora vai pra rua defender o meio ambiente e a democracia”. Esta personagem já participou de exposição em São Paulo, no Instituto Tomie Otake e também de protestos de rua defendendo as árvores contra este ineficiente BRT construído em pleno século XXI. Informou Aruane Garzedin que D. Nita nasceu a partir de memórias e observações do cotidiano de mulheres, muitas vezes heroínas em suas sagas pessoais, mas invisibilizadas na sociedade. O meu projeto artístico pretendia dar voz a essas mulheres, levá-las a frequentar lugares dos quais normalmente estavam excluidas."
Claro que vemos uma  identificação entre a artista e a personagem que criou, parece que ela ao sair às ruas grafitando se sente a própria D. NitaTambém quando Aruane Garzedin grafita suas vacas ela está fazendo a interface entre o rural e o urbano. Quanto as vacas que ela grafita disse que "carregam muitos significados simbólicos e afetivos, além de remeter aspectos de uma urbanidade precária". As vacas precisam de espaço para andar e pastar enquanto os habitantes da Cidade precisam não apenas do seu lote onde está construída sua casa ou apartamento, eles necessitam sair e andar em calçadas largas e adequadas à acessibilidade. As calçadas também são locais de conversas, de jogar uma dama, comer um acarajé, um milho cozido, tomar uma água de coco. Para isto é preciso também arborizar a Cidade adequadamente com espécies que suportem o clima de uma Cidade que tem temperaturas altas e talvez a maior orla marítima no seu perímetro urbano. Portanto, enquanto pinta a Aruane Garzedin pensa em nossa Cidade e sua preocupação é pela melhoria da convivência social e em consequência a qualidade de vida das pessoas.

                                                                  EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Fez sua primeira individual a Escola de Belas Artes e a última em 2008, na Espanha. Vejamos: 2008 - “Membranas da Cidade”, na Caixa Cultural, em Salvador-Ba; 2000 - Matinada Galeria de Arte Barcelona – Espanha; 1999 - Centro Cultural Casals Sarrià Org. Associação Jovens Artistas, Barcelona – Espanha; 1998- Frazão Galeria de Arte Salvador – Ba; 1995 - Galeria ACBEU Salvador- Ba; 1992 - “O Artista em Destaque” Escola de Belas Artes – UFBA, Salvador- Ba. Ao lado vemos uma reprodução da capa do catálogo de sua exposição  em 1995 ,  na ACBEU.

                                               EXPOSIÇÕES COLETIVAS

Esta gravura ela fez durante
 um curso livre no Parque
 Lage, no Rio de Janeiro.
Já tem registradas várias participações em exposições coletivas aqui e fora do país a saber: 2018-  Leituras e Feituras / O Livro de Artista Árvore – Cooperativa deAtividades Artísticas, Porto, Portugal; 2017 -Livro de Artista,  Centro de Memória do IPAC, Salvador – Ba; 2016 -  Livro de Artista, Exposição Internacional Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador -Ba ; 2016 -  2ª edição do Festival de Graffiti Bahia de Todas as Cores - BTC, Madre de Deus, BA; 2014 -  Triangulações Circuito das Artes, Instituto Goethe, Salvador- Ba ; 2009-  Exposição 2.234 Brasil – Argentina – EUA – França – Espanha - Itália – Inglaterra, Centro Cultural Casarão, Salvador – Ba: 2009 - Arquitetos Artistas Museu de Arte Sacra, Salvador- Ba; 2009 -  Mulheres em Movimento – 2ª edição”, Galeria Cañizares , EBA /  UFBA, Salvador- Ba; 2008 -  Grandes artistas em pequenos formatos, Curadoria Prova do Artista, Museu Regional de Arte – UEFS, Feira de Santana – Ba ; 2005 -  VI Mercado Cultural da Bahia, Aliança Francesa, Salvador – Ba;  2004 -  Arte em Revezamento , Curadoria Matilde Matos, EBEC Galeria de Arte, Salvador – Ba;  2001 -  Exposição 500 anos do Descobrimento da Baía de Todos os Santos, Teatro Gregório de Mattos, Salvador- Ba; 2001 - Sete Caminhos Museu Náutico, Salvador- Ba ; 1997 -  Porto da Barra Espaço Cultural Telebahia, Salvador - Ba ; 1995 -  Projeto Persianas Criativas Shopping Barra, Salvador- Ba;  1995 - Janelas Casa do Benin, Salvador- Ba e em  1994 -  Bahia Arte Atual, Teatro Gregório de Mattos, Salvador – Ba.

 

 

 

 

sábado, 30 de março de 2024

BETH SOUSA UMA NEOEXPRESSIONISTA BAIANA

 Beth Sousa no ateliê com obras recentes .
Depois de algumas décadas reencontro a artista Beth Sousa uma das artistas que trabalha em seu ateliê no bairro do Rio Vermelho sem a pressa de atender aos modismos do mercado. Ela vai construindo a sua trajetória com calma e a delicadeza de uma mulher que foi uma rebelde na juventude e agora já madura leva sua vida em outro ritmo, com outra vibe, procurando fazer uma arte seguindo os caminhos dos seus sentimentos. Desde jovem que frequentava os cursos livres na Escola de Belas Artes e as Oficinas do MAM-Ba. Preferia muito mais estar nestes ambientes artísticos do que na escola formal onde ainda estudava o segundo grau. Inclusive me disse que andava com os jovens artistas da época, principalmente com os da Geração 70, os quais reuni numa exposição que fizemos e foi um grande sucesso no Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em Salvador. Foi sua irmã mais velha Neuza Sousa que vendo que ela estava criando algum desconforto em seus pais que eram evangélicos perguntou o que queria fazer da vida. Prontamente respondeu que queria fazer arte. Foi aí que Neuza Sousa se informou sobre os cursos livres e a direcionou para que frequentasse. Também falou da necessidade de concluir o segundo grau para que pudesse fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Assim a Beth Sousa se emprenhou em terminar o segundo grau, prestou vestibular e passou a cursar. Lembra que quando estava na EBA participou de feiras e sempre procurando comercializar seus trabalhos. Foi com o dinheiro de venda de suas primeiras obras e a ajuda da família que ela decidiu ir para a Alemanha.
Tem hoje uma forte influência do neoexpressionismo alemão e na conversa que tivemos contou o impacto e a sua emoção ao se ver diante das obras imensas de Anselm Kiefer, num museu na cidade de Karlsruhe, na Alemanha. O artista alemão Anselm Kiefer, nascido em 1945 é pintor e escultor e suas obras incorporam materiais diversos como argila, palha, goma-laca, cinza, dentre outros. Ele trata em suas obras do horror do Holocausto e também os conceitos espirituais da Cabala. Gosta ainda de abordar temas passados e recentes sem
Obra da Série Soft, inspirada nos cilindros
do papel higiênico, iniciada no ano 2000.

fugir das controvérsias.  Também Beth Sousa lembra dos impactos das obras de Antoni Tàpies (1923-2012) foi um pintor espanhol nascido em Barcelona, considerado um dos expoentes da arte do século XX, com seus trabalhos gestuais. E finalmente citou o francês 
 
Bernard Buffet (10 de julho de 1928 - 4 de outubro de 1999) . Ele estudou arte na Escola Nacional Superior de Belas Artes em Paris e trabalhou no ateliê de Eugêne Narbonne juntamente com outros artistas. Fez várias exposições períodicas e produziu algumas naturezas mortas, retratos e paisagens. Pintou também os horrores da guerra. No final da vida foi acometido pela doença de Parkinson e se suicidou com um saco plástico envolvido na cabeça. Disse Beth que as pinturas e as figuras em quadrinhos dos personagens de Buffet com os dentinhos lhe impressionaram bastante. Assim ela vem fazendo suas experiências depois desses contatos que teve com obras destes importantes artistas durante os dois anos que passou na Alemanha. Beth ficava tanto tempo extasiada com as obras dos museus alemães que em algumas ocasiões os funcionários a convidavam para sair porque eles iam encerrar as atividades naquele dia. “Inclusive, por mais de uma vez os funcionários dos museus ficavam impressionados porque eu gostava tanto de frequentar e olhar as mesmas obras”, disse Beth Sousa.

Obra inspirada nos versos do
poeta Manoel de Barros, 2022.
Além de frequentar com muita assiduidade os museus alemães em Karlsruhe, cidade onde morou, e também em outras que visitou ela participou de um curso livre de pintura de arte contemporânea, e paralelamente estudava a língua alemã. Beth Sousa  foi para a Alemanha porque na época as universidades no Brasil tinham greves duradouras e surgiu uma oportunidade de ir e ficar hospedada com a amiga que tinha uma bolsa para estudar artes plásticas a Suzana Nazaré Andrade que já estava por lá a algum tempo. Sua amiga se formou também em Economia e Jornalismo, e são amigas até hoje. Beth Sousa foi para a Alemanha em 1989 e lá trabalhou como garçonete, babá e outras profissões para se manter enquanto buscava mais informações e estudar a arte que lhe interessava. Foi para ficar apenas três meses, mas foi ficando. Disse que voltou com a cabeça completamente mudada e que a razão da volta foi porque já tinha dois anos fora e estava sendo ameaçada de ser jubilada da EBA.  O jubilamento foi um dispositivo criado durante o regime militar para expulsar do meio universitário estudantes chamados de “profissionais” que ficavam anos a fio militando participando da política estudantil e não frequentavam as aulas regularmente.

                                                    PENSAR ANTES

Obras atuais da Série Rejeitos de Mineração
inspirada na tragédia de Brumadinho que
destruiu povoado,matou dezenas de pessoas
 e causou grandes prejuizos à população
da área, em Minas Gerais, em 2019.
Antes do ato de pintar a Beth Sousa disse que passa por um processo de pensar bastante, e o que virá será uma consequência. Gosta de pintar ouvindo música de qualidade e enquanto estive em seu ateliê uma música jazzística embalava nossas conversas.   Terminou a Escola de Belas Artes e começou a expor e participar de salões ao mesmo tempo enquanto estudava. Lembra que na década de 90 mandou um trabalho para o Salão de Arte na Cidade de São Cristóvão, em Sergipe e foi premiada. Também foi premiada na I Bienal do Recôncavo, inclusive sua obra foi adquirida pelo cônsul holandês que promovia o evento. Quando ensinava nos cursos livres tanto na Escola de Belas Artes e nas Oficinas do MAM-Ba sempre motivou seus alunos a pensar antes de começar a utilizar os pincéis e tintas. Gosta de experimentar e disse que para chegar onde está ralou muito e desde antes de 1994 que vem construindo a sua história como artista. Percebi que Beth Sousa é muito consciente do que faz e que procura na medida do possível organizar sua trajetória, e tem uma certa organização de tudo que foi publicado sobre sua produção e sabe localizar com facilidade de acordo com os anos e as fases que foram importantes na sua vida de artista.

                                                             A TEMÁTICA

Beth com  obras  denunciando o perigo dos
Rejeitos de Mineração   no Brasil.
Quando estava na Alemanha lembra que foi assistir uma palestra do Secretário do Meio Ambiente, do Governo Fernando Collor de Mello, José Antônio Lutzenberger  (1926-2002) quando ele questionou os alemães que acusavam muito o Brasil de desmatamento e queimadas na Amazônia e outros crimes ambientais. O Secretário retrucou dizendo mais ou menos assim: vocês são também responsáveis porque compram madeira e os minérios, principalmente o alumínio para fabricar os seus móveis, carros e máquinas. Sua preocupação com o meio ambiente é antiga basta dizer que a primeira individual que fez foi no Instituto Cultural Brasil-Alemanha - ICBA, em Salvador-Ba, em 1994 chamada Paisagens Áridas. Ela não pintou a paisagem pela paisagem e sim pela pintura, pela cor e talvez a sua primeira apreciação foi feita por mim e publicada na coluna Artes Visuais, no Jornal A Tarde. Até hoje guarda este recorte do jornal, aliás ela tem também vários recortes, inclusive de outros jornais. Vi alguns com ilustrações que fez para um amigo que escrevia sobre música clássica no Caderno Cultural de A Tarde.  Lembrou que entre estas experiências que fez ia para a marmoraria pegar pó de mármore e nas serrarias coletar pó de serra e tudo isto colocava em suas obras. Jogava a tela no chão,ainda sem os chassis e fazia todo aquele processo que tinha visto nas obras do espanhol  Antoni Tàpies. Assim a Beth Sousa pintou suas paisagens áridas e corpos amorfos fugindo dos clichês que apresenta a paisagem pela paisagem. Aqui a cor e a expressividade ganham destaque com uma conjunção cromática predominando os tons ocres, laranjas, dentre outros criando uma atmosfera própria. Vi em seu ateliê uma tela com quase dois metros de comprimento onde Beth Sousa pintou uma paisagem imaginária e quando você fica diante da obra vai construindo mentalmente a sua própria paisagem, vai olhando aqueles pequenos traços horizontais que se multiplicam por todo o espaço e leva você a se afastar, a se afastar novamente para sentir a força desta obra e construir sua narrativa. Não as narrativas falsas que vemos se multiplicar na política atual, mas uma narrativa baseada no que está vendo, nas informações que possui e em seus sentimentos diante daquela obra. Lembra quando falei acima que a Beth Sousa se emocionava e até chorava quando via as obras dos grandes mestres do neoexpressionismo alemão? Não é preciso chorar, basta se emocionar!

O neoexpressionismo que ela se identifica nasceu como uma resposta de alguns artistas à arte moderna especialmente ao concretismo e ao minimalismo que se caracterizam pelo design e também pela simplicidade. Surgiu na década de 70 na Alemanha e se espalhou por todo o Continente europeu a partir da década de 80 até atingir os Estados Unidos, este grande mercado de arte. Os alemães costumam chamar de Neue Wild que significa Novos Selvagens e nos Estados Unidos de Bad Painting, pintura ruim ou suja. Mas, o importante é que hoje é um estilo concretizado e respeitado principalmente na pintura pela liberdade e o seu caleidoscópio de cores fortes e vibrantes.

                                           REBELDIA

Beth Sousa pintando um mural no
do bairro do Rio Vermelho
.
A jovem Elisabete Regina Conceição Sousa é filha do casal evangélico José Brito de Sousa e Isolina Conceição Sousa. Nasceu em onze de outubro de 1965, no bairro do Barbalho, em Salvador. O primário cursou na Escola Santo Antônio, uma escolinha particular, que funcionava no bairro onde morava. Estudou o ginásio dois anos no Instituto Feminino da Bahia e depois foi para o Colégio Serra Valle, na Pituba, onde concluiu o ginásio e o segundo grau. No colégio sempre foi uma aluna com certa rebeldia e desde esta época que passou a se interessar por arte. Ia para as Oficinas do MAM-Ba e depois para os cursos livres da Escola de Belas Artes, procurando se entrosar com os estudantes de arte daquela época. Adiantou que durante sua adolescência gostava mais de andar pelo Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM-BA. Estudou por lá e lembrou que o que sabe de gravura aprendeu com Paulo Rufino, estudou ainda com Guache Marques e Florival Oliveira no MAM-Ba e na EBA com o professor Luiz Gonzaga. Batia de frente com a rigidez de horários e outras exigências formais das escolas onde estudava.

Mesmo antes de se formar em Belas Artes começou a participar de exposições coletivas, e de salões que naquela época eram realizados em Salvador, especialmente no Museu de Arte Moderna da Bahia e também os salões universitários dos quais fui jurado em alguns deles. Beth Sousa disse que estava neste processo de mudança e passou a receber convites para expor. Ia para o campo para fotografar a paisagens e lá disse que encontrou outros elementos como alguns fósseis que passou a incluir em suas obras. Terminou expondo na França, Portugal e na Espanha juntamente com outros artistas. Nesta época estava estudando e experimentando as cores e os tons. Ficou buscando pintar com ausência do figurativo. 

Obra da série Paisagens Áridas, 1993.
Vamos dar um passeio sobre os momentos da arte de Beth Sousa a começar pela sua  Série Paisagens Áridas onde podemos sentir a influência direta de Anselm Kiefer .
Ela priorizou a policromia e direcionou o tema para o seu próprio contexto social.  Diz a artista que sobre os trabalhos da Série Paisagens Áridas: “A partir de 1993, já́ em Salvador, dei início a uma pintura com elementos amorfos, inspirada nas paisagens áridas do Nordeste da Bahia, com sua vegetaçã
rareada, pontuada de cactos, mandacarus e palmas. Dentro desta concepção, a vegetação, a terra e os animais carcomidos pelo tempo passaram a ser representados através de densas camadas de tinta acrílica com a sobreposição de materiais diversos como juta, placas de papel e imagens de revistas coladas sobre a tela. As paisagens, sempre retratadas sem a indefectível linha do horizonte, faziam com que os seus elementos se confundissem entre figura e fundo, instigando a percepção do observador e evitando uma leitura paisagística convencional.” E finaliza dizendo que os trabalhos realizados nesta série apresentavam figuras lânguidas, distorcidas e indefinidas que reproduziam a tragédia dos que “sobreviviam sob o sol causticante que o aquecimento global só́ tenderia a tornar ainda mais dramático.”

Obras da Série Fósseis, 1998.
Em seguida volta em 1998 Beth Sousa agora com a Série Fósseis depois de observar que este clima insípido do sertão nordestino resultava em mortes de alguns animais os quais deixavam nos seus restos mortais vestígios de sua passagem por aquela região. Disse Beth Sousa que “0 registro do processo de decomposição me instigou a desenvolver a Série Fósseis, mesmo sem a intenção de me aprofundar no estudo da Paleontologia. Ao incursionar pelo interior da sua massa corpórea, descobri a plasticidade das espinhas e do esqueleto fossilizados e de suas partículas, esta estrutura de ossos e esqueletos sem os quais o corpo seria uma massa amorfa, por sua correlação com o fim, a morte, tende a ser associado ao feio, repelente, aterrador.”

O que lhe interessava era a plasticidade das formas e os tons monocromáticos, valorizando o branco e eliminando os elementos que conjugavam a composição da fase anterior. Ainda com o mesmo estilo na representação dos elementos, a dualidade das imagens que se confundem com o fundo em um figurativo abstrato deixa a critério de cada espectador entrar na obra para formar as imagens de acordo com sua própria percepção”, declara.

Vemos uma obra da Série Soft inspirada na
plasticidade do cilindro do papel higiênico,
 2000/2006.
A terceira fase que ela denominou de Série Soft vai de 2000 a 2006 depois de quase uma década de “pesquisa de materiais, novas formas e temas emergiram e o que era amorfo começou a se definir. As figuras apareciam naquela ocasião com uma nova poética, ao pinçar elementos do cotidiano, captando sua essência plástica e elevando-os à dimensão de obra para a contemplação artística. Esta nova temática passou a compor os trabalhos de então com o resgate de objetos do dia a dia, a valorização da sua utilidade e conversão em tema para a representação artística é o ponto de partida” é bom salientar diz Beth Sousa que “é a plasticidade destes elementos que vai determinar a escolha como elemento central da composição. A opção de trabalhar privilegiando o papel higiênico se insere neste contexto. A partir daí́, no início da década de 2000, comecei uma nova série em grandes dimensões, intitulada Soft.”Lembra que “nos primeiros trabalhos, a imagem do rolo de papel ainda era indefinida, a percepção era concomitantemente visível e invisível, isto é, o elemento central da pintura era o rolo de papel higiênico solto no espaço, transpassado horizontalmente por um objeto cilíndrico, fora do seu contexto habitual. No entanto, desviei-me do caráter figurativo, narrativo ou ilustrativo da forma, neutralizando a representação.”

Objetos feitos de bonequinhos  plásticos,
que foram queimados para representar
as crianças chacinadas em 1993 no pátio
da Igreja da Candelária, RJ.
Os acontecimentos políticos, sociais e ambientais da sociedade brasileiras sempre são motivos para a artista se expressar através da sua arte engajada. Agora ela se debruçou sobre a chacina de crianças em frente à igreja da Candelária no Rio de Janeiro, Brasil e produziu a série Chacina utilizando linguagens diversas como esculturas, instalações e objetos. Guardou tudo isto durante a década de 1990 e seus trabalhos tridimensionais finalmente apareceram ao público na Série Chacina que curte e gosta de arte. Escreveu Beth Sousa que “eles surgiram como tradução da violência social brasileira, como representação de pessoas que se arvoravam de coragem para enfrentar as durezas da vida, daquelas que morreram na chacina da Candelária, enfim, do conturbado cotidiano da época. As terríveis imagens da chacina da Candelária em 1993 ficaram gravadas na minha mente, por muito tempo, trazidas pelas manchetes de todos os jornais e revistas que a ela se reportavam. Os trabalhos representados são de figuras mórbidas que retratam a imagem de um povo que sobrevive em condições sub-humanas”.Diz ter utilizado este conjunto de materiais simples como os pequenos bonecos de plástico com 10 cm de tamanho adquiridos em feiras e pequenas lojas populares de miudezas, São bonecos utilizados muitos por artesão como aqueles que conhecemos e são largamente vendidos aos turistas vestidos em traje típico de baianas.

Fotos do vídeo da Série Quem tem Medo
das Ginas, exibido no MAM-Ba, em 2012.
Finalmente temos a Série Quem Tem Medo das Ginas produzida entre 2008 a 2015 quando ela se utiliza da imagem de uma mulher loira e de olhos azuis, cabelos lisos para contestar este padrão estético de Gina pela mídia tradicional. “Confessa que “a partir da análise da imagem original estampada em uma caixa de palitos de dente questiono, ainda, estes ideais de beleza almejados pelas mulheres que, de um modo geral, procura incessantemente artifícios oferecidos pelo mercado para imitar as pops stars.” 
Diz ainda que “a pintura   já́ não me satisfazia plenamente enquanto forma de expressão, daí́ a necessidade de como  experimentar outras linguagens a fotografia, a videoarte, e novas web-artes surgiram através das formulações dos planos de aula, ainda como professora substituta da Escola de Belas Artes da UFBA (2008 /2010). Circundada por essas questões, atentei para o corpo e as tensões e cobranças que permeiam o universo feminino e fiz alguns laboratórios, na tentativa de me expressar através da imagem em movimento. A partir daí́, as reflexões deram encaminhamento a minha pesquisa teórico-prática, cujo tema foi o fio condutor para o desenvolvimento de uma poética.”

“A partir dessa experiência, senti a necessidade de maiores investigações sobre a corporeidade na arte contemporânea através das artistas precursoras da Body Art e de destacar as que subverteram os limites do corpo.” O contexto do vídeo feito em 2012 “trata de três personagens Gina, Regina e Efésios. As moças moram em um apartamento antigo no centro da cidade de Salvador, onde compartilham um cotidiano nefasto e uma semelhança em suas histórias de vida. Regina é modelo, 18 anos, negra, rosto infantil, olhar triste, alta e anoréxica. Sua personagem chama a atenção para a exploração do feminino pelas mídias e pela publicidade quando mostra a esqualidez do seu corpo. A representação do corpo feminino anoréxico é uma reflexão da cultura lipofobia, o culto ao corpo e a tirania midiática determinada pelo mecanismo do mercado como contragolpe as manifestações dos anos setenta. As maiores vítimas da obsessão à magreza são as adolescentes, alvos de preferência do mercado. As jovens que sonham em conseguir um lugar no pódio como top model, influenciadas pelas falsas promessas ilusórias da mídia, submetem-se as dietas exageradas que, muitas vezes, as levam à morte.”

                                PRÊMIOS E EXPOSIÇÕES

Obra exposta na 2ª bienal de Gaia,
 Portugal,2017. Acrílica sobre tela.
Em 2012 - Contemplada pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Fundo de Cultura) com o Projeto “Quem Tem Medo das Ginas”; 1991 - Menção Especial l Bienal do Recôncavo, São Félix-Ba, Centro Cultural Dannemann e em 1991 – 1º Prêmio do Vll Salão FASC de Artes Plásticas, São Cristóvão - SE, Universidade Federal de Sergipe. 

Já fez três exposições individuais sendo a primeira em 2012 – Quem Tem Medo das Ginas – Museu de Arte Moderna da Bahia; 2005 - Arte Soft no  Hotel Sofitel – Salvador BA) e 1994 - Beth Sousa (Galeria ACBEU – Salvador – BA).  Participou de  exposições coletivas aqui e fora do país. Vejamos em 2020 – Arte Como Respiro – Itaú Cultural – SP; 2020 – 20º Salão Nacional de Pequenos Formatos de Britânia - GO; 2018 – Arte de Passagem – Itinerância pela Arte Contemporânea da Bahia (Museu de Arte da Bahia); 2018 – II Feira de Arte de Goiás (Fargo), (Vila Cultural Cora Coralina - Goiânia – Go); 2017 – 2ª Bienal Internacional de Arte Gaia. (Gaia-Portugal) ; 2011- Entre Folhas Galeria Cañizares - Salvador - BA); 2010 - Corredores Digital /Curadoria com Caetano Dias (CASACOR BAHIA); 2010 - Entre Folhas (Centro Cultural Dannemann); 2009 - Circuito das Artes ( Galeria ACBEU – Salvador - BA); 2009 - Lançamento do Catálogo do Acervo do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA); 2009 - Mulheres em Movimento (Galeria Cañizares – Salvador - BA);  2009 - Circuito das Artes (Galeria ACBEU - Salvador - BA); 2007 - Circuito das Artes, (Palacete das Artes); 2006 - Nove de Fora, (Galeria Por Amor à Arte – Porto - Portugal); 2006 - Olhar Contemporâneo , (Galeria de Artes Paulo Darzé́; Salvador – BA); 2005 - Bahia à Fora (Galeria Terra Fértil - Buenos Aires); 2004 - Coletiva , (Galeria ACBEU –Salvador – BA); 2003 - Exposição Coletiva ICBA - Instituto Cultural Brasil Alemanha  ;   2003 – Exposição Lançamento do Catálogo do Acervo da Galeria ACBEU , (Galeria ACBEU - Salvador – BA); 2002 - Exposição Coletiva , (Galeria de Artes Paulo Darzé́ - Salvador - BA);  2002 - IV Mercado Cultural , (Galeria ACBEU - Salvador - BA); 2002 - Pintura Bahia 2002 (MAM-BA); 2001 - Exposição Coletiva , (Galeria ACBEU Salvador Bahia ); 2001 - 14 Fragmentos Contemporâneos, (Galeria 57 – Leiria - Portugal);  2000 - Exposição Coletiva , (Galeria ACBEU Salvador Bahia); 2000 - Exposição Coletiva  , (Galeria Moacir Moreno Salvador -BA); 2000 - Exposições Comemorativas aos 25 anos da Galeria ACBEU (Galeria ACBEU Salvador Bahia); 1999 - Exposição Arte Salvador 450 anos (MAM-BA); 1999 - Pintura Contemporânea da Bahia (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Recife - Pernambuco);1999 - 100 Artistas Contemporâneos da Bahia (Museu de Arte Sacra- BA)  ; 1998 - Arte Salvador 450 Anos (MAM-BA); 1998 – Exposição Ba - Go Brasil ,(Fundação Jaime Câmara – Goiás); 1998 - Bahia à Paris, (Galeria Magnan – Paris - França); 1998 - Pintura Contemporânea da Bahia - (Galeria Arvore – Porto- Portugal). 1998 - Tropicália 30 anos (MAM-BA); 1997 - 7 Artistas Contemporâneos Baianos (Central Hispano – Barcelona- Espanha);1997 – Exposição Porto da Barra (Espaço Cultural Telebahia – Salvador - BA); 1996 - lll Salão MAM Bahia de Artes Plásticas (MAM-BA); 1996 – Exposição Ararinha Azul (MAM-BA); 1995 - Exposição Comemorativa 20 anos da Galeria ACBEU, (Galeria ACBEU - Salvador) ;1995 - lI Salão MAM Bahia de Artes Praticas (MAM-BA); 1995 - lll Bienal Do Recôncavo (Centro Cultural Dannemann – São Felix- BA); 1995 - UFBA Traduz Bahia (Galeria Cañizares – Salvador-Ba); 1994 - Artistas Emergentes da Bahia ; 1994 – X Salão FASC de Artes Plásticas (Centro de Cultura e Artes – Universidade Federal de Sergipe); 1991 - Exposição dos Artistas Premiados da l Bienal do Recôncavo (Fundação Gregório de Mattos Salvador Bahia) e em 1991 - I Bienal do Recôncavo (Espaço Cultural Dannemann São Felix – BA).


 

sábado, 23 de março de 2024

MÁRIO BRITTO SE EXPRESSA INFLUENCIADO PELA POP ART

Mário tendo atrás  obra de 
sua autoria de uma mulher
oriental.
O artista baiano Mário Britto é pintor, desenhista, ilustrador, muralista, restaurador e educador. Desde os quatro anos de idade que começou a desenhar e era um preocupação para a família porque se tivesse um lápis ou uma caneta nas mãos ia desenhando em tudo que encontrasse pela frente. Em sua casa tinha um conjunto de móveis forrado de napa  e ali ele se jogou e desenhou tudo que vinha na cabeça. Seus pais ficaram aborrecidos, mas o seu talento foi defendido por um tio que era arquiteto e trabalhava na tradicional Loja Oswaldo Araújo, que vendia materiais para arquitetos e engenheiros, situada na Rua Carlos Gomes, no Centro de Salvador-Ba. Seu pai tinha uma pequena escola chamada de Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, que funcionava num imóvel perto do cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação, e foi lá que concluiu seu curso primário e o ginasial na Escola São José, localizada na Rua da Imperatriz, e em seguida foi fazer o segundo grau no João Florêncio Gomes, no bairro Ribeira, em Salvador-Ba. Sua família morava próximo no bairro da Boa Viagem onde passou sua infância, mas confessa que não teve muita liberdade porque seus pais não deixavam que fosse brincar na rua com receio da violência, que já começava a assustar as famílias baianas. Seu pai tinha a escola, mas também exercia a função de escrivão na Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia. Talvez pela proximidade com as ocorrências policiais ele protegia mais os filhos e evitava muita exposição nas ruas. Já sua mãe Noely Pessoa Gomes era enfermeira e trabalhava no Hospital das Clínicas, da UFBA.
Vemos uma bela natureza morta
onde a leveza encanta os olhos.

O seu tio Wilson Pessoa Gomes passou a lhe fornecer cadernos e lápis de cor para que desenhasse até que ao terminar o segundo grau no Colégio João Florêncio Gomes, no bairro da Ribeira, em Salvador-Ba, ele decidiu que queria fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Porém, seu tio e os pais pressionaram para que fizesse para arquitetura, e assim ele se inscreveu e foi aprovado na segunda opção que foi Geografia. Em 1989 o vestibulando tinha que colocar três opções quando iria fazer o vestibular. Começou a frequentar, mas sentiu que não era a sua praia porque o que mais lhe assustou é que o curso de Geografia tinha muita Matemática, disciplina que muitos evitam. Porém, saía todos os dias de casa para a faculdade e pouco frequentava as aulas de Geografia. Isto até que o ano acabou e sem ninguém saber se inscreveu para um novo vestibular desta vez para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, sendo aprovado e foi aí que realmente se encontrou com seus desejos e aptidões.

                                                        SONHO REALIZADO

Página do Jornal A Tarde
 da História em Quadrinhos
da Batalha de Pirajá.
Disse Mário Britto que aí seu sonho começou a se realizar e lembra que teve bons professores como a Graça Ramos, os saudosos Ailton Lima e Riolan Coutinho, dentre outros. Seu gosto pelo desenho o ajudou nas disciplinas e sempre era um dos mais destacados nos exercícios e trabalhos da EBA, onde se formou em 1995. Mas, ao terminar a Escola de Belas Artes e foi enfrentar o mercado sentiu muito as dificuldades e a falta de apoio que encontram os jovens artistas em nosso país, e particularmente na Bahia. Lembro que nos anos 70 e 80 existiam em Salvador-Ba um número considerável de galerias e outros espaços culturais que davam oportunidades aos jovens artistas, inclusive buscavam empresas para ajudar no patrocínio do convite, do coquetel e outras despesas para a realização de uma exposição. Fez trabalhos de restauração em obras de arte da Associação Comercial da Bahia dentre outras e também algumas curadorias.

O Mário Britto fez sua primeira exposição na Galeria do Aluno  da EBA, em 1993, local onde os alunos  dão os primeiros passos visualizando o aprendizado e o mercado de arte. Nesta estreia eles vêm a reação do público, os elogios fáceis de parentes e amigos e algumas críticas positivas ou não para que possam corrigir e melhorar seu desenho, sua pintura. Porém, com Mário aconteceu diferente porque quando ele ainda estudava o primário da Escola Sítio da Petizada, com onze anos de idade   participou de um concurso promovido

Obras de Mário Britto com
rostos de mulheres,tema que
ele aprecia muito pintar.
pela rede de supermercados o Paes Mendonça, que era proprietária dos principais mercados de Salvador, e foi vencedor . Isto foi no ano 1979 quando a rede de supermercados foi inaugurar a loja no bairro do Pirajá, local onde se desenrolou a famosa Batalha de Pirajá ocorrida em 8 de novembro de 1822. Porém, os baianos só expulsaram definitivamente os invasores portugueses em 2 de julho de 1823, consolidando definitivamente a Independência do Brasil. A empresa de publicidade Publivendas que atendia a conta do Supermercado Paes Mendonça, dirigida pelo saudoso Fernando Carvalho, teve a ideia de realizar este concurso e a premiação era uma viagem à Disney do estudante vencedor oriundo de um colégio público com direito a levar um acompanhante com todas as despesas pagas pela empresa. Era um concurso de redação sobre a Batalha de Pirajá. Porém, o Mário Britto teve uma sacada diferente e fez seu trabalho com uma História em Quadrinhos contando a saga dos baianos naquela batalha sangrenta onde saíram vencedores. A comissão gostou da ideia e o premiou.
Como podemos observar Mário Britto tem uma predileção por pintar a mulher  me disse que isto acontece devido "a beleza, a plasticidades  e a inteligência das mulheres". Fez algumas exposições com a temática baseada na pintora mexicana Frida Khalo e devido a ter feito essas exposições homenageando a feminista alguns insistiam em chamá-lo de "o pintor de Frida Khalo", coisa que ele acha normal, mas não concorda porque sua obra é  versátil e abrangente.Todo seu processo pictórico parte do  imaginário , mas ele tem uma pegada de influência da Pop Art que surgiu nos anos 50 e se espalhou pelo mundo tendo o Andy Wahol como um dos seus mais conhecidos representantes. Este movimento se  identifica com temas relacionados ao consumo, a publicidade e ao estilo de vida americano. No entanto, esta denominação surgiu em 1950 na Inglaterra. Vemos portanto, que as mulheres de Mário Britto têm uma semelhança com personagens de Histórias em Quadrinhos e desenhos publicitários. O colorido é forte, os traços livres e um pouco caricaturescos, mas a sua arte tem a influência também na cultura baiana . É preciso ter um bom domínio do desenho para se chegar a este nível de pintura.

                                                                         GALERIA 13

Mário Britto ao lado do galerista
e performático Deraldo Lima
.
Foi a icônica Galeria 13 localizada na Rua das Laranjeiras, 13, no Centro Histórico de Salvador-Bahia criada pelo artista  performático Deraldo Lima onde ele fez a primeira exposição num espaço comercial. É bom dizer que o Deraldo quase não queria receber nada dos artistas, era um homem completamente desconectado com dinheiro. Gostava de estar no meio dos colegas artistas e sempre procurava fazer suas performances e até chegou a pintar. O Mário Britto faz questão de dizer que Deraldo Lima foi fundamental para que ele continuasse como artista porque “a Galeria 13 era um espaço democrático e lá a gente encontrava muitos colegas e também alguns malucos do bem! O Deraldo Lima confiou no meu trabalho, sendo eu um artista iniciante, e quando vendi algumas obras ele não queria receber a comissão, mas fiz questão de pagar, porque sabia da dificuldade e dos custos para manter uma galeria em funcionamento," disse Mário Britto. 

Xilogravura colorida 
de Mário Brito.

“Depois fiquei sabendo que ele tinha herdado uns imóveis na área e que recebia aluguéis, mas  resolveu vende-los e comprou um sítio no subúrbio nas bandas de Periperi. Porém, anos depois ele vendeu e retornou para o Gravatá, que foi onde permaaneceu  morando por mais tempo em Salvador. Infelizmente foi consertar o telhado e subiu numa escada e terminou caindo e falecendo desta queda”, disse Mário Britto.

Fez exposições individuais: 2018 – Bazar /Artes do Artista Visual Mário Britto, na Galeria Pousada Solar das Artes na Rua das Laranjeiras, Pelourinho, Salvador/Ba; 2015 – Exposição Devaneios sobre Frida Kahlo, na Pousada Solar das Artes, no Pelourinho, Centro Histórico, Salvador - Ba; 2013 – Exposição Frida Kahlo in Neverland, na Casa 14 Galeria, no Centro Histórico. Salvador – Ba; 2012 Exposição   Dois Mundos, no Teatro XVIII, no Centro Histórico, Salvador – Ba; 2011 Exposição Frida Face’s, no Teatro do Gamboa Nova em Salvador-Ba; 2008 Exposição “Frida Kahlo na Livraria  Siciliano , no Shopping Iguatemi, Salvador – Ba; 2007  Exposição Fixação e Ficções Sobre Frida Khalo, na Galeria Nelson Dahia, no espaço SENAC – Pelourinho ,  Salvador – Ba; 2006  Exposição Frida Kahlo e o Deserto de Cactos Amarelos, na Galeria de Arte Carlo Barbosa, em Feira de Santana – Ba; 2004 Exposição Revisitando Frida Kahlo, na Galeria Moacir Moreno ,Teatro XVIII, Salvador – Ba; 1998 a Exposição  Aeroanjos, na Galeria XIII no Centro Histórico, Salvador- Ba e em 1993 a Exposição Darkness, na Galeria do Aluno, Escola de Belas Artes, bairro do Canela, Salvador – Ba.

Um dos quatro murais que Mário fez
para o Shopping Liberdade em 2003.
Entre as várias exposições coletivas que participou destaco: 2020 a Expô Coletiva , na Pousada Solar das Artes, Centro Histórico, Salvador, Bahia; 2016 A Exposição Imago Mundi, por .Luciano Benetton Collection, em Veneza, Itália; 2014 - Reabertura da Galeria 13, na Casa de Batatinha, numa Homenagem a Deraldo Lima no Bar Toalhas da Saudade, Ladeira dos Aflitos, Salvador-Ba; 2010 A Exposição Divas & Amp Pin Up’s, Galeria Moacir Moreno, no Theatro XVIII, no Centro Histórico, Pelourinho, Salvador-Ba; 2009;  Exposição Melleril , Retrospectiva Sincrética, no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira (MAC), em Feira de Santana -Ba; 2009 a Exposição APRAZ -  A paz Sincrética, na Biblioteca Juracy Magalhães Junior, Ilha de Itaparica – Ba; 2008 Exposição Coletiva Caminhos Plásticos, Casa do Benin, Salvador-Ba; 2008 a mostra  Paisagem Urbana -  Intestino da Cidade III, Espaço Solução Visual, Salvador-Ba; 2007  a Exposição Intestino da Cidade II, Curadoria  da professora Graça Ramos, na Galeria de Arte Pouso da Palavra, em Cachoeira, no Recôncavo -Ba; 2007  Exposição Intestino da Cidade, no Centro Cultural Dannemamm, na cidade de São Felix-Ba; 2007 a Exposição coletiva Transgenias Virtuosas , na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos - ACBEU – Pátio das Artes, Stiep , Salvador- Ba; 2007 - Exposição Psilocibina, Visões Sincréticas dos Paraísos Artificiais, no SESC- Casa do Comércio, Salvador-Ba;

Cartaz-convite da exposição
 Bazar das Artes.
2006 a Exposição Corpus Híbridus, Galeria do EBEC, Pituba, Salvador-Ba; 2005 a Exposição coletiva Excesso na Galeria Pierre Verger, nos Barris, Salvador-Ba; 2003 Exposição Todas as Mulheres do Mundo, Galeria do Bar Quixabeira, nos Barris, Salvador-Ba; 2000 A Primeira Mostra de Arte Solidária, no Conjunto Cultural da Caixa Econômica, Salvador-Ba; 1999 a Primeira Exposição Leilão de Arte do GACC , no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; 1998  a Exposição 89 Revisto, no Bar Alambique, no bairro do Rio Vermelho, Salvador-Ba; 1998   a coletiva Ave Crist , na Galeria Pedro Archanjo, Centro Histórico, Salvador – Ba; 1998  a Exposição coletiva Belos e Malditos, na Galeria XIII , no Centro Histórico, Salvador-Ba; 1997 a mostra Linguagem do Caos, na Galeria XIII; 1995 a Opus 40, no Teatro Gregório de Mattos, Salvador-Ba e em 1995 participou da coletiva Fragmentum, no Shopping Barra, Salvador – Ba. Participou ainda em 2009 dos Salões Regionais de Artes Visuais da Bahia com o coletivo Arte Sincrética, em Porto Seguro, Bahia e em 2005 do XXXI Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia.

                                                           RESTAURADOR E MURALISTA

Mário Brito pintando o mural no
porto  "Berimbaus ao Mar".
.
Já trabalhou na restauração de várias obras de arte em Salvador como na coleção da Associação Comercial da Bahia e na restauração do belo e grande painel de Lênio Braga, na Estação Rodoviária, de Feira de Santana, Bahia. Em 2004 trabalhou na restauração de imagens na igreja de São Francisco, em Salvador, dentre outros trabalhos de restauro. Executou em 2003 quatro murais nas paredes do Shopping Liberdade, no bairro do mesmo nome em Salvador -Ba com os nomes de Visões Aquáticas I e II, Baiana na Lavagem e Capoeiristas em Mosaico. Em 2002 executou um mural na parte de embarque no Terminal Marítimo de São Joaquim, em Salvador. Em 1998 participou do projeto de Execução de murais no porto de Salvador quando foi um dos selecionados pela Companhia de Navegação Baiana – CODEBA quando pintou o mural Berimbaus ao Mar.