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quarta-feira, 10 de junho de 2020

IVO NETO PRESERVA NOSSO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Ivo Neto copiando um azulejo português.
O    Ivo Neto é um dos últimos pintores voltados a retratar as belezas do rico patrimônio histórico e religioso que a nossa Bahia ainda  tem. Como um monge passa horas e horas  enclausurado no silêncio dos mosteiros , conventos e nas  igrejas copiando pacientemente seus ricos azulejos, a grandiosidade de sua arquitetura e as lindas imagens . Sem a preocupação de realizar uma documentação sistêmica ele dá uma inestimável contribuição para que no futuro as gerações que virão possam lembrar deste seu trabalho preservacionista. 
 É bom ressaltar que é um dos bons restauradores que existe em nossa na Bahia , inclusive já foi realizar trabalhos de restauração em outras cidades e até fora de nosso Estado . Disse o artista que "em Salvador participei dos restauros do plenário da Câmara Municipal, do Palácio Rio Branco, Catedral Basílica, igreja de São Raimundo, altares da igreja de São Francisco e Assis .Trabalhei ainda em Cairu, Santo Amaro, Cachoeira, Feira de Santana, e também nas cidades de Maceió e Penedo, no estado de Alagoas."
Ao falar de Ivo Neto sempre me vem à memória ele sentado num banco ou numa cadeira diante de  seu cavalete . Na mão  um lápis para  rabiscar  as curvas dos floreios , figuras e o casario que compõem cada um daqueles azulejos portugueses que enfeitam as grossas paredes dos prédios históricos e religiosos da velha Bahia. 
O artista faz retratos de religiosos
Também aproveita para fazer retratos de importantes personalidades e religiosos que dirigem estas congregações . Realiza seus trabalhos em óleo sobre tela, acrílica , nanquim e pastel seco , além do seu trabalho de restauro. 
Em resumo este é o foco principal da produção deste artista nascido em Salvador, que há trinta e cinco anos  vem calmamente transferindo para suas telas e papéis o rico acervo histórico e religioso da nossa terra. Antes do confinamento Ivo Neto me informou que estava fazendo uma releitura em acrílica sobre tela e aquarelas dos azulejos portugueses no claustro de Convento São Francisco de Assis, que fica no Terreiro de Jesus, em Salvador.

                                                                
                                    SUA  HISTÓRIA

Lembra que deu seus primeiros passos no universo da arte através de seu pai o pintor Ivan Lopes nos idos de 1975.  Completou  35 anos como profissional , e seu atelier fica em sua residência no bairro de Cosme de Farias.
É graduado em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e sempre faz questão de ressaltar a importância dos professores Ailton Lima  ( Desenho de Observação) e Ivo Vellame (História da Arte) , ambos falecidos,  os quais tive o prazer de conhecer .
Tela da sede do Museu Eugênio
Teixeira Leal 
Ele diz que os museus de Arte Sacra da Bahia, Eugênio Teixeira Leal e da Santa Casa de Misericórdia estão bem estruturados. Lamenta o fechamento do Museu da Cidade do Salvador, onde tem uma obra de sua autoria no acervo. Tem ainda obras nos acervos do  Convento de São Francisco de Assis e no Museu Eugênio Teixeira Leal.
Falando sobre o mercado de arte baiano disse que neste momento encontra-se muito fraco, e que sua arte é mais valorizada por visitantes de outros estados e até do exterior. 
Defende que é preciso maior segurança  e que a Prefeitura precisa liberar os artistas para pintar e comercializar suas obras de arte   na área do Centro Histórico. Também entende que as secretarias de Cultura do Estado e da Prefeitura poderiam investir na capacitação dos profissionais da área do restauro para que a manutenção dos monumentos históricos e religiosos seja feita diariamente. Assim, evitaria muitos danos, alguns até irrecuperáveis, devido a demora das  ações de restauração.



sexta-feira, 5 de junho de 2020

JACY BRITTO UMA INCENTIVADORA DA ARTE

Jacy Britto a grande incentivadora
 da arte baiana.
Hoje vou falar aqui de uma figura emblemática da arte baiana que foi a galerista Jacy Britto, que com sua Galeria O Cavalete , fundada em 1971, localizada no bairro do Rio Vermelho e depois em Ondina. Durante anos a fio promoveu e ajudou jovens artistas a se firmarem no mercado de arte. Lembro de sua figura pequena e forte com um cigarro eternamente entre os dedos procurando dar atenção a todos que chegavam para participar da abertura de uma nova exposição. Ela promovia anualmente uma Feira de Arte e expunha os quadros e esculturas no jardim defronte a sua galeria reunindo obras de artistas que expuseram na mesma durante aquele ano e também outros que democraticamente queriam se inscrever. A primeira Feira de Arte foi realizada em 1976.
Jacy não era uma simples galerista que comercializava obras de arte, e sim uma pessoa antenada que orientava os artistas, ajudava a selecionar as obras a serem expostas e mostrava caminhos a seguir. Enfim, fazia também o importante papel de educadora, inclusive dirimindo possíveis atritos entre os artistas seus amigos. 
Convite da II Feira de Arte
em dezembro de 1977.
Lembro de algumas exposições promovidas por Jacy Britto  entre elas a  do  italiano Antonello L'abbate em 1974; do artista e poeta pernambucano Augusto Rodrigues em 1975; Adelson do Prado e J. Cunha   em 1975;do  feirense  Carlo Barbosa em 1976; Carl Brussel , Leonel Brayner e dos escultores Tati Moreno e Margareth Moura todos em 1977; Gilberto Salvador em 1978; Carlos Bastos em 1979;em 1983 ela promoveu uma exposição coletiva chamada Papel reunindo vários artistas entre eles o Almandrade ;Claudio Tozzi em 1984, além de uma coletiva reunindo  12 artistas para comemorar os 13 anos de fundação da galeria chamada "Rio-Bahia nas Águas das Artes", entre eles Justino Marinho , Zivé Giudice, Bel Borba , Anísio Dantas , Chico Diabo e  Jadir Freire ; Asênsio em 1985; Lígia Milton em 1986;Aprígio em 1987; Mário Cravo e Caetano Dias em 1989, dentre muitas outras.
Enfrentou com determinação durante anos as dificuldades impostas pelo incipiente mercado de arte baiano , com seus altos e baixos. Sempre com um sorriso nos lábios a querida Jacy acolhia a todos com o seu carinho quase maternal. Vi muitos artistas que hoje seguem suas carreiras vitoriosas sendo acolhidos por Jacy, que muitas vezes comprava seus quadros a fim de garantir-lhes a sobrevivência, mesmo estando o mercado em momentos de recessão. 
 Sérgio Velloso, Chico Diabo  Jacy Britto , 
Liane Katsuki e Justino Marinho. 
É importante lembrar o contexto quando  nosso país passou  durante os anos que se seguiram à chamada abertura democrática a conviver  com vários planos econômicos e  inflação galopante. Muitos destes planos foram catastróficos para a economia do país , e assim piorava o mercado de arte.
As pessoas ficavam preocupadas com a própria sobrevivência , e como a arte não é um produto de primeira necessidade, deixavam logo de adquirir obras de arte. Assim muitas galerias fecharam suas portas, e a Jacy Britto continuava firme no seu propósito de lançar novos artistas e de comercializar arte.
Jacy Britto faleceu no ano passado no dia 8 de maio. Não fui ao seu sepultamento porque estava ausente de Salvador , e lamento não estar presente para prestar-lhe a última homenagem, o que agora faço aqui para que fique registrado o nome desta figura ímpar, que tanto fez pela arte da Bahia.

DEPOIMENTOS :

O mestre Juarez Paraíso
Juarez Paraíso - " O universo das galerias de arte ultrapassa os limites de sua função comercial e alcança a esfera da educação artística. O surgimento da arte moderna na Bahia, nos anos 40,contou apenas com alguns espaços expositivos e uma única galeria de arte , a Galeria Oxumaré, que funcionava no mesmo prédio do então Hotel Plaza , na Vitória. Nos anos sessenta , surgiram duas importantes galerias a Quirino e a Convivium. Mas, nos anos setenta , um dos destaques coube à Galeria O Cavalete, de Jacy Britto   , Dona Jacy, como era melhor chamada. Estimada por todos os artistas, a sua educação e gentileza, a distinguia como uma verdadeira dama das artes plásticas. Dedicada principalmente aos artistas baianos , foram centenas de exposições de artistas já consagrados , mas principalmente de artistas jovens, emergentes ou não. As exposições eram sempre bem preparadas e bastante concorridas , devido a dedicação e o profissionalismo de Dona Jacy. E lá estiveram de Mário Cravo Jr.  à maioria dos artistas da década de 70."

Leonel Brayner 
Leonel Brayner - "Minha primeira exposição em Salvador foi em 1977 na Galeria O Cavalete de Jacy Brito. Ela  não era apenas uma galerista e marchand, mas sobretudo uma apaixonada pelas artes e pelos artistas. Além de prestigiar seus trabalhos criava uma amizade quase maternal com todos eles. Certamente eu não seria o pintor que hoje sou se não tivesse tido o apoio e amizade de Jacy em meus primeiros dias nesta abençoada terra de Nosso Senhor do Bonfim. Jamais a esquecerei."
Leonel Mattos
Leonel Mattos - "Uma grande marchand, incentivadora e gostava de reunir os artistas todas as tardes na sua galeria. Realizei três exposições individuais na Galeria O Cavalete  e numa delas Jacy adquiriu todos os quadros, com o objetivo de ajudar a seguir o meu caminho. Entendo que a Bahia deve uma justa homenagem dando um nome de uma rua a Jacy Britto ou de um espaço cultural. Os baianos precisam valorizar mais seus verdadeiros valores ",
Zivé Giudice 

Zivé Giudice - "A atividade de galerista e marchand, quando exercida com a nobreza, generosidade, acuidade conceitual e senso crítico como o fazia Jacy Britto, proprietária da Galeria O Cavalete, contribui não só para a ativação do mercado de arte, mas, sobretudo, participa do processo civilizatório, quando divulga e oferece ao público, a produção de seus artistas. Jacy sem perder o senso crítico , foi uma espécie de mãezona dessa geração. Generosa, apaziguadora, mediava sempre os conflitos de ordem estético e conceitual. A Galeria  O Cavalete , durante as décadas de 70 e 80 protagonizou as mais conceituadas exposições de arte contemporânea, de artistas baianos e brasileiros. Figura extraordinária."
O artista Almandrade
Almandrade - "Comecei a frequentar a Galeria O Cavalete em meados da década de 1970, a galerista Jacy Britto sempre foi receptiva com os artistas emergentes e cedeu seu espaço para as nossas primeiras exposições no mercado de arte. Muitos dos artistas surgidos nos anos 70 participaram de exposições na Galeria O Cavalete, eu mesmo participei de algumas coletivas entre o final de 1970 e a década de 80. Jacy Britto com sua generosidade manteve a galeria à disposição de nossos projetos e deu uma contribuição e incentivo na renovação do cenário de Artes Plásticas na Cidade do Salvador."


Sérgio Velloso
Sérgio Velloso - "Jacy Britto, a querida amiga e proprietária da galeria O Cavalete reduto artístico e cultural da cidade nos anos 70 /80 foi uma mulher à frente de seu tempo. De personalidade forte, sensibilidade aguçada, livre de preconceitos, de grande conhecimento artístico e conduta singular na direção de sua famosa casa de arte, como marchand competente e exigente na qualidade dos trabalhos que ali seriam expostos. Não distinguia na maneira de acolher e no trato, os grandes expoentes das artes plásticas , ou os novos talentos que ela sabiamente identificava e lançava no mercado com o seu incentivo e respaldo . Impossível separar a profissional competente  do ser humano especial que habitava naquela figura tão elegante e tão simples na sua maneira educada e delicada de tratar a todos, sem distinção. Os almoços  que ela promovia aos sábados em sua residência , reunindo os amigos para celebrar a vida com arte e alegria , foram momentos marcantes na vida de todos que tiveram a oportunidade de desfrutar daquelas reuniões inesquecíveis sempre homenageando um artista da cidade ou personalidades de fora, de passagem por Salvador. O mundo mudou. O mercado de arte tomou novos rumos e formas, assim muitos não entenderão o sentimento e sensação de que nada será como antes, para quem teve a honra e o privilégio de conviver e trabalhar com figura única e brilhante como
 Jacy. !" 
Justino Marinho
Justino Marinho - "Conheci Jacy Britto na segunda metade dos anos 1970. Era uma pessoa maravilhosa  um ser humano sensacional. Mãe de 6 filhos, e também uma espécie de mãe de dezenas de artistas. Uma pessoa muito importante na minha vida. Foi um marco nas artes da Bahia. Promoveu muitos jovens e realizou grandes exposições. A Galeria O Cavalete funcionou no Rio Vermelho e depois em Ondina. Fiz uma exposição na galeria em 1985.Foi através de Jacy que conheci vários artistas. O então desconhecido pintor Aurelino era assíduo frequentador da galeria,  e foi Jacy uma das pessoas que comprou  seus primeiros trabalhos e iniciou a sua divulgação. Uma curiosidade: Acreditem ou não,  a Janis Joplin e o roqueiro Sergei almoçaram com a turma na casa de Jacy, num dia de sábado. Muitas outras figuras importantes  também almoçaram conosco". 
reynivaldobritoartesvisuais.blogspot.com




segunda-feira, 18 de maio de 2020

ONDE E COMO ESTÁ O ACERVO DO MUSEU DA CIDADE ?

Fachada do Museu da Cidade fechado há vários anos

"Qualquer coisa que vocês façam contra a sua   preservação e o bom funcionamento,
me faz sofrer 
como se fosse atingida pessoalmente".
Elyette Guimarães de Magalhães, idealizadora do Museu da Cidade do Salvador.
Ela faleceu no dia 20 de agosto de 2017.
Vivemos numa Cidade rica em História e Cultura porém seus gestores - tanto do Estado  quanto da Prefeitura - ao invés  de incentivar e promover os mais significativos movimentos culturais e seu patrimônio histórico e cultural os colocam em segundo plano.Focam no Carnaval, que é uma festa que dá a eles visibilidade, e engana o povo. É o que os cientistas políticos costumam chamar de "circo". Observe que ano após ano o número de dias dedicados ao Carnaval só aumenta, invadindo até a Semana Santa, antes guardada com muito respeito pelos católicos. Os investimentos são vultuosos e sempre dão a desculpa que é patrocínio da empresa privada. Por quê não arranjam patrocínio para os eventos culturais, a manutenção e compra de novas obras para os museus? Simplesmente, porque isto não dá muita visibilidade e votos. Preferem que o povo fique cada vez mais inculto e tome-lhe circo. Hora de balançar a bunda !
Catálogo de inauguração do Museu
da Cidade 
Fiz esta introdução para falar de um absurdo cometido pelo Prefeito ACM Neto que foi o fechamento do Museu da Cidade do Salvador, localizado no coração do Centro Histórico, que é o Largo do Pelourinho, naquele tradicional casarão amarelo, que fica colado com outro ocupado pela Casa de Jorge Amado, de cor azul.
Orixás de autoria do artista Alecy,
conhecido cenógrafo
 O Museu da Cidade do Salvador está fechado desde a primeira administração do atual prefeito sob a alegação que iria sofrer uma reforma.- e ninguém sabe por onde anda seu rico acervo e como está sendo conservado. Procurei alguma nota pública no site da Fundação Gregório de Mattos ou mesmo no em várias publicações  sobre este absurdo, e só encontrei reclamação de turistas que se dirigiram ao Museu e encontraram  as portas lacradas sem qualquer aviso, inclusive as existentes nas redes sociais. Coisas dos péssimos gestores que hoje comandam o nosso Estado.
 Olhe que o Museu continua nos guias dedicados ao turismo como  está em funcionamento. Nem este cuidado eles têm de informar ao público para evitar constrangimento e frustração.
 O que queremos saber é onde está o rico acervo deste museu que foi reunido com dedicação e esmero , por sinal por uma mulher dinâmica casada com Jaime Magalhães , um dos irmãos do avô do ACM Neto, a saudosa Elyette de Guimarães Magalhães, que veio a falecer em 20 de agosto de 2017, com o museu já lacrado.
Obra de Presciliano Silva ,
" A Sé sob o Luar"
  
O MUSEU 
Este Museu da Cidade do Salvador tinha um rico acervo e poderia ter sido acrescentados muitos objetos e obras de arte de valor histórico e cultural no decorrer dos anos após sua fundação. Mas, como diz um blog conhecido "A Bahia é a terra do já teve", os que a administram tratam de destruir o que que bom encontram pela frente. Isto vem acontecendo com este museu, que se propunha a contar a História da Cidade através de objetos que pertenceram a grandes baianos como Castro Alves , esculturas, pinturas, trajes de Orixás e  adereços de prata e ouro usados no período Colonial . No acervo constam obras de Presciliano Silva,Mendonça Filho,Alberto Valença , Henrique Oswald, João Alves, Geraldo Rocha, Caribé, Jenner Augusto, Carlos Bastos,esculturas de Agnaldo Silva, jóias do joalheiro e etnógrafo Waldeloir Rego, e da artista Liane Katsuki, hoje morando na Holanda;coleção de bonecas de pano, mostrando como brincavam as crianças na Salvador colonial, tradição esta  ainda hoje presente no interior do Estado. Portanto, encontrávamos por lá uma série de obras e objetos importantes reunindo manifestações sagradas e profanas. 
Escultura de Agnaldo 
 Silva- Máscara II
Lembro do dia da inauguração em 5 de julho de 1973 , e a satisfação de Elyette de Guimarães Magalhães andando de um lado para outro nos salões do Museu cumprimentando os convidados.
Ela escreveu no catálogo datado de  março de 1975 " Qualquer coisa que vocês façam contra a sua preservação e o bom funcionamento, me faz sofrer como se fosse atingida pessoalmente. Esta casa é como se fora a minha casa".
Joias de Baiana - Festa Sagrada
- em ouro

Em setembro de 1978 promoveu o I Encontro de Arte da FUMCISA - que era a Fundação Museu da Cidade do Salvador, que administrava o museu , reunindo obras de dezenas de artistas. Escrevi na época nesta coluna : O Encontro é organizado por Elyette Magalhães e aqui devo registrar o seu esforço em realizar exposições com certa coerência de qualidade e temporalidade".
Parte dos objetos da Coleção do poeta
Castro Alves.
 Atualmente, o que vemos são reações de indignação como da turista paulista Suellen Galhego que foi visitá-lo em março de 2019, baseada num Guia Turístico da Cidade do Salvador. Ela encontrou o Museu fechado. Daí  registrou , entre muitos outros, nas redes sociais :" Fui visitar o museu, porém para minha desagradável surpresa quando cheguei, descobri que ele foi fechado para reforma e nunca mais foi reaberto."
Portanto, é um problema de prioridade. Preferem destinar milhões e milhões de reais para blocos e artistas milionários durante o Carnaval do que investir na Cultura e particularmente em nossos museus.













sábado, 16 de maio de 2020

O QUE FOI A EXPOSIÇÃO GERAÇÃO 70

Visão de uma das salas onde foi montada a
exposição no Museu de Arte
A exposição Geração 70 que coordenei juntamente com o saudoso amigo, e meu ex-professor de Geografia, no colégio Salesiano, Ivo Vellame, surgiu de umas conversas entre nós e alguns jovens artistas oriundos da Escola de Belas Artes, da UFBa , onde ele era diretor.
Estávamos no ano de 1985,quando havia um certo marasmo em Salvador dos movimentos artísticos. A nossa ideia foi evoluindo e queríamos continuar com este movimento chamando outros artistas e realizando novas exposições. Eu trabalhava no então prestigioso jornal a A Tarde, que era o maior do Norte e Nordeste , e tinha repercussão quase tudo que ali era publicado.
O maestro Fred Dantas com seus músicos
 deram um show
Diante das dificuldades financeiras só conseguimos reunir 10 artistas, também devido ao espaço reduzido que nos foi cedido  no Museu de Arte da Bahia , localizado no Corredor da Vitória. 
Foi uma das  maiores de todas as mostras em presença  de público , naquela época. No dia da exposição o trânsito ficou prejudicado em frente ao prédio do Museu de Arte da Bahia. Tivemos apresentação de Dança, sob a direção de Livia Serafim, de Teatro,  e a Orquestra de Fred Dantas animou a exposição. Foi um dia de alegria em Salvador. 
Performance comandada pela dançarina
Lívia Serafim
Um agradecimento ao Heitor Reis, que teve sensibilidade e não mediu esforços para apoiar a exposição, quando era Coordenador  Artes Visuais da Fundação Cultural da Bahia. Lembro que até o governador Antônio Carlos Magalhães esteve visitando a exposição. Também, conseguimos um patrocínio do Banco Econômico , este banco baiano que tanto ajudou a cultura da nossa terra , e as obras sociais de irmã Dulce. Foi perseguido até o seu fechamento no governo de Fernando Henrique Cardoso , juntamente com o Bamerindus, do Paraná, o então presidente do Banco Central da época era o jovem  Gustavo Franco.

ARREMEDOS

Estes arremedos que alguns vivem insistindo  fazer com o nome da Geração 70 pode representar tudo, menos àquele momento histórico de 26 de julho de 1985. Era outro ambiente cultural, era outra atmosfera  que vivia o país e particularmente Salvador. Alguns dos artistas que participaram não estão mais aqui como o Fred Schaeppi e Chico Diabo. Todos envelhecemos e  tomamos outros caminhos que não coincidem com aqueles que eu e Ivo Vellame levamos adiante.
Nunca quis tutelar ninguém, nem mesmo levantar bandeiras . Mas, é preciso respeitar as ausências, e o que fizemos naqueles dias de dificuldades, inclusive evitando divergências, quase intransponíveis, pera  levar a cabo esta exposição que marcou época.
Capa do catálogo da exposição que marcou
época
Lembro que alguns artistas mais afoitos, e que ficaram de fora da exposição Geração 70 realizaram uma mostra alternativa - estava em moda coisas alternativas - no foyer do TCA , mas não tiveram sucesso. Foi um fracasso. Mas, valeu pela rebeldia. Então partiram para tentar desqualificar a exposição Geração 70, inclusive com a ajuda de alguns professores da Escola de Belas Artes. De nada adiantou. A mostra foi vitoriosa e retumbante. Coisas do provincianismo baiano.
O nosso interesse, meu e de Ivo Vellame , era continuar com este movimento realizando outras exposições com artistas desta geração que ficaram de fora. Porém,  diante das divergências resolvemos parar por ai. Inclusive porque percebemos  ingratidões , e a dificuldade de convivência entre  alguns do grupo.
Nós não registramos o nome Geração 70, mas, os arremedos nunca chegarão de perto a representar àquela mostra histórica. Se alguém um dia for escrever sobre a História da Arte recente da Bahia não pode esquecer esta exposição realizada no Museu de Arte da Bahia, em 26 de julho de 1985.
Contamos com as presenças do governador Antônio Carlos Magalhães; do Secretário do Trabalho e Bem Estar Social, Rafael Oliveira; dos artistas Carlos Bastos, Nilda Spencer, Clyde Morgan,  do político Fernando Schmidt,  ex-Diretora da Fundação Cultural, Olívia  Barradas, e de muitos e muitos outros que prestigiaram a exposição. Foi um sucesso !

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS MIRAGENS DE SIRON FRANCO

"A Vigésima Sétima Miragem", este  boi vermelho .
Morador de Goiânia o  Siron Franco sempre foi um artista inserido nos fatos que aconteceram e acontecem em nosso país. Já fez algumas de suas principais exposições denunciando as vítimas de crimes , e também daquele acidente que contaminou e matou várias pessoas devido a manipulação de produtos radioativos, já enfocou a matança de animais silvestres, a defesa das nossas matas, a dureza do regime militar  etc.
Portanto , sua arte está sempre focada em algo real que de alguma forma o incomoda e instiga . Ou seja , o que move o artista são estes acontecimentos que permeiam os noticiários nacionais ou internacionais , o que demonstra ser um artista plugado e antenado na realidade que o cerca . Sendo assim , sua arte tem um conteúdo político e social. 
"Décima Quarta Miragem" , aberta a interpretações
Por ter uma capacidade criativa muito extensa  pode também pintar uma série de obras pelo prazer de pintar , tirando inspiração armazenada em informações e sentimentos outros que permeiam a sua mente aguçada , inclusive sonhar e imaginar miragens que permeiam a sua vida. 
Como diz o Charles Casac , no catálogo de sua exposição , ora na Galeria Paulo Darzé , "Na década de 1960 elaborou a série Era das Máquinas , depois vieram prostitutas travestidas de madonas , executivos e exercício de perversão , anjos espiões e voyeurs , orgias e divertimentos dos reis , comandantes militares e oprimidos sob o clima da opressão , que marcou o regime militar período esse em que o léxico do artista estava em formação ".
Estes ciclos ou momentos de sua  trajetória são como páginas de um livro ou cenas de um filme documentando a produção  pictórica de Siron Franco.
Atualmente com a temática  Miragens fica difícil ou quase impossível alguém interpretar estas visões oníricas de Siron Franco porque são muito pessoais , e a arte quando precisa ser explicada cai num campo que prefiro deixar de lado. Vamos  sentir e admirar as cores , os traços , as figuras sutilmente sugeridas ou não , e nos  emocionar com este conjunto de elementos  que vibram como notas musicais numa escala infinita.
Siron Franco ao lado do
galerista Paulo Darzé.
É neste campo da ilusão que está conduzida esta nova exposição deste grande artista de renome nacional e internacional . Diz ele no livro-catálogo da sua mostra que não se importa com as críticas e que não responde apesar de ler e reler.
Está portanto dando uma clara demonstração que se importa sim com as críticas a ponto de ler e reler. Se não se importasse nem as lia ou  olhava. Também ,  disse que é bem humorado . É verdade . É muto bem humorado e falante , agradável e envolvente como um artista que vibra como suas obras de cores fortes e traços marcantes.
Imagem do humor de Siron Franco
Ninguém , tenho certeza , que gosta de arte vai  querer faze-lo triste , ao contrário , eu mesmo quero vê-lo sempre alegre , produzindo a fazendo o sucesso que merece pela qualidade da sua obra e seu jeito de ser . 
Estive algumas vezes com Siron , desta vez infelizmente não pude encontrá-lo por estar com alguns problemas que exigiam a minha presença.
Quando você começa a falar do Brasil , das dificuldades que o país vem enfrentando através dos anos , especialmente nas últimas décadas ele acha que nosso Brasil  " é muito cruel com seu povo, é extremamente perverso . Este é um país onde morrem tantas crianças de fome e não dá para esquecer suas tragédias . Disto eu brado e meu brado é minha arte . Sempre estive envolvido com o povo e não aceito o as coisas como são".
 Perfeito , os que tem alguma sensibilidade , independente de ideologias , também ficam revoltados com os privilégios exagerados , com as discrepâncias , com a roubalheira , com os fundos eleitorais , que tiram dinheiro da saúde e da educação para financiar a corrupção.
Você se manifesta com sua arte , e eu aqui com meus textos e posts em todas as plataformas digitais . Isto  porque amamos o nosso país e a sua gente. Um abraço e mais sucesso para você.
A exposição permanece até o próximo dia 13 de dezembro, e a Galeria Paulo Darzé fica na rua dr. Chrysippo de Aguiar, 8, uma transversal do Corredor da Vitória, Salvador, Bahia. www.paulodarzegaleria.com.br


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

UM ARTISTA COM OLHOS ABERTOS PARA O MUNDO

O artista Sérgio Rabinovitz em seu
Home-Atelier no bairro de Amaralina.
Sua primeira experiência foi buscar uma opção para sua felicidade individual. Estudou Física e depois Arquitetura , mas sempre deixando pelo meio do caminho. A arte o chamava , e solitariamente começou a fazer alguns trabalhos até que seu pai um grande violinista da Orquestra Sinfônica da Bahia o  pegou pela mão e apresentou-lhe ao saudoso artista  Calasans Neto. Este grande gravador que encantou a nossa Bahia e o Brasil com sua arte focando nas cabras,  baleias, nos mistérios do Abaeté , no mar de Itapuã com suas embarcações e também no casario colonial . Assim começou sua trajetória artística . Calá com seu jeito cheio de generosidade colocou as ferramentas da xilogravura em suas mãos ,  ensinou-lhe a imprimir , e depois de um período disse que não tinha mais nada para ensinar . Fez uma carta de apresentação para Mário Cravo , sem antes dizer pode voltar quando quiser para imprimir ou trabalhar em suas gravuras e lhe presenteou com uma pequena xilogravura.
Lá chegando notou que o espaço da gravura estava um pouco deixado de lado pelo mestre Mário Cravo envolvido em suas esculturas modernas.  Ai ele teve que limpar e preparar as ferramentas e a prensa para continuar sua busca numa perspectiva de vida que lhe tornasse plenamente feliz. Os que conheceram Mário Cravo  , o grande escultor , reconhecido mundialmente , sabem do temperamento aberto e instigante. Neste atelier passou muita gente importante inclusive o gravador Oswaldo Goeldi chegou a realizar alguns trabalhos naquela prensa , que teve que ser recuperada.

BOLSA NOS ESTADOS UNIDOS

Cartaz anuncia  lançamento do livro
Tomou conhecimento de um concurso para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos promovido pela Fundação Fulbrightc  para a Wesleyan University , que fica no estado de Connecticut. Coube a diplomata americana Frances Switt , uma ativista cultural que teve presença importante na Bahia nos meios culturais nos anos 70 em nossa Cidade , avaliar juntamente com artistas baianos e Sérgio Rabinovitz foi selecionado.
Sérgio chegou a fazer uma exposição na sede da Associação Cultural Brasil - Estados Unidos , que funcionava no Corredor da Vitória em 8 de agosto de 1975. Esta mostra aconteceu logo após a inauguração da sede da entidade , que por coincidência teve como atração uma exposição de Calasans Neto . Eram gravuras que ele produziu depois de uma viagem aos Estados Unidos inspirada  nos jazzistas populares de New Orleans . Já a exposição de Sérgio as gravuras foram impressas nos ateliers de Mário Cravo e Emanoel Araújo , que ele conhecera nesta época.
Lembra Sérgio Rabinovitz  que ao chegar aos Estados Unidos um mundo novo se abriu naquela universidade que tinha uma metodologia de ensino aberta e um acervo de gravuras fantástico com obras de Picasso, Rembrandt , Dürer , Paul Gauguin e de  outros monstros da arte mundial. O importante é que os alunos podiam consultar este material como elemento de referência e pesquisa. Isto causou um grande impacto no jovem artista baiano que lá permaneceu um ano e meio, seguindo depois para Nova Yorque.

                                                VAI PARA NOVA IORQUE

Obra recente onde vemos uma samambaia
interferindo.
 Foi estudar noutra universidade especializada em arte. " Era o lugar que todo mundo que queria estudar arte gostaria de estar", diz o artista . Foi a Cooper Union Arts School. Tinha que se virar para morar em Nova Iorque e passou a estudar gravura, litografia, gravura em metal, misturando com litogravura. Foi ai  que começou a romper os limites da gravura e a interferir usando materiais descartados  que estavam ali no atelier da universidade . Ai já as transformava em desenho. Começou a desenhar sem sentir e dai para desenhar em papel foi um passo normal.
Nesta universidade os professores davam metas e submetia os alunos a uma crítica coletiva dos colegas . Não tinha agenda rígida e muitas vezes nem precisava ficar em sala de aula . Tinha que apresentar o produto , o resultado. Eram ministradas  aulas de História da Arte, que davam a base de conhecimento. "Eu me apresentava para projetar os slides das aulas, e assim ganhava alguma grana que era paga pela própria Universidade. Com isto prestava mais atenção e aprendia mais ", diz Sérgio . Em 1978 se graduou em bacharel em Artes Plásticas. 
Ficou por lá até 1979, mesmo terminando o curso. Estava num momento que era mais fácil ficar lá do que vir pra cá e começar tudo de novo. Um professor lhes disse mais ou menos assim  "Você quer ser um cisne num pequeno lago ou ser um pato num universo bem maior? " Foi ai que respondeu que queria ser um cisne em seu próprio país , não por vaidade, mas para produzir e mostrar sua arte aqui.
De lá para cá Sérgio Rabinovitz consolidou sua carreira como um artista que utiliza de vários materiais para expressar sua arte. Já fez inúmeras exposições aqui e no exterior e vive exclusivamente de sua arte.
    
ABERTO AO MUNDO

Passei uma tarde agradável com Sérgio
em seu atelier
.
Seu Home-Atelier é um braço estendido a colecionadores do mundo inteiro, inclusive aos galeristas que levam seus clientes para conhecer pessoalmente o artista. Também seus trabalhos  estão lá  dispostos como se fosse num acervo de uma galeria ou numa reserva técnica de um museu.
Ele pretende ainda abrir seu atelier para visitas programadas de escolas quando  mostrará as suas obras e explicará como são produzidas. Fará ainda Workshops para despertar novos valores e contribuir para aprimorar as técnicas da gravura e pintura.
 Sérgio  é um artista ligado em seu tempo, em sua contemporaneidade. A arte produzida por ele pode ser colocada em qualquer museu de arte moderna do mundo . Ele  está atento a isto colocando à disposição de colecionadores e museus nas várias plataformas digitais que estão  ai disponíveis. 



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

UMA EXPOSIÇÃO À ALTURA DO GÊNIO LEONARDO DA VINCI

O cartaz da mostra que impactou milhares de baianos
 Nada menos que umas cem mil pessoas visitaram a exposição O Gênio dos Gênios - Leonardo Da Vinci  organizada pelo engenheiro e artesão Thales de Azevedo Filho, no Palacete da Artes, no bairro da Graça, em Salvador. 
Foi uma das surpresas agradáveis que tive nos últimos anos em termos de exposição , e a revelação de um grande artista capaz de reproduzir em maquetes funcionais várias invenções do gênio Da Vinci.
Uma visão parcial do salão onde estava a
maioria das obras.
Fui visitar a exposição no último dia, e tinha tenta gente que quase as pessoas não conseguiam se movimentar, inclusive famílias acompanhadas de crianças, as quais na espontaneidade que lhes é peculiar mexiam nas maquetes com frenesi.
Está fazendo 500 anos da morte do grande gênio italiano ( 1452- 1519) e o engenheiro Thales Filho  levou nada menos que doze anos construindo suas maquetes reproduzindo as invenções de Da Vinci . Ele informou que  visitou várias exposições no exterior,  e assim foi construindo suas maquetes como a do avião, stand-up, boia de salvamento, escafandro, várias máquinas de guerra, navios civis e militares, além de apresentar algumas reproduções de suas obras marcantes e lá estava a Mona Lisa. 

O paraquedas
criado pelo gênio 
Outro destaque foi a instalação de um Anemômetro feito de tubos cônicos com raios de abertura capaz de medir a intensidade do vento. Os visitantes se divertiram muito ,  e embora houvessem vários monitores, eles não conseguiam atender a todos. Assim,  as pessoas mexiam espontaneamente nas manivelas e hastes colocando as maquetes para funcionar. Portanto, além da surpresa das maquetes elas proporcionam uma formidável participação e interação com o público.
O engenheiro e artista Thales de Azevedo
 Filho  segurando na maquete do casco
de um navio militar .




Quando chegava para visitar a exposição encontrei o diretor do Museu Rodin, que funciona no Palacete das Artes, Murilo Correia Ribeiro. Ele estava muito satisfeito e surpreso com a participação do público e disse que vai promover gestões para que a mostra retorne,  tão logo cumpra outras pautas previamente programadas.