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sábado, 3 de janeiro de 2026

DANIEL FREIRE E SUA ARTE FOCADA EM SENTIMENTOS PROFUNDOS

O artista Daniel Freire pintando em seu ateliê .
De Barcelona, Espanha  - 
O artista Daniel Freire é pintor figurativo, ilustrador de jornais e livros, atualmente desenvolve experimentos com a fotografia. Sua pintura traduz a solidão e a individualidade  presentes nas cidades modernas. Com sua câmera ele costuma fotografar pessoas anônimas nas ruas, praças, bares e no metrô em outros locais públicos.  Essas fotos são de   personagens  quase sempre expressando melancolia, tristeza e solidão. Além de ser técnico especializado no conserto de máquinas fotográficas analógicas, e o seu uso está se transformando numa tendência na Europa e em outros continentes. É baiano de Salvador, formado em Artes Plásticas, pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Cofundador e coeditor da revista de arte Boardilla, Brasil, Espanha e Itália. Tem obras em coleções particulares e acervos no Brasil, Itália, Espanha, Suécia, Estados Unidos, Suíça, Etiópia, França e Japão. Mora em Barcelona, na Espanha, onde tem seu ateliê e já realizou algumas exposições individuais e coletivas. Nossa conversa aconteceu através chamada de vídeo e mensagens pelo WhatsApp.

Quatro obras bem expressivas de Daniel Freire.
Seu nome de batismo é Daniel Freire Figueiredo, nasceu em nove de julho de 1974 em Salvador. Seus pais Altino José Figueiredo , médico psiquiatra e sua mãe d. Nadja Freire Figueiredo é psicóloga. Moravam no bairro do Stiep e depois se mudaram para o bairro do Itaigara,ambos na capital baiana. Estudou o primário nas Escolas Júnior Sociedade Civil Limitada, que funcionava no Costa Azul e depois na Girassol, no Itaigara.  Também durante sua infância teve aulas de pintura com o professor da Escola de Belas Artes da UFBA, no Atelier de Luiz Mário Costa Freire , e já adolescente com Gabriel Lopes Pontes. Em seguida a família decidiu ir morar numa fazenda entre os municípios de Alagoinhas e Araçás. Estudou o ginásio e o colegial no Colégio Dínamo, em Alagoinhas, que é uma instituição de ensino tradicional, fundada em 1976, e oferece desde a educação infantil ao ensino médio. Em 1993 fez o vestibular para a Escola de Belas Artes. Chegou a dividir um ateliê com os artistas Anderson Santos e Elias Santos, na Ladeira dos Aflitos e passou a ilustrar algumas reportagens no jornal Correio da Bahia. Em 1996 decidiu ir residir em São Paulo, onde permaneceu cerca de um ano e meio estudando pintura a óleo e modelagem. Lá estudou com o artista e professor José Antônio Van Acker, natural de São Paulo, capital, onde nasceu em 1931 e faleceu no ano 2000.  Era pintor, desenhista, gravador, escultor e professor. Cursou a Escola de Belas Artes de São Paulo entre 1951 e 1954. Ministrou cursos livres de apreciação artística, história da arte, escultura: modelagem em argila e talha em madeira e pedra, pintura e desenho em seu ateliê, a partir de 1969. Na década de 70, torna-se professor de escultura na Faculdade Santa Marcelina e de desenho, pintura, escultura e apreciação artística no Ateliê Arte Viva. Foi uma bela experiência estudar com Van Acker.

Daniel gosta de fotos PB. O artista
pintando no seu ateliê em Barcelona.
O artista Daniel Freire volta para Salvador e conclui o seu curso na Escola de Belas Artes e já começou a alimentar a ideia de ir morar em Barcelona, na Espanha, imaginando como todo jovem que as coisas seriam mais fáceis na Europa. Mas, na realidade não é isto que acontece em Barcelona, que pertence a região da Catalunha, os catalães são  conscientes de sua nacionalidade e territorialidade. Sabemos que a Catalunha  é uma comunidade autônoma da Espanha  localizada na extremidade leste da Península Ibérica. É designada como uma nacionalidade e pelo seu Estatuto de Autonomia, e  é composta por quatro províncias: Barcelona​​GironaLérida e Tarragona. “A capital e a maior cidade é Barcelona, ​​o segundo município mais povoado de Espanha e a quinta área urbana mais populosa da União Europeia.” Existe lá até um movimento radical contra a presença de turistas, que são tantos, que essas pessoas chegam a molestá-los. O artista Daniel Freire está adaptado com os costumes e a vida em Barcelona onde ele de quando em vez participa de exposições coletivas e até já realizou algumas individuais. Trabalha numa empresa alguns dias na semana consertando máquinas fotográficas analógicas, e tem também sua oficina para realizar esses consertos. É o chamado plano B que a maioria dos artistas é obrigado a exercer para ter uma sobrevivência digna, e assim poder fazer a sua arte com liberdade e tranquilidade.

Obra Alex I, óleo sobre tela , 2003.
Na Universidade de Barcelona-UB frequentou o Curso de Belas Artes durante um ano de 2004-2005, e elogiou as boas instalações da universidade, mas que não teve um aprendizado como esperava. Destacou apenas as aulas de gravura da professora Ana Vives, e também o custo era de 500 euros semestrais. Ele queria pintar com tinta óleo, mas o professor de pintura preferia a tinta acrílica por causa do cheiro. Disse Daniel Freire que não entendia esta implicância do professor porque a sala de pintura tinha exaustor e o cheiro da tinta quase não se percebia. Também disse que na Europa existem muitas galerias e locais onde o artista tem que pagar para expor. Se você não é um artista conhecido do mercado onde a exposição será realizada normalmente não dá um retorno que justifique pagar para expor.

O crítico de arte espanhol Ramon Casalé, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, ao analisar a pintura de Daniel Freire escreveu que "a solidão e a falta de afeto aparecem refletidas com rigor na pintura de Daniel Freire de uma

Obra Elias , óleo sobre tela , 2002-2003.
perspectiva figurativa, que chamaria de realismo ambiental”, nos mostra o comportamento de personagens preocupados e entediados que podem ser encontrados em um bar ou cafeteria de qualquer cidade. Eles parecem estar meditando ou pensando em seus problemas, com um cigarro na boca, tomando uma bebida ou apenas descansando os braços na mesa com os olhos fechados. Se observarmos a pintura de Daniel Freire nos evoca cenas costumbristas e intimistas de Hooper ou mesmo as arrogantes e expressivas de Freud. O realismo dos retratos e dos interiores combinam perfeitamente com o hiper-realismo das naturezas-mortas, em que os objetos do cotidiano - sapatos, copos, chapéus - são seus principais protagonistas. Seja de uma forma ou de outra, Daniel Freire nos aproxima de um ambiente em que o silêncio e a solidão só são quebrados pelo barulho dos passos ao descer algumas escadas, pelo tilintar dos copos ao bater-se ou pelas vozes das pessoas”

Obra da série Rostos da Bahia.
Os costumbristas que escreve o Casalé refere-se ao "costumbrismo que é a interpretação literária ou pictórica da vida cotidiana, maneirismos e costumes locais, principalmente no cenário hispânico e, particularmente , no século XIX". Citou  também de Hooper se referindo ao pintor "americano Edward Hooper (1882 -1967) foi um pintor , artista gráfico e ilustrador norte-americano conhecido por suas misteriosas pinturas de representações realistas da solidão na contemporaneidade." Já quando fala de Freud trata-se do pintor  Lucian Freud (1922-2011), neto do psicanalista Sigmund Freud, um renomado artista britânico focado em arte figurativa, conhecido por seus retratos e nus de intenso realismo psicológico, muitas vezes desconfortáveis e reveladores da condição humana, usando técnicas como empasto pesado para explorar a carne e a experiência subjetiva, mesmo em um período dominado pela arte abstrata."(Wikipédia)

O próprio Daniel Freire me informou que gosta de fotografar pessoas anônimas, muitas vezes sem elas perceberem na sua solidão, na sua individualidade numa

Obra Sapatos e Chapéu, 2002.
praça e em outros locais públicos e trabalha esta figura humana dentro da concepção do seu fazer artístico. Ele mesmo me deu a impressão de personificar uma dessas figuras que o Ramon Casalé magistralmente captou. O artista se exilou espontaneamente deixando o seu país para trás e foi para uma cidade onde pulsa a arte, e que é diariamente invadida por milhares de turistas de todo o mundo. Aí deve ter enfrentado muitos perrengues e com certeza de quando em vez se depara com dificuldades porque se é difícil a gente viver em nosso país, imagine em outro, e numa cidade catalã, onde seu povo há anos luta por independência, tem seu idioma próprio, e é muito territorialista. No entanto o artista  Daniel Freire disse que gosta de morar em Barcelona e assim vem construindo e fortalecendo seus laços de amizades e profissionais para tocar a sua vida com mais tranquilidade e conforto pessoal. 

                          EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Em 2025 - Exposição Corpo Cidadão, um recorte sobre o tema corpo do acervo do MAC,Museu de Arte Contemporânea da Bahia, obra “A Alegria de Cam” adquirida para o acervo do museu.  2023 – Ramas, Exposição individual de pintura, desenho e gravuras na Sala de exposições da Asociación Ô Diluvi, Barcelona -Espanha. 2021 - Metropolis Film Exhibition , Exposição coletiva de Fotografia, Lomography Embassy Barcelona, Espanha. 2020 - Comité Invisible, Exposição Coletiva Estudio

Obra da Série Joaquim de Prada IV ,
óleo sobre papel, inacabado,2025.
 
55, Barcelona – Espanha. 2019 - The XPan doesn't fit in my pocket, Exposição Coletiva de Fotografia. Lomography Embassy Barcelona-Espanha. 2018 - Artistes VAC’ 18, Exposição Coletiva, Sala d’Exposiciones Torre del Baró, Viladecans- Espanha Exposição Ahora somos 4, coletiva e inauguração del novo atelier em Barcelona C/ Martí, 55, térreo – Barcelona – Espanha. 2014 – Matéria e Memória, Exposição Coletiva e lançamento da Revista Boardilla, Centro Cultural Casa Elizalde – Barcelona – Espanha. 2012 - Barcelona 12 anos. Exposição individual de pintura. LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha. 2011 - Cinc Cèntims, Mostra coletiva de pintura, escultura e fotografia, LaFutura Espai social de creació – Barcelona – Espanha; Odiseas” - Barcelona: Muchas Islas. Un viaje por concluir, retrospectiva de 10 anos de pintura; Exposição individual de pintura. Berheads espai d’art – Barcelona-Espanha; Ítacas - Retrospectiva 10 anos de pintura em Barcelona-Espanha e Exposição individual de pintura. Lletraferit espai d’art – Barcelona-Espanha. 2010 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística; Exposição individual de pintura. Salvador - Bahia - Brasil. 2008 - Expo em Casa. Exposição individual. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona-Espanha; In Vino Veritas, Exposição Coletiva Interativa. Atelier em C/ Trafalgar, 66 – Barcelona – Espanha. 2006 - Art-Apart - Asociados por ano Promoción Artística em Barcelona, Exposição de obra pictórica e gráfica em Barcelona; Prêmio de Pintura Jovem da Galeria Sala Parés - Banco de Sabadell, Barcelona-Espanha; Cinco obras 
Obra A Alegria de Cam, pertence ao acervo do
Museu de Arte Contemporânea da Bahia,2025.
selecionadas, expostas na Sala Parés e publicadas em catálogo.  2005 - Prêmio Laus 05, Barcelona, Obra selecionada, exposta e publicada em catálogo. Galeria Iris, Barcelona-Espanha ;  Exposição Coletiva,  Seis selecionados para o acervo de arte da Galeria Yanko Zapatos, Barcelona-Espanha. Durante um ano e três meses reproduz em tela as coleções da marca, ademais produz desenhos e ilustrações para campanhas da empresa junto com a agencia S.C.P.F. Os quadros realizados nesse período são expostos em Barcelona, Madrid, Valencia, Tokio e Shanghai; Publicação de um dos quadros na revista Telva, no 789 – Janero.  2004-2005 -  Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. Exposições Coletivas da Galeria; 2003 -  Grand Hotel Baglioni - 35 anos da Galleria Bongiovanni, Bologna - Itália. - Exposição e evento comemorativo dos 35 anos da Galeria.  2002 - Gallerie Engelskirchen, Colônia – Alemanha, Exposição Coletiva, Untitled ;  Siena Espai d’Art, Ciutadella - Menorca. 2001 e 2002 - Exposição Coletiva e acervo artístico. TallerGaleria, Barcelona. Exposições Coletivas e acervo artístico. 1996 - Centro Cultural Brasil-Estados Unidos Exposição Coletiva, Untitled); Galeria da Escola de Bllas Artes da Bahía. Exposição individual.  1994 - Centro Cultural Casa do Benin, Exposição Coletiva, Undecaegos.1992 - Aliança Francesa Exposição Coletiva, Histórias em Quadrinhos. 
Esta obra acima de Daniel Freire A Alegria de Cam é uma releitura da pintura A Redenção de Cam que pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foi pintada em 1895 pelo pintor espanhol Modesto Brocos ( 1852-1936) e é considerada uma pintura racista. Contam os historidores de arte que a pintura foi feita logo após a abolição da escravidão e da proclamação da República no Brasil. É de conhecimento de todos que na busca pelo desenvolvimento naquela época o Brasil adotava uma política chamada de Europa branca como referência, embora nossa população nada tinha de semelhança com a européia. Já o título da obra nos remete aos princípios biblícos da maldição de Noé sobre seu filho Cam . Noé dormiu embriagado de vinho e Cam expôs a nudez do pai aos irmãos como zombaria. Ao acordar, o pai então amaldiçoou Cam, a ser “servo dos servos”. Há inclusive versões que descrevem Canaã e os descendentes de Cam como negros.

FORMAÇÃO

Nego Fugido, Caretas de Acupe, distrito
de Santo Amaro da Purificação, Bahia.
Escuela de Bellas Artes na Universidad de Barcelona – UB, Artes Plásticas. Barcelona - Espanha. 2004 – 2005De 2000 a 2001 - La Llotja. Curso monográfico de desenho e pintura. Barcelona - Espanha.1999 - Museu de Arte Moderna da Bahía. Prof. Antonello Labatti. Gravura em Metal. Nível 1 e 2. Bahia - Brasil. De 1997 a 1998 - Atelier do mestre J. Van Acker. Modelado, desenho e pintura. São Paulo - Brasil;  Studio de Fotografia Wladimir Rómulo Fontes. Fotografia básica e laboratório inicial. São Paulo - Brasil. De 1996-1997 - Escola Professor Edson Barbosa. Classes de perspectiva, desenho técnico e estrutural. Bahia - Brasil. De 1993- 1997 - Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahía. Artes plásticas. Bahia - Brasil. De 1987 a 1989 - Studio Claroscuro. Classes de desenho, serigrafia, aerografia, pintura e desenho de comics. Bahia - Brasil. Desde os anos 90 trabalha com a fotografia analógica e processos experimentais. É um trabalho desenvolvido paralelamente ao da pintura.