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quarta-feira, 10 de julho de 2013

O ESCULTOR BOAVENTURA, O LOUCO

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 11 DE MAIO DE 1974


Obra do escultor O Louco
O escultor Boaventura da Silva Filho, conhecido por Louco ,  vem realizando um bom trabalho recriando na natureza. Sua sensibilidade aguçada e sua força imaginativa lhe permitiram a execução de esculturas de valor artístico. É um autodidata e incompreendido por muitos moradores de Cachoeira que chegaram a lhe alcunhar de Louco numa atitude pejorativa e que terminou por ser adotado como seu nome artístico . Mas de Louco na expressão da palavra, ele não tem nada. O que tem Boaventura é uma grande capacidade de criação e imaginação e está acima daqueles que lhe apelidaram de Louco.
Porém, é de seu trabalho que desejo falar.Ele está expondo algumas esculturas na Pelourinho Galeria de Arte. Na sua linguagem simples de homem do povo o escultor que vive do que produz afirma  "não sigo ideias de terceiros para que minhas peças tenham maior saída. Se tudo o que faço é vendido é porque trabalho pelo meu gosto, que é o gosto de muita gente."
Diz ainda Boaventura que procura fazer sempre o melhor em cada trabalho que inicia.Um dos trabalhos que destaco é uma escultura de 2.80 metros, na qual já empregou mais de vinte dias de trabalho. Aproveitando velhos troncos de árvores de formas sugestivas, Boaventura dá-lhes nova vida, num ato de recriação da natureza. Viajando para Queimadinhas, Itaitá e outras localidades vai recolhendo raízes e troncos arrancados pelas águas barrentas do Paraguaçu para fazer suas esculturas.

DEZ ANOS

Há dez anos antes de tornar-se escultor Boaventura trabalhava como barbeiro em Cachoeira, cidade onde reside. A profissão no entanto não compensava e por isso começou a fabricar cachimbos de cajá, que decorava com figuras de rostos humanos. Os cachimbos foram expostos em sua barbearia, sendo muito aceitos e logo vendidos. Então partiu para criar peças maiores, que foram adquiridas de imediato por um curioso em arte popular, em Cachoeira.
Daí Boaventura apegou-se aos temas sacros e não mais parou de esculpir. Hoje, podemos afirmar que Boaventura é um escultor de talento e amadurecido. Dos rústicos troncos de madeira ele consegue esculpir figuras com expressões sofridas e os corpos retorcidos. Os Cristos que ele esculpe refletem no espectador o sofrimento das chagas e consequentemente todos gostam de seu trabalho.
Ele já tem vários seguidores e imitadores, tanto em Cachoeira como Salvador. Sobre eles Boaventura não gosta de falar. Diz apenas que pretende viver e deixar os outros viverem. " O que desejo é criar a cada hora sem a preocupação com os outros."
Muitas de suas esculturas como a da foto apresentam uma multiplicidade de figuras com as mais variadas formas de expressão. Nesta Boaventura respeitou o formato do tronco da árvore que apresenta três ramificações e em todas elas esculpiu figuras sacras.São boatos e santos que no seu primitivismo religioso deixa emergir para a madeira.
Talvez a sua falta de informação e falta de conhecimento de um universo maior tenha determinado uma limitação. Por isto a religião lhe marcou mais profundamente  e seus trabalhos em sua grande maioria tem conotação com a religiosidade e o místico.



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