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terça-feira, 14 de julho de 2026

SEMANA MOVIMENTADA NAS ARTES VISUAIS

 EXPOSIÇÃO MANTOS ENTRELAÇADOS NA CAÑIZARES

Luciana Valio
trabalhando.

A artista Luciana Valio vai expor a partir do próximo dia dezessete na Galeria Cañizares , em Salvador, uma série de trabalhos em homenagem a professora e artista visual Viga Gordilho, que também faz a curadoria da exposição que tem o nome sugestivo de Mantos Entrelaçados. Está prevista que no dia da abertura por volta das dezoito horas uma performance com as obras expostas. Informam as artistas que a exposição é resultado de uma pesquisa desenvolvida durante o estágio de pós-doutorado realizado em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escolas de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia – EBA.  As obras são resultado de experiências que a artista vivenciou na Bahia e no Rio Grande do Sul “buscando construir uma etnografia própria reconhecendo seu chão a partir do encontro com o outro. Nesses percursos, territórios e materialidade entrelaçam-se, orientando as escolhas das técnicas têxteis entendidas como portadoras dos sabores ancestrais de cada lugar”.

Serão expostos mantos, cestos e outros objetos artísticos produzidos a partir do encontro com diferentes paisagens, saberes e materiais encontrados ao longo da pesquisa entre palhas, areia, folhas, ervas, flores e até cera de abelha. Certamente diz a artista cada um dos elementos traz consigo memórias, modos de fazer e relações de cuidado. “O ato de tramar, presente em toda a exposição, ultrapassa a dimensão técnica para afirmar-se como gesto de permanência, resistência e construção coletiva. Um gesto inscrito no corpo performa a ação cotidiana do trançado, envolvido com a vida comum”. A mostra homenageia Viga Gordilho por meio da obra Alloro, também dedicada a todas as mulheres silenciadas.

A Luciana Valio é uma artista visual, pesquisadora e professora universitária. Ela investiga as relações entre a arte têxtil, corpo, território, materialidade e saberes ancestrais, desenvolvendo trabalhos que articulam práticas artísticas, pesquisa e extensão em diálogo com as comunidades artesãs de diferentes lugares. Ela é paulista onde nasceu em 1978, vive entre Campinas, no interior de São Paulo e no Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul. Desde 2016 que vem trabalhando fundindo a arte e a natureza utilizando têxteis e os fazeres manuais. Suas performances mostram a conexão entre Corpo, natureza e o mundo espiritual (Cosmos).

A professora, artista visual e curadora Viga Gordilho escreveu que o Manto Alloro “é o silêncio transformado em trama coletiva”. O surgimento dessa escultura têxtil surgiu há muitos anos, quando ela conheceu a escultura de Bernini, sobre o mito de Dafne, perseguida por Apolo, ela é transformada por seu pai em um loureiro. Este mito nunca teria saído do seu imaginário  e Viga confessa que sempre teve uma grande vontade de fazer algo a respeito do silêncio feminino.  A escultura Apolo e Dafne encontra-se na Galleria Borghese, em Roma, e retrata o exato momento em que a ninfa se transforma num loureiro para fugir do deus Apolo. A obra é famosa por seu realismo e foi feita pelo escultor Gian Lorenzo Bernini entre os anos 1622 e 1625. A escultura impressiona a todos que tem a oportunidade de vê-la de perto por seu realismo extremo , onde o mármore parece ter movimento e leveza. Ao lado Viga Gordilho com seu manto.


         CAETANO DIAS LANÇA LIVRO ÁGUA BRUSCA

O artista visual  Caetano Dias que é pintor, escultor, cineasta e escritor  lançará no próximo dia  18, às 10.30 horas, na Paulo Darzé Galeria , no Corredor da Vitória, em Salvador,  o seu livro Água Brusca ,com  quatrocentas páginas, onde  através de um

conto discorre sobre a importância da rabeca, este instrumento musical rudimentar que ainda é fabricado e muito utilizado nas manifestações populares especialmente nas comunidades rurais. Este instrumento de cordas friccionadas é chamado de pai do violino e chegou à Europa trazida pelos árabes e depois ao Brasil pelos colonizadores portugueses. A rabeca se popularizou no Brasil na música popular e no folclore, sendo ainda tocada no Nordeste , nos fandangos caiçaras e em festas populares como bumba-meu-boi. O livro de Caetano Dias contém poemas, contos além  muitas ilustrações e fotografias de Eliezer Bezerra e Márcio Lima, dentre outros . Disse o artista que o livro é quase uma novela e traz este universo mítico que ele vem se dedicando há algumas décadas . Inicialmente fez um longa  metragem  A Rabeca , que recebeu alguns prêmios em festivais de cinema . Fez também Caboré de Sangue, um  curta-metragem sobre um boiadeiro que atravessa o sertão de Canudos e faz uma passagem através de rituais. O protagonista recolhe vestígios da Guerra de Canudos   forja um Alfabeto Sinestésico e reescreve a memória do massacre. Ele fez também uma ligação entre a Rabeca e a Guerra de Canudos. Todos constam do livro.

Obra do autor inserida no livro.
A trama principal do livro se desenvolve no Raso da Catarina, uma região inóspita e de grande beleza natural, onde costumava se homiziar o bando de Lampião quando era muito perseguido pelas volantes . Disse o autor que tem o personagem principal da conto que é o Cândido e também um deus africano incógnito que teria sido capturado na África e traficado para cá sem seus algozes saberem de quem se tratava. Já o  nome Água Brusca  teria se inspirado num pequeno rio seco, tão comum nas regiões áridas nos chamados pequenos rios e riachos temporários cujas águas são revoltosas e abundantes no período chuvoso e  na estiagem, especialmente durante o verão, ficam mostrando o seu leito, e com as ventanias e redemoinhos se transformam em pequenas tempestades de areia e poeira. Vemos que  é um caleidoscópio de imagens e  situações criadas pela fértil imaginação do autor, sempre com uma pitada de espiritualidade e misticismo.


sábado, 11 de julho de 2026

GERALDO BONELLI UM ARTISTA SINGULAR NA VIDA E NA ARTE

O artista Geraldo Bonelli  pintando
em sua casa no bairro de Nazaré.

O artista Geraldo Bonelli Borges,   assina suas obras como Geraldo Bonelli é desenhista, ilustrador e pintor. Graduado em Direito, mas a arte o trouxe para a EBA onde também se graduou em Artes Plásticas e passou a frequentar a escola como se fosse sua segunda casa. Lá trabalhou como monitor das aulas de Desenho dos professores Riolan Coutinho, Juarez Paraíso e Márcia Magno, e fazia os trabalhos de sinalização, cartazes para exposições da Galeria Cañizares, faixas e outros serviços de ilustração. Tinha um local no chamado Porão, na Galeria Cañizares, que era um pequeno espaço onde construiu o seu mundo. Bonelli, como é carinhosamente chamado por professores e alunos é um artista singular, que tem uma produção calcada na pureza, na singeleza e até na ingenuidade com que pinta as figuras humanas de suas composições. Elas sempre estão caminhando em verdes estradas, contemplando o mar ou uma cena rural, namorando, dançando e até mesmo flutuando sobre o mar, perto da Lua. Ele me disse que procura pintar como se estivesse fazendo uma poesia. É exatamente neste ambiente poético, lírico, onírico e quase surreal que surgem essas figuras criadas por Bonelli, sempre magras lembrando ilustrações de poemas ou contos da literatura universal. As cores que identificam também as suas obras são quase sempre verdes, azuis e amarelos atenuados as quais  contribuem para criar esta ambientação poética. A própria vida simplória que escolheu para trilhar se encaixa perfeitamente com sua arte. Uma vida e uma arte singulares.

Vejam a singeleza e o ambiente de ingenuidade
em que as figuras humanas estão inseridas
 nas pinturas do Bonelli.
Juntamente com seu amigo Duda - que se notabilizou como impressor e por suas  gravuras, o qual já o entrevistei e publiquei um texto que está disponível nesta coluna desde março de 2023 - a dupla transformou as instalações da EBA em uma espécie de segunda casa. Viviam por lá diariamente envolvidos com a gravura, pintura e fazendo alguns serviços. Hoje com as idades avançadas e limitações de locomoção e outros problemas de saúde não têm se encontrado. 

Disse o Geraldo Bonelli que até conseguiu o número de um telefone atribuído ao amigo Duda e fez algumas ligações na tentativa de falar com ele, mas infelizmente ainda não conseguiu. O artista Geraldo Bonelli participou juntamente com seu amigo de várias Feiras de Arte que foram criadas pela professora Márcia Magno e que fizeram sucesso na época. Ele participou em 1991 do 1º Leilão de Arte da Escola de Belas Artes da UFBA; em 1993 expõe individualmente na Galeria Cañizares; Em 1994 da I Bienal Internacional Afro-Americana de Cultura , em Salvador e  outro registro sobre o artista  encontra-se  na Enciclopédia Itaú, onde está registrado que  expôs no mesmo ano na II Bienal do Recôncavo em São Félix, na Bahia. Em 2007 participou com seu amigo

A dupla na exposição,1994.
Duda de uma exposição na Galeria Cañizares intitulado a Duda & Bonelli – Mares e Bares; ganhou o prêmio de ilustrador no concurso Ilustre o Poema, promovido pelo jornal A Tarde e a EBA para ilustrar o poema O Garimpeiro da poetisa Nildéia Andrade, quando recebeu cinco mil cruzeiros, dinheiro da época. Foi Artista em Destaque em 2008 promovido pela EBA também de algumas exposições promovidas pela Marinha do Brasil, na data em que se comemorara o Dia do Marinheiro no chamado Salão da Bahia Marinhas . Chegou até a tirar o primeiro lugar em 2010 com a obra Mares e Bares na Festa de Iemanjá,  na sua VIII Edição, e algumas menções honrosas em outras mostras coletivas. 
Pintou juntamente com Juarez Paraíso, Renato Viana, Márcia Magno e mais outros  , num total de vinte e nove artistas, um painel no Cine Glauber Rocha quando  retratou alguns ícones da cinematografia internacional, especialmente de Hollywood, sentados como estivessem assistindo um filme na sala de projeção. Este projeto fez parte da   XVIII Jornada Internacional de Cinema da Bahia ocorreu em setembro de 1991, em Salvador, sendo um marco histórico para os festivais de documentários e produções de caráter social e político no país

Quatro obras em acrílica sobre tela atestam
a pintura  poética singular do Bonelli.
Depois de trabalhar como monitor dos professores Riolan Coutinho, Juarez Paraíso e Márcia Magno, ficou realizando pequenos serviços por alguns anos.  Revelou que se tornou funcionário efetivo num desses “trens da alegria”, que de vez em quando acontece na administração pública em nosso país.
Outra curiosidade é que ele mora na Travessa Padre Miguelinho, que fica nos fundos do Hospital Ramiro de Oliveira, localizado no Campo da Pólvora. Quase ninguém nota e poucos conhecem esta Travessa  onde não passa carro. O Padre Miguelinho foi um revolucionário brasileiro conhecido por sua atuação na Revolução Pernambucana. Batizado  Miguel Joaquim de Almeida e Castro  , nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte em 17 de setembro de 1768  . Foi arcabuzado em  Salvador, 12 de junho de 1817, no Campo da Pólvora, acusado de lesa-majestade. Ele tinha desembarcado aqui com outros revoltosos que também foram castigados.

                                     TRAJETÓRIA

O desenhista, ilustrador e pintor Geraldo Bonelli Borges nasceu na cidade de Itabuna, na Bahia, em dez de abril de 1950. Cursou o primário da Escola Luso Brasileiro e o ginasial e colegial no Colégio Estadual de Itabuna. Seu pai Abel Vital Borges era dentista a sua mãe Maria Angelina Bonelli professora de piano.
Geraldo Bonelli , sem camisa, pintando no
andaime no Cine Glauber Rocha.

Pouco tempo antes da grande enchente que ocorreu em Itabuna a família se transferiu para Salvador.Disse que perdeu  nesta enchente muitos desenhos que produziu durante a sua juventude . Isto foi no ano de 1967 e foram morar na Avenida Dom João VI, no bairro de Brotas. Depois se transferiram para a casa onde morou com seus avós na Travessa Miguelinho, no bairro de Nazaré onde Bonelli reside até hoje. Ele chegou também a passar uns tempos com os avós paternos no bairro da Ribeira. Fez vestibular para Direito em 1971 sendo aprovado e cursou até ser graduado em 1976, mas nunca exerceu a profissão de advogado. Desde jovem que gostava de desenhar e a arte foi lhe conduzindo até que decidiu fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes em 1980. Como tinha facilidade em desenhar trabalhou como monitor de desenhos com os professor Riolan Coutinho, Juarez Paraíso e Márcia Magno. Como sempre foi boêmio muitas vezes ao término das aulas acompanhava o professor Riolan Coutinho em suas investidas pelos bares que funcionavam no entorno da Escola de Belas Artes.  Lembrou que concluiu  o curso na EBA com três anos e meio, em 1983. Não fez a disciplina Educação Física porque já tinha mais de trinta anos, e por isto foi dispensado.  Em 1987 conseguiu se efetivar e continuou trabalhando até 2024,  quando foi aposentado por tempo de serviço.

Bonelli esperando visitantes numa das feiras 
que participou na EBA, com um cigarro
nas mãos. Fumou por décadas.
 Quando fez sua  exposição na EBA em 1993 escreveu  professora, escultora e pintora Márcia Magno :  “Geraldo Bonelli Borges ou simplesmente Bonelli expõe pela primeira vez os seus trabalhos no Painel – Artista em Destaque da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Trata-se de um verdadeiro artista que sem dúvida merece um destaque especial, independentemente de ser uma das pessoas mais populares e queridas da Escola de Belas Artes Bonelli com seu temperamento gentil, boêmio e tranquilo conseguiu conquistas todos os professores, funcionários e alunos transformando a Escola de Belas Artes na sua casa e o “Porão” no seu atelier de trabalho. É lá que Bonelli desenha, “pinta e borda.” É onde esconde a sua coleção de telas :é o seu mundo. Ele é admirado por todos que passam a conhecer a sua integridade percebem nos seus trabalhos uma autêntica linguagem plástica pessoal e de grande espontaneidade. Formado em Direito pela UFBA e posteriormente em Artes Plásticas, Bonelli e exerce com habilidade a linguagem verbal e a linguagem pictórica. A obra de Geraldo Bonelli é fruto da persistência e do talento e nela a cada momento, descobre-se algo inédito e curioso. Seus personagens, altamente estilizados transformam-se em figuras lânguidas numa sequência de formas e movimentos dando a impressão de estórias sequenciadas, bem solucionados pelo grande desenhistas e caricaturista que é.

Obra de Bonelli  premiada no Salão Bahia
Marinhas  na sua VIII Edição, em 2010
.
O tema abordado atinge a todos de uma forma bastante particular, refletindo momentos singulares de nossa vida, num ambiente melancólico, onde o sonho e a magia são contagiantes e construtores de uma atmosfera surrealista. Bonelli usa tons pálidos e seus azuis e verdes conferem aos trabalhos uma certa sobriedade e indagação, sendo significativos o contraste e a leveza dos seus personagens. Suas composições são expressivas e sempre caracterizadas por uma diversidade de situações inusitadas. Bonelli domina o pincel e o lápis com a mesma facilidade. É como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. É um exemplo típico da vocação artística, de dedicação que revela e materializa o talento.”

COLUNA ARTES VISUAIS - No dia catorze de setembro do mesmo ano publiquei na minha coluna Artes Visuais um pequeno texto que agora transcrevo:” Geraldo Bonelli na Cañizares: Desde o último dia 9, a Galeria Cañizares está expondo pinturas do artista plástica Geraldo Bonelli, permanecendo aberta até o próximo dia 30. Nascido em Itabuna, Bonelli diplomou-se em Direito e em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia. Suas telas retratam momentos singulares da vida num ambiente melancólico onde o sonho e a magia envolvem seus personagens de uma forma quase surrealista. Sua característica essencial é o constante movimento dado à figura humana, suas posturas, emoções e seus dias após noites envolvidas numa atmosfera essencialmente boêmia, lírica e romântica. Geraldo

Obra feita com hidrocor em 1971 ,quando 
na época havia uma onda psicodélica.
Bonelli utiliza tons pálidos e os azuis e verdes confere, certa sobriedade a esses momentos.

HERBERT MAGALHÃES – Também o então professor da EBA Herbert Magalhães escreveu e publicou um texto com uma entrevista de  perguntas e respostas. O recorte guardado pelo artista não traz a data precisa com o título "Bonelli, Com Certeza! Ele é mais do que conhecido na Escola de Belas Artes. Difícil não o encontrar lá dentro, ocupado em algumas tarefas. Igualmente difícil é vê-lo mal-humorado ou desanimado. Refiro-me naturalmente a Geraldo Bonelli Borges ou apenas Bonelli. Quem o vê na simplicidade de suas atitudes, e na sua modéstia, não diz que ele é bacharel em Direito, mas que o destino o fez trilhar os caminhos da arte. Fui encontra-lo no seu cantinho, um pequeno espaço no porão da Galeria Cañizares, pintando um cartaz para a Escola, pois lá ele é o responsável pela realização de cartazes, sinalizações, faixas etc." A seguir vem as oito perguntas e as respostas do Bonelli que não transcrevo por limitação do espaço.

domingo, 17 de maio de 2026

GUSTAVO MORENO E SUA ARTE DA RESSIGNIFICÂNCIA

Gustavo Moreno trabalhando no ateliê.
O artista visual Gustavo Moreno é pintor e escultor está no mercado desde o ano 2000 quando realizou sua primeira exposição individual no Museu de Arte Moderna da Bahia. É baiano de nascimento, graduado em licenciatura em Artes Plásticas pela Universidade Católica de Salvador e atualmente vem criando uma série de esculturas e totens utilizando os mais variados objetos encontrados aleatoriamente.  São pedaços de móveis antigos, brinquedos, imagens religiosas, peças de carros e de eletrodomésticos, azulejos, dentre muitos outros. Nasceu no ambiente da arte porque seu pai Tati Moreno e sua mãe Emília Fonseca, mais conhecida por Mimi, eram artistas, sendo que seu pai era um escultor de destaque autor daqueles Orixás do Dique do Tororó e de outras obras icônicas daqui e de fora do país. Sua mãe era pintora, mas não chegou a se profissionalizar e também seu irmão André é um escultor de destaque autor daquela obra Roda de Capoeira, que fica ao lado do Mercado Modelo, em Salvador. O Gustavo Moreno residiu em São Paulo a partir de 1997, mas hoje trabalha em seu ateliê nas imediações do elevador do Pilar, na Cidade Baixa, em Salvador, e num galpão no Litoral Norte. Já fez algumas exposições individuais, participou da Bienal do Recôncavo, em São Félix-BA e do I Salão de Arte Contemporânea do Consulado da Holanda. Em 2005  foi premiado com o troféu Caboatã de Cultura e Arte. Ele foi um dos artistas selecionados no Edital Artsul Artistas Independentes 2021 e  premiado no Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos-SP.  Entre os anos 2010 a 2015 esteve no Rio de Janeiro montou um ateliê na fábrica Bhering, que estava abandonada, juntamente com um grupo de artistas . Era uma antiga fábrica de chocolates e café , fundada na década de 1930, que foi  transformada em um polo cultural e criativo. Fica localizada na zona portuário  do Rio de Janeiro.  O imóvel tem seis  andares e reúne dezenas de  ateliês de arte, galerias, brechós, lojas de móveis e cafés.Também participou de alguns cursos   sobre Crítica, Criação, Circuitos  - Instâncias da Arte Contemporânea Brasileira, ministrado por Ivair Reinaldim;   de Teoria da Arte, por Fernando Cochiaralle , e  sobre Planos e Superfícies , proferido  por Luiz Ernesto de Morais, todos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, (EAV). Esta escola começou a funcionar após o fechamento do Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro . Em 1975 foi renomeada e fica localizada no bairro do Jardim Botânico , ocupando a  antiga residência do armador brasileiro  Henrique Lage.
Obras do artista expostas na SP/ Arte 2025.
Em 2012 fez uma exposição utilizando tinta óleo e acrílica, lona, aço a qual denominou de
Cada Um de Nós, Também os Outros,  no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro. O artista concebeu a mostra" como  uma reflexão das relações do indivíduo no mundo contemporâneo, como a negação da identidade e as investigações quanto à memória, o tempo e o espaço”. Participou em 2026 da mostra Adiar o Fim dos Mundo, na Fundação Getúlio Vargas com curadoria de Paulo Herkenhoff e Ailton Krenak. Em 2025 da Afro Brasilidade em homenagem a Rubem Valentim e Emanoel Araújo com curadoria de Paulo Herkenhoff e João Victor Guimarães. 

                                          PINTUURA MATÉRICA

Obra de Gustavo Moreno feita com
areia, pigmentos ,pedras e pó xadrez.
O artista Gustavo Moreno considera sua pintura matérica, "não é uma pintura tradicional de diluir a tinta e se preocupar com perspectiva,  luz e a sombra. Minha pintura é como se fosse um expressionismo abstrato, livre de amarras tradicionais e se aproxima do abstracionismo . Também  abstraio me aproximando do concretismo, criando obras que se unem formando uma certa geometria". Não usa apenas tintas e pincéis, e sim cimento, pigmentos, pó xadrez, cola ,madeira, e outros materiais que vai agregando no suporte para se expressar. Faz uma pintura muito livre, que dialoga com a escultura, com o tridimensional. Sabemos que a pintura  matérica   surgiu nas décadas de 40 e 50 no pós-guerra e se caracteriza pela sua textura e materialidade, quando o artista utiliza areia, gesso, madeira, tecidos, objetos dentre outros materiais criando relevos e efeitos táteis em vez de apenas visuais. É considerada uma arte abstrata que incorpora materiais não convencionais para expressar emoções e memórias. 
O artista Gustavo Moreno já passou pela pintura   figurativa na década de 2000 a 2010. Quando indaguei se o mercado aceitou bem essas pinturas que fazia quando expôs individualmente pela primeira vez no MAM-BA em 2000 respondeu que apresentou uma série de pinturas de rostos  remetendo à pintura P432qwA|32QWA|lembrando Andy Warhol. O   seu nome de batismo era Andrew Warhola Jr, nasceu em  Pittsburgh, no estado da  Pensilvânia, nos Estados Unidos, em  6 de agosto de 1928  e veio a falecer em Nova York, 22 de fevereiro de 1987. Wahrol “foi um artista visual, diretor de cinema, produtor e figura de destaque do movimento Pop Art. Suas obras exploram a relação entre expressão artística, publicidade e cultura de celebridades que floresceu na década de 1960 e abrangem uma variedade de mídias, incluindo pintura, serigrafia, fotografia, filme e escultura.”

Vemos uma tela impregnada de tintas,
pigmentos e outros materiais
dialogando com uma escultura
( totem) de Oxóssi.
Para Gustavo Moreno suas  atuais  pinturas criam uma relação da escultura com a tela. São peças subsequentes às telas formando uma certa complementariedade.  Estas esculturas ou totens criados por Gustavo Moreno ele diz que "enxerga em seus trabalhos  um geometrismo, mas não é uma afirmação com a visão da matemática racional. Eu nego tudo isto enquanto penso que é uma geometria pelo que está por vir e não pensando na racionalidade. É como se fosse uma inversão, uma geométrica negada."
E continuou: " O que me envolve são questões da religião, o sincretismo, a cultura popular. Todo meu trabalho em primeira instância parte de uma coleção de objetos e materiais. Tenho um arquivo de materiais, de objetos e fragmentos que levo para o ateliê. Este grande reservatório de coisas que recolho está lá guardado e os trabalhos surgem a partir dali. Me interessam os materiais que tiveram um certo desgaste pelo tempo porque têm suas impregnações surgidas com o tempo, sua temporalidade. Passou pelo sol, chuva e pela sua funcionalidade de certa forma em algum lugar. São esses materiais que recolho em ferros velhos ou mesmo na rua, em antiquários e lugares de construção. Acontece às vezes até que vou dirigindo e ao enxergar um objeto paro o carro e levo para meu ateliê. Acho que a partir disto é pensar em transmutar e fazer eles reviverem, se ressignificarem de outra forma."
Gustavo cortando um azulejo
para colocar numa nova obra
.
Não faz um desenho prévio de suas esculturas. Vai agregando os materiais e observando os encaixes, as posições e a visão estética até a sua conclusão final. É como se fosse um jogo de armar onde as peças vão se encaixando, só que no jogo de armar foi feito um projeto e determinado os lugares das peças. No seu processo criativo tudo é conduzido pela intuição e sensibilidade. Às vezes coloca no chão e vai  juntando um ao lado do  outro e vendo onde se encaixa melhor cada um e se tem funcionalidade. É como que existisse um diálogo desses materiais com o artista . Neste fazer surge uma relação para tentar entender onde cada um vai ficar permanentemente . Como se eles fossem os atores e ele um diretor. Algumas vezes não dá certo é como se um deles dissesse aqui não funciono bem.
 Falou ainda que acontece  ficar olhando uma escultura ainda em produção indagando onde vai colocar determinada peça que escolheu para fazer parte da escultura. Imagina  que estava errado e acertou, outras vezes está errado e tem que realmente mudar de lugar.  Também neste processo criativo acontece que uma peça não se encaixa naquela escultura e cria-se um impasse obrigando Gustavo Moreno a parar e deixar de lado. Quando isto ocorre  vai trabalhar em outra escultura. Em alguma outra hora ou  dia volta a trabalhar naquela primeira escultura até terminar. "Sinto como se fosse uma catarse, muitas vezes fico o dia inteiro concentrado numa ou mais esculturas ao mesmo tempo." 
Depois de estabelecer os locais de cada  passa para a fase da execução que considera  mais árdua e complexa porque vai  precisar de assistentes  que lhe ajudam a cortar, soldar, colar e lixar. Muitas vezes antes da execução fotografa e leva pra casa e ainda fica pensando como ficaria melhor. Tem que ver como agregar, por exemplo, uma peça de latão, que não se consegue soldar no aço, ferro não solda na madeira, cerâmica com madeira. Aí entram os truques como o do  aparafusamento.

Esta interação do artista Gustavo Moreno e os variados materiais que costuma usar em suas criações ele revela  que não possui um controle total sobre eles. Muitas vezes esses materiais vão apontando silenciosamente os caminhos que deve percorrer até encontrar uma solução que lhe agrade do ponto de vista estético e praticidade. Algumas vezes permanece horas diante de uma obra em processo de construção e as coisas vão acontecendo como se estivesse em transe. "Tem momentos que realmente nem sei o que estou fazendo. Mas, é nesta relação com os materiais que a obra ganha forma e força." Disse que pode até programar uma certa cena para fotografar, por exemplo, mas sempre surgem os imprevistos, as nuances e as alterações até o trabalho é finalizado."

Os trabalhos que Gustavo Moreno realiza são assemblagens misturando  símbolos   das chamadas religiões de matrizes africanas e da igreja católica como por exemplo patuás, imagens de santos,  castiçais de velas,  turíbulos de metal que é usado para incensar os templos religiosos, um cálice. Enfim ele procura em suas esculturas fazer este sincretismo,  que hoje está tendo uma boa demanda no mercado de arte. Afirmou ainda que se sente entre  " o colonizado e o colonizador. Minha mãe era filha de portugueses e meu pai um baiano mestiço."

                   TRAJETÓRIA

Família de artistas :Tati Moreno, André,
 d. Mimi e Gustavo.
O seu nome de batismo é Gustavo da Fonseca Moreno nasceu em dezoito de abril de 1969 em Salvador. É filho de Otávio de Castro Moreno Filho, o Tati Moreno, e d. Emília Augusta da Fonseca, mais conhecida por Mimi, já falecidos. Estudou o primário na Escola Pequenópolis, no bairro da Graça, em Salvador e em seguida foi para o Colégio Nobel, do Rio Vermelho, e depois transferido para o Colégio Nobel, do Itaigara, ambos em Salvador. Em 1998 prestou vestibular para Licenciatura em Artes Plásticas na Universidade Católica de Salvador. Achou o curso de boa qualidade teórica, mas sentiu falta de aulas práticas, o que foi preenchido ajudando seu pai na produção de suas esculturas. Ressaltou também que sua mãe d. Mimi desenhava muito bem e pintava. Mimi  estudou na Escola de Belas Artes e fazia alguns dos projetos e desenhos que eram executados por Tati Moreno. Como vivia nesses dois ambientes nos ateliês do pai e  da mãe foi quase natural se tornar artista. Quando  criança ficava vendo a mãe pintar e passou a desenhar. Durante algum tempo Mimi pintou paisagens, naturezas-mortas e flores. Para Gustavo Moreno que “as pinturas de minha mãe pareciam com as pinturas dos azulejos portugueses do período colonial, mesmo antes dela abraçar a azulejaria”. Talvez sua criatividade foi de certa forma ofuscada pelo seu empenho em contribuir com a obra do esposo Tati Moreno e o consequente bom desempenho de seu pai como escultor conhecido em todo o país e lá fora.
Esta obra que remete a uma paisagem 
foi criada usando vários materiais
.
 REFERÊNCIAS

O artista e curador  Caetano Dias escreveu um texto para a exposição que Gustavo Moreno fez no MAM-BA que intitulou de Transmutar é Preciso. Vejamos parte do texto: O trabalho de Gustavo Moreno pode ser pensado como uma poética dos fragmentos e suas energias em meio ao domínio da nova imaterialidade. Consciente disso. ele escolhe adentrar e aprofundar as relações entre memória, história e fé, criando construções que ligam aspectos da cultura popular, religiosa e industrial, ecoando tradições ao atribuir novos significados a coisas antigas que sempre ressurgem. Moreno ultrapassa o  esperado nas práticas artísticas atuais, fazendo isso com sutil delicadeza ao sobrepor resquícios do passado, desafiando a práxis cíclica tão comum ao anacrônico, que tende e atende ao sistema."

"A abordagem interdisciplinar de Moreno, que mistura materiais orgânicos industriais, cria uma sinergia que reflete a complexidade e pode reestabelecer a necessária desordem que o mundo precisa para continuar a navegar por águas que ainda possam ser inusuais convidando o espectador a explorar as múltiplas camadas de significado em suas torres de sentidos. A estética em platôs, presente na criação de Moreno, celebra a invenção pelo viés dos catadores errantes que ao longo da história, sempre podem redescobrir tudo o que há, refletindo assim a força, a adaptabilidade e a mutabilidade das culturas que continuam a se transmutar Seus platôs, somados em vértices, emergem como entidades que respiram e pulsam com a energia da ancestralidade no presente, trazendo frescor e vitalidade que sempre urge. 

Gustavo Moreno e Caetano
Dias e algumas esculturas.
As esculturas de Moreno são compostas por fragmentos como madeira, metal oxidado, vidro e cerâmica, frequentemente dispostos em formas longilíneas que evocam tanto a fragilidade, quanto  a força. Esses elementos díspares, marcados pelo tempo, dialogam entre si para criar um estranhamento que transcende, ao se interpenetrarem e seguirem para outros imaginários."

Já o  crítico Marcus Lontra sobre uma exposição de pinturas matéricas  assinalou que o artista parte do registro fotográfico e “executa uma série de ações pautadas pela edição e manipulação das imagens, com intuito de criar a necessária surpresa e curiosidade que toda obra de arte verdadeira deve suscitar no espectador. Nesse sentido, o suporte é elemento essencial no seu processo. Nas telas brancas, o vazio acaba por sugerir o silêncio do tempo. A matéria opaca, branca, faz com que a figura dela pareça britas como um resquício de pensamento aparece subitamente em nosso consciente oriundo dos silêncios dos desvãos da nossa memória. Já nas superfícies polidas e metálicas, a imagem parece ser agregada, ao posterior à existência do suporte. Enquanto nas telas o tempo rege o espetáculo, no metal o espaço conduz o nosso olhar, provocando o espectador e, por vezes introduzindo-o no centro da ação através do espelhamento da sua própria imagem”.

Exposições -  Individuais - 2012- Cada Um de Nós Também os Outros/Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro-RJ ; Cada Um de Nós Também os Outros/Galeria Paulo Darzé, Salvador-BA. 2004 -Transtornos Mentais /Galeria Fábio Pena Cal, Salvador-BA 2000 - Baianos Luz/Museu de Arte Moderna da Bahia-(MAM), Salvador-BA. 

Coletivas - 2026Adiar o Fim do Mundo, FGV Arte Rio de Janeiro-RJ. 2025 - Afro Brasilidade Homenagem a dois Valentins e a um Emanoel, FGV Arte Rio de Janeiro-RJ; Ecos Malês, Casa das Histórias de Salvador, Salvador-Ba. 2024 - Rotas Brasileiras - SPArte Acer Galeria de Arte 2023- Credo, Casa Jacarepaguá - Paralela à SPArte - Rotas Brasileiras, São Paulo-SP. 2023 - Um Tanto do Que Somos, Casa do Benin, Salvador-BA; ArtStudio, Acervo Galeria de Arte, Salvador-BA; Credo l? - Casa Jacarepaguá, São Paulo-SP. 2021- ARTSOUL - Artistas Independentes. 2020- Clarices, um tributo ao centenário de Clarice Lispector/Ateliê da Fotografia, Salvador-BA; Utopias e Distopias Atmosféricas, Uncool Artista.  2019 - 47° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André-SP. 2018 - Bienal Internacional de Arte Contemporânea Emergente, Eve Maria Zimmermann, Espanha; Feira Parte, Coletivo Rifa, São Paulo-SP. 2016 - 4° Salão de Outono da América Latina - Galeria Marta Traba /Complexo 2, Cultural Memorial da América Latina, São Paulo-SP. 2014 - Bailado de Flávio de Carvalho, SESC, Nova Iguaçu-RJ: 2013 - Deslocamentos, Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro-RJ ; Acervo Aberto, Galeria TAL Tech Art Lab, Rio de Janeiro-RJ . 2012 - Nosso Cuiabá, Escola de Artes Visuais (EVA), Parque Laje, Rio de Janeiro-RJ; Feira de Arte Rio, Galeria Paulo Darzé, Rio de Janeiro-
Escultura em homenagem aos pescadores na 
cidade de Camaçari, Bahia.
RJ; Jornada Move Arte, Galeria Cañizares/ Escola de Belas Artes (EBA) da UIERA Salvador-BA.
2011- Intercâmbio Bahia x São Paulo, Galeria de Arte Carlos Barbosa, Feira de Santana-BA; Santana, Museu de Arte da Bahia (MAB), Salvador-BA. 2009 - Novos Talentos, Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília-DF. 2008 - IX Bienal do Recôncavo, São Felix-BA; Arauto de Santos, Instituto Cultural Brasil Itália (IBRIT), Milão-Itália. 2003 - Eu Sou Eu e Meu Endereço, Centro Cultural Correios, Salvador-BA; A Holanda no Olhar do Artista Brasileiro/ I Salão de Arte Contemporânea, Centro Cultural Dannemann, Salvador-BA. 2002- Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), Salvador-BA. 1999 - Exposição Arte GACC Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM). Salvador-BA. 1998 -IV Bienal do Recôncavo, São Felix-BA. 1991 - Trinca de Três, Galeria Casa do Benin, Salvador-BA.

Prêmio - 2016 -1° lugar (Júri Técnico), 15° Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos, São Paulo-SP. Acervos - Fundação Luiz Ademir, São Félix-BA; Centro Cultural dos Correios, Salvador-BA; Galeria Paulo Darzé, Salvador-BA; Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro-RJ; Coleção BGA Brasil Golden Art, São Paulo-SP  .

sábado, 9 de maio de 2026

LUCIANO ROSA E SUA SAGA EM BUSCA DE EXPRESSAR A ARTE

O artista Luciano Rosa pintando em seu ateliê
na cidade de Vitória da Conquista, Bahia.
O artista Luciano Rosa é a personificação de muitos artistas  espalhados por este Brasil profundo  ainda não alcançaram o reconhecimento merecido do mercado de arte, esta entidade quase abstrata que determina prestígio, preços das obras e alça os artistas a patamares impensáveis. Ele nasceu em Itabuna no dia oito de novembro de 1968 e com nove anos de idade seus pais mudaram para Itapetinga com quase duas dezenas de filhos. Seu pai Basílio Félix dos Santos um pequeno produtor de cacau perdeu suas terras em jogos de azar e sua mãe a pernambucana d. Maria Eutropia Freudenthal teve que enfrentar a vida juntamente com os filhos mais velhos para ter uma sobrevivência digna. Foi assim que sendo um dos mais novos Luciano Rosa Santos, este é o seu nome, passou a frequentar o Ginásio Agroindustrial onde alguns artistas costumavam desenhar e pintar. Entre eles estava o pintor São Félix que por uma deferência do prefeito de então permitiu que morasse no estabelecimento de ensino. Lá ele pintava suas paisagens urbanas e rurais e fazia as decorações de lojas, colégios, das festas do  Natal, Carnaval e  Juninas juntamente com outros artistas. Foi neste ambiente que o menino Luciano Rosa começou a prestar a atenção do uso das tintas e dos pincéis.

Três obras com  a temática peixes em
composições com elementos geométricos.
Parecia fácil ficar olhando os adultos pintando, mas conta Luciano Rosa que “eles não gostavam de ensinar e tive que começar a desenhar pelo que conseguia ver e aprender”. Mas, com passar do tempo começou a  ajudar e ganhar  dinheiro com as decorações,  pintura de faixas de propaganda comercial e e também passou a fazer alguns objetos de artesanato. Depois vieram as camisetas feitas de serigrafia utilizando o chamado filme de recorte, que é uma forma um pouco rudimentar da serigrafia e da transferência de imagens. "O filme de recorte termocolante (PU ou PVC) “é um material vinílico aplicado em tecidos via calor (150°C-160°C) por 10-15s, ideal para personalização detalhada com plotter de recorte. Pode ser usado sozinho ou combinado com serigrafia (base no silk, detalhes no filme) para acabamentos premium, como alto relevo, flocados ou metalizados”. Quando conversamos ele estava em seu ateliê e mostrou a mesa de serigrafia onde personalizava as camisetas e outros produtos.

                           FORÇA DA ARTE

Estudou a parte do primário na Escola do Lions Clube  e na Escola Municipal Augusto de Carvalho, ambas  em Itapetinga, sendo obrigado a parar de estudar para trabalhar.  Frequentou durante alguns anos o Ginásio Agroindustrial, mas ia jogar bola e observar as pessoas lideradas pelo escultor São Félix pintar. Trabalhou muitos anos ao lado do pintor e escultor cujo nome verdadeiro era Júlio de Souza Barbosa, nascido vinte e um de março de 1927 na cidade de São Félix, no

 Luciano Rosa ao lado da obra
Musicista, de 2020. Acrílica s/ tela.
Recôncavo Baiano, e ganhou este apelido de São Félix em Itapetinga onde chegou aos dezessete anos de idade. Era pedreiro de profissão e com o tempo e a sensibilidade natural se transformou num escultor popular a partir da década de 70. Veio a falecer aos 83 anos em 2011, numa morte trágica sendo esfaqueado por um casal de ladrões. Deixou várias obras no Parque da Matinha, em coleções particulares, praças, ruas e prédios públicos de Itapetinga. O Luciano Rosa também pintou ao lado de Villadônega Rodrigues natural de Euclides da Cunha, região Nordeste da Bahia, foi jogador meio campista do Vasco da Gama e do Atlético Mineiro, quando morou em Itapetinga era artista plástico, pintava painéis, letreiro de lojas e clubes sociais e fazia decoração de eventos com suas pinturas. Mas, foi com o pintor e escultor São Félix que Luciano Rosa mais trabalhou e se identificou. 
Aos vinte anos Luciano decidiu que sua vocação era mesmo ser artista e intensificou sua busca por novos trabalhos. Ainda estudava no Ginásio Augusto de Carvalho, mas constituiu família e teve que deixar os estudos. Disse que trabalhou com afinco  e pintou muito nos anos 80 e 90 para sustentar a mulher e filha, e que sua esposa Maria Gorete foi e ainda é uma grande incentivadora do seu trabalho plástico. Agora, já maduro, voltou a estudar e concluiu o curso ginasial. Sua arte foi se desenvolvendo através de leitura e com o surgimento das redes sociais confessa que passou a tomar conhecimento de outros estilos e conhecer a produção de artistas importantes.

Quatro obras abstratas criadas em 2020
usando tinta acrílica sobre telas.
 Sem patrocínio, sem orientação e sem uma galeria para expor suas obras  e lhe representar  Luciano Rosa e centenas de artistas desde país afora lutam com muitas dificuldades para continuar se expressando. Muitos ficam pelo meio do caminho e abraçam outra atividade diante da necessidade de sobrevivência, mas tem outros teimosos que continuam a pintar paralelamente às outras atividades que exercem, e uns poucos persistem só pintando e terminam vencendo como é o caso do Luciano Rosa. Para completar seu portfólio ele passou também a fazer retratos e aprimorou sua técnica pintando em óleo sobre tela. 
Disse que a tinta a óleo lhe permite detalhar mais os rostos das pessoas quando pinta e também é excelente para fazer o sombreamento através do esfumado ou esfumar que “é uma técnica artística que consiste em suavizar contornos, misturar cores ou transições de tons, eliminando marcas de pinceladas para criar um efeito difuso, nebuloso ou de sombra. O objetivo é fazer com que as linhas desapareçam gradualmente, assemelhando-se a fumaça, gerando profundidade e suavidade na obra." Ele também disse que ao fazer retratos de pessoas cria  fundos que combinem com os personagens que estão sendo retratados. Demora mais de duas semanas para concluir um retrato e é exigente com o resultado. Também costuma pintar suas obras com motivos geométricos usando tinta óleo ou acrílica sobre tela ,e outro detalhe é que  fabrica as telas que utiliza para pintar, procurando desta forma baratear os seus custos de produção.

                           TRAJETÓRIA

Vemos uma bela natureza-morta com 
equilíbrio de formas e cores.
Como prova de sua saga em continuar se expressando Luciano Rosa está expondo trinta e uma  obras no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, que ora é palco da VI Conferência Municipal de Cultura da cidade. São obras com composições geométricas, e o artista chegou a este estilo depois de pintar paisagens rurais e urbanas. Atualmente  utiliza uma paleta de cores variadas  que trazem no seu conteúdo imagens plásticas bem resolvidas. Ao seu lado está expondo a artista Elaine Porto que trabalha com a arte têxtil contemporânea e  macramê artístico, que é uma técnica de tecelagem manual que utiliza nós e trançados para criar peças decorativas, sem o uso de agulhas ou máquinas. De origem turca (significando "franja" ou "trama"), é ideal para painéis, suportes de plantas e acessórios, utilizando barbantes de algodão e bases como madeira.”

O artista Luciano Rosa gosta de pintar figuras femininas, natureza-morta, retratos, animais, objetos variados e atualmente está expondo e continua pintando obras geométricas e abstratas.  Falou que as obras geométricas são concebidas depois de um  esboço numa folha de papel usando compasso, régua e até lápis de cor. Em seguida é que vai para a tela esboçar o trabalho e finalmente pintar escolhendo as cores. Por exemplo, recentemente  viu uns peixes num lago na Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, e aquilo ficou em sua mente. Quando sentou para trabalhar lembrou das carpas que tinha visto na praça e já pintou várias telas com esta temática  colocando peixes entre elementos geométricos. Portanto, os peixes da praça serviram apenas de ponto de partida, de um start  para pintar uma série de obras dentro de suas características como pintor.

Na História da Arte encontramos importantes pintores que partiram da arte geométrica e abraçaram as correntes de arte do cubismo, Construtivismo e o Neoplasticismo. Coube a Pablo Picasso e Georges Braque no século passado a criação do cubismo com a geometrização das formas, fragmentação de objetos. O Construtivismo surgiu na Rússia entre os anos 1913 a 15, portanto antes da Revolução Comunista de 1917, como um movimento de vanguarda nas artes
Nesta obra Mulata  simbiose entre figurativo
 e o construtivismo
.
plásticas e na arquitetura com os artistas Vladimir Tatlin e Alexander Rodchenko. Finalmente o Neoplasticismo movimento vanguardista europeu do início do século XX, fundado por Piet Mondrian, que defendia a abstração geométrica pura. Já o Luciano Rosa pratica um estilo misturando intuitivamente as formas geométricas e usando uma paleta dentro do seu gosto pessoal e das informações que consegue captar como bom observador que é. Não trabalha com o rigor dessas correntes da arte contemporânea, mas consegue se expressar e se comunicar com certa facilidade.

Disse por ser evangélico , gosta das músicas gospel e se deparou na internet com as músicas da cantora americana Mahalia Jackson. Ela começou sua carreira cantando em corais gospel nas igrejas  em 1937. Quando completou vinte e seis anos gravou seu primeiro LP. Ela faleceu em 1972 aos sessenta anos de idade. Agora o artista está debruçado pintando um retrato da cantora através uma fotografia que encontrou nas redes sociais e pretende que seja o mais fiel possível. Acha que vai trabalhar por cerca de um mês neste novo retrato, isto porque desenha e depois vai aos poucos delineando os traços do retratado com paciência e busca da perfeição.

Luciano está expondo trinta e uma obras.
Consta no seu currículo apenas duas exposições em espaços públicos sendo a primeira em 2025 na Casa Memorial Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, Bahia, que deu o nome de Resiliência quando expôs trinta obras abordando os temas que continua até hoje. Disse que deu este nome Resiliência “É uma trajetória muito difícil. Tem horas que você corre atrás de uma coisa, corre atrás de outra. No mundo das artes plásticas, é bem difícil você ter um local para expor quando ainda não alcançou o reconhecimento. Por isso, eu agradeço a cessão desse espaço, a oportunidade e a valorização dos artistas. A Resiliência vem de lá do meu ateliê até aqui, de transportar os trabalhos, ter alguém para ajudar, ter cuidado com as obras.” Agora está expondo no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, também em Vitória da Conquista, juntamente com sua colega Elaine Porto que denominaram de Diálogos Geométricos Entre Cordas e Traços. Enquanto Luciano apresenta trinta e uma  obras usando elementos geométricos, abstratos e retratos a Elaine Porto nos mostra obras de Fiber Art utilizando fios de algodão, palha e outras fibras naturais para criar relevos.