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sábado, 26 de setembro de 2026

ENGENHEIRO BAIANO FEZ NOVENTA MAQUETES DAS INVENÇÕES DE LEONARDO DA VINCI

O engenheiro Thales de Azevedo Filho com
suas maquetes das invenções de Da Vinci.

O engenheiro eletricista baiano Thales de Azevedo Filho é criador do Circo do Saber e um apaixonado pelas invenções do gênio italiano Leonardo Da Vinci que pintou a Mona Lisa, a obra mais valiosa e mais visitada de todos os tempos e, também a fantástica Última Ceia, famosa pintura mural criada entre 1495 e 1498 no convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, Itália, dentre outras obras que atravessaram séculos por sua técnica e beleza, e registrou no papel mais de uma centena de invenções. Seus projetos criados na Renascença são até hoje motivo de espanto e curiosidade de como um homem simples, sem recursos e poucas informações disponíveis na sua época imaginou máquinas, baseadas em princípios físicos e matemáticos que são aplicados até hoje em equipamentos modernos. Seguindo os projetos do gênio o baiano Thales de Azevedo Filho já construiu  mais de noventa maquetes, e pretende chegar a cem, com base nos projetos e invenções de Da Vinci. As maquetes funcionam e poderão em breve ser manipulados pelos futuros visitantes numa exposição permanente que está organizando num imóvel no bairro da Graça, em Salvador. Está também montando uma sala maker, que nenhum museu daqui tem, onde os jovens ou mesmo visitantes adultos possam criar e manusear serrotes, martelos, chaves de fendas, furadeira e outras ferramentas. Nesta sua empreitada conta com o apoio do filho Guto de Azevedo que é engenheiro e do marceneiro Roque Conceição. Portanto, estamos diante de um sonhador que faz com a habilidade de suas mãos e conhecimentos da física, mecânica e hidráulica peças delicadas em madeira e outros materiais para materializar as ideias deixadas nos famosos cadernos pelo gênio italiano. Thales, como já revela o seu nome, é filho do antropólogo Thales de Azevedo, autor de vários livros e ex-diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal. Tive a honra de ser aluno do seu pai no Curso de Ciências Sociais onde ele ensinava Antropologia, e dou meu testemunho que era um dos homens mais cultos, civilizados e afáveis que já passou por esta universidade. Ele ensinou a seus filhos ter curiosidade e usar as mãos e Thales de Azevedo Filho costuma repetir como um mantra: “Quem faz com as mãos, faz melhor”. A família era composta de quatro irmãos e quatro irmãs, e afirma que todos sabem fazer coisas usando as mãos. Os homens aprenderam a trabalhar na marcenaria, mecânica e as mulheres a costurar a cozinhar.

O engenheiro  projetista mete a mão nas
ferramentas para construir as maquetes.

Ele não alisou bancos de academias fazendo mestrado, doutorado ou pós-graduação, mas já tem mais de 1.700 projetos realizados em vários estados brasileiros. Entende “que um edifício nasce da concepção arquitetônica e ganha vida por meio dos projetos complementares, transformando a obra em um organismo vivo e interativo. Não podemos esquecer que a engenharia só evolui quando a experiência caminha ao lado da pesquisa, da criatividade e da coragem de inovar”. Fala pouco em público, também não seguiu o caminho do pai do magistério e tampouco escreveu um livro até o momento. Mas, realizou o seu sonho que era mergulhar fundo nas invenções do gênio Leonardo Da Vinci, e vibra como um jovem adolescente quando consegue retirar do papel um projeto do grande italiano e transformar numa maquete. É um profissional muito requisitado e premiado pelo conjunto de seus projetos de engenharia  pela  PRYSMIAN Internacional,  ( grupo italiano  líder mundial na indústria de cabos e sistemas para energia e telecomunicações), pela  Saint-Gobain, (multinacional francesa fundada em 1665 que lidera o mercado mundial de construção leve e sustentável),  de Sustentabilidade  pela FIEB e por último da ADEMI como Projetista do Ano de 2026.Escreveu num pequeno esboço que fez para a nossa conversa que “fiz muito pouco em muito tempo e agora tenho muito o que fazer em pouco tempo”. Modéstia o engenheiro Thales de Azevedo Filho porque é um
Este princípio de  Da Vinci está
presente no Canal do Panamá e
no  Canal Saint-Martin, em Paris
.
projetista respeitado responsável pelos projetos complementares dos principais prédios erguidos nos últimos anos na Bahia e de muitos daqueles prédios de luxo do Corredor da Vitória, inclusive do ícone a Mansão Wildberger. Seus projetos priorizam soluções que racionalizam a execução, reduzem interferências entre disciplinas e facilitam futuras manutenções, garantindo maior vida útil aos sistemas elétricos, hidráulicos e de prevenção de incêndio. Reconhece que estamos longe da habitação perfeita e defende a necessidade de digitalizar a moradia, monitorá-la remotamente, apurar seus custos operacionais, torná-la mais palatável. Para isto, é necessária uma tecnologia sem tecnicismo exagerado, simplificando a vida e atuando de forma intuitiva, quase imperceptível entregando soluções mais adequadas ao consumidor.” 
Seu projeto pessoal mais recente é o Pedras do Mundo. Ele vem colecionando pedras de lugares diferentes deste Planeta afora. Já possui algumas de Marrocos, que é um dos países banhados por dois oceanos a oeste pelo Oceano Atlântico e, na sua porção norte, pelo Mar Mediterrâneo  ;  do Estreito de Bering, que liga o mar de Chukchi (parte do oceano Ártico), ao norte, com o mar de Bering (parte do oceano Pacífico);  outra do Estreito de
Pedra da mesma mina de onde saíram
blocos para construção do Vaticano e
da Casa Branca, nos Estados Unidos.
Magalhães, que é uma passagem de 570 km que liga o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico no extremo sul da América do Sul;  um amigo lhe presenteou recentemente com uma pedra da Croácia, da mina de onde saíram muitas pedras de mármore para serem usadas na construção do Vaticano e da Casa Branca, no Estados Unidos, dentre outros. Ele vai colecionando as pedras de contando a história de cada uma. “A minha preocupação é disseminar o saber. Uma pedra só, não diz nada. Mas, cada uma delas tem sua história e vou contar em poucas palavras”. O mestre Thales de Azevedo Filho é também um viajante compulsório, e suas viagens sempre tem um componente a mais que é procurar conhecer museus, construções de grande relevância , e instituições que tenham alguma relação com o gênio Leonardo da Vinci. Agora no início de outubro vai ao Panamá, especialmente ao Canal do Panamá, pra ver de perto em funcionamento a eclusa por onde os navios atravessam e que usa um princípio descoberto por Da Vinci, onde a força da água fecha as portas muito pesadas da eclusa.

                                       QUEM É

O Tambor Andante sincronizado
inventado por Leonardo Da Vinci
. 
Confessa que nasceu num ambiente onde se respirava ciência, tecnologia e arte e desta forma construiu a sua trajetória. O patriarca Thales de Azevedo também costuma dar suas pinceladas nas telas. Nasceu em Salvador em dezesseis de novembro de 1943.   É filho de Thales Olympio Góes de Azevedo e Mariá David de Azevedo. Disse que sua mãe era muito dinâmica, gaúcha de Alegrete e seu pai faleceu quando ela era criança e tios foram lutar na guerra do Paraguai. Sua mãe veio para Salvador para a casa e uma tia que a obrigava a aprender piano. Ela foi estudar a contragosto e ao concluir o curso entregou o diploma a tia e nunca mais tocou piano. Ela costuma dizer que “não troco a inteligência de Thales (o esposo) pela minha iniciativa.” Basta dizer quando ele queria ir ao lançamento de um livro, por exemplo, pegava o dinheiro para comprar o livro na mão dela e na volta dava o troco. “Meu pai não entendia nada de dinheiro! O mundo dele eram os livros e seu magistério”. Thales Filho fez o primário na Escola Jesus, Maria e José, que funcionava no Campo Grande, o curso ginasial na Escola do Mosteiro de São Bento, e relembra com alegria de seu professor Dom Tito Amoroso Anastácio, médico e um devotado às ciências, que era primo de  Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, famoso escritor, 
A invenção  que transforma o
movimento contínuo em alternado
.
crítico literário, professor, intelectual e líder católico brasileiro. Já o curso científico concluiu no Colégio Antônio Vieira, onde segundo ele a ênfase pela ciência era muito estimulada ainda com vários professores padres jesuítas de origem italiana. Lembra que existiam grandes laboratórios de Física e outro de Química. Ao terminar o colegial fez vestibular para Física, no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia por influência do engenheiro e físico Walter Bautista Vidal, “considerado a maior autoridade em produção de energia, criador do programa o Proálcool”. Durante o curso descobriu que “a Física Aplicada era mais fascinante que a ciência pura, e então prestou novo vestibular e cursou engenharia elétrica, na Escola Politécnica, da Universidade Federal da Bahia. Serviu ao Exército na CPOR, criado em 1927, no Rio de Janeiro, e na década seguinte o modelo expandiu-se pelo país. Foi inspirado “nos “University Officers' Training Corps” (UOTC) do Reino Unido e “Reserve Officers' Training Corps” (ROTC) dos Estados Unidos, que forneceram dezenas de milhares de oficiais para o serviço na Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Os oficiais reservistas, portanto, eram profissionais liberais, médicos, advogados, professores, arquitetos, comerciantes, funcionários públicos e veterinários. O sistema foi posto à prova na Segunda Guerra Mundial, quando o Exército precisou rapidamente expandir seu efetivo. Na infantaria da Força Expedicionária Brasileira havia 301 
Aqui o casco duplo do barco para
enfrentar os ataques na guerra. 
Usado até hoje nos grandes navios.
oficiais subalternos da reserva R/2 e 266 oficiais subalternos de carreira.” (Wikipédia) Quando terminou o CPOR o oficial da reserva Thales de Azevedo Filho fez um estágio de uns quarenta e cinco dias no I9 BC. Lá descobriu quatro caminhões num pátio para serem leiloados. Ele perguntou ao oficial responsável se poderia ver os carros, foi autorizado e passou a trabalhar até conseguir colocar em funcionamento dois dos caminhões. Gostava de mecânica, consertava carros e chegou a correr nas famosas corridas que aconteciam na Avenida Centenário atraindo milhares de pessoas nas décadas de 50 a 70. O piloto baiano mais famoso dessas corridas foi o Luiz Pereira dos Santos, conhecido por Lulu Geladeira. Sua fama se estendeu a outras regiões, principalmente no Nordeste, em cidades como Fortaleza e Recife. Lulu Geladeira faleceu em 3 de junho de 2015. O inquieto e curioso Thales de Azevedo Filho juntamente com seus irmãos construíram uma granja no amplo terreno que a família tinha entre os bairros da Graça e a Barra Avenida e chegaram a receber duzentos pintos por semana e vendiam pintos, galinhas e até ovos nas feiras livres da cidade. Outra atividade que exerceu na juventude foi de fotógrafo e durante o Festival da Primavera que era realizado todos os anos em Salvador, com jogos no Balbininho, onde eram realizadas as partidas de vôlei, basquete e ginástica artística. que ficava ao lado do Estado da Fonte Nova, que foi demolido com a construção do novo Estádio de Futebol. Ele contou que fazia as fotografias e corria para o laboratório revelava e fazia os contatos e as fotos. Tudo feito com certa agilidade, e por isto o grande fotógrafo baiano Leão Rosemberg, que também fotografava o Festival da Primavera, reclamou que ele estava prejudicando o seu trabalho por ser mais rápido ao revelar e vender as fotos.

Esta invenção mede a força do vento.
Passou depois a ser estagiário da SOMA Engenharia, de Paulo Mendes de Carvalho, onde chegou a coordenar por seis anos o Departamento de Projetos. Em 1976 deixou a empresa e fundou a Projeto de Engenharia e Instalações Ltda – PROENGE, passando a ser consultor técnico da ADEMI e da Prefeitura de Salvador, além de conselheiro do Sindicato da Construção Civil da Bahia – SINDUSCON-BAN uma visita que fez a um museu em Milão na Itália ao conversar com o diretor da instituição percebeu que algumas das maquetes que ele construiu baseado nos desenhos de Leonardo Da Vinci o museu dedicado a ele não possuía. Brincando disse “talvez tenha perdido a oportunidade de vender as minhas maquetes.” Foi quando lembrou da necessidade de criar uma ong para estabelecer relações de trocas, empréstimos e talvez até receber algum recurso público ou privado para manter a sua exposição permanente no bairro da Graça, em Salvador.

                                   INFLUÊNCIA DO PAI

Voltando à sua descendência o seu pai Thales de Azevedo era médico e depois de quinze anos de profissão decidiu deixar a medicina, na década de 40, e abraçar a Antropologia e a Sociologia para integrar juntamente com o professor Isaías Alves a criação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia. Seu pai era um curioso e com ele aprendeu muito de ciências da Física e da Química, o que permitiu seus oito filhos a desenvolver habilidades paralelas à formação principal e despertando vocações secundárias. Foi aí que surgiu a ideia de conhecer as criações de Leonardo Da Vinci estudando os seus desenhos, seus mecanismos e percebeu que “havia ali muito mais do que obras de arte, tinha engenharia, física, hidráulica, mecânica e principalmente enorme curiosidade”.

A Catapulta inventada  por Da Vinci e  
 a maquete 
que teve o aro de madeira
danificado e trocado por um de metal.
.
Num passo adiante veio o desejo de transformar aqueles desenhos em “algo que as pessoas pudessem tocar, observar e compreender. Em seguida nasceu a vontade de tornar o conhecimento mais concreto, dando vida a aquelas ideias, Leonardo apenas desenhava e esboçava as ideias, construiu apenas a Escada de Dupla Hélice, no Castelo de Chambord, onde duas pessoas subiam e desciam e não se encontravam”. Além de construir as maquetes Thales de Azevedo Filho quer que as pessoas manipulem as maquetes para terem sensações táteis e visuais e compreensão do seu funcionamento. Na exposição que bateu o recorde com 91 mil visitantes no Palácio da Artes, no então Museu Rodin, no bairro da Graça, as pessoas podiam manusear as réplicas. Ele contou que durante o período da exposição teve que viajar para participar da inauguração de um museu nos Estados Unidos e quando retornou verificou que preocupados na preservação das réplicas os funcionários do museu tinham colocado etiquetas "Não toque". Ao ver ele saiu arrancando as etiquetas uma por uma. Quando indaguei quantas foram danificadas, riu e respondeu. “Apenas uma, que era uma catapulta que tinha um arco muito frágil. Tinha feito um arco de madeira com aquele círculo de madeira que as costureiras usam para bordar. Já substitui por um metálico e a maquete está perfeita!". Estes arcos são utilizados aos pares, um encaixa no outro e são conhecidos por bastidores. A catapulta era uma máquina de guerra que servia para lançar bolas de materiais incendiários e pedras contra as fortalezas inimigas.

                                   O LEONARDO DA VINCI

Retrato de Leonardo Da Vinci.
 Segundo a Wikipédia  – “Leonardo di Ser Piero da Vinci ou simplesmente Leonardo da Vinci nasceu em Anchiano, 15 de abril de 1452 – e faleceu em Amboise, 2 de maio de 1519. Foi um polímata nascido na atual Itália, uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento, que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. É ainda conhecido como o precursor da aviação e da balística. Leonardo frequentemente foi descrito como o arquétipo do homem do Renascimento, alguém cuja curiosidade insaciável era igualada apenas pela sua capacidade de invenção. É considerado um dos maiores pintores de todos os tempos e, possivelmente, a pessoa dotada de talentos mais diversos a ter vivido. Segundo Helen Gardner, historiadora de arte, a profundidade e o alcance de seus interesses não tiveram precedentes e "sua mente e personalidade parecem sobre-humanos para nós, e o homem em si [nos parece] misterioso e distante".

Nascido como filho ilegítimo de um notário, Piero da Vinci, e de uma camponesa, Caterina, em Vinci, na região da Florença, foi educado no ateliê do renomado pintor florentino, Verrocchio. Passou a maior parte do início de sua vida profissional a serviço de Ludovico Sforza (Ludovico il Moro), em Milão; trabalhou posteriormente em Veneza, Roma e Bolonha, e passou seus últimos dias na França, numa casa que lhe foi presenteada pelo rei Francisco I. Leonardo era, como até hoje, conhecido principalmente como pintor. Duas de suas obras, a Mona Lisa[2] e A Última Ceia, estão entre as pinturas mais famosas, mais reproduzidas e mais parodiadas de todos os tempos, e sua fama se compara apenas à Criação de Adão, de Michelangelo. O desenho do Homem Vitruviano, feito por Leonardo, também é tido como um ícone cultural, e foi reproduzido por todas as partes, desde o euro até camisetas. Cerca de quinze de suas pinturas sobreviveu até os dias de hoje; o número pequeno se deve às suas experiências constantes - e frequentemente desastrosas - com novas técnicas, além de sua procrastinação crônica. Ainda assim, estas poucas obras, juntamente com seus cadernos de

Thales Filho visitando Museu 
Da Vinci, em Milão, na Itália.
anotações - que contêm desenhos, diagramas científicos, e seus pensamentos sobre a natureza da pintura - formam uma contribuição às futuras gerações de artistas que só pode ser rivalizada à de seu contemporâneo, Michelangelo.”

Da Vinci é reverenciado pela sua engenhosidade tecnológica; concebeu ideias muito à frente de seu tempo, como um protótipo de helicóptero, um tanque de guerra, o uso da energia solar, uma calculadora, o casco duplo nas embarcações, e uma teoria rudimentar das placas tectônicas. Um número relativamente pequeno de seus projetos chegou a ser construído durante sua vida (muitos nem mesmo eram factíveis), mas algumas de suas invenções menores, como uma bobina automática, e um aparelho que testa a resistência à tração de um fio, entraram sem crédito algum para o mundo da indústria. Como cientista, foi responsável por grande avanço do conhecimento nos campos da anatomia, da engenharia civil, da óptica e da hidrodinâmica. Leonardo da Vinci é considerado por vários o maior gênio da história, devido a sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, sua engenhosidade e criatividade, além de suas obras polêmicas. Num estudo realizado em 1926 seu QI foi estimado em cerca de 180."

sábado, 19 de setembro de 2026

FÁTIMA TOSCA EXPRESSA A MAGIA DE SEUS REINOS IMAGINÁRIOS

Fátima Tosca pintando seu universo lúdico.
A artista visual Fátima Tosca é  uma das mais criativas e representativas de sua geração com um trabalho autoral  reconhecido aqui e nos principais mercados de arte do país. Premiada em salões e exposições de Salvador, Curitiba e São Paulo sua arte está focada segundo escreveu nos elementos que lhes fascinam. “Na terra, jardins; na água, reinos imaginários; no ar, o circo.”  É uma arte singela, cheia de visões do imaginário infantil do circo e seus personagens inesquecíveis, das flores dos jardins das mamães e de outras manifestações carregadas de magia. Sua arte é feita para contemplação. Nos seus traços, na paleta de cores e nas composições o que vemos é a beleza na sua essência. Ela mesma diz que não se expressa para falar da falta, do excesso ou como são violados os elementos que lhes interessam, porque com o seu temperamento não conseguiria. O que  cria são imagens simbólicas dentro do seu imaginário lúdico e compartilha com todas as pessoas que têm a oportunidade de apreciar a sua arte. Este seu caminho começou lá atrás quando tomou contato ainda criança com o universo mágico das cores através dos lápis de cor que seu saudoso cunhado Durval Santos lhe presenteava com o que de mais moderno existia nesta área. A suavidade de suas composições talvez se remeta às suas primeiras pinturas ingênuas de sua infância feitas com os lápis de cor com suas múltiplas variedades de tons. A artista está expondo na MCR Galeria de Arte até o dia 17 de outubro próximo. A galeria tem dois espaços, num estão as obras de Fátima Tosca e, na sala vizinha as do mestre Floriano Teixeira. É uma exposição que merece ser visitada pela qualidade das obras desses artistas .

Capa do catálogo virtual da mostra
na MCR Galeria de Arte, Ondina.
O seu pai era juiz de Direito e faleceu quando Fátima Tosca tinha sete anos de idade. Já adulta  decidiu fazer vestibular e se graduou pela Faculdade de Direito, da Universidade Federal da Bahia, mas não seguiu carreira na advocacia ou mesmo na magistratura.  Paralelamente cursou durante dois anos Artes Plásticas, no Curso de Licenciatura em Artes Plásticas, da Universidade Católica de Salvador, que funcionava no Instituto de Música, na Rua Carlos Gomes, em Salvador. Foi quando o professor Luiz Ademir de Souza viu seus desenhos e a convidou para fazer as capas dos livros que escrevia e de outros que editava. A artista fez cerca de dez capas e ele a indicou para trabalhar no Instituto Mauá, de 1980 a 1987 onde passou a fazer desenhos para lenços, panôs, tapetes e outros objetos do artesanato baiano. Esses desenhos eram repassados para artesãos de todo o interior da Bahia para que eles se desenvolvessem nas comunidades carentes.

                    PRIMEIRAS CONQUISTAS

Enquanto isto ela pintava e assinava suas obras como Fátima Ribeiro, mas o professor Luiz Ademir, que hoje está na Faculdade do Recôncavo, na época lhe orientou a mudar a sua assinatura artística para Fátima Tosca, que era um nome de origem espanhol e diferenciado, único. Foi assim que passou a assinar Fátima Tosca, e hoje é um nome reconhecido em vários estados brasileiros. “Também, disse Fátima Tosca – ele arranjou uma exposição para mim e Sílvio Jessé, na Galeria Eucatexpo, em 1981, que funcionava no Campo Grande, defronte ao Hotel da Bahia. “A Galeria Eucatexpo foi um importante espaço cultural e galeria de arte mantido pela empresa Eucatex entre as décadas de 1970 e 1980. Possuía filiais e

 "Catando Estrelas para Colorir", na exposição.
em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. “Nesta época Fátima Tosca fazia aquarelas e bico de pena. Nunca tinha experimentado pintar a óleo ou acrílica, “nem passava por minha cabeça”. Quando veio a retomada dos Salões de Arte em 1988 ela se inscreveu no I Salão Baiano de Artes Plásticas, e entre os oitocentos inscritos ela foi selecionada entre os cinquenta. Fátima Tosca apresentou três obras intituladas O Grande Circo do Olhar. Nesta época Radha Abramo escrevia para a revista Veja, que tinha muito prestígio e escreveu sobre o Salão e falou das obras da artista. Coincidentemente Sante Scaldaferri estava fazendo uma exposição no Rio de Janeiro, na Galeria Performance, no Shopping Cassino Atlântico, que tinha dois sócios Anna Maria Niemayer, filha do famoso arquiteto de Brasília Oscar Niemayer, e o outro sócio era Pedro Teixeira, que cuidava da filial em Brasília. Atualmente a galeria funciona no Shopping da Gávea. Ele estava hospedado com Sante Scaldaferri em Salvador e veio ver o Salão porque as obras da artista tinham sido citadas no texto escrito por Radha Abramo na revista Veja. A Radha Antônia Pinto Abramo foi uma museóloga, curadora, jornalista e crítica de arte brasileira. Pedro Teixeira resolveu ver de perto as obras de Fátima Tosca em sua casa acompanhado de Marli sua esposa, Sante e Marina Scaldaferri. Após a visita ele aconselhou que produzisse outras obras nesta linha do circo e assegurou “eu compro tudo que você fizer nesta área”. Foi então que Fátima Tosca pediu licença sem vencimentos do emprego do Instituto Mauá e passou a produzir para a filial da Galeria Performance em Brasília até o ano de 2001. 

Da série Sonho Circo Risco Paredes II, 1990.
Em 1990 se inscreveu no VI Salão Curitiba e ganhou o Prêmio Viagem ao Exterior entregue pelo prefeito Jaime Lerner, quando viajou para a cidade de Nova Iorque. Logo depois participou do Salão Mokiti Okada, em São Paulo organizada pela Fundação do mesmo nome (FMO) que fica em São Paulo no bairro de Vila Mariana. O espaço abriga salões de exposições culturais, exibições de arte japonesa e atividades voltadas à filosofia de Mokiti Okada. Fátima Tosca ganhou em 1992 o Prêmio Exposição, no VII Salão Brasileiro de Artes - Salão Mokidi Okada. Foi quando os donos da famosa Documenta Galeria de Arte foram ver sua exposição e ela passou a vender suas obras para os donos desta galeria paulista até o encerramento das atividades da galeria. A Documenta Galeria de Arte foi fundada em 1969 era um espaço cultural tradicional localizado em São Paulo que promoveu dezenas de exposições de artes visuais, pinturas, óleos e litografias entre as décadas de 1960 e 1990. Em 1991 ela faz uma exposição individual na Galeria Anarte, chamada A Cor do Branco, e galeria pertencia a Graça Coelho, funcionava no bairro de Ondina, no edifício Ondina Parque. Na época o artista e crítico Justino Marinho foi quem a indicou para expor na Anarte
Fátima Tosca em seu ateliê no bairro de
Brotas com uma obra ainda por concluir.
quando foi fazer uma entrevista com ela para o jornal o Correio da Manhã. Foi nesta época que passei a ter contato com Fátima Tosca e escrevi alguns artigos nesta coluna no Jornal A Tarde sobre suas novas exposições. Em seguida fez uma exposição na Galeria. Em 1997 fez uma individual chamada de Pinturas, na Galeria Atrivm, no bairro do Rio Vermelho pertencente a Ieda Alcázar. Atualmente trabalha com duas galerias em Salvador a Pena Cal, que fica no bairro do Caminho das Árvores e com a MCR Galeria de Arte, que funciona no edifício Ondina Apart Hotel e nunca colocou suas obras em consignação. Disse que aprendeu a agir desta forma com o galerista Pedro Teixeira, da Galeria Performance que não recebia nenhuma obra em consignação. Ele trabalhava com o artista Athos Bulcão, que tem obras nos prédios projetados por Oscar Niemeyer. O artista carioca Athos Bulcão era pintor, escultor e desenhista. Nasceu no Rio de Janeiro, 2 de julho de 1918 e faleceu em Brasília, 31 de julho de 2008. Como eram obras muito valorizadas o marchand levava os clientes diretamente ao ateliê do artista e intermediava as negociações.

                                                      QUEM É

A artista Fátima Tosca é alegre, comunicativa
 e lembra com detalhes de sua trajetória.
A artista Maria de Fátima Tosca de Oliveira Ribeiro, assina Fátima Tosca, nasceu em nove de junho de 1960 em Salvador. É filha de Yomar de Oliveira Ribeiro e de Marina Tosca Ribeiro. Seu pai foi juiz de Direito de Pilão Arcado e Jaguaquara, mas sua família morava numa casa que ele construiu numa rua que batizou com o nome de um funcionário da Justiça baiana chamado Escrivão Marques Filho. O pai faleceu muito cedo de um aneurisma com apenas quarenta e cinco anos de idade. Sua casa foi a primeira da rua e ali a Fátima Tosca passou sua infância empinando pipas, jogando bola com as crianças da vizinhança. Lembra que sua mãe descia a ladeira até o vale onde uma família de sitiantes tinha uma horta. Ali se abasteciam de legumes e verduras. Ficou morando com sua mãe até casar-se e atualmente voltou a morar na casa que pertenceu a seus pais.

Sua relação com o desenho começou cedo aos quatro anos de idade porque como falei acima seu cunhando Durval Pereira Santos, era representante para Bahia e Sergipe da empresa Johann Faber-Castell. “A empresa foi fundada por John Eberhard Faber (nascido em 1822) expandiu os negócios da família na fabricação de lápis e abriu uma filial nos Estados Unidos no século XIX. No Brasil, a marca Johann Faber ficou muito famosa pela instalação da primeira fábrica de lápis da América Latina em São Carlos, em 1926, que depois se associou ao grupo alemão formando a Lápis Johann Faber e, posteriormente, a Faber-Castell. Disse a artista Fátima Tosca que seus colegas ficavam espantados e curiosos com os lápis de variadas cores que ela chegava na sala de aula para fazer seus desenhos. "Eu chegava com caixas de lápis de até quarenta e oito cores".

Pier, esta obra da artista é datada de  2018.

Estudou desde o jardim de Infância até concluir o colegial no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, da professora Anfrísia Santiago, na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré. O colégio era caro para os padrões de classe média, e quando seu pai veio a falecer Fátima Tosca estava com sete anos de idade. Foi aí que aconteceu um gesto nobre da professora Anfrísia Santiago que ofereceu uma bolsa de estudos até a conclusão do colegial.  O pai resolvia muitas coisas ligadas ao colégio e tinha uma grande amizade com a educadora. Recordou que d. Rita, irmã de d. Anfrísia Santiago, lhe disse uma vez: “Sua educação é um compromisso de Dindinha”. O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora foi fundado por Anfrísia Santiago em 1927 em Salvador, funcionou até a década de 1980, quando encerrou suas atividades no histórico Palacete Ferraro, na Avenida Joana Angélica. Atualmente funciona no imóvel o Ministério Público Estadual.

 "Bosque", de 2025, também está na exposição.
Fez vestibular em 1978 e iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito, da Universidade Federal no ano seguinte. Tem boas lembranças do curso de Direito de colegas com Jonga Cunha que é musicista, agitador cultural, um dos fundadores do Bloco Eva. Também foi colega de   Paulo Borges, que é dono do bloco Jammil e, de outros colegas que gostavam de arte. Falou com entusiasmo do curso de Direito “gostava muito do curso e do ambiente da faculdade. Mas, nunca pensei em seguir a carreira de magistrado”. Nunca exerceu nada relacionado com o Direito. A arte sempre foi mais forte e o trouxe para este ambiente mágico da criação artística onde Fátima Tosca vem se destacando com sua arte diferenciada e cheia de encantamento e magia.

                                        EXPOSIÇÕES E PRÊMIOS

Capa do Catálogo da exposição
na Performance Galeria de Arte
.
Em 2026 – Exposição “O Poder de Sonhar – Floriano Teixeira e Fátima Tosca”, na MCR Galeria de Arte, Salvador-BA. 2024 - "O Sagrado Em Particular", Pena Cal Galeria de Arte, Salvador-BA. 2020 – “Álbum Para Viagens”, Galeria de Arte do Clube Paulistano, São Paulo-SP. 2018 - "Águas" - individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2016 – “Grandes Artistas na Bahia Il” - Coletiva - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2014 – “João, Chicas e Jocas, Todos que Chegarem" - individual - Galeria Smith - São Paulo-SP. 2013 - "O Parque, um Circo e Muitos Jardins" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; "Grandes Artistas na Bahia"- Coletiva - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2011-Coletiva- Galeria Smith, São Paulo-SP; Prêmio "Barra Mulher - Artes Plásticas" - Shopping Barra- Salvador-BA. 2009 - "Aquarelas" - Individual - Fabio Pena Cal Galeria – Salvador-BA; "Da Cor à Cor" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2008 - Arte Comestível, Coletiva, Salvador-BA.  2007- “Retrospectiva” - Individual - Ministério das Relações Exteriores – Brasília- DF; Fátima Tosca - Individual - Fabio Pena Cal Galeria (Casa Cor- BA ). 2006 - "Pretextos"- Individual  -MCR Galeria de Arte, Salvador-BA. 2005- Fátima Tosca e Leonel Mattos em "II Palavras" - Fabio Pena Cal Galeria de Arte – Salvador-BA. 2004 - "Água e Óleo" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; Fátima Tosca e Valdeck de Garanhuns - Coletiva Museum - Derweltetkulturen Frankfurt- Alemanha. 2002 - "Pinturas" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; "Entre Bosques, Oceanos e Continentes" - Individual - Costa do Sauipe- BA. 2000 - Capa e ilustração do livro Jubiabá - Jorge Amado (edição Especial Jornal Correio da Bahia). 1999 - Arte Salvador 450 Anos - Coletiva - Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1997- "Pinturas" - Individual - Galeria ATRIVM - Salvador-BA;  “Galeria 37” - Coletiva - Museum Für Volkerkunde, Frankfurt - Alemanha.1996 -"Xunta de Galícia" - Individual – Madri-Espanha.1994 - "Buscas e Entusiasmo" - Individual - Galeria Documenta - São Paulo-SP; “Primeiro Salão MAM-BA” - Coletiva – Salvador-BA.1993 - Brasil "Pequenos Formatos, Poucas Palavras" - Coletiva - Galeria Documenta - São Paulo-SP; “Vll Salão Brasileiro de Artes- Salão Mokiti Okada” - São Paulo-SP;  "Pinturas" - Individual- Performance Galeria de Arte – Brasília- DF; "Pinturas" - Individual - Prêmio 
OBRA  Gran Circo D'OLHAR ,1988.   
Exposição- Fundação Mokiti Okada - São Paulo-SP. 199I -"A Cor do Branco" - Individual - Anarte Galeria – Salvador-BA; “I Bienal do Recôncavo” - São Félix-BA.1990 - Salão Brasileiro de Arte Coletiva - São Paulo-SP; VI Salão Curitiba de Arte - Prêmio Viagem ao Exterior - Curitiba- PR. 1989 - Salão Baiano de Artes Plásticas - Coletiva – Salvador-BA.1988 - I Salão Baiano de Artes Plásticas - Coletiva – Salvador-BA; Selecionada OEA Cidap (Equador), no Vll Interamericano de Desenho Artesanal – Brasília- DF. 1986 - Mostra "Artistas Latino-Americanos'' - Coletiva - UNB – Brasilia-DF.1979 - Salão MEC FUNARTE UCSAL- Prêmio Categoria Desenho – Salvador-BA.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

MEMÓRIA E PERTENCIMENTO DE ANGÉLICA MOREIRA

 

Obra Visões de Salvador,  
de Angélica Moreira.
A artista baiana Angélica Moreira exporá suas últimas obras na Assembleia Legislativa da Bahia a partir do próximo dia 21 a 25 de setembro de 2026 juntamente com Rita Moscone. Angélica Moreira  além de artista visual é escritora e terapeuta integrativa. Já escreveu os livros Depois da Chuva, Conversa de Quintal e Chocolate este último  está prestes a lançar enfocando a vida nas fazendas de cacau no sul da Bahia. Seu nome completo é Maria Angélica Freitas Moreira e assina suas obras de arte como Angélica Moreira. Com o propósito de servir atua com foco no comportamento e desenvolvimento humano. Estudante do I Ching, coordenou projetos sociais. Idealizadora e facilitadora de cursos e oficinas como "Encontro com a Maturidade", "Descobrindo o seu Aroma", "Expressão para a Vida através da Palavra", "Estudando o I Ching". Ela diz no folder de sua exposição que “a pintura se torna, assim, um espaço de investigação e expressão do humano”. Iniciou sua formação artística formal estudando com o artista Chico Maia e atualmente está ampliando sua pesquisa e aprofundando a linguagem poética.  Tem participado de várias exposições com uma produção artística voltada “à construção de imagens que dialogam com a Memória, o pertencimento, a natureza e horizontes de transformação”. Suas obras podem ser vistas também na Escola de Arte da Bahia – Galeria Arte da Bahia.

sábado, 12 de setembro de 2026

ISAÍAS DE CARVALHO E SEU PONTILHISMO EM PRETO E BRANCO

Isaías de Carvalho desenhando com sua
caneta de nanquim olhando uma foto
  da Cidade de Salvador.
 O arquiteto, desenhista, professor e escritor Isaías de Carvalho vem há décadas realizando um trabalho artístico que demanda uma grande observação e paciência porque ele vai construindo as imagens a partir de pontinhos muito singelos com uma caneta de tinta nanquim, tão conhecida e inventada pelos chineses há séculos. Esta tinta é feita de partículas de carbono chamado de negro de fumo suspensas em água, estabilizadas com goma arábica ou gelatina. A Cidade do Salvador é o tema de suas obras monocromáticas e confessa no livro que publicou  Salvador em Preto e Branco quando escreveu nas primeiras páginas que sua obra é uma conexão lógica já que foi professor por longos anos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,  da Universidade Federal da Bahia. Seu olhar é diferenciado em relação a nós seres comuns porque está presente em seu olhar de observador não só a teoria do urbanismo, mas também a prática de ver as diferenças nas vias, nas edificações , nos usos dos espaços e  na volumetria . Disse a arquiteta e urbanista brasileira Raquel Ronilk que   “as cidades refletem as formas como se organiza a sociedade, e se ela é dinâmica, se é viva, não há como evitar as transformações”. 

Vemos a Praça Cairu vista do alto. Isaías
mostra a Cidade pulsando durante a noite na
Festa de Nossa Senhora da Conceição da
Praia. A foto  original é do Acervo de João
Cipriano Brasileiro.
.
Com seu olhar e sua caneta de nanquim ele capta  e registra  as mudanças que a Cidade passa. Estamos falando não apenas de uma grande área urbana com alta concentração de pessoas, moradias, comércios e serviços, mas de um ser vivo que cresce para cima e para baixo, para todos os lados, que deixa partes de seu corpo sem vida, basta olhar os centros de muitas cidades por este mundo a fora. Também se regenera e  essas transformações estão presentes no trabalho do arquiteto-desenhista. Ele começou criando suas obras a partir de fotos de  retratos de seus familiares e depois das feitas  nos anos 40 e 50 por seu tio Adriano Coelho  Messeder. Seu tio ilustrou com suas fotos  livros da  historiadora Marieta Alves  sobre igrejas e irmandades religiosas da Bahia. Em seguida Isaías de Carvalho passou a escolher outras fotos antigas e atuais que retratam tempos passados e presentes de nossa Salvador e com elas reproduz usando minúsculos pontos pretos e espaços negros e vazados reproduzindo  toda a beleza e a grandiosidade da expansão urbana e a nostalgia de outrora.

                                             TRAJETÓRIA

Veja os centenas de pontos que o artista usou
para retratar a Ladeira de São Bento em meados
do século XIX. Baseado num cartão postal.
O arquiteto Isaías de Carvalho Neto nasceu em Salvador em dois de fevereiro de 1942. É filho do comerciante Isaías de Carvalho Filho e Maria de Lourdes Messeder de Carvalho Santos. No ano de quarenta e nove, quando tinha apenas sete anos de idade seu pai foi acometido por uma tuberculose e teve que ir para São Paulo em busca de tratamento de saúde e, os quatro filhos do casal foram morar com parentes. Foi assim que Isaías de Carvalho e um irmão foram para a cidade de Ilhéus enquanto os dois outros ficaram aqui morando com a historiadora Marieta Alves. Ao término do tratamento seu pai voltou e assim pode concluir o curso primário na Escola Ana Nery que funcionava na Rua do Caquende, no bairro  de Nazaré. Esta região chamada de  Caquende é uma antiga área histórica que hoje abriga o Condomínio do Edifício do Caquende e o Solar De Maria localizado na Avenida Joana Angélica, nº 1536. A área pertencia antigamente com Barão de Caquende e as terras se estendiam abrangendo os atuais bairros de Nazaré, Saúde e Tororó. 
A Pesca do Xaréu, desenho
 feito a partir de  foto de 1950.


Voltando ao jovem Isaias de Carvalho Neto em 1954 seus país resolveram colocar um seu irmão para estudar no Ginásio Santo Antônio, que funcionava na histórica cidade de  São João Del Rei, estado de Minas Gerais, tido como um bom ginásio e de regime rígido na disciplina . Seu pai perguntou se ele iria para acompanhar o seu irmão. Isaías aceitou e assim foram para Minas Gerais estudar. Voltou anos depois e foi terminar o colegial no Colégio de Aplicação, que funcionava no tradicional prédio da Avenida Joana Angélica, que pertencia a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia. A diretora era a professora Leda Jesuína, e lá permaneceu até a conclusão do colegial em 1968. Lembra com alegria a qualidade do ensino no Colégio de Aplicação que proporcionava aos alunos fazer teatro, canto e outras atividades enriquecendo o seu conhecimento, e também da vice-diretora professor Maria Angélica Matos, que era muito presente junto aos alunos.

A Baía de Todos os Santos repleta de velas
brancas dos saveiros e veleiros. Foto de
Adriano Coelho Messeder.
Fez vestibular para a Faculdade de Arquitetura, que funcionava no Corredor da Vitória e ainda era ligada a Faculdade de Belas Artes. Recordou que nos finais da década de 50 houve um movimento para separar as faculdades de Arquitetura da Escola de Belas Artes e que os alunos e professores ocuparam um casarão que existia defronte ao atual Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Quando a faculdade foi transferida para a Federação em 1963 o casarão sediou a Escola de Nutrição, hoje  tem um prédio de apartamentos no lugar do casarão que foi demolido. Lembrou quando da mudança para o bairro da Federação a faculdade funcionou nuns barrocões provisórios. Na época  era reitor da UFBA o professor Edgard Santos. Em 1964 são iniciadas as obras dos novos prédios da Faculdade de Arquitetura. 

Isaías está atento às transformações
que ocorrem em Salvador e com sua
expertise de arquiteto e urbanista 
 capta os detalhes.
.
O Isaías de Carvalho sempre teve uma atividade política no movimento estudantil. Foi presidente do Grêmio Lítero Esportivo do Colégio de Aplicação, e assim pode viajar por várias cidades do interior da Bahia  fazendo política estudantil contra a ditadura militar com os líderes da Associação Baiana de Estudantes Secundários - ABES. Já cursando arquitetura foi também presidente do Diretório Acadêmico e lembrou da sua participação de demais colegas e professores  no Seminário de Melhoramento do Estudo da Arquitetura - SEMEA que resultou numa grande contribuição para as reformas que vieram ocorrer em 1969. Para ele a reforma universitária promovida  pela ditadura  militar de 1964 descentralizando os cursos universitários com o objetivo de esvaziar o movimento estudantil resultou em gerações de péssimos políticos que ainda hoje contribuem para o atraso do país. 

Falando sobre sua formação afirmou que seus professores costumavam sair da sala de aulas levando os alunos para conhecerem de perto as vias e construções da Cidade. "Saíamos levando até cavaletes para desenhar in loco a lápis e carvão." Detalhou que quando você desenha com bastão de  carvão ficava difícil de apagar e que ele usava uma lâmina de gilete curva para conseguir raspar o os erros ou manchas do papel. Reconhece que é um artifício, mas que não ficava limpo completamente. Sempre foi muito próximo do ato de desenhar. Se considera " um arquiteto que desenha. O que faço é um desenho de observação. Vou olhando e vendo. O olhar é diferente do ver, que é mais preciso. No olhar vemos a paisagem numa panorâmica, no ver vemos todos os detalhes," completou Isaías de  Carvalho.

Veja a imponência dos  casarões e e tranquila 
Praia da Preguiça em tempos passados.
Baseado numa foto de Adriano Messeder
.
Ao concluir a graduação em arquitetura e urbanismo montou um escritório no edifício Larbrás, na Avenida Estados Unidos, bairro  do Comércio, em Salvador, juntamente com seu colega Carlos da Silva Sampaio. Fizeram alguns projetos e acompanharam obras . Em 1971 foi convidado e seguiu para a Cidade de Itabuna, no sul do Bahia, para ser o Secretário de Viação e Obras Públicas. No ano de 1972 teve .que sair e foi para São Paulo acompanhar o tratamento de saúde de sua esposa. Ao voltar, retomou sua vida profissional e, em 1973 fez concurso para auxiliar de ensino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo passando a  ensinar Teoria da Arquitetura. Paralelamente ao magistério sempre estava desenhando principalmente os rostos de seus parentes e amigos. Eram desenhos, segundo explicou, que lembravam os clichês tipográficos que antigamente eram usados nas gráficas e nas ilustrações de jornais. O clichê de impressão é uma matriz em alto-relevo, semelhante a um carimbo industrial, usada para transferir tinta, calor ou pressão para uma superfície. Quanto maior o número de pontos fica mais denso, mais escuro. Depois chegou o sistema offset que
Retratos de parentes feitos com
 o pontilhismo monocromático
eliminou os clichês. Também passou a fotografar variados locais da Cidade com filmes de 400 asas analógicos, mas de boa qualidade. Continuou estudando e se aperfeiçoando. Fez o aperfeiçoamento em Didática, mestrado em Ciências Sociais, aqui em Salvador na UFBA, e Doutorado em Arquitetura e Urbanismo com concentração em Semiótica, na Universidade de São Paulo – USP. 
 A semiótica é a ciência que estuda os signos e os processos de produção de sentido, ou seja, como as coisas adquirem significado para os seres humanos. Como se declara um arquiteto que desenha adiantou que está sempre próximo da representação dos objetos, na linha da representação simbólica. Ao retornar  continuou ensinando e fez concurso  para assistente de ensino, sendo aprovado. Foi quando recebeu um convite para ensinar na Faculdade de Administração, também da Universidade Federal da Bahia. Aceitou o convite e foi ensinar em Administração em 1993 permanecendo até 2001. 

Vemos a Rampa do antigo Mercado
 Modelo que foi destruído num grande
 incêndio em 1969.
Foi acometido de uma doença grave e pediu licença médica. Curado retornou e quando foi buscar seus pertences no escaninho na ADM não estavam mais lá.  Ficou chocado com esta atitude da direção da faculdade da época  e decidiu pedir sua aposentadoria. Voltou a ensinar na arquitetura num trabalho voluntário onde ficou até 2009. Enquanto ensinava,  uma aluna que sempre lhe fazia consultas sobre as mudanças da Cidade do Salvador, lhe incentivou a colocar no papel as informações e fotos que dispunha . Foi assim que decidiu  escrever e publicou em 2012 o livro chamado Memória Urbana, com foco no urbanismo da Cidade. Disse que não é um livro  de suas memórias pessoais,  e sim das mudanças que a Cidade passou. 

Quando perguntei como ele chegou ao pontilhismo afirmou  que foi em 2012 ao olhar  uma parede vazia em sua casa . Decidiu fazer uns desenhos para colocar no local, onde antes tinha um tapete que adquirira em Manaus. Como fotografava  notou que ao revelar se ampliasse muito a imagem ou colocasse muita luz estourava e os

Isaías de Carvalho com o mural de
desenhos de paisagens da Cidade .
pontos ficavam espaçados. Foi aí que resolveu reproduzir as fotos através o desenho de observação usando pontos feitos com uma caneta de tinta nanquim. Passou a fazer desenhos de observação usando fotos dos anos 40 e 50 do seu tio Adriano Coelho Messeder, suas e de cartões postais. Os parentes e amigos  o incentivaram a publicar um livro e ele passou a pesquisar sobre o que existia a respeito de Salvador. Assim ia destacando os locais que lhes interessavam e chegou a cerca de oitenta fotos, todas com partes de textos de historiadores e  memorialistas sobre aquele local da Cidade. Em 2019 lançou o segundo livro intitulado Salvador em Preto e Branco, no Museu de Arte Sacra. O livro foi editado pela Universidade Federal da Bahia.

                         PONTILHISMO

Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, obra-prima do pintor francês Georges Seurat, realizada entre 1884 e 1886
O pontilhismo que conhecemos foi inventado e desenvolvido  pelos pintores franceses Georges Seurat e Paul Signac em  meados do século XIX. Esta técnica de pintura surgiu como uma derivação do movimento impressionista e se constitui em pequenos pontos ou manchas de cor as quais provocam quando vistas em conjunto em imagens. É baseada na chamada Lei das Cores Complementares resultado do estudo feito por Michel Eugène Chevreul, na França. Dizia ele que as cores deviam ser justapostas e não entre mescladas, deixando à retina a tarefa de reconstituir o tom desejado pelo pintor, combinando as diversas impressões registradas. Interessante é que o nome pontilhismo surgiu para ridicularizar e rebaixar os trabalhos desses artistas pioneiros deste estilo. O pontilhismo usado pelo arquiteto-desenhista por Isaías de Carvalho é monocromático e ele só usa preto do nanquim. Enquanto o pontilhismo tradicional usa quatro cores que são o azul, amarelo, vermelho e preto. Ao olhar do espectador os tons parecem mais
Obra em pontilhismo Volta às Trincheiras,
de Eliseu Visconti.
claros devido os espaços em branco entre um ponto colorido e outro. Normalmente as obras são feitas usando a tinta óleo por ser mais espessa e evitando escorrer e manchar

Diz a Wikipedia “que no Brasil durante a Primeira República (1889-1930) vários artistas “empregaram procedimentos divisionistas, especialmente em suas paisagens e pinturas decorativas. Podemos destacar, nesse sentido, os nomes de Belmiro de Almeida, Eliseu Visconti, Rodolfo Chambelland, Artur Timóteo da Costa, Guttmann Bicho, entre outros. O painel central do teto do Foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro é um exemplo de pintura decorativa onde Eliseu Visconti empregou vários estilos e procedimentos artísticos, inclusive o pontilhismo.”