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domingo, 26 de abril de 2026

JENNER AUGUSTO UM MODERNISTA SERGIPANO NA BAHIA

O pintor Jenner Augusto no ateliê.
 O artista sergipano Jenner Augusto era pintor, escultor, cartazista, ilustrador, desenhista e gravador. Gostava de retratar o povo humilde e as paisagens de sua terra e com seu jeito calmo meio desconfiado ia trilhando o seu caminho que desde início não foi fácil. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas seis meses de idade e sua mãe era professora primária da família Silveira que tinha um pensamento político considerado avançado contra os coronéis que dominavam a cena política da época. Por isto a carreira de sua mãe foi tumultuada e como castigo os políticos de então sempre a puniam com nova transferência para uma cidade desconhecida. Portanto, durante sua infância morou em várias cidades sergipanas e a sua mãe nunca abriu mão de suas convicções políticas. Para ajudar no sustento da família começou a trabalhar cedo e foi engraxar sapatos, pintar paredes, ser vendedor de lojas e até cantor de cabaré, já que tinha uma voz privilegiada, e também trabalhou como revisor do jornal Correio de Aracaju, onde seu irmão Junot Silveira era o redator-chefe. O mestre Junot veio antes para Salvador e foi professor, diretor do Colégio Mário Augusto Teixeira de Freitas, no bairro de Nazaré, presidente por muitos anos da Imprensa Oficial do Estado - IOE que editava e imprimia o Diário Oficial do Estado, e depois se tornou Empresa Gráfica da Bahia – EGBA, e o DO hoje é online. Junot Silveira trabalhou também em A Tarde durante muitos anos até sua aposentadoria. Voltando ao artista Jenner Augusto foi na cidade de Lagarto, segundo consta no livro “Jenner, Cores de Uma Vida”, escrito em parceria de Mário Britto e Zeca Fernandes, este último neto do artista, que Jenner começou a fazer letreiros de propaganda e cartazes de filmes de caubóis para o cinema de Mané Dentista que se descobriu pintor. Sendo autodidata disse que “aprendeu a juntar óleo e pigmentos, adicionar a medida exata do secante, corrigir cor suja substituindo o preto pelo azul”, na sua lida com os pintores de paredes.

Alagados um tema que lhe tornou conhecido.
Quando residiu em Laranjeiras conheceu a obra de Horácio Hora, que era um artista conceituado sergipano que faleceu em 1890, em Paris. Lá existe a Casa Laranjeiras onde está o legado deste importante mestre da pintura e o Jenner Augusto passou a se interessar pelo desenho copiando as obras de Horácio Hora e em seguida passou a fazer seus próprios desenhos. Até que em 1944 muda-se de Laranjeiras para Aracaju, e sua evolução no desenho já é visível. Foi trabalhar nos escritórios dos donos do jornal Folha da Manhã. Já um ano depois toma coragem e realiza sua primeira exposição, e começa a se entrosar no ambiente cultural e artístico da cidade participando de algumas exposições coletivas. Sob forte influência de Cândido Portinari pintou as paredes do Cacique Bar com murais “baseados em cenas históricas, no folclore e nos costumes de Sergipe." Hoje o Cacique Bar foi reformado e a obra de Jenner Augusto restaurada, e é considerada o marco do início do modernismo na capital sergipana. Ficou em Aracaju até 1949 quando através uma carta resposta de Cândido Portinari aconselhando-o a estudar mais o desenho e procurar um local mais adiantado nas artes que ele decidiu vir morar em Salvador. 
Cenas da História e Costumes de Sergipe,
detalhe do mural que pintou no Cacique Chá.
 Um marco do modernismo em Sergipe.
Seu irmão Junot Silveira já era um jornalista conhecido na cidade e arranjou um emprego garantindo assim a sua sobrevivência financeira. Trabalhou como assistente no ateliê de Mário Cravo Júnior e passou a se integrar ao grupo renovador da arte baiana que se opunha ao academicismo da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. O mais velho do grupo era o Mirabeau Sampaio e os demais Mário Cravo Júnior, voltava de Syracuse, nos Estados Unidos, onde estudara com Ivan Mestrovic. Jenner Augusto vinha de Aracaju com uma experiência de dez anos;  Carlos Bastos tinha estudado em New York; do Paraná veio Poty; do Rio de Janeiro o Henrique Oswald; de São Paulo o Lênio Braga; o Agnaldo Manoel dos Santos, de Itaparica;  Hansen, de Hamburgo, na Alemanha; Di Prete, da Itália; o Marcelo Grassmann, de São Simão, interior de São Paulo; Udo Knoff,  da Prússia Oriental; Carybé, de Buenos Aires, na Argentina; Raimundo de Oliveira, de Feira de Santana; Pancetti ,  Campos de Jordão; da Bahia vieram ainda o  Rubem Valentim, Genaro de Carvalho, que chegara de Paris  e Lygia Sampaio, a única mulher do seleto grupo.

Coroinhas na Praia outro tema que é muito
apreciado por colecionadores de Jenner.
Portanto, estava formado o grupo de modernistas que juntos trocavam novas  ideias e experiências para criar obras que rompessem com o academicismo que ainda insistia em permanecer tendo a Escola de Belas Artes como um baluarte a ser vencido. Eles se reuniam informalmente na maioria das vezes na casa de Mário Cravo Júnior e arranjaram até um quadro onde Rubem Valentim se encarregou de fazer algumas anotações. De 1950 para cá veio outra geração de modernistas com Juarez Paraíso, Emanoel Araújo, Sante Scaldaferri, Edson da Luz, Calasans Neto, Floriano Teixeira, que chegou do Maranhão.

O festejado crítico de arte Antonio Bento escreveu que “não deixa de ser curioso para a crítica de arte observar que os dois maiores paisagistas da Bahia a partir de meados do século vinte, tenham sido filhos de outros estados: o paulista Pancetti e o sergipano Jenner, este vizinho fronteiriço e, consequentemente, quase íntimo ou, pelo menos bem mais próximo da visualidade e dos sentimentos comuns aos filhos de sua terra de adoção.” Dizia Jenner Augusto que a Bahia lhe servia de inspiração lírica, enquanto o Nordeste pelo seu lado trágico. Mas, sua relação com a Bahia era tanta que decidiu morar definitivamente aqui e passou mais de trinta anos em sua casa-ateliê no bairro do Rio Vermelho.

Uma bela paisagem onde  Jenner demonstra
 o equilíbrio da paleta de cores que escolhia.
Em 1950 participa pela primeira vez do Salão Baiano de Belas Artes juntamente com seus colegas do grupo de modernistas.  Três anos depois casa com também sergipana Maria Luiza Mendonça e participa do Salão Nacional de Arte Moderna no qual esteve presente regularmente até 1962. Em 1953 executou um afresco chamado de Evolução do Homem para o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, Bahia, levando um ano a ser concluído. Em 1966 o artista sergipano já era conhecido em todo o país e foi convidado pelo governo americano a fazer sua primeira exposição internacional na Filadelfia, chamada Baianos na Filadelfia e a partir de então expôs na Holanda, Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Bélgica.

Tornou-se muito conhecido por pintar como ninguém a paisagem baiana e principalmente os Alagados expressando todo o contexto que envolve este bairro de edificações muito precárias onde o sofrimento dorme e acorda com seus moradores. Conhecendo através da literatura e de minhas observações pessoais é verdade que podem dizer que ele sofreu apenas influência de Horácio Hora e de Cândido Portinari no início de sua jornada porque o artista Jenner Augusto desenvolveu sua arte moldada em sua personalidade de quietude e com ar de melancolia. Costumava chamar as séries que

.
Sempre que viajava aproveitava para
fazer esboços do que via pelo caminho.
pintava de momentos e que as cores que empregava dependia do seu estado de espírito, portanto encontramos na produção do artista obras com cores vibrantes e outras com as cores mais fechadas , mais densas, lembrando um clima europeu.  Era um exímio desenhista e ilustrou o livro Os Caminhos de Casa, de Odorico Tavares, um incentivador das artes na Bahia, e depois Tenda dos Milagres, do grande escritor baiano e seu amigo Jorge Amado. Anos depois os dirigentes de A Casa Jorge Amado reuniram desenhos do artista e fizeram uma publicação acompanhando de textos de Jorge e James Amado, Mirabeau Sampaio, Carybé, Glauber Rocha, Vinicius de Moraes, Mário Schenberg, dentre muitos outros, enaltecendo a sua obra e a qualidade dos seus desenhos. Também chegou a fazer algumas esculturas, mas nunca as expôs. Geralmente esculpia e presenteava a seus amigos e parentes, inclusive tem uma feita de barro de São Cosme e Damião que foi presenteada à sua esposa Luiza, que era seu braço direito que cuidava da parte de divulgação e comercialização de suas obras.

COMO ERA JENNER

Reuni seu filho Guel Silveira, também artista plástico consagrado e o neto Zeca Fernandes, formado em Ciências Sociais, fotógrafo e galerista, para revelarem um pouco como era o artista Jenner Augusto na sua intimidade. Coube a Guel como inventariante cuidar e dividir o legado pai, e Zeca seu filho e neto de Jenner  era talvez o que mais conviveu e se afeiçoou ao avô. Eles moravam no bairro da Graça e Jenner no Rio Vermelho, mas as visitas eram muito frequentes. Revelou Zeca que foi mesmo a partir dos catorze anos que seu avô passou a lhe falar sobre arte. “Ele tinha uma mania ao pintar um quadro colocar de costas encostado na parede do ateliê, sem assinar. Depois ele vinha já assinava e colocava na

O artista Guel Silveira, filho de Jenner e
Zeca Fernandes que é seu filho  .
Zeca foi o  neto mais próximo de Jenner.
moldura. Eu chegava e começava a virar e olhar o que ele tinha pintado e nunca reclamou. Outras pessoas ele não deixava mexer nas obras antes de assinar. Se você olhar com cuidado os quadros do meu avô verá que as bordinhas estão descascadas porque ele colocava na moldura ainda com a tinta sem secar. Não tinha paciência de secar para colocar moldura”. 
Lembraram que sua mãe e avô Luiza tinha um conhecimento sobre arte muito importante, além de ser um excelente marchand da obra de Jenner Augusto. Também ele conviveu com muitos artistas não só brasileiros como de artistas estrangeiros. Seu filho Guel Silveira ressaltou que "havia entre os artistas da época de Jenner Augusto uma convivência muito forte e de amizade entre eles e hoje sinto falta disto. Eles se encontravam, aos domingos sempre havia um almoço, um encontro deles. " Acrescentou em seguida  o Zeca Fernandes um fato interessante que "o pintor pernambucano que residia em Paris, Cícero Dias, ia realizar uma exposição em Salvador e mandou suas obras enroladas da capital francesa. Quando chegaram Jenner Augusto, que era  seu amigo fraterno, mandou emoldurar, montou toda a exposição e procurou vender . Quando  Cícero Dias chegou já estava tudo pronto. Quanto à  sua mãe Luiza tinha amizades com artistas de outros países. Inclusive um certo conhecimento com a Françoise Gilot (1921-2023) que era pintora francesa, escritora e musa de Pablo Picasso, conhecida como a única mulher a deixá-lo. Eles viveram juntos entre 1943 e 1953, tiveram dois filhos, Claude e Paloma. Gilot construiu uma carreira artística própria bem-sucedida, separando-se de Picasso devido à natureza exigente e sufocante do relacionamento. A esposa de Jenner Augusto tinha consigo um livro autografado por Françoise que guardava com muito carinho.

Jenner  chegou a cantar nos cabarés da noite
baiana . Aí ele pintou uma cena do mangue, como
também eram chamados os cabarés na época.
Falando da obra de Jenner Augusto seu neto Zeca Fernandes disse ainda “ser um admirador da sua produção e sempre que se detém com mais atenção diante de um quadro dele descobre um detalhe interessante. São momentos de  contemplações muito prazerosas e afetivas. Ele acordava cedo ia para o ateliê pintar, meio dia almoçava, descansava um pouco, voltava para o ateliê, e já no final da tarde saía para ver alguma paisagem ou resolver problemas pessoais, ver uma galeria, um museu, uma nova exposição. Sempre saía com um caderno na mão para rabiscar algo que lhe interessava. Muitas vezes ia direto a um local como Lagoa do Abaeté, alagados ou Dique do Tororó desenhar in loco”. E retruca: “hoje seria impossível diante da violência que vivemos hoje em Salvador.” Tanto o Guel Silveira e seu filho Zeca disseram que gostam mais da fase de Jenner Augusto dos anos 50 quando fazia uma pintura expressionista. A casa de meu pai era sempre aberta aos amigos, principalmente aos pintores e escritores seus amigos e lá constantemente estavam falando de algo ligado às artes. Crescemos assim com meu pai repassando para nós informações sobre modernismo brasileiro e a arte que estava sendo feita nos grandes centros europeus e nos Estados Unidos."

Jenner também ia para a Lagoa de Abaeté p
pintar a paisagem e as lavadeiras.
No tempo que Jenner morou no Rio de Janeiro entre os anos 70 e 90 quando os filhos iam visitá-lo com seus netos o artista  gostava de levá-los ao shopping da Gávea que na época tinha galerias de arte, além de visitar museus e outros espaços culturais. Durante essas visitas  gostava de falar sobre o artista que estava expondo, sua arte e se o conhecia pessoalmente do ser humano, etc.Shopping da Gávea, foi inaugurado em maio de 1975 e ficou conhecido  entre os anos 70 e 90 como um polo cultural e artístico, funcionando com um conceito de "galeria" de rua, com corredores amplos e foco em arte, cultura e livrarias, teatro e lojas de antiguidades . O local era famoso pela Galeria de Arte Anna Maria Niemeyer e por lojas conceituadas como a loja de discos Gramophone. O artista Jenner Augusto morava num apartamento na Gávea que ficava próximo ao shopping e depois de visitar a galeria e outros locais sentavam para fazer um lanche.

Carybé, Mário Cravo Júnior e Carlos Bastos .
Calasans Neto, Floriano Teixeira e Jenner
Augusto, sentados.
Disse Zeca Fernandes que sua relação com o avô se consolidou a partir dos seus catorze anos já quando morava na Casa do Rio Vermelho. Ele era talvez o único que Jenner Augusto deixava mexer nos quadros que acabara de pintar e também em outras coisas do ateliê. Guel relembrou que seu pai hospedava em sua casa os pintores Aldemir Martins,
(1922-2006), pintor cearense, ilustrador e escultor ; Kazuo Wakabayashi , nasceu em Kōbe, (1931- 2021) foi um artista plástico nipo-brasileiro; Manabu Mabe ( 1924 ·1997) nasceu Kumamoto, Japão morreu em São Paulo aos 73 anos; Arcanjo Ianelli ,Nascido e falecido em São Paulo (1922-2009), foi um influente artista, escultor, desenhista e pintor brasileiro; o carioca Orlando Rabello Teruz 1902 -1984) foi um pintor e professor brasileiro; o mineiro Inimá José de Paula , nasceu Itanhomi - MG (1918 -1999) foi um pintor, desenhista e professor brasileiro, dentre outros. 
Contou ainda Guel que o relacionamento e a cumplicidade entre os artistas da época era tanto que quando seu pai chegou ainda jovem de Aracaju era muito pobre e o argentino Carybé ,que também passava alguns apertos na vida dividia a sopa com ele. Ele ficou emocionado ao contar este detalhe, adiantou que está se perdendo aquele intercâmbio que existia entre os artistas , os colecionadores e algum cliente que ia ao ateliê do artista e lá via até o seu processo criativo e muitas vezes se estabelecia uma amizade. Hoje muitos artistas têm contratos de exclusividade e as vendas são obrigatoriamente feitas através a intermediação do galerista ou marchand.

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 




sábado, 18 de abril de 2026

RUY CARVALHO PRODUZ UMA ARTE DE TRAÇOS E COLORIDO FORTES

Ruy Carvalho falando desta obra com poucos 
traços gestuais definiu a figura do gato.
O artista Ruy Carvalho é natural da cidade de Juazeiro, na Bahia, tem uma vasta experiência como pintor, escultor, muralista, ilustrador, grafiteiro, chargista e é uma das figuras mais conhecidas no cenário artístico baiano. Sendo um artista multifacetado sempre  interessado em estar presente nos acontecimentos que envolvem a cultura e vive antenado em tudo que está acontecendo nesta área. Ao longo de sua carreira publicou suas ilustrações em jornais e editoras de livros e também atuou nas emissoras de televisão TV Aratu, em Salvador e a TV Globo, em São Paulo. Não frequentou a academia, é autodidata, e tem um traço diferenciado que vem lá de sua infância quando passou a se interessar por histórias em quadrinhos. Muitos artistas foram e são ainda influenciados pelas histórias em quadrinhos e o Ruy Carvalho começou desenhando esses personagens em qualquer suporte que conseguia utilizar.  Depois aconteceu o seu encontro com o grafite, e em seguida veio a pintura que ele considera  as suas principais formas de expressão. Realizou várias exposições individuais e participou de coletivas e de outros eventos ligados à arte como programas de televisão, na CowParade e recentemente teve suas obras projetadas em led na turnê da sua conterrânea a cantora Ivete Sangalo.

Vemos nesta obra da moça numa favela 
 formas e traços da Arte Pop.
Disse que está em constante reinvenção produzindo suas pinturas e murais mantendo viva a sua conexão com a arte urbana e contemporânea. Procura com o seu olhar artístico traduzir ideias de maneira clara e acessível, trazendo no seu conteúdo elementos do cotidiano como os carros, aparelhos eletrônicos como os rádios, televisões, animais e figuras humanas integrando-os no seu universo popular. Para ele a arte que faz se identifica mais com a obra do artista americano Roy Lichtenstein (1923-1997) que foi um artista ligado com a Pop Art, movimento que segundo os estudiosos da História da Arte, ele ajudou a criar, e “suas primeiras pinturas foram baseadas em imagens de histórias em quadrinhos e anúncios publicitários, reproduzidas em um estilo que imitava os processos rudimentares de impressão de jornais.” Já o Ruy Carvalho disse que seu trabalho é também uma combinação de referências da arte Pop com a estética do grafite, resultando numa linguagem de visual marcante e contemporânea. Ao examinar uma obra de Ruy Carvalho o espectador tem de imediato uma forte conexão de compreensão do que ele está expressando. Diria que é uma arte agradável de se ver pelos traços e o colorido forte que usa transformando suas obras palatáveis no sentido da fácil leitura, compreensão e boa aceitação.

                                   SUA TRAJETÓRIA

Ruy Carvalho usando um guindaste para 
fazer o mural As Regras da Vontade,
em Juazeiro, Bahia.
Seu nome de batismo é Ruy Carvalho Almeida, nasceu em vinte e oito de março de 1962, em Juazeiro, na Bahia. É filho de Adolfo Almeida e de d. Nair Carvalho Almeida. Seu pai era funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE viajava fazendo pesquisa.  Estudou o primário no Grupo Escolar dr. José Inácio da Silva, e em seguida foi para o Colégio dr. Edson Ribeiro, onde permaneceu até a oitava série, porque tinha muita dificuldade com a Matemática. E se identificava mais com a professora de Inglês que gostava de arte e dos desenhos que ele fazia durante as aulas. Sua professora Regina Curssa na época vendo sua vocação para a arte o incentivou a continuar desenhando e pintando, mas sempre queria que ele continuasse estudando. Não foi adiante com os estudos. Veio em 1982 para Salvador e foi morar no bairro de Jardim Apipema. Continuava com sua vocação de desenhar e pintar foi quando o seu irmão mais velho o João Almeida que trabalhava vendendo anúncios para o Guia Telefônico do Brasil - GTB soube que tinha uma vaga na empresa para layout man, que era o profissional que fazia os anúncios a serem publicados no guia telefônico. Como ele já sabia desenhar os aparelhos eletrodomésticos, inclusive escrevia as marcas dos aparelhos e outros objetos e até figura humana, logotipos de empresas. Também quando chegava um circo na cidade ele desenhava toda a programação, inclusive os bichos que os circos na época apresentavam ao seu público. Tinha  circos que possuíam elefantes, tigres, leões, onças, macacos
Uma das muitas ilustrações que o artista fez
 para o jornal A Tarde. Ai no Caderno de Esportes
depois de uma derrota do Bahia contra o Leão.

até que houve uma campanha mundial e foi proibido a presença de animais em circos devido aos maus tratos. O jovem Ruy Carvalho fez o teste na GTB e foi aprovado. Lembrou que os empresários de então não pediam currículo, formação e sim se o indivíduo sabia desempenhar e tinha habilidade para aquela função. 
Na época as empresas telefônicas distribuíam no início do ano os catálogos impressos aos seus clientes, e eram tão grossos que nas cidades maiores dividiam em dois volumes. Ali tinha o telefone do assinante e o seu endereço tanto de pessoa física como também das empresas. Lembro que quando da distribuição do  catálogo, que traziam  os nomes dos novos assinantes,  os velhos eram recolhidos e havia até campanhas de doação para Irmã Dulce que os vendia para serem reciclados, e o dinheiro arrecadado era usado em suas obras sociais. 

Vemos ai a tira As Noviças que foi censurada .
Com a chegada da internet os catálogos impressos foram transformados em digitais, e agora só estão disponíveis os números e endereços de empresas para preservação da privacidade das pessoas, diante da violência que hoje existe em todo o mundo, e em especial em nosso país. Neste seu trabalho de layout man conheceu muita gente de agências de publicidade que vinha trazer também os layouts de seus cientes para serem inseridos no catálogo telefônico. Passou um período na GTB e depois foi trabalhar na Editora de Catálogos Telefônicos do Brasil - ECTB, a qual posteriormente mudou o seu nome para Editel por uma questão de marketing. Neste período conheceu o artista Carlos Rezende, que é baiano e atualmente mora em Piracicaba e participa do Salão Internacional do Humor que há cinquenta anos se realiza na cidade. Disse Ruy Carvalho que o amigo Carlos Rezende que é um excelente caricaturista, chargista e cartunista lhe alertou que ele tinha um bom traço e que estava perdendo tempo colocando letra set em anúncios. Me apresentou uma ficha de inscrição para o I Salão Carioca de Humor que há mais de vinte anos é realizado na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro. Preenchi e criou uma charge , enviou e foi selecionado. Quando isto aconteceu Márcio Brito conhecia algumas pessoas no jornal Tribuna da Bahia e mandou Ruy Carvalho e Carlos Rezende procurar a jornalista Ângela Peroba que fez uma pequena nota com os dois baianos selecionados para o I Salão Carioca de Humor. Também estiveram na redação do jornal A Tarde onde com o chargista Setúbal e nos contatos conseguiu prestar serviço de free lancer e durante algum tempo fez ilustrações para algumas publicações e colunas do jornal. Na sua caminhada esteve também com jornalista e caracturista Gutemberg Cruz que trabalhava na TVE e participou de um programa falando sobre sua ida para o I Salão do Humor Carioca. 

Escultura em aço carbono de formas
geométrica de sua autoria
.

Durante um evento que foi realizado no Teatro Castro Alves comandado pelo jornalista Hermano Henning que trabalhava  no SBT entregando o Troféu Imprensa local.  Ruy Carvalho o procurou e ficou acertado para ele ir à televisão no dia seguinte e procurar Júnia Melo ou Jorge Ramos. Assim o fez, e o Hermano Henning ao chegar na emissora passou direto nem o cumprimentou. Ele o abordou e disse conforme acertamos estou aqui para falar sobre o trabalho que faço, foi aí que o Hermano Henning lembrou. Disse a Ruy Carvalho que ia entrevistar no programa Opinião  o grande técnico Aimoré Moreira no dia seguinte. Foi assim que na hora da entrevista passou a fazer os desenhos do Aimoré Moreira e ficou na televisão até o ano de 1981. Paralelamente  conseguiu publicar umas tiras de As Noviças no Lazer & Informação e ilustrações no Caderno Fanzine . Ele já tinha experiência de fazer  porque juntamente com Carlos Rezende fazia um Fanzine chamado Vilões e mimeografava  e distribuía gratuitamente nos eventos. As tiras que publicava  As Noviças  saíram até que certo  dia recebeu a notícia que o arcebispo d. Lucas Moreira Neves tinha reclamado do conteúdo das tiras. O redator Chefe dr. Jorge Calmon o chamou no gabinete relatou sobre a reclamação do arcebispo e ele teve que escolher outro personagem.

Decidiu ir para São Paulo acompanhar sua namorada e atual esposa, mãe dos seus três filhos, que estudava enfermagem e foi fazer um curso por lá . Aproveitou para ver a Bienal Internacional de São Paulo, que se realiza no Parque Ibirapuera. Certo dia estava na casa de um casal amigo brincando como os filhos deles de desenhar. Foi quando chegou o José Geraldo Gurjão que trabalhava na Tv Globo de São Paulo conhecido produtor de TV Mulher, Balão Mágico e outros programas importantes da televisão. Ele lhe apresentou ao Mauro Cícero responsável pela parte gráfica e ele mostrou o seu

Também passou pelo abstracionismo pintando
usando elementos gestuais e espontâneos.
portfólio. Cícero foi logo dizendo que ali tudo já era feito utilizando programas de computação gráfica. A tv Globo funcionava no famoso prédio do Cinema Miami, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca, para onde tinha mudado em 1969 depois de um incêndio na sede anterior.  Ficou olhando que tinham muitos pincéis, tintas e nada daquilo era mais usado. Começou a lidar com a caneta digital e usar os programas Lumena e Rio, que hoje são obsoletos. Chegou a fazer algumas ilustrações para vários programas da emissora como Globo Esporte, mapas do Clima, dentre outros. Sempre fazia trabalhos avulsos de ilustração para agências e mesmo avulsos. “em São Paulo sempre tem trabalho, fica parado quem não quer trabalhar.”, disse Ruy Carvalho.

De lá continuou mandando as ilustrações que fazia através o malote que diariamente o representante de A Tarde que ficava na Praça da República, em São Paulo, enviava juntamente com materiais de publicidade captados nas agências de publicidade local destinados a publicação no jornal. Para fazer as ilustrações o pessoal daqui enviava as laudas dos textos a serem ilustrados através de fax,

Nesta obra pintada num pedaço de
papelão ele colou guardanapos de
alguns bares e fast food paulistas
.
porque não existia a facilidade de hoje com a internet. Porém, a mulher engravidou e disse que deu uma saudade danada de Salvador e o casal resolveu voltar. Aqui chegando continuou fazendo suas ilustrações para o jornal e agências de propaganda como free lancer. Em 1992  nasceu seu primeiro filho que é cineasta e assina Pedro Anias. Passou a se dedicar a pintura e teve o apoio do artista Enoch Silva, que tem uma galeria no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. Também resolveu estar presente nos vernissages e em outros eventos ligados à cultura para restabelecer e fazer novos contatos. Passei a conhecer arquitetos, decoradores e foi se enveredando na pintura e hoje vive exclusivamente de sua arte e paralelamente teve uma reportagem na Revista Vogue sobre seu trabalho  e foi deslanchando normalmente. Atualmente não tem uma galeria que me represente com exclusividade , mas tem obras na Galeria Paulo Darzé, e vende para clientes como a cantora Ivete Sangalo e  a arquiteta Cristiane Pepe sempre coloca seus trabalhos. Mas, confessa a necessidade de  ter um agente que cuide da sua produção.

CARTA DE PAULO

Ele escreveu a mão  na parede da sala do seu apartamento, no bairro da Graça, em Salvador, e deu um efeito muito interessante. E a reprodução  de parte da  primeira Carta aos Corintios  escrita pelo apóstolo Paulo em Éfeso, atribuída ao ano de 56, com o objetivo de restabelecer a unidade através o amor e chamando a atenção que o único líder é Cristo. Ruy Carvalho é cristão e congrega a igreja batista . Disse que não prega religião e sim o Evangelho. Nesta carta Paulo fala da importância do amor e "utilizei  a arte para pregar o amor em minha moradia e aos que aqui nos visitam". Dizem os estudiosos da Bíblia  que “Corinto era uma rica cidade comercial, com mais de

Ruy Carvalho tendo ao fundo o capítulo13 da
primeira Carta de Paulo aos Corintios.
500.000 habitantes, na maioria escravos. Nesse porto marítimo se acotovelava gente de todas as raças e religiões à procura de vida fácil e luxuosa, criando ambiente de imoralidade e ganância. A riqueza escandalosa de uma minoria estava ao lado da miséria de muitos. Surgiu, inclusive, uma expressão: ‘‘Viver à moda de Corinto’’, que significava viver no luxo e na orgia. Paulo permaneceu aí durante oito meses pregando a palavra do Senhor. 

Veja a o que diz a Carta do apóstolo Paulo: “ Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.² E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e todo o conhecimento, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. ³ E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. ⁴ O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. ⁵ Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; ⁶ Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; ⁷ Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. ⁸ O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo conhecimento, desaparecerá; ⁹ Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; ¹⁰ Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. ¹¹ Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. ¹² Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. ¹³ Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor. 1 Coríntios 13:1-13

                                      EXPOSIÇÕES

Em 1987 - I Salão de Humor da Casa de Cultura Laura Alvin, Rio de Janeiro.1998 -    Exposição de Charges e Cartuns no Shopping Piedade, Salvador - BA;  II Salão de Humor da Casa de Cultura Laura Alvin, Rio de Janeiro-RJ; Exposição Coletiva

Janelas Soteropolitanas, na exposição da
CowParade , 2019.
na Galeria 13, Salvador-BA.1989 - Exposição Coletiva S. Amaro da Purificação-BA. 1992 -  Projeto de Restauração Central da Cidade de São Paulo com participação de 50 artistas e seus trabalhos em grafite na Av. Prestes Maia e Viaduto Nove de Julho, São Paulo-SP. 2002 -  Exposição Coletiva no Aeroporto Internacional de Munique, Alemanha; 2004 -  "How do I Look?" Exposição Individual no Espaço Cultural CCAA, Salvador-BA; 2012 -  Exposição Individual de Pinturas no Espaço Itaú do Cine Gláuber Rocha, Salvador-BA. 2013 -  Exposição coletiva Cat Parade na Paulo Darzé Galeria, Salvador -BA; Selecionado no evento internacional "Cow Parade", Salvador-BA; 2016 – Itinerário - Exposição individual  de pinturas no Palacete das Artes com pinturas 2017 – Exposição Coletiva 90 Olhares para Matilde Mattos. 2019 – Selecionado no Evento Internacional da Cow Parede, Salvador-BA  . 2022 - Massivo" Exposição individual de pinturas e técnica mista no Palacete das Artes, Salvador-BA. 2023 -  Exposição Coletiva no Centro de Cultura João Gilberto, Juazeiro-BA; Exposição individual no Espaço Vitória Boulevard, Salvador-BA.

                         

sábado, 11 de abril de 2026

TONICO PORTELA E SUA ARTE DA PRIMAZIA DO CONCEITO

O artista conceitual Tonico Portela no seu ateliê  
com  materiais que usa nas suas instalações.
O artista visual Tonico Portela é bacharel em Artes Plásticas,  mestre e doutor em Artes Visuais, na linha de pesquisa de Processos Criativos, pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, professor, coreógrafo, performista, curador de várias mostras  e sua arte conceitual caminha dentro de uma visão de espiritualidade sem ligação com a religiosidade de instituições. Seu processo criativo tem uma relação com os materiais naturais, o espaço,  som , luz e os quatro elementos da natureza. Para criar diz ser necessário estar desplugado, isolado deste mundo cheio de barulhos e opções. Sua arte começa com um planejamento intelectual e o que importa mais é o conceito que o produto físico. Está ligada a um movimento artístico surgido na década de sessenta que prioriza a ideia ou conceito sobre a estética ou o objeto final. O artista busca é provocar reflexão e questionar o mercado artístico por meio de instalações, performances e uso de materiais não convencionais. Os artistas que fazem este tipo de arte com suas formas e maneiras diversas procuram abordar os limites da arte, a existência e inexistência da matéria, silêncio, ausência, vazio e o êxtase. Querem discutir todo o pensamento fixo, já determinado rompendo o pré-estabelecido e possibilitando ao expectador todo tipo de sensações e interpretações. É preciso estar aberto para receber esses estímulos sensoriais e visuais. O que permanece fisicamente são as fotografias e os vídeos que quase sempre são feitos durante as instalações e performances. Neste processo acontece uma interação das forças psicológicas, espirituais e intelectuais entre o artista criador e os espectadores que estão ali para participar desses eventos revestidos de sensações.

Tonico Portela na instalação Palavras
Ressonantes, no Museu de Arte Sacra, 2016.
Seu nome de batismo é Antonio Carlos Portela, (não tem o acento circunflexo no primeiro o), assina Tonico Portela, é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, Professor Adjunto no Curso de Artes Visuais, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, e integra o grupo de pesquisa em Artes Visuais CNPQ-UFRB. Suas pesquisas estão voltadas para as impressões contemporâneas com utilização das linguagens de instalações, objetos e performances, e segundo ele “tem como objeto de estudo a relação entre arte e espiritualidade no processo criativo”. Já participou de salões, exposições individuais e coletivas , foi premiado algumas vezes. Tem uma boa experiência de vida e conhece vários países graças ao cargo de coreógrafo que tinha no grupo Club Mediterranée que possui villages de férias em locais paradisíacos , já operou na ilha de Itaparica e hoje tem villages em Trancoso, no sul da Bahia,  e no Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, que são muito procurados por turistas que buscam locais diferenciados, são classificados  no meio turístico como resorts de luxo premium all-inclsive.

Instalação Presentes e Ausentes, premiada. 
Feita com areia, metal, cânfora e fotografia.
Numa exposição que fez em 2001 com Bia Santos, Eriel Araújo e Virgínia Medeiros  ganharam o Prêmio Copene de Cultura e Arte .  O artista Tonico Portela apresentou a instalação que denominou de Impressões: Ausentes, Presentes. Cada um  se apresentou com a sua personalidade, individualidade ,  informações que dispõe e  questionamentos dentro  deste encontro  interagindo com as forças psicológicas, intelectuais e espirituais. A propósito escreveu Celeste Almeida Weiner , na época Professora Orientadora do Mestrado em Artes Visuais e Diretora da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, hoje aposentada, que “a partir de Duchamp, todas as formas de representação artística obtiveram novas possibilidades de construção. Com isso, Duchamp não levantou simplesmente a questão:  o que é arte? Indagou o motivo pelo qual alguma coisa pode se tornar uma obra de arte, enquanto outra, exatamente igual, não”. ( Marcel Duchamp nasceu na França em 1887 e se naturalizou americano, faleceu em 1968. É um dos artistas mais discutidos desde o século passado, criador dos ready-mades e é considerado o pai da arte conceitual.)

Para Tonico Portela “Ausentes, Presentes é a suma das inquietações provenientes da fusão de materiais, ideias e conceitos. A poética se instaura a partir da palavra e dos significados, perpassando por uma diversidade de práticas para compreender as relações entre a Tradição e Contemporaneidade. A semântica dos conceitos Ausentes, Presentes é enfatizada pela combinação da palavra com as práticas artísticas, ou seja, a exploração das possibilidades significativas da linguagem verbal enquanto objeto artístico, ampliando a realidade nocional da palavra.”

                                                      TRAJETÓRIA

Uma série de formas de mãos da instalação
Incandescência
O artista visual Antonio Carlos de Almeida Portela nasceu em quatro de março de 1963 no Hospital da Sagrada Família, na Cidade Baixa, em Salvador. É filho de Rafael Francisco da Silva Portela e de d. Therezinha Maria de Almeida Portela. Estudou na Escola Gasparino  Duarte, que era uma escolinha de bairro, e em 1970 a família mudou para o bairro da Pituba quando ele foi matriculado na Escola Tereza de Lisieux, que foi fundada em 1976 e encerrou suas atividades no ano 2000, dando lugar ao atual hospital da Rede Notre Dame Intermédica. Tonico Portela fala com satisfação dos anos que passou na escola que teve três sedes provisórias até a construção de sua sede oficial na Avenida Antônio Carlos Magalhães. Para ele era uma escola diferenciada “um verdadeiro caldeirão de cultura porque éramos incentivados por professores a praticar vários tipos de arte e sempre  organizavam manifestações artísticas de teatro, danças folclóricas, capoeira, canto, artes plásticas, com a participação de muitos estudantes. Foi muito importante na minha formação e participava de uma equipe que se destacava entre as demais. Tenho colegas que até hoje nos encontramos e lembro da Alice Becker, que foi do corpo de balé do Teatro Castro Alves,  estudou lá, e é considerada  uma das pioneiras da introdução do Pilates no Brasil. Também a Adalgisa Rolim que tem uma escola de Dança em Villas do Atlântico, em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador,  onde são ministradas aulas de   Ballet Clássico, Street, Jazz, Dança do Ventre, Dança Contemporânea, K- POP, Dança de Salão e Sapateado. 
Ao terminar o ginásio foi transferido para o Instituto Social da Bahia, no bairro de Ondina, onde concluiu o colegial. O ISBA também encerrou suas atividades no final de 2020, após 56 anos de atuação. Ao terminar o colegial prestou vestibular para Processamento de Dados, na Faculdade Trabuco, que funcionava no bairro da Federação, onde estudou até o terceiro ano. Tinha um professor de dança que abriu uma sala defronte a Faculdade Trabuco foi fazer Jazz. Disse Tonico Portela  ser  ele quem  lhe incentivou a continuar fazendo dança. Não lembra os nomes do professor e nem do  espaço onde ocorriam as aulas. Decidiu abandonar o curso de Processamento de Dados, porque sentia dificuldades nas matérias ligadas a cálculos Matemáticos. Decidiu ir morar em São Paulo para  estudar na Escola de Dança do argentino Ismael Guiser, que em parceria com a bailarina Yoko Okada, inaugurou sua primeira escola em 1973, a Escola de Dança Ismael Guiser, que veio encerrar as atividades em 2008. 

Alguns dos 300 porquinhos dourados usados 
numa instalação que fez na ACBEU
.
Disse que ralou muito em São Paulo para se manter trabalhando no Mac Donald e em seguida  numa agência bancária na Avenida Paulista. Morava em pensão e se alimentava muito mal. Quando Tancredo Neves morreu e veio o governo José Sarney com aqueles planos mirabolantes, que não deram certo, ele resolveu voltar para Salvador e foi trabalhar na loja Richards, no shopping Barra. Teve um reencontro com um antigo colega da Escola Tereza de Lisieux que seguiu a carreira da dança Cody Reis, o qual já estava há alguns anos trabalhando no Club Mediterranée, em Itaparica. Ele ligou e perguntou se queria trabalhar lá e ofereceu um cargo de decorador floral. Respondeu que nunca tinha trabalhando com flores, mas ele insistiu , aceitou, e foi apreendendo com um assistente que já fazia este serviço . Fez sua primeira viagem internacional para a Tunísia  trabalhando na boutique do village e com sketches de humor, dança, desfiles de moda dos produtos da loja. Em seguida fez um estágio com Cody Reis, no Rio de Janeiro, em Mangaratiba, em Rio das Pedras, e se tornou coreógrafo. Sua denominação no Mediterranée era regisseur, fazia shows business. Lhe designaram  passar uma temporada num resort de verão em Israel, que abria em abril e ficava até setembro, depois passou seis meses em Bali que é uma província da Indonésia, conhecida como a Ilha dos Deuses. Posteriormente viajou para  Aghâdir que é uma cidade costeira no sudoeste de Marrocos, cidade balneária . Porém, de 1990/1 aconteceu  a guerra do Golfo, Pérsico fechando tudo. Voltou para Itaparica, em seguida lhe mandaram para  Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, como coreógrafo, e logo depois retornou para a Tunísia desta vez para a cidade de Hammamet que é um dos principais destinos turísticos e tem  um villages sazonal. Recebeu o convite de um brasileiro que inaugurou um  village no norte da  Austrália, na   Lindeman Island,  localizada no arquipélago das Ilhas Whitsunday, em Queensland , que é um destino muito procurado , com a maior parte do seu território protegida pelo Parque Nacional das Ilhas Lindeman. Seguiu para Bora Bora em 1994 que é uma pequena ilha do Pacífico Sul, a noroeste do Taiti, na Polinésia Francesa, onde tinha programado passar
Tonico Portela trabalhando com uma matriz
de litografia. Ao lado a lito que  imprimiu.
um ano, mas disse que recebeu um chamado forte, que não explicou qual e voltou antes para Salvador. 
Sempre que passava em frente à Escola de Belas Artes declarou que sentia como que algo estava lhe atraindo, e assim resolveu fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia para bacharelado em Artes Plásticas Se graduou e  em 2000/1 fez o Mestrado e seu trabalho foi Impressões: Instâncias de Ausências e Presenças. Tratou de todos os métodos de impressões de múltiplos. Em 2013 voltou para a EBA onde fez o Doutorado sendo orientadora Maria Celeste Weiner com o trabalho relacionado ao seu processo criativo com a espiritualidade, não só nos aspectos apenas da religiosidade, mas com diversos tipos de concepção e a espiritualidade na arte.  O título do trabalho é Impressões Monistas: Construindo Percursos Entre Arte e Espiritualidade, que concluiu  em 2018. Fez o pós-doutorado  com a apresentação de uma exposição.  
Como trabalhava com o corpo procurou neste momento  usar mais as mãos, se entrosar com a cena baiana apresentando seu portfólio de coreógrafo, maquiador, cenógrafo e passou a trabalhar com escolas de dança e espetáculos de teatro. Fez um curso de cenografia com o professor alemão Alexander Müller-Elmau através do ICBA   e passou a conhecer vários artistas que fazem uma arte conceitual. Disse também que fez todas as disciplinas de gravura, escultura, desenho e cerâmica, menos de pintura. Revelou gostar muito da pintura, mas que o fazer pintura não lhe atrai muito.  
Atualmente ensina na Faculdade de Federal do Recôncavo que é multicampis , e tem seus campis em Cruz das Almas, Santo Antônio de Jesus, Santo Amaro, Amargosa, Cachoeira e Feira de Santana. Ele ensina desde 2010 em Cachoeira, antes foi professor substituto durante dois anos na Escola de Belas Artes ensinando Escultura com resina e Desenho de Observação. Ensinou no curso de Educação Artística, na UCSAL, na sede da Instituto de Música, na Rua Carlos Gomes, e nas gestões do MAMBA de Solange Farkas e Stella Carosso, foi coordenador do Educativo. Em 2010 fez o concurso para a Universidade Federal do Recôncavo onde ministra aulas de Processos Criativos no Curso de Bacharelado de Artes Visuais  ensinando  disciplinas ligadas a escultura e gravura.

Mostras e Prêmios

Instalação Um Presente Ausente, feita com 
areia, cânfora e gravura, de 2001.
Em 2023 - Desver Devires – exposição de Fotografias e vídeos no Recôncavo da Bahia na Galeria B.S.F. (O) Louco, Centro de Artes, Humanidades e Letras, Cachoeira-BA; A Gravura na Bahia a Partir da EBA/UFBA, Galeria Cañizares, Escola de Belas Artes-UFBA, Salvador-BA; Incandescências, exposição individual, Galeria Cañizares, Escola de Belas Artes-UFBA. 2022 - Ações e Reações nos Processos Artísticos - Exposição da produção da linha de processo de criação artística do PPGAV-UFBA, 19/10 a 04/11, Galeria Cañizares-EBA-UFBA, Salvador-BA. 2021- Desver Devires - Mostra 2055 - Universidade Federal do Recôncavo-UFRB. 2019- “Um Brinde ao Café 02 - Exposição de Bules”, coletiva no Cafelier, Salvador-BA. 2017- “Dezsmandamentos”, mostra individual, Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA. 2016- “Palavras Ressonantes”, mostra individual, Museu de Arte Sacra, Salvador-BA. 2015- “RomaAmor”, V Mostra de Performance: Corpo Coletivo, Conflitos e Convergências, Galeria Cañizares, Escola de Belas Artes, Salvador-BA. 2014 - “Rio Bom”, mostra coletiva “Um Pouso do Livro Caminhante nas Coisas Existentes de Marcos Zacaríades em Função do Desejo”, Galeria Marcos Zacaríades, Igatu-BA. 2012 - “Ausentes Presentes, mostra coletiva Circuito das Artes, Museu Carlos Costa Pinto, Salvador-BA;  O Sexo e o Tempo II, Festival da Livre Expressão Sexual, Salvador-BA. 2011 - “Natureza Morta com Folha e Gotas de Orvalho”, mostra coletiva Imagem X Imagem, Galeria da Escola de Belas Artes do Paraná, Curitiba-PR. 2007- “Springs” (acervo MAM-BA) – 14º Salão da Bahia – Prêmio Residência Artística - MAM –Bahia. 2006 - “Fontes”, mostra coletiva 25 Artistas Baianos, Galeria Solar do Ferrão, Salvador-BA. 2005 - 300 Porquinhos”, mostra coletiva Art for Today, Galeria ACBEU, Salvador-BA; “Posições Astrais”, mostra coletiva Arte Erótica, Galeria Cañizares, EBA-UFBA. 2004 - “Do Barro da Terra do Ouro”, mostra coletiva Terra Cota da Terra, Centro Cultural da Caixa, Salvador-BA. 
2003 -
Duas obras da mostra O Sexo e o Tempo,  2012.
Os 300 porquinhos”, X Salão da Bahia, MAM – Salvador-BA; O Sexo e o Tempo”, Festival da Livre Expressão Sexual, Quixabeira, Salvador-BA; “Lineares”, Exposição 125 Anos da EBA, Casa dos Correios, Salvador-BA. 2001 - Ausentes e Presentes-II”, mostra coletiva Instalações Bahia 2001, Prêmio Copene Cultura e Arte, MAM-BA; Um Presente Ausente”, Rádio Bazar, Espaço Jiquitaia – Salvador-BA; “Impressões: Ausentes e Presentes”, mostra individual, Galeria Goethe Institut - ICBA. 2000- “Desenho I e II”, V Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA; Ausentes Presentes- Objeto I”, Galeria Solar do Ferrão - Salvador-Ba. 1999- “Impressões: Momento II”, XXVII Salão Centro de Cultura Olívia Barradas – Prêmio Oficial- Valença-BA, Velas Redondas”, XXVI Salão Centro de Cultura Camilo J. Lima, Vitória. Conquista-BA; País não Descoberto”, XXV Salão Centro de Cultura João Gilberto, Juazeiro-BA; sem título, XXIV Salão Centro de Cultura Adonias Filho – Itabuna-BA; Auris Brasilis”, XIII Salão Centro de Cultura Amélio Amorim, Feira de Santana-BA. 1998- “Salvador, porto além mar”, Projeto “Salvador, Porto e Mar”, COBEBA, paredes externas do Porto de Salvador-BA.