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domingo, 17 de maio de 2026

GUSTAVO MORENO E SUA ARTE DA RESSIGNIFICÂNCIA

Gustavo Moreno trabalhando no ateliê.
O artista visual Gustavo Moreno é pintor e escultor está no mercado desde o ano 2000 quando realizou sua primeira exposição individual no Museu de Arte Moderna da Bahia. É baiano de nascimento, graduado em licenciatura em Artes Plásticas pela Universidade Católica de Salvador e atualmente vem criando uma série de esculturas e totens utilizando os mais variados objetos encontrados aleatoriamente.  São pedaços de móveis antigos, brinquedos, imagens religiosas, peças de carros e de eletrodomésticos, azulejos, dentre muitos outros. Nasceu no ambiente da arte porque seu pai Tati Moreno e sua mãe Emília Fonseca, mais conhecida por Mimi, eram artistas, sendo que seu pai era um escultor de destaque autor daqueles Orixás do Dique do Tororó e de outras obras icônicas daqui e de fora do país. Sua mãe era pintora, mas não chegou a se profissionalizar e também seu irmão André é um escultor de destaque autor daquela obra Roda de Capoeira, que fica ao lado do Mercado Modelo, em Salvador. O Gustavo Moreno residiu em São Paulo a partir de 1997, mas hoje trabalha em seu ateliê nas imediações do elevador do Pilar, na Cidade Baixa, em Salvador, e num galpão no Litoral Norte. Já fez algumas exposições individuais, participou da Bienal do Recôncavo, em São Félix-BA e do I Salão de Arte Contemporânea do Consulado da Holanda. Em 2005  foi premiado com o troféu Caboatã de Cultura e Arte. Ele foi um dos artistas selecionados no Edital Artsul Artistas Independentes 2021 e  premiado no Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos-SP.  Entre os anos 2010 a 2015 esteve no Rio de Janeiro montou um ateliê na fábrica Bhering, que estava abandonada, juntamente com um grupo de artistas . Era uma antiga fábrica de chocolates e café , fundada na década de 1930, que foi  transformada em um polo cultural e criativo. Fica localizada na zona portuário  do Rio de Janeiro.  O imóvel tem seis  andares e reúne dezenas de  ateliês de arte, galerias, brechós, lojas de móveis e cafés.Também participou de alguns cursos   sobre Crítica, Criação, Circuitos  - Instâncias da Arte Contemporânea Brasileira, ministrado por Ivair Reinaldim;   de Teoria da Arte, por Fernando Cochiaralle , e  sobre Planos e Superfícies , proferido  por Luiz Ernesto de Morais, todos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, (EAV). Esta escola começou a funcionar após o fechamento do Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro . Em 1975 foi renomeada e fica localizada no bairro do Jardim Botânico , ocupando a  antiga residência do armador brasileiro  Henrique Lage.
Obras do artista expostas na SP/ Arte 2025.
Em 2012 fez uma exposição utilizando tinta óleo e acrílica, lona, aço a qual denominou de
Cada Um de Nós, Também os Outros,  no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro. O artista concebeu a mostra" como  uma reflexão das relações do indivíduo no mundo contemporâneo, como a negação da identidade e as investigações quanto à memória, o tempo e o espaço”. Participou em 2026 da mostra Adiar o Fim dos Mundo, na Fundação Getúlio Vargas com curadoria de Paulo Herkenhoff e Ailton Krenak. Em 2025 da Afro Brasilidade em homenagem a Rubem Valentim e Emanoel Araújo com curadoria de Paulo Herkenhoff e João Victor Guimarães. 

                                          PINTUURA MATÉRICA

Obra de Gustavo Moreno feita com
areia, pigmentos ,pedras e pó xadrez.
O artista Gustavo Moreno considera sua pintura matérica, "não é uma pintura tradicional de diluir a tinta e se preocupar com perspectiva,  luz e a sombra. Minha pintura é como se fosse um expressionismo abstrato, livre de amarras tradicionais e se aproxima do abstracionismo . Também  abstraio me aproximando do concretismo, criando obras que se unem formando uma certa geometria". Não usa apenas tintas e pincéis, e sim cimento, pigmentos, pó xadrez, cola ,madeira, e outros materiais que vai agregando no suporte para se expressar. Faz uma pintura muito livre, que dialoga com a escultura, com o tridimensional. Sabemos que a pintura  matérica   surgiu nas décadas de 40 e 50 no pós-guerra e se caracteriza pela sua textura e materialidade, quando o artista utiliza areia, gesso, madeira, tecidos, objetos dentre outros materiais criando relevos e efeitos táteis em vez de apenas visuais. É considerada uma arte abstrata que incorpora materiais não convencionais para expressar emoções e memórias. 
O artista Gustavo Moreno já passou pela pintura   figurativa na década de 2000 a 2010. Quando indaguei se o mercado aceitou bem essas pinturas que fazia quando expôs individualmente pela primeira vez no MAM-BA em 2000 respondeu que apresentou uma série de pinturas de rostos  remetendo à pintura P432qwA|32QWA|lembrando Andy Warhol. O   seu nome de batismo era Andrew Warhola Jr, nasceu em  Pittsburgh, no estado da  Pensilvânia, nos Estados Unidos, em  6 de agosto de 1928  e veio a falecer em Nova York, 22 de fevereiro de 1987. Wahrol “foi um artista visual, diretor de cinema, produtor e figura de destaque do movimento Pop Art. Suas obras exploram a relação entre expressão artística, publicidade e cultura de celebridades que floresceu na década de 1960 e abrangem uma variedade de mídias, incluindo pintura, serigrafia, fotografia, filme e escultura.”

Vemos uma tela impregnada de tintas,
pigmentos e outros materiais
dialogando com uma escultura
( totem) de Oxóssi.
Para Gustavo Moreno suas  atuais  pinturas criam uma relação da escultura com a tela. São peças subsequentes às telas formando uma certa complementariedade.  Estas esculturas ou totens criados por Gustavo Moreno ele diz que "enxerga em seus trabalhos  um geometrismo, mas não é uma afirmação com a visão da matemática racional. Eu nego tudo isto enquanto penso que é uma geometria pelo que está por vir e não pensando na racionalidade. É como se fosse uma inversão, uma geométrica negada."
E continuou: " O que me envolve são questões da religião, o sincretismo, a cultura popular. Todo meu trabalho em primeira instância parte de uma coleção de objetos e materiais. Tenho um arquivo de materiais, de objetos e fragmentos que levo para o ateliê. Este grande reservatório de coisas que recolho está lá guardado e os trabalhos surgem a partir dali. Me interessam os materiais que tiveram um certo desgaste pelo tempo porque têm suas impregnações surgidas com o tempo, sua temporalidade. Passou pelo sol, chuva e pela sua funcionalidade de certa forma em algum lugar. São esses materiais que recolho em ferros velhos ou mesmo na rua, em antiquários e lugares de construção. Acontece às vezes até que vou dirigindo e ao enxergar um objeto paro o carro e levo para meu ateliê. Acho que a partir disto é pensar em transmutar e fazer eles reviverem, se ressignificarem de outra forma."
Gustavo cortando um azulejo
para colocar numa nova obra
.
Não faz um desenho prévio de suas esculturas. Vai agregando os materiais e observando os encaixes, as posições e a visão estética até a sua conclusão final. É como se fosse um jogo de armar onde as peças vão se encaixando, só que no jogo de armar foi feito um projeto e determinado os lugares das peças. No seu processo criativo tudo é conduzido pela intuição e sensibilidade. Às vezes coloca no chão e vai  juntando um ao lado do  outro e vendo onde se encaixa melhor cada um e se tem funcionalidade. É como que existisse um diálogo desses materiais com o artista . Neste fazer surge uma relação para tentar entender onde cada um vai ficar permanentemente . Como se eles fossem os atores e ele um diretor. Algumas vezes não dá certo é como se um deles dissesse aqui não funciono bem.
 Falou ainda que acontece  ficar olhando uma escultura ainda em produção indagando onde vai colocar determinada peça que escolheu para fazer parte da escultura. Imagina  que estava errado e acertou, outras vezes está errado e tem que realmente mudar de lugar.  Também neste processo criativo acontece que uma peça não se encaixa naquela escultura e cria-se um impasse obrigando Gustavo Moreno a parar e deixar de lado. Quando isto ocorre  vai trabalhar em outra escultura. Em alguma outra hora ou  dia volta a trabalhar naquela primeira escultura até terminar. "Sinto como se fosse uma catarse, muitas vezes fico o dia inteiro concentrado numa ou mais esculturas ao mesmo tempo." 
Depois de estabelecer os locais de cada  passa para a fase da execução que considera  mais árdua e complexa porque vai  precisar de assistentes  que lhe ajudam a cortar, soldar, colar e lixar. Muitas vezes antes da execução fotografa e leva pra casa e ainda fica pensando como ficaria melhor. Tem que ver como agregar, por exemplo, uma peça de latão, que não se consegue soldar no aço, ferro não solda na madeira, cerâmica com madeira. Aí entram os truques como o do  aparafusamento.

Esta interação do artista Gustavo Moreno e os variados materiais que costuma usar em suas criações ele revela  que não possui um controle total sobre eles. Muitas vezes esses materiais vão apontando silenciosamente os caminhos que deve percorrer até encontrar uma solução que lhe agrade do ponto de vista estético e praticidade. Algumas vezes permanece horas diante de uma obra em processo de construção e as coisas vão acontecendo como se estivesse em transe. "Tem momentos que realmente nem sei o que estou fazendo. Mas, é nesta relação com os materiais que a obra ganha forma e força." Disse que pode até programar uma certa cena para fotografar, por exemplo, mas sempre surgem os imprevistos, as nuances e as alterações até o trabalho é finalizado."

Os trabalhos que Gustavo Moreno realiza são assemblagens misturando  símbolos   das chamadas religiões de matrizes africanas e da igreja católica como por exemplo patuás, imagens de santos,  castiçais de velas,  turíbulos de metal que é usado para incensar os templos religiosos, um cálice. Enfim ele procura em suas esculturas fazer este sincretismo,  que hoje está tendo uma boa demanda no mercado de arte. Afirmou ainda que se sente entre  " o colonizado e o colonizador. Minha mãe era filha de portugueses e meu pai um baiano mestiço."

                   TRAJETÓRIA

Família de artistas :Tati Moreno, André,
 d. Mimi e Gustavo.
O seu nome de batismo é Gustavo da Fonseca Moreno nasceu em dezoito de abril de 1969 em Salvador. É filho de Otávio de Castro Moreno Filho, o Tati Moreno, e d. Emília Augusta da Fonseca, mais conhecida por Mimi, já falecidos. Estudou o primário na Escola Pequenópolis, no bairro da Graça, em Salvador e em seguida foi para o Colégio Nobel, do Rio Vermelho, e depois transferido para o Colégio Nobel, do Itaigara, ambos em Salvador. Em 1998 prestou vestibular para Licenciatura em Artes Plásticas na Universidade Católica de Salvador. Achou o curso de boa qualidade teórica, mas sentiu falta de aulas práticas, o que foi preenchido ajudando seu pai na produção de suas esculturas. Ressaltou também que sua mãe d. Mimi desenhava muito bem e pintava. Mimi  estudou na Escola de Belas Artes e fazia alguns dos projetos e desenhos que eram executados por Tati Moreno. Como vivia nesses dois ambientes nos ateliês do pai e  da mãe foi quase natural se tornar artista. Quando  criança ficava vendo a mãe pintar e passou a desenhar. Durante algum tempo Mimi pintou paisagens, naturezas-mortas e flores. Para Gustavo Moreno que “as pinturas de minha mãe pareciam com as pinturas dos azulejos portugueses do período colonial, mesmo antes dela abraçar a azulejaria”. Talvez sua criatividade foi de certa forma ofuscada pelo seu empenho em contribuir com a obra do esposo Tati Moreno e o consequente bom desempenho de seu pai como escultor conhecido em todo o país e lá fora.
Esta obra que remete a uma paisagem 
foi criada usando vários materiais
.
 REFERÊNCIAS

O artista e curador  Caetano Dias escreveu um texto para a exposição que Gustavo Moreno fez no MAM-BA que intitulou de Transmutar é Preciso. Vejamos parte do texto: O trabalho de Gustavo Moreno pode ser pensado como uma poética dos fragmentos e suas energias em meio ao domínio da nova imaterialidade. Consciente disso. ele escolhe adentrar e aprofundar as relações entre memória, história e fé, criando construções que ligam aspectos da cultura popular, religiosa e industrial, ecoando tradições ao atribuir novos significados a coisas antigas que sempre ressurgem. Moreno ultrapassa o  esperado nas práticas artísticas atuais, fazendo isso com sutil delicadeza ao sobrepor resquícios do passado, desafiando a práxis cíclica tão comum ao anacrônico, que tende e atende ao sistema."

"A abordagem interdisciplinar de Moreno, que mistura materiais orgânicos industriais, cria uma sinergia que reflete a complexidade e pode reestabelecer a necessária desordem que o mundo precisa para continuar a navegar por águas que ainda possam ser inusuais convidando o espectador a explorar as múltiplas camadas de significado em suas torres de sentidos. A estética em platôs, presente na criação de Moreno, celebra a invenção pelo viés dos catadores errantes que ao longo da história, sempre podem redescobrir tudo o que há, refletindo assim a força, a adaptabilidade e a mutabilidade das culturas que continuam a se transmutar Seus platôs, somados em vértices, emergem como entidades que respiram e pulsam com a energia da ancestralidade no presente, trazendo frescor e vitalidade que sempre urge. 

Gustavo Moreno e Caetano
Dias e algumas esculturas.
As esculturas de Moreno são compostas por fragmentos como madeira, metal oxidado, vidro e cerâmica, frequentemente dispostos em formas longilíneas que evocam tanto a fragilidade, quanto  a força. Esses elementos díspares, marcados pelo tempo, dialogam entre si para criar um estranhamento que transcende, ao se interpenetrarem e seguirem para outros imaginários."

Já o  crítico Marcus Lontra sobre uma exposição de pinturas matéricas  assinalou que o artista parte do registro fotográfico e “executa uma série de ações pautadas pela edição e manipulação das imagens, com intuito de criar a necessária surpresa e curiosidade que toda obra de arte verdadeira deve suscitar no espectador. Nesse sentido, o suporte é elemento essencial no seu processo. Nas telas brancas, o vazio acaba por sugerir o silêncio do tempo. A matéria opaca, branca, faz com que a figura dela pareça britas como um resquício de pensamento aparece subitamente em nosso consciente oriundo dos silêncios dos desvãos da nossa memória. Já nas superfícies polidas e metálicas, a imagem parece ser agregada, ao posterior à existência do suporte. Enquanto nas telas o tempo rege o espetáculo, no metal o espaço conduz o nosso olhar, provocando o espectador e, por vezes introduzindo-o no centro da ação através do espelhamento da sua própria imagem”.

Exposições -  Individuais - 2012- Cada Um de Nós Também os Outros/Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro-RJ ; Cada Um de Nós Também os Outros/Galeria Paulo Darzé, Salvador-BA. 2004 -Transtornos Mentais /Galeria Fábio Pena Cal, Salvador-BA 2000 - Baianos Luz/Museu de Arte Moderna da Bahia-(MAM), Salvador-BA. 

Coletivas - 2026Adiar o Fim do Mundo, FGV Arte Rio de Janeiro-RJ. 2025 - Afro Brasilidade Homenagem a dois Valentins e a um Emanoel, FGV Arte Rio de Janeiro-RJ; Ecos Malês, Casa das Histórias de Salvador, Salvador-Ba. 2024 - Rotas Brasileiras - SPArte Acer Galeria de Arte 2023- Credo, Casa Jacarepaguá - Paralela à SPArte - Rotas Brasileiras, São Paulo-SP. 2023 - Um Tanto do Que Somos, Casa do Benin, Salvador-BA; ArtStudio, Acervo Galeria de Arte, Salvador-BA; Credo l? - Casa Jacarepaguá, São Paulo-SP. 2021- ARTSOUL - Artistas Independentes. 2020- Clarices, um tributo ao centenário de Clarice Lispector/Ateliê da Fotografia, Salvador-BA; Utopias e Distopias Atmosféricas, Uncool Artista.  2019 - 47° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André-SP. 2018 - Bienal Internacional de Arte Contemporânea Emergente, Eve Maria Zimmermann, Espanha; Feira Parte, Coletivo Rifa, São Paulo-SP. 2016 - 4° Salão de Outono da América Latina - Galeria Marta Traba /Complexo 2, Cultural Memorial da América Latina, São Paulo-SP. 2014 - Bailado de Flávio de Carvalho, SESC, Nova Iguaçu-RJ: 2013 - Deslocamentos, Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro-RJ ; Acervo Aberto, Galeria TAL Tech Art Lab, Rio de Janeiro-RJ . 2012 - Nosso Cuiabá, Escola de Artes Visuais (EVA), Parque Laje, Rio de Janeiro-RJ; Feira de Arte Rio, Galeria Paulo Darzé, Rio de Janeiro-
Escultura em homenagem aos pescadores na 
cidade de Camaçari, Bahia.
RJ; Jornada Move Arte, Galeria Cañizares/ Escola de Belas Artes (EBA) da UIERA Salvador-BA.
2011- Intercâmbio Bahia x São Paulo, Galeria de Arte Carlos Barbosa, Feira de Santana-BA; Santana, Museu de Arte da Bahia (MAB), Salvador-BA. 2009 - Novos Talentos, Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília-DF. 2008 - IX Bienal do Recôncavo, São Felix-BA; Arauto de Santos, Instituto Cultural Brasil Itália (IBRIT), Milão-Itália. 2003 - Eu Sou Eu e Meu Endereço, Centro Cultural Correios, Salvador-BA; A Holanda no Olhar do Artista Brasileiro/ I Salão de Arte Contemporânea, Centro Cultural Dannemann, Salvador-BA. 2002- Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), Salvador-BA. 1999 - Exposição Arte GACC Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM). Salvador-BA. 1998 -IV Bienal do Recôncavo, São Felix-BA. 1991 - Trinca de Três, Galeria Casa do Benin, Salvador-BA.

Prêmio - 2016 -1° lugar (Júri Técnico), 15° Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos, São Paulo-SP. Acervos - Fundação Luiz Ademir, São Félix-BA; Centro Cultural dos Correios, Salvador-BA; Galeria Paulo Darzé, Salvador-BA; Centro Cultural dos Correios, Rio de Janeiro-RJ; Coleção BGA Brasil Golden Art, São Paulo-SP  .

sábado, 9 de maio de 2026

LUCIANO ROSA E SUA SAGA EM BUSCA DE EXPRESSAR A ARTE

O artista Luciano Rosa pintando em seu ateliê
na cidade de Vitória da Conquista, Bahia.
O artista Luciano Rosa é a personificação de muitos artistas  espalhados por este Brasil profundo  ainda não alcançaram o reconhecimento merecido do mercado de arte, esta entidade quase abstrata que determina prestígio, preços das obras e alça os artistas a patamares impensáveis. Ele nasceu em Itabuna no dia oito de novembro de 1968 e com nove anos de idade seus pais mudaram para Itapetinga com quase duas dezenas de filhos. Seu pai Basílio Félix dos Santos um pequeno produtor de cacau perdeu suas terras em jogos de azar e sua mãe a pernambucana d. Maria Eutropia Freudenthal teve que enfrentar a vida juntamente com os filhos mais velhos para ter uma sobrevivência digna. Foi assim que sendo um dos mais novos Luciano Rosa Santos, este é o seu nome, passou a frequentar o Ginásio Agroindustrial onde alguns artistas costumavam desenhar e pintar. Entre eles estava o pintor São Félix que por uma deferência do prefeito de então permitiu que morasse no estabelecimento de ensino. Lá ele pintava suas paisagens urbanas e rurais e fazia as decorações de lojas, colégios, das festas do  Natal, Carnaval e  Juninas juntamente com outros artistas. Foi neste ambiente que o menino Luciano Rosa começou a prestar a atenção do uso das tintas e dos pincéis.

Três obras com  a temática peixes em
composições com elementos geométricos.
Parecia fácil ficar olhando os adultos pintando, mas conta Luciano Rosa que “eles não gostavam de ensinar e tive que começar a desenhar pelo que conseguia ver e aprender”. Mas, com passar do tempo começou a  ajudar e ganhar  dinheiro com as decorações,  pintura de faixas de propaganda comercial e e também passou a fazer alguns objetos de artesanato. Depois vieram as camisetas feitas de serigrafia utilizando o chamado filme de recorte, que é uma forma um pouco rudimentar da serigrafia e da transferência de imagens. "O filme de recorte termocolante (PU ou PVC) “é um material vinílico aplicado em tecidos via calor (150°C-160°C) por 10-15s, ideal para personalização detalhada com plotter de recorte. Pode ser usado sozinho ou combinado com serigrafia (base no silk, detalhes no filme) para acabamentos premium, como alto relevo, flocados ou metalizados”. Quando conversamos ele estava em seu ateliê e mostrou a mesa de serigrafia onde personalizava as camisetas e outros produtos.

                           FORÇA DA ARTE

Estudou a parte do primário na Escola do Lions Clube  e na Escola Municipal Augusto de Carvalho, ambas  em Itapetinga, sendo obrigado a parar de estudar para trabalhar.  Frequentou durante alguns anos o Ginásio Agroindustrial, mas ia jogar bola e observar as pessoas lideradas pelo escultor São Félix pintar. Trabalhou muitos anos ao lado do pintor e escultor cujo nome verdadeiro era Júlio de Souza Barbosa, nascido vinte e um de março de 1927 na cidade de São Félix, no

 Luciano Rosa ao lado da obra
Musicista, de 2020. Acrílica s/ tela.
Recôncavo Baiano, e ganhou este apelido de São Félix em Itapetinga onde chegou aos dezessete anos de idade. Era pedreiro de profissão e com o tempo e a sensibilidade natural se transformou num escultor popular a partir da década de 70. Veio a falecer aos 83 anos em 2011, numa morte trágica sendo esfaqueado por um casal de ladrões. Deixou várias obras no Parque da Matinha, em coleções particulares, praças, ruas e prédios públicos de Itapetinga. O Luciano Rosa também pintou ao lado de Villadônega Rodrigues natural de Euclides da Cunha, região Nordeste da Bahia, foi jogador meio campista do Vasco da Gama e do Atlético Mineiro, quando morou em Itapetinga era artista plástico, pintava painéis, letreiro de lojas e clubes sociais e fazia decoração de eventos com suas pinturas. Mas, foi com o pintor e escultor São Félix que Luciano Rosa mais trabalhou e se identificou. 
Aos vinte anos Luciano decidiu que sua vocação era mesmo ser artista e intensificou sua busca por novos trabalhos. Ainda estudava no Ginásio Augusto de Carvalho, mas constituiu família e teve que deixar os estudos. Disse que trabalhou com afinco  e pintou muito nos anos 80 e 90 para sustentar a mulher e filha, e que sua esposa Maria Gorete foi e ainda é uma grande incentivadora do seu trabalho plástico. Agora, já maduro, voltou a estudar e concluiu o curso ginasial. Sua arte foi se desenvolvendo através de leitura e com o surgimento das redes sociais confessa que passou a tomar conhecimento de outros estilos e conhecer a produção de artistas importantes.

Quatro obras abstratas criadas em 2020
usando tinta acrílica sobre telas.
 Sem patrocínio, sem orientação e sem uma galeria para expor suas obras  e lhe representar  Luciano Rosa e centenas de artistas desde país afora lutam com muitas dificuldades para continuar se expressando. Muitos ficam pelo meio do caminho e abraçam outra atividade diante da necessidade de sobrevivência, mas tem outros teimosos que continuam a pintar paralelamente às outras atividades que exercem, e uns poucos persistem só pintando e terminam vencendo como é o caso do Luciano Rosa. Para completar seu portfólio ele passou também a fazer retratos e aprimorou sua técnica pintando em óleo sobre tela. 
Disse que a tinta a óleo lhe permite detalhar mais os rostos das pessoas quando pinta e também é excelente para fazer o sombreamento através do esfumado ou esfumar que “é uma técnica artística que consiste em suavizar contornos, misturar cores ou transições de tons, eliminando marcas de pinceladas para criar um efeito difuso, nebuloso ou de sombra. O objetivo é fazer com que as linhas desapareçam gradualmente, assemelhando-se a fumaça, gerando profundidade e suavidade na obra." Ele também disse que ao fazer retratos de pessoas cria  fundos que combinem com os personagens que estão sendo retratados. Demora mais de duas semanas para concluir um retrato e é exigente com o resultado. Também costuma pintar suas obras com motivos geométricos usando tinta óleo ou acrílica sobre tela ,e outro detalhe é que  fabrica as telas que utiliza para pintar, procurando desta forma baratear os seus custos de produção.

                           TRAJETÓRIA

Vemos uma bela natureza-morta com 
equilíbrio de formas e cores.
Como prova de sua saga em continuar se expressando Luciano Rosa está expondo trinta e uma  obras no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista, que ora é palco da VI Conferência Municipal de Cultura da cidade. São obras com composições geométricas, e o artista chegou a este estilo depois de pintar paisagens rurais e urbanas. Atualmente  utiliza uma paleta de cores variadas  que trazem no seu conteúdo imagens plásticas bem resolvidas. Ao seu lado está expondo a artista Elaine Porto que trabalha com a arte têxtil contemporânea e  macramê artístico, que é uma técnica de tecelagem manual que utiliza nós e trançados para criar peças decorativas, sem o uso de agulhas ou máquinas. De origem turca (significando "franja" ou "trama"), é ideal para painéis, suportes de plantas e acessórios, utilizando barbantes de algodão e bases como madeira.”

O artista Luciano Rosa gosta de pintar figuras femininas, natureza-morta, retratos, animais, objetos variados e atualmente está expondo e continua pintando obras geométricas e abstratas.  Falou que as obras geométricas são concebidas depois de um  esboço numa folha de papel usando compasso, régua e até lápis de cor. Em seguida é que vai para a tela esboçar o trabalho e finalmente pintar escolhendo as cores. Por exemplo, recentemente  viu uns peixes num lago na Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, e aquilo ficou em sua mente. Quando sentou para trabalhar lembrou das carpas que tinha visto na praça e já pintou várias telas com esta temática  colocando peixes entre elementos geométricos. Portanto, os peixes da praça serviram apenas de ponto de partida, de um start  para pintar uma série de obras dentro de suas características como pintor.

Na História da Arte encontramos importantes pintores que partiram da arte geométrica e abraçaram as correntes de arte do cubismo, Construtivismo e o Neoplasticismo. Coube a Pablo Picasso e Georges Braque no século passado a criação do cubismo com a geometrização das formas, fragmentação de objetos. O Construtivismo surgiu na Rússia entre os anos 1913 a 15, portanto antes da Revolução Comunista de 1917, como um movimento de vanguarda nas artes
Nesta obra Mulata  simbiose entre figurativo
 e o construtivismo
.
plásticas e na arquitetura com os artistas Vladimir Tatlin e Alexander Rodchenko. Finalmente o Neoplasticismo movimento vanguardista europeu do início do século XX, fundado por Piet Mondrian, que defendia a abstração geométrica pura. Já o Luciano Rosa pratica um estilo misturando intuitivamente as formas geométricas e usando uma paleta dentro do seu gosto pessoal e das informações que consegue captar como bom observador que é. Não trabalha com o rigor dessas correntes da arte contemporânea, mas consegue se expressar e se comunicar com certa facilidade.

Disse por ser evangélico , gosta das músicas gospel e se deparou na internet com as músicas da cantora americana Mahalia Jackson. Ela começou sua carreira cantando em corais gospel nas igrejas  em 1937. Quando completou vinte e seis anos gravou seu primeiro LP. Ela faleceu em 1972 aos sessenta anos de idade. Agora o artista está debruçado pintando um retrato da cantora através uma fotografia que encontrou nas redes sociais e pretende que seja o mais fiel possível. Acha que vai trabalhar por cerca de um mês neste novo retrato, isto porque desenha e depois vai aos poucos delineando os traços do retratado com paciência e busca da perfeição.

Luciano está expondo trinta e uma obras.
Consta no seu currículo apenas duas exposições em espaços públicos sendo a primeira em 2025 na Casa Memorial Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, Bahia, que deu o nome de Resiliência quando expôs trinta obras abordando os temas que continua até hoje. Disse que deu este nome Resiliência “É uma trajetória muito difícil. Tem horas que você corre atrás de uma coisa, corre atrás de outra. No mundo das artes plásticas, é bem difícil você ter um local para expor quando ainda não alcançou o reconhecimento. Por isso, eu agradeço a cessão desse espaço, a oportunidade e a valorização dos artistas. A Resiliência vem de lá do meu ateliê até aqui, de transportar os trabalhos, ter alguém para ajudar, ter cuidado com as obras.” Agora está expondo no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, também em Vitória da Conquista, juntamente com sua colega Elaine Porto que denominaram de Diálogos Geométricos Entre Cordas e Traços. Enquanto Luciano apresenta trinta e uma  obras usando elementos geométricos, abstratos e retratos a Elaine Porto nos mostra obras de Fiber Art utilizando fios de algodão, palha e outras fibras naturais para criar relevos.


sábado, 2 de maio de 2026

DAVI BERNARDO UNE LINGUAGEM ESCRITA COM A VISUAL

O artista Davi Bernardo trabalhando
em nova obra no seu ateliê.

O artista plástico Davi Bernardo Artista plástico, escritor, Mestre em Artes Visuais participou de quatro edições da Bienal do Recôncavo – de 1998 a 2004. Foi premiado no Salão de Arte Contemporânea do Consulado da Holanda em 2003. É um leitor compulsivo que encontrou uma forma de se expressar entrelaçando a linguagem escrita com a visual. “Sempre li muito e a palavra entra com naturalidade e frequência em meus trabalhos plásticos às vezes com textos escritos por mim ou de outros autores”, afirmou o artista durante nossa conversa. Tudo isto acontece porque gosta de experimentar criando formas de se expressar utilizando os mais diversos materiais e objetos que lhes chegam às mãos. Algumas vezes parte para o mundo mágico da invenção e surgem até palavras que ainda não estão no dicionário oficial e que talvez nunca estarão. É graduado em Artes Plásticas na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e  concluiu seu curso em etapas . Decidiu estudar para concurso, sendo aprovado e começou trabalhar como funcionário público. Porém, desde a infância que a arte exerce um certo fascínio em sua vida, desenhava e pintava copiando figuras de revistas. Disse que ficava esperando a Revista Manchete sair, porque teve um período que publicava semanalmente uma reportagem sobre os grandes nomes da arte universal e também de artistas brasileiros. O dono da revista Adolpho Bloch morava no Rio de Janeiro era um colecionador e incentivador   importante das artes na sua época.

Obra s/ título , acrílica sobre tela,
de 1994.


Já no ano de 2002 iniciou uma série de trabalhos que denominou de Pinturas Maximalistas, embora nem todos os apresentados eram propriamente pinturas. O artista Davi Bernardo expôs suas pinturas e também objetos pessoais que ele se apropriou como roupas e cartas, dentre outros e construiu seu discurso criativo somando o elemento gráfico, ou seja, inserindo a linguagem visual ao lado de textos tratando de suas opiniões sobre o processo criativo contemporâneo. Tinha ali uma conexão biográfica com o artista como estivesse apresentando um diário particular. Esses princípios os acompanham até hoje unindo as linguagens verbal e visual, tornando-se única.” Para acentuar o caráter inusitado e abstrato, os textos / imagens, às vezes, são escritos / desenhados de cabeça para baixo ou na lateral”. O artista brinca com as linguagens como num jogo de armar. 
Divide seu ateliê com seu amigo artista e também colega de trabalho Josemar Antonio este em Dreams Work / Work Dreams revelou utilizar uma técnica de sobreposição, saturação e distorção das imagens, que são capturas no dia a dia das pessoas à beira das estradas brasileiras.

Contato com a Literatura

Seu nome de batismo é Davi Bernardo Ribeiro Machado e nasceu em vinte de agosto de 1962 no Hospital Santa Izabel no final de linha do bairro de Nazaré em Salvador. A família morava no bairro do Barbalho e ele é o quarto de cinco filhos. Seu pai o Jornalista e professor de Filosofia e Ética da Universidade Católica de Salvador, Germano Dias Machado dirigiu durante muitos anos o Jornal A Semana, na Arquidiocese de Salvador, que funcionava na Praça da Sé. O Davi Bernardo gosta de escrever e já publicou um livro de contos intitulado "Depois Terei de Falar

Esta obra de Davi Bernardo leva o
espectador a imaginar os rostos  da figuras.


em Voz Alta", e também ilustrou o livro de seu irmão Paulo Emanuel Machado que tem o título "Você Não Pode ser o Oceano". 
Seu pai além de professor tinha um grupo de pessoas que escrevia poesias, contos e romances e ele cuidava desta parte de edição. Portanto, o Davi Bernardo nasceu e cresceu no mundo da Literatura. Sua mãe d. Miriam Ribeiro Machado era professora de Geografia na Escola Técnica Federal e no Colégio Estadual Duque de Caxias. Davi e seus irmãos cresceram neste ambiente onde a leitura era uma presença obrigatória. Disse que se transformou num leitor compulsivo e isto o tem ajudado e muito em suas incursões pelo mundo das artes visuais.

Fez o curso primário na Escola Getúlio Vargas, que pertencia ao complexo educacional do ICEIA - Instituto Central Estadual Isaias Alves, no bairro do Barbalho,  e em 1973 parte do ginásio no Colégio de Aplicação da UCSAL, que funcionava no Convento da Palma, Largo da Palma, ambos em Salvador. Lembrou quando estudava lá com seus 

Arara de alumínio, roupas, tinta p/
tecido e cabides. As peças estão 
endurecidas com cola branca .
Na exposição os visitantes
 podiam manusear.
.
irmãos foram feitas as filmagens de Dona Flor e Seus Dois Maridos, na casa de número 12, e que eles subiam as escadas da torre da capela e ficavam vendo os atores e técnicos naquele movimento das filmagens. Ficou um ano tomando uma banca da professora Claudemira, (não se recorda o sobrenome da mestra) que era muito conceituada, no bairro da Saúde, se preparando para ir para a Escola Técnica Federal onde fez o ano básico e depois o primeiro ano de Edificações. Foi transferiu para o Colégio Duque de Caxias, no bairro da Liberdade, onde sua mãe era professora de Geografia e foi ser aluno dela. Contou que é muito complicado ser aluno da mãe porque tem que ser o mais bem comportado, o melhor aluno. E pior que os colegas ficam fazendo bullying dizendo que era protegido e que passava porque a professora era sua mãe. Teve uma hepatite forte e foi obrigado a parar por uns tempos e logo depois  fez vestibular para Arquitetura, mas  não foi aprovado. Então resolveu em 1981 fazer para Administração, na UCSAL ,foi aprovado, e se graduou em 1985. 

Porém, a arte lhe acompanhava desde os anos 70 e lembrou que em 1975 a Revista Manchete publicou uma reportagem sobre Paul Cézanne. O artista  nasceu em Aix-en-ProvenceProvença, e morreu 19 de janeiro de 1839 em sua cidade natal em 22 de outubro de 1906. Foi um pintor pós-impressionista francês, “cujo trabalho forneceu as bases da transição das concepções do fazer artístico do século XIX para a arte radicalmente inovadora do século XX”. Ficou encantado com a vida do artista francês e com suas paisagens quase abstratas e decidiu que iria fazer vestibular para a Escola de Belas Artes. Prestou o vestibular e  foi aprovado e neste momento não cursou. Formado em Administração começou a procurar emprego e não encontrava ocasião em que seu pai Germano Machado sugeriu que procurasse emprego no campo das artes gráficas. Conseguiu o emprego desejado e trabalhou no bairro de Pernambués num escritório de publicidade que ficava junto a uma gráfica . O escritório pertencia a dois jovens que na época trabalhavam no jornal da Tribuna da Bahia. Lembrou que  um deles era o Jorge Pugas, da J & A Produções Gráficas , o outro chamava-se Marcos, mas não conseguiu lembrar do sobrenome. Eles arranjavam os serviços e Davi Bernardo fazia a arte final para publicação. Enquanto isto estudava para concurso até que foi aprovado para a Receita Federal e continua até hoje. Retornou à Escola de Belas Artes  concluiu a graduação e fez a partir 

Durante suas viagens costuma
levar um caderno p/ desenhar.
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de 2011 o Mestrado sendo orientadora a professora e artista Sônia Rangel com a tese Narrativas do Cotidiano - Numa Poética da Palavra - Imagem Objeto. Sendo um leitor compulsivo desde criança  lia as Enciclopédia Ilustrada e a palavra sempre entrou em seus trabalhos visuais. Primeiro os rabiscos como elemento visual e imaginava que era um texto, mas não era. Posteriormente vieram os textos de escritores e poetas consagrados como Fernando Pessoa e mesmo de sua autoria. Portanto, tinha aquela preocupação constante da palavra e da imagem. 
Declarou que sempre teve uma certa dificuldade em se manter num estilo determinado. Tem artista que passa o tempo inteiro com mesmo estilo. Lembrou de Piet Mondrian (1872-1944) artista holandês que surgiu no movimento modernista europeu no início do século XX. Ele procurava refletir sobre as leis matemáticas e abraçou a corrente de arte neoplasticismo e se destacou também nas artes gráficas e na arquitetura. Ele também limitou seu vocabulário formal às três cores primárias o vermelho, azul e amarelo, aos três valores primários preto, branco e cinza, e às duas direções primárias a horizontal e vertical, e pintava com variações dessas cores e a posição dos elementos geométricos.

"Estimulando Sentimentos
Amistosos", serigrafia  sobre
a página de  livro antigo, 2020
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 Também Alfredo Volpi que  nasceu em Lucca, na Itália, em 14 de abril de 1896 e faleceu em São Paulo no dia 28 de maio de 1988.Foi um pintor ítalo-brasileiro considerado pela crítica como um dos artistas mais importantes modernos com o legado consagrado e complexo, começou sua carreira pintando paisagens, marinhas e personagens e depois se fixou nas bandeirolas. O Volpi ficou famoso conservando a estrutura das bandeirinhas e mudando as cores. 
Já o Davi Bernardo, guardando as proporções, é claro, se vê como um experimentador gosta de aprender com os materiais usando várias técnicas. Quando conhece um material tipo barro para cerâmica fica fascinado para fazer trabalhos relacionados, depois vira para a gravura, volta para a cerâmica. 
Confessou que tinha uma angústia para ter um estilo próprio até quando a artista e professora Sônia Rangel sua orientadora no Mestrado disse que ele “tinha princípios que lhes norteiam”. Um desses princípios é o hibridismo, ou seja, de misturar técnicas diferentes. Assim a professora o tranquilizou, passou a misturar estilos, imagens e usar materiais diversos num mesmo trabalho. Continuou colocando uma pintura ao lado uma fotografia, etc. 
Fez algumas instalações, que entende como " um trabalho complexo, e disse que   que tudo que produz tem uma relação com a Literatura. A imagem nasce de um texto, e citou o escritor italiano Ítalo Calvino. Os pais de Ítalo Calvino foram Mario Calvino e Eva Mameli Calvino, ambos cientistas italianos. Eles estavam temporariamente em Cuba, onde Calvino nasceu em 1923, antes de retornarem à Itália pouco tempo depois.  Veio a  falecer na Itália aos sessenta e um anos de idade em 1985. Durante sua existência foi jornalista e escritor, autor de vários livros. Ítalo Calvino “abordou a imagem como um elemento central para a construção da narrativa, a imaginação e a percepção do mundo. Explorou o visual tanto na literatura quanto na fotografia e cinema, destacando a imagem como um início poético, um mapa conceitual e um meio de tornar visível o invisível, buscando o equilíbrio entre a leveza da descrição e a profundidade filosófica.” Wikipedia. 

Obra inspirada na frase de Henry Matisse sobre
como queria que sua arte fosse vista.
Disse que geralmente suas ideias para as artes visuais nascem de um texto porque sua cabeça parece situar-se na Literatura. Fez uma exposição em 2011, na Galeria Cañizares, na EBA, que chamou de blz _ etc. a exemplo de jogos dos Sete Erros sendo cada palavra iniciava com uma letra do alfabeto na ordem de A a Z.  Começando as palavras com as vinte a seis letras do alfabeto. Estão aí inclusas entre as palavras estranhas sete inventadas, inexistentes no dicionário oficial. Como são todas difíceis, muita gente não sabia o significado e consultava o dicionário. Ainda tinha umas pegadinhas da palavra parecer significar uma coisa e na realidade era outra. Só que algumas delas não estão e talvez nunca estarão no dicionário oficial. Geralmente tudo surge de um texto que estou lendo, de uma provocação. 

Também realizou  uma exposição em 2015 com mais três pessoas através um projeto do Banco Capital no EBEC. Na época estava lendo uma biografia de Henry Matisse chamado Notas de Um Pintor, de 1908, lembrou de uma frase que ficou em sua cabeça: Eu sonho com uma arte de equilíbrio, de pureza e de serenidade, sem temas inquietantes ou deprimentes, uma arte que possa ser, para qualquer trabalhador cerebral, seja ele um homem de negócios ou um homem de letras, algo como uma poltrona reconfortante onde ele possa relaxar do seu cansaço físico". Então Davi Bernardo criou uma série de obras inspirada nesta frase. Pintou poltronas, cadeiras e dividiu os quadros em dois, e também colocou textos invertidos e de lado  para provocar as pessoas a olhar com mais cuidado.

Detalhe do políptico da Alegria de
Viver,resina poliester,papel e nanquim,
 de 2016 da série  Pinturas Maximalistas.
Depois enviou um projeto para a Caixa Cultural em 2016 “ eu me jogo, não fico esperando”. O edital estava escrito que se aprovado tinha que ter uma curadora e  produtora. Escolhi Matilde Matos e sua filha Claudine Toulier e dei o nome de Pinturas Maximalistas. Aí começou a trabalhar com resina colocando em camisetas. Fazia os desenhos e as pinturas nas camisetas que conseguia com parentes e amigos. Depois de desenhar e pintar jogava a resina e ficava num cabide. A resina cria  volume e conseguiu comercializar algumas delas. Colocou também uma arara e pendurou várias camisetas, essas com uma cola para engomar e ficar durinhas. As pessoas manuseavam durante a exposição.

Falou da criação de uma instalação. Acha que “a imagem nasce de um texto e este sempre é o meu caminho.”  Foi assim que em 2019 assumiu seu lado de escritor e lançou um livro de contos com o título “Depois Terei de Falar em Voz Alta”, onde revisita as vivências entre os séculos  XX e XXI falando de dores, incertezas, preconceitos e soluções. Aqui ao contrário ele constrói imagens com seus textos bem elaborados ,uma nova forma de desenhar com a escrita. Os contos em número de doze todos tem nomes de mulheres Ana Teresa, Aparecida, Aurélia, Madame Carlota, Carolina, Conça e Mariinha, Dani, Leô, Lourdes, Maria, Mariah e Roberta. Continua escrevendo e publicando em revistas online como a Subtexto e a Quarup.

EXPOSIÇÕES

Exposição Colcha de Retalhos no
MAC com Josemar Antonio.
Realizou em 2006 a exposição individual Pinturas Maximalistas&quot, na Caixa Cultural, Salvador-Ba onde pesquisou os limites entre pintura e objeto. Em 2008 participou da coletiva, Experimento 01 - Subsolo, no MAM-BA. Foi selecionado para os Salões Regionais de Valença (2009) Feira de Santana e Jequié (2010) e Alagoinhas (2011). Em 2010 iniciou Mestrado em Artes Visuais na EBA/UFBA, sob orientação da professora Sonia Rangel, que redundou na exposição individual , blz_etc, em 2011. Com os artistas Tanile Maria e Josemar Antônio formou o grupo Úbere, de estudos, discussões e experimentações em arte contemporânea.

EXPOSIÇÕES - Individuais - Em 2011 - “blz_etc”, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2006​ - “Pinturas Maximalistas”, Centro Cultural da Caixa Econômica, Salvador-BA.

Coletivas - Em 2016 - Máximo Divisor Comum, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2014 -  Para Levar a Algum Lugar, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2013 -  Dizer, Diga, com a artista Tanile Maria, Galeria ACBEU, Salvador-BA;  Circuito das Artes, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2012-  Circuito das Artes , Museu Carlos Costa Pinto, Salvador-BA; “Atelier Coletivo VISIO”, na Sala de Arte Cinema da Universidade Federal da Bahia. 2011 - Salão de Artes Visuais da Bahia  Centro Cultural de Alagoinhas, Alagoinhas-BA; Projeto Coletivo “Entre Folhas”, concepção e coordenação geral de Viga Gordilho,

Davi Bernardo gosta de dividir o suporte de
tela, madeira ou papel em espaços onde 
exerce  a sua criatividade.

projeto expográfico de Eriel Araujo e curadoria de Ayrson Heráclito, Galeria Cañizares. 2010 - Projeto Coletivo “Entre Folhas”, concepção e coordenação geral de Viga Gordilho, projeto expográfico de Eriel Araujo e curadoria de Ayrson Heráclito, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA. Projeto Acción Arte Itinerante LatinoAmérico; Espaço de Arte, No Lugar, Quito-Equador, Centro Arte y Culturas Bolivianas, La Paz-Bolívia, La Casita Colectiva, Mendoza-Argentina, La Fábrica, Córdoba-Argentina e Café, Cultura e Artes, Salvador-BA. “Panorama 2010”, com o grupo Úbere, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana-BA. “Desloque-se”, com o grupo Úbere, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana-BA; Salão de Artes Visuais da Bahia - 2010, Feira de Santana e Jequié-BA. 2009 - “Panorama 2009”, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana-BA, Salão de Artes Visuais da Bahia - 2009, Centro Cultural de Valença, Valença-BA . 2008 - “GRAVURA: Influências na Nova Geração”, Goethe Institut – ICBA, Salvador-BA. “Colcha de Retalhos e Outras Lembranças”, com Josemar Antonio, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana-BA. “Experimento_01 – Subsolo”, MAM, Salvador-BA.  2007 ​- “Novas expressões da gravura”, Goethe Institut – ICBA, Salvador/BA. 2005 -  Salão de Artes Visuais da Bahia , Feira de Santana-BA.  Salão de Artes Visuais da Bahia - 2005, Porto Seguro-BA. 2004 - VII Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA. 2002 -  VI Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA.

Natureza morta feita de
 bordado. Davi é um
experimentador de 
várias  técnicas e estilos.
​                    Prêmios

“A Holanda no Olhar do Artista Brasileiro”, Consulado da Holanda – Salvador-BA - Dez / 2003, terceiro colocado. “Projeto de Cultura e Arte do Banco Capital 2005”, Galeria do EBEC – Salvador-BA - Out/2005, Artista Revelação. “Salão de Artes Visuais da Escola de Administração do Exército 2005”, Escola de Administração do Exército – Salvador-BA – nov./2005, terceiro colocado. Edital “Prêmio Matilde Matos” - FUNCEB - Edital de Apoio a Montagem de Exposição no Estado da Bahia – 2007, MAC – Feira de Santana -BA - abr./2008.

APRECIAÇÃO

Texto para a exposição individual “blz_etc”, Galeria Cañizares, Salvador-BA, em 2011. “" num jeito enciclopédico de colecionar, Davi Bernardo recolhe seus objetos e produz seus próprios textos num devir de acasos e recordações, para que o mundo continue a existir, agora obra de arte sua, reinventado mundo desfolhado em suas mil páginas de intimidade e estranhamento, como se reencenasse um prazer de infância de enciclopédias e livros de arte adivinhados mais que lidos na biblioteca dos pais.

Obra de uma camiseta usada de
suporte de texto e imagem
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Seu dicionário faz duvidar dos dicionários, seu texto-imagem brinca tanto com a fixação das palavras quanto com a flutuação da experiência do mundo. Meio às cegas, apalpamos com os olhos sua escrita-imagem, às vezes a metal, às vezes a tinta, às vezes a fogo - foi feita para durar - por certo estas matérias durarão mais que nós. Sensação contrária, também persistente é essa instabilidade, lugar onde o artista nos coloca, pois qualquer que seja a sua escolha: cadeira, porta, chaveiro, moldura, gaveta, parede, canto de sala, fotografia, como espaço suporte da obra ou superfície em forma ambígua, o que ecoa é esse jogo de narrativas superpostas em texto-imagem que se conta em nós na busca de decifrar o que quer nos contar. Grande parte da leitura da obra são lacunas. Em fragmentos, vazios, faltas, nos surpreendemos a investigar a ressonância de nossas próprias memórias, reconhecidas e estranhadas em objetos familiares ou palavras inventadas, por isso esse provocativo distúrbio entre ver e ler aqui persiste como qualidade essencial da obra. &quot .” Sonia Rangel -Artista Visual e Cênica