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sábado, 28 de fevereiro de 2026

NORMA COUTO E A EXCELÊNCIA NA ARTE DA CERÂMICA ARTÍSTICA

Ceramista Norma Couto com pastas
  e catálogos de sua  trajetória.
A artista piauiense Norma Couto, nascida em  Parnaíba, no delta do rio do mesmo nome está radicada em Salvador desde 1965 quando veio estudar na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia concluindo os cursos de Artes Plásticas e depois  Licenciatura em Desenho e Plástica. Porém, a cerâmica o atraiu ao frequentar as aulas e o ateliê do professor Udo Knoff,  no bairro de Brotas. Em 1979 vai para Portugal onde se especializa em cerâmica na Universidade da cidade de Aveiro. Concluiu seu Mestrado em Artes com o tema Forma e Natureza e participou de bienais, exposições aqui e no exterior. Foi premiada quatro vezes sendo a mais importante de 1996 na Categoria Cerâmica Artística, no 40º Congresso Brasileiro de Cerâmica em Criciúma, no estado de Santa Catarina.  Relembrou que fez o curso primário na Escola Santo Antônio que pertencia a um casal de maranhenses que se estabeleceu na cidade de Parnaíba, no Piauí, onde nasceu em três de outubro de 1945 e morava com seus pais que a matricularam quando atingiu a idade de ir para a escola. Disse que a professora d. Maria Celeste de Jesus era educadíssima, acredita que tenha estudado em escolas de freiras. O curso ginasial foi estudar no antigo Ginásio Parnaibano, que era particular e quando seu pai passou a ser o diretor conseguiu estadualizar e passou a se chamar de Colégio Estadual Lima Rebelo, que foi o criador da instituição.  Fundado em 11 de junho de 1927 como Ginásio Parnaibano, é uma das instituições mais tradicionais do estado do Piauí, sendo a primeira instituição a oferecer ensino médio na região. Idealizado por José Pires de Lima Rebelo, mudou-se para sua atual sede em 1959 e hoje atua como CETI Lima Rebelo, com ensino em tempo integral.

Esta obra mostra a Amazônia sendo devastada 
e foi exposta numa estação do metrô
em São Paulo.
Seu pai José de Lima Couto era professor e costumava dizer que consideravam o Piauí como “o patinho feio porque tinha muitos analfabetos. "Meu pai veio a este mundo para se dedicar à educação”, afirmou Norma Couto. Como diretor do Ginásio Parnaibano ele já conseguira transformar em estadual passando a se chamar Ginásio Estadual Lima Rebelo. Em seguida através sua amizade com um ex-aluno o político Chagas Rodrigues com quem disse ter feito um pacto para  a criação do curso colegial. Seu pai era educador e não político, mas fez um acordo, se o político prometesse transformar o ginásio em colégio ele subiria no palanque com ele apoiando a sua candidatura a deputado federal. Também seu pai conseguiu posteriormente  com o governador Petrônio Portela outro imóvel, instalaram a Escola Normal e inovaram criando juntamente  os cursos primário e ginasial. Assim a menina entrava no primário, fazia o ginasial e o curso Normal. Desta maneira formou centenas de professoras primárias que contribuíram em muito para na época aumentar o nível de escolarização na região do Parnaíba. A artista Norma Couto foi uma das jovens que concluiu o curso 
Três belas obras criadas pela artista em 1989.
Normal na Escola Francisco Correia. Ao se formar recebeu um convite para ensinar na escolinha do SESI do professor Benedicto Jonas Correia, amigo de seu pai. “Como meu pai sempre me via desenhando e interessada em arte agradeceu e disse que eu iria para Salvador estudar na Escola de Belas Artes”, contou Norma Couto. Lembrou ainda que seu tio,  irmão de seu pai era um bom desenhista e pintor e foi ele quem pintou o pano de boca do Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, do Maranhão. O pano de boca do Teatro Arthur Azevedo, localizado no centro histórico de São Luís (MA), é um elemento imponente que faz parte de um dos teatros mais antigos do Brasil, inaugurado em 1817. Antes o pano de boca, que é a cortina principal na frente do palco, era movido manualmente, atualmente é automática e pesa quase uma tonelada.

Seu pai também dava aulas de Inglês e como na época não existiam aparelhos audiovisuais para projetar slides para ajudar a ministrar suas aulas ele costumava fazer desenhos de passarinhos e outros animais e objetos representando as palavras para melhor compreensão dos seus alunos. Já sua mãe vinha de uma família de artesãos. A jovem Norma Couto chegou em Salvador no ano de 1965 com apenas dezenove anos. Fez vestibular para Artes Plásticas ao concluir fez dois anos para

Norma Couto trabalhando numa pintura feita em 
pastel seco e lápis.
Licenciatura. Foi trabalhar em 1971 como diagramadora do jornal Tribuna da Bahia permanecendo durante dois anos. Lembra que naquela época ,uma coisa que a incomodava. Nós jornalistas fumávamos muito e as roupas ficavam com forte cheiro de fumaça. Eu mesmo fumava quase duas carteiras de Holywood  diariamente. 
Como já estava formada soube que estavam abertas as inscrições na Escola de Belas Artes da UFBA para ministrar aulas de Desenho e Escultura. Ela se inscreveu em Desenho, passou e foi ensinar Desenho III que era de observação e depois Desenho IV que era de percepção visual, como os alunos enxergam o mundo. Seus alunos eram estudantes de Engenharia Civil, Arquitetura e de Belas Artes, dentre outros cursos.

Casou em 1976 com o professor de Oceanografia português Jorge Falcão Paredes que ensinava no curso de pós-graduação Universidade de São Paulo-USP e depois veio trabalhar no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento - CEPED e  também ensinou um período no Instituto de Geociências, da UFBA. Enquanto isto Norma Couto continuava ensinando e passou a ajudar o professor Udo Knoff em suas aulas e quando a esposa do professor d. Hortênsia, que era seu braço direito no ateliê  faleceu ela passou também a frequentar o seu estúdio em Brotas. Foi aí que o

A artista Norma Couto mostra alguns
azulejos pintados por ela.
Jorge Paredes  fez contato com um professor do Departamento de Engenharia Cerâmica da Universidade de Aveiro,em Portugal para ela estudar lá. Norma Couto foi  e depois para Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde juntamente com o esposo ficaram um ano por lá. Ela conseguiu uma bolsa da CAPES. Tinha como seu orientador intelectual o professor Eduardo Calvet de Magalhães, que gostava muito dos brasileiros. Ele era muito amigo do cônsul brasileiro casado com a senhora Beatriz  Mello Franco que era ceramista. Com essas amizades conheceu muitas fábricas de cerâmicas em Portugal, inclusive conseguiam barro de qualidade para trabalhar. 
Entre as  que visitaram destacou a Fábrica Cerâmica  do  Carvalhinho  que  se notabilizou na produção de réplicas de azulejos seiscentistas e setecentistas e  foi fundada em 13 de Novembro de 1841 por Tomás Nunes da Cunha e António Monteiro Cantarino.
Quando voltou o MEC tinha baixado uma portaria  determinando  que os professores auxiliares deveriam se qualificar melhor fazendo Mestrado e Doutorado alegando que tinham muitos auxiliares nos quadros das universidades brasileiras  Foi quando Norma Couto e outros professores resolveram se requalificar e alguns deixaram a universidade. Passou três anos fora da universidade cuidando da sua única filha. Em 1982 aconteceu outro concurso público criado pelo reitor Luiz Fernando Macedo Costa com muitas vagas foi quando Norma Couto, José Dirson Argollo , Iza Guimarães e Malie Kung Matsuda fizeram o concurso e foram aprovados.. "Fomos contratados em março de 1983 e passei a ensinar cerâmica. "Na época cerâmica era apenas um semestre e percebi que era um período muito curto dada a sua complexidade . Consegui mais um semestre só que era dedicado apenas para o Curso de Decoração, começou assim",  revelou Norma Couto. Depois passou a ser matéria eletiva para qualquer curso. Tinha alunos de Odontologia, Biologia, Belas Artes. Além dela ensinavam Udo Knoff e Antônio Pinho, os dois vieram a falecer, e os atuais professores são Conceição Fernandes e Eriel de Araújo Santos  foram meus alunos.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAISEm 2006 - Pratos Defumados, Restaurante Confraria das Ostras, Salvador - BA.  1999 - Forma e Natureza, Porto das barcas, Parnaíba - PI. 1999 - Forma e Natureza, Casa da Cultura da Fundação Monsenhor Chaves, Teresina - PI. 1995 - Forma e Natureza, produção de cerâmicas do mestrado em Artes (MAE), Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, Salvador- BA. Ao lado Norma Couto junto a um cartaz de sua exposição Forma e Natureza na individual no Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, que ocupou três andares, em 1995, com grande presença de público.

EXPOSIÇÕES COLETIVASEm 2025 - Docentes em Pauta, Galeria Cañizares, Salvador – BA. 2023 - Independência do Brasil na Bahia, exposição de artes plásticas em homenagem ao Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia, Galeria Cañizares, Salvador - BA. 2023 - A Gravura na Bahia a partir da EBA/UFBa, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2022 - Exposição Flores, Palacete das Artes, Salvador-BA. 2019 - Um Brinde ao Café II, exposição de Bules, Cafelier, Salvador-BA. 2018 - Fluxos Visuais - EBA 140 anos desde 1877, Palacete das Artes, Salvador-BA. 2008 - A Arte Cerâmica /Amazônia, Estação São Bento do Metrô de São Paulo, São Paulo - SP. 2007 - Mulheres em Movimento, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 2003 - Artes Visuais da Bahia, Gabinete Português de Leitura, Salvador-BA. 2002 - O Salvador Menino II, Fundação João Fernandes da Cunha, Salvador-BA. 2001 - O Salvador Menino, Museu Náutico da Bahia, Salvador-BA; Exposição Comemorativa aos 500 anos do Descobrimento da Baía de Todos os Santos, Teatro Gregório de Matos, Salvador-BA. 1997 - A Arte e seus Mestres - Exposição de professores e ex-professores da EBA / UFBa em comemoração aos 120 anos de sua fundação – Galeria Cañizares, Salvador-BA; Salão Nacional de Arte do Professor (acervo permanente), Espaço Cultural Sofia Olszewski Filha - APUB -Associação dos Professores da UFBa, Salvador-BA; Um Brinde ao Café – Exposição de Xícaras, Cafelier, Salvador-BA. 1995 - Arte no Barra, Shopping Barra, Salvador-BA. 1993 - Arte no Barra, Shopping Barra, Salvador- BA; Esculturas e Objetos dos Mestrandos em Artes Plásticas da EBA/UFBa, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 1992 -Sentindo a Forma - Exposição de Esculturas, Galeria Cañizares, Salvador-BA. 1991 -

Capa do Catálogo da Bienal em Zagreb
Iugoslávia  de cerâmica em pequeno
formato  que ela participou.
Exposição de Cerâmicas de Associados da ABAC - Associação Baiana de Arte Cerâmica, Casa do Comércio, Salvador-BA. 1989 - 1ª Mostra de Arte Cerâmica Artística da Bahia dos Associados da ABAC, Galeria de Arte do Sesc / Senac / Copel, Salvador-BA; Arte / Mostra, Shopping Barra, Salvador-BA. 1985 - Exposição Cerâmicas e Tecelagens (com a artista Lísia Rocha), Theatro 4 de setembro, Teresina-PI. 1983 - 1ª Expo Verão, Hotel Othon, Salvador-BA. 1967 - 1ª Exposição Feminina de Artes Plásticas da Bahia, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. BIENAIS - 2005 - VII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, Aveiro - Portugal. 1991 - III Bienal Mundial de Cerâmica Pequena, Zagreb - Iugoslávia (Zagreb foi parte integrante da Iugoslávia de 1929 até sua dissolução em junho de 1991, servindo como uma das principais cidades e capital da República Socialista da Croácia dentro da Federação; III Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, Aveiro - Portugal. 1989 - I Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, Aveiro - Portugal. 1968 - II Bienal Nacional de Artes Plásticas, Convento da Lapa, Salvador-BA. 

PREMIAÇÕES - 1996 - Troféu Gaia pelo melhor trabalho “Forma e Natureza”
apresentado na categoria Cerâmica Artística no 40º Congresso Brasileiro de Cerâmica e 1º do Mercosul, Criciúma-SC.  1993 – 3º Prêmio na categoria escultura no IX Salão de Artes Plástica de São Cristóvão-SE. 1970 – 1º Prêmio de gravura no concurso para decoração dos Institutos de Matemática e Geociências da UFBa, Salvador-BA. 1967- 1º Prêmio de gravura na exposição “90 Anos da Escola de Belas Artes da UFBa”, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. Acima Norma Couto recebendo seu prêmio durante o 40º Congresso Brasileiro de Cerâmica e 1º Mercosul em Criciúma, em Santa Catarina em 1993.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

UM MERGULHO NA OBRA E TRAJETÓRIA DE EDGARD OLIVA

O artista Edgard Oliva trabalhando no seu
ateliê em Itaquara, interior da Bahia.
O professor de fotografia da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, Edgard Oliva é um artista multimídia que gravita, em torno do desenho, da pintura,  escultura,  fotografia e também realiza vídeos com conteúdos criativos e impactantes. Já realizou inúmeras exposições individuais e coletivas de pinturas, fotografias, vídeos  e até instalações, inclusive no exterior.  Fez o mestrado na UFBA e o doutorado na Escola de Belas Artes da UFRJ ambos  em  Poéticas Visuais. Com o passar do tempo a pintura foi perdendo espaço em sua caminhada e a fotografia passou a ser sua atividade de maior interesse. Atualmente está empenhado em retornar ao desenho e à pintura, sem abandonar a fotografia que lhe atrai com especial intensidade. Fui encontrar o professor Edgard Oliva na EBA, onde ele exerce o cargo de vice-diretor, e quando da nossa conversa estava no cargo de diretor em exercício.

Escultura Casulo feita
de tiras de bambu,
couro e metal.
Seu nome completo é Edgard Mesquita de Oliva Júnior, nasceu em três de janeiro de 1957, na cidade de Jequié, Bahia. O pai quando estudante de Odontologia gostava de desenhar e frequentou o atelier do grande mestre da pintura baiana Presciliano Silva que o incentivava a continuar com seus desenhos e a abraçar a carreira de artista. Porém, seu avô preocupado com a sobrevivência do filho insistiu para que se formasse em Odontologia e seguisse  a carreira de dentista. Disse Edgard Oliva rindo que o seu avô era firme e dizia: “Você vai ser é doutor para dar comida a seus futuros filhos”. Nesta época a família residia na Rua do Tingui, e seu pai Edgard Mesquita de Oliva ao concluir o curso foi clinicar em Itaquara, interior da Bahia, onde conheceu d. Gildeth de Almeida. Casaram e viveram lá por dez anos. resolveram mudar para Itapetinga em 1960. O Edgard Oliva ficou morando com os pais  até os quinze anos de idade. Fez o primário no Escola José Vaz Espinheira e parte do curso ginasial no Ginásio Albert Schwartz, que pertence à igreja Batista, atualmente oferece também o curso colegial. Antes de concluir o ginásio veio para Salvador e foi morar com a avó no Jardim Baiano. Estudou no Colégio Severino Vieira, depois veio o outro irmão e foram morar ainda no bairro de Nazaré na casa de uma tia. Lembrou com alegria que era uma festa porque reunia ele, seu irmão , primos e primas.

Ao concluir o colegial em 1975 fez vestibular para Medicina, mas não foi aprovado. Em 1977 fez novo vestibular e foi aprovado em Licenciatura Ciências Biológicas. Quando indaguei como a fotografia chegou até ele contou que uma tia viajou para a Europa e trouxe uma câmera compacta Kodak Brownie   para

Quatro fotografias da série Impressões
do Mito expostas no MAM. Foram resultado
do erro ao usar  duas vezes o mesmo filme.
sua mãe, que ainda era solteira, e passou a fotografar a família e eventos que ocorriam em seu entorno. Já aos dezesseis anos Edgard Oliva via sua mãe fotografando e passou a se interessar. Lembrou que a família ia fazer passeios no bairro da Ribeira, em Salvador, e  juntamente com a mãe aproveitava para fotografar. Passou a desenhar inspirado em seu pai que desenhou os móveis da casa, carros e tudo que lhe tocava. O tempo passou, a câmera desapareceu, e em 1982 quando Edgard Oliva de posse do diploma de professor de Ciências Biológicos resolveu se apresentar na Escola de Belas Artes, fez um teste de Desenho, sendo aprovado por ser portador de diploma universitário. Nesta época desenhava , pintava e desde o início na EBA já se juntava com outros colegas e começaram a expor. Disse que mesmo antes, chegou a levar estudantes de Belas Artes para expor no Centro Acadêmico do Instituto de Biologia. 

Obra  Amarras feita óleo  sobre tela, 1987.
Para ele sua presença como estudante na EBA foi um período muito rico e destacou que foi aluno de Desenho do professor Ailton Lima. Observou que suas aulas contribuíram para a melhoria do seu desenho e entusiasmado com as aulas de desenho em pastel que o professor Ailton Lima ministrava resolveu comprar uma caixa de pastel com setenta e duas cores e começou a desenhar. Chegou a fazer uma série desses desenhos com pastel e afirmou que praticamente vendeu quase todos. “Os trabalhos que me colocaram nas galerias surgiram após as aulas dele." Recordou que uma vez ele mandou que seus alunos riscassem uma folha de papel aleatoriamente e depois entregou outra folha com um retângulo vazado e instruiu que fossem passando por cima dos riscos que fizeram e observassem o que tinham feito. Foi aí que surgiu a série de trançados do Edgard Oliva. A partir daí resolveu continuar e pesquisar sobre os trançados resultando numa exposição de obras com esta temática . Em seguida teve aulas de pintura com a professora Maria Adair. Como era autodidata foi na EBA  que desenvolveu suas técnicas de desenho, pintura e noções de perspectivas. Em 1988 teve a felicidade de conhecer um colecionador  alemão amigo de um colega que estava aqui na Bahia . Ele comprou dez trabalhos feitos por Edgard Oliva  e levou para a Alemanha. Antes de retornar disse que ia mostrar lá para amigos ligados à arte, e se eles gostassem ia lhe convidar para passar uma temporada. No final de 1988 recebeu uma carta do alemão lhe convidando. Durante o ano de 1989 fez uma revisão da língua inglesa e se preparou,  e em 1990, pediu licença do magistério e foi para a Alemanha. O artista Edgard Oliva  ensinou  Biologia de 1982 a 1994 no Colégio João Florêncio Gomes, na Ribeira, depois no Colégio Anísio Teixeira, na Ladeira do Paiva e encerrou sua 
O artista Edgard Oliva tendo ao fundo uma
pintura de sua autoria.
carreira de professor do Estado na ECESBA - Escola de Curso Supletivo do Estado da Bahia. Esta escola atendia individualmente os alunos que não conseguiam acompanhar o curso normal e funcionava na Biblioteca dos Barris.  
Foi para a Alemanha em 1994 a convite do industrial do norte Engelbert Stulenborg e passou cerca de um ano. O alemão alugou uma pequena casa  num lugar belíssimo, uma aldeia com apenas oito mil habitantes que tem vinte e cinco  galerias e oito museus! Lá residiram grandes artistas impressionistas  alemães  e suas residências viraram museus e galerias. O lugar é “Worpswede, localizado próximo a Bremen, na Alemanha, é uma célebre colônia de artistas fundada por volta de 1889. O local é renomado por sua vibrante cena artística, com museus como o Benhof e a Grande Exposição de Arte (Grobe Kunstschau), além de inúmeras galerias e ateliês, como o Mimis Erbe e a Galerie Altes Rathaus. A área atrai artistas há mais de 140 anos e continua sendo um centro cultural ativo”. (Erben). A casa alugada  tinha um pequeno silo e Edgard Oliva transformou este silo em  atelier durante o tempo que passou por lá. Daí foi para Mannheim, onde ficou três meses juntamente com uma amiga artista que conheceu em Salvador a Nina Rosa Manns, casada com um cidadão alemão.  A cidade Mannheim, localizada no sudoeste da Alemanha, é a segunda maior cidade de Baden-Württemberg, conhecida como Cidade dos Quadrados (Quadratestadt) pelo seu layout de ruas em grade e por ser berço de invenções como o automóvel e a bicicleta. Em seguida foi para Eichenau que é um município da Alemanha, na Baviera, e neste ínterim fez dez exposições de sua produção na Alemanha. Quando voltou em 1992 foi ensinar Biologia, no Estado, e deixou a EBA. Não chegou a concluir o curso de Artes Plásticas, “mas o destino me quis aqui.”, disse Edgard Oliva.  

Folder da exposição A Grande Arca
de fotos  dos presépios da
Chapada Diamantina, na Bahia.
Veio a fotografia e fez uma exposição em 1989 a 2000 chamada Impressões do Mito, no Museu de Arte Moderna da Bahia, resultado de um trabalho concluído  quando participou do workshop Light-Art tendo como orientador o professor alemão Dieter Jung, no Instituto Goethe, em Salvador. O primeiro cargo acadêmico deste alemão foi como professor visitante na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, Brasil, em 1975. No workshop aprendeu algumas técnicas inclusive a trabalhar  com canetas a laser. A exposição do artista Edgard Oliva foi feita utilizando fotografias de um filme de slides  que ele havia usado para fotografar  cenas do desfile da Timbalada durante o carnaval . Aconteceu que tinha levado apenas dois filmes o de slides e um em preto e branco de 400 asas . Ao terminar o primeiro filme retirou da máquina e na hora que foi pegar na mochila o segundo filme trocou e colocou o mesmo filme de slides que já tinha batido. Resultado , por causa deste erro surgiram imagens superpostas  quase irreconhecíveis. Guardou durante um ano e meio e neste período seu olhar mudou, já tinha  outra visão. Levou o filme e  mostrou ao professor alemão que  gostou das imagens e Edgard Oliva passou a trabalhar com canetas de raio laser , posteriormente foram expostas no MAM. A propósito  escreveu o saudoso crítico e poeta  Wilson Rocha com “ Edgard Oliva com formação técnica na Alemanha, pertence a uma geração de pintores extremamente articulados, que operam com estratégias plásticas múltiplas. O que dão a medida do seu valor. Essa geração surgida por volta dos anos oitenta reafirma sua visão que exalta a instantaneidade da imagem, mas não elimina a sua identidade, aniquilando, no entanto, a existência presente e substituindo o lugar por um local de passagem.” 

Obra  Ninho desenho a grafite e carvão
sobre papel canson, de 2021
Foi  fazer uma exposição em 1997 chamada de A Chuva da Luz, na Galeria Unama, em Belém do Pará. No final de suas experiências com o professor alemão ele passou a fotografar a cidade à noite e a provocar aquele erro que cometeu com o filme de slides coloridos. Foi quando  construiu um objeto usando o tecido voil composto de quatro folhas, pendurou no teto, e por ser leve ele girava com o vento. Para os que não conhecem o tecido voil é um material fino, leve e transparente, geralmente feito de poliéster, com textura macia e ótimo caimento, ideal para cortinas sofisticadas, decoração de eventos e vestuário fluído. O artista Edgard Oliva Passou a projetar aleatoriamente as fotos superpostas, dando um resultado visual diferenciado. “Foi aí que descobri que tinha em minhas mãos uma fábrica de imagens “, disse com alegria o professor Edgard Oliva. 
Fez uma residência de Portugal sabendo que sua mãe gostava de fotografar resolveu comprar uma câmera Kodak Instamatic para ela e passaram os dois a fotografar.  Ao retornar  estava em Salvador  o Michael Toss, curador das Casa das Artes, em Berlim. Veio fazer um trabalho com Mário Cravo Neto e ele foi ser o intérprete por falar alemão e lhe convidou para ir morar na Alemanha. Conta Edgard Oliva que recusou ir morar na Alemanha porque “  estava começando o projeto dos Presépios, e disse a ele que só existem na Bahia." Mapeou a Chapada inteira e viajou durante  cinco anos, visitando lugares fora do circuito turístico.
Pintura da série Cidades Verticais.
Fez cinema, fotografia , escreveu  a história dos presépios e  montou uma exposição de fotografias e vídeos em 2011 chamada A Grande Arca, na Caixa Cultural, em Salvador.” Disse que esta exposição lhe trouxe as lembranças de quando era menino e visitava com seus pais casas nas quais os moradores faziam presépios. Desses recorda do presépio de Dona Cota e senhor Fernando,  em Itapetinga, um casal sem filhos que criava um tatu como pet de estimação. Inclusive os presépios foram tema de sua tese do mestrado e assim ele escreveu: “O presente trabalho descreve uma poética que tem como tema principal a investigação dos presépios atuais na Chapada Diamantina, Estado da Bahia, com ênfase nos processos de criação desses cenários natalinos. Com uma abordagem sócio compreensiva, o objeto foi investigado com base na estética do visível, tendo como princípio o imaginário do sujeito para a ação criadora a partir da investigação oral e dos elementos presentes nos presépios estudados. Foram utilizadas para abordagens teóricas autores como Roland Barthes, Michel Maffesoli, Luigi Pareyson e Ítalo Calvino, que tratam a ação criadora como o modus operandi do sujeito. Foram empregadas as técnicas da fotografia e do vídeo, assim como entrevistas diretas e aplicação de ficha de identificação para inventário do objeto, como instrumentos de coleta das informações necessárias à compreensão da pesquisa. O processo criativo finalizado ou configurado em fotografia e instalação ocorre a partir dos recortes fotográficos que foram realizados enfocando elementos, ou conjuntos de composição, que extrapolam a estrutura religiosa, sendo, contudo, reveladores de situações sociais e da crença inseridos no contexto do imaginário no presépio. A partir desse princípio foi gerada a instalação todos os dias, na qual se faz uma analogia entre as figuras “mutiladas” dos presépios com as crianças de rua dos grandes centros urbanos, simbolizadas nos bonecos encontrados ‘abandonados’ em nossas  vias urbanas."
Pintando na Alemanha a Mulher de Roxo.

Já o doutorado ele disse que estava em dúvida e foi com um irmão para a fazenda. À noite viu a lua cheia por cima de um pé de seriguela. Pegou a câmera e fez uma série de fotos. Depois num final de semana foi passar com um irmão na casa de praia e acabara de pintar uma parede de branco. Ao observar disse "é isto que quero!” Foi quando veio a ideia de Luz da Noite, Luz do Dia. Já tinha a noite com as fotos feitas na fazenda e agora  as do dia.  Surgiu em seguida o interesse em fazer uma  exposição na Galeria ACBEU chamada de  Quando a Noite Encontra o Dia, em 2016.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS - Em 1985- Na Intimidade das Formas, Lobby do Hotel Merídien, Salvador-BA.1986- Pinturas, Galeria Bon Vivant, Salvador-BA; 1990 - Buscando Novos Tons, Art Expressão, Salvador-BA; Edgard Oliva in Tempo, Deutsche Bank Bremerhaven, Alemanha; Brasil: Ordem e Progresso! Stadtbibliotek Bremen-Alemanha. 1991 - Bahia - Munique, Galeria Vigny, Munique-Alemanha; Caso Caos, Galeria de Arte Vila Imperial, Vitória da Conquista - BA. 1994 - Atelier Uriel Galerie, Stuttgart-Alemanha; Construtivismo Brasileiro, Galeria Vigny, Munique-Alemanha.1996 - Urbanos-nós, Frazão Arte Galeria, Salvador-BA. 2000 - Impressões do Mito (Fotografias), Museu de Arte Moderna da Projeto Verão, Museu de Arte Moderna do Bahia, Salvador-BA e Projeto Verão.

D. Antônia Pereira, de Utinga, Bahia,
fotografada por Edgard Oliva em 2017.
COLETIVAS - 1984 - Galeria Solar do Ferrão, Salvador-BA; Artistas Jovens, Cañizares Galeria de Arte, UFBA. 1985 - Primeiro Tempo, Cañizares Galeria de Arte, UFBA, Salvador-BA; Cores e Formas, Galeria Malhoa, Salvador-BA. 1986 – Mostra Baiana de Artes Plásticas, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. 1987 - Composição Drástica Conjunta, Galeria Bon Vivant, Salvador-BA; Galeria Profiarte, São Paulo-SP.1988 - Projeto Verão,  Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; Rocha, Areia e Mar & Desamarrando as Amarras, Célia Mallet & Edgard Oliva, Cañizares Galeria de Arte, UFBA, Salvador-BA.1989 - ARte Itapetinga", Itapetinga-BA; Escarcéu, Galeria do ACBEU, Salvador-BA.1990 -  Graphik Kunst, el-galerie, Karlsruhe, Alemanha.1992 - Mitos de uma Identidade, 13 Artistas Latino Americanos, Aspekte Galerie im Gasteig, Munique e em Frankfurt, Goethe-Institut, Alemanha;  Interpretando a América 1, Galeria ACBEU. Interpretando a América 2, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1993 – Ad Infinitum, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1994 - Coletiva de Verão, Galeria Abaporu, Salvador-BA; 1° Workshop MAM-Bahia de Artes Plásticas. 1995 - 20 Anos Galeria ACBEU, Salvador-BA; Luz na Arte, Arte da Luz", Galeria do ICBA Salvador-BA. 1995-1996 - Lençóis de Luz, Espaço Cultural do IPHAN, Lençóis-BA; Uno, Galeria ACBEU, Salvador-BA; Tropicália 30 Anos, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA.1999 – Arte Arte, Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna da Bahia Salvador-BA; Arte Arte, 450 Anos, Museu da Cidade Rio de Janeiro-RJ; Arte Arte, Salvador, 450 Anos", Memorial de Curitiba, Curitiba- PR. 2000 – Impressões do Mito – Fotografias no Museu de Arte Moderna da Bahia – Salvador-BA. 2011-2012 – Exposição a Grande Arca, Fotografias e Vídeos de Edgard Oliva, , Caixa Cultural, Salvador-BA.2016 – Exposição Quando a Noite Encontra o Dia , comemorativa dos 75 anos da Galeria ACBEU.

Foto da abertura de expo individual em
Munique, na Alemanha .
SALÕES / BIENAIS - Em 1987 – V Salão Nacional de Arte Fotográfica, Goiânia-Goiás. 1988 - I Salão Universitário de Artes Visuais, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA; I Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1989 - Il Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1990 - II Salão Universitário de Artes Visuais, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. 1993 - II Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix, BA.1994 -I Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1995 - III Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA. 1996 - III Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de arte Moderna da Bahia. 1997 - IV Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA.  1999 - VI Salão da Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte |Moderna da Bahia, Salvador-BA.

Incursão na Casa Preta , em 2024.
FOTOGRAFIA E VÍDEO - Em 1993 –Oeste, vídeo, assistente de direção. 1994 – I Coletiva Fotografia, Shopping Itaigara, Salvador-BA; Oficina de Vucano, Vídeo, Fotografia de Cena, direção Mônica Medina. 1995 - Workshop Light-Art, Instituto Goethe, Experimentação a Laser na Fotografia, Salvador-Ba. 1996 - Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 2, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1997 - Lençóis de Luz, Espaço Cultural IPHAN Lençóis – BA; A Chuva da Luz, Galeria da Unama, Belém-PA; No Rumo da Luz", vídeo sobre a exposição, A Chuva da Luz, Instituto Goethe, Salvador-BA; 5° Semana Sergipana de Fotografia, Galeria da Cultarte, Aracaju-SE; Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 3, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1998 - Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 4, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; Bahia à Paris Arts Plastiques d'aujourd’hui , Galerie J & J Donguy, Paris -França. 2000 - 7 Fotógrafos, Galeria Pierre Verger, Salvador-BA.

PREMIAÇÃO- Em 1994 - Vídeo Oeste, Direção Mônica Medina e Airson Heráclito. Assistente de Direção Edgard Oliva; Concurso "A imagem em 5 minutos - Pelourinho, Fundação Cultura do Estado da Bahia, Salvador-BA.1997 -   Indicação para o Prêmio Nacional de Fotografia da FUNARTE, Rio de Janeiro.

  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE BEATRIZ MILHAZES NO MAB

Beatriz Milhazes na abertura da exposição.
 Está aberta ao público no Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, até o dia vinte e seis de abril , de terça a domingo, das 10 às18 horas,  a primeira exposição individual em Salvador da artista carioca   Beatriz Milhazes chamada de 100 Sóis composta de telas em grandes formatos e um forte colorido. Quando você está diante de uma dessas imensas telas coloridas com a prevalência dos amarelos mergulha em mandalas gigantes, grandes círculos e rosáceas sente uma sensação positiva com a vibração das cores e das formas. São elementos geométricos que vão conduzindo o seu olhar e de repente retorna ao começo como que perdido num labirinto de formas, cores e tonalidades. O observador atento experimenta momentos de sensações positivas enquanto seu olhar é desviado para os florais e volutas que a artista utiliza para formar as suas composições.

Veja a variedade de rosáceas,florais e outros
 elementos que compõem esta bela obra
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Segundo o curador Tiago Mesquita “a mostra é um recorte de três décadas da produção da artista e se inicia nos anos 90 quando passou a desenvolver a técnica criada por ela que a batizou de monotransfer.” Esta técnica consiste em transferir para a tela através de colagem e monotipia imagens pintadas numa folha de plástico, deixa secar e depois transfere para a tela através o decalque. A técnica permite criar camadas, texturas e formas precisas, facilitando a colagem e o reposicionamento dos elementos antes da fixação final. Para ele as obras expostas “revelam o percurso da artista em direção a um espaço abstrato de coordenação de diferenças, onde padrões, cortes diagonais e giros, mesmo tensos encontram equilíbrio. Um jardim de maravilhas, feito com a luz e 100 sóis, em que contrastes coexistem sem arestas, na voltagem máxima”.

Visitante observa com atenção uma obra da
exposição no MAB.
A artista nasceu em 1960 no Rio de Janeiro é gravadora e pintora reconhecida internacionalmente como um nome importante da arte contemporânea. Em 1981 formou-se em Comunicação Social e antes de se formar passou a frequentar o curso de Artes Plásticas, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Anos depois já estava lecionando e coordenando as atividades culturais. Consolidou sua carreira depois que realizou exposições no Carnegie International, (1995); bienal de Sydney (1998); bienal de São Paulo (1998, 2004); Bienal de Shangai (2006) e Bienal de Veneza (2003, 2024) e no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque – MOMA. Segundo a Fundação Itaú que patrocina a mostra através incentivos da Lei Rouanet aqui estão reunidas obras produzidas ao longo de trinta anos e representa um panorama da pesquisa da artista. A exposição é composta de pinturas históricas, trabalhos inéditos, colagens recentes e uma instalação.

 

 


sábado, 31 de janeiro de 2026

FLORIANO TEIXEIRA E A DELICADEZA DO TRAÇO E LIBERDADE DE CRIAR

O artista Floriano Teixeira pintando e posando 
em seu atelier , em Salvador
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Nestes tempos bicudos que
estamos vivendo atualmente em nosso país onde a política cultural oficial quer impor reduzindo a expressão artística a manifestações sobre racismo, ancestralidade e gênero é sempre bom lembrar dos grandes artistas que vivem e viveram nesta Cidade cheia de contrastes. Antes os grandes artistas  nunca estiveram ou estarão rezando por esta cartilha que aprisiona a criatividade.
Hoje o  Estado totalitário controla a política cultural  colocando nos museus e demais instituições do setor  seus militantes, e as liberações de verbas ocorrem discriminadamente através da leis Rouanet e Luiz Gustavo, dentre outras. Sei que a demanda atual é resultado da imposição mercantilista de alguns galeristas e marchands que estão engajados a esta política maléfica e têm seus críticos remunerados para chancelar esta política por questões ideológicas. A academia por sua vez está totalmente contaminada por esta visão reducionista que empobrece a cultura na medida em que multiplica e incute nas cabeças dos jovens estudantes que esta é a melhor maneira de se expressar. O artista precisa de liberdade e as ideologias quer sejam de tendências de direita ou esquerda funcionam como grilhões de ferro presos nas suas pernas. 

Hoje vou falar do desenhista, pintor e escultor Floriano Teixeira um dos mais livres e criativos que aqui viveu e trabalhou por longos anos em seu atelier na Rua Ilhéus, no bairro do Rio Vermelho. Fazia questão de dizer que não pertencia a nenhuma das escolas da pintura. Ele pintava suas belas mulatas com uma leveza e graça poética que ao apreciar uma tela do artista você fica em estado de graça
Foto 1- Gabriela. Foto 2- Dona Flor. 
Foto 3- Tieta . Foto 4 - Mulheres no Banho.
com a maestria do seu traço e o colorido que nos 
revela este clima tropical em que vivemos. As famosas janelas que são elementos importantes numa fase de sua pintura onde surgem furtivamente mulheres nuas, casais fazendo sexo e às vezes até brigando nos remete aos clássicos da pintura que sempre introduziam algum personagem ou objeto para serem decifrados ou reconhecidos. Floriano Teixeira  trabalhava freneticamente pintando muitas vezes durante os três turnos para sustentar uma família numerosa de sete filhos e netos. Pintar para ele além de ser uma necessidade visceral fruto do seu talento era também uma questão de sobrevivência, e foi assim até o seu falecimento.   Contou sua filha Silvana Teixeira que ele sentiu uma forte dor de cabeça, tomou alguns remédios e a dor não passava. Ela deu algumas massagens no pescoço e nada da dor passar. Foi aí que ele decidiu ir para o Hospital Santa Izabel, em Salvador, e lá constataram que tinha tido um AVC. Apesar dos procedimentos feitos pelos médicos, infelizmente ele veio a falecer. Ele faleceu em vinte e um de julho de 2000 aos setenta e sete anos de idade.

                                                             QUEM ERA

Tríptico da Fundação de São Luís , de 1972.
O artista Floriano Araújo Teixeira é natural da cidade de Caiapó no estado do Maranhão, onde nasceu em oito de março de 1923 e saiu de lá ainda jovem. O município até hoje apresenta um baixo Índice de Desenvolvimento Humano-IDH do país. Fica localizado na região da Baixada, conhecida por sua história ligada à evangelização indígena e colonização, sendo seu nome de origem tupi-guarani, que significa "fruto maduro" ou "fruto dourado. No último Censo em 2010 tinha cerca de dez mil habitantes. Imaginem como era atrasada quando Floriano Teixeira saiu de lá e vai para São Luís, capital do Maranhão.
Realizou seus estudos no Grupo Escolar Sotero dos Reis, em São Luís, depois no Liceu Maranhense, quando em 1935 teve suas primeiras aulas de desenho com o professor Rubens Damasceno. Faz algumas aquarelas, caricaturas e histórias em quadrinhos. Nos anos 40 foi introduzido por J. Figueiredo no ambiente artístico de São Luís quando estuda e documenta tipos populares e cenas do cotidiano da velha capital maranhense. Conhece a obra de El Grego e ficava impressionado com o alongamento das figuras do mestre. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco (1541-1614) foi um pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha
Em finais de 1941 Floriano Teixeira recebe o I Prêmio no Salão de Dezembro, provocando sua decisão de ser um pintor profissional. No ano de 1948 foi encarregado de fazer o levantamento e catalogação das gravuras, desenhos, e pinturas da coleção de Arthur Azevedo, quando tem contato direto com obras de  Honoré-Victorien Daumier,(1808-1879)
Obra O Banho e vemos a janela com um casal
na sua intimidade
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caricaturista, chargista, pintor e ilustrador ;  
Charles Garnier (1825-1898) foi um arquiteto  e Jean-François Millet ( 1814-1875) pintor realista e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como precursor do realismo, pelas  representações de trabalhadores.Os três eram franceses.
Dois anos depois já está no Ceará e em 1952 funda com o pintor  Antônio Bandeira o Grupo Independência. Foi no Ceará que conheceu d. Alice com quem teve sete filhos. Foi o primeiro Diretor do Museu de Arte Moderna do Ceará. Quando participava de uma exposição de artistas nordestinos em Salvador recebeu o convite do grande escritor Jorge Amado para vir morar na Bahia, e assim em 1965 decide viver aqui até a sua morte. Fez doze capas da Coleção de Obras Completas de Graciliano Ramos, os desenhos dos romances Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, Milagre dos Pássaros e o Menino Grapiúna, todos de Jorge Amado, seu grande amigo. Também, ilustrou a obra Maria Duzá, de Lindolfo Rocha.

Floriano e Alice que conheceu em Fortaleza,  
num momento de descontração na
casa do amigo o escritor Jorge Amado
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Este maranhense que brincava dizendo ter nascido “no condado de Cajapió ", mas adotou a Bahia como sua segunda terra deixou um legado com seu traço inconfundível e delicado. Tenho diante de mim, no meu escritório, duas obras de Floriano Teixeira. Numa delas vemos uma bela mulata com suas vestes amarelas deixando aparecer sutilmente seus predicados naturais, observada por um lindo pássaro chamado de galo de campina ou cardeal e, ao fundo um casal, aos carinhos. A outra, é uma aquarela  uma criancinha acariciando sua cabra. Estas duas obras mostram um pouco da criatividade e da singeleza deste artista que soube conquistar a Bahia   pintando a alma do povo baiano e hoje sua arte é apreciada por todo o Brasil. 
Ao completar setenta anos ele escreveu em novembro de 1983 num catálogo da exposição comemorativa da data: SETENTA ANOSSetenta anos passam tão rápidos que não dá para se notar. Quando vivemos como gostamos de viver o tempo não conta porque ele simplesmente não existe. Calendários e relógios são instrumentos de tortura e destruição. Sem eles o ar que respiramos é mais leve e
Quatro desenhos que hoje pertencem
a sua filha Silvana.
puro, o sonho é mais colorido e o poder da criação é bem maior. Sem os delatores do tempo podemos fazer cultura e arte sem pressa. Setenta anos passam tão de mansinho que não dei por isso .1923 foi ontem e foi ontem também 1950 quando desembarquei e conquistei o Ceará. Enquanto descansava da viagem, casei-me com uma nativa da terra conquistada e no ato fiz seis filhos saudáveis. Foi tudo tão rápido que o Diabo nem chegou a piscar e eu já estava chegando nesse mesmo ano da graça de 1964 na Bahia (veja como o tempo, não conta) para fazer a minha primeira exposição individual no MAMB a convite da Diretora na Lina Bo Bardi. Como o tempo nada significa e eu não tenho pressa fui ficando por aqui. Gostei do jeitinho faceiro e sensual desta terra que também gostou de mim. Nos apaixonamos e nos demos tão bem que aqui fiz mais um filho. Hoje a Bahia e eu somos amantes.” Floriano Teixeira

                                                           DEPOIMENTOS

Silvana Teixeira
Silvana Teixeira - Ninguém melhor para falar do artista Floriano Teixeira do que sua filha Silvana Teixeira que permaneceu ao lado do pai até a sua morte. Ela lembrou que sua casa vivia cheia de filhos e netos do artista e que ele não se queixava disto, ao contrário adorava ver as crianças brincando. Quando indaguei como era a rotina do pai. Silvana lembrou que ele acordava cedo e tomava o seu café e ia para o atelier trabalhar. Permanecia o dia inteiro defronte ao cavalete, levantava para as refeições e voltava ao atelier. Muitas vezes pintava durante a noite. Perguntada qual a preferência dos clientes sobre as obras do pai ela disse que grande parte queria obras que tivessem as famosas janelas onde ele colocava personagens como mulheres mudando a roupa, nuas e às vezes até fazendo amor. Cada obra desta é um quadro dentro de outro quadro e por serem minúsculos os personagens da janela demandava tempo e muita atenção.

JORGE AMADO – “Em Floriano Teixeira, o artista consciente e sutil, de sensibilidade incomum, funde-se no homem profundo e generoso, no brasileiro da mais alta qualidade, grande artista. Artista e homem, um ser único, humaníssimo, e que grande artista!  Entre os mestres do desenho brasileiro, Floriano Teixeira se coloca em lugar de destaque, um dos maiores entre os maiores.”

Carybé  com Floriano.
CARYBÉ"Algo de monge medieval, ou de persa, anda por dentro de Floriano nos óleos, em geral de grandes planos e pinceladas largas; de repente, numa janela, numa porta ou num portaló vê-se uma cena detalhadíssima, verdadeira miniatura, contando vida do povo, sempre com uma carga de poesia, uma alegria de cores e outra alegria: a de inventar meios de expressão, de dar mais e sempre mais, o que o leva a pesquisar constantemente".


Marcos fala do artista.
 MARCOS CURI – MCR GALERIA - Disse o galerista Marco Curi, da MCR, que ao abrir a galeria em 1989 focou nos artistas modernos, e entre os artistas modernos da Bahia identificamos que tínhamos maior aproximação e admiração por Floriano Teixeira. É considerado um artista baiano por sua vivência aqui e também por saber interpretar a alma dos baianos. Foi a partir daí começamos a adquirir as obras do artista. Na década de 90 quando ele ainda estava em produção de quinze em quinze dias ia ao atelier dele para ver as novas criações. Assim nossa amizade foi se consolidando e ia acompanhando a sua produção. Ele tinha uma característica de pintar seus quadros de forma metódica e lenta, sempre muito preocupado com a qualidade e  permaneceu assim até a sua morte. Ele tinha um nível cultural alto e interpretava os romances de Jorge Amado como ninguém. Para ilustrar a capa de um livro por exemplo, Floriano fazia questão de ler antes de iniciar suas ilustrações. Tem uma série de personagens femininas que Floriano Teixeira pintou inspirado nas mulheres dos livros de Jorge Amado. Realizamos na galeria três exposições artista. Devo ter no acervo meu, de meu filho e da galeria umas quarenta obras de sua autoria, talvez seja a maior coleção de suas obras  da Bahia. Porém, tem um colecionador baiano que reside no sul do país que deve ter umas setenta obras, e deve ser o maior colecionador.

O t exto ao lado foi desta exposição
realizada na Galeria Acbeu,1997.
 JOHN DWEIR - “Para mim, o mundo de Floriano é um mundo em formação, um mundo onde não há um, porém muitos centros. É um mundo onde não há só a mão de Deus ou de um pintor ou de um autor. É um contato com outros mundos, em estado mundo em perene  gestação, que se desdobra sobre si mesmo em um esforço de criação. Assim, uma janela num quadro de Floriano pode estar em comunicação com o quadro onde está colocada ou com um outro quadro que ele pintou há anos ou que vai pintar no futuro. A realidade de Floriano é a mesma que se encontra em Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, onde o narrador se esforça para contar tudo, admitindo, porém que, como não pode caber tudo dentro das páginas da capa do livro, também a moldura de um quadro não é suficiente para conter o mundo do pintor. Assim é que Floriano chama seu leitor, ou seja, seu espectador, para que entre em seu mundo e ajude a recriá-lo através de uma leitura múltipla de sua realidade. No processo, cria-se um mundo nas telas de Floriano de uma atração incrivelmente forte, com milagre da multiplicação de seus textos visuais." Escreveu John P. Dwyer, diplomata americano e um apreciador da arte que viveu aqui e escreveu no catálogo da mostra que o artista fez em 1997, na Galeria ACBEU, no Corredor da Vitória.

A poetisa Myriam Fraga.
MYRIAM FRAGA - "Um Inquieto Navegante - Floriano é um pintor da figura. Andarilho contumaz, na vida e na obra, passeou por várias escolas, percorreu caminhos que foram do cubismo nos quadrinhos, lustrações, caricatura, muralismo, tudo passou pelo cadinho de seu talento sempre aberto a novos experimentos. Agora parece que finalmente apaziguou. Ou pelo menos ancorou por algum tempo (quanto, só Deus sabe) nas águas calmas de um porto não sonhado, mas construído com a tenacidade do marinheiro que aprendeu, com a vida e com a arte, que para os inquietos navegantes não há porto porque " porto é navegar". Um homem viageiro, Floriano. Um índio andejo. Um cavaleiro de muitas cruzadas. E de múltiplas lutas. As cicatrizes são várias. Os gilvazes. E as lembranças também, os "souvenirs" da viagem. Desta longa peregrinação que ele pacientemente iniciou, criança ainda, nos longes de Cajapió."