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sábado, 29 de agosto de 2026

MARKUS SCHAAF MOSTRA SUA ARTE DA SUPERAÇÃO

Markus Schaaf - com uma das obras que está
pintando para sua próxima exposição.

O artista visual, músico de jazz, compositor alemão e "um observador da vida urbana" Markus Castelo Schaaf mora em Salvador, no final de linha do bairro de Itapuã desde 1975 e de lá para cá vinha fazendo apresentações com seu violão, compondo canções no estilo Bossa Nova e pintando suas telas. Afirma no seu portfólio de que sua produção teve início na arte abstrata, explorando a liberdades das formas através de uma linguagem de improviso jazzístico como fazia com seu violão. Passou pela figuração com uma estética quase cinematográfica inspirado na atmosfera da filmografia clássica de Fellini e Antonioni em tons cinzas/ sépias e traços fortes de carvão. São quase sempre cenas do cotidiano que ele criava e fixava nos suportes de papel e nas telas de vários formatos.  Afirma que  constrói uma "poética autônoma e universal, mantendo presença ativa na cena contemporânea".

Continua afirmando que sua prática pictórica tem mais de duas décadas de uma investigação contínua sobre a forma, a cor e a presença física do gesto. E que seu caminho a grandes transições estéticas intencionais - desde a abstração cromática inicial e a síntese monocromática até a volta à abstração tátil e a vibração orgânica atual com seus nus em completa liberdade. Finalmente revela que nesta sua "fase atual está rompendo com o rigor geométrico anterior para celebrar o corpo humano em um estado ritualístico e performático, através de uma paleta vibrante de cores". Quando ele fala em rompimento do rigor refere-se às suas criações que nos remetiam às obras de Paulo Klee e Wasli Kandinsky. Klee embora tenha nascido e crescido na Suíça, tem nacionalidade alemã. Era desenhista, pintor, poeta e professor e foi influenciado pelos movimentos dos expressionistas, cubistas e surrealistas. Já Wassily Wassilyevich Kandinsky, foi um artista plástico russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.

Obra Tempos Felizes - Um tributo a Vinicius 
de Moraes, de 2007.
Vemos, portanto, algumas visões, coincidências e influências sofridas desses dois grandes artistas reconhecidos como mestres da pintura universal e suas influências na produção de Markus Schaaf, evidentemente guardando as devidas proporções. Após pintar àquelas formas geométricas de antes que exigiam mais precisão e paciência Markus passou a fazer uma pintura figurativa usando tons cinzas monocromáticos quase como takes de uma película cinematográfica. Estas obras trazem no seu conteúdo uma tristeza explícita e continuou se expressando desta forma até recentemente quando decidiu romper e fazer uma pintura mais alegre, com cores fortes e movimentos mais livres e rápidos.

 Continua afirmando que sua prática pictórica tem mais de duas décadas de uma investigação contínua sobre a forma , a cor e a presença física do gesto. E que seu caminho a grande transições estéticas intencionais - desde a abstração cromática inicial e a síntese monocromática até a volta à abstração tátil e a vibração orgânica atual com seus nus em completa liberdade. Finalmente revela que nesta sua fase atual está rompendo com o rigor geométrico anterior para celebrar o corpo humano em um estado ritualístico e performático, através de uma paleta vibrante de cores".

Ele vem com sua vontade de criar se adaptando às condições físicas que lhes permitem mostrar o seu grande talento. A figura mais detalhada esteve presente em uma fase importante de sua produção quando usava tons monocromáticos com tintas cinzas ou pretas para pintar suas figuras e cada obra conta uma história inspirada nos filmes clássicos que gosta de assistir se assemelham quase a histórias em quadrinhos e fatos do cotidiano. Portanto, este retorno à figuração foi tranquilo, e o que mudou é que agora as figuras são representações de mulheres e homens nus sem os detalhes das figuras de sua fase anterior e seus personagens estão mais soltas, se movimentando na tela.

Markus Schaaf tocando  violão.
O artista Markus Schaaf era um virtuoso do violão, reconhecido nos meios musicais de sua terra e daqui, mas está enfrentando um grave problema de saúde porque foi acometido pela doença de Parkinson que já provocou sequelas na sua fala e nos seus movimentos. Porém, mostra tenacidade, vontade de viver e criar e não se entrega, não fica naquele mimimi dos vitimistas. Ao contrário, ele teima em pedalar, fazer exercícios, tocar sua bateria e realizar os movimentos possíveis com seus braços e pernas. Com a ajuda da Inteligência Artificial vem fazendo seu portfólio nos intervalos em que vai criando as suas obras e espera concluir dentro em breve. Ele mostrou nove telas em branco de grande formato   que pretende pintar para uma futura exposição sendo que duas delas já estão em bem adiantadas. Pude ver que antes o artista faz um esboço e em seguida passa para a tela através de pinceladas fortes, rápidas, e com uso das espátulas. As cores são cruas e trazem grande luminosidade. Uma das razões que o artista disse ter deixado sua terra natal foi por causa do frio ele não suporta e pelos tons cinzas. “Aqui tem muita luz, calor e mais alegria.” É exatamente este clima de alegria que encantou este alemão criativo que mudou definitivamente para Salvador onde mora, constituiu família e tem um casal de filhos adultos. Esta sua opção pela predominância do gestual o artista Markus Schaaf, ele assina Chaf como se pronuncia, nominou de Libertação quando mostra o rompimento com as amarras geométricas e o rigor monocromático dos períodos anteriores para celebrar a figura humana em sua forma mais crua e orgânica.Escreveu que “o nu surge despido de artifícios, integrado a um espaço dinâmico onde tons quentes de terra e tangerina encontram a serenidade dos azuis e roxos. A pincelada se torna mais solta, expressiva e performática, transformando o ato de pintar em um ritual de expansão”.

                                                               TRAJETÓRIA

Antes ele pintava figuras geométricas com
composições  que lembram as obras
de Paulo Klee.
O artista Markus Castelo Branco Schaaf nasceu em dezoito de abril de 1961 na cidade de Menden, (Sauerland)) que é uma cidade da Alemanha localizada no estado de Renânia do Norte. É filho de Peter Schaaf que tinha a formação em engenharia civil e sua mãe d. Ingrid Hacheney Schaaf, dona de casa. Passou sua infância e adolescência nessa pequena cidade rural. De 1968 a 1972 estudou na escola Josefschule,  teve como professora a artista plástica Lucie Kaiser e  os primeiros contatos com a arte. Em seguida foi estudar o ginasial no Heilig-Geist-Gymmasium (Ginásio do Espírito Santo) e passou a ter semanalmente aulas de Artes Plásticas. As aulas constavam estudos de Desenho. Além dessas aulas a proximidade com as esculturas do artista  Hausmann, que tinha um ateliê na vizinhança passaram a despertar e a influenciar o seu interesse pelas artes visuais. A influência que ele se refere era o Raoul Hausmann (1886–1971)  um artista austríaco que atuou como pintor, escritor, fotógrafo e escultor, sendo uma das principais figuras do movimento Dada em Berlim. “Embora tenha nascido em Viena, Áustria, em 12 de julho de 1886, passou boa parte de sua carreira ligada ao ambiente artístico da Alemanha.  Foi um dos fundadores do Clube Dadá em Berlim e organizador da Primeira Feira Internacional Dadaísta em 1920. Destacou-se por suas fotomontagens satíricas, poemas sonoros e esculturas em forma de assemblage, com destaque para a famosa obra tridimensional Cabeça Mecânica (O Espírito do Nosso Tempo), de 1919.” Fugiu da perseguição nazista na Alemanha, passando pela Espanha e Tchecoslováquia antes de se fixar na França, onde faleceu em 1 de fevereiro de 1971.  

Escultura com  cabaça  
e elementos eletrônicos.
Voltando ao artista Markus Schaaf em 1985 foi morar na cidade de Dortmund e passou a frequentar galerias e museus das cidades de Köln, Düsseldorf e Berlim. Foi quando conheceu seu amigo argentino Daniel Santamaria ,que era uma espécie de produtor musical, e  o guitarrista também  colega de escola o alemão Ziggy Horn. Tempos depois  decidiram vir com Daniel conhecer Buenos Aires, onde passaram cerca de um ano e fizeram algumas apresentações. Em seguida vieram para a Bahia. Passou a se interessar pelas coisas do Brasil especialmente a Bossa Nova. Retorna à Alemanha e permanece até 1995 em Dortmund quando realiza a sua primeira exposição intitulada Objetos e Instalações – Índio do Ano 2000, com a curadoria do diretor do Museu da Arte Contemporânea de Dortmund o dr. Ingo Bartsch. Estudou violão clássico em Menden, na Musikschule Menden e guitarra jazz na Future Musik School de Frankfurt, onde se diplomou. Enquanto isto, passou a se apresentar em museus e galerias tocando violão durante exposições de arte e outros eventos culturais. Disse que era considerado um virtuoso com o seu violão compondo e se apresentando cantando suas músicas e de compositores brasileiros da Bossa Nova. Juntou algum dinheiro e decidiu vir morar em Salvador em 1995, comprou a casa onde reside, e tem o seu ateliê que chama de Casa do Lagarto, na pacata Colina de Itapuã, onde vive até hoje com sua mulher com quem teve um casal de filhos. 
Obra Água de Beber, inspirada na canção de 
Vinicius de Moraes
.
Chegando em Salvador passou a dar aulas e violão e  Inglês para sobreviver, mas atualmente recebe uma pensão do governo alemão e vive para sua pintura. Tem pouco tempo que foi obrigado a largar o seu violão porque a doença de Parkinson tirou parcialmente a coordenação de seus movimentos tão necessários para movimentar as cordas do instrumento. Quando lhe perguntei se ainda estava tocando violão seus olhos se encheram de lágrimas e revelou que tem uns trinta dias que percebeu que não consegue mais tocar como antes e preferiu deixar o instrumento de lado e vai continuar se expressando através de suas pinturas. Mas, a arte tem um papel importante no enfrentamento da doença e Markus Schaaf vai se adaptando como que driblando as barreiras que a doença impõe. Ele busca diariamente superar as limitações através de sua criatividade e do seu talento artístico.

 A Entrevista, mais uma obra monocromática
de 2008
.
Retornou algumas vezes à Alemanha e levava consigo cabaças, patuás, dentre outros materiais e até porções de areia da Lagoa de Abaeté para fazer suas instalações. Afirmou que suas instalações eram muito apreciadas. As esculturas e objetos foram feitos com a junção desses materiais levado daqui e  elementos  eletroeletrônicos que ele recolhia no lixo e incorporava às suas obras. Tive a oportunidade de ver uma dessas esculturas que ele expôs na Alemanha , que guarda em seu acervo.

Já em Salvador passou a frequentar os eventos artísticos aqui realizados. Em 2002 pinta sua primeira tela abstrata usando tinta acrílica.  Em 2006 decide se matricular na Escola de Arte de Waldo Robatto e através do saudoso artista baiano Edison da Luz participa de uma exposição coletiva reunindo Waldo Robatto, Espinhosa, Ieda Maria, Lina Miotta, Paulo Claussen e outros na Ecco Design, que fica no município de Lauro de Freitas, na Estrada do Coco.  Em agosto do mesmo ano  Chaf - assim que assina suas obras- volta a expor desta vez numa coletiva da empresa Dismel, que funcionava na Estrada do Coco,

Tríptico onde surgem
timidamente cores
.
no Litoral Norte da Bahia, quando e fez uma performance pintando ao vivo para os clientes e apreciadores da arte.  No mesmo ano participa de aulas de pintura clássica com a artista Lina Miotta e do Curso de Planejamento e Gestão da Produção de Exposições, ministrado do Gilberto Habib Oliveira, no Masp-Escola, através o Círculo – Recursos Humanos. Ainda no mês de novembro participa da exposição coletiva no átrio do prédio do Tribunal de Justiça da Bahia, no Centro Administrativo, em Salvador, com Lina Miotta, Paulo Claussen e Ligia Ferraz. Encerrando o ano participa como artista convidado da 12ª Exposição de Desenho e Pintura do Ateliê de Arte Lina Miotta no Shopping & Camping,na Estrada do Coco. Em 2007 integra a exposição coletiva na Portobello Shop, Lauro de Freitas ao lado de Juçara Freire, Rosana Prates, Theonillo Amorim, Paulo Claussen e Lina Miotta. Mostra seu estilo figurativo próprio “Catálogo de Artistas Plásticos, Artistas do Vernissage VII 2007-2008”, Rui Dominguez, Editora Domani, São Paulo recebendo o Certificado de Artista Catalogado 2007/2008 e Honra ao Mérito no” 1.º Salão de Arte do Catálogo Artistas do Vernissage”, artista. A publicação tem uma carta de Graça Ramos, artista plástica, doutora de Belas Artes, professora titular da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Em dezembro do mesmo ano  Expôs no Aeroporto o díptico “Homenagem a Tom e Vinicius” 90x230 cm), exposição coletiva da “Oficina de Arte – Waldo Robatto”. Participa também da exposição coletiva “Paisagens Urbanas– Intestino da Cidade III, curadoria de Graça Ramos, apoio UFBA, no Solução
Cartaz de uma exposição que
fez na Alemanha
.
Visual, bairro da Fazenda Garcia, em Salvador. Participantes: Anderson Marinho, Elizabeth, Actis, Denise Pitágoras, Gilson Cardoso, Luiz Mario, Mario Britto e Nanci Novais entre outros. Em 2008 foi convidado por Edivaldo Gato, pinta ao vivo no porto da Barra no projeto Espicha Verão, parte do projeto 24hs, em convenio entre a ARPLAMB (Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia) e da Bahiatursa, contando com um catálogo do evento. A obra foi adquirida no “Leilão das Voluntárias Sociais da Bahia” que ocorreu no Museu Rodin - Palacete das Artes Maio 2008 Markus recebe o título Doctor Honoris Causa da Cultura, das Artes e da Saúde Social da Bahia pela Uni-A Universidade Corporativa das Américas, através da fundação Luiz Ademir-Flamir, EDC-Publicações, com apoio especial da fundação Iberoamericana ,escritório central do Brasil como “Artista Convidado”, Chaf participa da 14ª Exposição de Desenho e Pintura realizada de 15 a 27 de novembro no shopping Villas Boulevard , Villas do Atlântico –Lauro de Freitas, sobre a curadoria de Lina Miotta. É lançado um Catálogo. Em 2009 Obras de Chaf foram usados para decorar o showroom dos ambientes de Adriana Araújo e Suzane Cabús na loja Efeito Home / Barra sobre curadoria de Monique Humbert no lançamento da grife Goya Lopes. Pinta ao vivo no Porto da Barra durante o  projeto “Espicha Verão”, parte do projeto 24hs, em convenio entre a ARPLAMB (Associação dos Artistas Plásticos Modernos da Bahia) e da Bahiatursa. Na pré-conferências setoriais de Cultura, Markus é eleito Delegado suplente no segmento Artes Visuais do Governo da Bahia / Secretaria da cultura. Em março 2010 participa de uma exposição coletiva no Espaço Cultural Bravna, Salvador, Rio Vermelho, sobre o tema “Visões do Feminino” junto com Catarina Argolo, Cesar 
Markus Schaaf no seu ateliê que chama de
Casa do Lagarto, em Itapuã, Salvador.
Romero, Denise Pitágoras, Inha Bastos, Jane Saült, Giuliani Otaviani, Graça Ramos, Rosa Alice França e outros sobre a curadoria de Graça Ramos. Em novembro 2011 expõe na Exporte - Feira Internacional de Artesanato, Arte, Cultura e Turismo no Centro de Convenções Salvador – Bahia. Em 2012 participa da mostra Entre Amigos no Foyer da Biblioteca Central da Bahia sobre a curadoria de Graça Ramos 2012 faz parte do Revista / Catálogo Comprarte tiragem de 10.000 exemplares dos diretores Selma Ferreira e Zete Davis com a participação de Matilde Matos e Menelaw Sete. Em 2014 Sobre a curadoria de Lita Limey, Chaf pinta ao vivo uma tampa de madeira com arte abstrata multicolorida para ACE, um espaço ambiental, cultural e esportivo na Rua Orlando Imbasshay, Stella Mares. A praça, transformada de um
lixão e hoje, apresenta artes plásticas, poesia e música consta hoje obras de Graça Ramos e do artista italiano Giuliani Ottaviani. Em 2016 foi convidado pela comunidade ACE (espaço Ambiental, Cultural e Esportivo), Rua Orlando Embasai, Stella Mares com a curadoria de Lita Limey. Chaf pinta um mural de arte abstrata 
Foto 1 - Universo Paralelo, 2005. Foto 2 -
Ânimo, 2022 .Foto 3 - TextoDreamtime,2023.
que também é divulgada através de uma camisa de malha. Em fevereiro, março 2017 participou da 6ª Edição Art Expo Salvador –Bahia convidado pela Curadoria de Lita Limley e do presidente fundador da Galleria d´arte Associazone Cultural Eclettica Giuliano Ottaviani. Em 2018 e anos seguintes participa da exposição coletiva de 100 artistas do Circuito da Moda e Arte, no shopping Salvador, curadoria Leonel Rocha Mattos. Em 2023 expõe na exposição em memória Um Tributo a Mestra Elisabeth Actis na Escola das Belas Artes,  na Sede da TV Pelourinho sobre a Curadoria de Graça Ramos. A obra de CHAF entra no acervo da instituição através da doação do artista; participa da 2ª Mostra Coletiva da Arte Dialógos Nordestinos – A Poesia de Um Brasil Profundo, sob a curadoria de Adenilse Romana ,em setembro 2024 sobre a curadoria de Adenilse Romana. Participa a 3ª Mostra de A
rte sobre o título Dialógos Nordestinos -  Tramas da Cultura)- no Centro Cultural da Câmara Salvador/Bahia reunindo artistas como Carmen Freaza, D´Cardel Aquarela, Katia Cunha, Paula Kalantã, Rina Dalence e Wagner Lacerda entre outros. No mesmo ano foi convidado pela artista plástica e curadora Albha Sampaio a participar da 3ª Exposição coletiva na Casa Amarela, Rua JJ Seabra, Brejões/Bahia. Em 2025 integra a 4.ª coletiva de Diálogos Nordestinos na Feira de São Joaquim uma celebração a ancestralidade à resistência no Centro Cultural Manuel Querino, curadoria Adenilse Romana;  convidado pela artista plástica e curadora Albha Sampaio, participa da 4ª Exposição coletiva na Casa Amarela, Brejões/Bahia. 



sábado, 15 de agosto de 2026

GABRIEL LOPES PONTES E SUA VERSATILIDADE ARTÍSTICA

Foto 1- Gabriel tocando sax. Foto 2 - Dois
Perdidos Numa Noite Imunda, técnica mista.
Foto 3- Autografando para a poeta Liz Mattos.
Foto 4 - Filmando as  paleoesculturas de
Anílson Borges, em Santa Inês,em 2019.
Além de artista visual Gabriel Moreira Caldas Lopes Pontes, assina Gabriel Lopes Pontes, é diretor, ator e autor de peças teatrais, cineasta, romancista, amante da música, gosta do trompete e saxofone. Graduado em Artes Plásticas  e Mestre em Artes Visuais em  pela Escola de Belas Artes e pós-graduado em História - Imagem,  Universidade Federal da Bahia têm sua vida marcada por trabalhos nestas áreas da cultura e sempre está procurando realizar coisas. Agora mesmo está oferecendo seus serviços para escrever por encomenda textos teatrais, roteiros cinematográficos, romances, biografias, autobiografias e traduções do inglês, francês e espanhol. Ele nasceu em Salvador em trinta de março de 1966, portanto está com sessenta anos de idade. Tem uma energia intelectual que deixa muita gente bem mais jovem para trás, mesmo estando com limitações de mobilidade ao ser acometido por uma infecção na coluna vertebral, sendo obrigado a andar numa cadeira de rodas. 

É filho do festejado diretor de teatro Manoel Lopes Pontes, que tem mais se sessenta anos dedicados ao teatro baiano, chegando a encenar dez peças simultaneamente, e sua mãe Maria Angélica Moreira Caldas Lopes Pontes é figurinista. Seu avô era dentista de profissão, mas Augusto Raimundo de Souza Brito de Lopes Pontes quando morava na Capelinha na década de 50, no fim de linha do bairro do Tororó, em Salvador, criou uma sala de cinema em sua casa e semanalmente exibia filmes que eram assistidos por convidados e pelos vizinhos e moradores do entorno. Ele foi nomeado em 1940 coadjuvante de ensino VIII, hoje correspondente a professor auxiliar de ensino, da então Faculdade de Medicina da Bahia, pelo presidente Getúlio Vargas.

                                              CRIOU O GRUPO80

Obras em técnica mista de Gabriel Lopes Pontes.
Estudou o primário e o ginasial no Colégio Maristas, que funcionava no bairro do Canela, em Salvador, e na juventude gostava de mergulhar no trecho da orla marítima  que vai do Iate Clube da Bahia até o Farol da Barra,  pensava estudar Oceanografia. Também gostava de desenhar e pintar e aos seis anos de idade seu pai o matriculou num curso de pintura da galeria Panorama, tendo como professora a artista plástica Anna Georgina. Disse que algo lhe conduzia para o campo das artes, e assim  teve a felicidade de ter como professoras de Educação Artística, no Colégio Maristas, as professoras e artistas visuais Maria Adair, Márcia Magno e Viga Gordilho. Terminando o ginasial foi estudar no Colégio Sophia Costa Pinto e a professora de História da Arte era a artista plástica e grande restauradora   Ana Maria Villar, que   nos brinda com  lindas aquarelas para desejar  um bom dia! Nesta época o Colégio Sophia Costa Pinto já era misto, antes só aceitava mulheres. A diretora era d. Ieda Barradas, ex-primeira-dama e esposa do ex-governador João Durval Carneiro. Ao terminar o colegial já estava disposto a fazer vestibular para a Escola de Belas Artes. Em 1984 fez o vestibular, foi aprovado e por coincidência voltou a ser aluno dessas “mulheres incríveis que tiveram uma importância fundamental na minha formação”, disse Gabriel Lopes Pontes. 

Integrantes do Grupo80: Regina Costa,
Gabriel Lopes Pontes, Dilson Midlej
e o convidado Michael Walker
. Exposição 
Zigue-Zague Multicor, ,1987
.
Sempre foi um estudante rebelde e criativo. Juntamente com seus colegas Regina Costa, Dilson Midlej, Clarissa Carybé, Miguel Bittencourt e Antônio Carlos de Oliveira Barbosa, conhecido como Buriti, que foi um pintor e ilustrador baiano nascido em Feira de Santana em 1945 e falecido em 1988, criaram o Grupo80. Este coletivo visava construir uma identidade artística coletiva e buscar novos espaços de circulação para a produção visual da época. O Grupo80 integrou o caldeirão cultural da Bahia na década de 80, e início da década de 90, e funcionou de 1985 a 1992, período da redemocratização, efervescência de novas linguagens plásticas no Brasil. Afirmou ainda  Gabriel Lopes Pontes que eles fizeram várias exposições coletivas e o grupo tinha este núcleo duro, mas que também vários outros artistas participavam de suas atividades. O grupo surgiu dois anos antes e  em 1987 eles foram procurar uma galeria para expor suas obras  e a responsável pela Galeria Múltiplus, localizada no Morro do Gavazza, em Salvador,  exigiu que arranjassem um patrocinador. Foi aí que seu professor e amigo o paulista Michael Erick Adolph Walker se prontificou a procurar um patrocinador e como conhecia o casal Astrid  e Patrick Hannigan, que é  o maior franqueado da indústria de perfumaria O Boticário, fez a proposta e o casal aceitou. Foi então que criaram a Galeria Aquarela, num prédio de três pavimentos localizado na Avenida Oceânica, no Porto da Barra, em Salvador. No térreo funcionava a galeria, no primeiro andar o ateliê dos artistas e no outro andar servia para guarda de materiais. O prédio da galeria era vizinho ao Farol Praia Center e a pizzaria Micheluccio. 
O amigo e professor de Gravura que arranjou este importante patrocínio assina
 Michael Walker é
Michael Walker.
 licenciado pela Escola Superior de Artes Visuais de Genebra, Suíça, e doutorado em Artes pela Universidade de Barcelona, Espanha, através
 da bolsa CAPES, concedida pelo Ministério de Educação do Brasil. Em 1982 foi bolsista da Fullbright para realizar uma pós-graduação na área da gravura nos EUA - University of New México e California College of Arts and Crafts.  Na Galeria Aquarela tudo era devidamente bancado pelo casal de franqueados da perfumaria. Com a vitória de Fernando Collor de Mello para presidente da República foi instituído pela ministra Zélia Cardoso o chamado de Plano Brasil Novo, que foi um pacote econômico lançado em março de 1990 pelo governo com o objetivo principal de combater a hiperinflação no Brasil. Suas marcas principais
Seis estudos de baleias desenhadas
 recentemente por Gabriel Lopes Pontes
.

foram o confisco de ativos financeiros e o congelamento de preços. Confiscou a poupança dos brasileiros e bloqueou temporariamente as contas correntes e cadernetas de poupança com saldo superior a 50 mil cruzeiros novos e os valores foram depositados nos cofres do Banco Central por 18 meses. Trocou a moeda substituindo o Cruzado Novo pelo Cruzeiro. Congelou os preços e salários com e tabelamento geral de mercadorias e serviços para tentar travar a alta inflacionária. Abertura comercial e extinção de órgãos e de tarifas de importação e extinção ou privatização de empresas e órgãos públicos. Diante desta situação caótica da economia do país os Hannigan não tiveram outra uma alternativa senão o fechamento da Galeria Aquarela.

A peça A Mandrágora,1994, direção de seu
 pai Manoel Lopes Pontes. Gabriel é o terceiro
da esquerda
.
Paralelamente Gabriel Lopes Pontes fazia teatro como ator, autor e diretor. Confessa com orgulho “que desde os seis anos de idade que frequentava os bastidores dos teatros com seus pais Manoel Lopes Pontes e sua mãe Maria Angélica Moreira Caldas Lopes Pontes. Em 1979 traduziu o conto O Coração Revelador. Trata-se do famoso conto de terror psicológico escrito por Edgard Allan Poe e publicado originalmente em 1843. A história explora a mente de um narrador anônimo que tenta provar sua sanidade após cometer um assassinato. Ele traduziu, adaptou para o teatro e foi o ator. O pessoal da colônia espanhola daqui gostou do espetáculo e o convidou para interepretar o papel principal em  O Velho Ciumento, de Cervantes. “El Viejo Celoso, é um esquete ou seja uma cena cômica curta - escrito por Miguel de Cervantes entre 1610 e 1612 e publicado em 1615. A história retrata Cárdano, um homem muito idoso e extremamente ciumento que mantém sua jovem esposa, Lorenza, trancada e isolada do mundo em casa.” Informou Gabriel Lopes Pontes que seu pai viu as duas montagens feitas por ele e “me colocou debaixo do braço e me fez um homem do teatro. Fiquei alguns anos dividido entre as artes plásticas e o teatro. Como a atividade teatral me dava um retorno financeiro bem maior terminei me dedicando mais ao teatro. Cheguei a passar uma temporada em Aracaju onde em 1997 montei a peça A Ratoeira, de Agatha Christie. É uma peça de mistério e assassinato de Agatha Christie, famosa por ser a peça há mais tempo encenada na história do teatro, com mais de 25 mil apresentações desde sua estreia, em Londres, em 1952. Com esta montagem fui premiado como o Melhor Artista de Teatro do Estado de Sergipe." Ele trabalhou com sua parceira e esposa  Érika Rodrigues. Voltaram em 1998 para Salvador e continuaram a fazer teatro por dois anos seguidos.

                                                 No CINEMA

A Suzy ,fêmea do Camarassaurus,
escultura de Anilson Borges, Santa Inês .
Ao retornar  conheceu o professor de História Jorge Nóvoa, na Universidade Federal da Bahia, quando ia cursar História, e foi aconselhado a fazer uma pós-graduação em História- Imagem, ao invés de uma graduação em História. Através de uma bolsa de estudos integral ele fez a pós-graduação, se tornando historiador e passou a ensinar e a dar palestras no circuito universitário de Salvador. Com essas suas andanças ele conheceu o professor e escritor Luiz Ademir Souza que lhe convidou para dar umas aulas sobre Estética de Cinema na cidade de Conceição do Almeida, na Bahia. Lá  estava sendo organizado um Festival de Cinema e  conheceu o artista visual Tau Tourinho ,que atua produção audiovisual independente e na preservação da memória cultural regional. Entre os seus trabalhos mais recentes no cinema, destaca-se a direção do documentário "Os Mandús de Cachoeira", uma obra focada nas manifestações folclóricas e carnavalescas do Recôncavo baiano. Disse Gabriel Lopes Pontes que ele, Tau Tourinho e o fotógrafo Lucas Virgolino fundaram o movimento  NovoCinemaNovo pela renovação do documentário nacional. Fizeram alguns documentários  entre eles Incarcanu, A Tiortina, Os Zumbis de Maria Mandú e a Jega Recebedeira, e logo depois ele seguiu para Lisboa, capital portuguesa, onde realizou um longa sobre o Fado. Revelou ter enfrentado algumas dificuldades e até xenofobia.  O filme que fez chama-se Fado: A Dor Quente e a Paixão Fria que foi lançado no Museu do Fado e posteriormente foi exibido na Fado Tv, em Portugal. Retornou ao Brasil e fez a captura das imagens e som do audiovisual Fazedor de Dinossauros, e Dona Inês Não Passa , sobre a assistente de enfermagem d. Inês Cotrim ,que atuou em Caculé, Licínio de Almeida e região.   As esculturas dos dinossauros ficam na cidade de Santa Inês, interior da Bahia, localizada no Vale do Jequiriçá, a 290 km de Salvador, onde existem mais de uma dezena de réplicas gigantes em tamanho real de dinossauros. As esculturas imensas foram criadas pelo artista plástico Anílson Borges, inspirado em filmes que assistiu sobre esses animais pré-históricos. As esculturas são de fibra de vidro e resina. Quando foi iniciar a edição do filme adoeceu.

                                              Na Literatura

Capas dos três romances e o banner 
 de Gabriel sobre seus serviços.
Além de tradutor  escreveu três romances no estilo pop realismo fantástico, e considera pioneiro neste estilo. Participou  do Nosso Sarau no KreatvLab do Goethe - Institut, no Corredor da Vitória, em Salvador, quando lançou os dois romances de pop realismo fantástico “Absynto Azul” e “O Ano Em Que Miguel Vinagre Perdeu A Visão”. O primeiro romance  foi lançado em 2018 chamado “A Linha”, que compõe a Tríade da Solidão. Disse que sua proposta literária está focada na fusão dos gêneros eróticos, fantástico e humorista, resultado da influência marcante da ficção científica e das histórias em quadrinhos de super-heróis. Numa entrevista ao jornal Correio da Bahia afirmou : "Tenho a literatura como um campo aberto para a livre experimentação estética".

O seu romance A Linha trata de uma história de amor entre um moço punk e uma menininha loura, e segundo a crítica à obra é dividida em sete blocos, as páginas não são numeradas, apenas uma letra – de A a G - denominados fichas-capítulos, identifica cada capítulo. Não nominou seus personagens, apenas são identificados por suas características físicas de comportamento. Os principais personagens a menininha loura e o moço punk são referências para a identificação dos demais que compõem o romance.

Já o Absynto Azul o escritor Gabriel Lopes Pontes  apresenta a jornada de um jovem milionário, dotado de habilidades sensoriais extraordinárias. Ao atingir a maioridade, ele consome uma bebida peculiar e descobre sua verdadeira identidade como um exilado de outro planeta, enfrentando a missão de encontrar a única mulher capaz de amá-lo antes de suas três oportunidades de retorno se esgotarem. Com uma mistura de humor, fantasia e erotismo, a trama explora a complexidade da solidão humana, refletindo sobre as relações e a busca por conexão em um universo repleto de desafios.”

O Ano Em Que Miguel Vinagre Perdeu A Visão  é um romance-concerto dividido em três movimentos. A obra aborda de forma inovadora o daltonismo - um tema pouco explorado e tratado como tabu na literatura universal. O romance na sua estrutura do livro simula movimentos musicais, misturando rítmo e prosa na jornada do protagonista.  A visão de Miguel Vinagre serve como metáfora central para discutir a percepção alterada da realidade e o isolamento humano. O livro complementa os romances A Linha (2018) e Absynto Azul, dentro da proposta estética de Pop Realismo Fantástico do autor.

EXPOSIÇÕES do Grupo 80

Em 1985 - Ploft, no Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA .1986 - Argh!, no Shopping Iguatemi, Salvador-BA. 1987 - Zigue-Zague Multicor, na Galeria Múltiplus, com obras de Regina Costa, Gabriel Lopes Pontes, Dilson Midlej e o convidado Michael Walker, Salvador-BA. 1988 - Exposição Inaugural da Galeria Aquarela, onde mostrou a obra Long John Silver, Salvador-BA. 1989 - Mostra Pintura Baiana Contemporânea, no Centro o Cultural Portão Curitiba-PR; Exposição Curitibaianos, Galeria Aquarela, Salvador-BA; Escarcéu, Galeria ACBEU, Salvador-BA; Em Aberto, na Galeria Aquarela, Salvador-Ba. 1990 - Substância, na Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1991 - Substância II, na Casa dos Artistas, em Ilhéus-BA. Ao lado vemos a montagem cartazes das  três exposições e um banner de Gabriel oferecendo seus serviços .
                                             
CRÍTICAS E REFERÊNCIAS 

Matilde Mattos - "Vejo em Gabriel Lopes Pontes todo o referencial urbano de hoje, que consegue nos passar nos seus personagens de histórias em quadrinhos, nos símbolos, nos emblemas, nos pequenos detalhes que acrescenta quando narra sua fábula perturbadora, onde até o riso é ácido. Influências, é claro que tem, do Jazz aos grandes cartunistas norte-americanos, como William Steig, mas o resultado é ele, Gabriel." No convite-catálogo da coletiva "PLOFT!', Museu de Arte da Bahia, dezembro de 1985.

Dante Galeffi - "Gabriel Lopes Pontes conta estórias de decadência humana: retrata o sarcasmo, a tristeza e a solidão do ser desencantado; a sua paixão é o 'JAZZ', ele vive 'JAZZ', que é a solidão radical; a noite é o espaço vital do solitário JAZZISTA, noite urbanizada, perpassada por luzes intensas de NEON e abandono, marcada pelo ritmo contínuo do sopro." No convite-catálogo da coletiva "ARGH!", Shopping Iguatemi, 1986.

Carlos Eduardo da Rocha - "Gabriel Lopes Pontes, a partir das histórias em quadrinhos, sua primeira experiência no campo da Arte, realiza sua pintura altamente colorida. A sua temática é também plena de modernidade porque inspirada no Jazz. Lopes Pontes cria e recria a figura humana, repito, a partir da sua experiência de desenhista de histórias em quadrinhos, fixando a expressão dos músicos e a forma dos instrumentos musicais, dos saxes, das baterias, dos contrabaixos, onde não faltam os rictus, os esgares, o esforço do sopro, as emoções das melodias e dos sincopados. Muito bom o resultado, com a prodigiosa fantasia deste jovem pintor, músico e ator que é, sem dúvida alguma, Gabriel Lopes Pontes. "No convite-catálogo da coletiva "Zigue-Zague Multicor", Galeria Multiplus,1987.

Vemos três estudos Rhynoceralia e um 
Dinossauro.


Reynivaldo Brito- Escrevi em fevereiro de 2002 na coluna Artes visuais, no jornal ATarde -  GABRIEL EM NOVA FASE:  “Mantendo-se na sua característica de realizar uma pintura de cores vibrantes e bem humorada, marcada pela origem de quadrinista, Gabriel Lopes Pontes inicia uma nova fase como ao lançar o projeto 100 Telas, no qual pretende realizar uma centena de ASTs, que medem, no mínimo 1,20m por 100cm cada uma e todas retratando pessoas reais .“É excitante pintar alguém que realmente existe”, afirma Lopes Pontes, que se está valendo de recurso inédito no seu processo de trabalho, tais como , emprego de modelos vivos, slides e Tracer Projector.

Mas a grande novidade mesmo é o uso da tela, suporte que ele até então vinha relegando a um segundo plano, em função do papel. O projeto é autossustentado com as encomendas de retratos que as pessoas vêm fazendo. “A maioria quer ser retratada exercendo a profissão e quase ninguém abre mão do símbolo do seu signo zodiacal ou do distintivo do clube do coração, havendo também àqueles que querem um nu artístico diferente”, explica o artista. “Na verdade, estou verificando que muita gente só estava esperando uma oportunidade de ser retratado de uma maneira diferente para se decidir a posar”. Nesta série de 100 Retratos, ora em realização, Lopes Pontes está buscando “combinar com posições mais complexas com uma paleta mais equilibrada”. Considera que o projeto é um dos dois que vão representar uma ruptura radical na sua vida artística:” podem rasgar ou incinerar, sem a menor cerimônia, tudo que eu pintei, desenhei, ou quadrinizei até hoje. Renego também todos os espetáculos teatrais que escrevi, dirigi ou nos quais interpretei. Com um material humano que me é dado trabalhar, eu só poderia mesmo ter feito teatro de oligofrenia, pois as pessoas me procuravam motivadas por mero deslumbramento, e deslumbramento não tem nada a ver com arte, que, para mim, é algo nobre e sagrado. Tudo o que eu fiz até agora foi puro exercício - e talvez até mesmo um bom exercício -, mas disto não passa. Aliás, brevemente, virei a público falar de um outro projeto intitulado Maxitemah que, juntamente com o 100 Telas ali- cercará doravante todo meu trabalho”.



 

 

 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O CARTUNISTA PAULO SERRA COMEMORA 50 ANOS DE MERO

O cartunista baiano Paulo Serra 
tem cinquenta anos de estrada.
É hora de comemorar os 50 anos de uma heroica luta ecológica de um artista que criou o personagem Mero em 1976 e até hoje continua combatendo o desmatamento e a morte de animais silvestres em sua luta cotidiana pela ecologia em nosso país, e em particular  em Abrantes, onde reside, e no seu entorno. Seu criador é o cartunista, ilustrador, publicitário e escritor Paulo Serra que já escreveu alguns livros e dezessete cartilhas, num total superior e cem trabalhos gráficos,  todos falando e enfocando a necessidade de preservação de nossos recursos naturais. Paulo Serra aos setenta e três anos de idade fala e discorre com facilidade sobre os temas ligados a ecologia com a mesma força e com o mesmo a entusiasmo de quando o conheci em 1982 na redação do Jornal A Tarde. Na ocasião lhe apresentei ao dr. Jorge Calmon, que era o Redator Chefe do jornal, para que ele lhe mostrasse suas tiras de quadrinhos com o personagem Mero. O encontro foi proveitoso e assim passou a publicar durante alguns anos semanalmente as tiras focadas na ecologia, que na época era um assunto em alta. 

Agora vai realizar uma exposição retrospectiva de sua luta meritória  na Flipelô. A Festa Literária Internacional do Pelourinho-Flipelô começa hoje dia 5 e vai até  9 de agosto de 2026, marcando sua 10ª edição e os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, no Centro Histórico de Salvador, com atividades em espaços como o Café Teatro Zélia Gattai e na Casa Caixa. Será uma oportunidade ímpar para as pessoas que gostam de arte e literatura manterem contatos com artistas e escritores que participarão da Flipelô e conhecer toda a trajetória do cartunista Paulo Serra, que já recebeu a Medalha do Mérito Ambiental Mário Leal Ferreira, concedida pela Câmara Municipal de Salvador, por indicação do vereador do PV, André Fraga.  Ele está apresentando trinta pranchas resumindo sua caminhada durante os cinquenta anos, e está ultimando uma publicação pela Editora Victor, de Isabel Delmondes, sobre Ecologia. O cartunista está  contando toda a história de como começou e criou o personagem Mero que já foi publicado em mais de sessenta jornais e revistas de todo o país.

                          SUA HISTÓRIA

Paulo Serra sempre foi um defensor ferrenho
da Ecologia e dedicou grande parte de
sua vida na defesa da Natureza.
Depois de algumas décadas sem contato presencial com Paulo Serra nos encontramos no meu escritório para relembrar coisas ligadas a seu Mero e falar de suas andanças. Seu nome de batismo é Paulo Roberto Meireles Serra e nasceu em casa no bairro do Canela, em Salvador no dia três de setembro de 1953.  É filho de Orlando Reis Serra, que era contador, e de d. Odelita Meireles Serra, dona de casa. Passados alguns anos seus país foram morar na cidade de Mundo Novo, interior da Bahia, onde ele fez parte do curso primário. Em seguida seus pais retornaram a Salvador e foi estudar na Escola Jesus, Maria José que funcionava no Forte de São Pedro. Ao concluir o primário foi estudar no Colégio Antônio Vieira, no bairro do Garcia, onde permaneceu de 1964 a 1974 até concluir os cursos ginasial e colegial. Já no colégio juntamente com alguns colegas fundaram o jornal estudantil Jorbunalda, que era um jornal mimeografado onde fazia caricaturas de professores, escrevia piadas com seus colegas e professores e fazia críticas. Disse que nunca foram importunados pelos padres jesuítas do Colégio Antônio Vieira, nem mesmo pelo nome do jornal.

Ainda estudante colegial em 1971 juntamente com Bel Borba e o fotógrafo Marco Aurélio passaram a frequentar todos os domingos a Feira do Artesanato coordenada pela Bahiatursa. Esta feira foi criada na década de 70 para que os artistas do Centro Histórico, que vinha sendo recuperado, e de outros bairros de Salvador pudessem

A Lagoa do Abaeté foi uma de suas lutas até 
a criação do Parque Ecológico.
expor e comercializar em pequenas barracas seus produtos de arte e artesanato. Os três jovens vendiam xilogravuras e outros trabalhos. Lembra Paulo Serra que as vendas eram poucas e na década de 90 foi desativada. Ao concluir o colegial decidiu ir morar em São Paulo e matriculou-se nas Faculdades Integradas Alcântara Machado onde concluiu o curso de Publicidade. Estudou na capital paulista graças ao crédito educativo e ajuda de seu avô materno Deocleciano Meireles, por quem tem uma gratidão eterna. Para sobreviver com mais dignidade passou a comercializar seus cartuns enfocando o casario colonial, as baianas do acarajé, pescador, vendedor de coco na praia e outros personagens populares da Bahia, além das matrizes de xilogravuras, porque não dispunha de prensa para reproduzir cópias em papel. Ele fazia as matrizes e pintava vendia nas famosas feiras de arte e artesanato do estado de São Paulo: a Feira de Artesanato da Praça da República, o polo cultural de Embu das Artes e nos eventos sazonais no Parque Ibirapuera.

                                                      NASCIMENTO DE MERO

A imagem do Mero nasceu de uma rachadura 
num muro na capital paulista
.
O seu personagem que o acompanha a décadas surgiu do acaso. Certo dia ele ia num ônibus para a aula de Educação Física, porque nas Faculdades Integradas Alcântara Machado não tinha espaço suficiente para a aulas de educação Física. Quando estava no ônibus avistou uma parede rachada em forma de um corpo humano e sem a cabeça. Guardou aquela imagem, e ao voltar para casa desenhou e acrescentou a cabeça e colocou uma gravata. Estava criado o personagem que durante cinco décadas vem sendo um defensor e guardião da Ecologia.  Disse "o cartunista que alguns reparam que o personagem é corcunda. Mero nasceu assim, é um personagem diferente. Em seguida precisava achar um nome para meu personagem e estava lendo um livro quando me deparei com o nome de um peixe chamado mero. Fui ao dicionário e lá estava escrito que mero significa algo simples, comum, puro ou sem grande importância, e nomeia um peixe grande do mar. O peixe mero pertence à família dos serranídeos (Serranidae), que inclui peixes conhecidos como os badejos, garoupas e chernes e seu nome científico Epinephelus Itajara significa "senhor das pedras" em tupi. Pode medir até três metros e passar dos 400 quilos. É dócil e não tem medo do homem e por isto está ameaçado de extinção." O artista Paulo Serra vibrou quando descobriu a coincidência de que o mero é da família serranídeos, que lembra seu sobrenome Serra.

Depois criou dona Mera e  o filho Merinho.
Já em São Paulo "fui olhar minha mala e encontrei uns desenhos antigos que tinha levado daqui e um deles era de uma mulher regando um prédio, numa verdadeira floresta de prédios. Foi aí que surgiu a ideia de substituir a mulher pelo meu novo personagem e daí em diante ele foi ganhando força com novos cartuns, desenhos." Notou também que morando em São Paulo suas camisas apareciam com a gola suja e aquilo na década de 70 era fruto da poluição das chaminés. “Existia uma fábrica de cerveja da Brahma no bairro do Paraíso que além de exalar um cheiro horrível de cevada ainda poluía quando estava funcionando com suas chaminés trabalhando intensamente. Eram onze mil indústrias na cidade. Mas sempre dizia que ao se formar voltaria para Salvador, mesmo sabendo das oportunidades bem maiores de crescimento que São Paulo oferecia e oferece até hoje de crescimento na profissão."

Aqui chegando o jornalista e estudioso dos quadrinhos Gutemberg Cruz fez um Anuário dos Quadrinhos e incluiu o cartunista Paulo Serra, e em 2022 lançou o Grande Dicionário do Quadrinho Brasileiro, da Editora Noir, com 416 páginas. Este dicionário é uma grande

Mero já foi publicado em mais de sessenta
órgãos da imprensa em todo o país.
fonte de consulta dos quadrinhos em nosso país. Mero nasceu em outubro de 1976 e talvez tenha sido o primeiro personagem de cartum ecológico. Ele se queixa que nunca conseguiu vender um cartum como obra de arte. Muita gente acha que colocar um cartum, uma piada na parede não é bom porque envelhece. Mas, sabemos que Juarez Machado, Ziraldo, Caruso e outros sempre venderem seus cartuns que foram e são emoldurados e pendurados nas paredes. “Aqui para conseguir um local para mostrar os cartuns é muito difícil. Em São Paulo é bem mais fácil. Lá expus no Museu da Imagem e do Som – MIS. Através de uma colega de curso chamada Bárbara, ( ele não lembra o sobrenome, sabe apenas que tinha descendência italiana) levou seus cartuns para o jornalista Ari Silva, que era o dono da Gazeta da Zona Norte. Ele gostou e começou a publicar no seu jornal e depois conseguiu em outros jornais, e hoje o Mero já foi publicado em mais de sessenta jornais e revistas. Fez uma exposição no Planetário do Rio de Janeiro e teve boa visitação. Disse ainda que o Mero é o educador e em seguida criou a família. O Merinho é um menino teimoso, que joga game, consumista e é abusado. Já a mãe a d. Mera é conciliadora e gosta de plantas. O Mero não fala dentro do balão dele. Quando o Mero fala eu desenho e quem vê tem que decodificar o desenho e com isto rompo a fronteira da escrita porque o desenho é entendido em todas as partes do mundo. Se inspirou nos filmes mudos de Charles Chaplin onde as pessoas têm que entender até o que ele está pensando... Expôs também no Planetário , do Rio de Janeiro e em outros estados .

Um selo comemorativo.
Quando retornou em 1980 voltou para Salvador e foi trabalhar na DM9, que era  uma grande empresa de publicidade baiana, mas ficou por pouco tempo. Começou a publicar suas tiras no jornal A Tarde a partir de 1982 no Caderno Econômico e ficou até 1995. Na realidade recebia muito pouco por suas tiras. Foi procurar os grupos ecológicos e entrou para o Gambá onde fazia todas as ilustrações das publicações necessárias. Levou uns dez anos, e em seguida foi para o Germem, que era dirigido por José Augusto Saraiva, já falecido, por quem ele tem gratidão. Aí participou de estudos sobre a Baía de Todos os Santos, sobre os manguezais, da Lagoa do Abaeté. Confessou o Paulo Serra que tem um amor especial pela Lagoa do Abaeté onde passou uns dez anos indo quase diariamente fotografando, desenhando e lutando por sua preservação. Confessa que a maior luta ecológica do Mero foi pela Lagoa do Abaeté. Lembrou que a Área de Proteção Ambiental (APA) das Lagoas e Dunas do Abaeté foi criada em 22 de setembro de 1987 por meio do decreto estadual nº 351. Posteriormente, em 3 de setembro de 1993, foi instituído no local o Parque Metropolitano do Abaeté. 

RESERVA ECOLÓGICA

 Ele contou uma história que merece registro. Graças ao saudoso professor e artista plástico Alceu Lisboa que era dono do então Colégio Nobel, do bairro do Itaigara – recentemente falecido – ele foi fazer em 1990 uma palestra sobre Ecologia e desenhar

A Reserva Espinita  exemplo de preservação.
com as crianças. Em 1990, um episódio marcante mudou os rumos da família. O Antonio Maia tinha 14 anos, relatou ao cartunista e ambientalista Paulo Serra o triste dia em que um caçador derrubou uma árvore para matar uma preguiça na propriedade de seu pai. Comovido, Paulo Serra desenhou a cena em um cartum dedicado ao menino. Naquele instante, Maia teve a certeza que dedicaria sua vida à proteção das matas e animais da Espinita. Décadas depois, os dois se reencontraram, já com a Espinita reconhecida como uma Unidade de Conservação. O nome Espinita é de um bolero mexicano da década de 1940, interpretado pelo trio Los Panchos. O termo significa “pequeno espinho” e remete às desventuras de um amor não correspondido. Quando foi adquirida em 1973, a fazenda já carregava esse nome.”

Anos depois este garoto já homem feito, trinta e tantos anos depois,  o localizou foi até o seu sítio onde Paulo Serra reside em Abrantes, na Bahia,  para dizer que era gestor de uma fazenda transformada em um santuário ecológico. Trata-se de Antônio Lemos Maia Neto, que é o gestor da RPPN Espinita que fica no município de Igrapiúna, no sul da Bahia.A RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) é uma unidade de conservação (UC). Ela faz parte do grupo de uso sustentável de acordo com a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei nº 9.985/2000).” A Espinita pertence a Jazom Araújo de Oliveira que é alagoano,

Desenho de Paulo Serra feito para Antônio
Lemos Maia  no Colégio Nobel ,em 1990.
técnico agrícola e agricultor. Veio para a Bahia em 1971 para trabalhar no desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar no município de Camamu-BA. Foi discípulo, amigo e genro do engenheiro agrônomo Antônio Lemos Maia, responsável pela introdução de diversos cultivos agrícolas no Baixo Sul da Bahia”.“Já o Antônio Lemos Maia Neto é baiano, médico Veterinário formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília-(UnB). Filho dos proprietários, cresceu praticamente dentro da Espinita, perambulando e brincando por suas matas, riachos e plantações. Ainda criança descobriu também, na biblioteca de sua avó Wanda, o mundo dos grandes naturalistas que estudaram a biodiversidade brasileira. Na adolescência plantou sua primeira floresta com espécies nativas, recuperando um antigo roçado de mandioca. Também foi nessa época que começou a observar as aves, abelhas, plantas e outras formas de vida, com uso de binóculo, caderneta de campo, e mais tarde, da fotografia.” (Fonte Reserva Espinita).