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segunda-feira, 21 de junho de 2021

MEMÓRIA DE UDO KNOFF VAI SENDO APAGADA

Vemos o mural de autoria de Udo Knoff e o
teto destruído da casa onde morou e trabalhou
.
 
 Para todos que acompanham as artes   plásticas em   nossa Bahia  vemos com   tristeza o que  aconteceu   com a casa e   as oficinas do grande ceramista Horst   Udo Erich Knoff que nasceu em 1912   na Alemanha   e faleceu em 1994 em   Salvador. Viveu 56 anos em   nossa   Cidade, tendo chegado no ano de 1938.   Tudo   foi destruído, e hoje só resta um   mural que fica em     frente a casa em   ruínas. Este mural poderia ser   removido e integrado ao acervo do Museu que existe   em seu nome, e que também neste momento     encontra-se fechado.
Recebi várias   fotografias   feitas por um artista  que ficou indignado com esta situação, inclusive tenho informações que várias peças de autoria de Udo Knoff , como era mais conhecido,  teriam sido  jogadas no lixo, que  algumas pessoas  recolheram  para seus acervos, e  outras pegaram para vender.      Pessoas que trabalharam nas oficinas lembram que  vários artistas baianos quando eram convidados para fazer um mural de azulejos ou de outras  obras  ligadas a cerâmica recorriam a Udo Knoff , a exemplo de Carybé, Jenner Augusto, Lênio Braga, Sante Scaldaferri ,Genaro de Carvalho dentre outros. Muitos desses artistas que  contavam com os serviços do grande ceramista deixaram lá desenhos, esboços, projetos , pinturas, etc.  Tudo isto pode ter desaparecido. 
A oficina está em ruínas 

Numa conversa que mantive por telefone com sua filha Patrícia ela me  confirmou que não existe mais nada lá. Disse que  seu marido também  faleceu, e que ela e seus irmãos não se interessaram em dar  prosseguimento  ao trabalho que seu pai Udo Knoff desenvolvia. Portanto,  só resta o Museu no Pelourinho, já que o acervo e as oficinas  na  residência  do artista não mais existem.

Ainda existe no Centro Histórico , no Pelourinho, na Rua Frei  Vicente,  número 3 , o Museu Udo Knoff de Azulejaria e Cerâmica que  reúne a  coleção particular do artista de azulejos dos séculos XVII , XVIII,  XIX e  XX de origem portuguesa, inglesa, francesa, holandesa , mexicana  e  belga, além de telhas vitrificadas, jarros e reproduções de azulejos antigos, em sua maioria de casarões que foram demolidos. Também você  pode apreciar  painéis, telhas de beiral, ferramentas, maquinário, objetos e  fotografias. O artista  escreveu o livro Azulejos na Bahia , que foi lançado  em 1986 pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ensinou também  cerâmica na Escola de Belas Artes, da Ufba.

Museu Udo Knoff está
fechado faz tempo.
 Este museu portanto reúne uma coleção valiosa   do  ponto de vista histórico e   cultural, inclusive peças e objetos   confeccionados pelo grande ceramista nas   oficinas que mantinha no bairro de   Brotas, e nas atividades educacionais que   periodicamente  promovia nas   dependências do   próprio museu. No museu   ainda estão arquivados   documentos do artista,   como   desenhos e anotações   as quais permitirão no   futuro estudos mais  sobre a importância de sua obra.

 Estive  no dia 12.6.2021 no Centro Histórico com o objetivo de visitar o   Museu Udo Knoff. Encontrei inexplicavelmente todos os museus fechados, e   não consegui nem autorização para tirar uma foto das obras do ceramista   expostas . O que pude fazer foi fotografar sua fachada e apelar para outras   fontes a fim   de concluir este texto. Dizem que ao vender sua coleção ele   acreditava ser  a   melhor forma de preservá-la , além de concretizar um de   seus sonhos que   era   a existência de um espaço de oficinas como meio de   educar e difundir a   arte   da azulejaria em nossa Bahia. Acontece que as más   administrações nos   últimos anos têm desprezado os museus baianos, e o   Museu Udo Knoff está   fechado há vários meses sem perspectiva de abertura. As informações são   desencontradas. Uns dizem que estaria passando por reformas e também que foi fechado por causa da pandemia. À esta altura não se justifica permanecer fechado, basta criar protocolos para visitação. Já tinha enviado um e-mail pedindo informações e não me responderam. É assim que eles estão tratando a cultura em nossa Bahia. 

Além de conter inúmeras peças de autoria de Udo Knoff  tem muitos azulejos que ele recolheu durante sua existência de demolições de casarões do período colonial. Em 1994 , o então Banco do Estado da Bahia, o Baneb como era mais conhecido, adquiriu parte de sua coleção e inaugurou o Museu Baneb de Azulejaria e Cerâmica Udo Knoff . Cinco anos depois o Baneb foi privatizado e o acervo foi doado ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia ( Ipac) , que inaugurou o museu em 2003 .

O Museu é composto por dois ambientes , sendo que a exposição Azulejaria na Bahia contém materiais da arte da cerâmica e do azulejo , além de apresentar uma visão cronológica da existência do azulejo dos séculos XV ao XX, incluindo sua chegada ao nosso país no século XVII.

O museu conta ainda com fotografias de prédio revestidos com azulejos confeccionados nas oficinas de Udo Knoff, que foram destruídas recentemente. Esses trabalhos são frutos de projetos de artistas os quais recorriam ao Udo para confeccionar os azulejos.

O grande ceramista em seu atelier de Brotas.
                            QUEM ERA

O ceramista Horst Udo Enric Knoff nasceu na  Alemanha,  , na cidade de Halle , em 20 de  maio de 1912  e faleceu em Salvador no dia 7 de junho  de 1994. Era filho de fazendeiros Erich Alfred Wilhem  Knoff e Klara Von Muller Knoff. Chegou a estudar  agronomia , quando conheceu a estudante de Belas Artes  Ivotici Becker Altmayer ,chegando a se matricular em  Belas Artes. Porém devido a proibição de cursar duas  faculdades, terminou optando por Agronomia onde se  diplomou. Em 1948 casou-se com Klara Von Muller e  por volta de 1950 veio morar no Rio de Janeiro, e passou  a trabalhar na Cerâmica Duvivier , em Jacarepaguá. Daí se apaixonou pela arte de cerâmica e passou a fazer alguns cursos de especialização, e em 1952 a convite do professor Carlos Eduardo da Rocha veio fazer uma exposição de obras em óleo sobre tela na então Galeria Oxumaré, que funcionava no Passeio Público. Gostou da Bahia e veio de vez morar na Avenida D. João VI, em Brotas, onde manteve durante anos cinco fornos para a queima de suas peças e de outros artistas. No ano de 1960 por indicação do professor Mendonça Filho foi contratado pelo reitor Edgard Santos para lecionar na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Oito anos depois passou a recolher antigos azulejos de casarões em demolição, formando um acervo considerável. Em 1975 foi para Portugal e em Lisboa coletou material suficiente para finalizar sua pesquisa no Museu Madre Deus, hoje conhecido por Museu do Azulejo. Em 1986 publicou o livro Azulejos da Bahia.

Uma vista parcial do museu Udo Knoff
 quando estava funcionando.
 O saudoso Udo Knoff trabalhou não apenas criando   suas peças, mas também como executor de   importantes projetos de vários artistas consagrados.   Quando o paraense Lênio Braga foi convidado para   fazer um mural para a Rodoviária de Feira de   Santana foi ele quem fez os azulejos. O mesmo   aconteceu com vários murais de Carybé como o   existente na Casa de Jorge Amado, os que   emolduram a fachada do Banco do Brasil, na   Cidade   Baixa. Também fez trabalhos para o artista   sergipano  Jenner Augusto que tem murais no   edificio do Banco do estado de Sergipe e da Energisa. Cito ainda os artistas Genaro de Carvalho, Floriano Teixeira, Calazans Neto, dentre outros. Portanto, quando os artistas eram convidados a criar um mural lá era convocado o Udo Knoff para executar os azulejos que os comporiam. 

                     ORIGEM 

A palavra azulejo significa pedra cintilante ou polida, e é uma tradição maometana  que data de 894 . Os azulejos revestem a mesquita de Sidi Okba , em Kairouan, com elementos vindos de Bagdá. Também são presença na Pérsia , hoje Irã, onde desde o século XII houve uma grande expansão de sua produção  sendo exportados para toda Península Ibérica. Foram os portugueses que trouxeram os azulejos para o Brasil no século XVII, sendo logo aceitos para revestimento dos casarões por ser esmaltado e portanto impermeável resistente às intempéries . Um detalhe interessante que é na região Nordeste onde se encontra até hoje a maioria  de azulejos no Brasil. Esta é a Mesquita de Sidi Okba, Kairouan, na Tunísia, onde os azulejos foram usados inicialmente.









sábado, 12 de junho de 2021

O OUTONO INSTIGANTE DE LEDA CATUNDA

Capa do catálogo da exposição 
 Hoje vou falar de uma artista paulista que está inserida nos   grandes circuitos da arte moderna. Não produz uma arte como a   maioria das pessoas está acostumada a apreciar. É uma arte que   rompe com o tradicional, que pode não agradar a um ou outro  , mas que   provoca, instiga. Para falar de Leda Catunda e sua   exposição  Outono ora na Galeria Paulo Darzé , em Salvador,   Bahia,  não é preciso navegar nas águas da Baía de Todos os   Santos, nas alucinações ideológicas de alguns de que vivemos   num  governo autoritário, e muito menos na obviedade de que   toda arte é uma criação. Já sabemos que sem criação não existe   literatura ou qualquer outra manifestação artística, inclusive arte   moderna.
Percorri com Paulo Darzé a exposição olhando cada detalhe de suas obras e  senti que ali foi empregada uma força extraordinária no  ato de criar. Leda costura, cola, pinta, sequencia materiais, superpõe ,ultrapassa os limites do suporte, enfim é uma liberdade total exercida por esta artista de grande talento. Confesso que saí da galeria tendo uma compreensão de quanto uma artista pode expressar toda sua criatividade com uma liberdade total. Outro sentimento que tive foi a vontade de tocar nas obras, muitas das quais são verdadeiros objetos plásticos. O toque cuidadoso faz parte e complementa  o olhar  para sentir mais profundamente  as obras de Leda Catunda ora expostas .

  Quando falamos  em outono lembramos da estação quando  as   árvores perdem suas folhas e começam a  serem levadas  ao   sabor  dos ventos. Primeiro elas vão ficando amareladas  e   começam a cair muitas vezes num ritmo frenético, noutras mais devagar, a depender de cada espécie de árvore. Lembro de ter visto no Central Park, em Nova York ,as trilhas cobertas por folhas amareladas de carvalhos, ciprestes  e de outras árvores típicas da América . É um espetáculo bonito, porque as árvores perdem as folhas para enfrentar o rigor do inverno que se aproxima. Coisas da natureza. 

Artista Leda Catunda
Sempre nos meus vários anos que escrevo sobre arte e artistas deixo claro que não sou um crítico de arte, e sim um jornalista que gosta e registra os eventos de arte. Não busco palavras difíceis, porque tenho como objetivo que a pessoas que se dispõem a ler o que escrevo entendam do que estou tratando . Poderia até usar palavras não muito usuais  no vocabulário da maioria das pessoas, porque tenho conhecimento para isto. Porém , evito. Escrevo com objetividade jornalística buscando a compreensão, e não complexidade da linguagem, a distorção dos fatos, e a mentira como vemos hoje no Jornalismo em todo o mundo, especialmente aqui no Brasil. Pode parecer para alguns algo simplório, que continuem pensando assim.

Mas, vamos falar da exposição  Outono, de Leda Catunda . Estive frequentando durante anos muitas da bienais internacionais realizadas na capital paulista e fora daqui, salões nacionais e locais , já visitei  museus por este mundo afora. Para cada tela, escultura ou outro objeto de arte que olhei sempre procurei examinar com vagar e muitos me emocionaram , outros nem  tanto. Lembro que ao ficar diante da escultura de Davi, de Michelangelo ,  em Florença, na Itália,  senti grande emoção. Sensação indescritível. 

 Céu com Sol, em
 acrílica sobre tecido
O que vejo nas atuais obras de Leda Catunda são resultado ou desdobramento das assemblages  que despertam estranhamento nas pessoas que não estão acostumadas com este tipo de abordagem artística. Ela não usa objetos como brinquedos, peças de máquinas, mas elementos que cria e os dispõe superpostos.  Sabemos que não existem regras para a entrada do artista no seu mundo de criação. As ideias muitas vezes vão surgindo aleatoriamente e os resultados surpreendem até o autor. Quantos quadros, esculturas e outras formas de arte foram destruídos por seus autores por não gostarem dos resultados obtidos? Milhares, temos certeza. Isto demonstra que as ideias vão fluindo e levando o artista para caminhos e soluções nunca experimentados. Ai está o fascínio da criação.

Nas obras expostas  Leda Catunda não utiliza uma variedade de objetos . Vejo que trabalhou com tela e tecidos usando ainda tintas acrílica e esmalte para dar o colorido desejado e deixar que o observador  de sua arte viaje com percepção e sensibilidade neste universo plástico . A princípio pode até lhe causar espanto, mas a tendência é que procure a compreensão, a aceitação ou não. O que importa é que suas obras instigam as pessoas a pensar e a reagir.  

Obra Montanha 
 Criar durante uma pandemia que se abate sobre todo o Planeta certamente haverá alguma influência nas obras a serem produzidas por qualquer artista . É previsível, tendo em vista que estamos todos afetados por este vírus ainda de natureza desconhecida, inclusive da sua origem, embora tenham sido registrados na  China os primeiros casos de mortes. Leda diz que diante deste clima de medo  sentiu que "a pintura plana não era suficiente para expressar ideias, e assim através desses elementos construtivos fui buscando um corpo com uma forma própria para as obras".

Na obra Céu com Sol, tanto o céu quanto o sol são como se fossem detalhes, e os vários elementos superpostos lembram línguas  onde predominam as cores verdes e azuis. Foi produzido em acrílica sobre tecido, e também nos remete a tapetes  de retalhos que estamos acostumados a ver . Mas, esta obra tem refinamento de uma artista que conhece o seu ofício, e também repassa para os jovens os seus ensinamentos perceptivos e o fazer da arte .

Como a leitura de uma obra de arte permite várias interpretações, lembrei da construção de um romance onde o autor descreve seus personagens, e se você perguntar a vários leitores como idealizam tal personagem vamos perceber que cada um cria seu próprio personagem, tais as diferenças de percepção. Esta mesma visão serve para a leitura  das obras expostas pela Leda Catunda.

Defendo a importância das referências e o respeito pelo passado. Não existe presente sem passado. Para acompanharmos a evolução é preciso entender o passado. Nada começa do zero. Vi recentemente movimentos extremistas querendo destruir museus e estátuas de navegadores portugueses e espanhóis. A História tem que ser vista dentro do seu contexto de tempo. Claro que não concordamos hoje com a maneira e as formas desses colonizadores  tratarem pessoas e a própria terra. Mas, temos que ver o contexto e a época. No criminoso incêndio do Museu Nacional, de perda inestimável para o nosso país, li manifestações absurdas de extremistas achando uma coisa trivial o fogo consumir milhares de objetos históricos e de arte. Inclusive o responsável pelo museu era um extremista que está fugido da Justiça. Coisas do nosso Brasil. 

 Tigrão, esmalte  e
acrílica sobre tecido. 
As obras expostas são uma demonstração da presença do passado. Primeiro vieram as pinturas ruprestes nas paredes das cavernas, nos couros de animais , nas tábuas durante a Idade Média , nas telas de tecidos e noutras plataformas todas servindo para os artistas expressarem sua imaginação e sentimento. Já Leda Catunda escolheu o tecido , partindo de um desenho foi colando os elementos que compõem brilhantemente as suas obras.  Parabéns à artista e ao galerista Paulo Darzé por trazer esta importante exposição para nossa Salvador. 

Lembro que nos anos 80 houve um explosão de artistas em todo o mundo fazendo assemblage , que é um termo francês que significa montagem. Assim, os artistas reuniam os mais diferentes objetos de plástico, tecidos, madeiras, ferro e com cola , solda ou até pregos fixavam numa placa de madeira, plástico , tecido ou metal e expunham. É bom salientar que os objetos reunidos representavam algo novo, mas conservavam sua originalidade. 

Quem usou pela primeira vez a assemblage foi o artista francês Jean Dubuffet  que nasceu em 1901 e faleceu em 1985. Era adepto do dadaísmo, que era um movimento vanguardista  surgido no início do século passado. A palavra dadaísmo  vem da palavra dadá que não significa nada, embora aqui no Brasil muita gente tem este apelido afetivo. 

Já o movimento dadaísmo surgiu exatamente em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial como contestação aos valores culturais vigentes. Uma das características principais das obras dos dadaistas é que elas são desconexas, sem um sentido aparente, uma forma de protesto contra o absurdo da guerra.



segunda-feira, 24 de maio de 2021

O MÉDICO QUE TAMBÉM ENSINOU A PINTAR

Na foto  vemos o Colégio dos Jesuítas, em 1808,
no Terreiro de Jesus, hoje funciona a Faculdade 
 de  Medicina. Esta obra foi feita em carvão sobre 
papel com  60 cm x 164 cm  é datada de 1956.   
    
O médico Octávio Torres  era um  profissional conceituado em Salvador nos idos de 1910,especialista em doenças tropicais,  mas tinha uma outra habilidade que era a arte de desenhar. Ele deixou registrado em seus desenhos feitos a carvão de algumas cenas da Cidade do Salvador no início do século XX. Era natural da Vila Santa Izabel do Paraguaçu, hoje município de Mucugê, onde   nasceu em 25 de setembro de 1885. Estudou Medicina  sendo diplomado em 1909, tornando-se depois  professor Catedrático de Patologia Geral, em 1912.                                                                           
Imagem de Octávio
Torres ,na Faculdade
de Medicina da UFBA.
O desenhista Octávio Torres frequentou  também o Liceu de Artes e Ofícios, e estudou na Escola de Belas Artes os cursos de pintura, escultura e arquitetura, sendo que este último não chegou a concluir, interrompendo no segundo ano. Ganhou uma bolsa de estudos  para os Estados Unidos indo estudar na Universidade de Harvard , Instituto Rockfeller e  no laboratório bacteriológico na cidade de Washington. Tem mais de 250 publicações científicas, literárias e biografias. Aposentou-se após 44 anos de serviço, e faleceu em Salvador no dia 31 de maio de 1963.
  No livro Vultos da Medicina Brasileira, o autor Carlos Silva Lacaz escreveu sobre Octávio Torres :

"Que os moços saibam enaltecer a obra científica e social do professor Octávio Torres, brasileiro dos mais ilustres, trabalhador infatigável, o grande animador da campanha pró-lázaros em terras da Bahia". 
Vemos ai a Praça dos Veteranos ,também em 
carvão feito pelo médico pintor e desenhista
Ensinou na Escola de Belas Artes a disciplina Anatomia e Fisiologia Artísticas após concurso que prestou em 1932. Lembra o professor Juarez Paraíso que "Octávio Torres era da geração dos professores da década de 1930 e 1950 . Ele foi substituído por Aldemiro Brochado  que fez um brilhante concurso para Livre Docente na cadeira de Anatomia Artística . Brochado não desenhava bem. Fui convidado por ele para dar aulas de Desenho , dizendo que tinha sabido que eu era o melhor professor de Desenho da EBA. Eu respondi, dizendo que isto não era verdade , mas que, de qualquer forma, esperava que ele fosse um ótimo aluno . Resultado , ele tirou 10 na prova de Desenho Artístico , para assombro de todos , inclusive de três professores do Rio de Janeiro."

sábado, 15 de maio de 2021

EMÍDIO MAGALHÃES E A PLACIDEZ DE SUA OBRA

O mestre Emídio Magalhães numa exposição .

Era uma tarde qualquer no meio de uma semana  quando telefonei para Emídio Magalhães, professor  aposentado da Escola de Belas Artes e um dos  grandes retratistas que a Bahia já conheceu. Acertamos a entrevista  para o dia seguinte, e lá fui  encontrá-lo . Me recebeu com um sorriso cheio de  placidez e sabedoria. Os cabelos brancos  e  mostrando uma calma fruto da sabedoria e da   existência que nos presenteou com belas obras . Sua  casa tinha uma vista privilegiada para o mar em  plena  Enseada dos Tanheiros, no bairro da Ribeira,  próxima ao prédio onde funciona a Sorveteria da Ribeira, tão conhecida e procurada pelos baianos.  Anos depois, soube que adquirira  uma nova moradia  e com sua família foram morar pras bandas da orla marítima. Comprou novos materiais de pintura e estava com muitos projetos e vontade de pintar. Mas, não conseguiu realizar o seu sonho. Foi fazer  a uma cirurgia de catarata dos dois olhos simultaneamente e ficou totalmente cego . Deixou mais esta lição. Não faça cirurgia de seus olhos dos dois ao mesmo tempo. Emídio Magalhães Lima  nasceu  em Salvador, Bahia 08 de agosto de 1907 e faleceu Salvador, Bahia, 09 maio de 1990.
                                                               SUA TRAJETÓRIA

O famoso retrato do reitor
Edgard Santos .
 No ano de 1930 ele concluiu o Curso de Pintura na Escola de Belas Artes e   participou do concurso para professor adjunto de Desenho, da Escola Técnica   da Bahia, tendo sido aprovado e exercido a função durante dois anos. Em  1932  ganhou o Prêmio Caminhoá , com direito a uma viagem para estudar na   Europa, porém, o Governo da Bahia de então não liberou os recursos para que   pudesse seguir viagem. 
 Já em 1939 recebeu a Medalha de Bronze, no Salão Nacional de Belas Artes,   e  a partir daí foi premiado com medalhas em quase todas as suas   participações  em salões. Em 1950 ganhou a Medalha de Prata com a obra   "Retrato de Devesa", no Salão Paulista de Belas Artes.
Em 1953 ocupou o cargo interino de professor de Desenho Ornamental, na Escola Técnica, de Belo Horizonte, função que exerceu até 1957, quando foi convidado pelo então diretor da Escola de Belas Artes da UFba para ministrar, como professor contratado as aulas  no Curso de Pintura. Foi um dos grandes sucessores do mestre Presciliano Silva. Como bom retratista que era pintou o reitor Edgard Santos, os professores da Faculdade de Medicina da Bahia Arestides Novis,  Antônio Luiz Cavalcanti de Albuquerque de Barros Barros , Eduardo Diniz Gonçalves e Eduardo Albertazzi Diniz Gonçalves. Em 1957 recebeu a Medalha de Ouro no Salão Baiano de Belas Artes . 
Baiana de Acarajé deda minha
coleção
.
 Em 1961 seguiu a carreira de docente como professor da Escola de Belas  Artes, da qual foi diretor a partir de 1967. Talvez sua produção artística seja  um pouco limitada diante do seu grande talento porque ele se envolveu em  várias transferências de local e decisões administrativas relevantes para o  futuro da EBA, tomando parte também de decisões administrativas relevantes  Em 1963 recebeu a Medalha de Ouro, no Salão Nacional de Belas Artes, vencendo vários de seus colegas , inclusive o seu mestre Presciliano Silva.
 Participou nos anos 1939,43,44,49 e 51 do Salão Nacional de Belas Artes,  no  Rio de Janeiro. Nos anos 1949 e 50 do Salão Paulista de Belas Artes. Em  1959 da exposição Um Século da Pintura Brasileira, no Museu de Belas  Artes,  do Rio de Janeiro. Em 1957 do Salão Nacional de Belas Artes, em  Salvador. Nos anos 1967,69,70 e 76 de mostras na Panorama Galeria de Arte, em Salvador, da qual era o Patrono, segundo informa a artista e galerista Anna Georgina. No ano 2000 foi postumamente homenageado com uma exposição  100 Anos de Emídio Magalhães , na Galeria Cañizares, da Universidade Federal da Bahia. 
Publico aqui um texto escrito em 2007 por Juarez Paraíso sobre o professor Emídio Magalhães, onde ele ressalta as suas qualidades artísticas e também o seu jeito simples de ser. 
     
 O título do texto é O   Mestre Emídio Magalhães. Vejamos:
Vaqueiro de Couraça

 "Conheci o Mestre Emídio Magalhães logo após a aposentadoria de   Presciliano Silva, quando ocupou o seu lugar no ensino da cadeira de   Pintura.  Fui seu aluno durante três anos e cultivamos uma preciosa e   duradoura amizade. Pintou o meu retrato, “de corpo inteiro”, obra premiada   no Salão Nacional de Belas Artes, o qual eu tive o prazer de oferecer para o   acervo da Escola de Belas Artes, em 1997. Fui seu aluno durante a década de   1950, ao lado de Sante Scaldaferri, Riolan Coutinho, Mercedes Kruschewski,   Yêdamaria, Augusto     Bandeira e tantos outros de tão prezada memória. Dos   grandes mestres da Academia, Jair Brandão, Mendonça Filho, Alberto   Valença e Ismael de Barros, Emídio Magalhães era o mais modesto, mas não menos talentoso. Dotado de uma excepcional habilidade e domínio técnico na área da pintura realista, dispensava o emprego tradicional do desenho como suporte para a realização de suas pinturas, principalmente com o gênero de retratos que oferece enorme grau de dificuldades. Atacava diretamente a tela com o seu pincel carregado de tinta, com golpes certeiros, sempre precedido de intensa concentração. Pintou inúmeros retratos, para vários particulares e instituições, sempre buscando “o caráter psicológico” do
Nu feminino da EBA.
 retratado, independentemente do seu  caráter físico, o que sempre conseguiu com  sucesso e extraordinária riqueza plástica.  Dentre outros, extraordinário exemplo é o  retrato do Reitor Edgard Santos, que se  encontra na Reitoria da UFBA. Conhecido e respeitado nacionalmente ,  Emídio  Magalhães foi bem sucedido nas exposições e salões nos quais apresentou os  seus  trabalhos, sendo premiado várias vezes no Salão Nacional de Belas Artes.  Comprometido com as causas sociais, sempre passou para os seus alunos a sua  necessidade de expressar   respeito pela vida e pelas pessoas mais simples, através da  arte da pintura. O seu “realismo social” está bem expresso em pinturas como “O  Bebedor de Pinga”, “Baiana do Acarajé de Saia Rosa” e o “Vaqueiro das Ilusões”. A  fatura pictórica de Emídio Magalhães é caracterizada pela pincelada “gorda”, carregada de tinta, ao contrario das pinceladas curtas e econômicas de Presciliano ou Valença. A sua pincelada não indica apenas a cor local, pois imprime também a energia da ação exercida pelo artista em busca do movimento mais expressivo no modelado dos planos anatômicos, o que enriquece o seu Realismo honesto e sem truques, aumentando a importância artística dos seus retratos, superando os limites da simples fotografia dos seus modelos."



terça-feira, 11 de maio de 2021

NOVO ÁLBUM DE SÉRGIO RABINOVITZ

Capa do álbum "A Vida Secreta das Plantas."
O
artista Sérgio Rabinovitz acaba de lançar seu   terceiro álbum de monotipias "A Vida Secreta   das Plantas", editado pela Editora  Resiliente  com   10 monotipias  de 18 x 24 cm em papel   Canson de   300g, mantendo assim o seu compromisso de   semestralmente criar novas  obras  e apresentá-las     na  forma de álbuns. Elas podem ser adquiridas  ao   preço de R$450,00 a  unidade.
O primeiro álbum   intitulado   Resilientes já  está esgotado e surgiu   logo no   princípio da   epidemia no ano   passado,   atendendo uma sugestão do escultor Israel kislansky. Foram produzidas  várias obras de autoria de Israel Kislansky, Sérgio Rabinovitz, Bel  Borba , dentre   outros , e o resultado das vendas doardo às pessoas mais necessitadas. As monotipias de Sérgio Rabinovitz foram vendidas as R350 cada. 
Eles tiveram  a preocupação de evitar divulgação ampla para não parecer que estariam usando esta ação
O álbum Paz  foi um sucesso

de solidariedade para se promover. O importante é que todos eles foram imbuídos da melhor das intenções. Daqui quero mandar um abraço solidário para esses artistas, e  em especial ao Israel Kislansky, que teve esta ideia do projeto.  Faço este registro para que pessoas de outras categorias profissionais e mesmo mais  artistas possam ser tocados da necessidade de sermos solidários neste momento desta terrível pandemia que já ceifou milhares  de vidas, empresas e empregos.
Voltando ao trabalho de Sérgio Rabinovitz  ele verificou que devido a receptividade alcançada com Resiliente resolveu produzir  mais dois álbuns temáticos o PAZ e A Vida Secreta das Plantas. Disse o artista que "a partir de então um sonho se transformou em realidade", e que o sucesso do primeiro álbum o animou a prosseguir,a seguir em frente com o resgate da acessibilidade, premisssa fundamental da gravura desde os seus primórdios."
Uma das monotipias integrantes do álbum  
"Resilientes"
 Ai veio o segundo álbum que ele se expressou dizendo "Celebro esse momento transmitindo minha   mensagem de PAZ, através  desse  catálogo limitado   que reúne 11 monotipias de  18 x 24 cm em papel   canson de 300 g, por um valor promocional de   R$380,00 cada." Em pouco tempo este catálogo   também se esgotou. 
 Foi um trabalho próprio do   artista, sem o objetivo de doação.Falando sobre o   álbum mais recente " A Vida Secreta das Plantas"   Sérgio  lembra que "vivemos em um mundo cada   vez mais carente de ressignificação . Esses lindos   seres de pura beleza e sensibilidade e de universal   inteligência quântica, têm muito a nos ensinar.   Tenho  nelas , mais que inspiração permanente, conselheiras e confidentes, na cumplicidade de estórias de que me atrevo a compartilhar  com um convite para que viaje comigo nessa breve jornada de pura emoção !" 
Portanto, o convite está feito, e só nos resta apreciar a beleza dessas dez novas monotipias onde a natureza mostra mais uma vez a sua beleza e grandeza. Como sou um viciado em plantar, e cultivo com muito zelo e carinho uma pequenina mancha de Mata Atlãntica intacta  fico muito à vontade para apreciar mais este trabalho de alta qualidade do Sérgio Rabinovitz baseado nas plantas.Ele passou mais de um mês criando este álbum  trabalhando sózinho,  como ele mesmo revelou "com uma colher de pau na mão,  para poder   oferecer esse trabalho a preço acessível , dentro do espírito da gravura."  

                                              A TÉCNICA USADA 
Sérgio trabalhando em 
suas monotipias.
"A monotipia teve origem no século 17, com Giovanni Benedetto Castiglione  que nasceu em 1616 e morreu em 1670Sabemos que a  reprodução permite maior acesso desde os tempos longínquos  da   Idade  Média, quando foi criada e se notabilizou com a descoberta da  prensa de  Gutemberg. 
Como estamos numa plataforma digitial é sempre bom falar sobre esta  técnica da monotipia, que é simples e  utilizada por muitos artistas  importantes como Degas, dentre outros, e  resulta em belas e valiosas  obras. Para sua confecção são usadas tintas de gráfica ou outras de  secagem lenta à base de óleo. 
Como base pode ser utilizada uma placa de acrílico, fórmica,vidro ou  outro material liso. Aplicando uma camada de tinta sobre a placa com um  rolo usado em xilogravura ou em gráficas você vai distribuindo a tinta  para ficar com uma camada mais ou menos uniforme. Depois coloca o  papel em cima e faz o desenho que desejar com um lápis ou outro objeto  ponteagudo. Ao retirar o papel a imagem estará impressa  e a monotipia  estará pronta.Portanto, a imagem aparece impressa no lado oposto do  papel. Esta imagem evidente que não será totalmente fiel ao desenho  original , porque na passagem para o papel, no momento da impressão, as  tintas se misturam e surgem efeitos imprevisíveis.
 Esta é a monotipia monocromática, de um só cor. Se quiser com cores  variadas na mesma monotipia terá que espalhar cada cor numa placa diferente, e vai mudando o papel de uma para outra placa, e acrescendo novos traços ou decalques. Só a prática lhe dará resultados mais  satisfatórios e sofisticados. Tudo dependerá da sensibilidade, habilidade e da capacidade criativa de cada um.  

quinta-feira, 6 de maio de 2021

JOVENS EXPRESSAM SUAS VIDAS NA PERIFERIA

 Nícholas de Jesus ,as professoras Maria das
Graças e Iolanda Bonfim , e Rafael Silva.
Jovens estudantes do Colégio Cosme de   Farias,  localizado no bairro do mesmo nome, foram   incentivados por sua professora de Arte, Iolanda   Bonfim França, durante o período que lá estudaram   a expressar através das artes as suas vivências na   escola e no bairro onde moram. O resultado foi   surpreendente porque jovens que não tinham   manejado com frequência os pincéis e as tintas   conseguiram dentro de suas limitações  de informações técnicas  e habilidades passar para as telas, e o papel aquilo que aprenderam e vivienciam no seu dia-a-dia .
Eles participaram do Projeto Artes Visuais  Estudantis com alunos de outras escolas públicas  que  objetiva desenvolver a linguagem artística entre estudantes da rede estadual de ensino. É uma experiência que merece apoio de todos que gostam de arte. Alguns se expressaram através da música, outros escrevendo poesias, contos, e  da pintura. As professoras ficaram muito impressionadas com a disposição dos jovens em querer expressar todas as dificuldades e as
Nícholas com  sua obra .
.
 alegrias que compartilham diariamente com seus professores, colegas e familiares. Todos têm consciência que é preciso estudar para vencer as barreiras da pobreza, e acreditam que só o estudo é capaz de lhes abrir portas para galgar melhores condições de vida no futuro. 
A professora Iolanda Bonfim enaltece a sensibilidade de muitos dos alunos que mesmo morando num bairro periférico não perderam sua capacidade de criar .Ela falou da triste realidade onde alguns alunos já foram assassinados e um pequeno grupo anda metido em coisas erradas. Mas, a maioria é de jovens que estuda e procura vencer os obstáculos das moradias ruins, do ambiente em que vivem , enfim da pobreza. Portanto, dentro dentro desta realidade as obras criadas pelos   estudantes-artistas enfocam problemas como a 
Rafael com a obra 
"Inocência Ferida".
fome, violência,  pobreza, a moradia deficiente, falta de   saneamento básico  e outros aspectos sociais e econômicos. 
O estudante Nícholas de   Jesus Nunes,  de 22 anos,  pintou a obra "Fome de Quê," mostrando   um jovem esquelético  sentado na mesa com uma faca e garfo e uma bola de futebol no prato. Para ele só através a   educação que é possível vencer os   muitos  obstáculos que tem   encontrado pela frente. Hoje ele é bolsista do ProUne   e  está   cursando  o 5º semestre na Faculdade de Direito da Universidade   Católica   de  Salvador e estagiando na Advocacia Geral da União, em   Salvador. 
 Já Rafael Silva Arcanjo, de 21 anos, concluiu o curso médio na Escola   Cosme
de   Farias, e considerou sua participação no Projeto " muito   importante e minha pintura   é baseada nos meninos do bairro." 
Obra "Fome de Quê?",de 
Nicholas Nunes 
Pedi a   cada um deles que fizesse um depoimento   sobre sua visão de mundo e  o que expressam em suas pinturas. 
Veja o depoimento   do  Rafael Silva :
 A realidade da   favela é um pouco   mais complexa  comparada a  de um bairro nobre. Nas escolas  municipais e estaduais, cada   oportunidade é  como  uma moeda de ouro recebida de um rei,  precisamos  apenas saber  onde usar e como usar. Na escola  onde  estudava tinha um projeto  chamado  AVE  que  significa Artes Visuais  Estudantis. Em meio a  tantas  dificuldades  recebi a oportunidade de  participar  desse projeto .  Ano após ano  tentava, eu sentia que  a cada  ano que passava  estava mais  perto de  conseguir algo inacreditável. Mas, infelizmente a  realidade  sempre foi cruel para o povo favelado, e a  cada ano que eu não  conseguia,  pensava  em  desistir. Porém,  quando estava triste  aparecia  um  anjo, ou melhor uma professora, que sempre  incentivava,  aquilo era revigorante. Até o 2º ano do  ensino médio  não havia chegado tão longe com meu quadro chamado "Igualdade? Se Existe, Cadê?". Mesmo assim não foi o suficiente,  cada pensamento era que  ainda teria mais uma chance. No meu 3º ano do ensino médio pensei que chegara a hora de colocar na tela tudo que  via, ouvia, sentia, tudo   que  tinha 
Rafael  apresenta a 
realidade das   moradias,
a violência e a fome.
passado, todas as pessoas que  havia   perdido,  tinha que mostrar tudo. Naquele ano chorei   pensei nas mortes e na minha própria morte , pensei   em cada motivo que me mantinha de pé , em cada,   professora que tanto havia me apoiado e incentivado     não apenas as professoras de Artes, mas de todas   as  matérias, que faziam questão de estar ali comigo   e   toda a equipe . Elas foram e são tão incríveis que   então consegui recriar tudo aquilo em uma tela com   tinta e pincel, fiz o quadro chamado "Inocência   Ferida".Cada professor que tive me mostrou que   todos   temos capacidades só precisamos nos   aceitar".   Meu nome é Rafael Silva Arcanjo,    tenho 21 anos .
Nicholas mostrando a fome
pelos livros.
Já em seu depoimento Nícholas de Jesus Nunes, de   22 anos,  escreveu "enquanto outros jovens estavam   se perdendo na rua ou recebendo o resultado triste da   falta de apoio, estive em momentos reservados  do   turno matutino, entretido no projeto Artes Visuais   Estudantis - AVE. Mas, não era aapenas esse, pois tivemos, enquanto alunos, a oportunidade de desenvolver  outras atividades como poesia, dança,canto, etc. Porém,  foi na pintura de quadros, desde releituras a expressão  crítica do pensamento , que pude notar e me situar meu lugar no mundo". E continuou " Portanto, a educação sóciocultural é sem dúvidas a maneira necessária e o professor é o instrumento de mediação que ajuda o aluno a construir o pilar e sua ferramenta de emancipação".




domingo, 2 de maio de 2021

NEWTON SILVA O MESTRE DO DESENHO E DA PINTURA DE INTERIORES

Newton Silva
O professor e artista plástico Newton Raymundo da Silva foi um dos mais destacados no seu ofício de desenhar e pintar temas religiosos, e também cenas de ruas , feiras livres, mendigos,  velhos e crianças em nossa Bahia. Ele foi  um dos últimos expoentes baianos da pintura realista acadêmica .  Sua produção pode ser dividida para fins de melhor compreensão de sua trajetória em três momentos. Primeiro, ele começou a pintar marinhas, feiras e ruas. Depois focou na temática social com muitos desenhos de mendigos, velhos, crianças , e finalmente os temas religiosos,  onde surgem obras  retratando os templos com seus múltiplos elementos e nuances de cores e luzes.  No seu livro "Newton  Silva - A Construção do Traço e da Luz" , escrito pela professora Elizabeth Maia Fernandes, em 1995, ela  registrou que a maior dificuldade encontrada pelo artista foi pintar a Catedral Basílica ou "igreja dos Jesuítas", como ele chamava. "A Catedral sempre me desafiou , pela sua austeridade, grandiosidade e elegância, devido a seu avantajado pé direito. Também, o fato de não existir muita coisa em pintura ou desenho sobre a mesma, foram os motivos que me levaram a ter por ela uma certa predileção".
Certo dia, que não lembro a data, alguém me levou para conhecer uma coleção de obras do artista que um colecionador tinha num prédio localizado no Jardim dos Namorados. O colecionador era o médico Fernando Spínola, dono do Hotel Paulus. Ele construiu um
Newton Silva com seu mestre Presciliano Silva.
 prédio ao lado que transformou num museu particular. Possuía na época em que visitei mais de 150 obras do mestre Newton Silva,  onde pude ver uma bela Via Sacra, e obras retratando as sacristias, claustros, naves e fachadas dos principais templos barrocos de nossa Salvador. Ocupava quase todo o primeiro andar com as obras que   ele  se dispôs a colecionar em tamanhos grandes . Nilton Raymundo Silva ou Newton Silva, como o conhecemos .Com o falecimento do Fernando Spínola a família vendeu as obras , dizem que a preços abaixo do mercado, e atualmente estão espalhadas por galerias e colecionadores particulares . A informação que tenho é que a viúva não gostava de obras de arte,  talvez até devido a  compulsão do esposo em adquirir muitas obras de um mesmo artista . No alto uma foto do mestre  que não gostava muito de ser fotografado.

Desenho "Portaria da Igreja de São
Francisco - Hora do Almoço".
O artista  nasceu em 1918 e concluiu seu curso de pintura na Escola de Belas Artes em 1939, e já em 1942 ocupa o cargo de Assistente da Cadeira de Desenho de Modelo na própria Escola. Neste período recebeu o prêmio Legado de Caminhoá. Em 1954 ganha um Prêmio de Viagem para o Rio de Janeiro no IV Salão Bahiano de Belas Artes, e presta concurso para Livre Docente da cadeira de Desenho Artístico, sendo nomeado por Getúlio Vargas. Ganha outros prêmios e realiza várias exposições sendo a última em 1995 na Galeria Cañizares. Aos 77 anos de idade ainda estava em atividade e declarou numa entrevista que "Há 50 anos que venho lutando para fazer uma coisa tolerável. Acho que consegui, mas sei que ainda é pouco. Esta minha ansiedade à pintura, à arte acadêmica , à arte de modo geral é um pouco ingrata. Ela reclama muita coisa , o artista precisa de muito estudo, de dedicação, de entusiasmo, para conseguir ir em frente. Não acredito em sensibilidade. O artista é sensível quando ele sabe executar. Não cheguei ainda à minha maturidade. Entrou na Escola de Belas Artes , juntamente com Mendonça Filho que foi ser  Diretor, e em companhia dos artistas considerados na época realistas entre eles Jair Brandão e Emídio Magalhães. Foi um discípulo muito ligado ao mestre Presciliano Silva, e chegou a pintar em seu atelier no  Boulevard Suiço, no bairro de Nazaré. Ele era uma espécie de assistente e fazia  muitos desenhos que depois eram pintados pelo seu mestre Presciliano Silva. Suas obras tem um rico detalhamento, o jogo de luz e sombra, a perspectiva bem definida. Enfim, são obras dignas de serem apreciadas e perpetuadas.

Frade rezando na igreja de São Francisco.
Consta que o Presciliano costumava chamar alguns alunos de mais talento ou mesmo àqueles que enfrentavam alguma dificuldade para adquirir materiais para pintar  e com eles ficava pintando e repassando seus ensinamentos. A compra de materiais naquela época era custosa porque as tintas, pincéis, lápis e papéis de qualidade eram  importados e custavam caro. Aos que não podiam comprar ele cedia com discrição e muito boa vontade. Todos sabem que o atelier de Presciliano era um espaço aberto e que ele recebia visitantes e clientes com tranquilidade. Nos Salões das Letras e  Artes , conhecidos como os Salões da Ala, que eram realizados em Salvador por Carlos Chiacchio anualmente, quase sempre na primavera, durante os anos 1937 a 1948 o Newton Silva participou de alguns deles.  Embora muitos artistas continuassem apresentando suas obras clássicas alguns  já mostravam os caminhos da Arte Moderna na Bahia.  Entre eles Newton Silva, Jair Brandão, Diógenes Rebouças, Carl Brussel, Abrahão Kosminsky e Célia Calmon. O próprio Carlos Chiacchio não aderiu logo ao modernismo que chegou a dizer que eram "deformações à reação aos valores tradicionais". Natural este tipo de reação dentro do contexto da época. 

Óleo sobre tela "Refeitório da Igreja de 
São Francisco."

NO ATELIER DO MESTRE

No dia 28 de maio de 1990 escrevi um artigo sobre uma visita que fiz ao atelier do professor Newton Silva, que funcionava na rua ao lado do Fórum Rui Barbosa, no Campo da Pólvora ,  com o título "Mestre Newton Silva expõe após 12 anos de ausência". Vejam : "Invadi o sossego do mestre. Exatamente foi esta a sensação que senti ao entrar no atelier do mestre Newton Silva que aos 74 anos de idade continua pintando sem parar. Calmo e meticuloso ele vai construindo o seu mundo pictórico onde surgem os belos tetos das sacristias  e outros interiores de nossas igrejas. Uma pintura imorredoura, dessas que atravessam os séculos e  causam espanto e admiração pela sua grandiosidade, pela técnica, pelo conhecimento da perspectiva e composição. Uma pintura que poucos eleitos conseguem realizar, e, para nossa felicidade, temos na Bahia uma dessas figuras raras que, isolado no seu atelier , na Rua do Tingui, assiste do alto da sua majestade o tempo passar. O que lhe interessa são os interiores ricos de elementos plásticos, onde guarda os segredos do passado.

Desenho " Mendigos nº 3 " , sem data
Quando digo que ele trabalha sem pressa é porque os grandes artistas sempre acham que suas obras estão inacabadas . A cada olhar têm sempre algo a modificar . Isto é fruto de uma auto crítica rígida , onde todos os elementos  que compõem as suas obras são refletidos com muito vagar. E o mestre Newton Silva na sua simplicidade vai inserindo ou retirando elementos até que a obra seja levada por um colecionador mais apressado. Fico realmente sem entender é como uma obra tão importante não recebia dos órgãos responsáveis por nossa cultura uma atenção especial. Não posso entender porque muita gente não conhece o seu trabalho , a sua dedicação pela arte, a sua visão plástica, a sinceridade com que desempenha o seu papel em registrar na tela a riqueza dos nossos templos tão ricos! 
Newton Silva pintando. Esta foto rara
foi feita por um parente sem ele ver.

Aposentado como professor de Desenho das Escolas de Belas Artes e depois Arquitetura , agora pode dedicar-se com mais intensidade à sua arte. Já está preparando uma exposição de seus quadros .Será uma oportunidade ímpar dos jovens artistas , dos que gostam de arte de conhecerem um pouco mais da arte de Newton Silva. A última exposição que fez foi em 1970, em Brasília . De lá para cá ficou  produzindo e vendendo tudo que fazia a colecionadores. O artista era irmão do jurista Adhemar Raymundo da Silva, que foi professor da Faculdade de Direito da Ufba e ministro do Superior Tribunal de Justiça - STJ, era mestre em Direito Penal e Direito Processual Penal. Adhemar tinha um temperamento hiperativo, enquanto Newton era calmo, paciente. Podemos dizer que tinham temperamentos opostos, no sentido de um ser muito ativo e o outro mais tranquilo. Seu filho Marcelo Silva conta  que ele foi o modelo de Cristo na Via Sacra que estava no museu particular de Fernando Spínola. A sua mãe fez uma roupa  especial que vestiu e ficava posando  para o pai . Lembra que na época tinha o cabelo grande e era jovem . "Ai perguntei ao meu pai: sou eu que vou posar de Cristo vestindo esta roupa?  Daí ele respondeu : É você mesmo! Então fiquei várias horas, em dias alternados posando, e ele pintando ". 

Obra que seu filho readquiriu, 
retratando crianças.
Outra história que  recorda  é que o pai pintou um quadro com várias crianças quando ele tinha por volta de uns sete anos. Acompanhou desde o desenho a todas as fases subsequentes até que o quadro ficou pronto. O pai colocou na parede ,e Marcelo  criou um relacionamento emocional com a obra, apesar da pouca idade. Tempos depois o pai disse que ia vender a tela e vendeu. Marcelo revela  que até chorou. E que seu pai o aconselhou a não se apegar a uma obra de arte, e "profetizou":  um dia você poderá ainda encontrar este quadro. Já adulto, reencontrou o quadro na Galeria da Barra, e o adquiriu de volta, o qual  guarda com muito carinho. "Este trabalho não me escapa mais. É feito sobre uma placa de Eucatex e gosto muito", me disse Marcelo , emocionado. Ele  tem ainda uma coleção importante de desenhos do pai. Já tentaram comprar , mas até agora  se nega a vender. Todos sabem que Newton Silva era um mestre no desenho .
No livro  Elizabeth Maia Fernandes  traça alguns aspectos da vida do mestre, e ressalta no prefácio o bom humor e a paciência com que era recebida todas às vezes que o procurava para colher dados para seu livro. Isto foi nos idos de 1995,  e o professor já estava com 77 anos de idade, e em plena atividade. Ele veio a falecer em 1997,  dois anos depois aos 79 anos de idade.

EXPOSIÇÕES  E PRÊMIOS

O artista  Newton Silva formou-se em 1946 em engenharia civil e passou a ensinar em 1949 na Universidade Federal da Bahia como professor Assistente,  da Escola de Belas Artes .  Fez concurso para professor Catedrático em 1964, permanecendo ensinando até sua aposentadoria em 1968. Nasceu em 1918 e faleceu em 1971.

Em 1950 – Salão Bahiano de Belas Artes – Medalha de Bronze, Salvador-Ba ; 1954 – Salão Bahiano de Belas Artes, Prêmio Viagem ao Rio de Janeiro, Categoria Pintura, Salvador-Ba ; 1959 – Salão Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, Medalha de Bronze, Categoria Desenho; 1963 – Exposição individual na Galeria Querino, no Rio de Janeiro; 1968 – Exposição Individual na Panorama Galeria de Arte, Salvador-BA; 1978 – Exposição Individual no Palácio Buriti, em Brasília -DF; 1993 – Exposição Individual na Galeria Roberto Alban, Salvador-Ba; 1995 – Exposição Coletiva na Galeria Cañizares, Salvador-Ba; Exposição Coletiva no Museu de Arte Sacra, Salvador-Ba. 















atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de
todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2
atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de

todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2
A comunicação exterior - interior do
atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de
todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2