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sábado, 6 de janeiro de 2024

AS CHARGES DE GENTIL TÊM MAIS FORÇA QUE UMA FOTO !

O  Gentil trabalhando em seu atelier.
A maioria das pessoas adora sair nas fotografias das redes sociais e mesmo nos álbuns de família alguns anos mais novas, outras exageram e colocam filtros e saem com a cara de vinte e cinco a trinta anos atrás, quando na realidade já passaram dos cinquenta ou sessenta. Com o passar dos anos é inevitável o aparecimento das rugas nos rostos, nas mãos uns sinais escuros e os cabelos começam a embranquecer. Tenho vivido esta experiência principalmente quando entrevisto mulheres, mas também alguns homens reagem assim. Vão logo dizendo que saiu feio ou feia nas fotos.  Aprendi durante muitos anos sendo repórter, chefe de reportagem e editor geral que a foto jornalística preza pela descontração, pelo instantâneo. Muitas vezes são instantes únicos e que jamais serão repetidos o gesto e a expressão daquele clic momentâneo. Geralmente são essas fotos as escolhidas. Quando se trata de uma revista de moda, um magazine de venda de produtos as fotos são estudadas , posadas e repetidas várias vezes. Lembro que certa vez quando fui cobrir a gravação de uma daquelas novelas de grande audiência na Globo numa locação no Convento do Carmo, em Salvador, uma cena em que a atriz aparecia numa janela para falar uma frase  foi repetida mais de vinte vezes. Não estou exagerando, e o diretor ainda deu uma bronca no ator que contracenava com ela. Fizemos as fotos, tomei uns depoimentos e fomos embora abandonando aquela tortura.

Caricatura que o Gentil 
fez do Gilberto Gil .
   
Imagine o que passam os caricaturistas quando vão apresentar uma caricatura de alguém para ser avaliada e publicada num jornal ou revista. Sim porque é da essência da caricatura realçar exageradamente os traços mais significativos do personagem. Por exemplo, se o Gentil for fazer a caricatura de alguém que tem um nariz grande evidente que vai ressaltar o tamanho do nariz daquele indivíduo. E a arte de exagerar e distorcer com proporcionalidade é muito difícil e exige habilidade do artista. Dito isto estou aqui diante de um dos bons caricaturistas que conheci nos anos que passei no Jornal A Tarde e também fora das redações lendo jornais e revistas de várias origens. É o Gentil, de corpo esguio, barba rala e rápido que nem uma metralhadora para falar. Sempre iniciando a frase com a expressão cara... Mas, relutou em prosseguir quando lhe disse que desejava entrevistá-lo sobre seu trabalho. Parece uma contradição este acanhamento, porém é um traço forte da sua personalidade. Não tolera falar de si e de seu trabalho. Entendo que não adianta ser um excelente artista e guardar sua obra num baú. Tem que mostrar e falar para as pessoas apreciarem, opinarem e assim a obra ganha vida própria porque as pessoas vão se emocionar ou não, darão suas opiniões, comentarão e surgirão narrativas as mais diversas e cheias de coisas curiosas. A caricatura  Gilberto Gil   revela a qualidade do seu traço e a sua sensibilidade em captar o essencial.

                                                           QUEM É

Páginas da Cartilha do Dois de Julho
ilustrada por Gentil.



Seu nome é extenso João Alberto Gentil de Moraes Bandeira, nasceu em 20 de
junho de 1961, em Salvador, no bairro da Liberdade. É filho de Carlos Alberto de Moraes Bandeira e d. Odete Borges Bandeira. É casado e tem uma filha adulta. Uma curiosidade é que seu pai nasceu no casarão colonial onde hoje funciona a Caixa Cultural o qual na época pertencia ao seu bisavô Eduardo Dias de Moraes Bandeira, que foi um dos responsáveis pela construção da igreja nova de São Pedro, que fica no Largo da Piedade, na esquina com a Avenida Sete de Setembro, em Salvador. Antes a antiga igreja de São Pedro ficava próxima onde hoje está o Relógio de São Pedro e foi demolida para a construção daquele trecho da Avenida Sete de Setembro. No casarão também já funcionaram a Rádio Sociedade da Bahia e os jornais Diário de Notícias e Jornal Estado da Bahia, que pertenciam ao Assis Chateaubriand, do grupo Diários Associados. Depois seus pais se transferiram para o bairro do Monte Serrat, na Cidade Baixa, e ele passou a estudar desde o primário até a conclusão do segundo grau no Colégio da Polícia Militar. Quando chegou a adolescência foi trabalhar e largou os estudos. O gosto pela arte já tinha se manifestado durante todo o tempo que estudou na feitura dos trabalhos escolares. Teve um professor que foi fundamental para despertar mais ainda o seu talento. O professor era o Andraus, um mestre do Desenho que sempre chegava nas salas de aulas carregando imensos e pesados materiais como um compasso, um esquadro e uma régua, todos de madeira. Ele desenhava no quadro negro com uma facilidade incrível deixando seus alunos boquiabertos tal a sua habilidade. Quando ele pronunciou o nome Andraus me veio à mente os anos que estudei no Colégio Antônio Vieira e o professor de Desenho era o Andraus. Ele era branco, tinha umas entradas no cabelo, e falava rápido e uma capacidade incrível em desenhar.

Caricatura do cantor e compositor Riachão.
O Gentil teve a sorte que seu primeiro emprego foi no Departamento de Arte da Tv Itapoan que era dirigido pelo cenógrafo Alecy Azevedo (falecido) que fazia as cenografias dos programas da emissora. Lembra Gentil que o Alecy tinha belas esculturas de sua autoria e que durante o carnaval e outros festejos ele sempre trabalhava fazendo as decorações de clubes. Inclusive uma ocasião decorou o Clube Bahiano de Thenis, que fica no bairro da Barra, em Salvador, quando ele criou várias máscaras que foram dependuradas nas laterais da agremiação. Em 2018 foi feita uma exposição na igreja da Barroquinha com dezesseis Orixás em tamanho natural das divindades africanas, esculpidas em papel marchê pelo artista plástico Alecy Azevedo (in memoriam). As obras integram o acervo do Museu da Cidade que foi fechado durante a gestão de ACM Neto na Prefeitura Municipal.

Caricatura do escritor Rubem
 Fonseca.
 Depois de trabalhar ao lado de Alecy o Gentil foi para a Televisão Educativa, que
estava em processo de instalação onde ficou por sete anos trabalhando no Departamento de Arte.  Cansado com aquela monotonia de funcionário público decidiu pedir demissão e foi trabalhar como free lancer desenhando. Outra forte razão de largar o serviço público foi porque na época do Governo Nilo Coelho o salário perdeu seu valor de compra. Confessa que foi uma experiência rica porque conheceu vários artistas entre eles Guache Marques, Márcio Meireles e muitos outros que passaram por lá. Assim foi se relacionando no ambiente artístico até que surgiu outra oportunidade com a saída do cartunista Paulo Setúbal, que trabalhava no jornal A Tarde e foi ser juiz classista do Trabalho, em Juazeiro, interior da Bahia e o indicou para substitui-lo. Estávamos no ano de 1995 e Gentil permaneceu em A Tarde durante dezoito anos saindo em 2013. Lá fez várias capas para o Suplemento Cultural que era dirigindo por Florisvaldo Matos, além de muitas outras ilustrações e charges publicadas no jornal durante todo este período.

                                                       DIGITAL X ANALÓGICO

Caricatura do cantor e compositor
Noel Rosa
Brincando o Gentil disse que está travando uma luta particular porque sempre trabalhou desenhando a mão e quando passou a usar um programa de computador as coisas fluíram com muito mais velocidade e as vantagens de fazer modificações são infinitas. No entanto o Gentil está se esforçando para não deixar de lado o analógico, o desenho feito à mão diretamente no papel. Também ficou uns tempos sem pintar em tela e que agora já está com umas telas as quais pretende fazer algumas pinturas. Recentemente esteve com o professor Eduardo Tudella que é da Escola de Teatro, e lançou recentemente um livro intitulado “A Luz na Gênese do Espetáculo”, e também lhe incentivou a voltar a pintar.  O Eduardo é light-designer e foi o responsável pela decoração do Rock in Rio, que funcionava no antigo shopping do Aeroclube, em Salvador, o qual pertencia ao grupo dono do shopping Iguatemi, hoje Shopping Bahia. Inexplicavelmente deixou de funcionar prejudicando dezenas de comerciantes. No Rock in Rio o Eduardo Tudella fez toda a decoração e nos pilares tinham umas caricaturas feitas pelo Gentil.

Quando perguntei se já teve algum problema de censura ou mesmo de desagradar a alguém por causa de uma charge de sua autoria ele lembrou que fez uma vez uma charge mostrando a escalada de violência na Bahia e um dos personagens era um ladrão de cor negra. Foi abordado por alguns colegas que disseram “A comunidade negra está aborrecida com você. Mas, não passou disto." Certamente foi no tempo da exacerbação do politicamente correto que se espalhou como um rastilho de pólvora em nosso país.

                                                             MUITAS OBRAS

Cantora de jazz Nina
 Simone
.
O Gentil tem realizado inúmeros trabalhos de artes gráficas e design. Recentemente fez todo o projeto gráfico da Revista da Associação Baiana de Imprensa, fez uma cartilha em formato de história em quadrinhos contando todo o fato histórico da Independência da Bahia no Dois de Julho de 1883.Como vocês sabem a Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia, foi um movimento que, iniciado em 19 de fevereiro de 1822 e com desfecho em 2 de julho de 1823. Esta cartilha pode ser acessada no site do Tribunal de Contas do Estado da Bahia- TCE. O Gentil disse que gosta muito de História do Brasil e que tem lido e vê que muitos acontecimentos quase que se repetem claro com novos personagens e dentro de um contexto diferente.Também trabalha para as empresas do Polo Petroquímico de Camaçari e disse que tem uma rotina, embora esteja aposentado. Levanta-se cedo e após o café vai trabalhar criando suas charges e fazendo outros desenhos que lhes são encomendados pelos clientes.

Gentil na redação do jornal A Tarde
criando mais uma de suas charges.
Dizem que a fotografia vale por mil palavras. Digo que a charge vale mais que mil palavras porque ela nos apresenta um conteúdo de crítica do chiste. Muitos políticos têm horror aos chargistas principalmente quando a charge não lhes beneficia. Lembro que  estava no jornal A Tarde alguns políticos quando eram personagens de uma charge e elas não lhe eram desfavoráveis tentavam adquirir uma cópia com os chargistas para guardar de lembrança. Segundo o Wikipedia a palavra caricatura vem do italiano Caricare que significa “carregar, no sentido de exagerar, aumentar algo em proporção”, e que teria surgido no século XVII com o pintor Agostino Carraci da Bolonha. Ele criou uma galeria com caricatura de tipos populares da sua cidade. Depois outros artistas da Escola de Bologna também se destacaram nesta forma de arte entre eles Domenichino, Guercino e Pier Leone Ghezzi (1674-1755). E para finalizar a caricatura é um desenho que enfatiza e exagera as características de uma pessoa, animal ou objeto. Ela “revela um retrato bem-humorado, cômico e/irônico no que se refere aos aspectos físicos do objeto caricaturado e aos aspectos psicológicos e / ou comportamentais, como gestos, vícios e hábitos particulares”.

 

 


sábado, 30 de dezembro de 2023

A ARTISTA QUE SÓ PINTA MULHERES

Tereza Mazzoli e suas obras onde
retrata as mulheres e  vaidades.
S
eu nome artístico é Tereza Mazzoli nascida na cidade de Nova Canaã, no interior da Bahia e iniciou sua carreira em 1999. Confessa ser “apaixonada por explorar as infinitas possibilidades que as cores e formas oferecem para expressar a complexidade da alma feminina”. Sua arte parece mesmo ser feita de imagens refletidas num espelho do tempo onde ela retrata as suas vivências e emoções. Cada pincelada que dá e as cores que escolhe ajudam a compor esta narrativa poética apresentando a nós a essência feminina.  Sua linguagem é contemporânea e tem uma predileção especial de só pintar figuras femininas. Segundo a Tereza Mazzoli estas figuras que aparecem com um jeito angelical em cores terrosas são mulheres que conheceu pela estrada da vida e que  pode conviver e saber um pouco de suas histórias de vida. Portanto, “é uma homenagem à força, à resiliência e a graça que encontro nas mulheres ao meu redor, e nas diversas mulheres outras que habitam em mim”, diz Tereza Mazzoli. Fui encontrá-la no bairro do Carmo, em pleno Centro Histórico em Salvador, num casarão colonial onde tinha seu ateliê de nome Atelier 29, o qual passou recentemente para um artesão ED e foi rebatizado para Atelier 72, que corresponde ao número o imóvel na nomenclatura oficial da Rua Direita do Carmo. Isto porque já está de malas prontas para ir morar em Viena, na Áustria.

Mais mulheres pintadas de Tereza .
Sua introdução na arte começou com a restauração de móveis antigos. Com a disposição que lhe é peculiar decidiu iniciar outra atividade e começou restaurando os próprios móveis e de conhecidos. Foi quase uma intuição natural e até hoje dedica uma atenção especial ao mobiliário antigo. Fez um curso de arte na Escola Panamericana, quando morava em São Paulo. Veio para Salvador foi quando conheceu a artista Sandra Lopes e fizeram amizade e passou a desenhar e pintar. Fez alguns cursos livres no Museu de Arte Moderna da Bahia – MAMB. Já tinha algumas obras prontas e resolveu sair para vende-las e no trajeto encontrou uma senhora que adquiriu as três telas que carregava. As coisas apertaram quando morava no bairro Patamares, em Salvador, e em parceria com o artista Luiz Oliveira  montaram um ateliê na Rua Minas Gerais, no bairro da Pituba, em Salvador. Fizeram uns panfletos e distribuíram anunciando um curso de pintura que foi ministrado por Rui Oliva. Enquanto ela dava apoio e continuava pintando e comercializando suas obras e assim as coisas foram melhorando. Com o artista peruano Cholo, que residia no Centro Histórico, aprendeu a trabalhar com espátula, aí foi se entrosando no meio artístico da Bahia. Quando Leonel Mattos criou o Sindicato dos Artistas Plásticos da Bahia começou a frequentar as reuniões tornou-se membro e em seguida passou a ajudar nas atividades administrativas da entidade. A Tereza Mazzoli tem uma perspicácia especial e sempre está atenta para aprender coisas novas. Uma pincelada diferente, uma composição enriquecedora da obra, enfim procura observar e retirar algo de positivo para o seu fazer artístico.

                                                       SUA TRAJETÓRIA

A Iansã majestosa e guerreira.
O nome de batismo é Tereza Angélica Santos Souza, nasceu em 14 de setembro de 1954 na fazenda As Piabas, no município de Nova Canãa, no interior da Bahia. É filha de Aristodemene Alvarenga Santos e Tercília Rosa de Jesus. Seu pai era um abastado fazendeiro de cacau, de descendência grega, enquanto sua mãe era índia, e na sua tribo chamada de Cotia. Se conheceram quando o pai da Tercília foi trabalhar de meeiro na fazenda do Aristodemene. Ela tinha apenas quinze anos de idade. Naquela época era muito comum mulheres bem jovens, porque não dizer, crianças, casarem-se com homens bem mais velhos e experientes. Também isto aconteceu com meu avô que já estava com 35 anos quando se casou com minha avó de quinze anos de idade. Ela disse que sua mãe lhe relatou que a tribo a qual ela pertencia passou a ser nômade com a chegada dos colonos que passaram a cultivar as terras onde antes viviam. Foi quando houve a expansão da cultura do cacau na Bahia.

O talco Gessy que já foi 
presença em muitos romances.
 Quando a notícia do relacionamento chegou ao seu avô ele mandou dois de seus irmãos armados com espingardas de repetição buscá-la na Fazenda As Piabas. O Aristodemene não se intimidou partiu ao encontro deles e quase houve um confronto trágico. Ao chegar os irmãos empunharam suas espingardas de repetição Winchester e o Aristodemene também empunhou a sua. Houve um diálogo ríspido foi quando sua mãe Tercília que já estava na garupa de um dos cavalos dos irmãos voltando para a tribo desceu e montou no cavalo do Aristodemene. Tereza Mazzoli disse ainda que sua mãe também contou que os índios respeitam muito a opção de cada um. Se quer ficar que fique. Também seus parentes nunca mais a procuraram. Neste interim aconteceu um fato interessante é que sua mãe indígena o que mais lamentava é que durante este entrevero ela perdeu uma latinha de talco Gessy, que tanto gostava.

Duas lindas mulheres do universo
pictórico de Tereza Mazzoli.
Aos oito anos de idade seu pai levou para São Paulo ela e uma irmã e foram criadas pela madrasta, que era a esposa do Aristodemene. Sua mãe permaneceu na Fazenda As Piabas e depois foi morar em Vitória da Conquista. Aos 15 anos saiu de casa e foi morar com seu primeiro marido, o que deixou seu pai frustrado já que queria que se formasse em Direito, como a maioria dos filhos. Depois de alguns anos o relacionamento se desfez e no segundo nasceu seu primeiro filho o Rui Neto, que reside em Florianópolis. Passou a trabalhar na Joalheria Tolentino, em São Paulo, chegando ao cargo de gerente. Veio o terceiro relacionamento com um italiano, daí o sobrenome Mazzoli, que durou 26 anos e nasceu sua filha Paloma. Vieram para Salvador e aqui se divorciaram. Disse, decidida como sempre, já que está iniciando o seu quarto relacionamento e espera que seja o último. O seu novo parceiro austríaco mora em Viena e já esteve por lá e conheceu a sua família. Ele montou um ateliê para Tereza na casa onde mora, inclusive ela pintou alguns quadros e vendeu a amigos do casal. Resta, portanto, partir em meados de janeiro do próximo ano para nova aventura. Assim ela vai continuar a pintar as mulheres que diz terem personalidades e almas. “São todas as mulheres que habitam em mim. Elas carregam o que tem dentro de mim”, diz Tereza Mazzoli. Que venham novas obras e que seja feliz!


sábado, 23 de dezembro de 2023

BIDA TALENTO NA PINTURA E NA MÚSICA

Bida segurando uma tela com mulheres tocando 
pífanos e o músico Alexandre Rodrigues
executando um frevo pernambucano.
Estive na sexta-feira, dia 15, pela tarde no Centro Histórico, exatamente no Pelourinho para entrevistar o artista plástico, cantor e compositor Raimundo dos Santos, o Bida, que há décadas mora na área desde quando decidiu ser artista plástico. Por ser sexta-feira e próximo dos festejos natalinos o Pelourinho estava em festa. Os bares e restaurantes lotados de gente bebendo e comendo e até um pequeno bloco de batuqueiros animava a área. Via a satisfação nos rostos dos gringos por estarem naquele ambiente descontraído, bem alegre, e diferente de onde vieram. Lá onde moram as ruas no inverno são muito frias e o povo no dia a dia não tem esta descontração como ocorre nos trópicos. Aqui tem mais calor humano, embora o clima quente também os incomode um pouco. E esta entrevista foi feita neste clima de festa e reencontros. Quando começamos a conversar entram em seu ateliê o cantor paulista Renato Braz, acompanhado do músico Alexandre Rodrigues tocador de pífanos de Recife, que logo empunhou seu instrumento e começou a tocar um frevo animado. O terceiro integrante do grupo era um jovem jornalista Cláudio Leal, acompanhados do produtor musical e fotógrafo free lancer baiano Geraldo Badá, que os ciceroneava na Cidade. Aí a entrevista foi interrompida para dar atenção aos visitantes. Imprevistos acontecem, e quando se trata de reencontros de artistas o clima ganha outra dimensão.

Foto 1 - Pelourinho em festa. Foto 2.
Jornalista Cláudio Leal,cantor Renato
Braz,Bida,músico Alexandre Rodrigues
e produtor musical e fotógrafo  Badá.
Foto 3. Cantor e compositor Narcizinho,
do Bloco Olodum e Bida.
Recomeçamos a entrevista e de repente chega outro personagem e entra cantando uma música que tinha um refrão desses que pega ."Pera aí, pera aí...", era o cantor e compositor Narcizinho, do Bloco Olodum, cantando uma música de autoria do Bida. Depois da cantoria e das dancinhas refiz as perguntas e foi quando fiquei sabendo que ele nasceu em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo baiano em 25 de janeiro de 1971 e seus pais vieram para Salvador quando ele ainda era criança.  Hoje Bida é um dos artistas mais criativos e reconhecidos da área do Centro Histórico de Salvador e já fez exposições em vários países e suas obras estão espalhadas pelo mundo afora. Ele faz uma pintura naif tendendo mais ao figurativo e os personagens que pinta lembram de longe os que o Cândido Portinari imortalizou em suas pinturas retratando os nordestinos. As cenas rurais também sempre estão presentes na obra do Bida e talvez aí tenha uma explicação e influência de sua infância porque sua mãe gostava de morar nos arredores de Salvador, especialmente em locais onde tivesse alguma mata ou mesmo um espaço verde. Isto porque, sendo natural de Nazaré das Farinhas ela gostava de cultivar e sempre dava um jeito de ter um pedaço de terra para trabalhar.

Obra retrata fazenda de cacau na Bahia.
Hoje Bida é um artista que tem sua própria maneira de pintar e criar seus personagens com um desenho e composição de qualidade. As cores verdes, azuis, amarelas e vermelhas, dentre outras presentes em suas obras estabelecem um clima rural , interiorano de pureza e aconchego, diferente da crueza e da conotação de protesto de quem possa ter lhe inspirado. Já expôs em vários países e tem obras em  coleções particulares pelo mundo afora. Figura entre os artistas que pintaram grandes telas no exterior sendo que as suas estão na cidade de Marbach, no sul da Alemanha exatamente no Castelo Bela Vista, às margens do Lago Constance. Um mede 5 m x 8 m e o outro 1,68m x 21 metros. Tem aqui na Rodoviária de Salvador dois painéis  com 3m x 10 m cada um. Lembro do entusiasmo do meu saudoso amigo o empresário Alfeu Pedreira, que tinha a concessão da Rodoviária, e hoje é tocada pelos filhos, quando conheceu o Bida e o convidou para fazer os painéis. O Alceu Pedreira era um verdadeiro mecenas. Ajudou muitos artistas, alguns em começo de carreira, e me recomendou que fizesse uma matéria com ele na coluna que escrevia no jornal A Tarde.

Uma das ilustrações do disco de
Raimundo Sodré.
Os pais de Bida  se conheceram em Periperi e foram morar em Nazaré das Farinhas e lá ele nasceu. Quando completou uns três anos de idade seus pais resolveram vir para Salvador e foram morar em Águas Claras, no Loteamento Nogueira, quase às margens da BR-324. Foi estudar na Escola Clarita Mariani, que pertencia a um orfanato do mesmo nome, que ele lembra que a sede tinha um estilo colonial. Hoje a escola é estadual, e não encontrei nenhuma referência do orfanato que existia na época. O bairro além de ficar distante do centro comercial de Salvador, era carente de qualquer infraestrutura. Hoje tem muitos galpões de armazenamento de containers e um forte comércio popular e é servido pelo metrô. Neste bairro nasce o Rio Jaguaribe com o nome de Rio Cascão, e se encontra com a Represa de Ipitanga, passando a se chamar Rio Trobogy e segue seu curso até a Avenida Luiz Viana Filho (Paralela) aí pega o seu nome de Rio Jaguaribe e deságua na praia de Piatã, no Oceano Atlântico.

                                                     O COMEÇO

Uma obra diferenciada do Bida. 
Tudo começou quando sua mãe que era cozinheira na residência de d. Eunice Vianna, sobrinha do então governador Luiz Vianna Filho, quando conheceu seu pai que acabara de ficar viúvo com dois filhos menores para criar no subúrbio de Periperi. Nesta época sua mãe de nome Maria de Lourdes dos Santos gostava de cantar e foi através do ex-governador Luiz Vianna e sua esposa d. Maria Eunice Viana que ela passou a cantar no rádio e conheceu as principais cantoras da época como Inezita Barroso, Ângela Maria, Dalva de Oliveira entre outras.  Em seguida foi trabalhar com a sobrinha do ex-governador.Foi ela  quem deu as primeiras tintas ao Bida para pintar quando ele já estava com dez anos idade, e sua mãe nãos mais trabalhava com ela.Enquanto isto seu futuro pai Paulo Francisco dos Santos era casado e tinha dois filhos e trabalhava na Leste Brasileiro, que tinha um sistema de trens que servia ao subúrbio de Periperi e outros. Também era músico do Trio Tapajós que animou muitos carnavais na Bahia. Aconteceu que o Francisco ficou viúvo e conheceu sua mãe e terminaram casando-se.

Sua mãe nunca pensou em se profissionalizar como cantora foi quando o amor falou mais alto e o casal decidiu ir morar em Nazaré das Farinhas para cuidar melhor das duas crianças. Do relacionamento nasceu o Raimundo dos Santos, o Bida. Foi assim que Paulo Francisco deixou de ser ferroviário para exercer a profissão de pintor automotivo. Vieram para Salvador morar inicialmente em Águas Claras, no Loteamento Nogueira, depois se transferiram para o subúrbio de Paripe,

Obra de Bida "Mulher Sambando."
perto da Estrada da Covisa, uma indústria que funcionava no local. O espanhol chamado de Feliciano,  era dono da Casa Chic, no subúrbio de Paripe , e a Renato Schindler e quando o prefeito Renan Baleeiro resolveu criar o bairro de Fazenda Coutos tiveram que indenizar sua mãe das benfeitorias que tinha feito no terreno.Nesta época já moravam na Rua da Alegria que ao fundo tinha um terreno muito grande onde sua mãe plantava e foi indenizada pela Prefeitura. Bida conta rindo da situação que viveu. Aí ele tinha uns cinco anos de idade e para estudar tinha que andar numa trilha de mata até a localidade de Tubarão. A escola era pertencia a  Raimundo Varela Freire pai do apresentador de televisão Raimundo Varela, recentemente falecido. O dono da escola era amigo do pai de Bida desde que eles moravam em Periperi. Hoje a escola é estadual com o nome de Visconde Cairu. Nova mudança e a família foi residir no subúrbio de Paripe perto  da localidade chamada de Casa da Base, próximo a Base Naval de Aratu, e ele foi estudar na Escola Almirante Barroso, hoje Colégio Estadual Almirante Barroso, que fica na rua Almirante Tamandaré, s/n em Paripe. Houve uma divisão do colégio. Uma parte ficou o pessoal da Base Naval em outra  os moradores . Bida foi  para a Escola Edson Tenório "porque tinha uma quadra de futebol", conta. Terminado o primário foi para o Colégio Luiz Tarquínio muito afastado de onde morava na Rua da Alegria, no subúrbio de Paripe. Lembra que andava uns três quilômetros para pegar o   trem por ser mais barato, descia na Calçada e caminhava mais uma boa distância até o colégio que fica na Avenida Luiz Tarquínio, no bairro da Boa Viagem. Disse que enfrentou muitas dificuldades. 

                                                          O APRENDIZADO

Mulher Tocando Sanfona, obra
em execução pelo artista.
Um amigo chamado Val Jacaré , não sabe o nome e praticamente perdeu o contato, disse que se quisesse aprender a pintar fosse para o Pelourinho. Este amigo  que o incentivou a vir para o Pelourinho, onde ele está até hoje, tinha um irmão chamado Orlando, que era instrutor da Escola de Menor, Fameb, que funcionava no subúrbio e ele gostava das pinturas e desenhos do Bida. Passou a lhe incentivar dando papéis e lápis e assim o artista foi se formando. Em compensação o Orlando tinha uma dezena de casas alugadas no subúrbio e pedia a Bida para desenhar as fachadas. Era uma criança e fazia letreiros de bar, nomes de casa comerciais nos muros e já ganhava algum dinheiro com a arte. Foi aí que passou a frequentar a região. Muitas vezes ao invés de ir para o colégio descia na Calçada e caminhava até o Pelourinho, passando pelo Carmo. Conheceu Palito, que era perito do Instituto Pedro Melo, o IML, que funcionava no prédio da Faculdade de Medicina. O Palito também era escultor. Conheceu os artistas Gildásio Feliciano Costa, o Gil Abelha, já falecido, que teve uma grande influência no seu aprendizado. Depois vieram  Totonho, Babalu, Faróleo, Nivaldina, Índio, José Tiago, Calixto Salles, Hamilton Ferreira, Pedroso, Luiz Lourenço dentre outros. Passou a pintar nas ruas e a observar esses pintores populares do Centro Histórico. Os primeiros quadros vendeu para o padrinho de um irmão.
Foto I - Gil Abelha, falecido.(Google).
Foto 2 -Bida em seu ateliê , Pelourinho
.
O primeiro contato de Bida com Gil Abelha foi na Praça da Sé, em Salvador, quando o encontrou ele pintando um quadro que pegava a igreja da Misericórdia tendo o Palácio da Aclamação ao fundo. Ele estava sentado num dos bancos da praça. “Fiquei umas duas horas observando, e pensando na distância que tinha para percorrer para voltar para casa. Fui pegando amizade e terminei frequentando com assiduidade o ateliê deles que ficava bem em frente ao Hotel Pelourinho,” relembra Bida. Foi um aprendizado importante para o Bida e os artistas e em 1986/87 fundaram a Associação dos Artistas Populares do Pelourinho e seu primeiro presidente foi Wal-Ba, hoje é museólogo, mora em Brasília e quer fundar o Museu de Arte Naif em Salvador. Aos 19 anos foi um dos diretores desta entidade. Em 1988 teve seu primeiro ateliê. Este local era ocupado pelo ateliê que Calixto Salles que resolveu pintar em casa e lhe cedeu o espaço. Aos 20 anos teve o primeiro filho o Ramon Santos, já falecido. Comprou uma pequena casa e doou a seu irmão mais velho com dinheiro da venda de suas obras. Quando meu filho nasceu já tinha uma casa também comprada com o dinheiro de venda de seus quadros. Nasceu sua filha e comprou mais duas pequenas casas e passou a alugar. 

                                        EXPOSIÇÕES NO EXTERIOR

Painéis em Marbach, na Alemanha, e
 Bida falando no dia da apresentação
.
Sua primeira exposição fora do país foi em 1988 em Córdoba, na Espanha, no Palácio Del Congresso; em 1990 participou de uma exposição com Totonho que levou suas obras ao London Cultural Center, em Londres, Inglaterra; em 1991 expôs em Munique , na Alemanha, no Maximilian Universitat ; em 1993, em Madri, na Espanha; em 1994,  no Prix Suisse e Prix Europe de Pinture Moderne, Galeria Pro Art, Kasper Morges, Suiça; e neste mesmo ano expôs em Miami, na Flórida; 1997 na mostra O Pelourinho Popular Art From the Historic Heart of Brasil – USA and Canadá ; e neste mesmo ano no Siena Heights College, em Michigan; na Unique Images Gallery, em St. Paul, no Hannepin Country Governament Center e no Thomas Charles Salon, ambas em Minneapolis; em 1998 na Universidade da California – UCLA, em Los Angeles; em 1999  participa da mostra  Brasilidade na Galeria Praça do Mar, Quarteira, Loulé, e na Galeria Nova Imagem, em Lisboa, 
Capa  do catálogo da mostra
 na Holanda
.
ambas em Portugal; 2000 na Galeria da Câmara Municipal de Portimão, Algarve e da mostra Junho da Lusofonia na Biblioteca Municipal de Alenquer, ambas em Portugal; 2001 participou da mostra Encontros do Sem Fim – Fortaleza de Sagres-Algarve, em Portugal; da Brasilidade II no Parlamento Europeu, em Bruxelas, na Bélgica. Fez uma palestra na cidade de Washington DC, nos Estados Unidos,  sobre o movimento negro na Bahia e pintou ao vivo uma tela de Nelson Mandela; expôs ainda em Milão, na Itália no Brasil 500 Annin II Giorni-ExPalalido; na Espanha no Museu Guggenhein de  Bilbao; e em Portugal na Galeria LCR, em Sintra; 2005 mostra Brasilidade na Galeria Geraldes da Silva, no Porto, Portugal;  na mostra From Brazil with Love – Het Kunstbedriif - Exposities & Workshops – Heemsted – Netherlands, na Holanda ; em 2006 no Rouge Ebene, no Musée des Emaux, em Longwy e depois no Espace Pitot, em Motpellier, ambas na França; 2013 na Matices de Las Americas, em San Diego, Califórnia, EUA; 2019 no The Soul of the People of Brasil, em Nova York, nos Estados Unidos. A partir deste ano participou de outras exposições, porém o catálogo que tinha os demais registros ele não conseguiu encontrá-lo.

                                                 EXPOSIÇÕES AQUI

Bida e os  painéis que estão na
Estação Rodoviária de Salvador.
 
Disse que expôs muito mais fora do país do que aqui. "Não precisa explicar, porque isto acontece”, queixou-se Bida. Foi premiado em 1991 na I Bienal do Recôncavo no Centro Danneman, em São Félix, Bahia em 1º Lugar como Pintor Naif e em 8º Lugar Prêmio Aquisição. Tem obras em exposição permanente no Museu de Arte Naif no Rio de Janeiro. Em 1988 fez sua primeira exposição aqui na I Expo Natura, Galeria Abrigo da Arte, Salvador ,depois na Biblioteca Central e na Expo Primavera do SESC/SENAC, todas em Salvador; Em 1990 no Centro de Cultura Alternativa Pau Brasil e no Hotel Praiamar, em Salvador; 1991 na I Bienal do Recôncavo em São Félix; 1992 no Projeto Pelourinho Via Brasil, no Shopping Barra, Salvador e na Eco 92, no Rio de Janeiro; 1993 Inauguração do Shopping do Pelô , na mostra Plasticidade Poética, na inauguração do Ateliê Portal da Cor; 1994 na Biblioteca Catalão de Castro, Salvador; 1996 no II Festival de Artes Visuais do Pelô – Pinte o Pelô,  na II Bienal Internacional Afro-Americana de Cultura e  na Raquel Galeria de Arte, em Salvador; Participou da mostra  Oito Primitivistas Baianos  - no Espaço Cultura Rococó, em BH, Minas Gerais; 1997 Tempo e Temperatura no Grande Hotel; da Barra, na Raquel e Galeria de Arte e Paletas do Pelô, no Solar do Ferrão, ambas em Salvador; 1998 na Galeria Pedro Arcanjo, em Salvador e no SPAMED em Lauro de Freitas, Bahia; 2002 no Hotel Sofitel, Sauipe, Bahia; 2003 Galeria do Solar do Ferrão, Casa Cor 2003 e Centro Cultural dos Correios – Fundação INAC, todas em Salvador; 2004 Angola Bahia na Galeria Solar do Ferrão, em Salvador; 2012- 2013 Novidades - Galeria Jacques Ardis, em São Paulo; 2013 Um Olhar sobre a Bahia na TVE – Tv Educadora, Salvador; 2015 no Lara Hotel, Aquiraz, Fortaleza, Ceará e Reflexos do Recôncavo ,no Senac, Pelourinho, Salvador; 2016 Estilos -Instituto de Radiofusão Educativa da Bahia, Exposição Santana Ceia, no Convento do Carmo, Expoart Primavera, Restaurante casa de Tereza Sala Iemanjá, Exposição Solar das Artes e Atempo na Galeria Cañizares da UFBA, todas em Salvador.


 

sábado, 16 de dezembro de 2023

LEONEL MATTOS EXPLOSÃO DE TALENTO E SUPERAÇÃO

Leonel Mattos com  autorretrato que expôs na galeria
 do Acbeu na mostra Gaveta de Memória,  em 1998.
Vamos conhecer mais um pouco a partir de agora um dos artistas mais talentosos, inquietos, criativos e produtivos que já conheci e talvez o que mais tive oportunidade de acompanhar sua trajetória artística. Seu nome é Leonel Rocha Mattos ou simplesmente Leonel Mattos que demonstra nos primeiros instantes da nossa conversa uma disposição em contar sua história sem rodeios ou restrições a ponto de querer com a espontaneidade característica de sua formação  e personalidade conduzir a entrevista. Foi graças a este seu jeito de ser que vem superando problemas e tragédias que surgiram e surgem em sua vida. Conhecedor do personagem e sendo um velho   jornalista propositadamente marquei a entrevista fora do seu ambiente de trabalho e fomos conversar em minha casa para que assim pudesse entrevistá-lo com mais tranquilidade. O Leonel Mattos com seu temperamento impulsivo é também um dos artistas baianos mais presentes nas redes sociais onde sempre está postando as visitas ao seu novo ateliê no bairro da Saúde, em Salvador, suas andanças por exposições, e eventos que promoveu como o Circuitos de Arte e Moda no Shopping Salvador com várias edições e o Circuito Cultural Carmo e Santo Antônio , em 2014, suas idas às praias, restaurantes e outros eventos que comparece. Às vezes alguns acham exagerada esta exposição, mas tudo isto é fruto de um impulso quase incontrolável desta criatura que está sempre disposto a ajudar os colegas, a imaginar formas de enaltecer o trabalho de alguém ou mesmo acolher como fez com o Jayme Fygura que pintou por um bom tempo em seus ateliês nos bairros do Carmo, Amaralina e depois na Saúde, usando suas tintas e pincéis, e ainda conseguiu a venda de um lote de obras para um galerista em São Paulo que o possibilitou a comprar e mobiliar uma casa no bairro de Castelo Branco, em Salvador. Infelizmente o Jayme veio a falecer de um enfarte quase fulminante. Quando Leonel Mattos me ligou para falar desta triste ocorrência passei a me preocupar com ele, porque estava inconsolável e corria até mesmo risco de enfartar. É sempre fácil, e ao mesmo tempo ruim julgar e criticar as pessoas por seus atos externos e aparentes. É preciso conhecer melhor a pessoas e verá sempre coisas muito positivas que estão por trás de cada indivíduo, de cada artista.

Leonel no ateliê do bairro da Saúde,2023.
Leonel Mattos  é um artista que vem evolundo e  melhorando a cada dia sua pintura, tem uma produção contínua e de qualidade, com personalidade pictórica conhecida aqui e em outros estados. Já ganhou vários prêmios e fez várias exposições individuais e coletivas, participou de salões na Bahia  e no sul do país. Fez muitas intervenções em Salvador e até mesmo em Feira de Santana sozinho e com outros colegas. Está sempre atento ao que ocorre não só no Brasil como no exterior. Sua mãe cunhou a frase que resume o seu jeito de ser: “o Leonel chega saindo”. Ele mesmo conta que às vezes sente até dificuldade de parar a si próprio. Nasceu na cidadezinha de Coaraci, no sul da Bahia, em 4 de fevereiro de 1955 onde seu pai era funcionário da Petrobras e dono do primeiro cinema da cidade, além de radioamador. Como saiu de lá muito criança não conhece bem sua terra natal. Sempre teve uma curiosidade pela arte e gostava de desenhar em seus cadernos de escola e onde encontrasse espaço. Não era afeito aos estudos, fez o primário na Escola Nossa Senhora da Guia, no bairro da Boa Viagem. Conviveu com um colega de escola que só lembra do apelido como o chamavam por Serginho, que era filho de um coronel da Polícia Militar da Bahia. Moram muitos militares naquela região porque ali fica o principal quartel da PM, em Salvador. Juntamente com o colega ficavam desenhando animais e tudo que surgia de interessante. Fez seu primeiro ateliê ainda criança num apartamento onde morava na Rua Pirai, no bairro do Bonfim.

                                                SUAS HISTÓRIAS

Leonel recebendo o Prêmio das mãos de Pietro
Maria Bardi, diretor do Masp, no Salão de Pintura
Jovem da Pirelli, 1987.
Disse que nasceu em casa e quem fez o parto foi seu padrinho Gilson e que no momento do parto entraram alguns bois na sua casa causando um reboliço. Lembro que era comum nas cidades do interior animais soltos nas ruas. Em Ribeira do Pombal na minha infância muitos animais ficavam soltos comendo nas ruas especialmente nos lixões que se espalhavam pelos fundos das casas. Eram jumentos, cavalos, bois, ovelhas, porcos e galinhas. Certa ocasião o prefeito mandou recolher os porcos e como não obedeceram a ordem que era fruto de uma recomendação sanitária do médico local o alcaide  resolveu mandar atirar nos porcos que estivessem soltos. Deu uma confusão danada! Certa vez um jegue no cio entrou perseguindo uma jega na missa que o padre Hildebrando  estava celebrando na igreja de Santa Tereza. Foi um Deus nos acuda! 
Voltando ao Leonel Mattos ele contou ainda que quando   sua mãe estava grávida tomou um choque muito forte no microfone do sistema de rádioamador de seu pai e ela costumava brincar que ele “não foi parido, foi chocado”, e avisava brincando aos amigos e conhecidos que não prometessem nada ao Leonel porque ele sempre vai cobrar.

Foto 1 - Intervenção na igrejinha da Ponta do
Humaitá que estava abandonada. Foto 2 - Velório de
protesto por mais combate a AIDS. Foto 3- Intervenção
em árvores mortas na Cidade, anos 90
Foto 4- Painel 
no Terminal Marítimo de Mar Grande , década de 80.


Em 1956 seus pais resolveram vir morar em Salvador  e assim foram estabelecer residência numa casa na Baixa do Fiscal. Tempos depois se transferiram para a Rua Arco Iris, no bairro da Boa Viagem, aí sua infância foi dividida entre os banhos de mar, babas e passeios de bicicleta pelas ruas próximas à sua casa. Teve portanto uma infância normal como a maioria das crianças. Depois foram morar na Rua J. Carlos Ferreira, também na Boa Viagem. Foi neste período que conheceu o Serginho e passaram a desenhar e mudou novamente desta vez para a Rua Piraí, no bairro do Bonfim, foi aí que improvisou um ateliê no quarto e decidiu criar alguns pintos. Talvez isto tenha influenciado a desenvolver estes elementos estilizados que alguns confundem com galos. Ele nega 

peremptoriamente que algum dia tenha pintado alguma galinha ou galo. Passaram alguns anos nesta rua quando foi estudar em 1964 no Colégio São Jerônimo, que funcionava defronte a famosa fábrica de refrigerantes Fratelli Vita, no bairro da Calçada. Foi nesta época que a Polícia Federal bateu  em sua casa e levou alguns livros e outros objetos pertencentes ao seu pai João Mattos que era da Petrobras e atuava politicamente contra a ditadura militar. Ele era do MDB e se candidatou a deputado estadual e não foi eleito, e em 1968 morreu de um enfarto fulminante no Hospital São Jorge. 
Acima Foto 1- Com Jayme Fygura exibe sua escultura Baiolé, 1998. Foto 2- Pinta uma Iemanjá na Colônia de Pescadores do Rio Vermelho. Foto 3- Pintando com alunos da Escola Sátiro Dias com o tema Paz. Foto 4- Com presos do seu projeto de Pintura na Penitenciária Lemos de Brito.

                                              O PRIMEIRO QUADRO

Com  tinta óleo pintou a primeira tela em 1971.
 Pintou seu primeiro quadro em 1971 após visitar uma afilhada de sua mãe chamada Sônia Sinval, que residia na Ladeira da Fonte Nova. Viu vários quadros pintados por ela nas paredes e aquilo lhe encantou, especialmente um deles que tinha uma casinha, solitária,  num local alagadiço. Logo depois a tia Dalva Mattos lhe presenteou com umas tintas, pincéis e telas e começou a pintar o que vinha à cabeça. Lembra que um dia foi para a Rua Rio Almada, no bairro da Boa Viagem, onde tinha um casarão abandonado e da janela avistava o mar. Foi quando resolveu pintar este quadro que está aí que foi o primeiro feito em tela. Lembrou da casinha que a Sônia Sinval havia retratado e desenhou e pintou assim a casinha no  quadro. Neste período conheceu o desenhista e pintor Edmundo Simas, o Super Boy, que era um exímio desenhista que lhe deu muitas dicas importantes.

Já adolescente disse a minha mãe que iria passar uns dias na ilha de Itaparica na casa de um parente e na realidade foi para o Rio de Janeiro de carona com um colega que tinha família que morava lá. Só o irmão mais moço o Fernando Antônio Mattos,j á falecido,  sabia da aventura. Foram de caminhão até Feira de Santana e ao chegar à noitinha pretendiam dormir num posto de gasolina foi quando o dono do posto os ameaçou: “se estes hippies tentarem dormir aqui vou colocar gasolina e tocar fogo”. Neste interim apareceram dois carros para abastecer e diante da ameaça foram pedir carona. Para sorte eram pai e filho que estavam dirigindo cada um dos carros. Foi o filho que lhes deu carona até Brasília. Ele ainda os acolheu em sua casa e de lá foram de trem para Belo Horizonte, sempre pedindo ajuda e carona para viajar. O destino era o Rio de Janeiro e assim conseguiram chegar. Lá chegando os viajantes se desentenderam e o Leonel ficou sozinho. Conseguiu naquela noite dormir na cozinha de uma pequena pousada, e quando estava dormindo "veio um gay fritar ovos e quase pisa em mim," conta Leonel Mattos rindo.  O jovem deu um grito e ele tentou acalmar preocupado que o dono da pousada lhe descobrisse e o expulsasse. Pediu que ficasse calado, e saiu ao amanhecer do dia. Já na noite seguinte teve que dormir na praia de Copacabana. Eram outros tempos... Confessa ter passado muitas dificuldades e fome. "Resolvi voltar para casa. Fui até a Rodoviária do Rio e passei a pedir ajuda para vir para
Obra de 2005  já mostra  evolução .
Salvador. Teve um dos passageiros na Rodoviária que se aborreceu dizendo que era a segunda vez que ele pedia ajuda. Geralmente davam de um a dois cruzeiros. Foi então que aborrecido o passageiro lhe deu dez cruzeiros e completou o valor da passagem. Sentou-se junto de uma senhora que durante o trajeto estava chupando  laranjas e comendo outras guloseimas  e ele olhando, até que ela ofereceu e a partir daí dividia os lanches com ele. 
Resolveu retornar aos estudos e foi para o Colégio São Jerônimo, no bairro da Calçada, estudar Contabilidade, mas na realidade seu interesse era desenhar e pintar. Veio outra mudança e foram morar na Rua Rio Itapicuru, perto do Forte de Monte Serrat. Continuou pintando e entalhando e em 1971 participou  de uma coletiva na Galeria O Candeeiro. Com o apoio da tia Dalva Mattos que trabalhava na Receita Federal conseguiu realizar em 1974 fiz a primeira individual na Galeria da ESAF, no rall do prédio do Ministério da Fazenda, no Comércio, em Salvador e teve a apresentação de José Dirson. Não foi de pintura e sim de entalhes que aprendeu com os entalhadores Paulo Bahia e Hugo Rios, que residiam no bairro de Roma, em Salvador. Em 1980 fez outra exposição
Esta obra de 2023 é resultado de muitos anos de
pintura num crescimento contínuo.
desta vez na Galeria Panorama, no Jardim Brasil, no bairro da Barra, em Salvador e eram pinturas primitivas inspiradas na obra do pintor naif Faróleo. Este artista nos anos 70 vivia no Centro Histórico, em Salvador, e chamava-se Josaphat Honorário de Santa Cecília, era já um senhor, natural de Sergipe.  Faleceu em 1987 num hospital público em Aracaju vítima de uma úlcera. Lembro que divulguei na coluna uma exposição coletiva em 1975 , na Galeria Sereia, no Pelourinho, eram cerca de trinta artistas, e um deles era o Faróleo, com obras tendo como tema as sereias. Nesta época o Leonel Mattos vendia seus entalhes e muitos outros artistas, inclusive o Faróleo mostravam sua arte numa feira que existia no Terreiro de Jesus e que numa dessas intromissões da administração municipal, resolveu “organizar” a feira e terminou foi acabando. Ali muitos artistas moradores de área do Centro Histórico mostravam e viviam da venda de suas obras e objetos de artesanato  aos turistas.

Foto 1- Obra da Gaveta de Memória, no ACBEU.
foto 2- Leonel com o casal Vera e Paulo Prado,
famosos galeristas paulistas Foto 3-Leonel jovem .
Foto 4- Bel Borba, Chico Diabo, Justino Marinho,
Sérgio Rabinovitz e Maria das Graças, na
Galeria O Cavalete , década de 90. Foto 4- Com
o artista Siron Franco e Cleber Gouveia, na 
Galeria Abaporu, no Pelourinho, década de 90.
Foi nesta época em 1974 que decidiu casar-se com a hoje artista Rogéria Mattos. Comprou uma toalha rendada e uma sandália de couro na feira do Terreiro de Jesus. Da toalha fez uma bata, colocou uma pena de pavão num chapéu e assim se apresentou para casar-se na igrejinha da Ponta de Humaitá. Os noivos chegaram numa carroça puxada por um burro e o celebrante foi o padre Hugo, pároco da igreja. A recepção foi feita com dois quilos de balas jogadas no estilo galinha gorda. A noiva estava vestida de cigana e deste casamento nasceu sua filha Rebeca que mora em São Paulo. 
Nesta época Leonel Mattos também fazia impressões em camisas que eram vendidas a um barraqueiro do Mercado Modelo chamado Bernadino Machado  com motivos da Bahia como capoeira, o casario, puxada de rede e outros desenhos inspirados na cultura popular. Foram morar em Umburanas, na ilha de Itaparica e lá fez muitos entalhes das placas indicativas do Hotel Mediterranée que foi um grande sucesso este resort que recebia turistas de todo o mundo. Com esta encomenda conseguiu construir uma pequena casa em Mar Grande, na Fonte da Prata defronte para o mar. Decidiu fazer um mural  no terminal das lanchas em Mar Grande e pintou muitos quadros inspirados nas coisas e gente da ilha e contou  com a ajuda do prefeito de Vera Cruz Aginoel Aquilino dos Santos (1982-1888). Depois fez um mural no terminal de Bom Despacho no desembarque   tendo como suporte placas de Eucatex com 4m x 3m que ficou muito tempo e foi retirado durante uma reforma e não mais o recolocaram no lugar. Ele não sabe o paradeiro da obra.

                 SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO

Decidiram ir morar em São Paulo em 1985 e ficaram durante uns quinze dias numa pousada procurando uma casa para alugar no bairro do Sumaré. E foi através de d. Helena, que era russa e amiga de sua tia Dalva Mattos que conseguiu alugar uma pequena casa na Rua Desembargador do Vale e partiram para procurar galerias que pudessem aceitar o seu trabalho. Algumas nem os recebiam até que o Paulo Prado, conhecido galerista da Galeria Prado, que sempre apoiou jovens artistas os recebeu e expôs suas obras. O primeiro prêmio na carreira do Leonel Mattos foi em 1977 no Festival de Arte de Itapuã recebido das mãos do saudoso Sante Scaldaferri. Os artistas Leonel e Rogéria Mattos se inscreveram em vários salões inclusive no Salão de Pintura Jovem da Pirelli que teve uma participação de cerca de três mil artistas de todo o Brasil, e tanto Rogéria quanto o Leonel foram premiados e a exposição foi realizada no Museu de Arte  de São Paulo -MASP, sendo que Rogéria ficou entre os três melhores, segundo o júri especializado. Neste mesmo ano foi premiado no  Prêmio Chandon Arte e Vinho, no Paço das Artes e no VII Salão de Arte de Presidente Prudente, ambos em São Paulo; em 1986 foi premiado na I Bienal Arteoeste de Presidente Prudente, em São Paulo, com o Prêmio de Aquisição; em 1995 premiado na III Bienal do Recôncavo Baiano, realizado em São Félix/Cachoeira, com o Prêmio de Aquisição e em 2004 com o prêmio Braskem de Cultura e Arte com a Caixa Preta, que expôs no MAMB.

Obra recente onde incluiu rostos de conhecidos.
 Ficou cinco anos e meio em São Paulo, se separou e foi para Rio de Janeiro . Quando chegou ficou provisoriamente num apartamento do artista Jadir Freire, que foi para a Alemanha e lhe cedeu por um tempo. O Jadir também era baiano e  já faleceu. Continuou fazendo suas exposições na Galeria Anna Maria Niemeyer, no Rio de Janeiro; no Museu de Arte Moderna, no Paraná; no MAMB, e na Galeria O Cavalete, ambos em Salvador; em 1987 cria o projeto Extremo juntamente com Dina Oliveira, que é paraense; Ricardo Aprígio, de Pernambuco e Brito Velho, do Rio Grande do Sul, que foi uma exposição itinerante que percorreu dez estados brasileiros, inclusive teve uma exposição aqui no Museu de Arte Moderna da Bahia. Logo depois foi convidado pelo crítico de arte Jacob Klintowitz para participar da 1ª Seleção Helena Rubinstein no MASP, em São Paulo, e as obras foram mostradas em Paris e em Bordeaux, na França. Voltou para  Salvador e conheceu Indaiara e daí nasceu seu filho Leonel Rocha Mattos Filho, o Leo, já falecido, do qual eu era o padrinho.

GRANDE REVÉS E SUPEERAÇÃO

Fazendo escultura de
  cimento na prisão.
E
m 2000 sua vida sofreu um revés quando foi preso permanecendo 3,5 anos de reclusão, mas o Leonel Mattos não parou. Três meses depois que foi preso e sentenciado já dava a volta por cima e passou a pintar  inclusive as portas das celas e a ensinar alguns presos a trabalhar com tintas e pincéis. Quando faltava tinta improvisava com pó de café e continuavam pintando. Passou a escrever muitas cartas em qualquer papel que encontrasse, inclusive tenho algumas delas guardadas, onde mostrava toda sua revolta e sua ansiedade e o desejo de voltar a ser livre. Sou testemunha do empenho e da tenacidade de Isa Oliveira, com quem viveu 28 anos, sua ex-mulher, que teve um papel fundamental juntamente com seu irmão mais velho o João Mattos, que sempre procuravam as pessoas, inclusive a mim, que trabalhava no jornal A Tarde, e na época o veículo tinha um grande prestígio na sociedade baiana, e assim conseguiram que algumas reivindicações fossem atendidas. Ele é grato também ao André, da Bigraf, que fornecia os papéis para desenhar, e quem intermediava tudo isto era ela e o irmão João. Mesmo preso sua esposa à época conseguiu por exemplo, vender 173 telas para o Hotel Plaza de Camaçari e isto deu um certo alívio financeiro.

O Cristo que integra sua grande obrada Caixa
Preta onde conta toda a suatrajetória com 
com muitas fotos e textos .
Atualmente está no seu quarto relacionamento desta vez com Alba Trindade, que também pinta. É um artista diferenciado, reconhecido aqui e em outros estados brasileiros, inclusive com apreciação dos principais críticos de arte brasileiros como Geraldo Edson de Andrade, Olívio Tavares de Araújo, Olney Kruse e Theon Spanudis além dos críticos locais. Já participou de dezenas de salões, exposições coletivas e mais de vinte individuais em Salvador; Goiânia em Goiás; Porto Alegre; Brasília; Olinda em Pernambuco; Belém, no Pará; Recife, em Pernambuco; São Paulo, Capital; Santos, Ribeirão Preto, Presidente Prudente e Campinas, em São Paulo; Belo Horizonte, em Minas Gerais; Curitiba, no Paraná, e no Rio de Janeiro. Estas exposições foram anotadas até 2004, deste período para cá tiveram outras que ele deixou de computar. Com a sua capacidade de criar coisas novas e de pintar com entusiasmo de um iniciante Leonel Mattos continuará nos brindando com sua arte singular hoje disputada por colecionadores e galeristas.  E tem ainda muita estrada pela frente e coisas a realizar.

                                      EXPOSIÇÕES E PRÊMIOS
 COLETIVAS1971- Galeria O Candeeiro Salvador/BA; 1975 - Galerla Rag-Salvador/BA; 1977- Festival de Arte de ltapuã-Salvador/BA ;1º Salão de Arte, Museu do Carmo Salvador/BA; Galeria Tereza -Londres/Inglaterra;  1979 .Exposição Cadastro-Museu de Arte Moderna; Panorama Galeria de Arte --Salvador/BA ;1980 - Panorama Galeria de Arte-Salvador/BA Galeria de Arte
Salvador/BA;1981- Panorama Salvador/BĄ ;
1983 - Galeria de Arte Boulevard - Salvador/BA; IV Salão de Arte de Assis-São Paulo/SP; Circuito do Nordeste- Museu de Arte da Bahia Salvador/BA; 1984 - Leonel Mattos e Rogéria Mattos- Foyer do Teatro Castro Alves Salvador/BA; XXXVI - Salão de Artes Plásticas de Pernambuco - Recife/PE; 1985 -11 º Prémio Pirelli de Pintura Jovem - Museu de Arte -São Paulo/SP;  Il Prêmio Chandon Arte e Vinho , Paço das Artes- São Paulo/SP ; VIl Salão de Arte de Presidente Prudente/SP;  Xll Salão de Arte Jovem-Santos/ SP X Salão de Arte Contemporânea de Ribeirão Preto/SP; Galeria Mab-Salvador/BA; 1º Salão de Arte Contemporânea de Americana/SP;  XIl Salão de Arte Contemporânea de Campinas/SP; XXXVIl Salão de Artes Plásticas de Pernambuco/PE; Il Salão de Artes Plásticas de Goiânia/GO;  Escritório Domingos Penido -Rio de Janeiro/RJ;  1986 - 0scar Seráphico Galeria de Arte - Brasília/DF ; Iª Seleção Helena Rubinstein de Arte Jovem- MASP- São Paulo ; V Salão de Arte do Pará - Belém/PA; 48º Salão Paranaense - Curitiba/PR;  XXXIV Salão de Artes Plásticas- Olinda/PE ; 9º Salão FUNARTE/Sudeste - Palácio das Artes - Belo Horizonte/ MG;  IV Salão Paulista de Arte Contemporânea - São Paulo/SP ; l Bienal "Arteoeste"- Presidente Prudente/SP; 1987 ."Projetos Extremos “- Exposição ltinerante /1987/88/89;  Espaço Cultural Gásper Líbero - São Paulo/SP; Museu de Arte Moderna- Salvador/BA ; Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco - Olinda/PE;  Museu da Universidade Federal - Belém/PA; Galeria Anna Maria Niemeyer - Rio de Janeiro -RJ;  Oscar Seraphico Galeria de Arte - Brasília/DF Museu de Arte - Belo Horizonte/MG; Manoel Macedo Galeria de Arte- Belo Horizonte/MG; Bolsa de Arte Porto Alegre/RS; Museu de Arte – Florianópolis /SC;  I Seleção Helena Rubinstein de Arte Jovem - Parls e Bordeaux ;1988 1ª Bienal de Goiânia - Goiânia/G0;  "A Ousadia da Forma", Galeria Anna Niemeyer - Rio de Janeiro/RJ; 1993 ; IIl Bienal do Recôncavo São Félix /BA; 1994 - Movimento de Arte Contemporânea MAM-Salvador/BA;  Bahia Arte Atual Fundação Gregório de Mattos-Salvador/BA;  1995 - Galeria Sudameris-São Paulo/SP ; "Filhos do Abaporu* Galeria de Arte do Brasil- São Paulo/SP; 1998- "Tropicália-30Anos"- Museu de Arte Moderna Salvador/BA; Bahia à Paris- Galeria Modus - França/Paris; 450 Anos da Cidade do Salvador- Museu de Arte Moderna Salvador/BA;  2002-Fundação Gregório de Mattos Salvador/BA
INDIVIDUAIS -1974 - Galeria ESAF -Salvador/BA; 1980- Panorama Galeria de Arte; 1982- Galeria Genaro Salvador/BA; 1983 -O Cavalete Galeria de Arte - Salvador/BA ;1986 -  Galeria Paulo Prado- São Paulo/SP;  1987 -  O Cavalete Galeria de Arte - Salvador/BA;  Arte Maior Galeria - Rio de Janeiro/RJ ;1989 - Galeria Paulo Prado - São Paulo-São Paulo/SP ;  1991-O Cavalete Galeria de Arte- Salvador/BA; 1993 -  Artista Destaque- Escola de Belas Artes/UFBA Salvador/BA ;1997- Galeria de Arte Abaporu-Salvador/BA ;1998 - Gaveta de Memória- Galeria ACBEU Salvador/BA ;  2001 - Fábio Pena Cal Galeria de Arte
Salvador/BA;  2002 -  Museu de Arte Moderna- Salvador/BA;  2003 - Fábio Pena Cal Galeria de Arte - Salvador/BA ; 2004 -  Museu de Arte Moderna-Salvador/BA.
PRÊMIO -1977 .1º Prémio Festival de Arte de ltapuã ; 1985-Prêmio Chandon-Paço das Artes Aquisição;  Il Prêmio Pirelli- MASP-São Paulo/SP, Prêmio Aquisição;  VlI Salão Presidente Prudente/SP, Prêmio Menção Honrosa;
 São Paulo; 1986 -  Bienal "Arteoeste" Presidente Prudente/SP - Prêmio
Aquisição ;1995 - III Bienal do Recônçavo - São Felix -Ba, Prêmio Aquisição; 2004 -  Prêrnio Braskern de Cultura e Arte , Salvador/BA.. Prêmio Aquisição

APRECIAÇÕES CRÍTICAS : Carlos Eduardo da Rocha, César Romero, Claudius Portugal, Ferreira Gullar, Geraldo Edson de Andrade, Heitor Reis, Hélio Carneiro, Ivo Zanini, João Carlos Teixeira Gomes, José Dirson, Justino Marinho, Matilde Matos, Olívio Tavares de Araújo, Olney Kruse, Radha Abramo, Reynivaldo Brito, Risoleta Córdula, Ruth Laus, Sante Scaldaferri, Theon Spanudis e Wilson Rocha.