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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

A CUMPLICIDADE DOS ILUSTRADORES DE JORGE - 21 de maio de 2010

 O escritor Jorge Amado é um líder nato. Conversando com os ilustradores que a Galeria Anarte reúne na exposição “Universo Amado”, Carybé, Calasans Neto, Carlos Bastos, Floriano Teixeira, Jenner Augusto e Mário Cravo, que será aberta hoje, a partir das 19H30min, podemos sentir o quanto o escritor oitentão representou e representa para eles e, consequentemente, para a arte baiana. A maioria está em Salvador graças a este poder aglutinador de talentos de Jorge e do culto de sua amizade. Ele sabe como ninguém cuidar dos seus liderados, sempre dando um aconselhamento. Hoje, evidente que isto é coisa rara, já que seus amigos estão com as cabeças embranquecidas e carregam pelo tempo a experiência vivida em muitos anos de trabalho. Porém, eles guardam um respeito fraternal pela figura de Jorge. Cultuam suas brincadeiras, inquietações e preferências. Ao escrever um novo livro ele sempre detalha os personagens, para que o ilustrador traduza realmente o que imaginou, mas cabe sempre ao artista materializar os personagens do universo amadiano. Assim, teremos oportunidade de ver Gabriela, Tieta, Dona Flor e outros personagens deste mundo mágico criado por este homem, hoje, reverenciado em todo o mundo por sua obra de romancista universal.

Floriano Teixeira está morando em Salvador graças a Jorge Amado. É o ilustrador que em maior número de livros de Jorge está presente. Fez as ilustrações de Dona Flor e seus Dois Maridos, Menino Grapiúna, Milagre dos Pássaros e Morte de Quincas Berro D’água, Tocaia Grande, Farda e do Farda e Fardão, Camisola de Dormir (inclusive uma edição de luxo para Portugal) . Lembra Floriano que “Jorge é responsável por estar morando aqui e por uma virada completa na minha vida. Era um pintor de abstratos e foi ele quem orientou e me incentivou para voltar à figuração. Em 1966, vim como minha família do Ceará para a Bahia.

Aqui não conhecia ninguém, e ele me deu Dona Flor e Seus Dois Maridos para ilustrar. Isto abriu as portas para mim, tornei-me conhecido em todo o país e até mesmo fora daqui. Foi uma abertura de portas. Mas esta influência de Jorge na minha obra veio muito antes, quando li Capitães de Areia. E, esta convivência com ele é tão importante, é tão fraterna que a gente não tem mesmo palavras para explicar.” Não é preciso, basta a gente olhar a perfeita identidade da obra e dos personagens de Jorge com as ilustrações que Floriano fez , para sentir a cumplicidade e a parceria.

 Já Mário está num ritmo febril de trabalho. Não pára de esculpir em pedra-sabão suas cabeças de Ogum, Exu e belas Iemanjá. Mostra-se inquieto e sem paciência para encontros e entrevistas. Mas, ele tem direito. Já talhou a sua própria existência e obras para a posteridade, sua figura física e seu jeito de ser combinam com as criaturas que esculpe com maestria, e ser até estranho que ainda tivesse tempo para outras ocupações terrenas...

Outro ilustrador da obra de Jorge é o sergipano Jenner Augusto. De temperamento quieto, caladão e de uma finura no trato à toda prova.É desconfiado que nem índio, ou mesmo caboclo. Fica espiando o que a gente está fazendo e ouvindo as conversas. Não interrompe e nem mesmo dá uma penada. É preciso provocá-lo, do contrário, entra e sai calado. Só vamos ouvir a sua voz quando se despedir. Mas Jenner estava também presente ao bate-papo com esta gente difícil de ser reunida. Ele falou da influência de Jorge na sua vida e obra. Em 1954 morava no Rio de Janeiro e também embarcava na onda mundial do abstracionismo. Num encontro que teve com Jorge Amado , após retornar da Europa, acabou com um conflito que Jenner estava enfrentando. “Eu não estava satisfeito com o que fazia e o aconselhamento de Jorge foi uma luz. Voltei ao figurativo e esta amizade tem vencido décadas”.

Jenner tinha uma vontade acalentada de ilustrar Capitães de Areia, e agora nesta exposição comemorativa dos 80 anos de Jorge realizou o seu sonho fazendo suas obras inspiradas nos meninos de rua.

Mas, a liderança de Jorge conseguindo juntar esta plêiade de bons artistas está presente não apenas nas páginas de seus livros, mas também nos catálogos das suas principais exposições. Eles ostentam as apreciações, sempre poéticas e abalizadas de um homem que também entende e gosta de artes plásticas. Sua casa é sempre ornamentada de muitas obras de seus ilustradores. Jenner é o ilustrador de Tenda dos Milagres, onde conseguiu captar a alma dos personagens, ricos elementos fundamentais que formam o que podemos chamar cultura baiana, tão representada pelo universo dos personagens criados pelo escritor.

O artista Calazans Neto sempre foi ligado ao livro, participando, inclusive, de movimentos literários com outros intelectuais baianos. Existe uma cumplicidade entre o livro e a gravura, uma ligação forte, bastando lembrar as inúmeras ilustrações utilizadas em livros de poesias com gravuras. Uma oportunidade ímpar do artista divulgar o seu trabalho. Um livro de Jorge Amado com 150 mil exemplares em diante passa pelas mãos de cinco ou dez vezes mais de leitores, o que implica num número considerável de pessoas que vai ter oportunidade e ver as gravuras de Calasans neto, além da vantagem da perpetuação do livro. E Jorge Amado, não sendo poeta, mas romancista, foi talvez um dos primeiros no Brasil a utilizar a gravura para ilustrar suas obras, e Cala, como é mais conhecido, deu forma a Tereza Batista, Cansada de Guerra, evidente que seguindo a orientação do seu criador-mor. Jorge chega a detalhar como imagina o rosto, o corpo, aliás, por falar em corpo as suas personagens femininas sempre têm formas cheias, roliças, uma preferência pessoal que ele deixa escapar ao nosso conhecimento.

Lembra Calasans neto que a gravura está muito ligada principalmente a exilo, ao cordel. A primeira ilustração de Calazans para uma obra de Jorge Amado foi, portanto, com Tereza Batista Cansa de guerra em 1973.

Mostrando um contentamento quase juvenil, Calasans revela que a sua segunda oportunidade de ilustrar veio com Tieta do Agreste com uma peculiaridade, porque a personagem era uma pastora de cabras. “Ora, uma perfeita identificação porque já pastoreava minhas cabras pelas bandas de Itapuã e as cabras acompanharam meu trabalho durante um bom período. Caiu a sopa no mel. Isto foi em 1976. Jorge deu a alma a Tieta, e eu a materializei com as formas de minha arte. Fiz uma mulher saída do povo em Tereza Batista e com Tieta segui a mesma linha”. Para esta exposição do Universo de Jorge, o mestre Calá pegou as ilustrações dos livros e as transportou para a tela fazendo uma brincadeira com seu amigo fraternal colocando-o montado num belo cavalo com Tereza Batista na garupa. No seu jeito inconfundível e cativante, o artista deixou escapar uma frase que resume esta ligação com Jorge e seus ilustradores. “Jorge é o criador. As criaturas que ele cria são amadas por seus ilustradores”. Uma identificação perfeita deste homem que é um verdadeiro imã que atrai esta nata do que existe de mais significativo no segmento das artes plásticas em nossa Bahia.

Carlos Bastos revela, além da sensibilidade para com os artistas, o lado humano do escritor: “Tive uma fase onde fiquei quase paralítico e Jorge sempre foi uma presença constante, me confortando e ajudando no que pôde. Trabalhar para um livro dele é uma satisfação que não tenho palavras para descrever. Tivemos cerca de dois anos morando vizinhos e quase sempre ele mandava me chamar para conversar. Eram horas de muita conversa jogada fora. Depois, hordas de turistas começaram a perturbá-lo, muitos quase invadindo a sua intimidade, e ele teve que deixar a Pedra do Sal, para nossa tristeza”.

Ele ilustrou o livro Baía de Todos os Santos em 1977. Livro que cita este jornalista numa de suas páginas. Voltando a Carlos Bastos ele disse ainda que “Jorge foi sempre muito cuidadoso, passa detalhes de seus personagens e às vezes orienta como o desenho poderia ser feito. Isto não significa interferência, mas é fruto da convivência e de uma integração maior com seus ilustradores. São 125 desenhos retratando situações e personagens. Neste livro ele mostra toda sua capacidade criativa e conhecimento da arte de desenhar. Diria que Carlos Bastos é um dos mais representativos desenhistas deste país. Poucos conseguem com ligeiros traços traduzir a personalidade, os detalhes de um personagem, de um objeto ou paisagem.

Lembro um imponente painel que ornava a Assembleia Legislativa da Bahia, o qual retratava várias personalidades e gente da Bahia. Este painel foi destruído num incêndio, e até hoje Carlos Bastos lamenta o seu desaparecimento. Aliás, este artista já foi vítima de outros acidentes ou mesmo descaso , como aconteceu com os murais que pintou na antiga Boate Anjo Azul, que ficava no Cabeça, próxima ao Largo Dois de Julho, que foi ponto de encontro da intelectualidade baiana em determinado período. Além de ilustrar Baía de Todos os Santos, fez a capa de Tieta do Agreste. “Fiz quatro versões, confessa, e o Alfredo Machado, editor de Jorge, acabou escolhendo a que menos eu gostava.”

Sobre a sua presença nos livros de Jorge Amado, Carlos Bastos reconhece a importância e o que representou para ele. Lembra que logo após o lançamento surgiram convites para várias exposições, inclusive uma em Porto Alegre. Sua surpresa maior e agradável foi a presença de Jorge Amado no vernissage. Diz Carlos Bastos que “Jorge é um líder natural. Ele mudou a minha vida, é responsável por eu morar na Bahia, e graças a ele estou aqui até hoje. Diria que Jorge é um mecenas dos tempos modernos”.

Carlos é um artista muito sensível e esses acontecimentos marcaram muito sua vida, como o incêndio do painel citado acima e a censura exercida sobre sua obra, especialmente os murais que fez para a capela no Parque da Cidade do Rio de janeiro, onde pintou rostos de pessoas conhecidas, representando temas bíblicos, e já faz muitos anos, mas até agora não foi liberado. Também, lembra com tristeza das telas cortadas estupidamente numa exposição que fez na então Biblioteca Pública, que funcionava na Praça Tomé de Souza, em Salvador, onde foi construída a “nova” sede da Prefeitura e o Cemitério de Sucupira.

Também Carybé, um ano mais velho que o homenageado, disse que Jorge é o responsável pela mudança do rumo da sua vida. Sempre viajou muito, e quando o conheceu tinha um emprego de ilustrador e fazia pequenas crônicas de viagem para um jornal argentino chamado Pregon, que veio na época revolucionar o mercado jornalístico de sua terra. Lendo o Jubiabá, no Rio de Janeiro, disse: “Ah! Vou atrás deste cara porque não pode ser verdade o que ele está descrevendo neste romance”.

Nesse ínterim fui aos Correios buscar uma encomenda e recebi uma carta de meu irmão dizendo que o jornal tinha falido. Já estava com dois meses de atraso do meu ordenado. Ele avisava que não mandasse pedir dinheiro porque ele também estava duro. Morava numa pensão e fiz amizade com João Borges, sergipano, que me arranjou uma viagem para Aracaju com o político Josafá Borges, recentemente falecido. De lá segui para Estância atrás do autor de Jubiabá. Fui encontrar Jorge num mafuá. Foi uma decepção. Esperava encontrar um mulato forte, de cabelos encarapinhados destes que tive oportunidade de conhecer no cais e na feira de São Joaquim. Mas, que nada! Encontrei um sujeito magrinho, com um bigode ridículo. Ai fiz o primeiro contato e o início de uma grande e fraterna amizade.Voltei a Buenos Ayres e lá fiz uma exposição dos tipos humanos que desenhei. Demorei por lá alguns anos e retornei ao Brasil. Fui trabalhar na tribuna da Imprensa, no Rio de janeiro, com Carlos Lacerda, fazendo ilustrações e charges. Queriam que fosse diagramador, mas nunca diagramei nada. Até que Rubem Braga fez uma carta me apresentando a Anísio Teixeira. Ao ler a carta, Anísio ficou espantado e disse-me que estava construindo a Escola Parque e lá havia espaço para alguns painéis. Mandou a funcionária que o atendia no gabinete da Secretaria de educação buscar uma folhinha da Esso. Por uma coincidência feliz, a folhinha tinha sido ilustrada por mim. Aí fui ficando e a amizade com Jorge aumentando. Jorge já veio morar na Bahia e fui convidado para ilustrar Quincas Berro D’água, numa edição de luxo. Depois fiz os cenários e figurinos para o balé inspirado no livro que foi apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Para Carybé existe uma identificação perfeita entre as figuras que povoam o seu mundo pictórico e mesmo de relação pessoal e os personagens de Jorge. “É esta gente do povo, rica em sinceridade e alegria. Vivi com esta gente: os bêbados, os mestres de saveiros e de capoeira, as prostitutas, os malandros, enfim, este universo que habita as ruas e ladeiras da Bahia. Com o tempo isto vem se modificando, mas ainda permanece a essência”.

No livro Sumiço da Santa, Carybé foi convidado novamente para ilustrar e colocou a cara de Jorge num personagem muito conhecido na Bahia. O escritor não gostou da brincadeira e “tive que mudar”. Ele prefere não entrar em detalhes, porque o comportamento sexual do cidadão fugia à normalidade e seria perfeitamente identificável. Compreensiva, esta sua atitude de reserva...

Neste instante, Floriano Teixeira entra no bate-papo e diz que também enfrentou uma situação parecida. “Coloquei a cara de Jorge no turco Fadu Abdala, personagem de Tocaia Grande e em Milagre dos Pássaros, onde o escritor aparece com as mãos cheias de frutos. Às vezes, ele não gosta e volta a detalhar as coisas para que possamos traduzir melhor as suas criaturas. Mas sempre conseguimos driblar, e ele e outros amigos aparecem nos desenhos que incorporam seus personagens”, revela Floriano.


sábado, 2 de dezembro de 2023

SÉRGIO RABINOVITZ RESILIÊNCIA CONTEMPORÂNEA

Sérgio  no  ateliê e uma grande tela onde vemos
 o gestual  e o grafismo que marca sua pintura.
Percorro as minhas telas com a ansiedade do grafiteiro que percorre os muros da Cidade”. Esta frase está num pequeno texto que o artista Sérgio Rabinovitz escreveu quando em determinada época tentou definir a sua arte. Hoje maduro continua com a mesma disposição de ocupar os amplos espaços de suas telas ou de outro suporte com a mesma disposição e visão contemporânea de quando chegou depois de estudar dois anos em Nova Iorque e morar mais por um outro período. Sua arte é acima de tudo gestual, gráfica, aquela coisa do preto e branco que entrou na sua alma de artista e permanece até hoje e isto identifica a sua obra, a sua linguagem e a forma como ele conta as suas histórias e se expressa livremente. Aproveitou para visitar muitos museus, frequentar galerias, viu importantes exposições e cruzou nas ruas com gente famosa como Andy Warhol, John Lennon e outras pessoas que moravam naquela grande metrópole cosmopolita. Tem a resiliência e a teimosia do seu povo que mesmo enfrentando condições adversas sempre luta para continuar e vencer os obstáculos que surgem durante a sua existência. Sérgio Rabinovitz é filho de pais judeus. Conheci seu pai Salomão Rabinovitz quando estava no jornal A Tarde e ele de quando em vez aparecia com um texto e uma foto sua ou da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia anunciando um novo concerto. Ele era o spalla, ou seja, o primeiro-violino da orquestra. O que fica ao lado do maestro e dá aqueles solos belíssimos enquanto os demais músicos e plateia escutam silenciosos a sua apresentação. Depois tornou-se Diretor da Orquestra e tocou pelos mundo afora com importantes maestros. Conheceu sua esposa Dora Fichman também graças à música porque ela era violinista na Orquestra Sinfônica no Rio de Janeiro onde ele era um dos violinistas e tiveram três filhos homens.

Quatro telas com a base pronta para  ele pintar.
O artista é natural de Salvador e fez seu último ano do primário na Escola Israelita, que funcionava no Campo da Pólvora,  e depois foi para o Colégio de Aplicação, que era vinculado a Faculdade de Filosofia da UFBA, que ficava no prédio onde hoje funciona o Ministério Público, na Avenida Joana Angélica. Nesta época funcionavam vários cursos neste prédio, inclusive foi lá que me tornei bacharel em Jornalismo e depois em Ciências Sociais. Era um dos baluartes da resistência contra as medidas autoritárias do regime militar. Seu pai que era uma pessoa muito conhecida no seio da universidade e nos meios artísticos baianos decidiu lhe apresentar a Calasans Neto. Foi no ateliê de Calá, no bairro de Itapuã, em Salvador, que ele teve os primeiros contatos com uma prensa e  as ferramentas da xilogravura. Ficou alguns anos até que o Calá vendo que já aprendera tudo que podia ensinar e orientar lhe aconselhou a procurar Mário Cravo Junior e passar um tempo por lá em seu ateliê-oficina. Foi então que o Salomão, sempre um pai presente, o acompanhou devidamente armado com um
Capa da Constituição da Bahia de 1989 
de autoria de Sérgio Rabinovitz.
bilhete de recomendação do mestre Calasans Neto. O Mário Cravo, para os que tiveram o privilégio de conhecer não era muito de agrados e mostrou-lhe uma velha prensa totalmente suja e ocupada com pedaços de ferro, e outros objetos e restos de materiais, e disse mais ou menos assim. “Se você conseguir limpar pode ficar ali trabalhando, só não me encha o saco”. Sérgio não perdeu tempo e passou a retirar toda aquela sujeira e tudo que não tinha utilidade até que a prensa ficou limpa e em condições de funcionamento. Ali trabalhou e silêncio e conviveu com o maior escultor baiano de todos os tempos e aprendeu muito. Enquanto trabalhava de quando em vez o mestre Mário Cravo Júnior dava uma rápida olhada e sugeria alguma coisa para enriquecer a obra. Nesta prensa e ambiente frequentaram grandes artistas de renome nacional e até internacional como Oswaldo Goeldi, o grande mestre da xilogravura; Henrique Oswald e outros. O trabalho no ateliê de Mário Cravo era muito intenso e assim o Sérgio não ousava interrompê-lo, deixava que ele se manifestasse quando bem entendia.  O Sérgio Rabinovitz chegou a fazer o vestibular e frequentar por um período o curso de Física na Universidade Federal da Bahia. Mas a arte era mais forte e terminou abandonando a Física.

                                   NOS ESTADOS UNIDOS

E assim ficou no ateliê de Mário Cravo até que em 1976 recebeu uma bolsa da Fundação Fulbrigth que tem um programa de intercâmbio educacional e cultural do governo dos Estados Unidos com outros governos, e está aqui no Brasil há mais de setenta anos. Foi criada em 1946 por lei do senador J.William Fulbright. Vários artistas baianos, escritores e outros intelectuais já foram beneficiados por esta instituição americana. Foi estudar numa das principais universidades de arte a The Cooper Union for the Advancement of Science and Art, mais conhecida como Cooper Union  na cidade de Nova Iorque.

Porém antes passou uma temporada em Connecticut, na universidade Wesleyan que tem uma das mais importantes coleções de gravuras do mundo. É uma universidade privada de artes liberais e conhecida popularmente como a Universidade Wesleyana e foi fundada em 1831. Lá ele pode conhecer de perto gravuras dos principais artistas de todo

Sérgio diante dos livros e catálogos de
sua trajetória
.
o mundo e teve grandes mestres. Estudou com o professor Paul Sides, que foi um dos desenvolvedores da tinta acrílica, e não patenteou sua invenção. Lembra da emoção em ver e pegar em gravuras dos grandes mestres da arte universal. Depois veio para New York estudar na Cooper Union que é uma  "escola construída com base em um novo modelo radical do ensino superior americano, baseado na crença fundamental do fundador Peter Cooper de que uma educação "igual às melhores escolas de tecnologia estabelecidas" deve ser acessível a quem se qualificar, independentemente de sua raça, religião, sexo, riqueza ou status social e deve ser "aberto e livre para todos". O próprio fundador da Cooper cunhou uma frase “Ser livre como o ar e a água”, Hans Haacke professor alemão de arte conceitual, krishna Redy de gravura. E completa Sérgio Rabinovitz “a Cidade de Nova Iorque por estar morando lá já é um grande aprendizado para a vida”. Foi neste período que o Mário Cravo Neto, fotógrafo, filho do escultor Mário Cravo Junior , resolveu passar uma temporada em Nova Iorque e lá eles saiam para fotografar a cidade, seus personagens e tudo que lhes interessavam. Lembra Sérgio que foi um período muito rico e cada vez mais abrir seus horizontes artísticos. Quando voltou para o Brasil já estava usando o papel como suporte não para fazer gravura e sim para pintar. Fez muitos trabalhos em pintura todos dentro de uma visão de arte contemporânea com muito grafismo. Sua arte é o resultado, segundo mesmo se expressou de uma conjunção de várias linguagens como a gravura em metal, em madeira, a litografia, dentre outras e fiquei com aquela força do preto e branco e do grafismo dos grafites que se multiplicavam nas paredes e muros da cidade americana.

                                             BAIANO DE RAIZ

Sérgio, Carolyn sua esposa, João Osmário,
Jorge e Zélia Amado no lançamento do livro 
de Jorge com duas ilustrações do artista.
S
érgio Rabinovitz nasceu em Salvador na antiga Maternidade Promatre, que ficava quase defronte ao Colégio da Bahia ou Central, na Avenida Joana Angélica. Nesta época seus pais Salomão e Dora Fichman moravam no Rio de Janeiro onde trabalhavam na Orquestra Sinfônica. Quando Dora ficou grávida e chegou a hora de ter a criança decidiu que teria que ser na Bahia onde moravam seus pais. Portanto, Sérgio Rabinovitz nasceu em Salvador no dia 17 de dezembro de 1955. Depois já estavam no Rio de Janeiro seu pai ganhou uma bolsa de estudos para estudar violino na Áustria com um grande mestre desse instrumento. Foi assim que receosos de levar um bebê para a Áustria decidiram deixar com os avós que residiam num prédio na Rua do Paraiso, no bairro de Nazaré, em Salvador. Por coincidência seus avós maternos e paternos moravam no mesmo prédio, e assim a ausência dos pais foi de certa forma preenchida pelos avós. Ao retornarem da Áustria um ano depois seus pais o levaram para o Rio de Janeiro onde permaneceu até os onze anos de idade. Lá estudou na Escola Israelita Brasileira Eliezer Steinbarg Max Nordau, que funciona no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Ao completar onze anos vieram para Salvador e ele foi estudar no Colégio de Aplicação até concluir o ensino médio e fazer vestibular para Física na Universidade Federal da Bahia.

Na obra Ciclistas  vemos a fluidez dos
traço que marcam sua pintura.
Quando voltou em 1979 dos Estados Unidos fez sua primeira exposição na Associação Brasil-Estados Unidos – ACBEU, na época a Bahia tinha um consulado americano sediado aqui, e promovia muitas exposições e outras atividades culturais importantes. Fez duas exposições no Museu de Arte Moderna da Bahia, sendo uma quando ainda estava nos Estados Unidos e o diretor era o Sylvio Robatto. A  outra quando retornou  e o diretor era Francisco Liberato. Sua quarta mostra foi no Museu do Carmo, espaço criado por José Pedreira. O decorador e crítico de arte baiano nascido na ilha de Itaparica em 1923 José de Souza Pedreira na época Diretor do Museu de Arte da Bahia onde permaneceu de 1979 a 1981, que fica no Corredor da Vitória, em Salvador. Ele é autor do livro de contos Rosa da Noite, com belos desenhos de Carybé, e foi ele quem providenciou esta exposição para o jovem Sérgio Rabinovitz apresentar suas últimas criações.

De lá para cá vieram várias exposições e momentos de vitórias importantes na vida artística de Sérgio Rabinivitz. Mostrou no seu ateliê a pegadas das suas caminhadas no fazer arte. Numa das imensas mesas vi vários pedaços de pano morim onde ele faz seus desenhos e depois transfere para as telas. Antes ele faz uma camada com gesso, dá uns riscos gestuais para depois de pronta a base passar a transferir as imagens para a tela. Aí entra um esforço físico maior porque tem que pressionar bem para que a tinta transpasse o tecido de morim e se fixar na tela.

Observamos  o equilíbrio das formas
abstratas e das cores usadas nesta obra.
Trabalha tanto que tem exposições prontas de pintura, de desenhos e gravuras que nunca foram mostradas. Tem recebido pessoas em seu ateliê onde tem uma home gallery onde suas pinturas estão todas dispostas em painéis móveis que podem ser apreciadas com mais conforto e boa visualização. Me mostrou uma grande quantidade de madeira que utiliza para fazer os chassis de suas telas. Compra panos de vela de barco de qualidade e assim constrói as telas onde vai fazer suas pinturas. Diz que está mais desapegado e que tem passado algumas temporadas nos Estados Unidos, especialmente no estado do Oregon, onde mora um de seus filhos e está tentando criar um ponto de ligação entre suas atividades aqui e lá. Se mostrou preocupado com a situação de nosso país e espera que o Brasil consiga passar por todas estas dificuldades e crises para que possamos viver com mais tranquilidade neste país abençoado por Deus.

                            COMO DIFINE SUA ARTE

E pra encerrar transcrevo o pequeno texto que o Sérgio me enviou com este bilhete:
"Bom dia amigo. Sua visita me pôs a meditar sobre trajetória,caminhos,definições e achei este pequeno texto que escrevi há alguns anos creio bem define a mim e minha obra. Espero que possa somar a nossa conversa." Vejamos: 
 Rabinovitz define  a arte que faz há décadas.
"Meus trabalhos são bastante espaciais, e neles procuro um grande impacto visual, tratando essencialmente do cotidiano por uma visão abstrata e espontânea, revelando uma realidade que estimule o espectador a participar ativamente, construindo também a sua realidade sobre a minha visão de artista. Vejo a pintura, essencialmente, como registros de passagem, da passagem do tempo e do espaço, registro da passagem do homem sobre a terra e da sua ação transformadora, da passagem de um indivíduo e de sua visão do mundo e do homem ao seu redor. Percorro minhas telas com a ansiedade do grafiteiro que percorre os muros da cidade. Escutando o tempo na contemplação das inscrições futuras. Assim me faço pintura. A visão percorrendo o estreito espaço entre o real e o imaginário, entre a parafernália visual moderna e a mais remotas e ancestrais lembranças, o gesto herdado de quando só falávamos ao redor do fogo. Pintura, gesto, ação, o momento, a vida que se revela a cada instante".

EXPOSIÇÕES E COLEÇÕES

Galeria ACBEU, Salvador, Bahla; 1975 Museu de Arte Moderna da Bahla, Salvador, Bahla; 1976 Houghton Gallery, New York, NY, USA; 1978 Museu de Arte Moderna da Bahla, Salvador, Bahla, 1979 Museu de Arte de Sao Paulo (MASP), São Paulo, Sao Paulo; 1980 - Museu de Arte do Estado da Bahia, Salvador, Bahia; Paulo Figueiredo Galeria de Arte, São Paulo, São Paulo; 1981 Galeria Arte Sobre Papel, São Paulo, São Paulo; 1982 MAB Galeria de Arte, Salvador, Bahia; 1983 Paulo Figueiredo Galeria de Arte, São Paulo, São Paulo; 1986 Multiplus Galeria, Salvador, Bahia; 1987 Galeria Serendipity, São Paulo, São Paulo; 1988 Frente e Verso Galeria, Salvador, Bahia; 1989 Ada Galeria de Arte, Salvador, Bahia; 1991 MTM Design Studio, São Paulo, São Paulo; 1993 Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, Bahia; 1996 Espaço Barcelona, Salvador, Bahia; Museu Metropolitano de Curitiba, Paraná;  Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro; 1997 Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, Bahia; 1998 Fundação Casa de Jorge Amado, Salvador, Bahia; Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, Paraná; 2000 Galeria Carlo Barbosa, UEFS, Feira de Santana, Bahia;  Galeria Mosaico/Breezes, Costa de Sauípe, Bahia; 2002 Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, Bahia; 2003 Galeria Arte Memória, Igatu, Bahia; 2004 Centro Cultural Correios, Salvador, Bahia;  Galeria Por Amor à Arte, Porto, Portugal; 2007 Brazilian Contemporary Arts, London, UK, 2007 Illini Art Gallery, Illinois University, US; 2012 W&S Art Consultants, Chicago, USA e  2015 - UFVSF, Petrolina, Bahia.

PRINCIPAIS COLEÇÕES Davison Print Collection; Wesleyan University, Connecticut; USA Museu de Arte Moderna da Bahia, Brasil; Peter Cooper Foundation, New York, USA; Window South Collection, California, USA; Secretaria de Cultura de Curitiba, Paraná, Brasil; Banco Safra, São Paulo, Brasil; Coleção Kim Esteve, São Paulo, Brasil ;Museu de Arte Brasileira da Fundação Alvares Penteado, São Paulo, Brasil; Fundação José Silveira, Salvador, Brasil; Fundação Casa Jorge Amado, Salvador, Brasil ;Museum of The University of New Mexico, Albuquerque, New Mexico, USA; Museu de Arte Contemporânea de Curitiba, Paraná, Brasil; Coleção Superclubs Breezes, Costa do Sauípe, Bahia, Brasil ;Bass Museum of Art, Miami, Florida, USA ;  Manilow Collection, Wisconsin,USA  e Burger Collection ,Switzerland.



 

 

 


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

LEMBRANÇAS 2 - MESTRE RESCÁLA

Rescála ao centro, eu e Ivo Vellame ultimando
o julgamento das obras na AABB.

Estive algumas vezes com o mestre João José Rescála, professor emérito da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia e um dos fundadores do Grupo Bernadelli. Uma das coisas que mais me chamava atenção além de sua calma, a fleuma semelhante a de um  inglês, é que ele costumava acender um cigarro atrás do outro. Talvez isto tenha contribuído para sua morte. Ele foi um dos grandes restauradores de importantes obras como funcionário do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, na Bahia. A humildade e a coerência são dois fatores importantes para conhecer sua vasta obra. Numa destas vezes que estive com o mestre Rescála foi durante o julgamento de algumas obras do 2º Salão Nacional de Pintura, edição Bahia, promovido pela Federação Nacional de AABBs, em agosto de 1982 ,no Clube Associação Atlética da Bahia, no bairro da Barra,em Salvador.

Rescála  em 1976 , com cigarro na boca 
, pintando para sua exposição numa 
 galeria localizada no Hotel Othon Pálace.
 Nos anos 80 e 90 o movimento de arte na Bahia era  intenso, tinham muitas galerias funcionando e até os clubes sociais, instituições e organizações diversas promoviam exposições e até salões de arte. Lembro que empresas do Polo Petroquímico e de outros setores da economia também apoiavam as artes plásticas baianas. Por uma triste coincidência do ano 2000 para cá houve uma diminuição de galerias, de salões e exposições. Os órgãos oficiais passaram a dar mais importância a música e outros segmentos que trazem mais visibilidade e entretêm o povo enquanto as mazelas são cometidas. Também houve a diminuição da atividade econômica e assim as empresas deixaram de investir nas artes visuais.

 

 


sábado, 25 de novembro de 2023

ANTÔNIO LOBO O DECANO DAS ARTES PLÁSTICAS BAIANO

 Antônio Lobo com algumas aquarelas, aos 96 anos.
Estou diante de um artista que é uma página viva da história das artes na Bahia. É o decano das artes plásticas baianas e hoje no alto de seus noventa e seis anos de idade continua lúcido e ativo criando suas aquarelas e publicando nas redes sociais. Sempre procurou aprender coisas novas e fez muitos cursos tanto de arte como de outros assuntos que lhe interessavam. Atualmente está dedilhando um violão novinho tentando aprender com o seu neto Fernando Tavares que acabou de chegar de Boston, nos Estados Unidos, onde se graduou em música e ficou curioso com a vontade de seu avô em aprender a tocar. Daí lhe presenteou com o violão que o Antônio Lobo dedilha nas horas que deseja. Nasceu no início século passado e conviveu com grandes artistas como Floriano Teixeira, Carybé, Carlos Augusto Bandeira, os alemães Adam Firnekaes,Floriano Teixeira, Hansen Bahia e muitos outros. Aponta para a parede da sala e mostra uma aquarela de autoria de Adam Firnekaes que fez no Rio de Janeiro e lhe presenteou.
Uma bela aquarela onde se
destaca o reflexo na água.
O alemão nasceu em 13/12/1909 veio ao Brasil para tocar fagote na Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro. Chegou a Salvador em 1958 transferindo sua residência ao ser contratado para lecionar fagote, saxofone e música de câmara nos Seminários Livres de Música da Universidade Federal da Bahia. Em 1962 criou o Curso de Pintura Experimental no Instituto Cultural Brasil/Alemanha. Neste curso o Antônio Lobo era um dos alunos e quando Adam Firnekaes morreu em 8/9/1966 foi substituído pelo paranaense Lênio Braga e, posteriormente por Carlos Augusto Bandeira. “O curso do mestre Adam Firnekaes não visava formar pintores, sim apreciadores da arte. Ele ensinava as várias técnicas desde a colagem à pintura a óleo, acrílica e outras técnicas, sempre com muita teoria.” Disse que Carlos Augusto Bandeira “foi o maior desenhista que conheci. Íamos estudar num ateliê que ele tinha na Barra durante a noite. Eu sempre ia com Itamar Espinheira e mostra um quadro a óleo que pintou de um retrato da colega Ana Maria Vilar , e disse que o Bandeira deu algumas pinceladas na tela durante uma aula. Era também amigo de Floriano Teixeira que veio algumas vezes em seu apartamento no Rio Vermelho e ele o visitava. “Depois que ele morreu ofereci em solidariedade à sua esposa um quadro que Floriano tinha me dado para que ela pudesse vender”. Não estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, mas era um assíduo frequentador de cursos livres no Instituto Cultural Brasil -Alemanha - ICBA, hoje chamado de
Gravura em metal que fez
nas Oficinas do MAMB.
Instituto Goethe, das oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia, e relembra que fazia um curso de gravura em metal c0m o artista Antonello L'Abbate ministrando as aulas, “mas  infelizmente os novos dirigentes do museu à época acabaram com o curso”. Recentemente participou de um curso com a ceramista Irene Omuro que tem seu ateliê no Litoral Norte. Ao falar do curso de ceramista me exibiu uma bela peça de cerâmica azul esmaltada que fez durante as aulas do curso. 
Relembrou que seu interesse pela arte foi desde cedo, mas se consolidou durante uma amizade que fez com um engenheiro alemão chamado Max Bartl , que veio para a Bahia representando a empresa Siemens e eram vizinhos de apartamento no bairro da Graça onde moravam. Desta amizade passou a apreciar as esculturas e pinturas que o Hans fazia, e assim iniciou a pintar seus primeiros quadros. Perdeu o contato com Hans, mas daí em diante sempre procurou novas maneiras de aperfeiçoar seus desenhos e pinturas e para isto frequentou vários cursos livres. Nos últimos anos abraçou a aquarela porque as tintas a óleo não lhes faziam bem e a aquarela é mais tranquila, além de ser fácil de guardar. Ele gosta de aquarelar usando como suportes papeis com 600 e até 700 gramas “porque suportam mais a água, quando queremos clarear um céu ou o mar.”  Joga xadrez e é apreciador de um bom vinho e de ouvir música clássica. Uma reportagem antiga conta suas façanhas como xadrezista que numa simultânea em Salvador com trinta tabuleiros o famoso jogador internacional o gaúcho
Aquarela do Convento do
Desterro,em Salvador
.
Henrique Costa Mecking, conhecido mestre do xadrez por Mequinho, conseguiu 26 vitórias, e quatro empates, um deles foi com o Lobo. Logo depois o Clube de Xadrez da Bahia promoveu outra simultânea desta vez com o jogador Alexandru Sorin Segal  nascido em Bucareste, em 4 de outubro de 1947 e faleceu em  6 de janeiro de 2015. Foi um economista e enxadrista judeu-romeno naturalizado brasileiro e campeão de enxadrismo em 1974 e 1978. Segal veio jogar uma simultânea em Salvador e novamente Lobo conseguiu empatar. Viúvo de d. Ruth Lobo e pai de três filhos continua com sua disposição de aprender coisas novas. Como somos geminianos do segundo decanato disse brincando “nós geminianos sempre queremos aprender mais”. Foi ai que lembrei daquela famosa frase atribuída a Sócrates: “Só sei que nada sei”. Dizem os estudiosos da Filosofia que “a popular frase só sei que nada sei ou Sei uma coisa: que eu nada sei, por vezes compreendida como um paradoxo socrático, é um dizer muito conhecido, derivado da narrativa de Platão sobre o filósofo Sócrates. No entanto, a frase não é mencionada em nenhum texto grego antigo que nos tenha sido legado.

                                                                  PROPAGANDISTA /VIAJANTE

Casa na zona rural, aquarela.
Durante algumas décadas o Antônio Lobo de Souza exerceu a profissão de propagandista ou viajante comercial que era o profissional que desbravava o país no final do século XVIII e início do século XIX para vender produtos diversos nos quatro rincões deste Brasil. O transporte coletivo quase não existia, e os poucos carros que existiam não viajavam muito para interior devido a precariedade das estradas que eram carroçáveis. Muitas vezes os viajantes faziam longos percursos de trens e em lombo de burros. Relembrou Antônio Lobo de uma dessas viagens que fez da cidade de Ipiaú até Poções por volta de 1948. “A distância era de quarenta léguas, nos informou o arreeiro a mim e dois colegas viajantes de outras empresas. Alugamos os seus serviços e ele trouxe os animais para a viagem, inclusive um de reserva e ainda outro para carregar a bagagem. Percorremos parte do Vale do rio Gongogi até chegar a Poções onde fomos vender as mercadorias. Eu trabalhava com remédios, e geralmente nestes locais tinha um bazar ou armazém que vendia todo tipo de produto”. O arreeiro que ele fala era uma espécie de tropeiro condutor de animais. Alguns levavam produtos das cidades maiores para os rincões deste país e comercializavam ou serviam de transporte alugando seus serviços.

Aquarela de uma rua da cidade de
Palmeiras, Bahia.
Ele lembrou ainda que certa vez foram para uma localidade que tinha um bazar com o nome de Ponto Chique. Fui pesquisar e encontrei um distrito com este nome no município de Iguaí, na Bahia, não soube precisar se foi este. Mas, a história é que eles foram para este bazar que vendia de tudo e depois de fazer as vendas o proprietário colocou na mesa um litro de cachaça e apareceu um soldado e ficaram ali bebendo. Depois foram para a pensão que tinha acomodações para os viajantes, o arreeiro e um local para soltar os animais.  Noutra viagem que relembrou foi para o município de Palmeira. Desta vez foram de carro e se hospedaram na pensão de d. Olga que lhes ofereceu pequenas porções de farofa de carne de porco quando eles partiram no dia seguinte. Durante o trajeto o carro quebrou na estrada e foi a farofa que os salvou da fome até chegar socorro. Disse que nunca foi assaltado e não soube que algum colega que tenha sido. Eram outros tempos...

Acrílica sobre tela Praia de Guaimbim,Valença,
Bahia,premiada pelo concurso Banco Real.
Morou numa república em Ilhéus e um dos colegas era o jovem Milton Santos, que depois ficou conhecido como um importante geógrafo. Na época o intelectual baiano escrevia uma coluna para o jornal A Tarde chamada de Coluna do Sul, e rindo ele disse que o Milton usava uma tesoura e goma arábica. Ilhéus recebia os jornais do sul do país naquela época bem mais rápido que Salvador, e assim ele recortava o que lhe interessava e encaminhava para o jornal. Lembra que também escrevia sobre a região, e da crise de 1952/1953 quando o preço do cacau despencou e provocou uma imensa crise. As histórias são muitas, mas precisamos voltar a falar de sua arte. Lembrou também que ele e seus colegas da república em Ilhéus frequentaram muito o Bataclan que ficou famoso devido o livro de Jorge Amado e a novela Gabriela interpretada pela atriz Sônia Braga.

                                                                   AQUARELAS

Posso dizer sem medo de errar que Antônio Lobo é um dos melhores aquarelistas
Exposição no centro Caballeros de Santiago
com apresentação de Floriano Teixeira.
que nós temos hoje não apenas na Bahia como também no Brasil. Esta técnica consiste em dissolver os pigmentos em água e aplicar no papel de preferência com uma gramatura alta de 300 a 700 gr. Quanto mais o papel for grosso, ou seja, tenha uma gramatura maior, é melhor para aquarelar. Esta técnica surgiu há mais de dois mil anos na China e na Idade Média em Veneza, Tadeo Gaddi, discípulo de Giotto produziu muitas aquarelas. Mas quem introduziu a aquarela na história da arte ocidental foi Albrecht Dürer que deixou cento e vinte aquarelas hoje de valor inestimável.

Aqui nós temos o Antônio Lobo que tem produzido muitas aquarelas de qualidade e já vendeu várias delas para o exterior e mesmo para outros estados brasileiros. A aquarela tem outra vantagem que os preços normalmente são mais acessíveis que uma tela a óleo ou de acrílica. O nosso aquarelista parte muitas vezes do desenho de uma paisagem ou de um ponto qualquer que ele fotografa e depois calmamente em seu ateliê vai construir a sua aquarela quase sempre em cores suaves. As aquarelas de Lobo trazem um lirismo, uma leveza e as formas vão sendo definidas com as tintas avançando lentamente no branco do papel. Enquanto isto, ele vai ouvindo uma música de Bach e as tintas vão sendo conduzidas com o pincel misturadas com água para dar a transparência necessária à sua composição artística.

                                                           APOIO IMPORTANTE

Recebendo o prêmio das mãos de
José Torres de Brito.
Foi fundamental para sua carreira de pintor o apoio que recebeu da Nestlé onde trabalhou muitos anos no setor de remédios. Disse que houve um congresso da companhia e ele emprestou uma tela para ornamentar o local do evento e que o presidente Jean Pierre Brulhart gostou e comprou o quadro. Quando vinha a Bahia sempre tinha encontros com Jorge Amado e Carybé e gostava de visitar outros artistas. “Eu sempre o acompanhava nestas visitas. Ele gostava tanto de arte que abriu uma galeria em São Paulo para que os funcionários da empresa mostrassem sua arte. Promoveu uma exposição de meus quadros e até as molduras, catálogo, tudo foi financiado pela empresa e ainda comprou oito quatros meus para presentear a parentes e amigos que moravam na Suíça. Isto aconteceu na década de 80 e lembro que no coquetel foram servidos champanhes franceses. No III Salão Nestlé de Artes Visuais realizado em 1966, em São Paulo, recebeu o primeiro prêmio com a obra “Praça Colonial” e teve entre os   jurados o famoso pintor Aldo Bonadei. Também participou de um concurso nacional promovido pelo Banco Real chamado 1º Prêmio Banco Real de Talentos da Maturidade e neste evento ele arrebatou o primeiro prêmio no segmento de Artes Plásticas quando recebeu u e ainda passagens para participar da abertura da mostra no sul do país. Este certame constava de cinco categorias Programas Exemplares, Artes Plásticas, Música, Monografia e Literatura.

CURSOS - Em 1963 a 1965 - Curso Livre de Pintura a óleo com Adam Finerkaes, no ICBA; 1967 - Curso Livre de Pintura em tela com Lênio Braga, no ICBA, Salvador, Bahia; 1968 – Curso Livre de Pintura a óleo com Carlos Augusto Bandeira, Salvador, Bahia; 1977 a 1978 - Curso Livre de Desenho com Carlos Augusto Bandeira, Salvador Bahia; 1984 – Curso de Pinturas sobre telas com Antônio Carlos Bandeira; 1984 - Curso de Arte Grécia Antiga Universidade de Brasília.

EXPOSIÇÕESE PRÊMIOS- Em 1963- 1964 e 1965 -Exposições Coletivas no ICBA, Salvador-Ba; 1966 – Coletiva no III Salão Nestlé de Artes Visuais em São Paulo-SP, Premiado em primeiro lugar ; 1968 – Coletiva de Natal na Panorama Galeria de Arte; 1969 - Coletiva na Panorama Galeria de Arte pró Construção da Sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Bahia; 1971 - Coletiva no V Salão Nestlé de Artes Visuais, Prêmio Atualidades Nestlé - São Paulo-SP; 1975 - Coletiva na Panorama Galeria de Arte - Salvador ; 1982 – Exposição Individual na sede da Nestlé, São Paulo-SP; 1983 – Coletiva na Galeria Acervo, Shopping Center Iguatemi, Salvador-Ba; 1984 – Coletiva na Galeria do Itaigara, Shopping  Itaigara, Salvador-Ba; 1985 – Coletiva Maré de Março, no Shopping Iguatemi, Salvador-Ba; 1986 – 1º Salão Metanor/Copenor de Artes Visuais da Bahia, Menção Honrosa; 1987- Individual na sede da Cia Nestlé - São Paulo – SP;  1987 - Coletiva na Acervo da Bahia Galeria de Arte  ; 1988- Coletiva na Galeria O Cavalete; 2001 – Salão Nestlé de Artes Visuais – Premiado em primeiro lugar com a obra em acrílica sobre tela Praia de Guaibim, Valença, Bahia.