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sábado, 13 de abril de 2024

A SAGA DA CERAMISTA BAIANA SELMA CALHEIRA

A Selma Calheira com alguns
dos seus Homens de Barro.
Vou falar hoje de uma mulher com pouco mais de 1,60 que nasceu numa fazenda de cacau na época em que a produção baiana era respeitada e a comoditie tinha uma alta valorização no mercado internacional. O dinheiro não era problema para os cacauicultores baianos que viviam viajando entre o Rio de Janeiro e Paris como fossem tomar um ônibus ou trem para a periferia de Salvador ou outra cidade brasileira.  Foi neste ambiente que nasceu em quatro de janeiro de 1958 a Selma Abdon Calheira filha de Rômulo Teotônio Calheira e d. Enésia Abdon Calheira. Eles moravam numa fazenda chamada de Terra Boa e ela tinha mais seis irmãos. Seus avôs eram imigrantes libaneses e na época chovia muito na região do município de Ibirataia, localizado na região cacaueira, distante 344 Km de Salvador. Selma lembra da dificuldade de frequentar a escola primária porque iam da fazenda até a cidade montados em burros e cavalos para estudar o primário, isto por volta da década de 60. Então sua mãe decidiu morar na cidade e dois anos depois veio a falecer, e Selma tinha apenas nove anos de idade. Assim seu pai se viu com a dupla missão de tocar os negócios da fazenda e também cuidar de sete filhos menores. Foi então que os filhos maiores passaram a ajudar a cuidar dos menores, e lembra que ela cuidou de três irmãos menores por algum tempo. Como seu pai tinha certo prestígio os amigos e políticos locais o incentivaram a se candidatar a prefeito e depois de alguma relutância ele resolveu aceitar o desafio e tornou-se prefeito. Com quinze anos de idade era a Selma Calheira quem acompanhava o pai nas solenidades fazendo o papel da primeira dama.

Selma em cima de um andaime trabalhando 
na cabeça de uma das esculturas.
Quando perguntei de onde veio este dom artístico de dar vida ao barro inerte, transformando em esculturas monumentais e objetos de design foi aí que a Selma Calheira lembrou que sua genitora Enésia Abdon Calheira sempre procurava fazer belos arranjos utilizando materiais que encontrava na fazenda como flores, palhas, ramos, gravetos e folhas de palmeira. “Ela fazia arranjos incríveis e a nossa casa sempre vivia arrumada como se fosse um dia de festa”, falou com um misto de orgulho e saudade de sua mãe. Ela também quando criança começou a se interessar pelo barro como acontece com muitas crianças da zona rural que fazem panelinhas, bois, cachorros e outros animais que têm contato para brincar. Este contato com o barro desde criança para a maioria se perde no tempo, mas a Selma ao contrário quando adulta foi se reencontrar com o barro e nunca mais parou. Hoje é uma ceramista de nome nacional e internacional.

Pessoal que trabalha na cerâmica durante a
cerimônia da Queima que  faz anualmente.
Voltando ao pai prefeito ela bem jovem decidiu criar uma biblioteca para que as crianças da Cidade e mesmo os adultos encontrassem livros para aumentar seus conhecimentos. Foi assim que fundou a primeira biblioteca pública de Ibirataia, interior da Bahia, e passou a dirigir de 1975 a 1977. De lá para cá a biblioteca foi mudando de lugar a cada nova administração municipal até que a fecharam. Selma ficou muito chateada, mas soube recentemente que vão criar um Centro Cultural na Cidade e que a biblioteca vai voltar a funcionar. Ela não tem ideia se o acervo da antiga biblioteca ainda existe guardado em algum lugar.

Esculturas de negras. Selma
sofre com as cópias de suas 
obras por inescrupulosos.


Já morando em Salvador enquanto estudava o segundo grau fez alguns cursos livres de pintura na Galeria Panorama e em seguida estudou na Escola Baiana de Arte e Decoração – Ebade, em 1977. Depois foi morar no Rio de Janeiro na casa de um amigo de seu pai o médico Othon Fernandes que a recebeu como uma filha, conta ela. O objetivo era o vestibular para Arquitetura, terminou cursando Licenciatura em Educação Artística, na Faculdades Benett, no Rio de Janeiro, turma de 1982. Como o triste episódio da vassoura de bruxa arruinou a produção de cacau na Bahia seu pai enfrentou alguma dificuldade financeira e a Selma se viu forçada a voltar. Foi aí que começa a sua saga. Ela não voltou. Passou a procurar emprego, e foi vender livros, mas não gostou deste trabalho. Resolveu fazer pequenos objetos de cerâmica e também a comprar alguns produtos para revender. Assim foi sobrevivendo até que um dia procurou a direção da Faculdades Integradas Benett e tentou uma bolsa de estudos para terminar o seu curso. Conseguiu uma bolsa parcial e em troca trabalhar numa espécie de ong o Instituto Cultural do Povo, em 1982, que funcionava o bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, localizado atrás da Central do Brasil e era mantido pela faculdade ligada à igreja metodista. No Instituto tinham oficinas de várias profissões e lá encontrou-se com a ceramista Rosa Werneck e passou a trabalhar e ensinar aos alunos como mexer com a argila.

Um dos amplos galpões da área de produção 
de sua cerâmica na cidade de Ibirataia-Ba.
Foi se empolgando e partiu em 1981 para o Parque Lage onde sempre são oferecidos cursos livres de pintura, escultura, cerâmica e outras atividades artísticas. Queria estudar com a professora e ceramista Celeida Tostes. Como acontece na vida sempre as coisas não acontecem como a gente espera. Não havia mais vaga. Então se matriculou no curso de escultura com Jayme Sampaio. Porém, pelas suas habilidades ganhou a confiança do professor que ensinava no turno matutino e a Celeida Tostes no vespertino. Assim passou a ser  assistente de Jayme Sampaio e o professor deixava as chaves da oficina com ela que ficava trabalhando e entrava pelo turno vespertino. Com esta sua disposição e demonstração de suas habilidades na arte da cerâmica terminou conseguindo estudar com a Celeide Tostes e também a ser sua assistente, o que ela tanto almejava. A professora Celeida veio a falecer em 1995 aos 74 anos de idade.

Selma trabalha no torno em
uma das suas esculturas.
Trabalhou muito pesquisando argilas e decidiu participar de exposições. Criou a Oficina Arte do Fogo e passou a trabalhar com alguns ajudantes. Foi nesta época em 1983 que o famoso cineasta brasileiro Cacá Diegues estava montando sua equipe para as filmagens de Quilombo. Por sorte procuraram a Celeida Tostes que a indicou, e o pessoal da produção do filme a procurou porque ele queria fazer vários objetos para servir de cenário para as filmagens. Ela foi para o bairro do Xerém, no Rio de Janeiro, onde estava o set de filmagens e partiu em busca de oleiros para encontrar a argila apropriada para produção das peças, além de convidar ferreiros, cesteiros e outros artesãos para compor o grupo afim de produzir, potes, gamelas, moringas, cestas de vários tipos e objetos de ferro. O filme de Cacá Diegues é uma coprodução brasileira e francesa e foi concluído em 1984. O roteiro é baseado nos livros Ganga Zumba, de João Felício dos Santos e Palmares, de Décio de Freitas. Teve um razoável sucesso de bilheteria.

Por causa do trabalho foi conversar com a Diretora das Faculdades Integradas Benett a professora Maria Augusta no sentido de conciliar as atividades do curso com o trabalho na produção das filmagens. Porém, dois professores não concordaram e ela teve que trancar a matrícula na faculdade. Passou sete meses no

Em cima do andaime Selma e   
trabalha numa das esculturas
da série dos Homens de Barro.
set das filmagens, porque chovia muito na região e surgiram outros problemas. O filme foi se arrastando e dois meses antes de sua conclusão ela saiu. Decidiu com o dinheiro que ganhou nas filmagens comprar alguns equipamentos e passou a colocar seus produtos em lojas de design e decoração. Foi quando sofreu um acidente ao manipular uma das máquinas, perdendo um dedo. Mas, isto não o desestimulou. Juntamente com a artista plástica Milú Byington abriu em 1984 um ateliê no bairro da Barra da Tijuca, que esta época era pouco habitada e por lá passaram três anos. Chamou o ateliê de Cores da Terra onde fizeram muitos eventos, seminários sobre cerâmica primitiva e elementos naturais. Era um ponto de encontro de artistas e intelectuais. Houve uma divergência com a sócia e resolveram acabar com o ateliê. Diz que produziu esculturas imensas, que não sabe o seu paradeiro, depois da ocupação das terras onde ficava o ateliê. Já durante o governo de Leonel Brizola em 1984 foi convidada pelo Serviço Social do Comércio – SESC para participar do Projeto Emprego e Renda com o objetivo de identificar talentos na favela do Borel e Rio das Pedras, em Jacarepaguá Nesta época foi morar no Rio das Pedras, que fica perto do Borel, e lá conheceu uma senhora nordestina de 70 anos, chamada Maria do Barro que viajava para várias partes do país fazendo oficinas de cerâmicas ensinando os jovens e adultos a trabalhar com o barro. Forneceu a ela uma máquina e outros materiais e confessa que esta convivência foi uma experiência muito rica. Maria de Lourdes Cândido, a Maria do Barro, morreu aos 82 anos de idade em 2021.

Seis Homens de Barro.
Existe uma penitenciária feminina que fica no bairro de Bangu chamada de Talavera Bruce onde permaneceu ensinando por um período Programa de Ressocialização. Depois foi trabalhar no bairro de Valença, no Rio de Janeiro, no resgate das culturas perdidas pesquisando e ensinando manejar o barro. Disposta como sempre alugou em 1987 um sítio localizado em Pedra de Guaratiba, que é um bairro que fica na zona oeste do Rio de Janeiro e lá construiu um forno e passou a produzir. Logo depois foi procurar as lojas chics de design e  apresentava e expunha as suas peças, principalmente nas lojas localizadas em São Conrado, no Rio de Janeiro, e em seguida expandiu sua ação até São Paulo. Isto garantia a sua sobrevivência com dignidade até que conheceu o seu marido, o alemão Franz Rzehak e ficou grávida. Outra mudança drástica. Resolveu voltar em 1989 para sua terra natal Ibirataia e sua grande preocupação era como iria escoar a sua produção, ou seja, como as peças que ia produzir chegariam às lojas de decoração e design  do eixo Rio-São Paulo? Mas, foi em frente e com ela vieram cinco caminhões carregados com suas tralhas, máquinas, fornos, barro e uma infinidade de coisas. Lembra Selma Calheira que o acesso a fazenda era problemático porque chovia muito na região e as estradas de terra ficavam intransitáveis com tanta lama. Foi quando um primo seu lhe ofereceu de empréstimo uma casa no distrito de Japumirim, município de Itagibá. Recomeçou a fazer colares, pequenas esculturas, contratou alguns ajudantes e passou a vender em Salvador e outras cidades brasileiras. Não contava com qualquer logística e tinha que embalar, etiquetar, tirar notas fiscais etc.  

Esculturas em tamanhos diferentes que 
apresentou numa feira recente no
Centro de Convenções em Salvador.
Disse que foi muito difícil este recomeço, principalmente porque estava com uma criança para cuidar. Ia pegar caixas vazias em lojas e supermercados para colocar suas peças para entregar aos clientes. Numa dessas viagens para São Paulo a fim de mostrar suas esculturas de barro em casas de design e decoração conseguiu vender as Lojas Evolução que comprou quase tudo que ela levou e fez outro pedido. Em 1990 decide juntamente com o marido Franz Rzehak criar a empresa Cores da Terra, na Fazenda Barra do Sapucaia, em Ibirataia, município baiano, com a intenção de fomentar a cultura da cerâmica, o desenvolvimento de múltiplos em cerâmica e ferro, dando também início ao processo de formação e capacitação de novos profissionais. Foi participar da Feira do Sebrae, em Alagoas. Era um evento a céu aberto no estacionamento de um shopping Center. Vendeu tudo que levou. Foi novamente para São Paulo participar da Feira Profissional e foi um sucesso. Já tinha doze assistentes, inclusive alguns deles eram menores aprendizes. Daí em diante em 1992 participou da Feira Grifttes-92 que era a principal feira de design e em 1994 foi para Nova York e a princípio não tinha conseguido vender ou receber uma encomenda porque não havia compradores. 

Selma mostra alguns objetos produzidos;

Foi quando um jornalista a descobriu e fez contato com alguém da famosa loja de departamento Bloomingdale’s. Selma foi lá com um irmão mostrar suas peças  e gostaram dos objetos e fizeram um pedido grande a ponto do irmão que o acompanhava perguntar: Você vai ter condições de entregar tudo isto? Voltaram e trabalharam muito e entregaram todo o pedido. Decidiu que deveria continuar participando das feiras e voltou nos anos 94 e 1995. Atualmente na medida do possível sempre retorna porque lá faz contatos com grandes clientes da área do design. Cresceu tanto que chegou a empregar 350 pessoas. Começaram a surgir alguns problemas inclusive de cópias de suas peças aqui e no exterior. Entrou com alguns processos, porém a Justiça é muito lenta e só lhe trouxe prejuízos até agora. Disse que em 2019 na Feira Maison & Objet, em Paris, encontrou cópias de suas peças em três stands , sendo dois  de origem indiana e ucraniana.

Uma visão do stand no Centro de Convenções.
Continua participando de feiras aqui no Brasil como as feiras Home & Gift e a Têxtil & Home, em São Paulo, que “são feiras dedicadas a promover as últimas tendências do mercado, conectar expositores e profissionais do ramo, além de fornecer um ambiente propício para a realização de negócios e parcerias comerciais.” Foi participando de uma feira em Nova York que ela conseguiu contato com um fornecedor de Bruxelas que hoje é um grande comprador e que leva suas obras para lojas de vários países europeus e dos Estados Unidos. Já fez peças para uma empresa brasileira de perfumes com milhares de peças e hoje exporta através a Design-Gardeco para o continente europeu. Resolveu diminuir a sua produção e hoje trabalha com cerca de sessenta assistentes. Conta hoje com a ajuda de seu filho Igor Calheira Rzehak  que é físico e resolveu assumir a direção da empresa. Sua preocupação maior é fazer grandes esculturas de barro de até cinco metros ou mais. São os Homens de Barro e ela disse que já fez oitenta e que pretende fazer mais. É o seu projeto de criar a Cidade dos Homens de Barro, um museu a céu aberto onde as pessoas poderão visitar e que pretende realizar no seu atual espaço uma espécie de centro cultural.

                                                       OS HOMENS DE BARRO

Foto aérea do complexo Cores  da Terra.
Sua cerâmica tem cerca de 2.800 metros quadrados de área construída  com galpões
apropriados para a produção de múltiplos e toda uma estrutura necessária. Hoje ela trabalha com cerca de sessenta pessoas e vem produzindo e enviando suas peças para várias cidades brasileiras e para a Europa e Estados Unidos. Porém, seu sonho maior  ainda não se realizou totalmente. O objeto é a construção da Cidade dos Homens de Barro onde ela pretende colocar mais de uma centena de grandes esculturas que chama de “esculturas figurativas primitivas” com até mais de seis metros de altura e outras menores para que possa ser uma atração turística de contemplação das cerâmicas como obras de arte num ambiente arborizado e preservado que é um pedacinho da Mata
A ceramista e algumas esculturas da série
Homens de Barro.
Atlântica e com toda a estrutura necessária para uma visitação pública. As esculturas na sua visão representam poeticamente o protótipo de um ser de muita força. Foram e são desenhados por ela e retratam a história fictícia de pessoas simples e corajosas que enfrentam muitas dificuldades para manter uma sobrevivência com dignidade. Selma faz questão de afirmar que respeita os materiais e usa pigmentos naturais criados em seu ateliê. Será um espaço aberto para visitação das esculturas gigantes que funcionará como um platô ou mirante das artes, onde o visitante terá uma visão privilegiada do ponto urbanizado e mais alto da cidade. É importante ressaltar que todo este grandioso trabalho é feito artesanalmente e ela investe muito no aprendizado das pessoas da cidade de Ibirataia e de cidades vizinhas. E "as técnicas de modelagem e queima, têm suas origens em resgates culturais, como a cultura indígena e a valorização da natureza nativas o que vem gerando resultados belíssimos”. Informa a Selma Calheira que algumas tintas utilizadas antes do objeto ir à queima são originadas de diferentes tipos de argilas, fruto de pesquisas realizadas pelos designers.”

 

 

 

 

sábado, 6 de abril de 2024

A ARTE DE ARUANE GARZEDIN DISCUTE O ESPAÇO URBANO X HOMEM

Aruane Garzedin com obras recentes
em seu ateliê no bairro de Pituba.
O meu primeiro contato com a obra de Aruane Garzedin aconteceu em fevereiro de 1998 quando expôs na Galeria Frazão, no bairro do Rio Vermelho, Salvador, obras inspiradas na praia contextualizando o espaço público e as pessoas que as frequentam. Na época escrevi um pequeno texto na minha coluna Artes Visuais, do Jornal A Tarde, e fui reencontrá-la agora já madura com uma trajetória artística consolidada. É arquiteta de formação, professora aposentada de Urbanismo e Paisagismo, da Faculdade de Arquitetura, da Universidade Federal da Bahia, com mestrado e doutorado. Além desta experiência acadêmica Aruane Garzedin trabalhou em órgãos da Prefeitura Municipal envolvida com o urbanismo e paisagismo. Também escreve versos e contos e se divide com a pintura que é o que mais nos interessa aqui.  Lembra que seu livro de contos "Sobre quatro patas há um lugar seguro", foi premiado com edição pelo selo João Ubaldo Ribeiro. Vejo que sua arte  tem uma pegada expressionista e a figura humana é uma presença constante em quase todas suas telas. A figuração sem uma definição realista, mas envolvida entre linhas e camadas de tintas, às vezes monocromáticas outras não. E no jogo de seus personagens sempre tem algo com a crítica social e a defesa do espaço público  onde as pessoas se posicionam. 
A artista concentrada trabalhando numa
nova obra em seu  ateliê.
Portanto, ao pintar a Aruane Garzedin não deixa de trazer seu sentimento de arquiteta e em determinado momento sentiu a necessidade de sair às 
ruas para se expressar nos muros da Cidade levando sua preocupação com o espaço público . Escolheu a d. Nita e a vaca como personagens para sua incursão nesta arte efêmera povoando os muros da Cidade de belos grafites criativos e cheios de significação com suas mensagens.  Todos sabem da efemeridade das obras pintadas em muros porque quase sempre sofrem ataques, não são conservadas, os muros dão lugar a novas edificações, até mesmo uma planta ou erva daninha podem danificá-las, o que acontece com frequência. Ela lembrou que um de seus grafites localizado no bairro da Pituba foi danificado num acidente de carro que se chocou com o muro. Para sua surpresa e satisfação pessoal os moradores da casa telefonaram chamando-a para recuperar o grafite, e assim ela o fez. 

Retrato com o fundo negro
e uso de poucas cores.
 A propósito a atual administração municipal vem dilapidando o patrimônio público colocando à venda várias áreas verdes, como a encosta do Corredor da Vitória e outros locais que merecem ser preservados, já que nossa Cidade é uma das menos arborizada do país.  Salvador precisa urgente de um plano de arborização para aumentar o sombreamento e melhorar o clima, defende a artista-arquiteta. Na exposição que fez em 2008 na Caixa Cultural, localizada na Rua Carlos Gomes, em Salvador-Ba que chamou de Membranas da Cidade ela escreveu: “Na tentativa de explorar e de expressar os significados da Cidade contemporânea busco inspiração nessas superfícies nuas e expostas da Cidade, ainda que sejam aquelas que mais escondem do que a mostram. O processo de apropriação social dos muros da Cidade nos fornece um caminho para uma linguagem plástica, e também para o fazer artístico e é um processo que não tem projeto e nem um fim previamente definido”.

                                                O COMEÇO

Ai vemos as cores aparecendo, ainda
timidamente .
A Aruane Garzedin nasceu em Salvador, a 10 de dezembro de 1959 e na cidade que é a porta da Chapada Diamantina, na Bahia concluiu o seu curso primário onde já demonstrava seu interesse pelo desenho. Seu nome é de origem libanesa seu pai Evandro Garzedin era comerciante e sua Maria Solange Santos Garzedin, professora. Depois de concluir o primário veio com 13 anos estudar no Colégio Maristas, no bairro do Canela, em Salvador, e ao terminar o curso colegial fez vestibular para a Arquitetura. “Na verdade, eu não sabia se  queria inicialmente fazer Arquitetura. Pensava em fazer vestibular para Artes Plásticas,”disse Aruane Garzedin. Mas sofreu algumas restrições por esta sua preferência, o que era natural na época já que ser artista não era uma profissão bem vista, principalmente pela dificuldade de sucesso, já que a arte era pouco apreciada na sociedade baiana. Ela também chegou à conclusão que por ser uma pessoa independente refletiu que se fizesse  Artes Plásticas seria mais difícil conseguir sua independência econômica. Então partiu para o vestibular de Arquitetura, e hoje é uma pessoa   independente e respeitada profissionalmente. Lembra que no início do curso teve alguma dificuldade e só foi mesmo se identificar quando passou a estudar as disciplinas Urbanismo e Paisagismo. “Foi aí que me encontrei. Porque sempre gostei das questões da Cidade, os espaços públicos, a jardinagem, as praças.” Ela até hoje tem esta preocupação com a relação dos espaços públicos  com sua visão de contribuir para a melhoria da convivência social na Cidade.  Acha que a Cidade tem a capacidade de melhorar ou piorar a vida das pessoas e estas preocupações estão de alguma forma presentes em suas obras.

Este belo grafite mostra uma cena que
 acontece no interior das residências ,
onde ela grafitou numa  casa
abandonada no bairro da Federação.
A primeira experiência em Urbanismo foi quando estagiou no Plano Diretor da sua cidade natal Jacobina, depois trabalhou com o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, que fez as passarelas nas principais avenidas de Salvador e também o Hospital Sarah Kubistchek. Disse Aruane Garzedin que foi uma aprendizagem muito rica   porque visitou muitos bairros fazendo levantamentos e diagnósticos. Depois desta foi trabalhar na Companhia de Renovação Urbana de Salvador - RENURB, no bairro da Lapa, que era uma empresa de capital misto, que fazia muitos projetos urbanísticos. Ai Aruane Garzedin trabalhou nos projetos de praças e jardins da Cidade do Salvador. Fez alguns  cursos livres aqui e   no exterior. Trabalhou com a equipe da arquiteta Beatriz Secco, de Brasília, e depois continuou nesta área do paisagismo na Companhia de Habitação de Salvador - COHAB e Superintendência de Manutenção e Conservação da Cidade de Salvador - SUMAC.
 Aruane fez um desenho  que reproduz e
 cola nos locais que deseja. D. Nita participa
 de protestos a exemplo deste contra o
BRT, que tem se mostrado ineficiente.



Não tem experiência de trabalhar no setor privado. Ela acha que no serviço público sempre surgem obstáculos, interferências, é fácil engavetar e mudar o seu projeto, e que muitas vezes estas ações terminam prejudicando todo um trabalho feito com dedicação pensando em melhorar a Cidade. Como urbanista disse estar completamente frustrada pelo que vê hoje em dia em Salvador. E ao passarmos pela orla marítima mostrou alguns espaços de convivência com bancos de costas para o mar, com fileiras de coqueiros nas calçadas e outros espaços mal concebidos. Aruane acha que o coqueiro é inadequado para ser plantado numa calçada porque um coco pode se desprender e fazer uma vítima fatal e também    não gera o sombreamento tão necessário. Seria muito mais interessante o plantio de árvores adequadas que aguentem os ventos e a maresia, as quais dariam sombreamento e melhoria da convivência social entre as pessoas. Defende também que algumas calçadas são muito estreitas e precisam ser alargadas para dar mais espaços aos moradores , inclusive aos cadeirantes, e ser um local de conversa. Entende que temos que arborizar esta Cidade e a necessidade de conscientizar as pessoas sobre a importância das árvores. "Com as árvores  podemos colocar bancos para as pessoas conversarem, para que haja um entrosamento maior entre os moradores e melhor uso do espaço público na Cidade". Seu novo projeto artístico Cidade Desafeto,mistura de realidade e ficção para colocar em cheque os falsos conceitos desse urbanismo depredador", adianta Aruane.

Este grafite na Pituba ela teve que refazer  
por solicitação do morador após ter sido
danificado por um acidente de trânsito.
Informou ainda que o conflito e a preocupação com a acessibilidade começaram a existir principalmente da década de 80 para cá. Ela concorda que algumas árvores que foram plantadas por Guilhard Moniz especialmente as amendoeiras e barrigudas poderiam ser erradicadas, mas para isto é preciso ter um planejamento de reposição imediata de outras espécies e com mudas com 1,80 m de tamanho mais adequadas ao espaço urbano. Mesmo reconhecendo que as amendoeiras sujam muito com suas folhas que caem e os frutos que atingem muitas vezes as pessoas e carros, mas que elas amenizam o clima com seu sombreamento. “Veja quando temos umas três amendoeiras juntas num dia de sol a gente sente que debaixo delas o ambiente fica mais agradável”, adianta Garzedin. É verdade!

                                                                 SUA ARTE

Obra em acrílica sobre tela da exposição
Membranas da Cidade, de 2008. 
Aruane Garzedin   já passou por algumas fases e  sua pintura  é figurativa tendendo ao abstrato. Procura incorporar outros elementos e gosta de trabalhar as texturas com camadas de tintas. "Minha pintura tem algo do clima, algo psicológico de me interessam, algo que evoca algumas coisas que estão até fora daquele desenho”, disse Aruane Garzedin. 
E prosseguiu: "O meu trabalho artístico está sempre em transformação a partir de novos conceitos e procedimentos da experimentação que vai me levando a outros caminhos. Das correntes artísticas da arte moderna, o expressionismo é a que mais me inspira. Gosto da gestualidade das pinceladas , das superfíceis mais densas de matéria,bem como do uso do  desenho de forma livre. Enfim, o meu trabalho tem muito de figurativo, embora nem sempre ,mas sem um sentido realista ou narrativo".
Falou ainda que não sofreu influência de artistas, mas que admira  o holandês Rembrandt e Egon Sheile. Quando ela pintou alguns retratos, no começo da sua carreira de artista plástica a presença de tons escuros tem muitas vezes influência do psicológico que o artista está vivendo quando de suas pinturas. O Rembrandt foi o maior pintor holandês de todos os tempos (16006-1669) e usava uma técnica com um fundo escuro da tela, sobressaindo o retrato, apresentando uma dramaticidade das figuras humanas que pintava. Usava também temas bíblicos e mitológicos, com detalhes das joias e vestimentas, e outra característica é que gostava de pintar em telas menores. Também citou o austríaco Egon Schiele (1890-1918) e suas obras tem a presença da sexualidade explícita. Ele produziu vários autorretratos, inclusive em alguns aparece nu, e suas obras mostram corpos contorcidos, o que é uma das características marcantes de sua produção, e é tido como um dos expoentes do início do expressionismo. Porém, entendo que sua arte é expressionista, este movimento de vanguarda que surgiu na Alemanha a partir de 1910 que traz uma forte crítica sociopolítica e pinta com mais liberdade sem a preocupação de mostrar a figura real. Usa camadas de tinta, empasta tudo de acordo com seus sentimentos e sua sensibilidade. Aruane destacou também outros "pintores modernos e contemporâneos que lhe inspiraram em vários aspectos, como por exemplo: a gestualidade da pintura de Iberê Camargo, a materialidade das telas de Antoni Tapies e Anselm Kiefer, o registro do tempo  na obra de Daniel Senise, as manchas de cores em Richard Diebenkorn, para citar alguns, além de artistas da arte urbana."

Veja este pequeno texto extraído da apresentação feita pelo saudoso poeta Ildásio Tavares quando ela expôs no Centro Cultural da CEF :"Todo processo de expressão da arte consiste numa metaforização do real em que a verdade final  (que o artista pretende mostrar) passa por um maior ou menor distanciamento da realidade contingente; sofre uma maior ou menor distorção em seus componentes, reordenados e reagrupados para ganharem um sentido novo, mais verdadeiro que o real, vez que este se escuda em falsas aparências e ao oferecer uma vida melhor para o ser humano, todavia limitam-na; diminuem-na; estrangulam-na nas angústias do cotidiano".
Obra da série Praias onde a artista pintou
uma cena do cotidiano das praias baianas
.
A personagem D. Nita que criou ao grafitar os muros da Cidade do Salvador tem até perfil no Instagram, onde estão seus principais grafites e segundo este perfil “é filha de Oxum, não gosta de muros e nem de preconceitos. Amorosa e corajosa, era do lar, agora vai pra rua defender o meio ambiente e a democracia”. Esta personagem já participou de exposição em São Paulo, no Instituto Tomie Otake e também de protestos de rua defendendo as árvores contra este ineficiente BRT construído em pleno século XXI. Informou Aruane Garzedin que D. Nita nasceu a partir de memórias e observações do cotidiano de mulheres, muitas vezes heroínas em suas sagas pessoais, mas invisibilizadas na sociedade. O meu projeto artístico pretendia dar voz a essas mulheres, levá-las a frequentar lugares dos quais normalmente estavam excluidas."
Claro que vemos uma  identificação entre a artista e a personagem que criou, parece que ela ao sair às ruas grafitando se sente a própria D. NitaTambém quando Aruane Garzedin grafita suas vacas ela está fazendo a interface entre o rural e o urbano. Quanto as vacas que ela grafita disse que "carregam muitos significados simbólicos e afetivos, além de remeter aspectos de uma urbanidade precária". As vacas precisam de espaço para andar e pastar enquanto os habitantes da Cidade precisam não apenas do seu lote onde está construída sua casa ou apartamento, eles necessitam sair e andar em calçadas largas e adequadas à acessibilidade. As calçadas também são locais de conversas, de jogar uma dama, comer um acarajé, um milho cozido, tomar uma água de coco. Para isto é preciso também arborizar a Cidade adequadamente com espécies que suportem o clima de uma Cidade que tem temperaturas altas e talvez a maior orla marítima no seu perímetro urbano. Portanto, enquanto pinta a Aruane Garzedin pensa em nossa Cidade e sua preocupação é pela melhoria da convivência social e em consequência a qualidade de vida das pessoas.

                                                                  EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Fez sua primeira individual a Escola de Belas Artes e a última em 2008, na Espanha. Vejamos: 2008 - “Membranas da Cidade”, na Caixa Cultural, em Salvador-Ba; 2000 - Matinada Galeria de Arte Barcelona – Espanha; 1999 - Centro Cultural Casals Sarrià Org. Associação Jovens Artistas, Barcelona – Espanha; 1998- Frazão Galeria de Arte Salvador – Ba; 1995 - Galeria ACBEU Salvador- Ba; 1992 - “O Artista em Destaque” Escola de Belas Artes – UFBA, Salvador- Ba. Ao lado vemos uma reprodução da capa do catálogo de sua exposição  em 1995 ,  na ACBEU.

                                               EXPOSIÇÕES COLETIVAS

Esta gravura ela fez durante
 um curso livre no Parque
 Lage, no Rio de Janeiro.
Já tem registradas várias participações em exposições coletivas aqui e fora do país a saber: 2018-  Leituras e Feituras / O Livro de Artista Árvore – Cooperativa deAtividades Artísticas, Porto, Portugal; 2017 -Livro de Artista,  Centro de Memória do IPAC, Salvador – Ba; 2016 -  Livro de Artista, Exposição Internacional Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador -Ba ; 2016 -  2ª edição do Festival de Graffiti Bahia de Todas as Cores - BTC, Madre de Deus, BA; 2014 -  Triangulações Circuito das Artes, Instituto Goethe, Salvador- Ba ; 2009-  Exposição 2.234 Brasil – Argentina – EUA – França – Espanha - Itália – Inglaterra, Centro Cultural Casarão, Salvador – Ba: 2009 - Arquitetos Artistas Museu de Arte Sacra, Salvador- Ba; 2009 -  Mulheres em Movimento – 2ª edição”, Galeria Cañizares , EBA /  UFBA, Salvador- Ba; 2008 -  Grandes artistas em pequenos formatos, Curadoria Prova do Artista, Museu Regional de Arte – UEFS, Feira de Santana – Ba ; 2005 -  VI Mercado Cultural da Bahia, Aliança Francesa, Salvador – Ba;  2004 -  Arte em Revezamento , Curadoria Matilde Matos, EBEC Galeria de Arte, Salvador – Ba;  2001 -  Exposição 500 anos do Descobrimento da Baía de Todos os Santos, Teatro Gregório de Mattos, Salvador- Ba; 2001 - Sete Caminhos Museu Náutico, Salvador- Ba ; 1997 -  Porto da Barra Espaço Cultural Telebahia, Salvador - Ba ; 1995 -  Projeto Persianas Criativas Shopping Barra, Salvador- Ba;  1995 - Janelas Casa do Benin, Salvador- Ba e em  1994 -  Bahia Arte Atual, Teatro Gregório de Mattos, Salvador – Ba.

 

 

 

 

sábado, 30 de março de 2024

BETH SOUSA UMA NEOEXPRESSIONISTA BAIANA

 Beth Sousa no ateliê com obras recentes .
Depois de algumas décadas reencontro a artista Beth Sousa uma das artistas que trabalha em seu ateliê no bairro do Rio Vermelho sem a pressa de atender aos modismos do mercado. Ela vai construindo a sua trajetória com calma e a delicadeza de uma mulher que foi uma rebelde na juventude e agora já madura leva sua vida em outro ritmo, com outra vibe, procurando fazer uma arte seguindo os caminhos dos seus sentimentos. Desde jovem que frequentava os cursos livres na Escola de Belas Artes e as Oficinas do MAM-Ba. Preferia muito mais estar nestes ambientes artísticos do que na escola formal onde ainda estudava o segundo grau. Inclusive me disse que andava com os jovens artistas da época, principalmente com os da Geração 70, os quais reuni numa exposição que fizemos e foi um grande sucesso no Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em Salvador. Foi sua irmã mais velha Neuza Sousa que vendo que ela estava criando algum desconforto em seus pais que eram evangélicos perguntou o que queria fazer da vida. Prontamente respondeu que queria fazer arte. Foi aí que Neuza Sousa se informou sobre os cursos livres e a direcionou para que frequentasse. Também falou da necessidade de concluir o segundo grau para que pudesse fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Assim a Beth Sousa se emprenhou em terminar o segundo grau, prestou vestibular e passou a cursar. Lembra que quando estava na EBA participou de feiras e sempre procurando comercializar seus trabalhos. Foi com o dinheiro de venda de suas primeiras obras e a ajuda da família que ela decidiu ir para a Alemanha.
Tem hoje uma forte influência do neoexpressionismo alemão e na conversa que tivemos contou o impacto e a sua emoção ao se ver diante das obras imensas de Anselm Kiefer, num museu na cidade de Karlsruhe, na Alemanha. O artista alemão Anselm Kiefer, nascido em 1945 é pintor e escultor e suas obras incorporam materiais diversos como argila, palha, goma-laca, cinza, dentre outros. Ele trata em suas obras do horror do Holocausto e também os conceitos espirituais da Cabala. Gosta ainda de abordar temas passados e recentes sem
Obra da Série Soft, inspirada nos cilindros
do papel higiênico, iniciada no ano 2000.

fugir das controvérsias.  Também Beth Sousa lembra dos impactos das obras de Antoni Tàpies (1923-2012) foi um pintor espanhol nascido em Barcelona, considerado um dos expoentes da arte do século XX, com seus trabalhos gestuais. E finalmente citou o francês 
 
Bernard Buffet (10 de julho de 1928 - 4 de outubro de 1999) . Ele estudou arte na Escola Nacional Superior de Belas Artes em Paris e trabalhou no ateliê de Eugêne Narbonne juntamente com outros artistas. Fez várias exposições períodicas e produziu algumas naturezas mortas, retratos e paisagens. Pintou também os horrores da guerra. No final da vida foi acometido pela doença de Parkinson e se suicidou com um saco plástico envolvido na cabeça. Disse Beth que as pinturas e as figuras em quadrinhos dos personagens de Buffet com os dentinhos lhe impressionaram bastante. Assim ela vem fazendo suas experiências depois desses contatos que teve com obras destes importantes artistas durante os dois anos que passou na Alemanha. Beth ficava tanto tempo extasiada com as obras dos museus alemães que em algumas ocasiões os funcionários a convidavam para sair porque eles iam encerrar as atividades naquele dia. “Inclusive, por mais de uma vez os funcionários dos museus ficavam impressionados porque eu gostava tanto de frequentar e olhar as mesmas obras”, disse Beth Sousa.

Obra inspirada nos versos do
poeta Manoel de Barros, 2022.
Além de frequentar com muita assiduidade os museus alemães em Karlsruhe, cidade onde morou, e também em outras que visitou ela participou de um curso livre de pintura de arte contemporânea, e paralelamente estudava a língua alemã. Beth Sousa  foi para a Alemanha porque na época as universidades no Brasil tinham greves duradouras e surgiu uma oportunidade de ir e ficar hospedada com a amiga que tinha uma bolsa para estudar artes plásticas a Suzana Nazaré Andrade que já estava por lá a algum tempo. Sua amiga se formou também em Economia e Jornalismo, e são amigas até hoje. Beth Sousa foi para a Alemanha em 1989 e lá trabalhou como garçonete, babá e outras profissões para se manter enquanto buscava mais informações e estudar a arte que lhe interessava. Foi para ficar apenas três meses, mas foi ficando. Disse que voltou com a cabeça completamente mudada e que a razão da volta foi porque já tinha dois anos fora e estava sendo ameaçada de ser jubilada da EBA.  O jubilamento foi um dispositivo criado durante o regime militar para expulsar do meio universitário estudantes chamados de “profissionais” que ficavam anos a fio militando participando da política estudantil e não frequentavam as aulas regularmente.

                                                    PENSAR ANTES

Obras atuais da Série Rejeitos de Mineração
inspirada na tragédia de Brumadinho que
destruiu povoado,matou dezenas de pessoas
 e causou grandes prejuizos à população
da área, em Minas Gerais, em 2019.
Antes do ato de pintar a Beth Sousa disse que passa por um processo de pensar bastante, e o que virá será uma consequência. Gosta de pintar ouvindo música de qualidade e enquanto estive em seu ateliê uma música jazzística embalava nossas conversas.   Terminou a Escola de Belas Artes e começou a expor e participar de salões ao mesmo tempo enquanto estudava. Lembra que na década de 90 mandou um trabalho para o Salão de Arte na Cidade de São Cristóvão, em Sergipe e foi premiada. Também foi premiada na I Bienal do Recôncavo, inclusive sua obra foi adquirida pelo cônsul holandês que promovia o evento. Quando ensinava nos cursos livres tanto na Escola de Belas Artes e nas Oficinas do MAM-Ba sempre motivou seus alunos a pensar antes de começar a utilizar os pincéis e tintas. Gosta de experimentar e disse que para chegar onde está ralou muito e desde antes de 1994 que vem construindo a sua história como artista. Percebi que Beth Sousa é muito consciente do que faz e que procura na medida do possível organizar sua trajetória, e tem uma certa organização de tudo que foi publicado sobre sua produção e sabe localizar com facilidade de acordo com os anos e as fases que foram importantes na sua vida de artista.

                                                             A TEMÁTICA

Beth com  obras  denunciando o perigo dos
Rejeitos de Mineração   no Brasil.
Quando estava na Alemanha lembra que foi assistir uma palestra do Secretário do Meio Ambiente, do Governo Fernando Collor de Mello, José Antônio Lutzenberger  (1926-2002) quando ele questionou os alemães que acusavam muito o Brasil de desmatamento e queimadas na Amazônia e outros crimes ambientais. O Secretário retrucou dizendo mais ou menos assim: vocês são também responsáveis porque compram madeira e os minérios, principalmente o alumínio para fabricar os seus móveis, carros e máquinas. Sua preocupação com o meio ambiente é antiga basta dizer que a primeira individual que fez foi no Instituto Cultural Brasil-Alemanha - ICBA, em Salvador-Ba, em 1994 chamada Paisagens Áridas. Ela não pintou a paisagem pela paisagem e sim pela pintura, pela cor e talvez a sua primeira apreciação foi feita por mim e publicada na coluna Artes Visuais, no Jornal A Tarde. Até hoje guarda este recorte do jornal, aliás ela tem também vários recortes, inclusive de outros jornais. Vi alguns com ilustrações que fez para um amigo que escrevia sobre música clássica no Caderno Cultural de A Tarde.  Lembrou que entre estas experiências que fez ia para a marmoraria pegar pó de mármore e nas serrarias coletar pó de serra e tudo isto colocava em suas obras. Jogava a tela no chão,ainda sem os chassis e fazia todo aquele processo que tinha visto nas obras do espanhol  Antoni Tàpies. Assim a Beth Sousa pintou suas paisagens áridas e corpos amorfos fugindo dos clichês que apresenta a paisagem pela paisagem. Aqui a cor e a expressividade ganham destaque com uma conjunção cromática predominando os tons ocres, laranjas, dentre outros criando uma atmosfera própria. Vi em seu ateliê uma tela com quase dois metros de comprimento onde Beth Sousa pintou uma paisagem imaginária e quando você fica diante da obra vai construindo mentalmente a sua própria paisagem, vai olhando aqueles pequenos traços horizontais que se multiplicam por todo o espaço e leva você a se afastar, a se afastar novamente para sentir a força desta obra e construir sua narrativa. Não as narrativas falsas que vemos se multiplicar na política atual, mas uma narrativa baseada no que está vendo, nas informações que possui e em seus sentimentos diante daquela obra. Lembra quando falei acima que a Beth Sousa se emocionava e até chorava quando via as obras dos grandes mestres do neoexpressionismo alemão? Não é preciso chorar, basta se emocionar!

O neoexpressionismo que ela se identifica nasceu como uma resposta de alguns artistas à arte moderna especialmente ao concretismo e ao minimalismo que se caracterizam pelo design e também pela simplicidade. Surgiu na década de 70 na Alemanha e se espalhou por todo o Continente europeu a partir da década de 80 até atingir os Estados Unidos, este grande mercado de arte. Os alemães costumam chamar de Neue Wild que significa Novos Selvagens e nos Estados Unidos de Bad Painting, pintura ruim ou suja. Mas, o importante é que hoje é um estilo concretizado e respeitado principalmente na pintura pela liberdade e o seu caleidoscópio de cores fortes e vibrantes.

                                           REBELDIA

Beth Sousa pintando um mural no
do bairro do Rio Vermelho
.
A jovem Elisabete Regina Conceição Sousa é filha do casal evangélico José Brito de Sousa e Isolina Conceição Sousa. Nasceu em onze de outubro de 1965, no bairro do Barbalho, em Salvador. O primário cursou na Escola Santo Antônio, uma escolinha particular, que funcionava no bairro onde morava. Estudou o ginásio dois anos no Instituto Feminino da Bahia e depois foi para o Colégio Serra Valle, na Pituba, onde concluiu o ginásio e o segundo grau. No colégio sempre foi uma aluna com certa rebeldia e desde esta época que passou a se interessar por arte. Ia para as Oficinas do MAM-Ba e depois para os cursos livres da Escola de Belas Artes, procurando se entrosar com os estudantes de arte daquela época. Adiantou que durante sua adolescência gostava mais de andar pelo Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM-BA. Estudou por lá e lembrou que o que sabe de gravura aprendeu com Paulo Rufino, estudou ainda com Guache Marques e Florival Oliveira no MAM-Ba e na EBA com o professor Luiz Gonzaga. Batia de frente com a rigidez de horários e outras exigências formais das escolas onde estudava.

Mesmo antes de se formar em Belas Artes começou a participar de exposições coletivas, e de salões que naquela época eram realizados em Salvador, especialmente no Museu de Arte Moderna da Bahia e também os salões universitários dos quais fui jurado em alguns deles. Beth Sousa disse que estava neste processo de mudança e passou a receber convites para expor. Ia para o campo para fotografar a paisagens e lá disse que encontrou outros elementos como alguns fósseis que passou a incluir em suas obras. Terminou expondo na França, Portugal e na Espanha juntamente com outros artistas. Nesta época estava estudando e experimentando as cores e os tons. Ficou buscando pintar com ausência do figurativo. 

Obra da série Paisagens Áridas, 1993.
Vamos dar um passeio sobre os momentos da arte de Beth Sousa a começar pela sua  Série Paisagens Áridas onde podemos sentir a influência direta de Anselm Kiefer .
Ela priorizou a policromia e direcionou o tema para o seu próprio contexto social.  Diz a artista que sobre os trabalhos da Série Paisagens Áridas: “A partir de 1993, já́ em Salvador, dei início a uma pintura com elementos amorfos, inspirada nas paisagens áridas do Nordeste da Bahia, com sua vegetaçã
rareada, pontuada de cactos, mandacarus e palmas. Dentro desta concepção, a vegetação, a terra e os animais carcomidos pelo tempo passaram a ser representados através de densas camadas de tinta acrílica com a sobreposição de materiais diversos como juta, placas de papel e imagens de revistas coladas sobre a tela. As paisagens, sempre retratadas sem a indefectível linha do horizonte, faziam com que os seus elementos se confundissem entre figura e fundo, instigando a percepção do observador e evitando uma leitura paisagística convencional.” E finaliza dizendo que os trabalhos realizados nesta série apresentavam figuras lânguidas, distorcidas e indefinidas que reproduziam a tragédia dos que “sobreviviam sob o sol causticante que o aquecimento global só́ tenderia a tornar ainda mais dramático.”

Obras da Série Fósseis, 1998.
Em seguida volta em 1998 Beth Sousa agora com a Série Fósseis depois de observar que este clima insípido do sertão nordestino resultava em mortes de alguns animais os quais deixavam nos seus restos mortais vestígios de sua passagem por aquela região. Disse Beth Sousa que “0 registro do processo de decomposição me instigou a desenvolver a Série Fósseis, mesmo sem a intenção de me aprofundar no estudo da Paleontologia. Ao incursionar pelo interior da sua massa corpórea, descobri a plasticidade das espinhas e do esqueleto fossilizados e de suas partículas, esta estrutura de ossos e esqueletos sem os quais o corpo seria uma massa amorfa, por sua correlação com o fim, a morte, tende a ser associado ao feio, repelente, aterrador.”

O que lhe interessava era a plasticidade das formas e os tons monocromáticos, valorizando o branco e eliminando os elementos que conjugavam a composição da fase anterior. Ainda com o mesmo estilo na representação dos elementos, a dualidade das imagens que se confundem com o fundo em um figurativo abstrato deixa a critério de cada espectador entrar na obra para formar as imagens de acordo com sua própria percepção”, declara.

Vemos uma obra da Série Soft inspirada na
plasticidade do cilindro do papel higiênico,
 2000/2006.
A terceira fase que ela denominou de Série Soft vai de 2000 a 2006 depois de quase uma década de “pesquisa de materiais, novas formas e temas emergiram e o que era amorfo começou a se definir. As figuras apareciam naquela ocasião com uma nova poética, ao pinçar elementos do cotidiano, captando sua essência plástica e elevando-os à dimensão de obra para a contemplação artística. Esta nova temática passou a compor os trabalhos de então com o resgate de objetos do dia a dia, a valorização da sua utilidade e conversão em tema para a representação artística é o ponto de partida” é bom salientar diz Beth Sousa que “é a plasticidade destes elementos que vai determinar a escolha como elemento central da composição. A opção de trabalhar privilegiando o papel higiênico se insere neste contexto. A partir daí́, no início da década de 2000, comecei uma nova série em grandes dimensões, intitulada Soft.”Lembra que “nos primeiros trabalhos, a imagem do rolo de papel ainda era indefinida, a percepção era concomitantemente visível e invisível, isto é, o elemento central da pintura era o rolo de papel higiênico solto no espaço, transpassado horizontalmente por um objeto cilíndrico, fora do seu contexto habitual. No entanto, desviei-me do caráter figurativo, narrativo ou ilustrativo da forma, neutralizando a representação.”

Objetos feitos de bonequinhos  plásticos,
que foram queimados para representar
as crianças chacinadas em 1993 no pátio
da Igreja da Candelária, RJ.
Os acontecimentos políticos, sociais e ambientais da sociedade brasileiras sempre são motivos para a artista se expressar através da sua arte engajada. Agora ela se debruçou sobre a chacina de crianças em frente à igreja da Candelária no Rio de Janeiro, Brasil e produziu a série Chacina utilizando linguagens diversas como esculturas, instalações e objetos. Guardou tudo isto durante a década de 1990 e seus trabalhos tridimensionais finalmente apareceram ao público na Série Chacina que curte e gosta de arte. Escreveu Beth Sousa que “eles surgiram como tradução da violência social brasileira, como representação de pessoas que se arvoravam de coragem para enfrentar as durezas da vida, daquelas que morreram na chacina da Candelária, enfim, do conturbado cotidiano da época. As terríveis imagens da chacina da Candelária em 1993 ficaram gravadas na minha mente, por muito tempo, trazidas pelas manchetes de todos os jornais e revistas que a ela se reportavam. Os trabalhos representados são de figuras mórbidas que retratam a imagem de um povo que sobrevive em condições sub-humanas”.Diz ter utilizado este conjunto de materiais simples como os pequenos bonecos de plástico com 10 cm de tamanho adquiridos em feiras e pequenas lojas populares de miudezas, São bonecos utilizados muitos por artesão como aqueles que conhecemos e são largamente vendidos aos turistas vestidos em traje típico de baianas.

Fotos do vídeo da Série Quem tem Medo
das Ginas, exibido no MAM-Ba, em 2012.
Finalmente temos a Série Quem Tem Medo das Ginas produzida entre 2008 a 2015 quando ela se utiliza da imagem de uma mulher loira e de olhos azuis, cabelos lisos para contestar este padrão estético de Gina pela mídia tradicional. “Confessa que “a partir da análise da imagem original estampada em uma caixa de palitos de dente questiono, ainda, estes ideais de beleza almejados pelas mulheres que, de um modo geral, procura incessantemente artifícios oferecidos pelo mercado para imitar as pops stars.” 
Diz ainda que “a pintura   já́ não me satisfazia plenamente enquanto forma de expressão, daí́ a necessidade de como  experimentar outras linguagens a fotografia, a videoarte, e novas web-artes surgiram através das formulações dos planos de aula, ainda como professora substituta da Escola de Belas Artes da UFBA (2008 /2010). Circundada por essas questões, atentei para o corpo e as tensões e cobranças que permeiam o universo feminino e fiz alguns laboratórios, na tentativa de me expressar através da imagem em movimento. A partir daí́, as reflexões deram encaminhamento a minha pesquisa teórico-prática, cujo tema foi o fio condutor para o desenvolvimento de uma poética.”

“A partir dessa experiência, senti a necessidade de maiores investigações sobre a corporeidade na arte contemporânea através das artistas precursoras da Body Art e de destacar as que subverteram os limites do corpo.” O contexto do vídeo feito em 2012 “trata de três personagens Gina, Regina e Efésios. As moças moram em um apartamento antigo no centro da cidade de Salvador, onde compartilham um cotidiano nefasto e uma semelhança em suas histórias de vida. Regina é modelo, 18 anos, negra, rosto infantil, olhar triste, alta e anoréxica. Sua personagem chama a atenção para a exploração do feminino pelas mídias e pela publicidade quando mostra a esqualidez do seu corpo. A representação do corpo feminino anoréxico é uma reflexão da cultura lipofobia, o culto ao corpo e a tirania midiática determinada pelo mecanismo do mercado como contragolpe as manifestações dos anos setenta. As maiores vítimas da obsessão à magreza são as adolescentes, alvos de preferência do mercado. As jovens que sonham em conseguir um lugar no pódio como top model, influenciadas pelas falsas promessas ilusórias da mídia, submetem-se as dietas exageradas que, muitas vezes, as levam à morte.”

                                PRÊMIOS E EXPOSIÇÕES

Obra exposta na 2ª bienal de Gaia,
 Portugal,2017. Acrílica sobre tela.
Em 2012 - Contemplada pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Fundo de Cultura) com o Projeto “Quem Tem Medo das Ginas”; 1991 - Menção Especial l Bienal do Recôncavo, São Félix-Ba, Centro Cultural Dannemann e em 1991 – 1º Prêmio do Vll Salão FASC de Artes Plásticas, São Cristóvão - SE, Universidade Federal de Sergipe. 

Já fez três exposições individuais sendo a primeira em 2012 – Quem Tem Medo das Ginas – Museu de Arte Moderna da Bahia; 2005 - Arte Soft no  Hotel Sofitel – Salvador BA) e 1994 - Beth Sousa (Galeria ACBEU – Salvador – BA).  Participou de  exposições coletivas aqui e fora do país. Vejamos em 2020 – Arte Como Respiro – Itaú Cultural – SP; 2020 – 20º Salão Nacional de Pequenos Formatos de Britânia - GO; 2018 – Arte de Passagem – Itinerância pela Arte Contemporânea da Bahia (Museu de Arte da Bahia); 2018 – II Feira de Arte de Goiás (Fargo), (Vila Cultural Cora Coralina - Goiânia – Go); 2017 – 2ª Bienal Internacional de Arte Gaia. (Gaia-Portugal) ; 2011- Entre Folhas Galeria Cañizares - Salvador - BA); 2010 - Corredores Digital /Curadoria com Caetano Dias (CASACOR BAHIA); 2010 - Entre Folhas (Centro Cultural Dannemann); 2009 - Circuito das Artes ( Galeria ACBEU – Salvador - BA); 2009 - Lançamento do Catálogo do Acervo do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA); 2009 - Mulheres em Movimento (Galeria Cañizares – Salvador - BA);  2009 - Circuito das Artes (Galeria ACBEU - Salvador - BA); 2007 - Circuito das Artes, (Palacete das Artes); 2006 - Nove de Fora, (Galeria Por Amor à Arte – Porto - Portugal); 2006 - Olhar Contemporâneo , (Galeria de Artes Paulo Darzé́; Salvador – BA); 2005 - Bahia à Fora (Galeria Terra Fértil - Buenos Aires); 2004 - Coletiva , (Galeria ACBEU –Salvador – BA); 2003 - Exposição Coletiva ICBA - Instituto Cultural Brasil Alemanha  ;   2003 – Exposição Lançamento do Catálogo do Acervo da Galeria ACBEU , (Galeria ACBEU - Salvador – BA); 2002 - Exposição Coletiva , (Galeria de Artes Paulo Darzé́ - Salvador - BA);  2002 - IV Mercado Cultural , (Galeria ACBEU - Salvador - BA); 2002 - Pintura Bahia 2002 (MAM-BA); 2001 - Exposição Coletiva , (Galeria ACBEU Salvador Bahia ); 2001 - 14 Fragmentos Contemporâneos, (Galeria 57 – Leiria - Portugal);  2000 - Exposição Coletiva , (Galeria ACBEU Salvador Bahia); 2000 - Exposição Coletiva  , (Galeria Moacir Moreno Salvador -BA); 2000 - Exposições Comemorativas aos 25 anos da Galeria ACBEU (Galeria ACBEU Salvador Bahia); 1999 - Exposição Arte Salvador 450 anos (MAM-BA); 1999 - Pintura Contemporânea da Bahia (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Recife - Pernambuco);1999 - 100 Artistas Contemporâneos da Bahia (Museu de Arte Sacra- BA)  ; 1998 - Arte Salvador 450 Anos (MAM-BA); 1998 – Exposição Ba - Go Brasil ,(Fundação Jaime Câmara – Goiás); 1998 - Bahia à Paris, (Galeria Magnan – Paris - França); 1998 - Pintura Contemporânea da Bahia - (Galeria Arvore – Porto- Portugal). 1998 - Tropicália 30 anos (MAM-BA); 1997 - 7 Artistas Contemporâneos Baianos (Central Hispano – Barcelona- Espanha);1997 – Exposição Porto da Barra (Espaço Cultural Telebahia – Salvador - BA); 1996 - lll Salão MAM Bahia de Artes Plásticas (MAM-BA); 1996 – Exposição Ararinha Azul (MAM-BA); 1995 - Exposição Comemorativa 20 anos da Galeria ACBEU, (Galeria ACBEU - Salvador) ;1995 - lI Salão MAM Bahia de Artes Praticas (MAM-BA); 1995 - lll Bienal Do Recôncavo (Centro Cultural Dannemann – São Felix- BA); 1995 - UFBA Traduz Bahia (Galeria Cañizares – Salvador-Ba); 1994 - Artistas Emergentes da Bahia ; 1994 – X Salão FASC de Artes Plásticas (Centro de Cultura e Artes – Universidade Federal de Sergipe); 1991 - Exposição dos Artistas Premiados da l Bienal do Recôncavo (Fundação Gregório de Mattos Salvador Bahia) e em 1991 - I Bienal do Recôncavo (Espaço Cultural Dannemann São Felix – BA).