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quinta-feira, 14 de julho de 2022

OS ARTISTAS POPULARES QUE TEIMAM EM CRIAR

 Temos em todas as cidades do interior os chamados artistas populares que nunca frequentaram escolas de arte ou mesmo tiveram orientação de um professor mais especializado. Eles surgem com seus talentos espontaneamente e vão tateando daqui e dali até serem reconhecidos pelo que criam e produzem. Assim surgem escultores, pintores, desenhistas, gravuristas, artesãos, fotógrafos dentre outras categorias. Portanto, este texto se propõe a mostrar alguns desses artistas que estão aí no mercado em Ribeira do Pombal tentando mostrar e sobreviver da arte que fazem. Sendo um amante da arte por onde passo procuro ver e descobrir novos talentos. Minha casa tem suas paredes repletas de obras de arte e sempre estou olhando e admirando cada detalhe. Elas servem para dar alegria e vida, transformando as paredes frias em locais de boas vibrações, além de proporcionar o embelezamento. Uma casa sem uma obra de arte, quer seja uma pintura, uma fotografia ou escultura é uma casa sem vida, de paredes mortas. Portanto, procurem colocar em suas casas e apartamentos uma obra de arte, e prestigiem os artistas da terra que precisam sobreviver de sua arte, e que teimam em mostrar seus talentos. Ao adquirir uma obra de arte você também está contribuindo para a melhoria da qualidade da arte que eles produzem, porque à medida que pintam, esculpem, gravam ou fotografam vão aperfeiçoando suas habilidades e a qualidade de suas obras.

Vânia Reis e algumas telas de sua autoria.
A maior é da Praça Getúlio Vargas , vendo
o sobrado dos Brito.
 A Josivânia Santana dos Reis , que assina suas obras como Vânia Reis, é natural do Povoado de Barrocão, é  a mais talentosa, conhecida experiente  entre os artistas populares do município. Ela nasceu em 15 de junho de 1967 e diz que seu interesse pelas artes começou desde criança  quando descobriu que poderia fazer alguns objetos de barro, e também  passou a realizar  seus primeiro desenhos. Frequentou alguns cursos temporários ministrados no município e até mesmo em São Paulo , e em 1997 passou a expor algumas obras. Hoje é uma artista reconhecida na região e de quando em fez solicitada a fazer um mural em pousadas, bares e mesmo em residências particulares. Também, escreve poemas e é uma ativista contra a violência doméstica. Sempre está participando de lives ou outros eventos mostrando sua arte e levando a mensagem contra a violência doméstica, a que inclusive  diz que foi uma das vítimas.

Vânia Reis tem realizado também um trabalho de resgate pintando prédios históricos que desapareceram devido a insensibilidade de gestores públicos e mesmo de famílias que se desfizeram de seus imóveis por várias razões. A nossa Cidade tem uma memória curta, como se diz no popular. Preservação aqui é quase um palavrão. O último prédio histórico que foi demolido  para a construção da sede do Tribunal Regional Eleitoral  foi a Cadeia Pública. Eu cheguei a falar com um Diretor do TRE , que trabalhou comigo no jornal A Tarde sob a possibilidade de pelo menos preservar a fachada da Cadeia Pública, mas ele respondeu que seria impossível porque o projeto é padrão. Isto não iria interferir no projeto. Apenas um simples recuo poderia ter salvo mais este prédio histórico. A culpa foi do prefeito da época que simplesmente permitiu sem qualquer reflexão.

A arte de Marlene, índia Kiriri, utiliza
materiais recolhidos da natureza. 
Temos a índia Kiriri Marlene Maria de Jesus, 57 anos, casada com Orlando Jesus dos Santos e tem oito filhos: Josileide, Rogério, Ricardo, Maíra, Rosângela, Cleoma, Sueli e Ronaldo.  Nasceu na Mirandela, quando pertencia a Ribeira do Pombal, e ela trabalha com palha do ouricurizeiro de onde tirar a fibra que confecciona bolsas, tranças,  tangas e sutiãs. Também sem tirar a fibra usa a palha in natura faz as esteiras e abanos , e com outros materiais confecciona cocares,   maracás e colares . "Um galho de ouricurizeiro para mim é vida! Às vezes trabalho com meu filho Rogério  que faz também aiôs com a fibra do ouricurizeiro, mas, ele sabe fazer também com linhas industriais  tricotadas. "E continua Marlene "tenho trabalhado fazendo sutiãs e tangas de fibras de pindoba (ouricurizeiro) mas sinto falta de um manequim para ver melhor o resultado do que faço. Muitas vezes a gente pede a uma sobrinha para vestir, para olhar como está o caimento, e mesmo se precisa ser feito algum ajuste. Com o manequim seria melhor porque estaria sempre a disposição para isto. "

Ela mora na comunidade de kiriri , na Mirandela, que hoje pertence ao município de Banzaê, que foi desmembrado de Ribeira do Pombal em 24 de fevereiro de 1989. Começou a trabalhar com a mãe em utensílios domésticos feitos de barro e quando sua mãe faleceu ela continuou e aprendeu a fazer outros utensílios e elementos de sua cultura que são comercializados em feiras e outros eventos. 

Obras de  Humberto Souza. Abaixo vemos 
o  antigo Mercado Municipal. Demolido.
 Humberto Santos Souza, 71 anos, filho de Zezito Paulo dos Santos e  Josefa Cristina de Souza (falecida),  montou a primeira galeria de arte que funcionava na Rua Fernanda Gama, ao lado do Bradesco, mas terminou fechando porque não tinha movimento comercial. "Depois que me aposentei  do Banco do Brasil tive que procurar fazer algo. A saída foi me dedicar à arte senão ia endoidar. Queriam me transferir para São Paulo, Paraná e outros estados . Foi quando preferi aceitar o Pedido de Demissão Voluntária - PDV, em 1996 . Depois passei um ano mal,  adoeci e tive um AVC. Foi a arte que me salvou. Desde criança que desenhava e já adulto comecei a pintar a partir dos 18 anos. Nunca tive curso, embora os colegas na época me incentivaram muito a fazer um curso na Escola de Belas Artes da Ufba." Ele é natural de Jandaíra, Bahia, e está em Ribeira do Pombal há mais de cinquenta anos. Confessa Humberto que " hoje estou com os movimentos limitados do lado direito e isto tem dificultado pintar. Tenho várias obras  aqui em Ribeira do Pombal ."

Geovane e as luminárias  feitas de
tubos  de  pvc.
 Geovane Bitencourt Gomes, diz ser  natural de Tucano, 59 anos, "mas vivo aqui há mais de quarenta anos, sou praticamente pombalense. Desde os quatorze anos que estou envolvido com a arte. Primeiro fazia entalhes em madeira e depois fiz algumas pinturas, e cheguei a fazer uma exposição na Mona Pizza, aqui mesmo em Ribeira do Pombal. Parei de pintar por falta de incentivo e as pessoas não dão o valor que a gente espera. Publiquei um livro de poemas  "Desabafo do Poeta", em 2001, e a partir de 2018 descobri o pvc como material para fazer a minha arte. Hoje elaboro abajures, luminárias, miniaturas, caricaturas o que você pensar em pvc eu faço. Já tenho minha Carteira Nacional de Artesão e estou esperando ajuda do Governo "porque a coisa está braba".

Ricardo e suas esculturas de cimento e
casca de coco.
O artesão Ricardo Oliveira Silva, o Ricardo Arte ,  trabalha com vários materiais, inclusive com casca de coco, pó de madeira e cola. São materiais naturais reciclados. Faz também entalhes de madeira reproduzindo animais da região e mesmo de outros estados do Brasil. "Ultimamente tenho feito algumas esculturas de cimento e já tenho peças de espalhadas em vários cidades do país. É um trabalho simples, humilde, procuro sempre dar vida aos meus trabalhos." Sempre procurou aproveitar materiais da natureza, que estão disponíveis na região. 
Essas pequenas esculturas de tartarugas mostram que o Ricardo poderia criar outros produtos, mas para isto precisaria de cursos para conhecer novos materiais e novas técnicas para melhorar ainda mais a qualidade dos produtos que cria. Também, seria necessário que houvesse um local onde os artistas pudessem expor seus produtos e obras para que os visitantes pudessem conhecer e adquiri-los.

Ana Belck usa massa de biscuit. em suas obras.
A jovem paulista Ana Belck de vinte e seis anos, nasceu em São Paulo, mas mora em Ribeira do Pombal desde um ano de idade. Ela disse que teve contatos com os mais variados tipos de materiais e instrumentos ligados à arte. Escolheu trabalhar com a massa de biscuit ou porcelana fria em 2017. A Ana  modela as peças e depois passa a pintar suas pequenas esculturas.  Já adquire a massa de biscuit pronta e para colorir as peças usa tinta de tecido ou mesmo corantes em pó. Trabalha e manuseia cola branca, isopor, rolo para misturar a massa , arame galvanizado e estecas, que são ferramentas em metal usadas em modelagem e esculturas de argila para retirar excessos, cortar e criar sulcos.

Fabrício , artista versátil no seu ofício
de pintar.
O artista Fabrício Santana, embora seja natural de Euclides da Cunha, também reside em Ribeira do Pombal. É desenvolto para falar dos seus trabalhos e segundo ele tudo começou espontaneamente desenhando até chegar aos pincéis. Já fez algumas exposições. Ele contou que o primeiro desenho que fez foi para um tio que na época lhe pagou R$5,00. A partir daí viu que poderia ganhar algum dinheiro  desenhando, porque antes trabalhava na roça. A diária era muito baixa. Então no colégio ele desenhava os mapas das aulas de Geografia e outros trabalhos escolares. Sempre teve interesse em tornar-se profissional e sempre que pedia materiais à sua mãe para pintar ela não podia dar e ficava muito triste com isto. Até hoje quando lembro, ela chora". Lutei muito para vender meus quadros e com 17 anos vim para a Cidade e fui trabalhar de cabelereiro, onde fiquei durante um ano. Todo início de trabalho é difícil e passei muitas dificuldades, inclusive passei até fome. As coisas foram acontecendo e continuei desenvolvendo o meu trabalho de artista plástico. Participei de um concurso no colégio e ganhei o primeiro lugar e o segundo da região. Ganhei um kit de pintura e uma viagem para Salvador onde passei uma semana no Hotel Fiesta Bahia participando de um Workshop (é seminário ou curso intensivo, de curta duração, em que técnicas, habilidades, saberes e artes tudo aplicado e demonstrado). Tudo foi pago pelo Governo Federal e isto foi um ponto chave para continuar. Trabalhei na lanchonete MeKoma, que ficava na Praça Getúlio Vargas, e quando sai fui trabalhar no Centro Municipal de Cultura como desenhista. Ai passei a ficar mais conhecido e vendi minha casa e uma moto que tinha e me mandei para Carmo do Paranaíba, em Minas Gerais,  para participar de um evento com o artista mineiro  com o artista hiper realista Fabiano Milani e voltei com R$120,00 no bolso. Lá conheci minha atual esposa e estamos aqui na luta. Trabalho hoje com pintura residencial e artística. Ainda não fiz uma exposição individual, mas pretendo fazer em breve. O nome já foi escolhido Gratidão, a todos que me ajudaram".
José Ailton e  suas obras realistas.
Morador da localidade de Barro Vermelho, na zona rural de Ribeira do Pombal o jovem  José Ailton Bezerra de Oliveira, que assina José Ailton, de 23 anos, disse que começou desenhando desde 10 anos de idade. Sempre que tinha uma folga das aulas do colégio desenhava uns coelhos e outros animais e as pessoas que viam ficavam admiradas dos desenhos. De lá para cá acho que evolui muito e fui mesmo levar a sério este meu dom de desenhar a partir de 2016 quando comecei a me interessar pelo desenho realista, que lembra uma fotografia. "
Trabalha como ferramenta os lápis em várias graduações que vai do HB até o 8B para conseguir dar todos os traços desde o mais fino ao mais grosso. Diz que "temos que ter uma boa técnica para tirar a dureza do lápis e dar uma ideia de pele quando desenhamos pessoas. Uso o ´papel Canson e para conseguir tenho que comprar em Feira de Santana e Salvador. Estou iniciando o uso de  lápis de cor para os desenhos. Atualmente os lápis de cor são  marca Faber Castel que é bem melhor para   desenhar.  Estou também fazendo escudos e letreiros, uma forma de sobreviver com a minha arte. Mas, confesso que está muito difícil no momento sobreviver de arte em Ribeira do Pombal. Atualmente estão devagar as encomendas de desenhos. Agora estou também cortando cabelo e ainda trabalho na roça, e dá uma risada, mostrando sua disposição em enfrentar a vida  sem lamúrias. Já mostrou seus desenhos na Cultureira, em 2018 aqui em Ribeira do Pombal . Com a pandemia tudo parou. O meu sonho é expandir minha arte e mostrar em outras cidades." 

NR - Meus agradecimentos a Hamilton Rodrigues por sua busca pelos artistas . Quando é um texto com vários depoimentos dá mais trabalho porque depende dos horários e disponibilidade das pessoas. 

domingo, 8 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO COLETIVA NO MUSEU RODIN REÚNE DIFERENTES

Vemos aí quinze dos vinte e dois artistas  participantes  da exposição Raimundo Bida, Félix Sampaio, Salomão Zalcbergas,
Gil Mário, Guache, Washington Árleo, o diretor do Museu Rodin Murilo Ribeiro, Bernardo Tochilovsky, Gabriela Joau,
Fátima Tosca, Sara Victória, Ramiro Bernabó, Ana Castro, Chico Mazzoni, Miguel Cordeiro e Waldo Robatto. 
Vinte e dois artistas estão participando de uma bela exposição coletiva no Museu Rodin, no Palacete das  Artes, bairro da Graça, em Salvador, onde você pode apreciar estilos diferentes de pinturas, cerâmica e também esculturas em granito de autoria do artista Félix Sampaio, que para mim é um dos destaques entre os que estão expondo. Participam da exposição os artistas Ana Castro, Bernardo Ribeiro Tochilovsky, Chico Mazzoni, Fátima Tosca, Félix Sampaio, Gabriela Joau, Gil Mário, Guache Marques, Guel Silveira, Grace Gradin, Juraci Dórea, Leonel Mattos, Márcia Magno, Menelaw Sete, Miguel Cordeiro, Raimundo Bida, Ramiro Bernabó, Salomão Zalcbergas, Sara Victória, Vauluízio Bezerra, Waldo Robatto e Wasghinton Árleo, e tem o sugestivo nome de Um Recente Recorte da Produção Diversa e Contemporânea da Bahia, organizada pelo diretor do Museu, o também artista Murilo Ribeiro.

Escultura de Félix Sampaio
É uma boa oportunidade de apreciar um conjunto de obras de arte porque já se vão dois anos que museus e galerias de arte vinham sofrendo com as restrições impostas devido a pandemia que se abateu em todos os cantos deste Planeta Terra. Tive a satisfação de visitar a mostra em companhia de Murilo Ribeiro e ver que estes artistas reunidos representam uma parte importante da arte contemporânea que ora se produz na Bahia. São maneiras diversas de expressão que estão ali reunidas o que nos permitem momentos de deleite ao observar cada tela, peça de cerâmica e escultura. Evidente que umas obras me tocaram mais de perto, outras nem tanto, mas não deixam de ter a sua importância porque podem não me tocar ou não me emocionar, mas podem emocionar outras pessoas. É assim que acontece quando estamos diante de uma diversidade significativa de criações onde são utilizadas técnicas e materiais por artistas distintos.

Félix trabalhando na grande
escultura para o Memorial
de Irmã Dulce.
Para criar suas esculturas  Félix Sampaio  parte de blocos brutos de granito e consegue pacientemente criar belas esculturas com formas que vão se cruzando deixando espaços vazios o que resulta em obras de uma leveza singular. É realmente um trabalho de fôlego que nos leva a não apenas observar, mas também nos convida  a tocar e acompanhar com as mãos aquelas formas circulares se entrecruzando, e vamos sentindo o volume de cada peça. Confesso que não conhecia a produção escultórica deste artista que soube ter seu estúdio pras bandas do bairro de São Cristovão. Depois fiquei sabendo por ele que tem esculturas suas no Memorial de Irmã Dulce, que são muito apreciadas pelos visitantes. Já tinha estado com ele há muitos anos atrás quando fez uma exposição em Salvador e cheguei a publicar numa nota nesta coluna quando estava no jornal A Tarde.

Na conversa que tive com Félix Sampaio  ele disse antes vivia de pintura e que chegou em Salvador por volta de 1986 vindo da cidade de Itiruçu onde residem seus familiares. Embora seja natural do Mato Grosso do Sul, de onde saiu bebê, foi em Itiruçu onde fincou suas raízes. Hoje, residente aqui em Salvador e está mudando seu atelier para Abrantes, na Estrada do Coco, para um local maior para que possa receber carretas com carregamento de blocos de mármores e granitos para fazer suas esculturas. 

A escultura em mármore de Carrara que ele
fez em apenas vinte e dois dias de intenso
trabalho no atelier alugado.
Félix  falou ainda de sua experiência na Itália, mais precisamente na cidade medieval chamada Pietrasanta, cidade que  fica no litoral da região de Toscana,  quando em 2018 alugou um espaço no atelier de um artista local e pode trabalhar com um bloco de mármore de Carrara. Esta cidade tem apenas 27 mil habitantes, e no centro da cidade funcionam dezenas de galerias de arte e ateliers cujos espaços são alugados para artistas do mundo inteiro. A cidade de  Pietrasanta é um museu a céu aberto com muitas esculturas espalhadas por ruas e praças por isto é conhecida como a Cidade do mármore e das artes.

Disse ainda Félix Sampaio "foi uma experiência sensacional porque via artistas de vários países trabalhando, conheci de perto as ferramentas que utilizavam, e a maneira de esculpir. Foi um aprendizado muito grande para mim que em 22 dias consegui fazer uma escultura de um bloco de mármore de Carrara. Estava no lugar certo, na hora certa.  Aqui os artistas utilizam mais o aço, fibra de vidro e bronze. Mas, estes materiais têm alguns inconvenientes porque o salitre ataca muito, e até mesmo são roubados, principalmente as esculturas de bronze. Por isto, imaginei trabalhar com o granito e as ferramentas que utilizo são o martelo pneumático, vários tipos de cinzéis, disco de makita para cortar o grosso e lixadeiras elétricas. Trouxe recentemente dois blocos de granito de Maracás  e outro da cidade de Macajuba, que fica na Chapada Diamantina. Este material também está difícil adquirir porque os empresários preferem exportar."

 Leonel Mattos expõe esta obra que está encantando os visitantes, e mais uma escultura feita em resina.

O Leonel Mattos apresenta duas obras. Uma pintura em acrílico sobre tela de 4 m x 120cm e uma escultura de resina de 1m de altura. A produção de Leonel Mattos vem se expandindo a cada dia e sendo procurada por uma clientela apreciadora da sua arte. Nesta pintura que integra a exposição do Museu Rodin ele trata de cenas urbanas com elementos que transitam entre o figurativo e o simbolismo. A sua  pintura que não está num suporte, mas  chama a atenção por seu colorido e os elementos que a compõem. Enquanto a escultura o artista apresenta o ícone que se "parece com uma ave ,mas na verdade veio da simplificação da figura humana", diz Leonel Mattos. 
 
          WASHINGTON ÁRLEO E SUA ARTE FOCADA NA ATUALIDADE

Árleo ao lado de sua obra, mostrando
sua alegria
Conversei também com o artista Washington Árleo, um dos artistas mais representativos de sua geração que sempre está mostrando sua inquietude ao questionar o próprio mercado de arte, a ausência de pessoas que antes referendavam os bons artistas, e outras questões que envolvem a atividade artística na Bahia. Ele poderia estar tranquilo já que sua obra tem uma linguagem própria e como ele mesmo diz  muitos estrangeiros que passam pelo seu atelier ficam impressionados com a originalidade de cada tela.  Ao falar sobre o tríptico  que está expondo no Palacete das Artes disse que há vários anos não expõe fora do seu atelier. Reclama que os decoradores e galeristas não o incluem em seus projetos e que isto  de alguma forma os prejudicam. Portanto, está na hora de decoradores e galeristas olharem para a produção de Washington Árleo que tem qualidade e pode estar em qualquer ambiente. Não foi por acaso que  colocou o nome de sua obra exposta nesta coletiva do Museu Rodin de Divórcio da Arte da Bahia, que era um tríptico e ele separou as telas. 

Com seus quase cinquenta anos dedicados à arte Árleo é uma mistura de  um jovem adolescente cheio de energia com um homem maduro cheio de experiência e vivência. Já morou em Portugal andou expondo em Paris e outras cidades  europeias e aqui está produzindo sua arte com uma linguagem própria. Ao ver uma tela pintada por ele a gente que tem  mínima informação sobre arte baiana identifica que é de sua autoria. 

Pedi ao artista que falasse um pouco de sua técnica que lhe permitiu ter uma linguagem própria. Ele me disse que sofreu influência direta do artista americano Robert Rauschenberg (1925-2008) que segundo alguns inventou a arte do século XX. Na realidade foi "um artista que não se limitava a ideia tradicional do pintor que se restringe a um único estilo ou a única disciplina". Portanto, Árleo usa a técnica de transfer de imagens através a serigrafia, e ao executar as suas obras escreve recortes de textos como fazia o artista Jean-Michel Basquiat (1960-1988) que viveu apenas 28 anos, mas se tornou uma estrela internacional do neoimpressionismo. Nascido em Nova Iorque começou pintando os muros da cidade até ser descoberto e ganhou status de estrela ao desenhar suas figuras e escrever palavras e frases que se tornaram famosos. Também Árleo se apropria da técnica de salpicar tinta nas telas que é uma marca do Jackson Pollock artista americano ( 1912-1956) que é um dos expoentes do expressionismo abstrato que se caracteriza pela espontaneidade utilizando o cotejamento de tinta em suas obras.

Aqui vemos o belo tríptico do artista Washington Árleo, que é um
resistente com seu atelier no Pelourinho, onde recebe
visitante e clientes, principalmente estrangeiros. 

Árleo diz fazer "uma operação de antropofagia  porque tudo que acho pela frente serve para ser utilizado em minha criação. Em seguida vou estabelecendo uma relação entre esses objetos que me aproprio . É como se pegasse um recorte de memória e fosse ali juntando espontaneamente num único espaço. Depois passo a pintar e a escrever frases e palavras que me vêm a cabeça naquele momento. Tudo que tiver ao meu alcance meto a mão e uso nas minhas telas. Fico feliz quando uma pessoa olha minhas obras de pronuncia a palavra original. Os franceses que visitam meu atelier sempre saem com esta expressão e isto me conforta muito." Realmente as obras de Washington Árleo tem uma identidade própria, sua própria linguagem que qualquer pessoa de olhar mais atento percebe.

terça-feira, 5 de abril de 2022

O LEGADO DE GENARO REVELADO EM "TECENDO MEMÓRIAS"

Foto 1. O Encontro . Foto 2. Nair no papel de musa
inspiradora. Foto 3.O casal na casa do
Campo Grande
 "Criar é, sobretudo não morrer", esta frase do grande artista baiano, nascido em Salvador, Genaro de Carvalho, nos chama a criar, realizar, fazer enquanto vivemos. É um chamamento que nos convoca a participar. Fico feliz quando vejo sua companheira por décadas Nair de Carvalho lutando como uma leoa para preservar a autenticidade de toda obra que Genaro construiu em vida. São suas tapeçarias, suas pinturas, suas ilustrações e tudo que ele criou. Nair quer reunir em dois livros, como se fossem "livros tombos", disse ela com entusiasmo. Um levantamento feito por quem participou e testemunhou. Portanto, uma fonte primária de alto valor. Não lhe contaram, não lhe disseram foi ela própria que viu, que acompanhou grande parte da trajetória vitoriosa de Genaro de Carvalho, enquanto criava suas obras de grande valor artístico, cultural e econômico. Ela lamenta  a destruição de vários murais .
Aqui farei também um recorte das memórias que Nair de Carvalho ouviu e registrou de sua sogra d. Celina Carvalho, de outros parentes e dos amigos mais íntimos relatando os primeiros anos do artista. Foram relatos de terceiros até o momento que o conheceu em 1955. A partir daí as experiências foram compartilhadas entre Genaro de Carvalho  e Nair até 1971, quando ele faleceu precocemente aos 44 anos de idade.
Os primeiros desenhos de Genaro .

Nair de Carvalho com sua generosidade me enviou o primeiro volume que ela classificou como uma espécie de "livro tombo", e tem o título de "Tecendo Memórias, e é dele que vou falar. Ao abrir o livro nas primeiras páginas temos uma foto em plena juventude do casal celebrando o primeiro encontro em 1955, que resultou em anos de convivência. Ela mesma escreveu: "Deste encontro nasceu também um projeto de vida, de amor, de cumplicidade, de arte. Víamos a quatro olhos. Genaro, o mestre, o mago, de quem eu sabia e queria ser a inspiração".

Genaro escolhendo as obras para uma
exposição, em 1945
.
Espero que Nair de Carvalho sirva de exemplo para que os descendentes e herdeiros do legado de outros artistas baianos dos movimentos acadêmico e modernista tenham o mesmo cuidado e a mesma dedicação em zelar pelo que eles deixaram de contribuição para a arte baiana e brasileira.
Sei que o mercado de arte andou capengando nestes últimos anos. Mas, à medida que a sociedade se desenvolve e se fortalece economicamente a tendência é que este mercado comece a pulsar com mais força. As pessoas vão adquirir obras de arte para colocar nas paredes de suas casas e apartamentos. A presença de uma obra de arte numa casa é uma dádiva, porque quem a observa certamente a reage de alguma forma.  Uns mostrando certo conhecimento, pertencimento, e outros vão dar opiniões às vezes fora dos padrões estéticos, mas também importantes. Por que importantes? Porque a obra de arte mexeu com sua
"Pássaro e dois girassóis", uma bela tapeçaria,
de 1968
.
sensibilidade, mesmo que esse indivíduo não disponha de conhecimento e intimidade com a arte. Lembro ter ouvido de uma senhora que trabalhou em minha casa depois de observar as obras que tenho nas paredes, ao conversar com o caseiro comentou: "Este homem deve ser doido! Para que ele quer tantos quadros nas paredes?". Portanto, as obras de arte mexeram com ela. E depois deste dia, eu mesmo a presenciei na sala  em silêncio olhando os quadros.

Sabe-se que estão aparecendo depois do ressurgimento do mercado de arte muitas obras falsas de artistas baianos e até de outras praças, principalmente obras que têm facilidade de serem reproduzidas através de gráficas, usando copiadoras de alta resolução. Já vimos casos até de discussão de autoria de obra de arte terminar na Justiça. O pior é que a falsificação é grosseira e ganhou a "boca do povo”, como se diz numa conversa informal. 

Mural do Hotel da Bahia, em 1952.

Atenta a este momento a artista Nair de Carvalho está garimpando as obras de Genaro de Carvalho para reunir nesses dois "livros tombos." Ao falar comigo ao telefone ela disse que "este segundo volume será um livro duro, com muitas reproduções das obras de Genaro de Carvalho, para que as pessoas saibam que essas são as obras verdadeiras criadas por ele. Tenho visto muitas obras falsas atribuídas a Genaro sendo comercializadas em galerias e leilões. Fico indignada com isto". 
Neste seu primeiro volume no "Tecendo Memórias" ela reproduz inúmeras obras de Genaro feitas desde os anos 30 até 1968, e trás ainda textos de críticos de arte da época em que Genaro de Carvalho viveu e produziu sua arte de grande valor estético.

                                                              OS PRIMEIROS PASSOS

A casa  onde o conheci
trabalhando
.
Conta Nair que o Genaro Antônio Dantas de Carvalho, nasceu no dia 10 de novembro de 1926, na Rua da Gamboa de Cima, em Salvador. Quando ele fez seus primeiros trabalhos assinava Antônio, e que ela o aconselhou a mudar para Genaro. Assinava Antônio porque seu pai era um admirador do arquiteto catalão Antoni Gaudí. Nair relata toda a trajetória de sua infância e o período escolar. Conta que em 1944 vai estudar no Rio de Janeiro, no bairro de Belfort Roxo, depois mudou para a Rua Voluntários da Pátria. Foi estudar no Colégio Andrews e Desenho, com Henrique Campos Cavalheiro, pintor, desenhista, caricaturista,

ilustrador e professor, na Sociedade Brasileira de Belas Artes". Durante à noite trabalhava no jornal O Globo redesenhando vinhetas de H.Q. de Pafúncio, D. Marocas e outros. Em 1938, a família, mudou-se para uma nova casa na Praça do Campo Grande, nº 3, e aos 23 anos de idade recebe o convite do governador Octávio Mangabeira para realizar o que consideravam na época "o maior mural das Américas", no então Hotel da Bahia. O mural foi inspirado em temas baianos, e utilizou a técnica de afresco seco. Levou um ano e meio para concluir. Nesta época estava estudando na Escola de Belas A|rtes de Paris, quando o governador fez o convite para decorar o Hotel da Bahia que estava em construção. Infelizmente as belas plantas que ele pintou no mezanino do hotel foram apagadas .
Conheci o Genaro de Carvalho num domingo pela manhã quando em companhia de um amigo carioca resolvemos dar uma caminhada para lhe mostrar de perto a Cidade. Passeamos pelo Campo Grande, mostrei-lhe o Teatro Castro Alves, o Hotel da Bahia, falei que ali tinha um lindo mural feito pelo Genaro de Carvalho. Até aquele momento não sabia que ele residia ali próximo. Ao atravessar a rua para ir até o Passeio Público nos deparamos com uma casa aberta, parecendo uma galeria de arte, com muitos pequenos quadros emoldurados na parede. 

"Casario, óleo sobre madeira,
 de 1940
.
Sendo jornalista curioso e amante da arte fui conferir o que  era. Para minha surpresa lá estava o artista Genaro de Carvalho sentado com um vegetal nas mãos e um estilete cortando para pesquisar as suas entranhas, e certamente usar numa futura obra. Apreciamos as pequenas obras, que depois soube que eram os cartuns que ele fazia como modelos para serem transformados em tapetes. Foi muito gentil, trocamos algumas frases e fomos embora. Não lembro exatamente o ano exato , mas  foi na década de 60. 

Em 1954, o tapeceiro francês Jean Lurçat viu seu mural no Hotel da Bahia e desejou conhecer o autor da obra. Lurçat é considerado o renovador da arte da Tapeçaria Mural, e o convida para seu discípulo na cidade de Saint Ceré, na França. Diz Nair de Carvalho que o francês "se surpreendeu a constatar que Genaro já tinha feito muita coisa em tapeçaria."

                                                   CUMPLICIDADE

Porém, ao chegar o ano de 1955 Nair de Carvalho se transforma "em musa, mulher, companheira e cúmplice na vida e no amor". No ano seguinte realiza uma série "Igrejas Barrocas", para o sr. Henrique Adler, dono da fábrica de brinquedos Estrela, que mantinha uma galeria na empresa, com uma coleção de obras de artistas brasileiros. Em 1968 Nair o convenceu que suas formas já não tinham aquele vigor da juventude e que não queria mais posar nua. Mesmo assim ele continuou pintando a série "de Memória". Passou a desenhar e pintar girassóis e depois vieram novos modelos vivos. 

Desta data em diante Genaro e Nair  eram presenças constantes nos eventos sociais e culturais que se realizavam em Salvador e até mesmo em outras capitais. Era um casal colunável, como se dizia no jargão jornalista. Nesta época a sociedade baiana costumava promover encontros e festas memoráveis privês que eram registradas nas colunas sociais principalmente na de July, no jornal A Tarde. E sempre o casal Genaro e Nair da Carvalho era presença nas páginas dos jornais. 

                                                MORTE PRECOCE 

A última foto.
Em maio de 1970 Genaro de Carvalho foi internado na Clínica São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro por duas vezes portador que era de um aneurisma impossível de ser operado. Atualmente é quase uma operação corriqueira. Voltou para Salvador e aqui passou por outros tratamentos. Foi proibido de usar qualquer material que exalasse cheiro, passando a fazer diversos desenhos a lápis para as séries "Nus Femininos”, "Frutos" e "Flores". Abandonou suas idas para à Praça Municipal onde gostava de assistir ao pôr do Sol, sentado numa das cadeiras da Cubana onde tomava um "frapê" de coco e comia um bolinho da casa.  Não pintava mais  e fez suas últimas exposições em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, onde sentiu-se mal, e se recusou a ser internado outra vez. 
No sábado do dia 2 de julho de 1971, por volta das 10 horas da manhã, entrou em coma até dar seu   último suspiro.
 Portanto, este projeto de Nair de Carvalho é uma justa homenagem a este grande artista, que mesmo tendo falecido precocemente deixou uma obra memorável para ser apreciada e enaltecida pelas futuras gerações. O primeiro volume do " livro tombo" idealizado e narrado por Nair de Carvalho é rico em  detalhes interessantes e de muitas informações repletas de emoções. Ela mostra toda a trajetória do artista, seus amigos, suas inúmeras exposições aqui e fora do país, as pessoas importantes que se encantaram com o sua obra. Além de dezenas de reproduções cobrindo desde os primeiros desenhos até os últimos trabalhos, quando já estava debilitado. Vale a pena ler.

 

sábado, 2 de abril de 2022

A OBRA VIBRANTE E ECLÉTICA DE MÁRCIA MAGNO

Márcia na solenidade de entronização
do busto de Nelson Mandela feito por ela
em agosto de 1991.
A artista Márcia Magno tem uma capacidade de transitar em alguns dos principais segmentos das artes plásticas. Ela é gravadora, pintora e escultora. Atualmente é uma das mais requisitadas artistas na Bahia para fazer esculturas, bustos e baixos relevos de personalidades. Suas obras escultóricas estão se multiplicando a cada dia. Esta sua versatilidade vai nos mostrando a extensão do seu talento nato e sua capacidade de expressão que nos toca de perto. Lembro do colorido e das tramas de suas pipas, quando fez a sua exposição na Capela do Solar do Unhão. Recordo de suas pinturas geométricas centradas nos cubos, e mais recentemente nos apresenta esculturas que estão sendo colocadas em espaços públicos e privados  cumprindo vários papéis: o da homenagem às personalidades e também a oportunidade das pessoas apreciarem com mais liberdade. Oportunidade não só de ver  a obra de arte,  mas também de tocar  e até de fazer uma foto de recordação junto a uma dessas esculturas instaladas nesses espaços. Márcia é baiana de Salvador e foi batizada como Márcia de Azevedo Magno Baptista, filha de Edith Mendes de Aguiar Azevedo e Renato Olímpio Goes de Azevedo.

Esta é a série das primeiras gravuras
 da artista
.
As gravuras de Márcia nos revelam uma forte ligação com o afetivo, o suave e com sua personalidade artística marcante e identitária.  São formas geométricas habilmente construídas com uma transparência de cores refletidas num concretismo de objetos e formas destinados a um espaço natural. A combinação dos círculos e dos triângulos superpostos  resultam em formas quase naturais sugerindo uma beleza de emoção e sentimento do externo feminino, em contraste com a ordem, a elaboração das faixas de linhas retas  perfeitas e literalmente belas. 

A transparência das gravuras de Márcia têm um valor relevante, pela plasticidade implícita e pelo dimensionamento do espaço. A polivalência espacial e os acordes cromáticos tornam-se mais harmônicos pelas concordâncias de luminosidade e cromatismo. São persistentes e sugestivas impressões superpostas, a procura consciente e sensível de novos efeitos visuais.
Suas pipas ganham os céus de Salvador, as galerias e as casas das pessoas que as adquirem. Lembramos que as pipas são brincadeiras de garotos pobres que habitam os bairros populares da maioria das cidades brasileiras. Elas dançam nos espaços sob o comando de verdadeiros malabaristas. São meninos vivos, alegres e brincalhões que fazem os seus pegas onde as únicas vítimas são alguns metros de linha  e as arraias que se desprendem das mãos dos vencidos. Uma batalha portanto, onde vence  o mais hábil e aquele que tem uma linha melhor temperada. Foi exatamente dentro deste universo tão comum e belo, que a artista Márcia Magno foi encontrar o suporte que considerou adequado para realizar sua obra. 
Série onde a artista usou o computador
como ferramenta. 
Boa observadora encontrou ainda nas pipas os desenhos feitos sem 
muita pretensão por àqueles garotos humildes.
Procurou melhorar a geometria com o que aprendera na Escola de Belas Artes da Bahia e o chamamento do social que viveu na Faculdade Nacional de Filosofia, e na Escola Nacional de Belas Artes, ambas no Rio de Janeiro, foram suficientes para lhes dar o  conteúdo necessário e conceber uma obra interessante e acima de tudo vibrante. Suas gravuras ganharam força de expressividade  e logo depois foi uma das poucas selecionadas para participar do Salão Carioca  de Belas Artes , onde expôs  na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1980. Foi aluna e conviveu com importantes próceres da arte  e da intelectualidade carioca como Mário Barata, Eduardo Portela, Moema Toscano, Geraldo Edson de Andrade. Antes de vir para Salvador ainda morou uma temporada nos Estados Unidos e lá frequentou ateliers de artistas, sempre procurando aprender e desenvolver o seu talento.
Este belo mural está na instalado na Faculdade
 de Educação da UFBA.
Ela fez alguns murais importantes em Salvador sendo que três deles estão em locais frequentados por estudantes e professores. O que realizou como trabalho do seu Mestrado chamado Alquimia está na Faculdade de Química; um segundo na Faculdade de Educação e o terceiro no Pavilhão de Aulas da UFBA. Foi professora das disciplinas de Arte Mural, Xilogravura, Modelagem e Desenho, e diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia de 1988 a 1992. Neste período implantou e coordenou dos cursos de Desenho Industrial ( Design Gráfico) e o Curso Superior de Decoração (Design de Interiores), além de implantar o Mestrado de Artes. Coordenou a Galeria Cañizares onde realizou importantes exposições. Foi nesta época que promoveu como curadora as exposições Mulheres em Movimento I e II, mostrando a atuação das mulheres da Escola de Belas Artes  desde a sua fundação.  Promoveu ainda a primeira exposição sobre Arte Digital na Bahia chamada de Arte em Computação - Belas Artes Computer Grafics, em 1992.
A estátua de Zumbi no
 Terreiro de Jesus.
Atualmente, tem se dedicado a realizar esculturas, bustos e baixo relevos de personalidades baianas. Muitos dessas obras  estão nas ruas da Cidade como  os busto  de Dorival Caymmi, no final de linha de Itapoã; de Mãe Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, que está na Lagoa do Abaeté; de um dos fundadores do Ilê Ayê, o Apolônio, mais conhecido por Popó , que fica na sede da entidade no bairro do Curuzu;  O busto  de Nelson Mandela, Presidente da África do Sul; de Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá , além de baixos relevos do professor Thales de Azevedo, do construtor Norberto Odebrecht e  do jornalista Jorge Calmon. Fez ainda as estátuas de Zumbi dos Palmares, que está no Terreiro de Jesus; a do escritor  João Ubaldo Ribeiro, na praça Nossa Senhora da Luz, na Pituba , e a do professor Humberto Castro Lima, na reitoria da Fundação Baiana de Medicina, em Brotas. 
Agora está ultimando o busto   do geógrafo baiano Milton Santos, que foi homenageado recentemente com o nome da antiga Avenida Ademar de Barros, no bairro de Ondina, que passou a ser chamada de
Márcia e a filha Paula Magno com
a estátua de João Ubaldo Ribeiro.

Avenida Milton Santos. Este busto que está realizando será entronizado na avenida que recebeu o seu nome.  Certamente, muitas outras virão a ocupar outros espaços sob o buril desta artista  que nos encanta com suas formas, suas cores e muita criatividade. A cada escultura concluída vem aprimorando a sua técnica. 
Márcia Magno iniciou sua carreira artística no Rio de Janeiro onde frequentou a Escola Normal de Belas Artes e o Curso de Artes Decorativas. Ela me relatou que já estava ambientada com o movimento de artes do Rio de Janeiro e que tinha muitos contatos com artistas, críticos de artes e galeristas. Ao chegar a Salvador passou um tempinho até se adaptar e atualmente está completamente integrada . Ela ingressou na  Escola de Belas Artes onde se graduou e depois foi professora assistente e titular . No ano de  1988 foi nomeada Diretora. Foi durante sua gestão que foram criados os cursos de Desenho Industrial e o Curso Superior de Decoração, e o Mestrado em Artes.  Ensinou alguns anos nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia , que sempre foi um espaço importante para o aprendizado para muitos jovens e artistas iniciantes que frequentam as oficinas em busca de aprimoramento. Também já foi membro de vários júris de artes plásticas e  realizou muitas exposições individuais e coletivas aqui e em outros estados, tendo sido ainda premiada em alguns salões de arte . Nesta foto ao lado a artista Márcia com a filha Paula Magno que também é escultora e vem trabalhando com ela na  concepção de algumas esculturas. 


LIANE KATSUKI EXPONDO EM AMSTERDAM

Colar "Caminhos para o Encontro"
Com mais de trezentas exposições individuais e coletivas realizadas aqui e em vários países da Europa a baiana de Entre Rios Liane Katsuki vem se destacando internacionalmente a cada dia como designer de joias e escultora. Depois de concluir seu curso no  Brasil, na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia,  complementou seus estudos nas escolas de Belas Artes de Paris e Toulouse, na França. Em seguida buscando ampliar seus conhecimentos foi se especializar em   joalheria  em Toulouse, na França e em Emmen, na Holanda. Já teve seu trabalho reconhecido através de duas premiações importantes como o De Beers Diamond e o Tahitian Pearl Trophees, e trabalhou para importantes personalidades da moda a exemplo de Pierre Cardin.Tem esculturas de sua autoria espalhadas por alguns países da Europa  como França, Holanda, Espanha e também no Brasil. Já morou na França, Japão, Holanda e Espanha. Atualmente está residindo na Holanda. Agora está expondo suas joias na Art Fair, em Amsterdam, que é um centro importante de comercialização de joias e diamantes
Liane Katsuki na Art Fair em Amsterdam, na Holanda.
já vários séculos. Dizem os críticos de lá que as joias de Liane Katsuki apresentam características especiais com sua linguagem única  e sempre fiel à qualidade dos materiais que utiliza como também explora todas as possibilidades que esses materiais oferecem. Ela tem um conceito que transita entre a ortodoxia do novo  classicismo e a modernidade. Suas joias são proporcionais, harmônicas, modulares e totalmente integradas com a natureza. Suas  joias têm  outra característica é que elas se relacionam e se complementam entre si .Tudo isto é resultado de muito estudo, muitas horas dedicadas às suas joias que lhe permitem hoje o domínio dos materiais combinando elementos diferentes, criando volumes leves dando uma visão tridimensional. 
Escultura em bronze "Encontros".
 Falando sobre sua arte a artista baiana Liane Katsuki disse " que o artista é um precursor do seu tempo, do seu momento histórico e social. Como tal, ele se sente responsável ante seus contemporâneos e sobre si  mesmo. A coerência do  seu trabalho e sua criatividade não podem estar dissociados da sua visão de mundo.
Tem como missão a verdade, caminhando em linha reta e em solidariedade. Não se curva diante das dificuldades e dos atalhos. Diante dos desafios do triunfo ou do fracasso tem que colocar seus princípios fundamentais. Meu trabalho está pensado e criado com emoção e equilíbrio. Alma e corpo, coração e razão. Não me permito deslizes técnicos. Por isto busco a perfeição dentro da linguagem mais pura da técnica, respeitando e domando os materiais que me permitem exteriorizar minha mensagem interior".

quinta-feira, 17 de março de 2022

AS HISTÓRIAS PLÁSTICAS DE MURILO RIBEIRO

Vemos ai no dia da abertura da exposição o artista Murilo
Ribeiro recebendo convidados e verbalizando suas histórias.
 Estive visitando a exposição de Murilo Ribeiro que está até o dia 16 de abril no Museu de Arte da Bahia, que fica no Corredor da Vitória. São 59 telas em óleo sobre tela que ele produziu durante a pandemia aproveitando a reclusão forçada para pesquisar os grandes mestres da pintura e até da Literatura.Em seguida partiu para pintar suas obras utilizando uma técnica apurada superpondo leves camadas de tintas que deu um resultado muito bom e uma unidade nas cores e nas formas no conjunto das obras expostas. O artista assumiu a postura de um contador de histórias criando narrativas através das figuras que foi desenhando e pintando, e também nas situações que os envolve. Realmente é um jogo entre a fantasia e a realidade, como que brincando de um teatro que navega nos universos  da comédia e do drama. Os personagens criados ou imaginados por Murilo Ribeiro surgem dentro deste clima de camadas de tintas  dando  um ar mais adequado ao tempo em que viveram neste mundo.  Ele conseguiu elaborar  uma pintura fosca através um verniz que acrescentou após pintar suas telas a óleo. Desde 2008 que Murilo Ribeiro  não expunha suas obras sendo que esta  exposição foi realizada  no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal. Faz questão de afirmar que suas pinturas atuais não são ilustrações, as imagens que pintou traduzem as histórias que queria contar. São histórias que surgiram dentro de sua liberdade criativa, quase não tem nada a ver com as pinturas ou livros onde foi buscar sua inspiração. Foram apenas simples referências. Esta busca foi  um start para daí começar a criar  suas próprias histórias, embora os personagens possam estar numa obra de um grande pintor clássico ou moderno e na Literatura. Murilo Ribeiro pintou cento e quatro  telas, mas o espaço do Museu de Arte da Bahia só lhe permitiu expor 59 obras , e ele pretende ainda levá-las para expor em Atlanta, onde reside sua única filha, e  também em outra galeria em São Paulo. Com suas leituras e pesquisas, inclusive nas redes sociais ele criou uma pléiade de personagens e situações que passou a desenvolver nas telas. Notamos que as obras têm espaços escuros, cores mais densas e variados tons superpostos.

                                    ALGUMAS DAS HISTÓRIAS PINTADAS  PELO ARTISTA

"A chegada de Vincent em Paris", cidade que gostava muito.

O artista Vincent van Gogh já tinha feito algumas viagens à Paris quando trabalhava na galeria de seu tio dos 16 aos 27 anos , porém em fevereiro de 1886 voltou sem avisar ao seu irmão Theo, e depois pediu desculpas por não te-lo avisado. Nesta sua viagem conheceu obras de pintores impressionistas que haviam deixado de lado seus ateliers e passaram a pintar em parques, ruas, bosques e a vida cotidiana  em busca de mais luminosidade e cores. Com isto mudou sua forma de pintar que vinha realizando na Holanda basicamente inspirado em cenas de bares, no campo com os trabalhadores rurais utilizando cores mais escuras. Desta vez ele permaneceu dois anos em Paris, e certo dia  teria se manifestado assim: "Paris é Paris, só há uma Paris. E por mais dura a vida aqui possa estar, e mesmo se ficasse ainda pior e mais dura, o ar francês  mantém lúcido o espírito e faz-nos bem, infnitamente bem!". O Museu de d´Orsay tem mais de 2 mil esculturas e obras dos impressionistas e pontilhistas franceses e de outros países. Vincent  van Gogh tem  lá muitas obas  expostas atualmente. Obras que ele fez nos arredores, parques e nas ruas de Paris. E o Murilo Ribeiro criou uma história desta  viagem de Vincent à Paris que reproduzo uma foto do sua tela feita em acrílica. 

"A Ovelha Negra ", obra em óleo sobre tela.
Outra história contada por Murilo através de sua arte é o da Ovelha Negra baseada  na fábula criada
pelo escritor hondurenho Augusto Monterroso, que residiu na Nicarágua alguns anos e depois no México. Dizem que ele reinventou este gênero literário criando várias fábulas . No livro "A Ovelha Negra e outras fábulas", estão reunidas 40 delas. São curtas e cheias de metáforas e ironias que nos levam a refletir sobre várias situações vivenciadas pelo homem . Reflexões que tratam da condição humana,da  injustiça social,  política, inveja, vaidade,vergonha, orgulho, amor e ódio, perdão. Enfim, das situações criadas pelo ser humano. O curioso é que ele sempre escolhia um animal como seu personagem para expressar o que pretendia.  Esta fábula da Ovelha Negra que Murilo escolheu para criar sua história plástica  trata de um homem honesto que resolveu mudar para um certo povoado e lá passou a viver. Os moradores costumavam  roubar uns aos outros, e assim mantinham o equilíbrio do lugar. Acontece que o novo morador dificilmente saía e como sua casa não podia ser roubada por ele estar sempre presente provocou um desequilíbrio.O novo morador passou a não ser desprezado e hostilizado. Na fábula de Moterroso  a ovelha ficou triste e saiu pelo bosque onde terminou adormecendo. Quando acordou estava branca igual as demais . Tem outros detalhes da fábula, mas o objetivo é falar sobre a importância da honestidade. Vale a pena ler as fábulas do Monterroso.
"A Chegada dos Pintores Venezianos àToledo", na Espanha.
A
qui Murilo representou dentro de sua visão "A Chegada dos Pintores Venezianos à Toledo", na Espanha. Sabemos  El Grecco que era natural da ilha de Creta, que na época pertencia ao principado de Veneza. Ele morou em Veneza  onde trabalhava como pintor e arquiteto , e em seguida foi para Toledo , e aí pintou grande parte de suas obras. Chamava-se Doménikos Theotokópoulos e assinava suas obras com este nome original.
Outro que migrou foi Tintoretto, nascido em Veneza em 1518 batizado como  Giovanni Battista Robusti levou o apelido de Tintoretto porque seu pai tinha uma lavanderia e tinturaria. Era também chamado de O Furioso devido suas obras apresentarem dramaticidade e efeitos de luz. Foi um dos precursores do barroco. Outros pintores também migraram para Toledo , mas vamos ficar por aqui.
O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 2018, num domingo à noite,  foi  uma tragédia anunciada porque toda a comunidade intelectual sabia da precariedade de suas instalações marcadas pela falta de uma manutenção adequada por parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época o reitor era Roberto Lehrer, um militante de esquerda conhecido. Já haviam sido publicadas na imprensa fotos mostrando as gambiarras dentro das dependências do Museu e os recursos empregados na sua manutenção eram insuficentes, embora o governo de então, e os  ministros  da Educação e da Cultura soubessem que ali estavam guardadas e expostas 20 milhões de peças que eram parte da História do nosso país.
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu".
 Hoje técnicos estão trabalhando na recuperação ou reconstituição de peças danificadas pelo fogo. Milhares de outras foram perdidas entre elas o fóssil de Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado.Calcula-se a idade em 11 mil anos. A metade do acervo do museu foi consumida pelo fogo.
As chamas começaram depois das 19 horas quando foram encerradas as visitas. Haviam apenas quatro vigilantes de plantão e o fogo foi  intenso e se alastrou rapidamente porque havia muita madeira na composição do prédio e também objetos de fácil combustão. Por isto,  praticamente a ação dos bombeiros não surtiu o efeito esperado. Os bombeiros ainda tiveram dificuldades para utilizar a água para apagar o fogo. 
O museu foi criado em 1818 por D. João VI e tinha completado 200 anos de existência. Foi neste prédio que a princesa Leopoldina , casada com d. Pedro I, assinou  a Declaração de Independência do Brasil, em 1822. Anos depois foi palco da primeira Assembleia  Constituinte da República nos anos 1890/91, marcando o fim do Império no Brasil.
Sensibilizado com esta tragédia Murilo Ribeiro pintou 
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu". Realmente os administradores fantasmas não foram competentes e diligentes a ponto de evitar que esta tragédia destruisse grande parte da cultura e da História de nosso país com o desaparecimento de milhares de peças colecionadas e guardadas através dos duzentos anos. 
"Assédio"e o abuso no universo do politicamente correto.
 Ele também tratou em sua exposição de um assunto que hoje está presente nos noticiários dos telejornais, nos jornais impressos, nos rádios e redes sociais que é o exagero do politicamente corrreto que transformou uma simples paquera em assédio sexual. Agora temos assédio moral, assédio disto e daquilo inibindo o relacionamento saudável entre as pessoas.
Diz o Dicionário que o " assédio pode ser configurado como condutas abusivas exaradas por meio de palavras, comportamentos, atos, gestos, escritos que podem trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo o seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho." E chegam a classificar os tipos de assédio moral,sexual e virtual.  O assédio moral ocorre com a exposição de uma pessoa a situações de constrangimento, humilhação e perseguição de forma contínua e prolongada. 2. Agressões psicológicas. O assédio psicológico é uma violência emocional. ...
  • 3.Assédio sexual está tipificado no Artigo 216-A do Código Penal — constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício do emprego, cargo ou função. Pena: detenção de 1(um) a 2 (dois) anos. 4. Assédio virtual, onde as tecnologias de informação e comunicação, como  as redes sociais, são utilizadas como ferramentas para importunar, intimidar, perseguir, ofender ou hostilizar alguém.Portanto, hoje é preciso ter muito cuidado ao abordar alguém numa paquera e tornou-se perigoso insistir num amor não correspondido à primeira vista porque você pode ser enquadrado num dispositivo legal. 
  • NR- Quero agradecer a jornalista Cleide Nunes e ao fotógrafo Fernando Barbosa, da Ascom,  do Museu de Arte da Bahia, pelas fotos que publico ilustrando este texto.