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terça-feira, 11 de maio de 2021

NOVO ÁLBUM DE SÉRGIO RABINOVITZ

Capa do álbum "A Vida Secreta das Plantas."
O
artista Sérgio Rabinovitz acaba de lançar seu   terceiro álbum de monotipias "A Vida Secreta   das Plantas", editado pela Editora  Resiliente  com   10 monotipias  de 18 x 24 cm em papel   Canson de   300g, mantendo assim o seu compromisso de   semestralmente criar novas  obras  e apresentá-las     na  forma de álbuns. Elas podem ser adquiridas  ao   preço de R$450,00 a  unidade.
O primeiro álbum   intitulado   Resilientes já  está esgotado e surgiu   logo no   princípio da   epidemia no ano   passado,   atendendo uma sugestão do escultor Israel kislansky. Foram produzidas  várias obras de autoria de Israel Kislansky, Sérgio Rabinovitz, Bel  Borba , dentre   outros , e o resultado das vendas doardo às pessoas mais necessitadas. As monotipias de Sérgio Rabinovitz foram vendidas as R350 cada. 
Eles tiveram  a preocupação de evitar divulgação ampla para não parecer que estariam usando esta ação
O álbum Paz  foi um sucesso

de solidariedade para se promover. O importante é que todos eles foram imbuídos da melhor das intenções. Daqui quero mandar um abraço solidário para esses artistas, e  em especial ao Israel Kislansky, que teve esta ideia do projeto.  Faço este registro para que pessoas de outras categorias profissionais e mesmo mais  artistas possam ser tocados da necessidade de sermos solidários neste momento desta terrível pandemia que já ceifou milhares  de vidas, empresas e empregos.
Voltando ao trabalho de Sérgio Rabinovitz  ele verificou que devido a receptividade alcançada com Resiliente resolveu produzir  mais dois álbuns temáticos o PAZ e A Vida Secreta das Plantas. Disse o artista que "a partir de então um sonho se transformou em realidade", e que o sucesso do primeiro álbum o animou a prosseguir,a seguir em frente com o resgate da acessibilidade, premisssa fundamental da gravura desde os seus primórdios."
Uma das monotipias integrantes do álbum  
"Resilientes"
 Ai veio o segundo álbum que ele se expressou dizendo "Celebro esse momento transmitindo minha   mensagem de PAZ, através  desse  catálogo limitado   que reúne 11 monotipias de  18 x 24 cm em papel   canson de 300 g, por um valor promocional de   R$380,00 cada." Em pouco tempo este catálogo   também se esgotou. 
 Foi um trabalho próprio do   artista, sem o objetivo de doação.Falando sobre o   álbum mais recente " A Vida Secreta das Plantas"   Sérgio  lembra que "vivemos em um mundo cada   vez mais carente de ressignificação . Esses lindos   seres de pura beleza e sensibilidade e de universal   inteligência quântica, têm muito a nos ensinar.   Tenho  nelas , mais que inspiração permanente, conselheiras e confidentes, na cumplicidade de estórias de que me atrevo a compartilhar  com um convite para que viaje comigo nessa breve jornada de pura emoção !" 
Portanto, o convite está feito, e só nos resta apreciar a beleza dessas dez novas monotipias onde a natureza mostra mais uma vez a sua beleza e grandeza. Como sou um viciado em plantar, e cultivo com muito zelo e carinho uma pequenina mancha de Mata Atlãntica intacta  fico muito à vontade para apreciar mais este trabalho de alta qualidade do Sérgio Rabinovitz baseado nas plantas.Ele passou mais de um mês criando este álbum  trabalhando sózinho,  como ele mesmo revelou "com uma colher de pau na mão,  para poder   oferecer esse trabalho a preço acessível , dentro do espírito da gravura."  

                                              A TÉCNICA USADA 
Sérgio trabalhando em 
suas monotipias.
"A monotipia teve origem no século 17, com Giovanni Benedetto Castiglione  que nasceu em 1616 e morreu em 1670Sabemos que a  reprodução permite maior acesso desde os tempos longínquos  da   Idade  Média, quando foi criada e se notabilizou com a descoberta da  prensa de  Gutemberg. 
Como estamos numa plataforma digitial é sempre bom falar sobre esta  técnica da monotipia, que é simples e  utilizada por muitos artistas  importantes como Degas, dentre outros, e  resulta em belas e valiosas  obras. Para sua confecção são usadas tintas de gráfica ou outras de  secagem lenta à base de óleo. 
Como base pode ser utilizada uma placa de acrílico, fórmica,vidro ou  outro material liso. Aplicando uma camada de tinta sobre a placa com um  rolo usado em xilogravura ou em gráficas você vai distribuindo a tinta  para ficar com uma camada mais ou menos uniforme. Depois coloca o  papel em cima e faz o desenho que desejar com um lápis ou outro objeto  ponteagudo. Ao retirar o papel a imagem estará impressa  e a monotipia  estará pronta.Portanto, a imagem aparece impressa no lado oposto do  papel. Esta imagem evidente que não será totalmente fiel ao desenho  original , porque na passagem para o papel, no momento da impressão, as  tintas se misturam e surgem efeitos imprevisíveis.
 Esta é a monotipia monocromática, de um só cor. Se quiser com cores  variadas na mesma monotipia terá que espalhar cada cor numa placa diferente, e vai mudando o papel de uma para outra placa, e acrescendo novos traços ou decalques. Só a prática lhe dará resultados mais  satisfatórios e sofisticados. Tudo dependerá da sensibilidade, habilidade e da capacidade criativa de cada um.  

quinta-feira, 6 de maio de 2021

JOVENS EXPRESSAM SUAS VIDAS NA PERIFERIA

 Nícholas de Jesus ,as professoras Maria das
Graças e Iolanda Bonfim , e Rafael Silva.
Jovens estudantes do Colégio Cosme de   Farias,  localizado no bairro do mesmo nome, foram   incentivados por sua professora de Arte, Iolanda   Bonfim França, durante o período que lá estudaram   a expressar através das artes as suas vivências na   escola e no bairro onde moram. O resultado foi   surpreendente porque jovens que não tinham   manejado com frequência os pincéis e as tintas   conseguiram dentro de suas limitações  de informações técnicas  e habilidades passar para as telas, e o papel aquilo que aprenderam e vivienciam no seu dia-a-dia .
Eles participaram do Projeto Artes Visuais  Estudantis com alunos de outras escolas públicas  que  objetiva desenvolver a linguagem artística entre estudantes da rede estadual de ensino. É uma experiência que merece apoio de todos que gostam de arte. Alguns se expressaram através da música, outros escrevendo poesias, contos, e  da pintura. As professoras ficaram muito impressionadas com a disposição dos jovens em querer expressar todas as dificuldades e as
Nícholas com  sua obra .
.
 alegrias que compartilham diariamente com seus professores, colegas e familiares. Todos têm consciência que é preciso estudar para vencer as barreiras da pobreza, e acreditam que só o estudo é capaz de lhes abrir portas para galgar melhores condições de vida no futuro. 
A professora Iolanda Bonfim enaltece a sensibilidade de muitos dos alunos que mesmo morando num bairro periférico não perderam sua capacidade de criar .Ela falou da triste realidade onde alguns alunos já foram assassinados e um pequeno grupo anda metido em coisas erradas. Mas, a maioria é de jovens que estuda e procura vencer os obstáculos das moradias ruins, do ambiente em que vivem , enfim da pobreza. Portanto, dentro dentro desta realidade as obras criadas pelos   estudantes-artistas enfocam problemas como a 
Rafael com a obra 
"Inocência Ferida".
fome, violência,  pobreza, a moradia deficiente, falta de   saneamento básico  e outros aspectos sociais e econômicos. 
O estudante Nícholas de   Jesus Nunes,  de 22 anos,  pintou a obra "Fome de Quê," mostrando   um jovem esquelético  sentado na mesa com uma faca e garfo e uma bola de futebol no prato. Para ele só através a   educação que é possível vencer os   muitos  obstáculos que tem   encontrado pela frente. Hoje ele é bolsista do ProUne   e  está   cursando  o 5º semestre na Faculdade de Direito da Universidade   Católica   de  Salvador e estagiando na Advocacia Geral da União, em   Salvador. 
 Já Rafael Silva Arcanjo, de 21 anos, concluiu o curso médio na Escola   Cosme
de   Farias, e considerou sua participação no Projeto " muito   importante e minha pintura   é baseada nos meninos do bairro." 
Obra "Fome de Quê?",de 
Nicholas Nunes 
Pedi a   cada um deles que fizesse um depoimento   sobre sua visão de mundo e  o que expressam em suas pinturas. 
Veja o depoimento   do  Rafael Silva :
 A realidade da   favela é um pouco   mais complexa  comparada a  de um bairro nobre. Nas escolas  municipais e estaduais, cada   oportunidade é  como  uma moeda de ouro recebida de um rei,  precisamos  apenas saber  onde usar e como usar. Na escola  onde  estudava tinha um projeto  chamado  AVE  que  significa Artes Visuais  Estudantis. Em meio a  tantas  dificuldades  recebi a oportunidade de  participar  desse projeto .  Ano após ano  tentava, eu sentia que  a cada  ano que passava  estava mais  perto de  conseguir algo inacreditável. Mas, infelizmente a  realidade  sempre foi cruel para o povo favelado, e a  cada ano que eu não  conseguia,  pensava  em  desistir. Porém,  quando estava triste  aparecia  um  anjo, ou melhor uma professora, que sempre  incentivava,  aquilo era revigorante. Até o 2º ano do  ensino médio  não havia chegado tão longe com meu quadro chamado "Igualdade? Se Existe, Cadê?". Mesmo assim não foi o suficiente,  cada pensamento era que  ainda teria mais uma chance. No meu 3º ano do ensino médio pensei que chegara a hora de colocar na tela tudo que  via, ouvia, sentia, tudo   que  tinha 
Rafael  apresenta a 
realidade das   moradias,
a violência e a fome.
passado, todas as pessoas que  havia   perdido,  tinha que mostrar tudo. Naquele ano chorei   pensei nas mortes e na minha própria morte , pensei   em cada motivo que me mantinha de pé , em cada,   professora que tanto havia me apoiado e incentivado     não apenas as professoras de Artes, mas de todas   as  matérias, que faziam questão de estar ali comigo   e   toda a equipe . Elas foram e são tão incríveis que   então consegui recriar tudo aquilo em uma tela com   tinta e pincel, fiz o quadro chamado "Inocência   Ferida".Cada professor que tive me mostrou que   todos   temos capacidades só precisamos nos   aceitar".   Meu nome é Rafael Silva Arcanjo,    tenho 21 anos .
Nicholas mostrando a fome
pelos livros.
Já em seu depoimento Nícholas de Jesus Nunes, de   22 anos,  escreveu "enquanto outros jovens estavam   se perdendo na rua ou recebendo o resultado triste da   falta de apoio, estive em momentos reservados  do   turno matutino, entretido no projeto Artes Visuais   Estudantis - AVE. Mas, não era aapenas esse, pois tivemos, enquanto alunos, a oportunidade de desenvolver  outras atividades como poesia, dança,canto, etc. Porém,  foi na pintura de quadros, desde releituras a expressão  crítica do pensamento , que pude notar e me situar meu lugar no mundo". E continuou " Portanto, a educação sóciocultural é sem dúvidas a maneira necessária e o professor é o instrumento de mediação que ajuda o aluno a construir o pilar e sua ferramenta de emancipação".




domingo, 2 de maio de 2021

NEWTON SILVA O MESTRE DO DESENHO E DA PINTURA DE INTERIORES

Newton Silva
O professor e artista plástico Newton Raymundo da Silva foi um dos mais destacados no seu ofício de desenhar e pintar temas religiosos, e também cenas de ruas , feiras livres, mendigos,  velhos e crianças em nossa Bahia. Ele foi  um dos últimos expoentes baianos da pintura realista acadêmica .  Sua produção pode ser dividida para fins de melhor compreensão de sua trajetória em três momentos. Primeiro, ele começou a pintar marinhas, feiras e ruas. Depois focou na temática social com muitos desenhos de mendigos, velhos, crianças , e finalmente os temas religiosos,  onde surgem obras  retratando os templos com seus múltiplos elementos e nuances de cores e luzes.  No seu livro "Newton  Silva - A Construção do Traço e da Luz" , escrito pela professora Elizabeth Maia Fernandes, em 1995, ela  registrou que a maior dificuldade encontrada pelo artista foi pintar a Catedral Basílica ou "igreja dos Jesuítas", como ele chamava. "A Catedral sempre me desafiou , pela sua austeridade, grandiosidade e elegância, devido a seu avantajado pé direito. Também, o fato de não existir muita coisa em pintura ou desenho sobre a mesma, foram os motivos que me levaram a ter por ela uma certa predileção".
Certo dia, que não lembro a data, alguém me levou para conhecer uma coleção de obras do artista que um colecionador tinha num prédio localizado no Jardim dos Namorados. O colecionador era o médico Fernando Spínola, dono do Hotel Paulus. Ele construiu um
Newton Silva com seu mestre Presciliano Silva.
 prédio ao lado que transformou num museu particular. Possuía na época em que visitei mais de 150 obras do mestre Newton Silva,  onde pude ver uma bela Via Sacra, e obras retratando as sacristias, claustros, naves e fachadas dos principais templos barrocos de nossa Salvador. Ocupava quase todo o primeiro andar com as obras que   ele  se dispôs a colecionar em tamanhos grandes . Nilton Raymundo Silva ou Newton Silva, como o conhecemos .Com o falecimento do Fernando Spínola a família vendeu as obras , dizem que a preços abaixo do mercado, e atualmente estão espalhadas por galerias e colecionadores particulares . A informação que tenho é que a viúva não gostava de obras de arte,  talvez até devido a  compulsão do esposo em adquirir muitas obras de um mesmo artista . No alto uma foto do mestre  que não gostava muito de ser fotografado.

Desenho "Portaria da Igreja de São
Francisco - Hora do Almoço".
O artista  nasceu em 1918 e concluiu seu curso de pintura na Escola de Belas Artes em 1939, e já em 1942 ocupa o cargo de Assistente da Cadeira de Desenho de Modelo na própria Escola. Neste período recebeu o prêmio Legado de Caminhoá. Em 1954 ganha um Prêmio de Viagem para o Rio de Janeiro no IV Salão Bahiano de Belas Artes, e presta concurso para Livre Docente da cadeira de Desenho Artístico, sendo nomeado por Getúlio Vargas. Ganha outros prêmios e realiza várias exposições sendo a última em 1995 na Galeria Cañizares. Aos 77 anos de idade ainda estava em atividade e declarou numa entrevista que "Há 50 anos que venho lutando para fazer uma coisa tolerável. Acho que consegui, mas sei que ainda é pouco. Esta minha ansiedade à pintura, à arte acadêmica , à arte de modo geral é um pouco ingrata. Ela reclama muita coisa , o artista precisa de muito estudo, de dedicação, de entusiasmo, para conseguir ir em frente. Não acredito em sensibilidade. O artista é sensível quando ele sabe executar. Não cheguei ainda à minha maturidade. Entrou na Escola de Belas Artes , juntamente com Mendonça Filho que foi ser  Diretor, e em companhia dos artistas considerados na época realistas entre eles Jair Brandão e Emídio Magalhães. Foi um discípulo muito ligado ao mestre Presciliano Silva, e chegou a pintar em seu atelier no  Boulevard Suiço, no bairro de Nazaré. Ele era uma espécie de assistente e fazia  muitos desenhos que depois eram pintados pelo seu mestre Presciliano Silva. Suas obras tem um rico detalhamento, o jogo de luz e sombra, a perspectiva bem definida. Enfim, são obras dignas de serem apreciadas e perpetuadas.

Frade rezando na igreja de São Francisco.
Consta que o Presciliano costumava chamar alguns alunos de mais talento ou mesmo àqueles que enfrentavam alguma dificuldade para adquirir materiais para pintar  e com eles ficava pintando e repassando seus ensinamentos. A compra de materiais naquela época era custosa porque as tintas, pincéis, lápis e papéis de qualidade eram  importados e custavam caro. Aos que não podiam comprar ele cedia com discrição e muito boa vontade. Todos sabem que o atelier de Presciliano era um espaço aberto e que ele recebia visitantes e clientes com tranquilidade. Nos Salões das Letras e  Artes , conhecidos como os Salões da Ala, que eram realizados em Salvador por Carlos Chiacchio anualmente, quase sempre na primavera, durante os anos 1937 a 1948 o Newton Silva participou de alguns deles.  Embora muitos artistas continuassem apresentando suas obras clássicas alguns  já mostravam os caminhos da Arte Moderna na Bahia.  Entre eles Newton Silva, Jair Brandão, Diógenes Rebouças, Carl Brussel, Abrahão Kosminsky e Célia Calmon. O próprio Carlos Chiacchio não aderiu logo ao modernismo que chegou a dizer que eram "deformações à reação aos valores tradicionais". Natural este tipo de reação dentro do contexto da época. 

Óleo sobre tela "Refeitório da Igreja de 
São Francisco."

NO ATELIER DO MESTRE

No dia 28 de maio de 1990 escrevi um artigo sobre uma visita que fiz ao atelier do professor Newton Silva, que funcionava na rua ao lado do Fórum Rui Barbosa, no Campo da Pólvora ,  com o título "Mestre Newton Silva expõe após 12 anos de ausência". Vejam : "Invadi o sossego do mestre. Exatamente foi esta a sensação que senti ao entrar no atelier do mestre Newton Silva que aos 74 anos de idade continua pintando sem parar. Calmo e meticuloso ele vai construindo o seu mundo pictórico onde surgem os belos tetos das sacristias  e outros interiores de nossas igrejas. Uma pintura imorredoura, dessas que atravessam os séculos e  causam espanto e admiração pela sua grandiosidade, pela técnica, pelo conhecimento da perspectiva e composição. Uma pintura que poucos eleitos conseguem realizar, e, para nossa felicidade, temos na Bahia uma dessas figuras raras que, isolado no seu atelier , na Rua do Tingui, assiste do alto da sua majestade o tempo passar. O que lhe interessa são os interiores ricos de elementos plásticos, onde guarda os segredos do passado.

Desenho " Mendigos nº 3 " , sem data
Quando digo que ele trabalha sem pressa é porque os grandes artistas sempre acham que suas obras estão inacabadas . A cada olhar têm sempre algo a modificar . Isto é fruto de uma auto crítica rígida , onde todos os elementos  que compõem as suas obras são refletidos com muito vagar. E o mestre Newton Silva na sua simplicidade vai inserindo ou retirando elementos até que a obra seja levada por um colecionador mais apressado. Fico realmente sem entender é como uma obra tão importante não recebia dos órgãos responsáveis por nossa cultura uma atenção especial. Não posso entender porque muita gente não conhece o seu trabalho , a sua dedicação pela arte, a sua visão plástica, a sinceridade com que desempenha o seu papel em registrar na tela a riqueza dos nossos templos tão ricos! 
Newton Silva pintando. Esta foto rara
foi feita por um parente sem ele ver.

Aposentado como professor de Desenho das Escolas de Belas Artes e depois Arquitetura , agora pode dedicar-se com mais intensidade à sua arte. Já está preparando uma exposição de seus quadros .Será uma oportunidade ímpar dos jovens artistas , dos que gostam de arte de conhecerem um pouco mais da arte de Newton Silva. A última exposição que fez foi em 1970, em Brasília . De lá para cá ficou  produzindo e vendendo tudo que fazia a colecionadores. O artista era irmão do jurista Adhemar Raymundo da Silva, que foi professor da Faculdade de Direito da Ufba e ministro do Superior Tribunal de Justiça - STJ, era mestre em Direito Penal e Direito Processual Penal. Adhemar tinha um temperamento hiperativo, enquanto Newton era calmo, paciente. Podemos dizer que tinham temperamentos opostos, no sentido de um ser muito ativo e o outro mais tranquilo. Seu filho Marcelo Silva conta  que ele foi o modelo de Cristo na Via Sacra que estava no museu particular de Fernando Spínola. A sua mãe fez uma roupa  especial que vestiu e ficava posando  para o pai . Lembra que na época tinha o cabelo grande e era jovem . "Ai perguntei ao meu pai: sou eu que vou posar de Cristo vestindo esta roupa?  Daí ele respondeu : É você mesmo! Então fiquei várias horas, em dias alternados posando, e ele pintando ". 

Obra que seu filho readquiriu, 
retratando crianças.
Outra história que  recorda  é que o pai pintou um quadro com várias crianças quando ele tinha por volta de uns sete anos. Acompanhou desde o desenho a todas as fases subsequentes até que o quadro ficou pronto. O pai colocou na parede ,e Marcelo  criou um relacionamento emocional com a obra, apesar da pouca idade. Tempos depois o pai disse que ia vender a tela e vendeu. Marcelo revela  que até chorou. E que seu pai o aconselhou a não se apegar a uma obra de arte, e "profetizou":  um dia você poderá ainda encontrar este quadro. Já adulto, reencontrou o quadro na Galeria da Barra, e o adquiriu de volta, o qual  guarda com muito carinho. "Este trabalho não me escapa mais. É feito sobre uma placa de Eucatex e gosto muito", me disse Marcelo , emocionado. Ele  tem ainda uma coleção importante de desenhos do pai. Já tentaram comprar , mas até agora  se nega a vender. Todos sabem que Newton Silva era um mestre no desenho .
No livro  Elizabeth Maia Fernandes  traça alguns aspectos da vida do mestre, e ressalta no prefácio o bom humor e a paciência com que era recebida todas às vezes que o procurava para colher dados para seu livro. Isto foi nos idos de 1995,  e o professor já estava com 77 anos de idade, e em plena atividade. Ele veio a falecer em 1997,  dois anos depois aos 79 anos de idade.

EXPOSIÇÕES  E PRÊMIOS

O artista  Newton Silva formou-se em 1946 em engenharia civil e passou a ensinar em 1949 na Universidade Federal da Bahia como professor Assistente,  da Escola de Belas Artes .  Fez concurso para professor Catedrático em 1964, permanecendo ensinando até sua aposentadoria em 1968. Nasceu em 1918 e faleceu em 1971.

Em 1950 – Salão Bahiano de Belas Artes – Medalha de Bronze, Salvador-Ba ; 1954 – Salão Bahiano de Belas Artes, Prêmio Viagem ao Rio de Janeiro, Categoria Pintura, Salvador-Ba ; 1959 – Salão Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, Medalha de Bronze, Categoria Desenho; 1963 – Exposição individual na Galeria Querino, no Rio de Janeiro; 1968 – Exposição Individual na Panorama Galeria de Arte, Salvador-BA; 1978 – Exposição Individual no Palácio Buriti, em Brasília -DF; 1993 – Exposição Individual na Galeria Roberto Alban, Salvador-Ba; 1995 – Exposição Coletiva na Galeria Cañizares, Salvador-Ba; Exposição Coletiva no Museu de Arte Sacra, Salvador-Ba. 















atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de
todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2
atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de

todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2
A comunicação exterior - interior do
atelier de Presciliano não se fazia apenas
no plano do trabalho artístico, repetiu-se
nas relações interpessoais, recebia amigos,
clientes, vizinhos e raramente alunos. Selecionou aqueles alunos em que percebia
talento especial como Emídio Magalhães, Diógenes Rebouças, Humberto Peixoto,
Jacyra Oswald, Raimundo Newton da Silva, Carlos Augusto Bandeira, que se tornaram
professores da universidade, e ainda Colete Pujol19.
A professora da Escola de Belas Artes da UFBA, Odete Valente lembrou que Presciliano
“convidava os alunos mais pobres para irem ao seu atelier, dava-lhes tintas, pincéis,
telas, tudo isto discretamente. As tintas eram estrangeiras, coisa aliás que exigia de
todos nós. Só sabíamos de sua generosidade pelos próprios beneficiados”.2

quarta-feira, 28 de abril de 2021

IVAN LOPES O PINTOR DO SILÊNCIO NOS CONVENTOS BAIANOS

Autorretrato do pintor Ivan Lopes aos
23 anos de idad
e.
O
pintor Ivan Lopes não viveu nestes tempos de comunicação instantânea e de múltiplas plataformas. Sua trajetória como pintor está ligada ao silêncio dos claustros, das naves e sacristias das igrejas  mosteiros e conventos barrocos de nossa Bahia. Era no silêncio sentado num banco, e no seu cavalete ele colocava uma tela e pacientemente ia transferindo os detalhes dos azulejos, das imagens e dos  grandiosos altares com suas belas colunas. Viveu e produziu sem muita divulgação de sua obra, que agora tento com dificuldade resgatar para que fique registrada para as futuras gerações.      Nasceu em Salvador no dia 15 de fevereiro de 1934,  e começou seu contato com a arte posando como modelo na então Escola de Belas Artes, que funcionava num belo casarão na rua 28 de setembro. Vendo seu interesse pelas artes o mestre Alberto Valença o incentivou a estudar , onde veio a concluir o Curso Livre de Pintura , e teve como professores Raimundo Aguiar, Alberto Valença e Emídio Magalhães. Lhe ofereceram outra oportunidade, e foi aprender restauração com o mestre João José Rescála e Liana Silveira. Seu aprendizado deu-se na restauração do acervo da Igreja de Santa Teresa que depois se transformaria no Museu de Arte Sacra, da Universidade Federal da Bahia. 
Vemos uma visão do interior da igreja de
São Francisco, em Salvador.
Ele participou do V e do VI Salão Baiano  de Belas Artes, em 1955 e 1956, realizou  exposições  individuais em 1968 e outra em 1978, e de coletivas na Galeria Panorama nos anos 1967 e 1969. Era um dos restauradores oficiais do Museu de Arte Sacra , da Universidade Federal da Bahia. Pintou com maestria os santuários mais importantes da Bahia como o igreja de São Francisco, o convento de Santa Teresa,  Convento da Ordem III do Carmo, Convento do Desterro e muitos outros conventos , mosteiros e igrejas, além do Centro Histórico de Salvador. Depois de aposentado dedicou-se à pintura e ao desenho em seu atelier que funcionava na sua residência no      Conjunto São Bento, no Centro da Cidade, onde veio a falecer às 10 horas da manhã, do dia 6 de novembro de 1984.Nasceu em 1934 e faleceu      em  1984, portanto, aos 50 anos de  idade.
Retrato do ex-governador Luiz
Viana Filho.
O artista é pai de outro profissional de talento o Ivo Neto que está ai trilhando o caminho da arte trabalhando muito , seguindo o gosto do pai e mestre pelos templos majestosos desta nossa Bahia. .De tanto pintar os interiores das igrejas Ivan Lopes  era capaz de   pintá-las sem ir novamente ao local. Decorava os ambientes, e assim pintava os seus quadros, muitas vezes no próprio atelier. Era também um excelente retratista tendo pintado o ex-reitor Edgard Santos, o monge e historiador Dom Clemente da Silva Nigra, o governador Luiz Viana Filho, dentre outras personalidades
Segundo Ivo Neto "meu pai vendia suas obras em casa mesmo,  e vivia afastado das galerias. Às vezes vendia e não pagavam. Lembro que ele e Jaime Hora vendiam àqueles comerciantes da Avenida Sete de Setembro. Eram obras com  temas de casarios e igrejas , que  dominava bem.  Na realidade ele fez poucas exposições individuais e participou de algumas coletivas." Mesmo após sua morte as obras de Ivan Lopes não alcançaram ainda preços significativos. O Jaime Hora, por exemplo,  está melhor  cotado no mercado de arte.
Marinha,  Rio Vermelho, foi a última obra
 assinada por Ivan Lopes antes da morte.
Revendo minhas colunas encontrei registros de quatro exposições coletivas que Ivan Lopes participou com vários outros artistas. No ano de 1976 integrou três mostras organizadas por Roberto Araújo, que era da cidade de Valença, e aqui abriu  a Galeria Rag, na Boca do Rio. Roberto não entendia muito de arte, mas tinha um entusiasmo nunca visto em realizar exposições e manter contatos com artistas. Como não tinha muito conhecimento e habilidade neste tipo de relacionamento sua galeria que ocupava uma casa, hoje quase em ruínas, vivia lotada  de obras. Muitos artistas qualificados , inclusive até alguns sem  talento, tinham lá um local  onde deixar suas  obras . Era uma confusão danada! 
Mas, voltando ao Ivan Lopes ele expôs em abril de 1976 no de Festival de Artes Plásticas da Galeria Rag durante um cruzeiro para a Europa no navio Eugênio C. Já em dezembro participou de duas coletivas uma em Brasília, na Galeria Decor de Interiores , e também, numa mostra comemorativa da Semana da Marinha, em Salvador. Em novembro de 1978 integrou uma coletiva beneficente do Instituto de Organização Neurológica da Bahia, ION, que funciona em Ondina. Para esta mostra vinte e cinco artistas doaram suas obras que foram leiloadas, e o apurado ficou com a instituição. 




segunda-feira, 19 de abril de 2021

DOMENICO GATTO , UM COLECIONADOR APAIXONADO

O colecionador Domenico Gatto.
 Todos os artistas  das décadas de 50 a 70 conheceram a figura simpática e de grande facilidade de se expressar que foi o empresário e  colecionador Domenico Gatto. Desde Carybé, Floriano Teixeira,Sante Scaldaferri,Calasans Neto,Fernando Coelho, Mário Cravo Jr, Carlos Bastos  ,Jenner Augusto, Poty, Zé Claudio, Udo Knoff e muitos outros  ele manteve uma convivência em seus ateliers procurando novas obras, as quais eram adquiridas, às vezes até em lotes , e quando não existiam  costumava encomendar , inclusive adiantando algum dinheiro para que o artista se sentisse com aquele compromisso de criar para lhe entregar. 
Algumas moradias de artistas foram construídas dentro desta sua busca por novas obras de arte, com o fornecimento de  parcela de dinheiro de entrada ou em parcelas  para que os mesmos criassem e tocassem seus projetos particulares de construir ou adquirir uma nova moradia, comprar um automóvel, etc. 
Era um relacionamento muito próximo entre Domenico Gatto e os vários artistas de sua época. O Carybé num depoimento disse : "O colecionador entusiasta foi Domenico Gatto, que acompanhava o movimento , corria os ateliers,    comprava arte, sempre ajudando quem precisasse".
Algumas  obras de arte remanescentes da coleção do
empresário e colecionador Domenico Gatto.

Portanto, está ai um testemunho de como este italiano procurava comprar e incentivar os artistas e em consequência a arte na Bahia. É certo também que sendo empresário do setor da construção civil  tinha uma visão de mercado  e da busca do lucro  quando lidava com vendas de imóveis ou até mesmo  com obras de arte , tanto ao adquirir e comercializar.
Segundo me informou  o empresário Antônio Gatto "a coleção permanece com a família. Apenas algumas obras foram divididas , a maioria está com minha mãe".
A professora Jancileide Souza Santos, em artigo apresentado num Encontro de História da Arte, na Unicamp , em São Paulo, escreveu : "Os colecionadores de arte fazem parte de um grupo social importante no mundo da arte, e a prática de colecionismo, motivada por questões estéticas, 
políticas,sociais ou simplesmente a paixão pela arte,contribuiu para o enriquecimento do patrimônio  artístico do país, além de estimular o gosto artístico em um determinado contexto social, histórico e social. Na Bahia , os colecionadores de arte exerceram um importante papel na construção de um mercado de arte, bem como despertaram o interesse pela aquisição de objetos para a formação de coleções no Estado". 
A professora Jancileide Souza, que é doutora em História da Arte,  focou o seu artigo na arte popular , mas certamente suas observações podem ser aplicadas numa forma mais ampla,abrangendo também o colecionador de obras de arte de modo geral.
Na realidade Domenico começou tarde a garimpar obras de arte nos ateliers dos artistas,mas seu entusiasmo era tanto que ele superou este atraso e se transformou no maior colecionador em nosso Estado. Foi na década de 1950 que  construiu na Ladeira de São Bento o Hotel Oxumaré e foi instalada a galeria do mesmo nome no térreo, onde aconteceram grandes exposições. 
Ele nasceu em 1923 em Rocca Imperiale, província de Cosenza, região da Calábria, na Itália, e faleceu aos 69 anos de idade, uma morte prematura para os padrões de hoje. Teve três filhos Adele, Antônio e Anna Paola com Teolita Noya Gatto.  Domenico Gatto chegou ao Brasil em 1938.
A empresa que ele criou completou 58 anos -  a Gatto Empreendimentos - de  atuação no mercado imobiliário ,tendo iniciado suas atividades  em 9 de agosto de 1963, construindo pequenos prédios residenciais e comerciais em diversos pontos da cidade, tendo inclusive lançado um dos primeiros loteamentos de condomínio residencial, o Belvedere, no bairro do Bomfim.Construiu também um dos primeiros cinemas da Cidade, o Cine Capri, no Largo Dois de Julho, além de fundar o Banco do Trabalho, sendo sua primeira agência localizada na cidade de Feira de Santana.
Através do escritor Vasconcelos Maia, em 1963, o artista Calasans Neto, iniciando sua vitoriosa carreira, foi apresentado ao empresário e colecionador Domenico Gatto que estava ultimando a construção do Hotel Oxumaré. 
A bela xilogravura feita por Calasans Neto
 para ilustrar o cardápio do Hotel Oxumaré.
Na ocasião lhe  encomendou fazer umas gravuras para ilustrar o cardápio e todos os impressos do hotel. A gravura principal é esta ao lado que mostra a Cidade do Salvador dominada no céu por um grande arco-iris de Oxumaré. 
Conta sua filha Adele Gatto num depoimento no catálogo  do The Catt Parade  que lembra de seu pai "chegando em casa com o paletó no braço , jornais numa mão e na outra uma tela que acabara de adquirir com a tinta ainda fresca. Ia logo falando: "Teo! Martelo e pregos!", ele estava chamando sua esposa Teolita Gatto , que sempre o ajudava a colocar mais uma obra na parede da casa, que tinha um pé direito duplo, localizada na Avenida  Princesa Isabel, no bairro da Barra Avenida. Assim,  sempre cabia mais uma tela nas paredes de sua residência.  
Ele tinha em casa um armário grande  no seu gabinete com três andares , onde guardava centenas de obras de arte.
Diz Adele "Minha mãe era quem subia na escada, com uma caixa com martelo e pregos, e assumia o trabalho ... Ao final , satisfeito, deixava as paredes redecoradas até a próxima leva de quadros, que às vezes chegava no dia seguinte".
Já o maranhense Floriano Teixeira , que veio para a Bahia a convite de Jorge Amado, declarou que "Colecionar obras de arte se faz com tempo disponível, sensibilidade, amor , cultura e muito dinheiro, e o Domenico tinha tudo isto junto além de sua capacidade de fazer amizades ." E continuou " Ele sabia por instinto e sensibilidade que as revoluções culturais são benéficas , porque é da natureza humana mudar e acrescentar para melhor".
 Estes depoimentos estão no catálogo da exposição e leilão The Catt Parade que seu filho Antônio Gatto mandou editar em comemoração aos "50 anos da Gatto Empreendimentos", quando cinquenta  artistas de todo o país foram convidados a pintar  esculturas  de um gato feitas em resina.




sábado, 17 de abril de 2021

A SENSIBILIDADE DO FOTÓGRAFO WILSON BESNOSIK

Wilson Besnosik, foto
 de Antônio Queirós.
Vou falar de um dos mais importantes fotógrafos que a Bahia teve no século XX,   que foi Wilson Besnosik  nascido em 27 de dezembro de 1958, em Salvador, vindo a   falecer em 6 de maio de 2007. Faleceu prematuramente aos  48 anos de um enfarte fulminante. Ele foi  um   dos fundadores do Grupo de Fotógrafos da Bahia , sendo também diretor da Arfoc   e  um dos responsáveis pela introdução da fotografia digital em jornais baianos e   de Sergipe. A ideia de escrever sobre este profissional da fotografia  já vinha   amadurecendo há algum tempo. Porém, sempre surgem novos assuntos e terminei   adiando. Quando estava colhendo e pesquisando materiais para escrever o texto   sobre os 50 anos da Galeria Cañizares, que publiquei recentemente ,   Juarez 
 Paraíso lembrou da importância de Wilson que  ele e Márcia Magno convidaram para participar  do Salão de Fotografia da Escola de Belas Artes. Então, decidi iniciar a busca por material sobre Wilson Besnosik, que no próximo seis de maio completa 14 anos do seu falecimento. Ao falar com Gissélia Besnosik, com quem foi casado durante 25 anos , ela me disse espontaneamente " Wilson é atemporal, com sua alegria , seu jeito de ser, de ver e tratar as pessoas".
Trabalhei com Wilson 
A poeta Myrian Fraga (1937-2016) pela
lente de Wilson Besnosik.
 vários anos no Jornal  A Tarde . Ele chegou em  1989 saindo em  2003. Foi  editor de fotografia devido a sua dedicação e qualidade do seu trabalho como fotógrafo . Era membro do grupo de jovens da Juventude Espírita, editou a revista Presença Espírita, da Mansão do Caminho.

Nos primeiros anos de sua atividade de   fotógrafo trabalhou no extinto Instituto   de Desenvolvimento Urbano e   Articulação Municipal ( Interurb) e também na área da fotografia para   publicidade. Durante sua carreira de repórter fotográfico recebeu alguns   prêmios  .Tem imagens publicadas nos jornais Estado de São Paulo,   Folha de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil , o americano Dayle   Telegraph, e também nas revistas Isto É, Veja, Época, e na americana   News Week. Em 2004 fotografou e publicou  o livro  "Revelações do  Tempo" mostrando as riquezas históricas e culturais das cidades de Cachoeira e São Félix.
Foto do livro "Revelações do Tempo"

Nos anos 80 foi diretor de teatro amador e autor de algumas peças  entre elas "Destino" e "Festival dos Vegetais",tornando-se membro da Associação de Autores Teatrais. Em 1993 é convidado a participar do Salão Nacional de Fotografia na Escola de Belas Artes e sendo um dos palestrantes. Foi um dos responsáveis pela vinda à Salvador das exposições dos fotógrafos Henri
Cartier Bresson e Robert Doisneau.
Quero aqui chamar atenção de artistas, fotógrafos , escritores e outros criadores da importância de conservar e acondicionar bem suas produções, porque qualquer deslize tudo pode ser perdido. Centenas de negativos das fotografias de Wilson Besnosik, e até mesmo algumas xilos e outras obras de arte foram perdidas nas mudanças que a família foi obrigada a fazer. Eu mesmo perdi uma caixa contendo vários negativos de fotografias feitas por mim e outros fotógrafos durante uma mudança de escritório.
Esta bela xilogravura mostra seu lado
de artista plástico
.

Vejam o que o mestre Juarez Paraíso , professor,   artista plástico e grande fotógrafo  me enviou.   "Márcia Magno criou na sua gestão  o Salão   Nacional de Fotografia . Foi muito relevante , pois   Salvador era um deserto neste setor. Durante a   minha  gestão , deu prosseguimento  ao Salão e para   isto  contamos com a colaboração de uma Comissão   que fizemos, com    Maria Sampaio e outros. Mas,   nesta Comissão tinha   um nome importantíssimo, o   Wilson Besnosik,   fotógrafo do jornal A Tarde"
Foto do  Baixio, que Wilson tinha predileção
 por ela. Talvez pela  natureza exuberante.

Aqui o depoimento sincero e emocionante de Antônio Queirós  que diz " Falar do chefe e companheiro Wilson Besnosik  é tarefa fácil! Como colega, pessoa de uma humanidade ímpar, sempre disposto em ajudar a quem ele comandava. Lembro que  tinha uns trabalhos no Pólo Petroquímico, e sempre me convidava para ajudá-lo e pagava bem. Metido a goleiro em nossos campeonatos internos e, às vezes, dava sorte. Foi onde ele se descobriu como jogador de futebol. Todos sabem que o  jogador  ruim de bola ou é o dono da bola ou goleiro. Como chefe, foi muito dedicado e cobrador das obrigações. Aprendi muito com ele, em levar o melhor para o jornal e,até hoje, onde passo, quero fazer o melhor: devo isso a Wilson !                                                              
Foto de MichaelJackson no Pelourinho.
Quando saiu do jornal foi tentar realizar seu sonho maior, que era abrir seu próprio negócio, ser seu próprio patrão, mas foi interrompido precocemente. Espero e acredito que esteja fazendo ótimas fotos no outro plano."

O jornalista José Bonfim  escreveu um dia após seu falecimento: " Wilson Besnosik foi uma grande figura. Do tipo que vem ao Planeta e marca ponto, não passa em branco. Perfeccionista, ajudou muitos jornalistas a aprenderem ou aperfeiçoarem seu ofício, dando dicas, dando broncas, aplaudindo. Wilson morreu dia 6 de maio de 2007. Fiquei lembrando das tantas reportagens que fizemos juntos. Das viagens, dos prêmios. Lembro bem de três: sobre  a agonia e morte de Irmã Dulce , o combate ao trabalho escravo em vários municípios baianos, o combate à exploração do trabalho infantil, na região do Sisal. Foram prêmios da ABI, do Banco do Brasil, da Visão Mundial e outros mais que comprovam a finitude da passagem do Besnosik pela Terra. 

Mandela na Bahia com baiana autêntica.

Sinto-me honrado por ter trabalhado com uma figura assim. Sinto-me honrado por ter conhecido e ter sido amigo de um profissional e de uma figura humana que tinha sempre como meta a superação. Nada de choramingas, mesmo quando algum absurdo Ihe acontecia, como o assalto à pousada - um antigo sonho realizado por ele e a esposa  e que uma dessas quadrilhas de ladrões acabou. "
Wilson em ação com sua alegria inconfundível.

Para finalizar, deixo aqui registrado o depoimento de sua filha Marina Besnosik , hoje mãe de dois meninos Felipe e Marcelo que reverberam a alegria e o carisma do "vovô anjo" como eles costumam chamar o Wilson. "Difícil é explicar com palavras o que você sabia fazer tão bem com as imagens... passar emoção! Você tinha uma sensibilidade única, que juntava o amor ao trabalho com uma criatividade peculiar. É pai ... o que a gente não podia prever é que o para sempre, sempre acaba. Mas, nada vai conseguir mudar o que ficou."