ARTES VISUAIS Reynivaldo Brito

Este blog se propõe a divulgar o movimento de artes visuais na Bahia, no país, e o que acontecer de significativo no exterior.Também resgatará matérias e críticas que escrevi durante mais de três décadas. Espero contar com a participação de artistas, galeristas e promotores de eventos de artes visuais informando de exposições e outros eventos. Contato britoreynivaldo@gmail.com Se você quiser trocar sua foto por uma colorida é só enviar por e-mail.

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quinta-feira, 15 de abril de 2021

CINQUENTA ANOS DA GALERIA CAÑIZARES

A Galeria Cañizares completou cinquenta anos  em novembro do ano passado, pois ela foi fundada em 1970 para ser um espaço de exposições da Escola de Belas Artes , da Universidade Federal da Bahia, durante o reitorado do professor Roberto Santos. Foi criada antes da  transferência da Escola de Belas Artes, que funcionava na rua 28 de setembro, no Centro Histórico de Salvador,  e veio ocupar o casarão onde até hoje se encontra na rua Araújo Pinho, 212. Na década de 70  o número era 15, no bairro do Canela. Na época era diretor da escola o professor Evandro Schneiter ,  e o nome Cañizares é uma homenagem ao fundador da Escola de Belas Artes ,em 1877, o mestre Miguel Navarro Y Cañizares. Ele era natural de Valencia,na Espanha, e aportou aqui não podendo seguir viagem para o Rio de Janeiro devido uma epidemia de peste .Ele foi convidado a dar aulas no Liceu de Artes e Ofícios. Depois se desentendeu com a direção da instituição,  e junto com colegas e alunos criou a Academia de Belas Artes que funcionava em sua própria casa. Para isto  
contou com a  colaboração dos artistas João Francisco Lopes Rodrigues e dos seus filhos João Francisco Lopes Rodrigues Filho e Manuel Silvestre Lopes. Rodrigues, além de   Manoel Raymundo Querino ,dentre outros A Galeria Cañizares ocupa quatro salas de um prédio em estilo  neoclássico , ao lado da Escola de Belas Artes , e é uma ferramenta importante para os alunos, que além de apreciar obras de vários artistas, podem expor os seus trabalhos . Portanto, ali se inicia  uma carreira profissional. Muitos já realizaram suas primeiras exposições, antes de enfrentar o mercado de arte fora dos muros da academia. Vejo a Cañizares como um local privilegiado , onde o graduado pode expor seus trabalhos e iniciar sua trajetória em busca de mercado para suas futuras produções. Além de proporcionar a aproximção deste novo artista com a comunidade ligada à produção de arte, como também a todos os que gostam de arte.

É  a galeria mais antiga em funcionamento em Salvador. Ocorre um fenômeno com as galerias de arte da Cidade  . Muitas delas abrem e têm um breve período de funcionamento. Já inclusive escrevi   alguns artigos sobre importantes galerias que foram responsáveis por grandes exposições e lançamentos de artistas, hoje, consagrados nos mercados de arte brasileiro e até internacional. 

Miguel Navarro y Cañizares,
auto-retrato de 1887.
Na Galeria Cañizares são realizadas exposições individuais e coletivas através de edital publicado anualmente , e são expostos projetos de professores da Escola de Beas Artes e artistas de modo geral. É um espaço muito interessante  que dá uma boa visitação e vizualização às obras ali mostradas. 
Os projetos de professores ocupam a pauta da Galeria Cañizares, além do Salão da Escola de Belas Artes, Docentes em Pauta, É tudo Design, Mostra de Performance e exposições comemorativas têm também  lugar na .galeria.   São organizados ainda encontros sobre as exposições, e publicações  dos eventos concretizados ao longo do ano. Todas as exposições são abertas para que possam ser vistas pela comunidade acadêmica, e também pelos amantes das artes residentes aqui ou não.
A diretora da EBA, professora Nanci Novaes
Para a atual diretora da Escola de Belas Artes a professora Nanci Novaes "o conhecimento em arte é um aprendizado que começa na observação de uma obra de arte , da sua leitura e da prática artística, entendendo que o estudante de arte precisa ser informado sobre fatos e ações contidos na produção artística para uma exposição e, inclusive numa montagem de exposição e que tipo de ordenação pode-se vivenciar de uma visita. Desde que   assumi a Direção da Escola de Belas Artes em 2013, venho  priorizando e valorizando a Galeria Cañizares como um importante laboratório na formação dos profissionais das artes visuais e do design, pois possibilita ao estudante não apenas ampliar o seu conhecimento sobre a profissão, mas enriquecer sua formação cultural e melhorar a sua capacidade de expressão, além de proporcionar  aos estudantes uma melhor interação com o meio social em que vivem.
Nesse sentido, a importância da criação de uma Galeria arte Arte no âmbito universitário, dentro de uma Escola de Arte é o que faz a diferença na sua função,a Galeria cumpre seu papel de intermediar,o conhecimento sócio-artístico-cultural entre a comunidade interna da Ufba e externa, contribuindo também para a formação de público,produção cultural e a arte na efervescente Capital da Bahia".

Para o professor Juarez Paraíso "a Galeria Cañizares tem como principal objetivo proporcionar exposições de artistas profissionais , da arte moderna e pós-moderna , assim como da vanguarda local e nacional. Os melhores exemplos da produção artística comtemporânea é o que se busca apresentar à comunidade baiana em em particular, à comunidade universitária e aos alunos da Escola de Belas Artes.  Também tem havido exposições em homenagem aos grandes mestres do passado, professores da Escola, assim como exposições de alunos concluintes , já em fase de franco amadurecimento artístico".

No rápido depoimento que Juarez me enviou ele diz: " fiz melhorias na galeria e realizei importantes exposições. Márcia Magno criou na sua gestão o Salão Nacional de Fotografia. Foi muito importante , pois Salvador era um deserto neste setor   Na minha gestão , dei prosseguimento ao Salão e,  contamos com a colaboração de uma comissão que fizemos, com nomes como Aristides Alves, Maria Sampaio e outros .Nesta comissão tinha um nome importante, o Wilson  Besnosik,fotógrafo do jornal A Tarde um dos pioneiros da fotografia digital em Salvador .
A galeria era a moeda de troca mais importante para a saída da Escola da 28 de setembro para o Canela, pois lá a EBA teria uma galeria muito bem localizada para suas exposições. Lá fizemos exposições memoráveis, como a que Márcia Magno organizou , “Mulheres em Movimento 1 e 2 ”. Muita coisa importante para a Cidade , para a UFBA e principalmente para os alunos , muitos , atualmente, artistas consagrados e que tiveram também a sua valiosa ajuda crítica . Lá fizemos exposições de trabalhos de gêneros e técnicas avançadas". 

É bom saber que antes, em 1964,  foi criada  a Galeria Permanente de Artistas Baianos na Escola de Belas Artes com uma exposição de obras dos artistas Hélio Oliveira, Ângelo Roberto,Maria Ângela, Luiz Gonzaga, Eurico Luiz, Oriosvaldo Lima, Liana Bloisi, Elizabeth Roters, Edísio Coelho, Edison da Luz,Humberto Rocha,Edvaldo Araújo ( Gato) , Sônia Sacramento, Gilberto Oliveira e Edsoleda com a coordenação do Diretório Acadêmico  da Escola de Belas Artes . Ai ao lado alguns dos artistas que participaram . Da direita pra esquerda Gato,Edison da Luz, Sônia Sacramento e Oriosvaldo Moura Lima, presidente do Diretório .

ALGUMAS EXPOSIÇÕES DA CAÑIZARES 

RESGATE DA II BIENAL - 1968

Esta  exposição  gerou polêmica  a " 68+40: O Resgate da II Bienal de Artes Plásticas da
Bahia" - o projeto foi idealizado visando "retomar  o fato histórico da II Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia inaugurada em 20 de dezembro de 1968 e fechada de forma violenta e desastrosa naquele mesmo ano ..." Participaram da mostra vários artistas que integraram a II Bienal  que contou com  65, e neste novo projeto apenas 56 deles  foram contactados, devido às dificuldades de encontrá-los. Portanto, foram expostas uma obra de cada artista  . Dizia ainda o manifesto que " A exposição atual trará para o grande público, que não presenciou o fato, obras recentes destes artistas como forma de descrever o percurso das Artes no Brasil e, em particular , na Bahia,desde o ocorrido em dezembro de 1968". Juarez Paraíso foi o cordenador juntamente com a então diretoria da Galeria Cañizares. Os artistas participantes foram:Alberico Mota, Ana Lúcia, Ana Pinto, Ângelo Roberto, Anísio de Carvalho,Áureo Abílio,Caetano Liberato Lima,Carlos Augusto D.L.de V. Bandeira, Carlos Estivalete, Chico Liberato, David Freire, Dilze Mendonça da Silva, Domingos Terciliano Jr., Edsoleda Maria Maciel Santos, Edison Benício da Luz, Edvaldo Gato, Fernando Coelho, Gilson Rodrigues, Gley Freire Cabral de Mello, Hilda de Oliveira, Yedamaria, Juarez Paraíso, Jamison Pedra, João Carlos Assunção Pita, Joaquim Pedroso G. Oliveira, José Antônio Cunha, José Carlos Augustio Jatobá, José Tiago de Carvalho Filho, Lázaro Torres, Leonardo Alencar, Liana Bloise, Lucídio Lopes, Ligia Milton, Lizete Mattos Ventura, Luciano Figueiredo, Luis Fernandes Martins, Luis Fernando Pinto,Luzíades Duarte Belfort,Maria Regina Pedreira, Marisa Gusmão Fernandes, Marlene Cardoso, Mercedes Kauark Kruschewsky, Mimi Fonseca, Moreno, Norma Athay de Couto, Paulo Guimarães,Pedro Amado de Souza, Reinaldo Eckenberger, Renato da Silveira, Rogério José Brito de Carvalho, Sante Scaldaferri, Sílvio Robatto, Sônia Castro, Tânia Vita, Vera Lima e Zu Campos.

EXPOSIÇÃO DIDÁTICA DE GRAVURA  - 1971 
 Outra exposição interessante foi realizada de 13 a 31 de agosto de 1971 chamada Exposição Diática de Gravura, cuja matriz em xilogravura do cartaz foi feita por Edvaldo Gato. Não sei so nomes de todos os participantes porque não foi feito catálogo por total falta de dinheiro. Disse Gato "que enfrentamos dificuldades até para imprimir as gravuras e o próprio cartaz". O professor era o Lobianco , e ao sair Gato ficou como monitor porque Hansen Bahia tinha ido para a Alemanha. Quando Hansen retornou reassumiu e passou a ministrar o curso de gravura. Gato venceu em primeiro lugar o concurso desta exposição, e os certificados  foram entregues pela então diretora Mercedes Kruschewsky a Gato, primeiro lugar; em segundo,  Sônia Lúcia Rangel com a obra "Canção para Astronautas", e em terceiro lugar a Elizabeth da Silva com uma xilo abstrata.
O Edvaldo Araújo, hoje conhecido por Edvaldo Gato, participou de várias exposições da Cañizares como a realizada de 10 a 30 de julho de 1981 intitulada "35 Anos de Gravura na Escola de Belas Artes",comemorativa dos 35 anos da federalização da Universidade Federal da Bahia. Além de ser um mestre na arte da gravura Gato integrou as equipes que decoraram vários  carnavais de Salvador. Também, fez parte  do grupo de artistas do 1º Leilão de Arte da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.

                                  SEIS MULHERES NA CAÑIZARES - 1976

A artista Carmen Carvalho com obra,2018.
Em 23 de outubro de 1976 seis artistas mostraram suas obras mais recentes na Galeria Cañizares e também publiquei na coluna .Vejamos: " Seis artistas estão expondo na Galeria Cañizares, na Escola de Belas Artes ,da Universidade Federal da Bahia.Umas são professoras e outras alunas. No final um trabalho integrado e de qualidade. Carmem Carvalho com suas estamparias abstratas, Zélia Maria com suas cerâmicas, Terezinha Dumet e Hilda Oliveira com as xilos, Rosa Alice com bico de pena e Graça Ramos com uma técnica mista de colagem e desenho. Assim, o visitante tem a possibilidade de observar trabalhos com várias técnicas concebidos por artistas que venceram a tão criticada barreira da academia. Estudar Belas Artes para alguns é considerado um sacrilégio."


A PRIMEIRA MOSTRA - 1976                                         

Centenas de alunos tiveram sensações semelhantes  ao expor pela primeira vez numa galeria de arte, e ali seus trabalhos serem vistos e comentados por convidados, visitantes e professores. Uma sensação indescritível. Entre eles, o hoje consagrado artista plástico Zivé Giudice, experimentou esta sensação em novembro de  1976, quando fez sua primeira exposição numa galeria.  No convite da mostra ele conversa com o professor Juarez Paraiso que lhe faz algumas colocações sobre a temática escolhida  que foca na solidão e nas angústias do homem frente à sociedade competitiva que vivemos deste muito tempo. Zivé disse que através da pintura de algumas figuras isoladas apresenta a total impossibilidade de comunicação,e nas desintegradas procura mostrar a angústia em que muitos vivem. Quanto à escolha de uma cor para realizar seu trabalho disse que não é pensada, apenas intuitiva, emocional. A exposição ficou em cartaz de 19 a 30 de novembro de 1976. 

"Durante o tempo que estive na Eba-Ufba , vi a Cañizares , através da sua atuação e articulação com alunos e professores , constribuir substancialmente com a formação de alunos. Salve o Galeria Cañizares nos seus 50 anos ! "  Na foto:  Oswaldo e Leonardo Alencar, pintores sergipanos; Ivo Vellame, o poeta Ildásio Tavares , Zivé e visitantes .

MÉDICOS PINTORES  - 1978

Lembro que existia um movimento interessante de médicos que também gostavam de pintar. Eles organizaram várias exposições, e  sempre era procurado por Affonso Roberto Martins Garrido, uma pessoa  de temperamento afável que além de médico, pintava e gostava de frequentar as exposições da Cidade. Em 1978 eles fizeram uma exposição na Cañizares e uns alunos mais rebeldes não gostaram.  Daí se vestiram de jalecos e com estetoscópios pendurados no pescoço fizeram um protesto no dia da exposição. Coisa de estudantes cheios de energia. Mas, devemos apoiar todos àqueles que pintam e gostam de arte, independente da profissão que exercem. Na época apoiei os estudantes na defesa do mercado. Acontece que a maioria dos médicos pintava por prazer, diletantismo, não queria se transformar em pintor profissional. Desses lembro apenas que Mirabeau Sampaio ( falecido) e César Romero  pintavam profissionalmente.

Eu publiquei na coluna em 21 de outubro de 1978 o manifesto dos estudantes, e também divulguei a exposição dos médicos pintores e escultores .Vejam ai:

"Nós artistas plásticos, estudantes, diante de um mercado cada vez mais difícil e restrito ao artista plástico, onde a sua profissão ainda não encontra-se regulamentada, vimos nos posicionar contra a convivência das galerias de arte, que possibilitam e permitem a interferência de profissionais de outras áreas, no mercado do profissional Artista Plástico, o que constitui por um lado num cerceamento do mercado e por outro, numa falta de ética e respeito profissional, a partir do momento em que a interferência de um profissional de uma área, na do outro. Observando-se porém que a recíproca poderia ser verdadeira.
Não questionamos aqui a validade artística do trabalho de quem quer que seja, apenas indagamos:
a)      Estariam agindo corretamente as galerias em abrir o mercado a outros profissionais?
b)      Estariam agindo corretamente estes profissionais em interferir, no nosso mercado?
c)      Como esses profissionais agiriam diante da possibilidade de uma interferência recíproca?
d)     Isso não contribuiria para um enfraquecimento à organização de classes?
                      Pela regulamentação da profissão do Artista Plástico 
      Diretórios Setoriais de Artes Plásticas e Licenciatura em Desenho e Plástica

Abaixo  os médicos que participaram da exposição que provocou o movimento de artistas  e estudantes preocupados com o precário mercado de arte de então.

MÉDICOS PINTORES- na Galeria Cañizares estão expondo Affonso Roberto Martins Garrido, Artur Ventura de Matos, Carlos Gilberto Widmer, Carlos Lopes Bittencourt, César Romero, Dulce Serrano Schaeppi, Eduardo Araújo Filho, Fernando Fortuna Guimarães, Flanklin Witz Leite Neto, Geraldo Bastos Guimarães, Gilberto Apê, Gilberto Carvalhal ,França Gomes, Humberto R. V. Peixoto, Italvar Cruz Rios, Jaime Nunes da Silva, Jessé Acioly; José Mirabeau Sampaio, José Pedreira Carrera, José Stanchi Correia, Lourival Burgos Muccini, Nancy Carvalho Cruz, Nelson Hart Madureira, Osvaldo Leal e Rodolfo Dantas Júnior. Expondo esculturas: Luís Fernando Pinto e Luís Carlos Medrado Sampaio. 

35 ANOS DE GRAVURA NA EBA
- 1981

De 10 a 31 de julho de 1981 coordenando a Galeria Cañizares, a artista  Ana Lúcia Uchoa Peixoto  organizou a exposição " 35 Anos de Gravura na Escola de Belas Artes" em comemoração aos 35 anos de federalização da Universidade Federal da Bahia. Esta exposição contou com as presenças de artistas-professores como Mário Cravo Jr., Hansen Bahia e Henrique Oswald . Dos primeiros gravadores : Carlos Sepúlveda, Calasans Neto, José Maria, Hélio Oliveira, Sônia Castro, Juarez Paraíso , Leonardo Alencar, Edísio Coelho, Edison da Luz, Gilberto Oliveira, Emanoel Araújo, Gley Mello, Yedamaria e Gisélia Figueiredo. Tambem, os gravadores das décadas de 70 e 80 : Vera Lima, Hilda Oliveira, Edvaldo Gato, Terezinha Dumet , Sônia Rangel, Paulo Rufino, Márcia Magno, Graça Ramos, Ana Lúcia Uchoa, Guache, Maria Adair, Fátima Hanack, Wilson Besnosik, Milton Menezes, Didier Hubert, Edsoleda Santos e Marta Gross.
O professor Juarez Paraíso apresentou os expositores lembrando que "os cursos de gravura implantados da Escola de Belas Artes a partir de 1953 constituem a maior referência para o estudo da implantação e desenvolvimento da produção da gravura na Bahia.".

O curioso é que houve uma clara preferência dos alunos pela xilogravura,  e Juarez atribui  isto pela novidade e também pela simplicidade do uso desta técnica , além do baixos custos dos materiais e facilidade em serem comercializadas as cópías. Ele afirma ainda que a mais importante produção da gravura em nosso Estado aconteceu de 1953 até os finais da década de 60,talvez porque a Eba detinha a única prensa de gravura. É bom saber que esta prensa foi adquirida em 1951, de uma antiga gráfica que funcionava no Maciel,  para o curso de gravura ministrado por Poty Lazaroto, sendo que  o uso do  compensado para as matrizes  foi introiduzido por Calasans Neto.

ASTRAIS BANANAIS ETC E TAIS - 1986

No verão do ano de 1986 Maria Adair decidiu trabalhar com um grupo de alunos da Escola de Belas Artes , tendo como proposta criar  juntos preservando a individualidade e a independência de cada um dos participantes. Inicialmente, onze alunos da EBA, um de  Arquitetura e outro de Física se apresentaram com vontade de pintar e desenhar. Mas, apenas cinco deles, conseguiram organizar um horário para entregar suas obras . Confessa Adair que "foi um trabalho gostoso e integrado de produção e companheirismo." Tinham encontros não apenas na EBA como também nas festas do Rio Vermelho,no Bonfim ou atrás do trio elétrico, e até na casa dela. Era pleno verão de 1986 e eles aproveitaram para fruir e receber inspiração da Cidade e de seu povo. O resultado foi uma exposição na Galeria Cañizares com a participação de pinturas e desenhos dos artistas Emília , Márcia Abreu, Paulo Carvalho, Hedi Lamar e Saulo. A exposição permaneceu aberta à visitação pública de 12 às 24 de março.

EXPOSIÇÃO DO BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO FRANCESA - 1980


Durante o Bicentenário da Revolução Francesa comemorada em julho de1989  foi realizada uma exposição comemoratva  - Arte,França e Bahia, com a participação dos professores da Escola de Belas Artes com obras de Maria Vrginia Gordilho,Maria Bernadete Capelo. Mercedes Kruchewsky,José Milton Menezes, Sonia Rangel,Ana Maria Vilar, Augusto da Silva, Yêda Maria, C.de Oliveira, Iza guimarães, Graça Ramos, Ailton Lima, Marlene Cardoso, Norma de Athayde,Terezinha Dumet, Edson de Oliveira Barbosa, Herbert Magalhães,Adele Goes, Denise Pitágoras, Juarez Paraíso, Márcia Magno, Gisélia Figueiredo, Humberto Rocha, Odete Magalhães, Onias Camardelli, Roberval Marinho, Maria Adair, Carmem Cavalho, Ana Lúcia Uchoa, Zélia Maria, Manoelito Damasceno e Roberio Marcelo Ribeiro. A exposição permaneceu aberta ao público de 14 a 30 de julho de 1989. Ao lado alguns dos artitas-professores que participaram da exposição.


CENTENÁRIO DE ALBERTO VALENÇA - 1991

Outra  exposição importante ali realizada foi no centenário do mestre Alberto Valença (1890-1983)  de 7 de junho a 7 de julho de 1991 na realidade a exposição foi realizada com um ano de atraso, pois Alberto Valença completara 100 anos em 7 de junho de 1990. Relembra Vera Spinola que "olhando para o passado, pois assim tive a oportunidade de chegar à família Valença num momento de celebração, que teve a Galeria Cañizares como porta de entrada. Até então, conhecia muito pouco a obra do pintor.No vernissage , lembro da presença do discípulo dileto de Valença, Juarez Paraíso; de Márcia Magno, então diretora da Escola de Belas Artes (EBA) ; dos artistas Mário Cravo Junior e Carybé, além de estudantes, personagens do mundo das artes, familiares e amigos."

A exposição contou com pinturas do acervo da EBA, do Museu Costa Pinto, do Museu de Arte da Bahia, e de colecionadores particulares. Um dos quadros que chamou sua atenção foi este ao lado de nome  "Ladeira da Montanha", do acervo do Museu Costa Pinto .datado da década de 1910, onde se vê a lateral do Teatro São joão, destruído por incêndio em 1923".

1º LEILÃO DE ARTE DA ESCOLA DE BELAS ARTES DA UFBA - 1991

A Escola de Belas Artes estava vivendo uma grande crise financeira e a então Diretora Márcia Magno resolveu fazer um leilão de arte para arrecadar fundos, e passou a solicitar de artistas da comunidade, professores e alunos obras para serem leiloadas. Isto foi novembro de 1991 . Foram doadas dezenas de obras, inclusive algumas de valor inestimável dos velhos mestres da EBA , e de artistas consagrados no mercado de arte brasileira, e até uma cópia da escultura Vênus de Milo foi leloada.
 O leilão foi realizado no Salão Aratu, do então Hotel Meridien, e as obras expostas à visitação pública ficaram na Galeria Cañizares de 25 a 30 de novembro de 1991. Foram arrecadados mais de 30 milhões de cruzeiros.
A escultura Vênus de Milo original foi esculpida em mármore pariano e mede 204 cm de altura, de autor anônimo.Foi encontrada em 1820, e encontra-se no Museu do Louvre , em Paris. Já a cópia da EBA foi adquirida em 1897, e para o Brasil vieram duas cópias ,sendo que a outra está na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Esta cópia leiloada foi realizada por Juarez Paraiso e Nanci Uchoa em resina poliester marmorizada e  fibra de vidro, tirada exatamente da pertencente à EBA.


MULHERES EM MOVIMENTO - 1 e 2 - 2007 e 2009

Com a curadoria de Márcia Magno, que também já dirigiu a EBA, foram realizadas duas exposições Mulheres em Movimento 1 e 2 com o objetivo de mostrar a atuação de todas as mulheres artistas relacionadas com a vida docente e discente da Escola de Belas Artes , de sua fundação em 1877 até a década de 1990. 
Disse   Márcia que diante do número de artistas  ser grande decidimos realizar duas exposições : Mulheres em Movimento 1 de  5 de setembro de 2007, com artistas relacionadas de 40 até a década de 1970, e Mulheres em Movimento 2 com mulheres até a década de 1990.

Veja as artistas das décadas de 40,50,60 e 70  que participaram da mostra Mulheres em Movimento 1 : ( De cima para baixo,da esquerda para a direita) Denise Pitágoras, Carmen Carvalho, Hilda Oliveira, Lizia Rocha,Edsoleda Santos,Terezinha Dumet,Norma Courp ,Malie Matsuda ( texto) ,Celia Azevedo, Ana Maria Vilar, Márcia Magno, Rosalice França, Grace Gradin, Iza Guimarães, Bernadete Campelo, Vera Lima, Margaritta Lamegho, Graça Ramos, Suza Machado ( revisora do texto),Célia Aguiar, Sônia Castro ,Lygia Sampaio, Maria Carrano, Iza Moniz, Lygia Milton, Haydée Valente, Mercedes Kruschewsky,. Artistas ausentes na foto: Maria Célia Calmon, Jacyra Oswald, Mariza Fernandes Correa, Adele Balazs, Dagmar Pessoa, Liana Bloise, Zelia Maria, Yedamaria, Ângela Cunha, Hilda Salomão, Liane Katsuky, Maria Adair , Sônia Rangel, Sofia Olszwski e Célia Gomes. 

Participaram da mostra Mulheres em Movimento 2 realizada  de 8 a 28 de outubro de 2009 - as artistas Aruane Garzedin, Beth Souza, Bia Santos, Betânia Vargas, Carmem Penido,Célia Mallett, Claudia Moraes, Conceição Fernandes, Elizabete Actis, Eneida Sanches, Giovana Dantas, Gleciara , Goya Lopes, Ieda Oliveira, Inês Melgaço, Inha Bastos, Jane Lídia, Jani Sault, Ledna Barbeitos, Márcia Abreu, Maria Luedy, Maristela Ribeiro, Nanci Novaes, Rosemarian, Tinna Pimentel, Therezinha Lima, Valéria Simões , Viga Gordilho, Zau Pimentel e Zilmar Souza.  Elas são oriundas das décadas de 80 e 90 na Escola de Belas Artes.
Segundo escreveu Márcia Magno no catálogo da exposição estamos " diante de um número de artistas mulheres , algumas egressas da arte moderna,mas todas presentes com a mesma relevância na arte pós-moderna e contemporânea. Desde a primeira mostra ficou demonstrado a superação de muitas limitações, tendo as artistas mulheres praticado todas as correntes e gêneros artísticos, todas as técnicas disponíveis, e muitas delas inventando outras, por meio da pesquisa de novos meios de expressão artística. Diversas destas artistas, já com mestrado e doutorado, vêm desempenhando funções de coordenação pedagógica e administrativa, na própria EBA, em museus e galerias de Arte da Bahia. A sua presença tem sido constante nas galerias, salões e bienais,com premiações , com a consagração do público e da crítica

especializada". 
Na foto aolado  algumas das participantes Claudia Moraes,Valéria Simões, Rosemarian, Ledna Barbeitos, Elizabete Actis, Márcia Magno, Nanci Novaes,Beth Souza , Celia Mallett  e Ignês Melgaço. 
Durante a gestão de Márcia Magno à frente da direção da Escola de Belas Artes , de 1988 à 1992 ela nomeou Ana Lúcia Uchoa como coordenadora da Galeria Cañizares  a qual fez um trabalho relevante, mantendo ativa este importante espaço das artes plásticas. Já na gestão de Juarez Paraíso de 1992 à 1996  foi a própria Márcia Magno quem coordenou a galeria, periodo em que se destacou com as exposições Mulheres em Movimento 1 e 2.




 







 

Postado por BLOG DO REYNIVALDO às quinta-feira, abril 15, 2021 9 comentários:
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

VANDALIZARAM AS OBRAS DO CAMINHO DA FÉ DE IRMÃ DULCE

Obras vandalizadas de Chico Mazzoni, Paulo Rufino Mattos e Murilo
além do pórtico de fixação de uma das obras .Vemos a de Leonel
Mattos , ainda intacta nesta foto feita antes do vandalismo.
Com a santificação de irmã Dulce e a criação do seu santuário no Largo de Roma aumentou a devoção pela Santa dos Pobres e as fundações Gregório de Mattos e a Mário Leal Ferreira patrocinaram a criação do chamado Caminho da Fé - Santa Dulce dos Pobres e Senhor do Bonfim. Vinte e oito obras foram executadas por 14 artistas baianos,a convite  do professor Juarez Paraíso,  autor do projeto. Para tristeza dos devotos de Irmã Dulce, do Senhor do Bonfim , dos artistas e dos baianos de modo geral hoje soubemos que várias dessas obras foram vandalizadas através de um instrumento cortante . Informa Juarez que realizou 14 obras sobre Irmã Dulce e decidiu depois convidar 14 artistas para fazer as obras dos pórticos a serem fixados na Avenida Dendezeiros com a temática do Senhor do Bonfim. Ele fez as efígies dos dois Santos - Senhor do Bonfim e Irmã Dulce - para constar nos 28 totens , e as obras dos artistas aplicou como apropriação artística , com cessão de uso. As obras foram executadas pelos artistas Juraci Dórea, Márcia Magno , Ray Vianna, Sonia Rangel, Murilo, Guache Marques, Edsoleda Santos,Leonel Mattos, Paulo Rufino Mattos, Fernando Freitas Pinto, J. Cunha, Bel Borba , Chico Mazzoni e Wasghinton Falcão. Inicialmente Juarez tinha sido convidado para fazer umas obras no local do antigo galinheiro onde Irmã Dulce começou sua saga de pegar pessoas abandonadas nas ruas e trazê-las para tratá-las como seres humanos que eram. As 28 obras  segundo  Juarez Paraíso  dos  14 artistas foram executadas como desenhos e gravados em chapas de aço , à semelhança da gravura em metal, da água forte. 

Essas obras foram fixadas em 28 totens de madeira de autoria do arquiteto Adriano Mascarenhas. Decorridos 15 dias de inaugurado o projeto os trabalhos começaram a ser vandalizados , e ontem, Juarez Paraíso recebeu a notícia triste que várias dessas obras foram riscadas com um objeto cortante. Ele acrescentou que este vandalismo acontece em nossa Cidade por completa ausência de qualquer policiamento. É bom lembrar que o Quartel e a Escola da Polícia Militar ficam nas imediações  do caminho onde as obras estão instaladas.

Juarez falou ainda que a situação é tão caótica com relação a segurança pública que agora quando algum órgão encomenda um busto ou uma estátua para ser colocado em praça pública ou numa avenida solicitam que não sejam feitos em bronze, que é muito mais duradouro e pujante, e sim em fibra de vidro porque os roubos são muitos desses monumentos.

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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

MAIS UMA CRISE ABALA O MAM - BAHIA

Localizado num majestoso sítio, que é o
Solar do Unhão, o MAM-Ba vem enfrentando
uma série de crises e má gestões.
Mais uma crise se abate sobre o Museu de Arte Moderna da Bahia, que está acéfalo sem direção. Uma série sucessivas de crises vem contribuindo para que esta relevante instituição e espaço para os artistas baianos venha perdendo sua importância. Tudo isto é resultado  de uma política cultural retrógrada que se abateu sobre a Bahia nos últimos vinte anos. Lembro que numa determinada gestão sumiu o Livro de Tombo, onde deveriam estar registradas todas as obras do acervo; acabaram com o Centro de Cultura Popular, que funcionava num galpão do conjunto arquitetônico do Solar do Unhão, cujo acervo foi organizado por Lina Bo Bardi; noutra gestão nem papel tinha para fazer um ofício; o pier permaneceu interditado por anos; fecharam o restaurante; realizaram bailes carnavalescos em seu pátio e uma reforma do sistema elétrico levou anos,nem sei se já concluiram. Enfim, o Mam quase sempre foi e continua sendo maltratado por governos e gestores colocados lá politicamente. Não basta gostar de arte, ser artista , crítico de arte ou museólogo.É  preciso saber se o diretor é um bom gestor, se tem capacidade de gerir, de atrair colaboradores e público com suas ações para inserir o museu envolvendo os artistas baianos.
A bela escada idealizada por Lina Bo Bardi
foi inspirada no carro de bois. Não tem
pregos, tudo é encaixado.

Antes o MAM-Bahia era vinculado diretamente à  Fundação Cultural da Bahia. Hoje, juntamente com os demais 11 museus está vinculado ao IPAC , que não tem qualquer expertise como gestor ou coordenador de museus. Este órgão já mostra total incapacidade de cuidar do nosso Patrimônio Histórico ,Artístico e Cultural que está visivelmente caindo aos pedaços. Centenas de casarões do Centro Histórico e seu entorno  estão em péssimas condições, e para complicar transferiram para o IPAC a coordenação dos museus. 

O museu chegou a atrair quase 200 mil pessoas por ano para sua sala de cinema, sua galeria ao ar livre, além da galeria na capela e os dois salões principais. Era um museu-escola respeitável e ajudou na formação de muitos artistas que estão ai no mercado de arte. Mesmo antes de fechar suas oficinas já mostravam fraqueza por falta de gestão, incentivos e verbas. Mas, na verdade o museu nunca integrou e prestigiou os artistas baianos depois da sua primeira década de fundado. Sempre teve um olhar para fora e não conseguiu criar um pertencimento, uma relação forte com a grande maioria dos artistas baianos. Sempre pequenos grupos foram beneficiados e conduziram o seu destino ajudados por gestores incompetentes.

As Oficinas de arte sempre interrompidas.
Fundado em 1960 pela arquiteta Lina Bo Bardi que a convite do então governador  Juracy Magalhães  foi convidada para criar um museu-escola, trazendo sua experiência após a construção do Museu de Arte Moderna de São Paulo, juntamente com seu esposo Pietro Maria Bardi.Inicialmente o museu foi instalado no foyer do Teatro Castro Alves , e já em 1963 foi definitivamente transferido para o conjunto arquitetônico do Solar do Unhão, datado do século XVIII. O casal tinha esta concepção de um museu escola em movimento dai a realização de cursos e estratégias para a construção de público e abrir o museu para a comunidade.  Expõe na Exposição Nordeste  no Ibirapuera, em São Paulo ,várias peças coletadas em várias regiões do Nordeste Brasileiro como em Pernambuco,Ceará, Bahia , dentre outros estados. Foi dai que surgiu a oportunidade dela vir criar o MAM aqui. Estas peças iriam  participar de uma exposição numa feira de designe em Milão, na Itália, mas houveram uns contratempos  e ficaram encaixotadas por anos no porão do MASP.

Lembra o artista Justino Marinho que " a direção do MASP ,onde as peças estavam num porão , conseguiu que o Governo da Bahia através do Diretor da Fundação Cultural, Geraldo Machado trouxesse as peças. Durante muitos anos estas peças ficaram encaixotadas num depósito da entidade e muitas se perderam. A  maioria foi restaurada pela museóloga Mary do Rio e estão expostas no Museu do Solar do Ferrão."

Peças de cerâmica nordestina. Ilustração do
Museu do Ferrão.
A arquiteta italiana conseguiu imprimir muitas atividades e o MAM era realmente um centro vivo de cultura com várias exposições importantes e formando um acervo considerável com obras de grandes artistas. Ela inclusive fez algumas viagens ao interior do Nordeste documentando e adquirindo peças do artesanato popular que foram expostos em São Paulo durante a V Bienal Internacional . Depois as peças vieram para o MAM, e ela  montou num galpão do mesmo conjunto arquitetônico o Centro  de Cultura Popular com inúmeras peças utilitárias e até mesmo do vestuário nordestino coletadas nos anos 50 e 60. Sua origem foi a coleção de Martim Gonçalves, que dirigiu a Escola de Teatro da Ufba, e posteriormente ampliado por Lina . Com seu olhar atento ela conseguiu reunir um acervo considerável deste material com peças utilitárias e figurativas,carrancas,ex-votos,imaginária, esculturas em cerâmica, fifós, panelas de barro,brinquedos,dentre outros. Fez uma pesquisa de caráter etnográfico. No início deste ano as peças reapareceram, e estão agora em exposição permanente no Solar do Ferrão.

Museu Escola Comunidade o seu programa cultural foi diversificado com cursos de artes plásticas, xilogravura , litogravura, serigrafia,escultura em madeira, cerâmica, na opinião de Juarez Paraíso. Os alunos tinham assistência individual sem interferir no criativo de cada um.  De 1980 a 1988 segundo ele não houve até que chega a Solange Farkas, de São Paulo,  e fecha as oficinas e acabou com o único salão de artes plásticas que tinha e que fora criado pelo ex-diretor Heitor Reis. 

As oficinas voltaram tempos depois, porém nunca mais tiveram aquele caráter criativo e educativo , e não atriaram tantos talentos como na sua primeira fase. Hoje, estão fechadas como também o próprio museu.

                                                   MOVIMENTO

Pátio do Solar do Ferrão, usado para 
apresentações musicais , teatrais e exposições
ao ar livre.
Cheguei a enviar várias mensagens para os artistas baianos no sentido de nos movimentarmos com vistas a abertura e revitalização do Museu de Arte Moderna da Bahia . É inadmissível que o MAM fique fechado .Acho que tem que ser um movimento em prol do museu que vem sofrendo nas últimas décadas um esvaziamento e  descaso do Governo. Este movimento deve ser  apartidário,  e o seu objetivo  deveria ser  o fortalecimento do MAM e a volta de suas oficinas, que tantos talentos incentivou. 

A pandemia não é motivo para esta leniência dos responsáveis pela produção das artes visuais em nosso Estado. Entendo que todos nós temos responsabilidades para com esta instituição e podemos através de ações , divulgação e critica a este descaso conseguir a sua abertura , e principalmente exigir a sua revitalização. Não adianta só abrir e ficar na letargia que vem há quase duas décadas.

As reações e respostas foram diversas. Uns alegaram a dificuldade de uma ação devido a pandemia, outros que tinham solicitações junto à Secretaria de Cultura e isto poderia prejudicá-los, outros que o museu sempre esteve distante dos artistas baianos e que beneficia apenas grupos específicos. Alguns mais afoitos falaram em ocupação . Enfim, a ideia está posta. Não quero liderar nada. Quero participar, ajudar . Falei que no primeiro momento criaríamos uma comissão e marcaríamos uma entrevista denunciando o absurdo; faríamos um documento assinado por um grande número de artistas , e a terceira etapa seria uma manifestação na frente do Solar do Unhão denunciando o descaso para com o MAM.






Postado por BLOG DO REYNIVALDO às segunda-feira, dezembro 21, 2020 9 comentários:
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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

ALBERTO VALENÇA UM MESTRE DA PINTURA BAIANA


Nunca é demais para se falar e enaltecer um grande artista. Àqueles que nos brindaram com sua sensibilidade e sua arte merecem sempre ser lembrados, e é com muita alegria que vejo a professora Vera Spínola escrever um livro dedicado ao pintor  Alberto Valença, um dos mais respeitados e reconhecidos mestres da pintura baiana. Se vivo estivesse estaria completando 131 anos . Chamado de "O Poeta das Cores" e "Mago dos Acadêmicos Baianos"  Alberto Valença foi discípulo de Manuel Lopes Rodrigues. Introspectivo e exigente no seu ofício foi contemporâneo dos mestres Presciliano Silva e Mendonça Filho.
Ao lado seu autorretrato pintado em 1942 com 48cm x 40cm. Nesta obra tem uma dedicatória dele para seu filho Antônio Alberto Valença como se o autorretrato foi pintado em 1922, mas a data certa é 1942.

Vera Spinola e seu esposo o
Antônio Alberto Valença.
Nasceu na cidade de Alagoinhas em 7 de junho de 1890 e foi batizado com o nome de Alberto de Aguiar Pires Valença . Para escrever o seu livro Conversando com a  Pintura de Alberto Valença - Um Romance Biográfico a professora Vera Spínola percorreu um longo caminho partindo da intimidade de sua casa, onde importantes obras de Alberto Valença estão nas suas paredes presenciando o dia a dia da autora e a convivência como o único filho homem do pintor o economista Antônio Alberto Valença. Portanto, além das suas pesquisas em museus, institutos culturais e fontes bibliográficas ela dispôs  em sua própria casa de uma fonte primária de importância relevante que é o filho do homenageado , seu esposo.

Breviário - Sacristia do Convento de
São Francisco,1929 com 65 x 55 cm
O pintor Alberto Valença era considerado muito meticuloso e consta que mandou queimar em momentos diferentes várias obras que fez e não gostou. Este rigor  carregou por toda a vida e isto talvez tenha influenciado em não ser mais conhecido como deveria entre o grande público. Aos 35 anos de idade ganhou o Prêmio Caminhoá e foi estudar na França na famosa Academia Julian, onde manteve contatos com grandes mestres do impressionismo e do expressionismo francês e de outros países que lá ensinavam e estudavam. Passou uma temporada na cidade de Concarneau, na região da Bretanha, onde pintou a paisagem e também moradores , especialmente pescadores .

 Não era muito chegado a trabalhar em atelier. Gostava de pegar seu material de pintura e se postar diante da natureza para captar a luz e os elementos que compunham determinada paisagem. Muitas vezes voltava no mesmo horário para continuar a sua obra. E, se lá chegasse o tempo estivesse muito diferente do dia anterior ele voltava para casa e retornava ao local no dia seguinte. Gostava de pintar pela manhã e quando o tempo esquentava muito suspendia seu trabalho. 

Retrato d. Ana 
Cerqueira Lima,
de 1932
.
 Quando fazia retratos, pois ele foi um grande retratista, os seus retratados passavam muito tempo posando para que ele pudesse captar toda a expressão. Não gostava de pintar olhando a foto do retratado. Tem um episódio que ocorreu quando ele pintava d. Romana Calmon, , mãe do saudoso jornalista Jorge Calmon . Ela cansou de tanto posar para o pintor. Ai combinaram que ele  terminaria o rosto, e o traje seria  pintado olhando uma fotografia. Dizem que ele não teria ficado confortável com esta opção. 

Em 1925  faz sua segunda exposição individual em Salvador e ganha o prêmio para ir estudar na França, na famosa Academia Julian. No ano seguinte vai para a região da Bretanha , onde , segundo o saudoso professor Clarival do Prado Valadares, realiza inúmeros estudos , manchas e telas , sobretudo em Concarneau, Finistère ,Pont-Aven e outras localidades, entre pinturas ao ar livre e retratos de modelos locais.  Já em 1928 chega a Salvador e retornar suas idas de bonde para pintar as paisagens baianas. Sua produção passa anos depois a ser comercializada através a Galeria Georges Petit, que ficava na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Isto no ano de 1932 quando participa do Salão Nacional de Belas Artes e apresentou um único 

Paisagem Manhã na Praia de Ubarana, Amaralina -
 1920- Acervo Museu Nacional de Belas Artes , R
J
 trabalho o retrato de d. Ana Cerqueira Lima, que era esposa do almirante Cerqueira Lima que construiu os faróis que orientam os navegadores na Baía de Todos os Santos.  Inscreveu este trabalho no segundo prêmio e obteve a premiação Medalha de Prata. Talvez se tivesse inscrito para concorrer ao primeiro prêmio, poderia ter conquistado.Com o falecimento de sua esposa Lectícia aos 34 anos ele fica muito abalado . Porém continuou pintando e foi ensinar na Escola de Belas Artes .Lembra Vera Spinola que em 1949 ele participou do 1º Salão Baiano de Belas Artes quando ganhou a Medalha de Ouro  com a tela Retrato de Dona Ana , neste mesmo salão a pintora Lygia Sampaio foi premiada também. Casou aos 48 anos de idade com Lecticia Machado ,de apenas 28 anos de idade que era sua aluna na Escola de Belas Artes. Aos 55 anos estava viúvo e com um filho o Antônio Alberto Valença , esposo de Vera Spinola, autora do livro que será lançado no Museu de Arte da Bahia, com uma exposição ainda a ser anunciada. Dai em diante assumiu uma postura ainda mais introspectiva, andava sempre com roupas escuras . Tem um segundo relacionamento com a jovem Joana Amélia  nascendo em 1951 Maria Amélia Valença.

Por do sol do convento do Desterro, 1929-1930 - 
Acervo Museu Costa Pinto.
Ele costumava pegar o bonde dos Aflitos,onde morava,  e seguia para a península itapagipana porque gostava de pintar as paisagens, a praia do Bogari e outros locais. Sempre pela manhã . Levava muito tempo para concluir as suas obras, embora  olhando e guardando a distância e o tempo alguns podem chegar a conclusão apressada que foram feitas rapidamente , sem ocupar muito tempo, porque algumas delas não são muito detalhadas. Manchas que se juntam para formar uma obra de alta qualidade. 
Em 1961 , aos 70 anos de idade escolhe o Convento do Carmo, no Centro Histórico de Salvador, como local para pintar. Era uma espécie de refúgio porque a cidade já estava diferente com a presença de moleques nas praias onde ele antes gostava de pintar. Mesmo no interior do convento suas pinturas sempre mostram uma réstia de luz. Valença era um observador atento da luminosidade que embeleza e clareia as belezas das paisagens e casarios nos trópicos.  Nada menos que vinte e sete importantes obras do pintor estão desde 1969 no acervo do Museu Carlos Costa |Pinto, que fica no Corredor da Vitória, em Salvador. Vale a pena aprecia-las. 

Em 1970 já estava com a visão comprometida dificultando sua capacidade de pintar, e foi neste ano que foi organizada uma exposição retrospectiva no Museu de Arte Sacra da Bahia, que fica na Ladeira da Preguiça, com sessenta e uma obras dos acervos de museus e particulares.

Em 1979 Clarival do Prado Valadares já tinha documentado cerca de 200 obras de Alberto Valença, e 

 Obra Cais de Concarneau - Bretanha- França 1927
34cm x 41 cm. Acervo Museu Costa Pinto.
Vera Spínola acredita que chegam perto de umas 500 obras pintadas durante sua existência , porque ele pintou  até os 83 anos de idade, e deixou algumas obras inconclusas devido a dificuldade visual. O esperado livro de Vera Spínola será uma excepcional oportunidade de conhecermos melhor o mestre Antônio Valença não apenas como o pintor de grande talento que foi, mas também sua intimidade, o homem através de depoimentos de pessoas da própria família, especialmente seus dois filhos Antônio e Maria Amélia que conviveram muito com ele e conheceram a sua essência. Vera portanto é uma escritora privilegiada por ter estas fontes primárias e ainda a expertise de pesquisar . Devido a pandemia o livro Conversando com a  Pintura de Alberto Valença - Um Romance Biográfico possivelmente será lançado no Museu de Arte da Bahia em junho do próximo ano, quando o pintor completaria 131 anos de existência. Vamos aguardar .



Postado por BLOG DO REYNIVALDO às terça-feira, dezembro 15, 2020 4 comentários:
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terça-feira, 20 de outubro de 2020

GLEI MELO PARTIU DEIXANDO SUA ARTE ABSTRATA

O artista Glei  Melo
Num pequeno espaço de tempo dois artistas partiram para outra dimensão. Falei recentemente do Terciliano, e agora foi a vez do carioca, radicado há muitos anos aqui, o Glei Melo que se destacou por suas xilos abstratas e também por ser um dos pioneiros a usar as ferramentas da aerografia. O conheci ainda jovem no Instituto Brasil-Alemanha, ICBA, que fica no Corredor da Vitória, que nos anos 60 teve uma grande importância por ser uma porta aberta à cultura baiana. Frequentei muito o ICBA, e quando o saudoso Hansen Bahia deu um dos cursos de xilogravura cheguei a me inscrever, e lá o Glei Melo apareceu. Depois desta época o vi esporadicamente. Mantive a coluna por vários anos e não lembro do Glei Melo ter aparecido para divulgar alguma exposição que fez ou evento que ia participar. Soube que tinha um temperamento meio arredio e sempre estava falando de perseguição política. Talvez porque seu pai Geraldo Cabral de Melo ,que era jornalista e colunista no Jornal da Bahia,pertencia ao Partido Comunista Brasileiro - PCB , ter sido preso . O  Glei chegou também a ser detido durante o regime militar, e estes fatos devem ter contribuído para seu comportamento através dos anos.
Esta gravura abstrata atesta a qualidade de sua produção.
Até a grafia do seu nome aparece com i e y . Na realidade o seu nome é Glei Cabral de Melo, e faleceu na última sexta-feira, dia 16, no Hospital Português aos 76 anos de  idade, vítima de um câncer. Era natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1944 e deixou três filhos Iana, Ramon, Hermes, e um neto o Uriel. De 1960 a 1963 foi aluno de Guinnard ,na Escola Parque , em Belo Horizonte.Em 1963 veio para Salvador onde fez curso de gravura com Henrique Oswald. Frequentou os ateliers de Pancetti e Jenner Augusto.
 Ele faz parte da segunda geração de Artistas Modernos da Bahia , juntamente com Sante Scaldaferri, Riolan Coutinho, Edízio Coelho, Calasans Neto,Jamison Pedra, Juarez Paraíso, Edvaldo   Estivalet, Renato da Silveira, Leonardo Alencar,Yeda Maria, Edison da Luz, dentre outros.Suas gravuras abstratas são destaque na  sua produção artística.
Obra  feita com aerógrafo
Num texto escrito pelo mestre Juarez Paraíso ele diz que "a sua contribuição foi diversificada e sempre pioneira ,tendo participado do primeiro happening realizado em Salvador, durante a I Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia , em 1966. Foi também, senão o primeiro, a grafitar , quando em 1967 realizou um deslumbrante Grafite em temática orgânico-floral-vaginal e no estilo barroco psicodélico, cobrindo toda uma fachada de uma das casas do Beco Maria da Paz.Também, as primeiras pinturas aerográficas e luminosas de Salvador são de sua autoria."

Em 1970 ingressa na Escola de Belas Artes , mas a abandonou no penúltimo semestre onde cursava Licenciatura em Desenho e ]Plásttica. Foi curador de uma exposição chamada Paralelo 78 que reuniu os artistas Francisco Liberato, Almandrade,Humberto elame e Juarez Paraíso, e também fundou o  Centro de Pesquisa e Documentação da Arte Moderna e Pós-Moderna, inclusive realizou o I Congresso Nacional de Cores, no Centro de Convenções da Bahia .
Uma gravura heteroforme.
Sua primeira individual foi em 1964 onde mostrou xilogravuras e monotipias. Foi morar nos Estados Unidos devido a problemas políticos e lá experimentou vários empregos para sobreviver, até trabalhar

na Filadelfia na P.A.D - Promotion Advertisement Design, sendo programador visual. Chegou a ter cidadania americana por ser casado com a americana Laurie Bickoff , mas foi para o México com receio de ser convocado para servir no Vietnã. Depois retornou ao Brasil em 1977.Aqui participou do Curso de Gravura que reuniu importantes artistas  se diferenciando dos demais porque ,segundo Juarez Paraíso "suas realizações eram menos instintivas, gestuais, dependendo mais da elaboração racional, pensada, pesquisada mais em função dos efeitos da estrutura formal na conjuntura do dualismo figura-fundo, o que bem se destaca nas Heteroformes."

Glei Melo, Juarez Paraíso, Genaro de
Carvalho,Vivaldo Costa Lima, Geraldo
 Rocha, Emanoel, Sante e Liberato.
Participou também dos famosos álbuns de gravuras da Galeria Bazarte, de José Marques Castro que teve uma Sala Especial na Primeira Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, em 1966. Expôs na Galeria Convivium, Galeria Canizares , na Feira de Arte da Piedade, e em outras exposições de gravuras.Portanto, suas gravuras abstratas estiveram presentes na década de 60 em vários eventos . Criou  as logos do Iderb e da Ebec ,ilustrações para algumas publicações, capas de livros, inclusive para o jornal de contra cultura o Verbo, de Alvinho Guimarães.
A casa grafitada 
Não se destacou mais devido a seu temperamento introspectivo. Era adverso ao que considerava fazer concessões para ter um maior reconhecimento público através a mídia , e assim partiu quase silenciosamente deixando ai o seu legado de obras para serem apreciadas sempre.
 Estava tentando encontrar dados sobre ele e devido a dificuldade tinha quase desistido quando soube deste texto do mestre Juarez Paraíso enviado pela artista Isa Oliveira ,e seu filho Ramon entrou em contato comigo  fornecendo algum material e imagens de obras do Glei Melo.
Ao lado uma foto tirada do jornal A Tarde,de 1969, da casa no Beco Maria Paz, que foi grafitada pelo artista, e depois proibida por prepostos da  Prefeitura por considerar uma " pintura hippie horrível". O Glei esteve na redação do jornal acompanhado do colega Rafael Ducat para denunciar a pressão de três agentes da Prefeitura exigindo que apagassem o grafite.
 
 








Postado por BLOG DO REYNIVALDO às terça-feira, outubro 20, 2020 Um comentário:
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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

TERCILIANO, DEIXA O REGISTRO DE UMA ARTE LIGADA À CULTURA AFRO

Este é o Terciliano que conheci 
sempre  pronto para dialogar.
Para minha surpresa hoje, dia 7, soube da morte do pintor baiano Domingos Terciliano Alves Jr. Ele vinha adoentado, e nos últimos dois meses conversamos sobre as antigas galerias . Terciliano me forneceu através o zap material para escrever alguns artigos sobre antigas galerias, especialmente a Galeria Bazarte, onde ele expôs e a frequentou com certa intensidade. Ele possuía alguns dos famosos álbuns de gravuras editados pela galeria. Ainda teve a gentileza de fotografar parte dos álbuns e algumas gravuras que publiquei nesta coluna, inclusive com  informações sobre o próprio artista.
Notei que estava fazendo um esforço para falar sobre o assunto. Deste dia em diante sempre enviava , de quando em vez , uma mensagem para saber como  estava. Na última que me respondeu  disse que  aguardando os resultados de uns exames e mostrava-se preocupado, mas esperançoso. "Olá! Boa tarde amigão. Tive uma melhorada ,mas não é aquela que espero, vou entrar em um tratamento delicado, daqui a uma semana".  Depois silenciou. Percebi que algo de ruim estava acontecendo com o Terciliano. Procurei de outras formas me informar, mas não consegui, e hoje, para minha surpresa , li a nota nas redes sociais do seu falecimento.
Perde sua família, perde a Bahia Cultural e perdemos nós que mantíamos alguma ligação afetiva com ele , e os que admiram a sua arte, cuja produção  é interrompida para sempre. Terciliano era um artista talentoso que preservava suas origens no candomblé e se manifestava com suas cores vibrantes e um desenho qualificado dos personagens que criava em suas obras . Consciente e discursivo o Terciliano chegava a se inflamar para defender suas ideias e seus princípios.
Fez uma carreira sólida aqui e chegou a fazer algumas exposições lá fora .Foi  premiado na França, coisa que ele se orgulhava muito. Lembro que quando colhia informações para o artigo que fiz sobre a Galeria Bazarte  me enviou fotos da solenidade onde sua arte foi premiada.
Terciliano concentrado em seu trabalho .
Ele já estava adoentado, mas pouco falava sobre sua doença. Sempre perguntava sobre sua saúde e  respondia com poucas palavras. Veja ai um trecho do que escrevi : 
"O artista Terciliano Jr. ao completar 50 anos de atividades artísticas  em 1972 fez uma exposição, no Sesc, de Pompeia, em São Paulo , juntamente com o escultor Chico Diabo, já falecido. Nesta exposição ele prestou uma homenagem ao seu Castro  e escreveu este texto  no catálogo:
"Há 30 anos atrás a Bahia estava com o céu azul mais do que o normal . O sol brilhava de forma tão grandioso que os paralelepípedos da Ladeira do Pelourinho refletiam as fachadas dos casarões de antanho como um espelho. O mar era uma explosão de cores em fusão marítima, a água ao mesmo tempo era clara e transparente dando para ver Yemanjá lá no fundo com os peixes acariciando seus cabelos . A lagoa do Abaeté cercada de verde com as flores amarelas protegida por Oxóssi. O céu azul protegido por Oxalá, a areia alva, a água negra da cor da minha pele, serviam como composição da beleza de Oxum. Todos os negros ,brancos e mulatos baianos cantavam para todas as divindades radicadas na Bahia pela chegada de um branco,preto e mulato paulista que seria batizado, adotado e confirmado por todos os deuses afro-baianos. J. Castro era o seu nome.Ou seu Castro como todos nós o chamávamos .Tornou-se filho da Bahia, amigo e companheiro dos artistas e intelectuais baianos. Fundou a Galeria Bazarte . E de lá nasceram Reinaldo Eckenberger, Terciliano Jr., Emanoel Araújo,Chico Diabo,  Edison da Luz, Kennedy Bahia, Kabá Gaudenzi, Luana ( manequim),Carlos Henrique e Eurico Luiz. Os que passaram João José Rescala, Raimundo Oliveira, Sônia Castro, Gley Melo, Jamison Pedra e muitos outros. Amigo de Genaro de Carvalho, Juarez Paraíso e Jorge Amado, tendo por este último uma grande admiração.
Obra do artista onde vemos elementos afros.
Ele descobriu um recanto poético baiano, e  pretendia transformar numa vila residencial dos artistas em Arembepe Em uma tarde ensolarada e cercada de beleza por todos os lados no local citado, ouviu através o ronco do mar, auxiliado pela brisa que existe algo de maravilhoso por ali. Era uma Atlântida que existe ( ou existia, porque ele se foi com seu Castro) e ele ia mostrar para a Bahia e o mundo, a sua existência. O próprio Gilberto Gil ouviu o relato do seu Castro. J. Castro foi um fruto paulista  para a alimentação cultural baiana. Ramificou sua sabedoria os pincéis, formões e palavras para que as pessoas dessem continuidade , e depois criassem seus caminhos em traços, formas e composições para o mundo. A Bahia ficou de luto. O terreiro de Amoreira lá em Itaparica foi reivindicado por todos os Orixás para a cerimônia de Egun. O acervo da Bazarte só recordações de um prelúdio de glória".
Em 2008 o artista Terciliano Jr. foi homenageado pela Academia de Artes e Ciências e Letras de Paris, pelos relevantes serviços prestados à Cultura brasileira, principalmente a baiana. Ele era ligado ao terreiro do Bate Folha onde seu tio Bernardino foi o fundador e o babalorixá mais importante. Terciliano nos deixou ao 81 anos de idade ,vítima de câncer. 
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