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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O CARTUNISTA PAULO SERRA COMEMORA 50 ANOS DE MERO

O cartunista baiano Paulo Serra 
tem cinquenta anos de estrada.
É hora de comemorar os 50 anos de uma heroica luta ecológica de um artista que criou o personagem Mero em 1976 e até hoje continua combatendo o desmatamento e a morte de animais silvestres em sua luta cotidiana pela ecologia em nosso país, e em particular  em Abrantes, onde reside, e no seu entorno. Seu criador é o cartunista, ilustrador, publicitário e escritor Paulo Serra que já escreveu alguns livros e dezessete cartilhas, num total superior e cem trabalhos gráficos,  todos falando e enfocando a necessidade de preservação de nossos recursos naturais. Paulo Serra aos setenta e três anos de idade fala e discorre com facilidade sobre os temas ligados a ecologia com a mesma força e com o mesmo a entusiasmo de quando o conheci em 1982 na redação do Jornal A Tarde. Na ocasião lhe apresentei ao dr. Jorge Calmon, que era o Redator Chefe do jornal, para que ele lhe mostrasse suas tiras de quadrinhos com o personagem Mero. O encontro foi proveitoso e assim passou a publicar durante alguns anos semanalmente as tiras focadas na ecologia, que na época era um assunto em alta. 

Agora vai realizar uma exposição retrospectiva de sua luta meritória  na Flipelô. A Festa Literária Internacional do Pelourinho-Flipelô começa hoje dia 5 e vai até  9 de agosto de 2026, marcando sua 10ª edição e os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, no Centro Histórico de Salvador, com atividades em espaços como o Café Teatro Zélia Gattai e na Casa Caixa. Será uma oportunidade ímpar para as pessoas que gostam de arte e literatura manterem contatos com artistas e escritores que participarão da Flipelô e conhecer toda a trajetória do cartunista Paulo Serra, que já recebeu a Medalha do Mérito Ambiental Mário Leal Ferreira, concedida pela Câmara Municipal de Salvador, por indicação do vereador do PV, André Fraga.  Ele está apresentando trinta pranchas resumindo sua caminhada durante os cinquenta anos, e está ultimando uma publicação pela Editora Victor, de Isabel Delmondes, sobre Ecologia. O cartunista está  contando toda a história de como começou e criou o personagem Mero que já foi publicado em mais de sessenta jornais e revistas de todo o país.

                          SUA HISTÓRIA

Paulo Serra sempre foi um defensor ferrenho
da Ecologia e dedicou grande parte de
sua vida na defesa da Natureza.
Depois de algumas décadas sem contato presencial com Paulo Serra nos encontramos no meu escritório para relembrar coisas ligadas a seu Mero e falar de suas andanças. Seu nome de batismo é Paulo Roberto Meireles Serra e nasceu em casa no bairro do Canela, em Salvador no dia três de setembro de 1953.  É filho de Orlando Reis Serra, que era contador, e de d. Odelita Meireles Serra, dona de casa. Passados alguns anos seus país foram morar na cidade de Mundo Novo, interior da Bahia, onde ele fez parte do curso primário. Em seguida seus pais retornaram a Salvador e foi estudar na Escola Jesus, Maria José que funcionava no Forte de São Pedro. Ao concluir o primário foi estudar no Colégio Antônio Vieira, no bairro do Garcia, onde permaneceu de 1964 a 1974 até concluir os cursos ginasial e colegial. Já no colégio juntamente com alguns colegas fundaram o jornal estudantil Jorbunalda, que era um jornal mimeografado onde fazia caricaturas de professores, escrevia piadas com seus colegas e professores e fazia críticas. Disse que nunca foram importunados pelos padres jesuítas do Colégio Antônio Vieira, nem mesmo pelo nome do jornal.

Ainda estudante colegial em 1971 juntamente com Bel Borba e o fotógrafo Marco Aurélio passaram a frequentar todos os domingos a Feira do Artesanato coordenada pela Bahiatursa. Esta feira foi criada na década de 70 para que os artistas do Centro Histórico, que vinha sendo recuperado, e de outros bairros de Salvador pudessem

A Lagoa do Abaeté foi uma de suas lutas até 
a criação do Parque Ecológico.
expor e comercializar em pequenas barracas seus produtos de arte e artesanato. Os três jovens vendiam xilogravuras e outros trabalhos. Lembra Paulo Serra que as vendas eram poucas e na década de 90 foi desativada. Ao concluir o colegial decidiu ir morar em São Paulo e matriculou-se nas Faculdades Integradas Alcântara Machado onde concluiu o curso de Publicidade. Estudou na capital paulista graças ao crédito educativo e ajuda de seu avô materno Deocleciano Meireles, por quem tem uma gratidão eterna. Para sobreviver com mais dignidade passou a comercializar seus cartuns enfocando o casario colonial, as baianas do acarajé, pescador, vendedor de coco na praia e outros personagens populares da Bahia, além das matrizes de xilogravuras, porque não dispunha de prensa para reproduzir cópias em papel. Ele fazia as matrizes e pintava vendia nas famosas feiras de arte e artesanato do estado de São Paulo: a Feira de Artesanato da Praça da República, o polo cultural de Embu das Artes e nos eventos sazonais no Parque Ibirapuera.

                                                      NASCIMENTO DE MERO

A imagem do Mero nasceu de uma rachadura 
num muro na capital paulista
.
O seu personagem que o acompanha a décadas surgiu do acaso. Certo dia ele ia num ônibus para a aula de Educação Física, porque nas Faculdades Integradas Alcântara Machado não tinha espaço suficiente para a aulas de educação Física. Quando estava no ônibus avistou uma parede rachada em forma de um corpo humano e sem a cabeça. Guardou aquela imagem, e ao voltar para casa desenhou e acrescentou a cabeça e colocou uma gravata. Estava criado o personagem que durante cinco décadas vem sendo um defensor e guardião da Ecologia.  Disse "o cartunista que alguns reparam que o personagem é corcunda. Mero nasceu assim, é um personagem diferente. Em seguida precisava achar um nome para meu personagem e estava lendo um livro quando me deparei com o nome de um peixe chamado mero. Fui ao dicionário e lá estava escrito que mero significa algo simples, comum, puro ou sem grande importância, e nomeia um peixe grande do mar. O peixe mero pertence à família dos serranídeos (Serranidae), que inclui peixes conhecidos como os badejos, garoupas e chernes e seu nome científico Epinephelus Itajara significa "senhor das pedras" em tupi. Pode medir até três metros e passar dos 400 quilos. É dócil e não tem medo do homem e por isto está ameaçado de extinção." O artista Paulo Serra vibrou quando descobriu a coincidência de que o mero é da família serranídeos, que lembra seu sobrenome Serra.

Depois criou dona Mera e  o filho Merinho.
Já em São Paulo "fui olhar minha mala e encontrei uns desenhos antigos que tinha levado daqui e um deles era de uma mulher regando um prédio, numa verdadeira floresta de prédios. Foi aí que surgiu a ideia de substituir a mulher pelo meu novo personagem e daí em diante ele foi ganhando força com novos cartuns, desenhos." Notou também que morando em São Paulo suas camisas apareciam com a gola suja e aquilo na década de 70 era fruto da poluição das chaminés. “Existia uma fábrica de cerveja da Brahma no bairro do Paraíso que além de exalar um cheiro horrível de cevada ainda poluía quando estava funcionando com suas chaminés trabalhando intensamente. Eram onze mil indústrias na cidade. Mas sempre dizia que ao se formar voltaria para Salvador, mesmo sabendo das oportunidades bem maiores de crescimento que São Paulo oferecia e oferece até hoje de crescimento na profissão."

Aqui chegando o jornalista e estudioso dos quadrinhos Gutemberg Cruz fez um Anuário dos Quadrinhos e incluiu o cartunista Paulo Serra, e em 2022 lançou o Grande Dicionário do Quadrinho Brasileiro, da Editora Noir, com 416 páginas. Este dicionário é uma grande

Mero já foi publicado em mais de sessenta
órgãos da imprensa em todo o país.
fonte de consulta dos quadrinhos em nosso país. Mero nasceu em outubro de 1976 e talvez tenha sido o primeiro personagem de cartum ecológico. Ele se queixa que nunca conseguiu vender um cartum como obra de arte. Muita gente acha que colocar um cartum, uma piada na parede não é bom porque envelhece. Mas, sabemos que Juarez Machado, Ziraldo, Caruso e outros sempre venderem seus cartuns que foram e são emoldurados e pendurados nas paredes. “Aqui para conseguir um local para mostrar os cartuns é muito difícil. Em São Paulo é bem mais fácil. Lá expus no Museu da Imagem e do Som – MIS. Através de uma colega de curso chamada Bárbara, ( ele não lembra o sobrenome, sabe apenas que tinha descendência italiana) levou seus cartuns para o jornalista Ari Silva, que era o dono da Gazeta da Zona Norte. Ele gostou e começou a publicar no seu jornal e depois conseguiu em outros jornais, e hoje o Mero já foi publicado em mais de sessenta jornais e revistas. Fez uma exposição no Planetário do Rio de Janeiro e teve boa visitação. Disse ainda que o Mero é o educador e em seguida criou a família. O Merinho é um menino teimoso, que joga game, consumista e é abusado. Já a mãe a d. Mera é conciliadora e gosta de plantas. O Mero não fala dentro do balão dele. Quando o Mero fala eu desenho e quem vê tem que decodificar o desenho e com isto rompo a fronteira da escrita porque o desenho é entendido em todas as partes do mundo. Se inspirou nos filmes mudos de Charles Chaplin onde as pessoas têm que entender até o que ele está pensando... Expôs também no Planetário , do Rio de Janeiro e em outros estados .

Um selo comemorativo.
Quando retornou em 1980 voltou para Salvador e foi trabalhar na DM9, que era  uma grande empresa de publicidade baiana, mas ficou por pouco tempo. Começou a publicar suas tiras no jornal A Tarde a partir de 1982 no Caderno Econômico e ficou até 1995. Na realidade recebia muito pouco por suas tiras. Foi procurar os grupos ecológicos e entrou para o Gambá onde fazia todas as ilustrações das publicações necessárias. Levou uns dez anos, e em seguida foi para o Germem, que era dirigido por José Augusto Saraiva, já falecido, por quem ele tem gratidão. Aí participou de estudos sobre a Baía de Todos os Santos, sobre os manguezais, da Lagoa do Abaeté. Confessou o Paulo Serra que tem um amor especial pela Lagoa do Abaeté onde passou uns dez anos indo quase diariamente fotografando, desenhando e lutando por sua preservação. Confessa que a maior luta ecológica do Mero foi pela Lagoa do Abaeté. Lembrou que a Área de Proteção Ambiental (APA) das Lagoas e Dunas do Abaeté foi criada em 22 de setembro de 1987 por meio do decreto estadual nº 351. Posteriormente, em 3 de setembro de 1993, foi instituído no local o Parque Metropolitano do Abaeté. 

RESERVA ECOLÓGICA

 Ele contou uma história que merece registro. Graças ao saudoso professor e artista plástico Alceu Lisboa que era dono do então Colégio Nobel, do bairro do Itaigara – recentemente falecido – ele foi fazer em 1990 uma palestra sobre Ecologia e desenhar

A Reserva Espinita  exemplo de preservação.
com as crianças. Em 1990, um episódio marcante mudou os rumos da família. O Antonio Maia tinha 14 anos, relatou ao cartunista e ambientalista Paulo Serra o triste dia em que um caçador derrubou uma árvore para matar uma preguiça na propriedade de seu pai. Comovido, Paulo Serra desenhou a cena em um cartum dedicado ao menino. Naquele instante, Maia teve a certeza que dedicaria sua vida à proteção das matas e animais da Espinita. Décadas depois, os dois se reencontraram, já com a Espinita reconhecida como uma Unidade de Conservação. O nome Espinita é de um bolero mexicano da década de 1940, interpretado pelo trio Los Panchos. O termo significa “pequeno espinho” e remete às desventuras de um amor não correspondido. Quando foi adquirida em 1973, a fazenda já carregava esse nome.”

Anos depois este garoto já homem feito, trinta e tantos anos depois,  o localizou foi até o seu sítio onde Paulo Serra reside em Abrantes, na Bahia,  para dizer que era gestor de uma fazenda transformada em um santuário ecológico. Trata-se de Antônio Lemos Maia Neto, que é o gestor da RPPN Espinita que fica no município de Igrapiúna, no sul da Bahia.A RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) é uma unidade de conservação (UC). Ela faz parte do grupo de uso sustentável de acordo com a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei nº 9.985/2000).” A Espinita pertence a Jazom Araújo de Oliveira que é alagoano,

Desenho de Paulo Serra feito para Antônio
Lemos Maia  no Colégio Nobel ,em 1990.
técnico agrícola e agricultor. Veio para a Bahia em 1971 para trabalhar no desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar no município de Camamu-BA. Foi discípulo, amigo e genro do engenheiro agrônomo Antônio Lemos Maia, responsável pela introdução de diversos cultivos agrícolas no Baixo Sul da Bahia”.“Já o Antônio Lemos Maia Neto é baiano, médico Veterinário formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília-(UnB). Filho dos proprietários, cresceu praticamente dentro da Espinita, perambulando e brincando por suas matas, riachos e plantações. Ainda criança descobriu também, na biblioteca de sua avó Wanda, o mundo dos grandes naturalistas que estudaram a biodiversidade brasileira. Na adolescência plantou sua primeira floresta com espécies nativas, recuperando um antigo roçado de mandioca. Também foi nessa época que começou a observar as aves, abelhas, plantas e outras formas de vida, com uso de binóculo, caderneta de campo, e mais tarde, da fotografia.” (Fonte Reserva Espinita).

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