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O cartunista baiano Paulo Serra tem cinquenta anos de estrada. |
É
hora de comemorar os 50 anos de uma heroica luta ecológica de um artista que
criou o personagem Mero em 1976 e até hoje continua combatendo o desmatamento e a morte de animais silvestres em sua luta cotidiana pela ecologia em nosso país, e em particular em Abrantes, onde reside, e no seu entorno. Seu criador é o cartunista, ilustrador, publicitário
e escritor Paulo Serra que já escreveu alguns livros e dezessete cartilhas, num total superior e cem trabalhos gráficos, todos falando e enfocando a necessidade de preservação de nossos recursos
naturais. Paulo Serra aos setenta e três anos de idade fala e discorre com
facilidade sobre os temas ligados a ecologia com a mesma força e com o mesmo a
entusiasmo de quando o conheci em 1982 na redação do Jornal A Tarde. Na ocasião
lhe apresentei ao dr. Jorge Calmon, que era o Redator Chefe do jornal, para que
ele lhe mostrasse suas tiras de quadrinhos com o personagem Mero. O encontro foi proveitoso e assim passou a publicar durante alguns anos semanalmente as
tiras focadas na ecologia, que na época era um assunto em alta.
Agora
vai realizar uma exposição retrospectiva de sua luta meritória na Flipelô. A Festa Literária Internacional do Pelourinho-Flipelô começa hoje dia 5 e vai até 9 de agosto de 2026, marcando sua 10ª edição e os 40
anos da Fundação Casa de Jorge Amado, no Centro Histórico de Salvador, com
atividades em espaços como o Café Teatro Zélia Gattai e na Casa Caixa. Será uma
oportunidade ímpar para as pessoas que gostam de arte e literatura manterem
contatos com artistas e escritores que participarão da Flipelô e conhecer toda
a trajetória do cartunista Paulo Serra, que já recebeu a Medalha do Mérito
Ambiental Mário Leal Ferreira, concedida pela Câmara Municipal de Salvador, por indicação do vereador do PV, André Fraga. Ele está apresentando trinta
pranchas resumindo sua caminhada durante os cinquenta anos, e está ultimando
uma publicação pela Editora Victor, de Isabel Delmondes, sobre Ecologia. O cartunista está contando toda a história de como começou e criou o personagem Mero que já foi
publicado em mais de sessenta jornais e revistas de todo o país.
SUA HISTÓRIA
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Paulo Serra sempre foi um defensor ferrenho da Ecologia e dedicou grande parte de sua vida na defesa da Natureza. |
Depois
de algumas décadas sem contato presencial com Paulo Serra nos encontramos no meu escritório para relembrar coisas ligadas a seu Mero e falar de suas
andanças. Seu nome de batismo é Paulo Roberto Meireles Serra e nasceu em casa
no bairro do Canela, em Salvador no dia três de setembro de 1953. É
filho de Orlando Reis Serra, que era contador, e de d. Odelita Meireles Serra,
dona de casa. Passados alguns anos seus país foram morar na cidade de Mundo
Novo, interior da Bahia, onde ele fez parte do curso primário. Em seguida seus
pais retornaram a Salvador e foi estudar na Escola Jesus, Maria José que
funcionava no Forte de São Pedro. Ao concluir o primário foi estudar no Colégio
Antônio Vieira, no bairro do Garcia, onde permaneceu de 1964 a 1974 até
concluir os cursos ginasial e colegial. Já no colégio juntamente com alguns
colegas fundaram o jornal estudantil Jorbunalda, que era um jornal mimeografado
onde fazia caricaturas de professores, escrevia piadas com seus colegas e
professores e fazia críticas. Disse que nunca foram importunados pelos padres
jesuítas do Colégio Antônio Vieira, nem mesmo pelo nome do jornal.Ainda
estudante colegial em 1971 juntamente com Bel Borba e o fotógrafo Marco Aurélio passaram a frequentar todos os domingos a Feira do Artesanato coordenada
pela Bahiatursa. Esta feira foi criada na década de 70 para que os artistas do
Centro Histórico, que vinha sendo recuperado, e de outros bairros de Salvador
pudessem
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A Lagoa do Abaeté foi uma de suas lutas até a criação do Parque Ecológico. |
expor e comercializar em pequenas barracas seus produtos de arte e
artesanato. Os três jovens vendiam xilogravuras e outros trabalhos. Lembra
Paulo Serra que as vendas eram poucas e na década de 90 foi desativada. Ao
concluir o colegial decidiu ir morar em São Paulo e matriculou-se nas
Faculdades Integradas Alcântara Machado onde concluiu o curso de Publicidade.
Estudou na capital paulista graças ao crédito educativo e ajuda de seu avô
materno Deocleciano Meireles, por quem tem uma gratidão eterna. Para sobreviver
com mais dignidade passou a comercializar seus cartuns enfocando o casario
colonial, as baianas do acarajé, pescador, vendedor de coco na praia e outros
personagens populares da Bahia, além das matrizes de xilogravuras, porque não
dispunha de prensa para reproduzir cópias em papel. Ele fazia as matrizes e
pintava vendia nas famosas feiras de arte e artesanato do estado de São
Paulo: a Feira de Artesanato da Praça da República, o polo cultural de Embu
das Artes e nos eventos sazonais no Parque Ibirapuera.
NASCIMENTO
DE MERO
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A imagem do Mero nasceu de uma rachadura num muro na capital paulista. |
O
seu personagem que o acompanha a décadas surgiu do acaso. Certo dia ele ia num ônibus para
a aula de Educação Física, porque nas Faculdades Integradas Alcântara Machado não
tinha espaço suficiente para a aulas de educação Física. Quando estava no
ônibus avistou uma parede rachada em forma de um corpo humano e sem a cabeça.
Guardou aquela imagem, e ao voltar para casa desenhou e acrescentou a cabeça e
colocou uma gravata. Estava criado o personagem que durante cinco décadas vem
sendo um defensor e guardião da Ecologia. Disse "o cartunista que alguns reparam que o
personagem é corcunda. Mero nasceu assim, é um personagem diferente. Em seguida
precisava achar um nome para meu personagem e estava lendo um livro quando me
deparei com o nome de um peixe chamado mero. Fui ao dicionário e lá estava escrito que
mero significa algo simples, comum, puro ou sem grande importância, e
nomeia um peixe grande do mar. O peixe mero pertence à família dos
serranídeos (Serranidae), que inclui peixes conhecidos como os badejos,
garoupas e chernes e seu nome científico Epinephelus Itajara significa
"senhor das pedras" em tupi. Pode medir até três metros e passar dos
400 quilos. É dócil e não tem medo do homem e por isto está ameaçado de
extinção." O artista Paulo Serra vibrou quando descobriu a coincidência de que o
mero é da família serranídeos, que lembra seu sobrenome Serra.
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| Depois criou dona Mera e o filho Merinho. |
Já
em São Paulo "fui olhar minha mala e encontrei uns desenhos antigos que tinha
levado daqui e um deles era de uma mulher regando um prédio, numa
verdadeira floresta de prédios. Foi aí que surgiu a ideia de substituir a
mulher pelo meu novo personagem e daí em diante ele foi ganhando força com
novos cartuns, desenhos." Notou também que morando em São Paulo suas camisas
apareciam com a gola suja e aquilo na década de 70 era fruto da poluição das
chaminés. “Existia uma fábrica de cerveja da Brahma no bairro do Paraíso que além
de exalar um cheiro horrível de cevada ainda poluía quando estava funcionando
com suas chaminés trabalhando intensamente. Eram onze mil indústrias na
cidade. Mas sempre dizia que ao se formar voltaria para Salvador, mesmo sabendo
das oportunidades bem maiores de crescimento que São Paulo oferecia e oferece
até hoje de crescimento na profissão."
Aqui
chegando o jornalista e estudioso dos quadrinhos Gutemberg Cruz fez um Anuário
dos Quadrinhos e incluiu o cartunista Paulo Serra, e em 2022 lançou o Grande Dicionário do Quadrinho Brasileiro,
da Editora Noir, com 416 páginas. Este dicionário é uma grande
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Mero já foi publicado em mais de sessenta órgãos da imprensa em todo o país. |
fonte de consulta dos quadrinhos em nosso país. Mero nasceu em outubro de 1976
e talvez tenha sido o primeiro personagem de cartum ecológico. Ele se queixa
que nunca conseguiu vender um cartum como obra de arte. Muita gente acha que
colocar um cartum, uma piada na parede não é bom porque envelhece. Mas, sabemos
que Juarez Machado, Ziraldo, Caruso e outros sempre venderem seus cartuns que
foram e são emoldurados e pendurados nas paredes. “Aqui para conseguir um local
para mostrar os cartuns é muito difícil. Em São Paulo é bem mais fácil. Lá expus
no Museu da Imagem e do Som – MIS. Através de uma colega de curso chamada
Bárbara, ( ele não lembra o sobrenome, sabe apenas que tinha descendência
italiana) levou seus cartuns para o jornalista Ari Silva, que era o dono da
Gazeta da Zona Norte. Ele gostou e começou a publicar no seu jornal e depois
conseguiu em outros jornais, e hoje o Mero já foi publicado em mais de sessenta
jornais e revistas. Fez uma exposição no Planetário do Rio de Janeiro e teve
boa visitação. Disse ainda que o Mero é o educador e em seguida criou a
família. O Merinho é um menino teimoso, que joga game, consumista e é abusado. Já a mãe
a d. Mera é conciliadora e gosta de plantas. O Mero não fala dentro do balão dele.
Quando o Mero fala eu desenho e quem vê tem que decodificar o desenho e com
isto rompo a fronteira da escrita porque o desenho é entendido em todas as
partes do mundo. Se inspirou nos filmes mudos de Charles Chaplin onde as
pessoas têm que entender até o que ele está pensando... Expôs também no Planetário , do Rio de Janeiro e em outros estados .
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| Um selo comemorativo. |
Quando
retornou em 1980 voltou para Salvador e foi trabalhar na DM9, que era uma grande empresa de publicidade baiana, mas ficou por pouco tempo. Começou a publicar
suas tiras no jornal A Tarde a partir de 1982 no Caderno Econômico e ficou até
1995. Na realidade recebia muito pouco por suas tiras. Foi procurar os grupos
ecológicos e entrou para o Gambá onde fazia todas as ilustrações das publicações
necessárias. Levou uns dez anos, e em seguida foi para o Germem, que era
dirigido por José Augusto Saraiva, já falecido, por quem ele tem gratidão. Aí
participou de estudos sobre a Baía de Todos os Santos, sobre os manguezais, da
Lagoa do Abaeté. Confessou o Paulo Serra que tem um amor especial pela Lagoa do
Abaeté onde passou uns dez anos indo quase diariamente fotografando, desenhando
e lutando por sua preservação. Confessa que a maior luta ecológica do Mero foi
pela Lagoa do Abaeté. Lembrou que a Área de Proteção Ambiental (APA) das Lagoas e Dunas do Abaeté foi criada em 22 de setembro de 1987 por meio do decreto estadual nº 351. Posteriormente, em 3 de setembro de 1993, foi instituído no local o Parque Metropolitano do Abaeté.
RESERVA
ECOLÓGICA
Ele contou uma história que merece
registro. Graças ao saudoso professor e artista plástico Alceu Lisboa que era
dono do então Colégio Nobel, do bairro do Itaigara – recentemente falecido – ele
foi fazer em 1990 uma palestra sobre Ecologia e desenhar
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| A Reserva Espinita exemplo de preservação. |
com as crianças. Em 1990, um episódio
marcante mudou os rumos da família. O Antonio Maia tinha 14 anos, relatou ao
cartunista e ambientalista Paulo Serra o triste dia em que um caçador derrubou
uma árvore para matar uma preguiça na propriedade de seu pai. Comovido, Paulo Serra desenhou a cena em um cartum dedicado ao menino. Naquele instante, Maia teve a certeza
que dedicaria sua vida à proteção das matas e animais da Espinita. Décadas
depois, os dois se reencontraram, já com a Espinita reconhecida como uma
Unidade de Conservação. O nome Espinita é de um bolero mexicano da
década de 1940, interpretado pelo trio Los Panchos. O termo significa “pequeno
espinho” e remete às desventuras de um amor não correspondido. Quando foi
adquirida em 1973, a fazenda já carregava esse nome.”
Anos depois este garoto já homem
feito, trinta e tantos anos depois, o localizou
foi até o seu sítio onde Paulo Serra reside em Abrantes, na Bahia, para dizer que era gestor de uma fazenda transformada
em um santuário ecológico. Trata-se de Antônio Lemos Maia Neto, que é o gestor
da RPPN Espinita que fica no município de Igrapiúna, no sul da Bahia. “A RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) é
uma unidade de
conservação (UC).
Ela faz parte do grupo de uso sustentável
de acordo com a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - Lei
nº 9.985/2000).” “A Espinita pertence a Jazom Araújo de Oliveira que é alagoano,
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Desenho de Paulo Serra feito para Antônio Lemos Maia no Colégio Nobel ,em 1990. |
técnico agrícola e agricultor. Veio para a Bahia em 1971 para
trabalhar no desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar no município de Camamu-BA. Foi
discípulo, amigo e genro do engenheiro agrônomo Antônio Lemos Maia, responsável
pela introdução de diversos cultivos agrícolas no Baixo Sul da Bahia”.“Já o Antônio Lemos Maia Neto é
baiano, médico Veterinário formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e
mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília-(UnB).
Filho dos proprietários, cresceu praticamente dentro da Espinita, perambulando
e brincando por suas matas, riachos e plantações. Ainda criança descobriu
também, na biblioteca de sua avó Wanda, o mundo dos grandes naturalistas que
estudaram a biodiversidade brasileira. Na adolescência plantou sua primeira
floresta com espécies nativas, recuperando um antigo roçado de mandioca. Também
foi nessa época que começou a observar as aves, abelhas, plantas e outras
formas de vida, com uso de binóculo, caderneta de campo, e mais tarde, da
fotografia.” (Fonte Reserva Espinita).
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