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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

MOSTRA ATESTA TALENTO DE FLÁVIO DE CARVALHO - 01 DE ABRIL DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR , 01 DE ABRIL DE 1985.

MOSTRA ATESTA TALENTO DE FLÁVIO DE CARVALHO


O artista Flavio de Carvalho desfila em 1956 de saiote pelas ruas de São Paulo causando frisson
 Flávio De Carvalho – 1899-1973 – pintor, retratista, arquiteto, escritor, teatrólogo, expoente do Modernismo, - O Divino Louco – como Assis Chateaubriand , o chamava ganha um espaço espacial numa das mais importantes promoções do Núcleo de Arte Desenbanco, que traz , através da Fundação Álvares Penteado, de São Paulo, a mostra do artista em grande estilo com inauguração no dia 9 de abril no Salão de Exposições.
Serão mostrados 14 óleos, 17 desenhos e seis aquarelas de Flávio de Carvalho, imortalizado por suas obras e depoimentos de escritores de sua época, e do presente, entre eles o jovem Luis Carlos Daher, responsável pela edição de um volume com 245 páginas – Flávio de Carvalho e a Volúpia das Formas - . Nele, Daher analisa os múltiplus trabalhos do artista e de sua personalidade. “E foram inúmeros. Não foi só o frisson risonho que os jornais da época alargaram com a Marcha por São Paulo, dentro de um saiote. Antes, Flávio havia trilhado uma vereda de escândalos tropicais, desde construir um monumento para o túmulo de seu pai,enquanto este vivia; andar de chapéu rumo a uma procissão religiosa e ser perseguida por ela; ou ainda realizar uma experiência teatral, uma peça de ritual expressionista. O Bailado do Deus Morto, que acabou com o teatro fechado pela Polícia, e a Série Trágica, quando registrou, em desenhos , várias fases de sua mãe agonizando.”
 Pintura do  artista Flávio de Carvalho
Mas o forte de Flávio de Carvalho é a sua pintura, sobre a qual dizia “ fazer pintura é lidar com as cores, não fugir das cores. Os pintores monocrômicos são indivíduos que têm medo da cor. Quando pinto um retrato me afasto totalmente do mundo em redor e só me preocupo com o que estou fazendo. O que me interessa no retrato é a expressão fundamental do modelo. É esse algo que a pessoa tem mais é percebido por poucos”.
“Quanto as pessoas que mais de agradaram fazer o retrato posso destacar: Nicolas Guillén , Mário de Andrade, Rosa Xirana, Hungaretti e Maria Della Costa”, diz Flávio num dos seus muitos depoimentos. Retratista famoso, tendo no seu acervo uma pintura de Jorge Amado, sempre se mostrou interessado nos problemas que envolviam a sociedade e a política. Disse certa vez que “ o retrato que pinto é exuberante em mecanismos de compensações. O estado social da mulher de hoje é cheio de violentas compensações. O homem, pelo contrário é mais agressivo, porque ele se considera ser dominante”.
A importância da obra de Flávio de Carvalho estende-se aos dias de hoje através de sua pintura abstrata e surrealista. Tive a oportunidade de ver reunida numa sala especial da última Bienal em São Paulo, parte da grandiosa obra de Flávio de Carvalho. Esta é uma rara oportunidade de conhecer o talento deste múltiplo artista.

PERFIL E TRAJETÓRIA DO ARTISTA

De 1989-1973 ´- A sua atuação que se estende nos fim dos anos 20 ao início da década de 70, configura-se segundo uma grande complexidade inventiva e polivalência de indagações e propostas – pintor, desenhista, engenheiro civil, arquiteto, pesquisados do Psico social e do antropológico, escritor, cenarista, teatrólogo e ensaísta.
Desenho de Fávio de Carvalho
Após anos de formação na Inglaterra ´- estudou engenharia civil na Universidade Durham, em New Castle, freqüentando à noite a Escola de Belas Artes da citada universidade – fixou-se em São Paulo no ano de 1923. Aproximara-se dos modernistas de 22, mas apenas de forma secundária envolvera-se com o grupo.
Nesta época, estava dedicado a fazer desenhos e caricaturas do mundo da dança e do balé, além de escrever artigos sobre q qualidade da dança. Suas primeiras e significativas contribuições foram de natureza de projetos de arquitetura, a partir de fins de 1927 – Projeto Pioneiro de Arquitetura Moderna no Brasil , do Palácio do Governo de São Paulo, logo seguidos pelos projetos do Palácio do Congresso, da Embaixada Argentina, no Rio de Janeiro e da Universidade Federal de Minas Gerais.
Época de sua adesão ao Movimento de Antropofagia de Oswald de Andrade e Raul Bopp, representou este Movimento no Congresso Pan Americano  de Arquitetos, onde proferiu duas conferências – A Cidade do Homem Nu – e Antropofagia do Século XX – defendendo teses de despojamento do ser humano dos preconceitos burgueses.
No contexto do clima de irreverência da fase radical de antropofagia, contrária aos tabus, executou a experiência n.º2”, quando em 1931, caminhou em direção contrária à da procissão de Corpus Christi, com a cabeça coberta por um chapéu, negando-se a tirá-lo, apesar dos gritos e da irritação da multidão. O povo enfurecido ameaçou de linchamento. Flávio refugiou-se em uma leiteira/confeitaria, onde foi preso. Pouco depois publicou o livro “Experiência n.º2, onde desenvolveu teorias sobre a natureza do ritual religioso, e comportamento humano, constituindo-se em um esnaio de psicologia das multidões, acompanhado de ilustrações onde o traço do artista demonstrava as deformações e os ritmos tensos do expressionismo e a espontaneidade do inconsciente, surrealizante.
No início da década de 30, Flávio foi elemento particularmente atuante no processo do modernismo :fundou com Carlos Prado, Di Cavalvante e Antônio Gomide o Clube dos Artistas Modernos (CAM). Por esta época, implantou o “Teatro da Experiência”, que funcionava junto ao CAM, inaugurado em novembro de 1933, “O Bailado do Deus Morto”, de sua autoria, com tratamento expressionista da gestualidade e elementos visuais das roupas e cenários, bastante despojados. A primeira exposição individual de Flávio de Carvalho teve lugar em julho de 1934, pouco depois do incidente do Teatro da Experiência.
Entretanto o autoritarismo da época desencadeou nova ofensiva a mais esta iniciativa. A exposição foi fechada pela Polícia, sendo aberta após o recurso judicial com expurgo de cinco obras. O conjunto dos trabalhos indicava que o artista crescera bastante na sua inventiva, após a participação do Salão Moderno de Belas Artes no Rio de Janeiro em 1931, e já se sedimentavam as incursões ao surrealismo e o encaminhamento expressionista, as duas vertentes principais de seu trabalho.
Os salões de maio de 1937, 1938 e 1939 contaram com a ativa participação de Flávio de Carvalho, o que Fez do artista um dos elementos animadores do modernismo paulista dos anos 30.
Estes anos foram de continuada produção de projetos arquitetônicos e de construção: grupos de casas da Alameda Lorena, suas primeiras edificações e da Casa da Fazenda Capuava, da família- projetos significativos de límpido despojamento formal e propostas de funcionalidade. A mais impressionante obra desta década é a “Série trágica, minha mãe morrendo” de 1947- desenhos a lápis, quando com lucidez do registro e a sensibilidade expressiva do artista se unem para a captação dos momentos de agonia de sua mãe.
Em 1948, organizou sua segunda mostra individual de curta duração no MASP, que se encerrou de forma tumultuada com uma conferência sobre a pintura do artista.
No início dos anos 50, Flávio de Carvalho participou da XXV Bienal de Veneza como um dos elementos da representação brasileira. Em 1951, realizou sua terceira mostra individual apresentando pinturas, aquarelas, desenhos, projetos arquitetônicos e cerâmicas, na Galeria Domus em São Paulo.
Dirigindo suas indagações para o campo da moda, passou a escrever, em 1956, uma série de artigos “A moda e o Novo Homem”. Mandou executar um novo traje, por ele idealizado, para o Verão. Provocou um “choque emocional na Nação”, ao desfilar pelas ruas de São Paulo com a roupa tropical que favorecia a ventilação: saiote, blusa de mangas curtas e largas. Na sua caminhada, o artista foi seguido por várias pessoas, provocou diferentes reações de riso, interesse, surpresa, interrogação, etc., polarizou as atenções da imprensa, incluindo a televisão- era sua Experiência nº 3, um verdadeiro happening. Em 1957, teve suas obras recusadas na IV Bienal de São Paulo, expondo-as na mostra paralela Doze Artistas, participando de duas exposições individuais em S. Paulo e Rio. Suas inquietações de ordem etnográfica e psicológica, entre outras, levaram-no a uma aventurosa expedição ao alto Rio Negro, organizada pelo Serviço de Proteção ao Índio, buscava conhecer o primitivo, o selvagem, e captar suas imagens rodando um filme. Nos primeiros anos da década de 60, Flávio de Carvalho envolveu-se em concursos internacionais para realização do Edifício da Organização Mundial de Saúde em Washington, Edifício Peugeot, em Buenos Aires. Apresentou ainda projetos para o monumento mãe em S. Paulo.
Sempre presentes; suas preocupações filosóficas e antropológicas, motivaram-no a comunicar, em seminário, “Notas para reconstrução de um Mundo Perdido”, realizado pela Faculdade de medicina da Universidade de Califórnia (1962).
Em 1967, ampliaram-se os interesses em torno de seu trabalho artístico: realizou duas individuais em S.P e Porto Alegre; foi premiado pelo júri internacional da IX bienal de S.P; organizou-se sala especial permanente no Museu de Arte Brasileira da FAAP onde se inaugurou a primeira mostra retrospectiva de sua obra.
Os últimos anos de sua vida foram de atuação constante decorrente da inquietação criativa de Flávio; do reconhecimento do valor do artista e da sua poderosa diversificada capacidade criativa. Prosseguiu sua militância de arquiteto, em anos subseqüentes, projetou edifícios e monumentos a Garcia Lorca, executado em 1968, projeto para a Biblioteca Municipal da Bahia, em Salvador, igreja catedral de Pinhal (1969); monumento às Forças Expedicionárias Brasileiras (1970), Monumento aos Guararapes (1971) e Recife e projeto inconcluso para sala em homenagem a Maria Martins e Tarsila do Amaral, na XII Bienal de S.P (1973). Sucederam-se vários eventos culturais que foi protagonista: presidiu a Comissão de Artes Plásticas do Centro Cultural Garcia Lorca (1969), teve sala especial na XI Bienal de S.P (1961), concorreu à vaga da Academia Paulista de Letras (1972) e proferiu conferências no Departamento de História da Universidade de SP.
Várias exposições individuais se realizaram em diferentes localidades: Guarujá (1968), São Paulo (1968)/69), Valinhos (1968) e mostras coletivas importantes contaram coma sua participação, como: “Semana de 22” no Museu de Arte de São Paulo e “50 anos de Arquitetura Moderna”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ambas em 1972. Faleceu em 4 de julho de 1973. (Pesquisa de Daisey Peccinni).


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