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sexta-feira, 7 de abril de 2023

EDVON O ARTISTA ANDARILHO DO PELOURINHO

Edvon mostra sua  xilo .

 Os moradores e comerciantes do Centro Histórico, especialmente do Pelourinho e Terreiro de Jesus já se acostumaram com aquele senhor idoso e negro todo arrumado de roupa branca e chapéu Panamá ou com seu boné em estilo português andando lentamente pelas ruas com uma pasta nas mãos cheia de gravuras de sua autoria. Ao avistar um turista que acredita poder mostrar a sua arte se aproxima e tenta dialogar. Alguns evitam e saem apressados, pois foram avisados pelos agentes de turismo de seus países e mesmo daqui sobre o perigo que correm durante essas abordagens. Outros procuram ouvir atentamente e quando Edvon descobre a sua origem se é americano, francês , inglês, italiano ou de outro país europeu, oriental ou  latino ele arranha algumas palavras na sua tentativa de se comunicar. Não fala língua estrangeira, mas pronuncia algumas poucas palavras e frases curtas em inglês, italiano e espanhol , e assim tenta vender suas gravuras. Recebe uma parca aposentadoria de pouco mais de um mil reais e para pagar as despesas de suas "netas", como ele chama em tom jocoso as empresas de luz, água, telefone e internet, além das de alimentação. Tem que vender as suas gravuras para sobreviver com o mínimo de dignidade , onde retrata os velhos casarões e tipos populares que habitam a região. Seu nome é Edmundo Oliveira Santos , nasceu em 7 de julho de 1935 nas imediações da Usina Terra Nova, município do mesmo nome, onde moravam seu pai Manoel Elesbão Ferreira e sua mãe Maria de São Pedro Oliveira. Reside atualmente na Rua Guedes de Brito, numa casa colonial de moradia coletiva fornecida pelo Estado.

Lembra que seu pai Manoel Elesbão era um dos mecânicos da Usina Terra Nova, de propriedade da família Magalhães e o líder era Raimundo Magalhães , que está  em ruínas só restando de pé, uma imensa chaminé furando o horizonte, localizada no município de Terra Nova. Quando nasceu os pais não o registraram imediatamente. Antigamente iam registrar os filhos dias depois, muitas vezes por falta de tempo e dinheiro para pagar o cartório. Foi assim que aconteceu com o casal Manoel Elesbão e Maria de São Pedro quando foram registrar o Edvon no município de Santo Amaro. Alguns anos depois

Edvon com uma cerâmica de sua autoria .
perdeu seus documentos e ao solicitar  uma cópia do seu Registro de Nascimento  foi informado que o livro onde estava anotado o seu registro e de várias outras pessoas foi completamente danificado pelas águas, talvez durante uma enchente ou mesmo devido a uma goteira. Portanto, teve que fazer um novo Registro de Nascimento e foi aí que embora tenha nascido no mês de julho o Tabelião de Notas e Registro Civil trocou o mês para junho. Mas, ele preserva o seu aniversário em 7 de julho quando vai completar,  na data em que nasceu, seus 88 anos de idade. Algumas características do artista é que tem consciência do seu trabalho, muito educado e articulado. Fala com desenvoltura e tem uma boa memória apesar da idade avançada. Sobe e desce as ladeiras do Centro Histórico de Salvador com desenvoltura e se mostra solícito. É metódico, não bebe, não fuma e disse já ter criado uns quatro filhos. Não teve filhos biológicos e que frequentou muito as bregas quando jovem. Hoje é Testemunha de Jeová e acrescenta   "estou abstêmio de sexo".

                                                                    SUA TRAJETÓRIA

Edvon o artista que vende suas
 obras nas ruas do Centro Histórico.
Conversando com Edvon ele relembrou que seu pai que era mecânico do setor de Ferragens, da Usina Terra Nova  sempre dizia a ele e a seus cinco irmãos, dois não chegou a conhecer, porque morreram cedo, que todos tinham que "aprender um ofício de mecânico, carpinteiro, pedreiro, encanador , etc. Não quero malandro dentro de casa". Diante desta determinação paterna resolveu escolher um ofício, e assim foi ser ajudante de alfaiate em Terra Nova, profissão que foi lhe servir muitos anos depois quando trabalhou fazendo roupas africanas para vender no Pelourinho. Estudou no Ginásio Domingos Filho, no Pelourinho, na Escola Técnica e no Ginásio Firmino Alves, com o professor Plínio de Almeida, em Itabuna, e lá aprendeu a fotografar. Os irmãos se mudaram agora para São Sebastião do Passé e o levaram onde decidiu ser fotógrafo, profissão que exerceu durante muitos anos. Ele mesmo fotografava e revelava as fotos dos clientes. Eram fotografias analógicas, que necessitavam de conhecimento rudimentares de química para misturar os produtos para fazer a revelação. Depois as coisas evoluíram e começaram a fabricar o revelador e o fixador.

Sempre buscando terminar seus estudos quando veio para Salvador estudou no Ginásio Domingos Silva, no Pelourinho,  e no Colégio Severino Vieira, no bairro de Nazaré, fez um Curso de Turismo durante três anos seguidos. Frequentou vários cursos de arte realizados pelo Museu de Arte Moderna, o MAM, as conhecidas Oficinas do MAM onde eram ministradas aulas de várias técnicas como pintura a óleo, aquarela e pastel; gravura em metal, litografia e xilo; escultura; cerâmica. Enfim, as Oficinas realmente incentivaram e ensinaram a muitos artistas várias técnicas de arte.

                                                       LUTA PELA VIDA 

Casario e tipos populares do Centro
Histórico de Salvador, de Edvon.
Tinha uma pequena banca na Feira de Artesanato , que era coordenada pela Bahiatursa, a qual ajudava no seu sustento que funcionava no Terreiro de Jesus, mas  foi proibida  pelo Governo  estadual "porque segundo os técnicos a Feira estava enfeiando o local". Em troca recebeu uma carteira de vendedor ambulante, que ele não utiliza. Quando insisto em saber sua vida no Centro Histórico de Salvador, que na década de 60 era de predominância de moradores de baixíssima renda e de prostituição o Edvon com seu jeito contido revela. "Minha vida amorosa foi uma droga. Nesta época costumava me homiziar e depois terminava separando. Não ligava para casamento. Hoje valorizo muito o casamento, inclusive é um dos preceitos da religião que pratico Testemunha de Jeová. "

Lembra que morava numa pequena invasão aos fundos da antiga Faculdade de Medicina numa localidade chamada de Rocinha do Pelourinho, porque ali antes da ocupação os malandros iam fumar maconha. Porém, ele trabalhava com um pequeno comerciante de artigos de artesanato chamado Sergio Leão, já falecido,  que tinha feito uma construção no local e como estava em dificuldades para pagar o aluguel o patrão cedeu para que pudesse morar. Foi aí que morou por bom tempo e cultivou muitas flores e outras plantas até que a Conder e o IPAC resolveram realocar ele e os

demais moradores da Rocinha em outros imóveis do Centro Histórico e está construindo umas casas e rebatizaram o local como Vila Nova Esperança. Veio para onde hoje está na Rua Guedes de Brito, número 15. É uma casa em estilo colonial que foi dividida em apartamentos.

Disse que chegou a Salvador em 1944 em plena Segunda Guerra Mundial e lembra que assistiu da balaustrada do Elevador Lacerda os recrutas tomando o elevador para embarcarem em navios que o esperavam no porto.  Edvon contou que eles partiam com muita esperança e patriotismo cantando o Hino Nacional, o Hino da Bahia, da Independência , o de homenagem a Getúlio Vargas, e também o Cisne Branco. “Foi uma cena inesquecível e emocionante!” Ao lado uma gravura em metal de sua autoria retratando A Mulher de Roxo.

 

 

 

terça-feira, 4 de abril de 2023

MERCADO DE ARTE - AINDA SE PREFERE UMA GRAVURA DE REVISTA A UMA OBRA DE ARTE

A página original.
 Jornal A Tarde ,25 de janeiro de 1971.

Texto Reynivaldo Brito  

Pintor Adelson do Prado

Diversas galerias de arte de Salvador   fecharam suas portas. As razões ainda   não foram bem esclarecidas. Para uns ,   é  falta de mercado, porque os   colecionadores são poucos e os turistas   só querem levar quadros baratos, como   quem compra um objeto num mercado   popular, principalmente o turista   nacional, o estrangeiro paga um pouco mais. Isto para Renot “é porque eles têm um padrão de vida mais elevado". O proprietário da Galeria Panorama diz que a maioria das pessoas prefere colocar uma gravura de uma revista qualquer, com uma linda moldura do que comprar uma verdadeira obra de arte”. Talvez a falta de cultura artística de nosso povo ou o baixo poder aquisitivo não permitam que os baianos consumam arte.

                                           IDEALISMO

O Euler de Pereira, artista de profissão e proprietário da Galeria Panorama, é de opinião que "para se tiver uma galeria de arte é necessário, acima de tudo, que a pessoa seja idealista e sonhadora. Não recebemos nenhuma ajuda governamental  e os órgãos encarregados do turismo desconhecem as galerias de arte e, muito pior, distribuem roteiros turísticos da Cidade sem constar o nome d galeria. Isto é uma situação ruim e prejudicial para a cultura da Bahia".

Obra de Adelson do Prado.
Quanto ao problema de mercado de arte na Bahia, o Euler de Pereira disse que "o turista, em geral, gosta de arte barata. Um quadro para ser vendido ou comercializado pode custar mais de Cr$300,00. Já o turista estrangeiro emprega mais dinheiro, porque sabe que é um bom investimento. Mas, esses turistas são poucos. Os sulistas preferem um berimbau, que custa vinte cruzeiros. O importante para eles é levar uma lembrancinha da Bahia".

                                                                                                          MERCADO

O Mercado de arte na Bahia é considerado fraco pelos proprietários de galerias e entendidos de arte. Os pintores são o que mais sofrem. Alguns de talentos excepcionais ficam aí a "ver navios". O Euler de Pereira acrescentou  que "o baiano ainda não está acostumado com o consumo da arte plástica. A gente em Salvador ainda entra numa casa suntuosa de gente rica e encontra uma gravura de uma revista numa moldura ricamente confeccionada".

"E não precisa você levantar-se desta cadeira para constatar o que afirmo: veja naquele belo apartamento aquela gravura". E aponta para um edifício em frente à galeria, onde realmente existe uma gravura de revista emoldurada.

Para ele a falta de idealismo é a principal razão do fechamento de galerias em nossa cidade. Adianta: "Muita gente pensa que montar uma galeria "é negócio da China" e que vai ficar rico. Na realidade, isso no ocorre".

                           INTERMEDIÁRIOS

Euler de Pereira Cardoso.

Pelo visto, o artista é quem mais sofre com a comercialização de sua arte. Muitas vezes entrega os seus trabalhos a um marchand que só visa o lucro e não tem nenhuma sensibilidade artística e nem procura conhecer as dificuldades do artista. O que eles querem é vender a obra de arte por um preço elevado e pagar bagatela ao pintor. Para o Euler de Pereira os marchands deveriam ser artistas, porque assim, teriam mais sensibilidade e conheceriam melhor as dificuldades do profissional. “Não se pode vender arte como se vende um metro de pano”.

As galerias geralmente cobram uma taxa para quem quiser expor. A taxa varia de acordo com a galeria e são destinadas ao pagamento da luz, fotografias, garçons, coquetel, impressos, e despesa com os Correios. Mas, os proprietários das galerias ainda cobram mais de 30% por cada obra vendida durante a exposição. A duração de uma exposição individual ou coletiva é de quinze a vinte dia e algumas deles não passam de dez dias. 

                                               VIVER DE ARTE

O Euler de Pereira afirma "que embora existam todas essas dificuldades, é possível se viver de arte na Bahia. Falo como artista e dono de uma galeria, porque atualmente só vivo de arte". Para  que um pintor realize sua exposição em nossa galeria, nós recebemos os seus trabalhos e entregamos a cinco professores que são artistas plásticos para apreciarem os trabalhos. Caso a |Comissão goste e aprove, ele expõe. Caso contrário, devolvemos os trabalhos. “Desde que fundamos esta galeria, já devolvemos mais de cinquenta”.

                                         NÃO HÁ GALERIA

O tapeceiro Renot acha que não há galerias de arte na Bahia e que sua casa não é uma galeria e sim seu atelier. "Registrei a minha casa como atelier. Já tentei, durante algum tempo, manter uma galeria - a Quirino- onde realizei e promovi várias exposições de artistas novos. Fui eu quem desenvolveu e criei o mercado de arte na Bahia. Mas, desisti da galeria porque os colecionadores baianos continuam sendo os mesmo de 1957, quando comecei. Não consegui um desenvolvimento satisfatório. Desejava expandir a arte para a classe média baiana, mas, infelizmente o baixo poder aquisitivo dessas pessoas não permitiu que obtivesse sucesso."
Acima o tapeceiro Renot  ex-proprietário da Galeria Querino que fechou as portas. Atualmente, o Renot está voltado para seus tapetes. e entalhes. A comercialização da arte e lançamentos de outros pintores novos não está por enquanto em suas cogitações.

Belo tapete de Renot.
Para Renot, a galeria de arte tem que ser um ambiente comercial por excelência e o capital de giro é indispensável. Os proprietários das grandes galerias compram os trabalhos dos artistas e revendem com lucros. Isto acontece em toda parte do mundo. Mas, também é preciso que esta pessoa tenha sensibilidade e esteja integrada com a História da Arte Brasileira. Com isto, evitaria que fosse levada ao público uma imagem distorcida de arte e mesmo distorções culturais, que prejudicam, sensivelmente, o nosso povo e a cultura do país. “Para se abrir uma galeria de arte, deveriam ser exigidos requisitos rígidos como se faz com qualquer meio de comunicação (rádio, emissora de televisão) porque arte é um dos principais meios de comunicação”. Para ele "A Bahia possui um mercado pequeno, mas existe. O que não há é galeria de arte. Alguns pintores de talento estão jogados e esta gente precisa ser aproveitada. Eu, agora, estou voltado para os meus tapete-se os meus entalhes, de maneira que não posso mais promover exposições. Já tenho um mercado no país e, agora estou abrindo novos no exterior.  Nesta minha viagem recente, vendi alguns trabalhos em Londres. Aliás, todos que levei", frisou o tapeceiro Renot.

 


segunda-feira, 3 de abril de 2023

JOÃO ALVES - UM PRIMITIVO QUE SOUBE PINTAR A BAHIA

Página original .
 Jornal A Tarde - Sábado - 3 de outubro de 1970

Texto Reynivaldo Brito

Os quadros de João Alves de Oliveira dos Santos, o João Alves, revelam o humano. Sua pintura é cheia de imaginação e de um sabor ingênuo pela sua simplicidade. O artista possui um grande poder de criação, ao ponto de pintar mais de cinco mil quadros. A igreja do Senhor do Bonfim foi retratada por ele em todas as cores e dos mais variado ângulos. Embora nunca frequentasse uma escola de arte para aprimorar seus conhecimentos de desenho ou de pintura, deixou uma obra de grande valor.
João pintava porque sentia uma necessidade íntima de se comunicar com o seu público. O seu temperamento irreverente, ao ponto de ser retraído do convívio social e de negar-se a comparecer às exposições de seus trabalhos, era neutralizado pela sua amabilidade com o pincel e suas figuras. O mestre João morreu. Mas,  deixou as cores de nossa Cidade, do mar, do céu, dos campos baianos, dos casarios e de nosso povo, gravadas em suas telas. São retratos do seu íntimo, que oferece em forma de arte a seu público. Jamais apagará esta sua comunicação. João pintava porque sentia uma necessidade íntima de se comunicar com o seu público. O seu temperamento irreverente, ao ponto de ser retraído do convívio social e de negar-se a comparecer às exposições de seus trabalhos, era neutralizado pela sua amabilidade com o pincel e suas figuras. Vemos acima o pintor conversando com o tapeceiro Renot e outro convidado, quando da recepção de uma exposição na Galeria Querino na década de 60. João não gostava de falar muito, todavia o fotógrafo conseguiu surpreende-lo contando um segredinho...
 
Ao lado a nossa arquitetura colonial está documentada para sempre nas telas de João Alves .Quando pintava casario, era um autêntico primitivo. Por várias vezes, alguns colecionadores lhe solicitaram que pintasse a igreja de São Francisco, e o Mestre João atendia. Porém, todas diferentes, daí ficar constatado o seu alto poder de criação. Numa combinação perfeita de cores , conseguia neutralizar a falta de perspectiva de seus quadros.

                                                                    SOFREU

João Alves,1960.
João Alves nasceu na cidade de Camisão, atualmente  Ipirá, em nosso Estado em 1906.Veio para Salvador com dois anos de idade passando a morar no antigo Beco Nagô, na Freguesia de Nazaré. Sua primeira ocupação foi de empregado doméstico, durante três anos. Quando contava vinte e dois anos de idade, resolveu trabalhar numa firma construtora de estradas. Em seguida foi ser auxiliar de torneiro. Depois , passou a ser carregador de caminhão e mais tarde, estivador. Sempre o seu trabalho era de grande esforço físico. Fascinado pela carroça, que sobe as ladeiras da velha Bahia com aquele balançar faceiro, foi ser carroceiro, o que durou muito tempo.

Tinta profunda habilidade para transportar pianos, móveis e fazia mudanças em sua carroça. Adquiriu uma cadeira de engraxate por 360 mil réis num bazar de antiguidades e instalou-se na Praça da Sé, junto ao Palácio do Arcebispado. Entre um freguês e outro que sentava em sua cadeira , começava a desenhar em pedaços de papelão com lápis de cor que os estudantes de Direito lhe presenteavam. Até que foi descoberto pelo fotógrafo e estudioso do nosso Candomblé, o francês Pierre Verger, que comprou levou para a África ,o primeiro quadro vendido por João Alves. O fotógrafo ficou impressionado com a sua pintura e o animou a pintar a óleo sobre a tela. Mas João tinha pouca instrução e não deu muita importância às recomendações de Verger. De vez em quando comprava uma lata de tinta esmalte - de pintar portas e paredes - e pintava algumas telas, vendendo-as com muita dificuldade. Assim, continuou o engraxate-pintor por muito tempo. Diversos quadros seus foram vendidos por 200 mil rés. Hoje, valem alguns mil cruzeiros cada. Alguns turistas chegaram a lhe pagar naquela época, dois cruzeiros por tela.

                                                  SUA PINTURA PRIMITIVA

Esta obra  retrata uma festa no Centro
Históric
o.
Os quadros de João Alves são retratos da Bahia. Suas profissões ensinaram-lhe ao dia a dia a arte de comunicar. O casario com os andaimes, que muitas vezes foram pisados por ele também, ficaram gravados em suas telas. A cor revela uma alegria interior, a qual ele não conseguia expressar por meio de palavras. Como Pancetti, conseguia com poucas pinceladas grandes movimentos em suas figuras. Nas telas onde estão pintadas as festas populares de Salvador, podemos observar isto perfeitamente. São baianas com suas roupas tradicionais e velhos pretos que se movimentam harmoniosamente em meio a uma grande multidão. Embora utilizasse tintas ruins, conseguia dar uma beleza singular a seus trabalhos. Quando pintava o casario era um primitivo autêntico pinta sem perspectiva e nenhum pintor conseguiu retratar tão bem as festas populares de Salvador.

Tinha grandes amigos como o escritor Jorge Amado, o tapeceiro Renot e outros. A propósito de sua arte, escreveu Jorge Amado: “Jamais a cor de nossa Cidade, mistura de seu mar, do seu céu, de seu verde bosque, de seu casario e de seu povo, jamais ela desaparecerá de todo por maior e mais violento seja o vandalismo dos prefeitos e dos proprietários dispostos a acabar com Salvador da Bahia. Jamais se perderá a lembrança dessa formosura acumulada pelo tempo e pelo homem, e de sua transparência e de seu mistério. Porque , enquanto perdurarem as telas do Mestre João Alves, a profunda verdade da Bahia - sua beleza deslumbrante, sua magia de povo e de orixás - estará preservada para o futuro e para sempre reencontrada naquilo que o grande negro do Terreiro de Jesus pintou por adivinhação e por vida vivida, pintou sem saber sem ter aprendido, um saber herdado de gerações e gerações, a contar do primeiro escravo vindo da África e aqui desembarcado".

                                                   PINTOR DA CIDADE

Casario colonial e figuras humanas. Estas
 obras coloridas não estão na página 
orginal. Introduzi para apreciarmos 
as cores  na obra de João Alves.
João Alves era um pintor da Cidade. As casas, ruas, gente do povo e as festas populares de Salvador com as prostitutas dançando os sambas -de-roda estarão fazendo parte das grandes coleções do museus e particulares, porque estão nas telas do Mestre. Era "um homem do povo, nascido e plantado na pobreza e na grandeza das Portas do Carmo, um verdadeiro artista, um poderoso criador. Um homem do povoe um mestre do povo, mestre da Cidade e seu arquiteto, o pintor João Alves, um grande na Bahia.

Seu trabalho está espalhado por todo o país e em diversos países da Europa. Era de difícil trato, porque era primitivo até na sua maneira de ser e de vestir. Morou muito tempo numa espécie de gruta ou cafua, localizada nas proximidades da igreja de São Francisco. João Alves morreu, no dia 23 de junho de 1970,mas sua obra está viva e cada vez mais fascinante e valorizada.

O casario e uma procissão religiosa.
O Mestre João fez poucas exposições de seus trabalhos. As que foram realizadas não foram organizadas por ele e sim, por alguns amigos fiéis. Ganhou o Prêmio do Salão Baiano de Belas Artes, na Bahia, e Medalha de Prata e o Prêmio Esso de Pintura. Deixou uma família, que só tem uma casinha humilde, na rua Guriguri, no populoso bairro de Cosme de Farias. Quando vivia amparou duas ou três mulheres que viveram com ele, mas não deixou filhos.

Agora seus amigos desejam realizar uma exposição retrospectiva, com o objetivo de amparar a sua esposa. O Instituto Nacional de Previdência Social -INPS - está a exigir para complementar sua inscrição "post mortem" naquele instituto algumas informações, para que sua família passe a receber proventos mensais. A data da exposição ainda não está definida, mas o local já foi escolhido- no foyer do Teatro Castro Alves. Todos os colecionadores e amigos do pintor que possuírem quadros devem emprestá-los para dar maior embelezamento e participação `|a exposição em memória de João Alves.

 EXPOSIÇÕES

INDIVIDUAIS -1961- Exposição Individual, no MAM/BA; 1964 -– Individual de pinturas , no João Sebastião Bar, São Paulo, Capital; 1965 -  Individual, na Galeria Montmartre, no Rio de Janeiro.

COLETIVAS  - 1954 - Goiânia GO - Exposição do Congresso Nacional de Intelectuais; 1956 - São Paulo SP - 50 Anos de Paisagem Brasileira, no MAM/SP; 1957 - São Paulo SP - Artistas da Bahia, no MAM/SP; 1964 - Salvador BA - Mostra, na Galeria Querino ;1964 - Salvador BA - Salão Bahiano de Belas Artes - Medalha de Prata; 1966 - Salvador BA - 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia; 1967 - Salvador BA - Exposição Coletiva de Natal, na Panorama Galeria de Arte.

EXPOSIÇÕES PÓSTUMAS - 1980 - São Paulo SP - Gente da Terra, no Paço das Artes; 1981 - Maceió AL - Coletiva Artistas Brasileiros da Primeira Metade do Século XX, no Instituto Histórico e Geográfico ; 1988 - Rio de Janeiro RJ - O Mundo Fascinante dos Pintores Naïfs, no Paço Imperial ;1996 - Osasco SP - 4ª Mostra de Arte, no Centro Universitário FIEO ; 2000 - São Paulo SP - Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal; 2001 - São Paulo SP - Figuras e Faces, na A Galeria ; 2002 - Osasco SP - Santa Ingenuidade, no Centro Universitário FIEO. Centro Universitário Fieo - UNIFIEO é um Centro Universitário brasileiro, localizado no município de Osasco no estado de São Paulo, mantido pela FIEO 

 

 

 

 




sábado, 1 de abril de 2023

EDISON DA LUZ MANTÉM VIVA SUA CRIATIVIDADE

Edison da Luz com cabeças de  espantalhos
que está trabalhando para expor ainda este
 ano em Salvador
.
O artista Edison da Luz nasceu em Salvador em 4 de abril de 1940 de uma família de oito irmãos, mas sua mãe teve outros filhos que não sobreviveram . A d. Maria Brígida da Luz, conhecida por d. Doninha era do lar e seu pai Felício Benicio da Luz, tinha uma pequena olaria no Salgado, e um barco na Passagem dos Teixeiras, no município de Candeias, na área próxima ao que é hoje porto de Aratu. Tem este nome porque ali existia o Engenho Passagem, dos irmãos portugueses João e Manuel Teixeira Barbosa  que fugiram do Brasil em 1822 e depois seu proprietário foi 
Xilo de  30 anos
atrás e sempre atual.
Oscar Tarquínio Pontes. Voltando ao  Felício da Luz  também comercializava algumas coisas inclusive carvão, "porque no local onde morávamos era um vale e tinha boa área e até um campinho de futebol. Ainda tomava conta de casas, o que chamam hoje de administrador. Procurava sempre estar ocupado para criar os filhos e com isto formou dois em Medicina e um advogado,lembra Edison da Luz. Sua infância foi de um garoto que não gostava muito de estudar. Estudou em casa com a mãe e os irmãos mais velhos até os dez anos, quando foi para o Ginásio Baiano de Ensino, ali no Campo da Pólvora, do professor Hugo Baltazar da Silveira. Por  um breve período estudou na Escola Amélia Rodrigues, no fim de linha do bairro do Tororó, quando houve uma dificuldade de seu pai pagar as mensalidades, e aí os três que estudavam no Baiano de Ensino, tiveram que ir para uma escola pública. Porém, quando os tempos melhoraram voltaram para o Ginásio Baiano de Ensino.

Edison da Luz era crescido, e seus colegas de classe no primário bem menores e mais novos. Ficou pouco tempo no primário porque já sabia ler e escrever com desenvoltura. Não teve condições de ir para o Colégio da Bahia de mais prestígio onde o ensino era melhor, como pretendiam seus pais, e também porque não gostava de estudar. O último ano do segundo grau foi cursar no Colégio Ipiranga, que era da família Isaias Alves, cujo educador deu nome ao famoso Instituto Isaias Alves, no Barbalho, que formava a grande maioria das professoras primárias da época. Disse Edison da Luz que "sempre procurava o colégio mais fácil e lembro que nunca gostei de estudar principalmente Física, Química e Biologia. Me lembro que quando estudava no Ipiranga a aula de Biologia era às 13 horas, logo após o almoço, e eu cochilava tanto que a carteira ficava toda babada. No Baiano de Ensino meu irmão Durval, que depois se formou em Medicina e foi ser cirurgião geral, era muito inteligente. e  me ajudava a fazer as provas,"conta dando uma daquelas rizadas que todos que o conhecem estão acostumados a ver.

                                               PAI BATALHADOR

Cinco gravuras de autoria de Edison .
"Meu pai foi um herói e sempre dizia assim: "Filho meu não vai lavar banheiro de branco, "
acontece que ele sofreu e teve que trabalhar muito porque ficávamos eu e meus irmãos dentro de casa só estudando. Nunca trabalhei e nem sou aposentado nesta idade com 83 anos. Paguei INSS uma vez e depois deixei de contribuir. Agora que quiseram fazer minha aposentadoria,e não conseguiram me inserir como um pequeno empresário por causa deste terreno que tenho aqui em Patamares. Lembro que cheguei a fazer um curso para Técnico de Máquinas Perfuratrizes, na Escola de Engenharia que funcionava ali no Relógio de São Pedro. Meu pai queria que todos os filhos tivessem uma profissão. Através de meu irmão Altamirando que era advogado e amigo do pessoal da Petrobras arranjou para fazer um teste e fui aprovado para ir para o campo de Buracica, município de Teodoro Sampaio. Porém, o Yvan Barreto de Carvalho, que era o Superintendente da Petrobras, e amigo de meu irmão desaconselhou porque sabia de minha vocação para as artes plásticas. "E disse mais ou menos assim, Edinho vai ficar embrutecido trabalhando com estas máquinas pesadas. Foi aí que desisti. Meu pai não gostou muito. Aí eles se reuniram, inclusive os meus irmãos Hamilton, que já era fotógrafo, Altamirando e Durval e se comprometeram a me ajudar." E continuou: Meu pai queria que fosse doutor. Cheguei também a fazer um curso para  o vestibular de Medicina, mas também não fui adiante. Ainda estudei Serviço Social, na Escola de Sociologia e Política, do Yves de Oliveira, que funcionava na Ladeira da Barra. Esta escola não era reconhecida e terminou fechada", relata Edison da Luz.

                                            QUERIA SER ARTISTA 

São Francisco com a técnica do pontilhismo.
Sua tendência era ser artista. Foi então que procurou a Escola de Belas Artes e fez um teste e lembra ter feito um busto de Moliere. Foi aí que abraçou de vez a arte. Ficou um bom tempo estudando pintura com Rescala, gravura com Henrique Oswald, Juarez Paraiso, Mendonça Filho, Adolfo Buck, Geometria com Nilza Aguiar, Composição com Jacira Oswald, Evandro Schneider, História da Ate com Ivo Vellame, Expedito Bastos, Riolan Coutinho e Carlos Eduardo da Rocha, que o achava chato e um dia ele disse: "Vá embora, não quero você mais em minha aula. " 

Afirma que não é apenas um gravador, aí dá uma risada. "Acho que o artista não pode ficar só numa técnica. Tem que saber desenhar, pintar, esculpir, gravar, cerâmica etc. E trabalhar com todas essas técnicas e saber criticar sua própria arte. Ou seja, não tem que ser eclético, mas tem obrigação de ter conhecimento de todas as técnicas que estão em sua volta. Por exemplo, acho um absurdo que um artista popular não goste de música clássica. Venho pregando isto. Talvez eu fosse mais um escultor porque meus ascendentes tios Manoel e Elias eram grandes marceneiros, faziam barcos e muita coisa em madeira, usando na época instrumentos rudimentares como enxó, facão, machado, formões e alguns improvisados."

Xilo de Edison  mostra
dramaticidad
e.
Quanto à Escola de Belas Artes lembra que na 28 de setembro era melhor para ele porque ia a pé do Tororó para estudar, bastando descer e subir a Ladeira da Independência e passar pela Praça dos Veteranos, onde fica o Corpo de Bombeiros, que chegava ao seu destino. "O espaço era maior eu acho que a escola poderia ficar ali próxima do Centro Histórico. Depois mudou para o Museu de Arte Sacra, cujo diretor era Dom Clemente Nigra, e foi uma luta para ocupar o atual prédio que era da Faculdade de Geologia que fez um prédio novo no campus do Canela, e foi aí que a Belas Artes se mudou para o atual imóvel, no bairro do Canela."  Não gostava muito de frequentar as aulas de pintura e receber nota. "Me revoltava com nota, com avaliação. A arte se impõe por ela mesma. Esta coisa de avaliação não gosto, não tem nada a ver", portanto a rebeldia de Edison da Luz vem de longe. Todos que o conhecem sabem do seu temperamento de verbalizar tudo que sente, às vezes deixando seu interloctor embaraçado. Agora  lembrei de uma de suas tiradas. Estava no vernissage de uma exposição na Galeria Eucatex, que funcionava ali no Campo Grande quase defronte ao Hotel da Bahia quando chega Edison da Luz e tendo ao lado a jovem artista que estava expondo . Foi logo expressando sua opinião de que não gostou das obras e prosseguiu mais ou menos assim "Diga aí Reynivaldo estas obras não são fracas?". A pergunta foi mais forte e depreciativa. Eu tomei choque e depois de refeito conversei com a artista, e o Edison da Luz deu sua risada e já não estava mais presente.

                                  DIVERSIFICAR SUA PRODUÇÃO

"Você chega à conclusão que é gravador e só faz aquilo. A arte é tudo! Continuo sendo gravador. Não podemos ficar só com uma técnica. Isto é coisa de europeu. A Academia hoje mostra que existem várias opções. Vi em Munich, na Alemanha, que se você quiser conhecer e frequentar aulas de joalheria, cerâmica, pintura, gravura em metal, pintura contemporânea, e as mais várias técnicas, é bem recebido. Talvez eu seja mais escultor que gravador", disse Edison da Luz.

Ao lado do artista no atelier, bairro de
 Patamares
.
Diz Edison da Luz que os professores da EBA naquela época nunca viram a Gravura como uma arte nobre. Consideravam apenas uma cadeira, uma disciplina a mais. Até mesmo o ensino da Gravura era mais de gravura em metal, o próprio Henrique Oswald era um exímio gravador em metal. "Eu nunca gostei de trabalhar com gravura em metal por causa dos produtos que temos que usar , e sou inquieto quero ver logo o resultado. Na xilo vemos logo o resultado ao cavar com as ferramentas as figuras e linhas que estamos fazendo. Enveredei por outro processo a trabalhar com plástico e linóleo. A de madeira era mais barato e mais fácil de vender. Tem muita gente que gosta de gravura em papel, daí passei a desenvolver a gravura com seriedade. Improvisei minhas ferramentas porque não tinha dinheiro fácil para comprar por serem caras. Até mesmo em casa tinha um quarto onde trabalhava e passei a me interessar em conhecer os clássicos da gravura como o Edvard Munch e famoso artista norueguês, introdutor do Expressionismo na Alemanha, e autor da famosa obra "O Grito".

Na EBA assinando
uma xilogravura
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Participou de Bienais, ganhou alguns prêmios, inclusive na Bienal de São Paulo, "que me despertou e mostrei também objetos." Participou de  várias exposições coletivas e individuais , de salões de arte e agora está desenvolvendo um projeto do Cidadãos Espantalhos onde utiliza cocos secos com a casca e faz as caras dos seus personagens. Com palitos de churrasquinho faz os dentes, os olhos com bolas de gude, e com tiras de panos os cabelos. Os corpos são cobertos com vestes coloridas e tem como sustentação grossos cipós. Disse que já tem vários prontos. Pretende expô-los ainda este ano num museu ou num espaço grande. Serão mais de cem personagens. "Estou lutando com o coco porque ele envelhece, e é sempre trágico. É sofrimento," confessa.

Disse que gosta de fazer gravuras e pinturas com São Francisco de Assis, da Virgem Maria, e outros santos e de interpretar com sua arte a Bíblia, mas como vive numa sociedade religiosa rígida sofre algumas restrições. Também está fazendo umas telas em pontilhismo, onde diz que viaja quando está fazendo. "Nada de terapia!  ressalta. Em três horas apronto uma tela, quando as pessoas levam alguns dias ou muito mais horas." Perguntei qual o segredo, e apresentou-me um pequeno tubo vazio de cola. Ali coloca a tinta na cor que deseja e passa a fazer os pontinhos com rapidez e com a destreza que tem como artista que é.

O pontilhismo surgiu na França em 1880 (pointillisme)  que consiste em pinceladas pequenas onde o artista vai conseguindo fazer a decomposição tonal. Com pequenos pontos e manchas o artista  forma suas imagens.  Este movimento teve sua fase áurea no final do século XIX durante o  Impressionismo, e foi desenvolvida pelos pintores franceses Georges Seurat (1859-1891) e Paulo Signac (1863-1935), seus maiores expoentes nesta técnica.

Edison preocupado com o paradeiro da
arte na Bahi
a.
Edison da Luz falou sobre a situação da arte na Bahia e vê que está num estágio de verdadeiro retrocesso em relação aos anos 70. "Tínhamos muitos artistas surgindo, muitas galerias e muitas exposições. Atualmente está tudo devagar não só aqui como em todo Nordeste. São Paulo hoje é o refugo da arte feita na Europa. Acabou por aqui o interesse em promover salões e bienais que mobilizavam e incentivam os artistas.  Tínhamos administradores qualificados nos museus e centros de cultura. Hoje nomeiam por interesses políticos, sem se preocupar se são qualificados. O brasileiro se esquece que a arte dá lucro. Os museus daqui estão quase parados. Tratam a cultura como brincadeira, recreação. Como a gente pode sobreviver? Estou aqui esquecido! "

E continuou "na Europa também está assim. Eles preferem que mande as fotos porque gastam muito para montar uma exposição porque  lá o IR é muito caro, e por isto evitam fazer exposição individual. Atualmente tiram as fotos das obras , mandam fazer várias cópias e vendem. Até os quadros pintados a óleo ou acrílica funcionam como matrizes, e se aparecer alguém  interessado compra a matriz, ou seja, a tela num preço bem mais alto. Utilizam muito a internet para este comércio de arte, inclusive aqui na Bahia já tem galeria trabalhando desta maneira. Agora as fotos têm que ser muito bem-feitas, profissionais, para captar todos os detalhes dos quadros".

                                                            ETSEDRON NA BIENAL

Etsedron na Bienal Paulista.Foto Reprodução
O grupo Etsedron que foi criado em 1973 encontra-se paralisado. Edison da Luz afirma que o grupo não acabou, o que está havendo é  falta de apoio para continuar com novos projetos. O objetivo era desenvolver um trabalho artístico calcado na cultura rural do Nordeste. Foi premiado na XIV Bienal Internacional de São Paulo, em 1973 com o Grande Prêmio Brasil, e no ano seguinte com o Prêmio de Participação na Bienal.  Na conversa que tive com o Edison da Luz, líder do grupo, ele me disse que estava em Arembepe numa casa que tinha construído numa comunidade coletiva criada pelo dono da Galeria Bazarte, o seo Castro em companhia de Matilde Mattos, já falecida, com quem conviveu durante 15 anos, e observou um jenipapeiro que estava cheio de cipós. Chamou Matilde e disse que os cipós pareciam feitos de ferro. Como Matilde era uma estudiosa e crítica de arte o assunto foi lhes envolvendo até que surgiu a ideia de fazer um trabalho utilizando aqueles cipós, resultando numa obra  fruto de um coletivo. Foi um sucesso na bienal paulista. Mas, tiveram uns poréns. Conta Edson da Luz que até o grande artista baiano Rubem Valentin ficou incomodado porque na instalação do Etsedron eles além de fazer uma casa de taipa, colocaram algumas caçambas de barro para dar um clima de Nordeste e quando o pessoal saia depois de visitar a instalação sujava o piso do pavilhão de terra. 

A situação  em que se encontram os elementos da
instalação Etsedron que foi premiada na Bienal
 paulista em 1973.
Em 31 de maio de 1975 escrevi nesta coluna sobre o Grupo Etsedron - Nordeste ao contrário. "O Grupo Etsedron já está trabalhando para sua participação na Bienal de São Paulo, que será realizada em outubro próximo. A Fundação Cultural do Estado está interessada em patrocinar o trabalho do grupo, o que certamente irá facilitar a concretização do 
Projeto de Etsedron que integra um grande número de pessoas. O Etsedron já está com a mão da massa  e cada um coordena sua parte. Na dança, Terezinha Argolo e Lúcia Maltez; o coral será regido por Carlos Lacerda com músicas de Elomar; a parte etnográfica está a cargo de Angelita Trigueiro; artista plástica, Lígia Milton e o escultor Chico Diabo; no sincronismo da arte com outras ciências funcionarão o Professor Valentim Calderon, Carvalho, Luiz Humberto Machado e Geraldo Milton da Silveira; a ginástica rítmica ficará a cargo de Antônio Andrade e Lúcia Maltez.

Como podemos observar, foi um trabalho de um grupo integrado porque os membros de Etsedron deixam de lado sua individualidade para trabalhar em comum. A propósito, o gravador Edison da Luz afirma que "não posso trabalhar sozinho porque se a arte é voltada para o coletivo ela deve ser feita por várias pessoas. Além disto, procuramos valorizar o nosso material, porque não tem sentido um artista baiano trabalhar só com materiais sofisticados, só encontrados em países superdesenvolvidos." Exemplifica afirmando que " na Bienal passada levamos um trabalho feito de cipós. Este ano também mostraremos um trabalho feito com cordéis e couros."

Como sugestão chamo a atenção dos diretores de museus, especialmente os ligados à arte moderna e contemporânea a importância de resgatar os elementos que ainda restam do Projeto Etsedron e dar um destino digno que merecem. Foi uma instalação que recebeu o Grande Prêmio Brasil e merece ser preservado. É também um ícone da chamada Arte Ambiental, que teve com expressão máxima no Brasil o polonês Franz Krajberg cujas obras foram levadas para Sâo Paulo, Antes ficavam em Nova Viçosa. Este movimento surgiu na Europa e nos Estados Unidos na década de 60. A Land Art (em inglês “Earth Art” ou “Earthwork”) foi um movimento artístico baseado na fusão na natureza com a arte. 

EXPOSIÇÕES

O artista Edison Benício da Luz  veio a falecer em 2 de dezembro de 2023 depois lutar contra um câncer muito agressivo. Quando o entrevistei não consegui com ele nenhum documento ou catálogo onde tivesse registradas as suas exposições. Tive que buscar na internet e na Enciclopédia Itaú Cultural onde tem o registro de apenas 20 exposições a saber:  1966 - 2ª Exposição da Jovem Gravura Nacional; 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia, no Convento do Carmo; 1967  -  9ª Bienal Internacional de São Paulo, Exposição Artistas da Bahia; 1969 – 10ª B|ienal Internacional de São Paulo ; 1970 – Pré- Bienal de São Paulo; 1971 –  3º Panorama de Arte Atual Brasileira, 11ª Bienal Internacional de São Paulo ; 1973 – 12ª Bienal Internacional de São Paulo; 1974 – Pré Bienal Nacional : Mostra Regional ;1977 -  14ª Bienal Internacional de São Paulo ; 1979 – 15ª – Bienal Internacional de São Paulo ; 1995 - 2º Salão MAM – Bahia de Artes Plásticas . O Salão foi mudando de nome ao longo de suas edições; 1999 – Exposição 100 Artistas Plásticos da Bahia ; 2007 – Comemorações ; 2009 – Mostra de Artes Comemorativa do IV Centenário do TJBA ; 2012 – Exposição Água- Reflexos na Arte da Bahia ; 2013 – 50 Anos de Arte Na Bahia; 2017 – Exposição Olhares para Matilde – 90 Anos de Vida.