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sábado, 2 de abril de 2022

A OBRA VIBRANTE E ECLÉTICA DE MÁRCIA MAGNO

Márcia na solenidade de entronização
do busto de Nelson Mandela feito por ela
em agosto de 1991.
A artista Márcia Magno tem uma capacidade de transitar em alguns dos principais segmentos das artes plásticas. Ela é gravadora, pintora e escultora. Atualmente é uma das mais requisitadas artistas na Bahia para fazer esculturas, bustos e baixos relevos de personalidades. Suas obras escultóricas estão se multiplicando a cada dia. Esta sua versatilidade vai nos mostrando a extensão do seu talento nato e sua capacidade de expressão que nos toca de perto. Lembro do colorido e das tramas de suas pipas, quando fez a sua exposição na Capela do Solar do Unhão. Recordo de suas pinturas geométricas centradas nos cubos, e mais recentemente nos apresenta esculturas que estão sendo colocadas em espaços públicos e privados  cumprindo vários papéis: o da homenagem às personalidades e também a oportunidade das pessoas apreciarem com mais liberdade. Oportunidade não só de ver  a obra de arte,  mas também de tocar  e até de fazer uma foto de recordação junto a uma dessas esculturas instaladas nesses espaços. Márcia é baiana de Salvador e foi batizada como Márcia de Azevedo Magno Baptista, filha de Edith Mendes de Aguiar Azevedo e Renato Olímpio Goes de Azevedo.

Esta é a série das primeiras gravuras
 da artista
.
As gravuras de Márcia nos revelam uma forte ligação com o afetivo, o suave e com sua personalidade artística marcante e identitária.  São formas geométricas habilmente construídas com uma transparência de cores refletidas num concretismo de objetos e formas destinados a um espaço natural. A combinação dos círculos e dos triângulos superpostos  resultam em formas quase naturais sugerindo uma beleza de emoção e sentimento do externo feminino, em contraste com a ordem, a elaboração das faixas de linhas retas  perfeitas e literalmente belas. 

A transparência das gravuras de Márcia têm um valor relevante, pela plasticidade implícita e pelo dimensionamento do espaço. A polivalência espacial e os acordes cromáticos tornam-se mais harmônicos pelas concordâncias de luminosidade e cromatismo. São persistentes e sugestivas impressões superpostas, a procura consciente e sensível de novos efeitos visuais.
Suas pipas ganham os céus de Salvador, as galerias e as casas das pessoas que as adquirem. Lembramos que as pipas são brincadeiras de garotos pobres que habitam os bairros populares da maioria das cidades brasileiras. Elas dançam nos espaços sob o comando de verdadeiros malabaristas. São meninos vivos, alegres e brincalhões que fazem os seus pegas onde as únicas vítimas são alguns metros de linha  e as arraias que se desprendem das mãos dos vencidos. Uma batalha portanto, onde vence  o mais hábil e aquele que tem uma linha melhor temperada. Foi exatamente dentro deste universo tão comum e belo, que a artista Márcia Magno foi encontrar o suporte que considerou adequado para realizar sua obra. 
Série onde a artista usou o computador
como ferramenta. 
Boa observadora encontrou ainda nas pipas os desenhos feitos sem 
muita pretensão por àqueles garotos humildes.
Procurou melhorar a geometria com o que aprendera na Escola de Belas Artes da Bahia e o chamamento do social que viveu na Faculdade Nacional de Filosofia, e na Escola Nacional de Belas Artes, ambas no Rio de Janeiro, foram suficientes para lhes dar o  conteúdo necessário e conceber uma obra interessante e acima de tudo vibrante. Suas gravuras ganharam força de expressividade  e logo depois foi uma das poucas selecionadas para participar do Salão Carioca  de Belas Artes , onde expôs  na Galeria Macunaíma, da Funarte, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1980. Foi aluna e conviveu com importantes próceres da arte  e da intelectualidade carioca como Mário Barata, Eduardo Portela, Moema Toscano, Geraldo Edson de Andrade. Antes de vir para Salvador ainda morou uma temporada nos Estados Unidos e lá frequentou ateliers de artistas, sempre procurando aprender e desenvolver o seu talento.
Este belo mural está na instalado na Faculdade
 de Educação da UFBA.
Ela fez alguns murais importantes em Salvador sendo que três deles estão em locais frequentados por estudantes e professores. O que realizou como trabalho do seu Mestrado chamado Alquimia está na Faculdade de Química; um segundo na Faculdade de Educação e o terceiro no Pavilhão de Aulas da UFBA. Foi professora das disciplinas de Arte Mural, Xilogravura, Modelagem e Desenho, e diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia de 1988 a 1992. Neste período implantou e coordenou dos cursos de Desenho Industrial ( Design Gráfico) e o Curso Superior de Decoração (Design de Interiores), além de implantar o Mestrado de Artes. Coordenou a Galeria Cañizares onde realizou importantes exposições. Foi nesta época que promoveu como curadora as exposições Mulheres em Movimento I e II, mostrando a atuação das mulheres da Escola de Belas Artes  desde a sua fundação.  Promoveu ainda a primeira exposição sobre Arte Digital na Bahia chamada de Arte em Computação - Belas Artes Computer Grafics, em 1992.
A estátua de Zumbi no
 Terreiro de Jesus.
Atualmente, tem se dedicado a realizar esculturas, bustos e baixo relevos de personalidades baianas. Muitos dessas obras  estão nas ruas da Cidade como  os busto  de Dorival Caymmi, no final de linha de Itapoã; de Mãe Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, que está na Lagoa do Abaeté; de um dos fundadores do Ilê Ayê, o Apolônio, mais conhecido por Popó , que fica na sede da entidade no bairro do Curuzu;  O busto  de Nelson Mandela, Presidente da África do Sul; de Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá , além de baixos relevos do professor Thales de Azevedo, do construtor Norberto Odebrecht e  do jornalista Jorge Calmon. Fez ainda as estátuas de Zumbi dos Palmares, que está no Terreiro de Jesus; a do escritor  João Ubaldo Ribeiro, na praça Nossa Senhora da Luz, na Pituba , e a do professor Humberto Castro Lima, na reitoria da Fundação Baiana de Medicina, em Brotas. 
Agora está ultimando o busto   do geógrafo baiano Milton Santos, que foi homenageado recentemente com o nome da antiga Avenida Ademar de Barros, no bairro de Ondina, que passou a ser chamada de
Márcia e a filha Paula Magno com
a estátua de João Ubaldo Ribeiro.

Avenida Milton Santos. Este busto que está realizando será entronizado na avenida que recebeu o seu nome.  Certamente, muitas outras virão a ocupar outros espaços sob o buril desta artista  que nos encanta com suas formas, suas cores e muita criatividade. A cada escultura concluída vem aprimorando a sua técnica. 
Márcia Magno iniciou sua carreira artística no Rio de Janeiro onde frequentou a Escola Normal de Belas Artes e o Curso de Artes Decorativas. Ela me relatou que já estava ambientada com o movimento de artes do Rio de Janeiro e que tinha muitos contatos com artistas, críticos de artes e galeristas. Ao chegar a Salvador passou um tempinho até se adaptar e atualmente está completamente integrada . Ela ingressou na  Escola de Belas Artes onde se graduou e depois foi professora assistente e titular . No ano de  1988 foi nomeada Diretora. Foi durante sua gestão que foram criados os cursos de Desenho Industrial e o Curso Superior de Decoração, e o Mestrado em Artes.  Ensinou alguns anos nas oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia , que sempre foi um espaço importante para o aprendizado para muitos jovens e artistas iniciantes que frequentam as oficinas em busca de aprimoramento. Também já foi membro de vários júris de artes plásticas e  realizou muitas exposições individuais e coletivas aqui e em outros estados, tendo sido ainda premiada em alguns salões de arte . Nesta foto ao lado a artista Márcia com a filha Paula Magno que também é escultora e vem trabalhando com ela na  concepção de algumas esculturas. 


LIANE KATSUKI EXPONDO EM AMSTERDAM

Colar "Caminhos para o Encontro"
Com mais de trezentas exposições individuais e coletivas realizadas aqui e em vários países da Europa a baiana de Entre Rios Liane Katsuki vem se destacando internacionalmente a cada dia como designer de joias e escultora. Depois de concluir seu curso no  Brasil, na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia,  complementou seus estudos nas escolas de Belas Artes de Paris e Toulouse, na França. Em seguida buscando ampliar seus conhecimentos foi se especializar em   joalheria  em Toulouse, na França e em Emmen, na Holanda. Já teve seu trabalho reconhecido através de duas premiações importantes como o De Beers Diamond e o Tahitian Pearl Trophees, e trabalhou para importantes personalidades da moda a exemplo de Pierre Cardin.Tem esculturas de sua autoria espalhadas por alguns países da Europa  como França, Holanda, Espanha e também no Brasil. Já morou na França, Japão, Holanda e Espanha. Atualmente está residindo na Holanda. Agora está expondo suas joias na Art Fair, em Amsterdam, que é um centro importante de comercialização de joias e diamantes
Liane Katsuki na Art Fair em Amsterdam, na Holanda.
já vários séculos. Dizem os críticos de lá que as joias de Liane Katsuki apresentam características especiais com sua linguagem única  e sempre fiel à qualidade dos materiais que utiliza como também explora todas as possibilidades que esses materiais oferecem. Ela tem um conceito que transita entre a ortodoxia do novo  classicismo e a modernidade. Suas joias são proporcionais, harmônicas, modulares e totalmente integradas com a natureza. Suas  joias têm  outra característica é que elas se relacionam e se complementam entre si .Tudo isto é resultado de muito estudo, muitas horas dedicadas às suas joias que lhe permitem hoje o domínio dos materiais combinando elementos diferentes, criando volumes leves dando uma visão tridimensional. 
Escultura em bronze "Encontros".
 Falando sobre sua arte a artista baiana Liane Katsuki disse " que o artista é um precursor do seu tempo, do seu momento histórico e social. Como tal, ele se sente responsável ante seus contemporâneos e sobre si  mesmo. A coerência do  seu trabalho e sua criatividade não podem estar dissociados da sua visão de mundo.
Tem como missão a verdade, caminhando em linha reta e em solidariedade. Não se curva diante das dificuldades e dos atalhos. Diante dos desafios do triunfo ou do fracasso tem que colocar seus princípios fundamentais. Meu trabalho está pensado e criado com emoção e equilíbrio. Alma e corpo, coração e razão. Não me permito deslizes técnicos. Por isto busco a perfeição dentro da linguagem mais pura da técnica, respeitando e domando os materiais que me permitem exteriorizar minha mensagem interior".

quinta-feira, 17 de março de 2022

AS HISTÓRIAS PLÁSTICAS DE MURILO RIBEIRO

Vemos ai no dia da abertura da exposição o artista Murilo
Ribeiro recebendo convidados e verbalizando suas histórias.
 Estive visitando a exposição de Murilo Ribeiro que está até o dia 16 de abril no Museu de Arte da Bahia, que fica no Corredor da Vitória. São 59 telas em óleo sobre tela que ele produziu durante a pandemia aproveitando a reclusão forçada para pesquisar os grandes mestres da pintura e até da Literatura.Em seguida partiu para pintar suas obras utilizando uma técnica apurada superpondo leves camadas de tintas que deu um resultado muito bom e uma unidade nas cores e nas formas no conjunto das obras expostas. O artista assumiu a postura de um contador de histórias criando narrativas através das figuras que foi desenhando e pintando, e também nas situações que os envolve. Realmente é um jogo entre a fantasia e a realidade, como que brincando de um teatro que navega nos universos  da comédia e do drama. Os personagens criados ou imaginados por Murilo Ribeiro surgem dentro deste clima de camadas de tintas  dando  um ar mais adequado ao tempo em que viveram neste mundo.  Ele conseguiu elaborar  uma pintura fosca através um verniz que acrescentou após pintar suas telas a óleo. Desde 2008 que Murilo Ribeiro  não expunha suas obras sendo que esta  exposição foi realizada  no Espaço Cultural da Caixa Econômica Federal. Faz questão de afirmar que suas pinturas atuais não são ilustrações, as imagens que pintou traduzem as histórias que queria contar. São histórias que surgiram dentro de sua liberdade criativa, quase não tem nada a ver com as pinturas ou livros onde foi buscar sua inspiração. Foram apenas simples referências. Esta busca foi  um start para daí começar a criar  suas próprias histórias, embora os personagens possam estar numa obra de um grande pintor clássico ou moderno e na Literatura. Murilo Ribeiro pintou cento e quatro  telas, mas o espaço do Museu de Arte da Bahia só lhe permitiu expor 59 obras , e ele pretende ainda levá-las para expor em Atlanta, onde reside sua única filha, e  também em outra galeria em São Paulo. Com suas leituras e pesquisas, inclusive nas redes sociais ele criou uma pléiade de personagens e situações que passou a desenvolver nas telas. Notamos que as obras têm espaços escuros, cores mais densas e variados tons superpostos.

                                    ALGUMAS DAS HISTÓRIAS PINTADAS  PELO ARTISTA

"A chegada de Vincent em Paris", cidade que gostava muito.

O artista Vincent van Gogh já tinha feito algumas viagens à Paris quando trabalhava na galeria de seu tio dos 16 aos 27 anos , porém em fevereiro de 1886 voltou sem avisar ao seu irmão Theo, e depois pediu desculpas por não te-lo avisado. Nesta sua viagem conheceu obras de pintores impressionistas que haviam deixado de lado seus ateliers e passaram a pintar em parques, ruas, bosques e a vida cotidiana  em busca de mais luminosidade e cores. Com isto mudou sua forma de pintar que vinha realizando na Holanda basicamente inspirado em cenas de bares, no campo com os trabalhadores rurais utilizando cores mais escuras. Desta vez ele permaneceu dois anos em Paris, e certo dia  teria se manifestado assim: "Paris é Paris, só há uma Paris. E por mais dura a vida aqui possa estar, e mesmo se ficasse ainda pior e mais dura, o ar francês  mantém lúcido o espírito e faz-nos bem, infnitamente bem!". O Museu de d´Orsay tem mais de 2 mil esculturas e obras dos impressionistas e pontilhistas franceses e de outros países. Vincent  van Gogh tem  lá muitas obas  expostas atualmente. Obras que ele fez nos arredores, parques e nas ruas de Paris. E o Murilo Ribeiro criou uma história desta  viagem de Vincent à Paris que reproduzo uma foto do sua tela feita em acrílica. 

"A Ovelha Negra ", obra em óleo sobre tela.
Outra história contada por Murilo através de sua arte é o da Ovelha Negra baseada  na fábula criada
pelo escritor hondurenho Augusto Monterroso, que residiu na Nicarágua alguns anos e depois no México. Dizem que ele reinventou este gênero literário criando várias fábulas . No livro "A Ovelha Negra e outras fábulas", estão reunidas 40 delas. São curtas e cheias de metáforas e ironias que nos levam a refletir sobre várias situações vivenciadas pelo homem . Reflexões que tratam da condição humana,da  injustiça social,  política, inveja, vaidade,vergonha, orgulho, amor e ódio, perdão. Enfim, das situações criadas pelo ser humano. O curioso é que ele sempre escolhia um animal como seu personagem para expressar o que pretendia.  Esta fábula da Ovelha Negra que Murilo escolheu para criar sua história plástica  trata de um homem honesto que resolveu mudar para um certo povoado e lá passou a viver. Os moradores costumavam  roubar uns aos outros, e assim mantinham o equilíbrio do lugar. Acontece que o novo morador dificilmente saía e como sua casa não podia ser roubada por ele estar sempre presente provocou um desequilíbrio.O novo morador passou a não ser desprezado e hostilizado. Na fábula de Moterroso  a ovelha ficou triste e saiu pelo bosque onde terminou adormecendo. Quando acordou estava branca igual as demais . Tem outros detalhes da fábula, mas o objetivo é falar sobre a importância da honestidade. Vale a pena ler as fábulas do Monterroso.
"A Chegada dos Pintores Venezianos àToledo", na Espanha.
A
qui Murilo representou dentro de sua visão "A Chegada dos Pintores Venezianos à Toledo", na Espanha. Sabemos  El Grecco que era natural da ilha de Creta, que na época pertencia ao principado de Veneza. Ele morou em Veneza  onde trabalhava como pintor e arquiteto , e em seguida foi para Toledo , e aí pintou grande parte de suas obras. Chamava-se Doménikos Theotokópoulos e assinava suas obras com este nome original.
Outro que migrou foi Tintoretto, nascido em Veneza em 1518 batizado como  Giovanni Battista Robusti levou o apelido de Tintoretto porque seu pai tinha uma lavanderia e tinturaria. Era também chamado de O Furioso devido suas obras apresentarem dramaticidade e efeitos de luz. Foi um dos precursores do barroco. Outros pintores também migraram para Toledo , mas vamos ficar por aqui.
O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 2018, num domingo à noite,  foi  uma tragédia anunciada porque toda a comunidade intelectual sabia da precariedade de suas instalações marcadas pela falta de uma manutenção adequada por parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época o reitor era Roberto Lehrer, um militante de esquerda conhecido. Já haviam sido publicadas na imprensa fotos mostrando as gambiarras dentro das dependências do Museu e os recursos empregados na sua manutenção eram insuficentes, embora o governo de então, e os  ministros  da Educação e da Cultura soubessem que ali estavam guardadas e expostas 20 milhões de peças que eram parte da História do nosso país.
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu".
 Hoje técnicos estão trabalhando na recuperação ou reconstituição de peças danificadas pelo fogo. Milhares de outras foram perdidas entre elas o fóssil de Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado.Calcula-se a idade em 11 mil anos. A metade do acervo do museu foi consumida pelo fogo.
As chamas começaram depois das 19 horas quando foram encerradas as visitas. Haviam apenas quatro vigilantes de plantão e o fogo foi  intenso e se alastrou rapidamente porque havia muita madeira na composição do prédio e também objetos de fácil combustão. Por isto,  praticamente a ação dos bombeiros não surtiu o efeito esperado. Os bombeiros ainda tiveram dificuldades para utilizar a água para apagar o fogo. 
O museu foi criado em 1818 por D. João VI e tinha completado 200 anos de existência. Foi neste prédio que a princesa Leopoldina , casada com d. Pedro I, assinou  a Declaração de Independência do Brasil, em 1822. Anos depois foi palco da primeira Assembleia  Constituinte da República nos anos 1890/91, marcando o fim do Império no Brasil.
Sensibilizado com esta tragédia Murilo Ribeiro pintou 
"Os Fantasmas do Museu Nacional Abandonam o Museu". Realmente os administradores fantasmas não foram competentes e diligentes a ponto de evitar que esta tragédia destruisse grande parte da cultura e da História de nosso país com o desaparecimento de milhares de peças colecionadas e guardadas através dos duzentos anos. 
"Assédio"e o abuso no universo do politicamente correto.
 Ele também tratou em sua exposição de um assunto que hoje está presente nos noticiários dos telejornais, nos jornais impressos, nos rádios e redes sociais que é o exagero do politicamente corrreto que transformou uma simples paquera em assédio sexual. Agora temos assédio moral, assédio disto e daquilo inibindo o relacionamento saudável entre as pessoas.
Diz o Dicionário que o " assédio pode ser configurado como condutas abusivas exaradas por meio de palavras, comportamentos, atos, gestos, escritos que podem trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo o seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho." E chegam a classificar os tipos de assédio moral,sexual e virtual.  O assédio moral ocorre com a exposição de uma pessoa a situações de constrangimento, humilhação e perseguição de forma contínua e prolongada. 2. Agressões psicológicas. O assédio psicológico é uma violência emocional. ...
  • 3.Assédio sexual está tipificado no Artigo 216-A do Código Penal — constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício do emprego, cargo ou função. Pena: detenção de 1(um) a 2 (dois) anos. 4. Assédio virtual, onde as tecnologias de informação e comunicação, como  as redes sociais, são utilizadas como ferramentas para importunar, intimidar, perseguir, ofender ou hostilizar alguém.Portanto, hoje é preciso ter muito cuidado ao abordar alguém numa paquera e tornou-se perigoso insistir num amor não correspondido à primeira vista porque você pode ser enquadrado num dispositivo legal. 
  • NR- Quero agradecer a jornalista Cleide Nunes e ao fotógrafo Fernando Barbosa, da Ascom,  do Museu de Arte da Bahia, pelas fotos que publico ilustrando este texto.



segunda-feira, 14 de março de 2022

ALMANDRADE EXPÕE EM SÃO PAULO E LANÇA LIVRO

Foto 1.Sobrecapa  e
capa do livro. Foto 2.
Projetos de esculturas.
O artista baiano Almandrade o maior expoente da arte conceitual e construtivista na Bahia estará expondo  a partir do dia 16 até o dia 20, a Oca, no Parque Ibirabuera, em São Paulo, juntamente com Montez Magno, que é  de Timbaúba, em Pernambuco, e está com 88 anos de idade. Também serão expostas obras de  Sérvulo Esmeraldo, cearense, falecido em  2017. O nome da exposição é Geometria Sensível. A mostra foi organizada pela Acervo Galeria de Arte, de Salvador, que reuniu obras desses três artistas nordestinos unidos pela geometria, precisão e a lógica . São trabalhos concebidos dentro de um rigor conceitual, mas que trazem no seu conjunto forte dose de sensibilidade, poesia e criatividade.

A curadora Denise Mattar na sua apresentação . afirma que "o conjunto deixa nítido o quanto a produção artística abstrata do Nordeste se reveste de características particulares, mais próximas da produção latino-americana, da chamada geometria sensível de artistas como Torres-Garcia Carmelo Arden Quin ou Jesus Soto, do que o concretismo europeu de Theo van Doesburg ou Max Bill. São muitas as razões históricas e culturais que levaram a este resultado".

Voltando para o Almandrade, batizado como Antônio Luiz Morais de Andrade, arquiteto, polêmico, artista plástico e mestre em desenho urbano, professor de Teoria da Arte, é natural de São Felipe, interior da Bahia onde nasceu em 1953. Tem ainda dois projetos de livros em andamento. Um pela Fundação Getúlio Vargas  que seria publicado através de recursos provenientes da Lei Rouanet, e outro aqui na Bahia sob a coordenação da Marco Peltier com patrocinador baiano. Mas, ele não tem ideia de quando esses livros poderão ser publicados. Por isto, que ele fez este dos 50 Anos de Arte e classificou como Volume I.

Desde a década de 1970 que  vinha produzindo uma obra completamente distanciada da grande maioria dos artistas baianos que se apresentava através de outras formas como o figurativo e o expressionismo. Os seus trabalhos ao serem observados mostram o rigor do desenho e a sutileza dos traços e espaços deixando claro que por trás está um arquiteto conscio deste jogo permeado de sensibilidade. São obras que exigem do espectador um olhar mais sutil,mais demorado para que possa deixar penetrar as imagens a serem decodificadas de acordo com as informações que cada um dispõe.Neste livro estão inseridos vários textos, inclusive este de minha autoria que transcrevo:

                                            Almandrade

Obra O Horizonte do Quarto,
acrílica sobre tela, de 1990
"Venho acompanhando a sua trajetória há alguns anos. Ele começou figurativo e num processo gradual de somar informações desaguou na arte conceitual. Evidente que sua formação de arquiteto contribuiu para isto de forma definitiva .Nos anos 70 Almandrade já mostrava suas obras, numa Salvador ainda distante de absorver este tipo de arte. Agora ele retorna à pintura com esta mosta, revelando que isto ocorre desde a metade dos anos 90, defendendo que as possibilidades da pintura ainda não se esgotaram. Fiquei feliz em reencontrar um Almandrade cada vez mais reflexivo e flexível. A chegada dos anos vai nos pondo com o olhar mas generoso mais crítico é verdade, porém, disposto a dialogar , e notar que as diferenças existem e que elas andam e vivem fora de nosso mundo ou dos nossos traços e círculos .O que não podemos abrir mão é da nossa capacidade crítica e de reflexão. Ninguém é proprietário da verdade. Ninguém deve ser condenado por pintar de um jeito ou de outro. Cada um deve se expressar como entender que deve, cabendo ao marchand, ao colecionador ao crítico e ao próprio mercado prover e enaltecer com seus instrumentos a produção de arte. 

Àqueles que mesmo com talento, ficarem ou estejam momentaneamente fora do mercado, certamente um dia serão reconhecidos e colocados nos seus devidos lugares. Esta é a marcha da vida, esta é a dinâmica que norteia todas as profissões. Relendo um texto escrito por Almandrade no ano 2000 onde ele defende : "A independência da obra de arte com relação ao repertório de um público principalmente, criou uma expectativa em torno de sua leitura. Hoje em dia, o artista é solicitado a prestar esclarecimentos sobre o significado de sua obra, como se fosse possível alguma tradução verbal". Acredito que isto acontece quando o observador não tem informações que lhes assegurem a compreensão da obra de arte. Como estamos num país de pouca leitura, onde a obra de arte ainda é muito limitada a museus, exposições e colecionadores abastados é evidente que existe uma dificuldade quase generalizada, principalmente se você não produz uma arte figurativa de fácil entendimento. A decodificação depende de cada um de nós. Se fizermos um exercício mandando algumas pessoas lerem um conto, e em seguida solicitarmos que revelem suas interpretações sobre o texto lido vamos ter surpresas agradáveis. E, isto é compreensível e importante pela capacidade de cada uma das pessoas de absorverem e decodificarem ou não as informações ali contidas. É por esta razão que na juventude Almandrade ficava inquieto com a falta de compreensão do público com suas obras.

Obra Poema-Objeto, acrílica sobre
madeira, 1973
Almandrade possui uma formação intelectual acima da  maioria dos artistas baianos, e isto contribui ainda hoje para
aguçar suas inquietações. Ele tem posição firme contra a  ditadura do mercado, o que considero compreensível.  Também, discordo das regras do mercado e devemos  continuar lutando contra elas. Porém, o mais importante de  tudo isto é que reecontrei um Almandrade maduro, mais  compreensivo com as coisas da vida, acima de tudo um  artista,  que mesmo enfrentando todas as dificuldades  pessoais  interpostas pelo mercado e pela dificuldade de  compreensão imediata de sua arte, ele prossegue firme  aprimorando a qualidade de sua produção. "

Já o Alexandre Bonfim fez também um texto que  Almandrade inseriu no livro com o título sobre a poesia do  artista: "Os malabarismos de uma consciência intensamente  lírica" que diz :"A poesia de Almandrade faz-se, antes de  tudo,  daqueles temas essenciais da condição humana, tão  preciosos para os homens do nosso tempo, distanciados da  razão de existir. Uma perplexidade em constante estado de  nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade múltipla e absurdo. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos com a densidade real e com todos os seus limites e frustrações:"cidade perplexa / embalagem hostil / inútil divertimento". O eu lírico dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas possibilidades de salvação ou transcedência  ( encontradas, como veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica): "o andarilho inocente / repete o caminho / sem encontrar / uma saída". Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos labirintos kafkianos, em que todas as direções nos encaminham , na verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de possuir sua voz própria e peculiar, Almandrade recria , portanto, aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja , o seu famoso José".

                                        TRAJETÓRIA

Obra Poema Visual em nanquim
- 21x30cm, de 2013.
 Conta no livro Almandrade que deu início ao seu trabalho   entre a literatura e as artes visuais em 1972 ainda no colégio   quando participou de um salão estudantil. A poesia veio   primeiro e em seguida se interessou pelas artes plásticas.   Através da poesia concreta chegou ao concretismo e depois   à  arte conceitual movimento que teve seu auge na década   de  1970. A partir de então passou a utilizar vários suportes   para se expressar como o desenho, pintura, escultura,   instalação, poema visual dentro da opção estética . Isto já se   vão 50 anos !

 Diz ainda Almandrade que depois dos primeiros ensaios   figurativos nos anos 1970 e 1971 decidiu pela geometria ,   "desenvolvendo um produto ora pictórico, ora linguístico,   como um lugar de reflexão,solitário,à margem do circuito   baiano. A experi|ência gráfica proveniente do curso de arquitetura foi decisiva na formalização do projeto gráfico no poema e em outros suportes. E finaliza dizendo que "esta publicação é apenas um pequeno recorte que registra o meu compromisso com a linguagem desde os anos 70 ,no silêncio do circuito de arte. Hoje mantenho meu projeto, entre o conceitual, o construtivo e a poesia visual . É sempre a busca do impossível".

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Em  1975 - Poemas Visuais, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1977- Instrumentos de Separação, Instituto Goethe, Salvador / BA; 1978 - O Prazer do Hermético ou o Hermético do Prazer, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1979 -  Artifícios de Gargalhadas,  Instituto de Arquitetos, Salvador / BA ; 1980  - O Sacrifício do Sentido, Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1983 - Desenhos, Instituto Goethe, Salvador / BA ; Esculturas de Carpete, Funarte, Rio de Janeiro / RJ; 1985 - Esculturas, Objetos e Desenhos, Foyer do Teatro Castro Alves , Salvador / BA; 1986 - Instalação, Desenhos e Poemas Visuais, Galeria, Metropolitan, Recife/PE; Desenhos e Ideias, Fundação Cultural do Distrito Federal Brasília/DF; 1990 - Pinturas, Esculturas e Objetos, Escritório de Arte da Bahia, Salvador / BA ; 1992 -Jardim Para Meditação, Teatro Gregório de Mattos, Salvador / BA; 1994 - Esculturas, Objetos e Pinturas, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; Lançamento do vídeo imagens e imagens, de Luiz Rosemberg Filho com poema do artista ; 1995 - A Arte de Almandrade , Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1997 - Pinturas, Esculturas, Instalação, Livros e Objetos, Centro Cultural , São Paulo/SP ; Pinturas, Esculturas e Poemas - Prêmio Copene de Cultura e Arte , Prova do Artista, Salvador/BA ; 2000 - Mostra Retrospectiva , Museu de Arte Moderna, Salvador /BA ; 2001- Pequenos Formatos, Galeria ACBEU, Salvador/BA; Almandrade, Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, Salvador/BA; 2002 - Pensamentos, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro /RJ; 2003 - Esculturas, Instituto Goethe, Salvador/BA ; 2004 - Pinturas, Sofitel Suítes Costa do Sauipe, Bahia ; 2005 - Instalação, Conjunto Cultural da Caixa, Salvador/BA; 2009 -Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, Salvador / BA; 2011 - Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, São Paulo/SP; Um Olhar do Artista Sobre Seu Trabalho , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA; 2013 - Gravuras e Pinturas, Studio R Krieger, Curitiba/PR ; 2014- Poemas Visuais e Instalação , Casa das Rosas, São Paulo/SP ; 2015 - Entre a Palavra e o Conceito , Roberto Alban Galeria, Salvador/BA; Do Poema Visual à Poética do Plano e Espaço, Baró Galeria, São Paulo / SP; 2016 - Solo ArteBa , Baró Galeria, Buenos Aires; 2017 -Poemas Visuais, Desenhos, Pinturas, Esculturas e Instalações, Gabinete de Arte K20, Brasília/DF; O Conceito Entre o Verbo e a Visualidade, Baró Galeria, São Paulo/SP; 2018 - O Sentido do Original na Gravura, Baró Galeria, São Paulo/SP;
Investigações Visuais, Luciana Caravello Arte Contemporânea,
Rio de Janeiro/RJ; 2019/2020 - Pensar o Jogo, Museu Nacional, Brasília/DF; 2022 - Gravura: Geometria e Poesia - Gravura, Gravuras no Brasil Galeria, São Paulo/SP;  Labirinto para a Curiosidade do Olhar, Galeria Murilo Castro, Belo Horizonte/MG.


EXPOSIÇÕES COLETIVAS


Em 1972 -I Salão Estudantil, Instituto dos Arquitetos, Salvador/BA ; 1973 - Cinco Artistas, Biblioteca Central, Salvador/BA ; XIII Bienal Internacional - com grupo Etsedron , São Paulo/SP; 1978 - Paralelo 78, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador/BA; 1979 - Artes plásticas Universitária Hoje, Foyer do Teatro Castro
Alves, Salvador/BA ;1980 - Agora Mostra Sete , Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1981 - Salão Nacional de Artes Plásticas Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro/RJ; Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal ,São Paulo/ SP; 1982 - Universo do Futebol, Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ; 1985 - Tendências do Livro de Artista no Brasil, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/ SP ; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/SP ; Tendências do Livro de Artista no Brasil, Arte Brasileira Atual ; Galeria de Arte UFF, Niterói / RJ; 1986 - I Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA; I Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, Fortaleza/CE ; I Mostra Internacional de Poesia Visual, Centro Cultural, São Paulo/SP; 1987 - Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal, São Paulo/SP, 1988 - Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA ; 1989- Salão Nacional de Artes Plásticas, Funarte, Rio de Janeiro/RJ ; 1991 - Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix / BA ; 1994 - Salão MAM-Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA;  1996 -Salão Unama de Pequenos Formatos, Universidade da Amazônia Galeria de Arte, Belém/PA ; 1997 -Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; 1998 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1999 - Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 100 Artistas Plásticos da Bahia, Museu de Arte Sacra, Salvador/BA ; Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA;  Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro /RJ ; Arte Salvador 450 Anos, Fundação Cultural de Curitiba Solar do Barão, Curitiba/PR ;  2000 - Exposição ACBEU Magalhães Neto, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; 2002 - Brazilian Visual Poetry, Mexic - Arte Museum, Austin-Texas/EUA ; 2005 - A Arte Anterior à Arte, Caixa Cultural, Salvador/BA ; 2007 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 2010 - Coleção de Escultura, Da República à Contemporaneidade, Caixa Cultural, São Paulo/SP  ; Geometrias Gestos e Grafias, Arte Plural Galeria, Recife/ PE ; MAC - 14 Anos, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana/BA; 2012 - Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição: A Gênese do Gabinete do Desenho, Gabinete do Desenho, São Paulo/SP, Economia da Montagem : Monumentos, Galerias, Objetos MARGS, Porto Alegre/RS ; Cromomuseu. Pós-Pictorialismo no Contexto Museológico - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, Porto Alegre/RS ; 2013 -Tupy Todos os Dias , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ BA ; XIII Salão Nacional de Itajaí, Itajaí /SC; 2014 -Distrações da Memória , Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS ; 3a Bienal da Bahia, Salvador/BA ;The Beautiful Game: O Reino da Camisa Canarinho, Museu dos Direitos Humanos, Porto Alegre/RS; 2015 – 10ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre/RS ; Destino dos Objetos, Fundação Vera Chaves Barcelos, Viamão/RS ; 2016 - Tendência do Livro de Artista no Brasil : 30 Anos depois , Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; 40 Anos de Linguagem Contemporânea no MAM-Ba, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Desordem , Baró / Emma Thomas , São Paulo/SP ; X Bienal de Literatura, Curitiba/PR ; 2018 -Palavra Viva, SESC Palladium, Belo Horizonte/MG ; Palavra Coisa, Galeria Carbono, São Paulo/SP ; Livro de Artista , Museu de Arte da Bahia;  2019 - Novas aquisições , Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo/SP; Berlin Bahia , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Abertura 1980, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto/SP; Experimentus Linha Clara, Igreja São Vicente, Évora/Portugal ; À Nordeste , Sesc 24 de Maio, São Paulo/SP; The 55 Project , Atchugarry Fundation, Miami/EUA ; 2021- BAHIA for ÉVORA , Museu Nacional Frei Manoel do Cenáculo Évora / Portugal; 2022 - Gravuras , Gravuras no Brasil, Galeria, São Paulo/SP; 2023 - Compaixão-Escritas Poligráficas , Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, Évora/Portugal.


COLEÇÕES
Museu de Arte Moderna da Bahia; Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro); Museu de Arte do Rio de Janeiro; Pinacoteca Municipal de São Paulo; Museu Afro (São Paulo); Museu Nacional de Brasília; Museu da Cidade Salvador ; Museu de Arte do Rio Grande do Sul; Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul Brazil Golden Art, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Recife; Museu de Arte Abraham Palatinik Natal; Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana-BA ; Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Fundação Vera Chaves Barcelos -RS ; Museum of Contemporary Art  MCA, Chicago ; Museu Jumex - México.
 

PRÊMIOS
Em 1981 - 1° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1982 - 2° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1986 -Prêmio Funarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco ; 1989 - Prêmio Aquisição 11 Salão Nacional de Artes Plásticas; Rio de Janeiro ; 
1997 - Prêmio Copene de Cultura e Arte, Salvador. 

 

 

 

 

 

 

 



terça-feira, 25 de janeiro de 2022

PEDROSO É UM EXPOENTE DA PINTURA NAIF

Pedroso aos 86 anos continua pintando diariamente.
 Depois de mais de quarenta anos fui ao encontro de um dos artistas criativos  e que durante mais de seis décadas vem calmamente pintando a nossa Bahia, seu casario, sua gente e  suas manifestações populares e religiosas. Uma pintura cândida que nos revela este lado poético, quase inocente , transpondo para as telas em cores  cruas e cheias de luzes esses momentos mágicos do dia a dia e também àqueles momentos   onde juntos os baianos celebram seus santos, seus orixás e toda sua miscigenação.  O pintor é Joaquim Pedroso Gomes de Oliveira , ou simplesmente Pedroso, como ele assina suas obras. Morador do bairro de Brotas onde ele vive e tem o seu atelier na mesma casa quando o conheci há décadas atrás. Ele já pintou centenas de quadros e realizou quase duzentas exposições entre individuais e coletivas. É um dos artistas naifs mais importantes do país.


O curioso é que tinha perdido o contato com Pedroso , porque já não estou na lida diária de um jornal impresso, e também houve uma diminuição drástica do número de galerias em nossa Cidade, onde eram realizadas muitas exposições. Havia um movimento de arte considerável em Salvador . Os quais estão registrados em minha coluna de arte que escrevi por mais de 25 anos no jornal A Tarde, a maioria consegui delas transportar para este blog. Dizem que à medida que envelhecemos costumamos ficar olhando para trás, para o retrovisor, como se diz no popular, lamentado "antigamente era assim e assado". Acontece que são fatos, e isto pode ser comprovado através de publicações, catálogos e fotografias. Nesta publicação alemã ao lado a Zeitgenössische Naive Malerei Aus Brasilien - Brazilian Naïf Art Of Today - Naifs Brasileiros de Hoje constam obras e os nomes dos artistas naifs do Brasil, e Pedroso está presente. 

Pedroso com uma tela ainda em execução 
onde aparece uma favela
.
            O REENCONTRO
Voltando ao Pedroso temos um amigo comum o escritor e animador cultural Franklim Jorge que  é potiguar e atualmente reside em Natal. Franklin dirige uma revista eletrônica chamada Navegos , de sucesso no meio intelectual, onde colaboradores publicam seus artigos, crônicas etc. Inclusive de quando em vez ele me surpreende publicando algum dos artigos que escrevo. Um dia  o Franklin lembrou-se de Pedroso e me pediu que tentasse localizá-lo porque tinha uns quarenta nos que não o via e perdera o contato. Foi assim que apelei para minha amiga  Anna Georgina, da Galeria Panorama, onde Pedroso expôs algumas vezes .Indaguei se sabia por onde andava o nosso personagem. Para minha  alegria ela tinha o telefone de Pedroso. Fiz algumas ligações , deixei mensagens no zap e não obtive resposta. Voltei a falar com Anna Georgina dizendo que o homem não retorna as ligações. Ela entrou em contato com ele, e finalmente nos falamos. Lá chegando com a ajuda da tecnologia do celular entramos em contato com Franklim Jorge . Foi um momento inesquecível e marcante.

Pedroso tem uma história longa e interessante de sua trajetória como pintor. Ele nasceu na cidade do Crato, no Ceará, em 6 de dezembro de 1935, portanto, está com 86 anos de idade, e comemorando sessenta e quatro anos de pintura. Magrinho e lépido diz que diariamente limpa o jardim de sua casa onde um cacaueiro frondoso , um pé de pimenta do reino e outro da cravo da Índia fornecem a sombra necessária para um descanso tranquilo.

 Já passou por várias fases de bonança e turbulência, como muitos de nós, neste país onde a moeda já mudou várias vezes e a instabilidade política não nos dá trégua. Fiquei sabendo que trabalhou como balconista na Loja Titan, na Avenida Joana Angélica, loja esta pertencente ao paulista do Brás,  José Marques de Castro, seu Castro, aquele mesmo dono da famosa e Galeria Bazarte, que ficava no Politeama, próximo ao Instituto Feminino da Bahia. Quem lhe apresentou a seu Castro foi seu irmão mais velho José Geraldo Gomes de Oliveira que trabalhava no Banco do Brasil e o conhecia , ai indagou se não arranjava um emprego  para o irmão.

                                        SUA TRAJETÓRIA

Paralelamente ao trabalho de balconista vendendo confecções masculinas na Loja Titan, Pedroso ia fazendo suas pinturas. Certo dia ao passar pelo Politeama viu uma galeria de arte aberta e resolveu entrar para apreciar as obras de arte. Até então não sabia que a galeria pertencia ao patrão seu Castro. De repente se esbarra com seu Castro e então foram conversando e Pedroso lhe disse que fazia uns trabalhos de arte. Ficou acertado que  levaria alguns para seu Castro examinar, e assim foi feito.Em pouco tempo três obras de sua autoria foram vendidas. Assim, ele iniciou seu caminho como artista profissional.
Pedroso  em seu atelier
Como o salário que recebia na Loja Titan era insuficiente para sua manutenção falou com seu Castro e ele se prontificou a arranjar um trabalho em outra empresa onde fosse ganhar mais. Mandou que vestisse o paletó e juntos se dirigiram ao Relógio de São Pedro para falar com Zivi e Jacob que eram dois empresários donos da Schindler-Adler , do segmento de ar cndicionado. O curioso é que o Zivi era russo e o Jacob judeu. Ele não lembra se ambos eram russos. Assim, passou a ganhar mais e continuou pintando e levando suas obras para a Galeria Bazarte. Fez sua primeira exposição individual , no foyer do Teatro Castro Alves em 1958. .Comemorou seus 25 anos de arte em 1985 com uma exposição muito concorrida na Panorama Galeria de Arte.  Atualmente, contabiliza mais de 180 exposições  individuais e coletivas tanto no Brasil como no exterior.

Recentemente, fiz um artigo sobre a Galeria Bazarte e falando sobre seu Castro, todos os artistas que expuseram na Galeria Bazarte que entrevistei não sabiam detalhes do desaparecimento dele. Conversando com Pedroso fiquei sabendo que seu Castro teve um problema de saúde que foi um efisema pulmonar , devido a quantidade de cigarros que ele consumia diariamente, e terminou sendo internado no Hospital Santo Amaro, na Federação. Certo dia Pedroso recebeu um telefonema da esposa de  seu Castro informando que  tinha piorado, e lá chegando em poucas horas veio a falecer. Ele está sepultado no cemitério do Campo Santo.

Pedroso já foi pequeno comerciante de artigos e acessórios para decoração com uma loja estabelecida no Campo Grande. Foram três anos de atividade nos anos de 1965 a 1968. Com essa atividade conseguiu  comprar um terreno na Ladeira da Cruz da Redenção e negociou com o arquiteto Ronald Lago o projeto para sua casa, dando como pagamento obras de sua autoria. Assim, iniciou a batalha de construir  casa e o atelier, onde hoje mora e trabalha. 

Atualmente,  expõe suas obras na Galeria de Roberto  Alban , no bairro de Ondina, na Rua Senta Púa, 53. Quando indagado se tem exclusividade com esta galeria ele respondeu que hoje a maioria das galerias prefere comercializar obras de artistas contemporâneos, e assim os artistas naifs ou primitivos ficam esquecidos." É uma pena, porque as obras de Pedroso e de outros artistas baianos primitivos ou naifs são tão importantes quanto as dos  contemporâneos. Tudo depende da qualidade da obra e do olhar de quem tem a oportunidade de apreciá-las com a sensibilidade que a obra de arte requer .



domingo, 5 de setembro de 2021

JURACI DÓREA NA 34ª BIENAL DE SÃO PAULO

As duas Cartas para Ângela 

 O feirense Juraci Dórea está participando   da   34ª Bienal de São Paulo. Nasceu em Feira   de   Santana e lá reside até hoje. Em 1961 veio   para Salvador e nesta época foi um momento   em que a arte baiana se renovava principalmente depois da realização de duas bienais em Salvador, quando artistas de vários estados vieram para expor seus trabalhos mostrando diversas tendências da arte. Em 1973 começa a se dedicar com mais regularidade às artes visuais e esta retomada foi com o tema dos Vaqueiros quando criou inúmeras  obras. Paralelamente, começa a pesquisar o couro, que está intimamente ligado à vida dos vaqueiros.  Os trabalhos estão sendo mostrados em dois locais em pavimentos diferentes. As Cartas para Ângela que têm 1,60 cm x 2,20m estão expostas no terceiro piso. Nestas cartas ele procura estabelecer um diálogo da História da Arte com o sertão e a memória. As duas cartas lembram escritas antigas onde  registravam fatos que aconteceram em épocas passadas. Já as obras de couro  seus  estandartes  estão expostos  no segundo piso. Também, tem 20 fotografias, diários e outros materiais produzidos por Juraci Dórea. Representam  portanto, uma síntese dos 40 anos de seu trabalho inspirado na gente e coisas do sertão. 
Juraci e os estandartes
Prestou muita atenção na resiliência, na solidariedade  e na capacidade dos sertanejos em enfrentar as adversidades de um clima hostil. Veio a série Terra e passou a pensar em mostrar no ambiente próprio onde as coisas que via estavam acontecendo, e foi se  apropriando das coisas rústicas do sertão. As pessoas  tinham uma atitude respeitosa em relação aos trabalhos , mesmo não conseguindo entender completamente o propósito daquilo. Os trabalhos da série Terra eram feitos em as esculturas em couro e as pinturas em carvão sobre placa, e também com um pouco de tinta industrial terminando com estas figuras emblemáticas tão presentes nas capas de livrinhos de cordel. 
Sua arte atraía pessoas da roça.
Esta escultura é do projeto Terra.

O artista  fez a série de obras que denominou Estandartes do Jacuipe, em 1974 ,onde vários deles foram expostos  a céu aberto na região banhanda pelo Rio Jacuípe. Muitos  foram reutilizados por pessoas das roças para consertar a indumentária dos vaqueiros, as selas, as bainhas de facão, a botas ,sapatos, as luvas,perneiras  etc. O artista quando expôs seus estandartes sabia da efemeridade em relação ao tempo, mas não  da possível reutilização pelas pessoas que moram no entorno onde eles foram instalados. Confessa que ficava sensibilizado com as conversas das pessoas que se acercavam de seus estandartes falando de suas impressões. Os estandartes do ponto de vista formal  tentam recriar os símbolos, e as ferramentas dos vaqueiros. Os trabalhos eram vistos de uma forma visceral. Ele considera que " o melhor lugar para  expor é no sertão. O sertão é um grande museu".

Juraci Dórea e sua colega a
artista Carmela Gross.
"Esta minha ida para expor no sertão foi porque a gente mandava os trabalhos para participar de salões e bienais fora, e isto custava caro. Muitas das obras nem eram devolvidas, mesmo depois de recusadas por uma comissão qualquer. Isto foi na década de 80, foi também uma atitude política minha reagindo pela dominação da região Sudeste que na realidade escreve a História da Arte em nosso país". Salientou que "isto não é ressentimento, apenas uma constatação ".
Ele destacou que ficou muito satisfeito com o cuidado da curadoria da Bienal paulista com as obras . O curador geral é Jacopo Crivelli Visconti, e os demais curadores adjuntos e convidados são: Paulo Miyada,Carla Zaccagnini,Francesco Stocchi, Ruth Estévez, Ana Roman e Divina Prado.