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segunda-feira, 14 de março de 2022

ALMANDRADE EXPÕE EM SÃO PAULO E LANÇA LIVRO

Foto 1.Sobrecapa  e
capa do livro. Foto 2.
Projetos de esculturas.
O artista baiano Almandrade o maior expoente da arte conceitual e construtivista na Bahia estará expondo  a partir do dia 16 até o dia 20, a Oca, no Parque Ibirabuera, em São Paulo, juntamente com Montez Magno, que é  de Timbaúba, em Pernambuco, e está com 88 anos de idade. Também serão expostas obras de  Sérvulo Esmeraldo, cearense, falecido em  2017. O nome da exposição é Geometria Sensível. A mostra foi organizada pela Acervo Galeria de Arte, de Salvador, que reuniu obras desses três artistas nordestinos unidos pela geometria, precisão e a lógica . São trabalhos concebidos dentro de um rigor conceitual, mas que trazem no seu conjunto forte dose de sensibilidade, poesia e criatividade.

A curadora Denise Mattar na sua apresentação . afirma que "o conjunto deixa nítido o quanto a produção artística abstrata do Nordeste se reveste de características particulares, mais próximas da produção latino-americana, da chamada geometria sensível de artistas como Torres-Garcia Carmelo Arden Quin ou Jesus Soto, do que o concretismo europeu de Theo van Doesburg ou Max Bill. São muitas as razões históricas e culturais que levaram a este resultado".

Voltando para o Almandrade, batizado como Antônio Luiz Morais de Andrade, arquiteto, polêmico, artista plástico e mestre em desenho urbano, professor de Teoria da Arte, é natural de São Felipe, interior da Bahia onde nasceu em 1953. Tem ainda dois projetos de livros em andamento. Um pela Fundação Getúlio Vargas  que seria publicado através de recursos provenientes da Lei Rouanet, e outro aqui na Bahia sob a coordenação da Marco Peltier com patrocinador baiano. Mas, ele não tem ideia de quando esses livros poderão ser publicados. Por isto, que ele fez este dos 50 Anos de Arte e classificou como Volume I.

Desde a década de 1970 que  vinha produzindo uma obra completamente distanciada da grande maioria dos artistas baianos que se apresentava através de outras formas como o figurativo e o expressionismo. Os seus trabalhos ao serem observados mostram o rigor do desenho e a sutileza dos traços e espaços deixando claro que por trás está um arquiteto conscio deste jogo permeado de sensibilidade. São obras que exigem do espectador um olhar mais sutil,mais demorado para que possa deixar penetrar as imagens a serem decodificadas de acordo com as informações que cada um dispõe.Neste livro estão inseridos vários textos, inclusive este de minha autoria que transcrevo:

                                            Almandrade

Obra O Horizonte do Quarto,
acrílica sobre tela, de 1990
"Venho acompanhando a sua trajetória há alguns anos. Ele começou figurativo e num processo gradual de somar informações desaguou na arte conceitual. Evidente que sua formação de arquiteto contribuiu para isto de forma definitiva .Nos anos 70 Almandrade já mostrava suas obras, numa Salvador ainda distante de absorver este tipo de arte. Agora ele retorna à pintura com esta mosta, revelando que isto ocorre desde a metade dos anos 90, defendendo que as possibilidades da pintura ainda não se esgotaram. Fiquei feliz em reencontrar um Almandrade cada vez mais reflexivo e flexível. A chegada dos anos vai nos pondo com o olhar mas generoso mais crítico é verdade, porém, disposto a dialogar , e notar que as diferenças existem e que elas andam e vivem fora de nosso mundo ou dos nossos traços e círculos .O que não podemos abrir mão é da nossa capacidade crítica e de reflexão. Ninguém é proprietário da verdade. Ninguém deve ser condenado por pintar de um jeito ou de outro. Cada um deve se expressar como entender que deve, cabendo ao marchand, ao colecionador ao crítico e ao próprio mercado prover e enaltecer com seus instrumentos a produção de arte. 

Àqueles que mesmo com talento, ficarem ou estejam momentaneamente fora do mercado, certamente um dia serão reconhecidos e colocados nos seus devidos lugares. Esta é a marcha da vida, esta é a dinâmica que norteia todas as profissões. Relendo um texto escrito por Almandrade no ano 2000 onde ele defende : "A independência da obra de arte com relação ao repertório de um público principalmente, criou uma expectativa em torno de sua leitura. Hoje em dia, o artista é solicitado a prestar esclarecimentos sobre o significado de sua obra, como se fosse possível alguma tradução verbal". Acredito que isto acontece quando o observador não tem informações que lhes assegurem a compreensão da obra de arte. Como estamos num país de pouca leitura, onde a obra de arte ainda é muito limitada a museus, exposições e colecionadores abastados é evidente que existe uma dificuldade quase generalizada, principalmente se você não produz uma arte figurativa de fácil entendimento. A decodificação depende de cada um de nós. Se fizermos um exercício mandando algumas pessoas lerem um conto, e em seguida solicitarmos que revelem suas interpretações sobre o texto lido vamos ter surpresas agradáveis. E, isto é compreensível e importante pela capacidade de cada uma das pessoas de absorverem e decodificarem ou não as informações ali contidas. É por esta razão que na juventude Almandrade ficava inquieto com a falta de compreensão do público com suas obras.

Obra Poema-Objeto, acrílica sobre
madeira, 1973
Almandrade possui uma formação intelectual acima da  maioria dos artistas baianos, e isto contribui ainda hoje para
aguçar suas inquietações. Ele tem posição firme contra a  ditadura do mercado, o que considero compreensível.  Também, discordo das regras do mercado e devemos  continuar lutando contra elas. Porém, o mais importante de  tudo isto é que reecontrei um Almandrade maduro, mais  compreensivo com as coisas da vida, acima de tudo um  artista,  que mesmo enfrentando todas as dificuldades  pessoais  interpostas pelo mercado e pela dificuldade de  compreensão imediata de sua arte, ele prossegue firme  aprimorando a qualidade de sua produção. "

Já o Alexandre Bonfim fez também um texto que  Almandrade inseriu no livro com o título sobre a poesia do  artista: "Os malabarismos de uma consciência intensamente  lírica" que diz :"A poesia de Almandrade faz-se, antes de  tudo,  daqueles temas essenciais da condição humana, tão  preciosos para os homens do nosso tempo, distanciados da  razão de existir. Uma perplexidade em constante estado de  nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade múltipla e absurdo. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos com a densidade real e com todos os seus limites e frustrações:"cidade perplexa / embalagem hostil / inútil divertimento". O eu lírico dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas possibilidades de salvação ou transcedência  ( encontradas, como veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica): "o andarilho inocente / repete o caminho / sem encontrar / uma saída". Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos labirintos kafkianos, em que todas as direções nos encaminham , na verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de possuir sua voz própria e peculiar, Almandrade recria , portanto, aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja , o seu famoso José".

                                        TRAJETÓRIA

Obra Poema Visual em nanquim
- 21x30cm, de 2013.
 Conta no livro Almandrade que deu início ao seu trabalho   entre a literatura e as artes visuais em 1972 ainda no colégio   quando participou de um salão estudantil. A poesia veio   primeiro e em seguida se interessou pelas artes plásticas.   Através da poesia concreta chegou ao concretismo e depois   à  arte conceitual movimento que teve seu auge na década   de  1970. A partir de então passou a utilizar vários suportes   para se expressar como o desenho, pintura, escultura,   instalação, poema visual dentro da opção estética . Isto já se   vão 50 anos !

 Diz ainda Almandrade que depois dos primeiros ensaios   figurativos nos anos 1970 e 1971 decidiu pela geometria ,   "desenvolvendo um produto ora pictórico, ora linguístico,   como um lugar de reflexão,solitário,à margem do circuito   baiano. A experi|ência gráfica proveniente do curso de arquitetura foi decisiva na formalização do projeto gráfico no poema e em outros suportes. E finaliza dizendo que "esta publicação é apenas um pequeno recorte que registra o meu compromisso com a linguagem desde os anos 70 ,no silêncio do circuito de arte. Hoje mantenho meu projeto, entre o conceitual, o construtivo e a poesia visual . É sempre a busca do impossível".

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Em  1975 - Poemas Visuais, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1977- Instrumentos de Separação, Instituto Goethe, Salvador / BA; 1978 - O Prazer do Hermético ou o Hermético do Prazer, Instituto Goethe, Salvador / BA ;1979 -  Artifícios de Gargalhadas,  Instituto de Arquitetos, Salvador / BA ; 1980  - O Sacrifício do Sentido, Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1983 - Desenhos, Instituto Goethe, Salvador / BA ; Esculturas de Carpete, Funarte, Rio de Janeiro / RJ; 1985 - Esculturas, Objetos e Desenhos, Foyer do Teatro Castro Alves , Salvador / BA; 1986 - Instalação, Desenhos e Poemas Visuais, Galeria, Metropolitan, Recife/PE; Desenhos e Ideias, Fundação Cultural do Distrito Federal Brasília/DF; 1990 - Pinturas, Esculturas e Objetos, Escritório de Arte da Bahia, Salvador / BA ; 1992 -Jardim Para Meditação, Teatro Gregório de Mattos, Salvador / BA; 1994 - Esculturas, Objetos e Pinturas, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; Lançamento do vídeo imagens e imagens, de Luiz Rosemberg Filho com poema do artista ; 1995 - A Arte de Almandrade , Museu de Arte Moderna, Salvador / BA ; 1997 - Pinturas, Esculturas, Instalação, Livros e Objetos, Centro Cultural , São Paulo/SP ; Pinturas, Esculturas e Poemas - Prêmio Copene de Cultura e Arte , Prova do Artista, Salvador/BA ; 2000 - Mostra Retrospectiva , Museu de Arte Moderna, Salvador /BA ; 2001- Pequenos Formatos, Galeria ACBEU, Salvador/BA; Almandrade, Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, Salvador/BA; 2002 - Pensamentos, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro /RJ; 2003 - Esculturas, Instituto Goethe, Salvador/BA ; 2004 - Pinturas, Sofitel Suítes Costa do Sauipe, Bahia ; 2005 - Instalação, Conjunto Cultural da Caixa, Salvador/BA; 2009 -Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, Salvador / BA; 2011 - Pinturas, Esculturas, Poemas Visuais, Objetos, Desenhos e Instalações , Conjunto Cultural da Caixa, São Paulo/SP; Um Olhar do Artista Sobre Seu Trabalho , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA; 2013 - Gravuras e Pinturas, Studio R Krieger, Curitiba/PR ; 2014- Poemas Visuais e Instalação , Casa das Rosas, São Paulo/SP ; 2015 - Entre a Palavra e o Conceito , Roberto Alban Galeria, Salvador/BA; Do Poema Visual à Poética do Plano e Espaço, Baró Galeria, São Paulo / SP; 2016 - Solo ArteBa , Baró Galeria, Buenos Aires; 2017 -Poemas Visuais, Desenhos, Pinturas, Esculturas e Instalações, Gabinete de Arte K20, Brasília/DF; O Conceito Entre o Verbo e a Visualidade, Baró Galeria, São Paulo/SP; 2018 - O Sentido do Original na Gravura, Baró Galeria, São Paulo/SP;
Investigações Visuais, Luciana Caravello Arte Contemporânea,
Rio de Janeiro/RJ; 2019/2020 - Pensar o Jogo, Museu Nacional, Brasília/DF; 2022 - Gravura: Geometria e Poesia - Gravura, Gravuras no Brasil Galeria, São Paulo/SP;  Labirinto para a Curiosidade do Olhar, Galeria Murilo Castro, Belo Horizonte/MG.


EXPOSIÇÕES COLETIVAS


Em 1972 -I Salão Estudantil, Instituto dos Arquitetos, Salvador/BA ; 1973 - Cinco Artistas, Biblioteca Central, Salvador/BA ; XIII Bienal Internacional - com grupo Etsedron , São Paulo/SP; 1978 - Paralelo 78, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador/BA; 1979 - Artes plásticas Universitária Hoje, Foyer do Teatro Castro
Alves, Salvador/BA ;1980 - Agora Mostra Sete , Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1981 - Salão Nacional de Artes Plásticas Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro/RJ; Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal ,São Paulo/ SP; 1982 - Universo do Futebol, Museu de Arte Moderna (Rio de Janeiro, RJ; 1985 - Tendências do Livro de Artista no Brasil, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/ SP ; Salão Paulista de Arte Contemporânea, Fundação Bienal, São Paulo/SP ; Tendências do Livro de Artista no Brasil, Arte Brasileira Atual ; Galeria de Arte UFF, Niterói / RJ; 1986 - I Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA; I Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras, Fortaleza/CE ; I Mostra Internacional de Poesia Visual, Centro Cultural, São Paulo/SP; 1987 - Bienal Internacional de São Paulo, Fundação Bienal, São Paulo/SP, 1988 - Mostra Internacional de Poesia Visual de São Paulo, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA ; 1989- Salão Nacional de Artes Plásticas, Funarte, Rio de Janeiro/RJ ; 1991 - Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix / BA ; 1994 - Salão MAM-Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna Salvador/BA;  1996 -Salão Unama de Pequenos Formatos, Universidade da Amazônia Galeria de Arte, Belém/PA ; 1997 -Programa Anual de Exposições de Artes Plásticas, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP; 1998 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 1999 - Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 100 Artistas Plásticos da Bahia, Museu de Arte Sacra, Salvador/BA ; Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA;  Arte-Arte Salvador 450 Anos, Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro /RJ ; Arte Salvador 450 Anos, Fundação Cultural de Curitiba Solar do Barão, Curitiba/PR ;  2000 - Exposição ACBEU Magalhães Neto, Galeria ACBEU, Salvador/BA ; 2002 - Brazilian Visual Poetry, Mexic - Arte Museum, Austin-Texas/EUA ; 2005 - A Arte Anterior à Arte, Caixa Cultural, Salvador/BA ; 2007 - Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna, Salvador/BA ; 2010 - Coleção de Escultura, Da República à Contemporaneidade, Caixa Cultural, São Paulo/SP  ; Geometrias Gestos e Grafias, Arte Plural Galeria, Recife/ PE ; MAC - 14 Anos, Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, Feira de Santana/BA; 2012 - Da Seção de Arte ao Prêmio Aquisição: A Gênese do Gabinete do Desenho, Gabinete do Desenho, São Paulo/SP, Economia da Montagem : Monumentos, Galerias, Objetos MARGS, Porto Alegre/RS ; Cromomuseu. Pós-Pictorialismo no Contexto Museológico - Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, Porto Alegre/RS ; 2013 -Tupy Todos os Dias , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ BA ; XIII Salão Nacional de Itajaí, Itajaí /SC; 2014 -Distrações da Memória , Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS ; 3a Bienal da Bahia, Salvador/BA ;The Beautiful Game: O Reino da Camisa Canarinho, Museu dos Direitos Humanos, Porto Alegre/RS; 2015 – 10ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre/RS ; Destino dos Objetos, Fundação Vera Chaves Barcelos, Viamão/RS ; 2016 - Tendência do Livro de Artista no Brasil : 30 Anos depois , Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP ; 40 Anos de Linguagem Contemporânea no MAM-Ba, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Desordem , Baró / Emma Thomas , São Paulo/SP ; X Bienal de Literatura, Curitiba/PR ; 2018 -Palavra Viva, SESC Palladium, Belo Horizonte/MG ; Palavra Coisa, Galeria Carbono, São Paulo/SP ; Livro de Artista , Museu de Arte da Bahia;  2019 - Novas aquisições , Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo/SP; Berlin Bahia , Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/BA ; Abertura 1980, Instituto Figueiredo Ferraz, Ribeirão Preto/SP; Experimentus Linha Clara, Igreja São Vicente, Évora/Portugal ; À Nordeste , Sesc 24 de Maio, São Paulo/SP; The 55 Project , Atchugarry Fundation, Miami/EUA ; 2021- BAHIA for ÉVORA , Museu Nacional Frei Manoel do Cenáculo Évora / Portugal; 2022 - Gravuras , Gravuras no Brasil, Galeria, São Paulo/SP; 2023 - Compaixão-Escritas Poligráficas , Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, Évora/Portugal.


COLEÇÕES
Museu de Arte Moderna da Bahia; Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro); Museu de Arte do Rio de Janeiro; Pinacoteca Municipal de São Paulo; Museu Afro (São Paulo); Museu Nacional de Brasília; Museu da Cidade Salvador ; Museu de Arte do Rio Grande do Sul; Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul Brazil Golden Art, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães Recife; Museu de Arte Abraham Palatinik Natal; Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana-BA ; Museu de Arte Moderna de São Paulo;
Fundação Vera Chaves Barcelos -RS ; Museum of Contemporary Art  MCA, Chicago ; Museu Jumex - México.
 

PRÊMIOS
Em 1981 - 1° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1982 - 2° Concurso de projetos MAM-Bahia; 1986 -Prêmio Funarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco ; 1989 - Prêmio Aquisição 11 Salão Nacional de Artes Plásticas; Rio de Janeiro ; 
1997 - Prêmio Copene de Cultura e Arte, Salvador. 

 

 

 

 

 

 

 



terça-feira, 25 de janeiro de 2022

PEDROSO É UM EXPOENTE DA PINTURA NAIF

Pedroso aos 86 anos continua pintando diariamente.
 Depois de mais de quarenta anos fui ao encontro de um dos artistas criativos  e que durante mais de seis décadas vem calmamente pintando a nossa Bahia, seu casario, sua gente e  suas manifestações populares e religiosas. Uma pintura cândida que nos revela este lado poético, quase inocente , transpondo para as telas em cores  cruas e cheias de luzes esses momentos mágicos do dia a dia e também àqueles momentos   onde juntos os baianos celebram seus santos, seus orixás e toda sua miscigenação.  O pintor é Joaquim Pedroso Gomes de Oliveira , ou simplesmente Pedroso, como ele assina suas obras. Morador do bairro de Brotas onde ele vive e tem o seu atelier na mesma casa quando o conheci há décadas atrás. Ele já pintou centenas de quadros e realizou quase duzentas exposições entre individuais e coletivas. É um dos artistas naifs mais importantes do país.


O curioso é que tinha perdido o contato com Pedroso , porque já não estou na lida diária de um jornal impresso, e também houve uma diminuição drástica do número de galerias em nossa Cidade, onde eram realizadas muitas exposições. Havia um movimento de arte considerável em Salvador . Os quais estão registrados em minha coluna de arte que escrevi por mais de 25 anos no jornal A Tarde, a maioria consegui delas transportar para este blog. Dizem que à medida que envelhecemos costumamos ficar olhando para trás, para o retrovisor, como se diz no popular, lamentado "antigamente era assim e assado". Acontece que são fatos, e isto pode ser comprovado através de publicações, catálogos e fotografias. Nesta publicação alemã ao lado a Zeitgenössische Naive Malerei Aus Brasilien - Brazilian Naïf Art Of Today - Naifs Brasileiros de Hoje constam obras e os nomes dos artistas naifs do Brasil, e Pedroso está presente. 

Pedroso com uma tela ainda em execução 
onde aparece uma favela
.
            O REENCONTRO
Voltando ao Pedroso temos um amigo comum o escritor e animador cultural Franklim Jorge que  é potiguar e atualmente reside em Natal. Franklin dirige uma revista eletrônica chamada Navegos , de sucesso no meio intelectual, onde colaboradores publicam seus artigos, crônicas etc. Inclusive de quando em vez ele me surpreende publicando algum dos artigos que escrevo. Um dia  o Franklin lembrou-se de Pedroso e me pediu que tentasse localizá-lo porque tinha uns quarenta nos que não o via e perdera o contato. Foi assim que apelei para minha amiga  Anna Georgina, da Galeria Panorama, onde Pedroso expôs algumas vezes .Indaguei se sabia por onde andava o nosso personagem. Para minha  alegria ela tinha o telefone de Pedroso. Fiz algumas ligações , deixei mensagens no zap e não obtive resposta. Voltei a falar com Anna Georgina dizendo que o homem não retorna as ligações. Ela entrou em contato com ele, e finalmente nos falamos. Lá chegando com a ajuda da tecnologia do celular entramos em contato com Franklim Jorge . Foi um momento inesquecível e marcante.

Pedroso tem uma história longa e interessante de sua trajetória como pintor. Ele nasceu na cidade do Crato, no Ceará, em 6 de dezembro de 1935, portanto, está com 86 anos de idade, e comemorando sessenta e quatro anos de pintura. Magrinho e lépido diz que diariamente limpa o jardim de sua casa onde um cacaueiro frondoso , um pé de pimenta do reino e outro da cravo da Índia fornecem a sombra necessária para um descanso tranquilo.

 Já passou por várias fases de bonança e turbulência, como muitos de nós, neste país onde a moeda já mudou várias vezes e a instabilidade política não nos dá trégua. Fiquei sabendo que trabalhou como balconista na Loja Titan, na Avenida Joana Angélica, loja esta pertencente ao paulista do Brás,  José Marques de Castro, seu Castro, aquele mesmo dono da famosa e Galeria Bazarte, que ficava no Politeama, próximo ao Instituto Feminino da Bahia. Quem lhe apresentou a seu Castro foi seu irmão mais velho José Geraldo Gomes de Oliveira que trabalhava no Banco do Brasil e o conhecia , ai indagou se não arranjava um emprego  para o irmão.

                                        SUA TRAJETÓRIA

Paralelamente ao trabalho de balconista vendendo confecções masculinas na Loja Titan, Pedroso ia fazendo suas pinturas. Certo dia ao passar pelo Politeama viu uma galeria de arte aberta e resolveu entrar para apreciar as obras de arte. Até então não sabia que a galeria pertencia ao patrão seu Castro. De repente se esbarra com seu Castro e então foram conversando e Pedroso lhe disse que fazia uns trabalhos de arte. Ficou acertado que  levaria alguns para seu Castro examinar, e assim foi feito.Em pouco tempo três obras de sua autoria foram vendidas. Assim, ele iniciou seu caminho como artista profissional.
Pedroso  em seu atelier
Como o salário que recebia na Loja Titan era insuficiente para sua manutenção falou com seu Castro e ele se prontificou a arranjar um trabalho em outra empresa onde fosse ganhar mais. Mandou que vestisse o paletó e juntos se dirigiram ao Relógio de São Pedro para falar com Zivi e Jacob que eram dois empresários donos da Schindler-Adler , do segmento de ar cndicionado. O curioso é que o Zivi era russo e o Jacob judeu. Ele não lembra se ambos eram russos. Assim, passou a ganhar mais e continuou pintando e levando suas obras para a Galeria Bazarte. Fez sua primeira exposição individual , no foyer do Teatro Castro Alves em 1958. .Comemorou seus 25 anos de arte em 1985 com uma exposição muito concorrida na Panorama Galeria de Arte.  Atualmente, contabiliza mais de 180 exposições  individuais e coletivas tanto no Brasil como no exterior.

Recentemente, fiz um artigo sobre a Galeria Bazarte e falando sobre seu Castro, todos os artistas que expuseram na Galeria Bazarte que entrevistei não sabiam detalhes do desaparecimento dele. Conversando com Pedroso fiquei sabendo que seu Castro teve um problema de saúde que foi um efisema pulmonar , devido a quantidade de cigarros que ele consumia diariamente, e terminou sendo internado no Hospital Santo Amaro, na Federação. Certo dia Pedroso recebeu um telefonema da esposa de  seu Castro informando que  tinha piorado, e lá chegando em poucas horas veio a falecer. Ele está sepultado no cemitério do Campo Santo.

Pedroso já foi pequeno comerciante de artigos e acessórios para decoração com uma loja estabelecida no Campo Grande. Foram três anos de atividade nos anos de 1965 a 1968. Com essa atividade conseguiu  comprar um terreno na Ladeira da Cruz da Redenção e negociou com o arquiteto Ronald Lago o projeto para sua casa, dando como pagamento obras de sua autoria. Assim, iniciou a batalha de construir  casa e o atelier, onde hoje mora e trabalha. 

Atualmente,  expõe suas obras na Galeria de Roberto  Alban , no bairro de Ondina, na Rua Senta Púa, 53. Quando indagado se tem exclusividade com esta galeria ele respondeu que hoje a maioria das galerias prefere comercializar obras de artistas contemporâneos, e assim os artistas naifs ou primitivos ficam esquecidos." É uma pena, porque as obras de Pedroso e de outros artistas baianos primitivos ou naifs são tão importantes quanto as dos  contemporâneos. Tudo depende da qualidade da obra e do olhar de quem tem a oportunidade de apreciá-las com a sensibilidade que a obra de arte requer .



domingo, 5 de setembro de 2021

JURACI DÓREA NA 34ª BIENAL DE SÃO PAULO

As duas Cartas para Ângela 

 O feirense Juraci Dórea está participando   da   34ª Bienal de São Paulo. Nasceu em Feira   de   Santana e lá reside até hoje. Em 1961 veio   para Salvador e nesta época foi um momento   em que a arte baiana se renovava principalmente depois da realização de duas bienais em Salvador, quando artistas de vários estados vieram para expor seus trabalhos mostrando diversas tendências da arte. Em 1973 começa a se dedicar com mais regularidade às artes visuais e esta retomada foi com o tema dos Vaqueiros quando criou inúmeras  obras. Paralelamente, começa a pesquisar o couro, que está intimamente ligado à vida dos vaqueiros.  Os trabalhos estão sendo mostrados em dois locais em pavimentos diferentes. As Cartas para Ângela que têm 1,60 cm x 2,20m estão expostas no terceiro piso. Nestas cartas ele procura estabelecer um diálogo da História da Arte com o sertão e a memória. As duas cartas lembram escritas antigas onde  registravam fatos que aconteceram em épocas passadas. Já as obras de couro  seus  estandartes  estão expostos  no segundo piso. Também, tem 20 fotografias, diários e outros materiais produzidos por Juraci Dórea. Representam  portanto, uma síntese dos 40 anos de seu trabalho inspirado na gente e coisas do sertão. 
Juraci e os estandartes
Prestou muita atenção na resiliência, na solidariedade  e na capacidade dos sertanejos em enfrentar as adversidades de um clima hostil. Veio a série Terra e passou a pensar em mostrar no ambiente próprio onde as coisas que via estavam acontecendo, e foi se  apropriando das coisas rústicas do sertão. As pessoas  tinham uma atitude respeitosa em relação aos trabalhos , mesmo não conseguindo entender completamente o propósito daquilo. Os trabalhos da série Terra eram feitos em as esculturas em couro e as pinturas em carvão sobre placa, e também com um pouco de tinta industrial terminando com estas figuras emblemáticas tão presentes nas capas de livrinhos de cordel. 
Sua arte atraía pessoas da roça.
Esta escultura é do projeto Terra.

O artista  fez a série de obras que denominou Estandartes do Jacuipe, em 1974 ,onde vários deles foram expostos  a céu aberto na região banhanda pelo Rio Jacuípe. Muitos  foram reutilizados por pessoas das roças para consertar a indumentária dos vaqueiros, as selas, as bainhas de facão, a botas ,sapatos, as luvas,perneiras  etc. O artista quando expôs seus estandartes sabia da efemeridade em relação ao tempo, mas não  da possível reutilização pelas pessoas que moram no entorno onde eles foram instalados. Confessa que ficava sensibilizado com as conversas das pessoas que se acercavam de seus estandartes falando de suas impressões. Os estandartes do ponto de vista formal  tentam recriar os símbolos, e as ferramentas dos vaqueiros. Os trabalhos eram vistos de uma forma visceral. Ele considera que " o melhor lugar para  expor é no sertão. O sertão é um grande museu".

Juraci Dórea e sua colega a
artista Carmela Gross.
"Esta minha ida para expor no sertão foi porque a gente mandava os trabalhos para participar de salões e bienais fora, e isto custava caro. Muitas das obras nem eram devolvidas, mesmo depois de recusadas por uma comissão qualquer. Isto foi na década de 80, foi também uma atitude política minha reagindo pela dominação da região Sudeste que na realidade escreve a História da Arte em nosso país". Salientou que "isto não é ressentimento, apenas uma constatação ".
Ele destacou que ficou muito satisfeito com o cuidado da curadoria da Bienal paulista com as obras . O curador geral é Jacopo Crivelli Visconti, e os demais curadores adjuntos e convidados são: Paulo Miyada,Carla Zaccagnini,Francesco Stocchi, Ruth Estévez, Ana Roman e Divina Prado.





segunda-feira, 23 de agosto de 2021

VAVÁ FOTOGRAFOU A SOCIEDADE E A CIDADE

Vavá com o pai seu Jonas,  com Clélia sua
 companheira e colega, e ele em pé com seu
instrumento de trabalho de uma vida inteira
.
A maioria das pessoas  o conhecia por Vavá   fotógrafo da elite da sociedade . Poucos sabiam e ainda  sabem o seu   nome verdadeiro, que ele mesmo não gostava de   revelar. Chamava-se Albervaldo Silveira Tavares   dos Santos , e era filho Vivaldo Tavares dos   Santos, também fotógrafo,  e sua mãe Albertina   Maria da Silveira Tavares. Daí este nome estranho   da combinação de Alber da mãe Albertina e Valdo   do pai Vivaldo, e que também ele deixou um trabalho iconográfico através de suas fotos de grande qualidade dos recantos de nosssa Salvador. Eu também sofro deste mal porque   meu nome Reynivaldo vem Rey de Reynaldo,   meu   pai, e Nivaldo de minha mãe Nivalda.   Muitos não acertam escrever ou falar. Sou   chamado de Reinaldo, Renivaldo, Ronaldo,  e por   ai vai. Voltando ao nosso personagem ele nasceu   em 27 de maio de 1929, portanto, se vivo estivesse   estaria hoje com 92 anos de idade.Este geminiano marcou sua presença documentando diariamente tudo de importante que acontecia na sociedade baiana, e sempre olhava adiante para registrar a Cidade. Sabia entrar e sair com a sutileza necessária para estar presente em eventos fechados. Passou sua adolescência no bairro do Rio Vermelho , morando na Rua Fonte do Boi," numa enorme casa 
Esta foto ele fez do alto de um prédio na
Avenida Estados Unidos e Rufiniano dos
Santos o ajudou.
junto ao Morro do Conselho, na época livre de construções. Só existia o Hospital da Criança, que funcionava no Morro de Menino Jesus juntamente com a maternidade  Nita Costa, ( abandonados há mais de 30 anos)  e alguns campos de golfe e de futebol. O bonito prédio abandonado fica em frente a praia do Buracão, hoje muito frequentada pelos jovens. Tenho uma foto rara datada de 1907, que meu amigo o artista Washington Salles me presenteou, o Vitória jogando contra o Santos Dumond num campo no Rio Vermelho.  

Lembra sua irmã Teresinha Tavares, que gosta de fazer poesias , e me prestou estas informações sobre Vavá , que ele gostava quando criança de subir e descer os morros, andar de bicicleta pedalando até o Primeiro Arco, que ficava onde hoje está a Avenida Garibaldi, e também até o Farol da Barra para ver o andamento das obras do conhecido edifício Oceania, onde ele depois teve um studio.

 
Barcos em Alagados 
Começou a fotografar a partir dos 13 anos de  idade após  seu pai Vivaldo adquirir a Foto Royal, na década de 40. Esta Foto ficava na Rua da Misericórdia. Ele era muito curioso e foi assim que aprendeu a fotografar, revelar e imprimir as fotografias que fazia. Alguns anos depois o pai comprou a Foto Jonas, que ficava no  edificio de número 51, na Avenida Sete de Setembro,  no primeiro andar, e aí funcionava também o atelier do pintor Jaime Hora, o J. Hora. A Foto Jonas tinha como slogan a "A fotografia  da elite baiana" a qual  foi consumida por um incêndio, que destruiu todos os equipamentos e fotografias . Daí seu Jonas foi se estabelecer no primeiro andar onde funcionava a Farmácia Luz, na Rua  Carlos Gomes, próximo ao Mercado das Flores. Não consegui encontrar registro deste incêndio.

Já profissional trabalhava com uma máquina de fole e o flash era de magnésio e quando disparado dava uma pequena explosão e deixava uma nuvem de fumaça no salão. Às vezes as fagulhas provocavam pequenos incêndios em cortinas e outros objetos de fácil combustão. Numa entrevista que ele deu à jornalista Cyntia Nogueira disse que mesmo com estas limitações técnicas a "coluna social naquela época tinha muito mais glamour. A gente só fotografava as pessoas da sociedade, as famílias tradicionais,tinha muita gente importante". Ele trabalhou durante 20 anos para as colunistas do Diário de Notícias, que pertencia ao grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

Bela foto vendo o antigo Mercado
Modelo, destruído por  incêndio.
O seu pai Vivaldo ficou conhecido por seu Jonas e era um bamba na fotografia de stúdio , e assim conquistou o mercado  de álbuns de formatura e casamentos.  Por muitos e muitos anos fez álbuns de formatura de professoras do Instituto  Central de Educação Isaias Alves, ICEIA que fica no bairro do Barbalho, e foi abandonado por este Governo do Estado. Fez também álbuns de médicos, dentistas, advogados, engenheiros, arquitetos, farmacêuticos e contadores . Enfim, de muitos profissionais que se formavam. Também, registrou muitos casamentos de gente rica . Foi neste ambiente que o nosso Vavá cresceu.

É importante dizer que Vavá não fotografou apenas a sociedade baiana e celebridades . Fez centenas de
fotos de nossas igrejas, do casario colonial, de praças, ruas , monumentos ,de paisagens marinhas, de nossa orla marítima, inclusive fotos aéreas e painéis de até cinco  metros quadrados. Lembra Rufiniano dos Santos, conhecido por Rufino, que trabalhou 18 anos no Foto Jonas que Vavá foi contratado pelo professor e etnógrafo Vivaldo Costa Lima para fotografar todo o Centro Histórico , antes da recuperação. Ele com sua equipe trabalhavam nas manhãs dos domingos. Lembra Rufino "a gente ia de casarão em casarão carregando escadas  fotografando tudo desde a 

Segundo Roberto Macedo trata-se de
 Marta Vasconcelos desfilando
em carro aberto.
 a fachada e as ruas pegando os nomes para identificar para o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia - Ipac-Ba." Eles devem ter este acervo conservado até hoje. Este levantamento ajudou em todo o processo de recuperação do Centro Histórico que foi promovido pelo governador Antônio Carlos Magalhães."

Como acontece com muitos acervos de artistas plásticos e fotógrafos com a sua morte em 6 de julho de 2003 muitas de suas fotos e negativos se perderam e algumas estão em caixas na residência de uma sobrinha de sua companheira Clélia Matos  , que também era fotógrafa, e muitas vezes ia ao seu lado trabalhando. Ele está sepultado no Cemitério do Campo Santo. Antes Clélia fora casada com o deputado federal João Alves de Almeida, e teve um filho, o Roosevelt Almeida, que chegou a expor na Panorama Galeria de Arte, já falecido. Ela foi uma cantora das noites baianas, e ajudou muito a Vavá quando passaram a conviver. 

Dr. Jorge Calmon ao lado de
Anna Georgina numa exposição
.
Existiam e existem fotógrafos que documentaram e documentam os principais eventos da Cidade   entre eles  Waltério Pacheco Silva , o chinês Sun-Sun So e outros, mas Vavá era o preferido. Ele fornecia fotos para as colunistas Isolda Menezes, Regina Coeli, Sylvia Borges, já falecidas, e  principalmente para Terezinha Muricy ( de Mayo),    July e Janete Freitas. Todos sabem que muitas vezes era July quem recebia em primeira mão as fotos , e ela exigia  exclusividade, porque sua coluna era publicada diariamente em A Tarde, o jornal de maior circulação do Norte e Nordeste , no que era atendida. A propósito vejam o depoimento de Janete Freitas, que há 25 anos escreve a coluna social do no jornal a Tribuna da Bahia :

"Vavá Tavares, ou somente Vavá, foi o fotógrafo que dominou a cena social de Salvador nas década de 80 até os meados de 90. Meu relacionamento com ele começou como cliente fotografada aos quinze anos, dançando com o namoradinho, cinturinha bem fina, anáguas na saia rodada, sorriso caprichado para o registro de Vavá, caminho garantido para a publicação nas colunas sociais importantes da época. Mais tarde nos tornamos parceiros eu  colunista social inteiramente dependente de suas fotos para
O Pelourinho onde vemos uma
carroça com seu condutor.
tornar minha página bonita e bem informada. Estou me referindo à época em que cronista social que se prezasse levava para as festas um caderninho onde anotava quem estava acontecendo e tinha que esperar ansiosa as fotografias para ilustrar seus textos. As que eram tiradas por ele chegavam primeiro que as dos outros, atestando seu senso de profissionalismo. Isso sem alarde, calmo e tranquilo. Só deixou boas lembranças eternizadas nos seus preciosos e disputados cliques."

Fazendo uma busca nas edições do Jornal A Tarde meu ex-colega Rubem O. Coelho   , do Departamento de Pesquisa, encontrou alguns registros. No domingo dia 18 de   setembro de 1983 Therezinha de Mayo em sua coluna Sete Dias anuncia uma exposição de posters que ele iria fazer na quarta-feira seguinte, portanto dia 21, no edifício Portela Lima, na Rua Marquês de Leão, na Barra. Vavá, segundo a colunista, "torna-se a cada dia um homem de bem através de um fotógrafo sonhador e sem ambições materiais". Foram posters de mulheres da sociedade baiana.

No 30 de junho de 2003 o jornal A Tarde publica nota de outra exposição dele desta vez na Praça Jorge Amado, do shopping Iguatemi.  "Vavá expõe 100 fotos e mostra técnica pioneira que batizou de Tela Print e diz que vai tentar vender para a Kodak e Fuji. Utilizando uma fina tela de acrílico ele prensa com verniz na película da foto, conseguindo um efeito próximo de uma pintura, ficando impermeável e aumentando a durabilidade " Também, expôs fotos com 180 graus tiradas de máquinas japonesas e russas, embora quase sempre estava com uma máquina Rollieflex  nas mãos. 

Foi a despedida de Vavá porque ele veio a falecer no dia 6 de julho de 2003 e a mesma Therezinha  Cardoso  fez o registro de sua morte no domingo seguinte, dia 13 de julho, escrevendo "Trabalhando por arte mais que por dinheiro, Vavá viveu pobre. Não teve casa nem carro próprios porque não sabia vender seu trabalho. Mas, sabia fazer amigos, tornar seu nome respeitado, circular em sociedade sem se infiltrar na intimidade das pessoas, enfim, tornar-se o fotógrafo de duas gerações".

Quero ainda registrar que antes dos governos de esquerda as famílias pobres e de classe média costumavam enviar seus filhos por volta dos 14 a 15 anos de idade para aprender uma profissão em alguma oficina mecânica, num stúdio de fotografia, numa alfaiataria, carpintaria , barbearia etc. Portanto, quando saíam da escola iam aprender uma profissão. Foi assim que se formaram muitos fotógrafos, alguns tive a oportunidade de trabalhar no jornal A Tarde, e eles aprenderam a profissão no Foto Jonas : Antônio Queirós, Rufiniano dos Santos, Guilherme Oliveira, João Marinho ( hoje contador), Paulo Cavalcanti, Abmael Silva, Geraldo Ataíde, Antônio Carlos Santana  e Oduvaldo ( falecido).




                                   

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

JAYME HORA DEIXOU OBRA INESQUECÍVEL

Registro raro de Jayme Hora pintando .Fotos cedidas por Anna Georgina.
Vou falar hoje de um grande artista, aluno de Presciliano Silva, e que tem uma produção considerável com uma técnica de desenho e pintura de qualidade. Trata-se de Jayme Hora , o J. Hora, que pintou e desenhou  as igrejas, mosteiros, conventos, ruas, praças e a orla de Salvador, além de outros recantos escolhidos por ele para retratar . 
Muitas de suas obras são tão perfeitas que lembram fotografias, outras feitas de espátulas são mais densas, mas sempre mostrando sua alta capacidade em trabalhar com as nuances do claro-escuro. Ele não apenas retratava como acrescentava algo que enxergava  com sua sensibilidade artística. Deixou aí uma obra iconográfica de grande valor cultural e histórico. Foi premiado em vários salões daqui e do eixo Rio-São Paulo . Um excelente desenhista, condição essencial para se tornar um grande pintor . Mesmo assim nunca perdeu a sua simplicidade de encarar a vida. Era um simplório por natureza, gostava de uma bebida quente, tinha um temperamento dócil e explosivo em determinados momentos. Sua arte pode ser vista nos museus, galerias e em leilões virtuais de arte. Portanto, é um artista que embora tenha falecido em 1977,  há 44 anos, suas obras continuam sendo comercializadas com certa frequência e têm uma valorização razoável no mercado de arte.

Jayme Hora com Fernando Alves, Ismael de Barros,
e o pintor Cardoso e Silva, em 1967, na Panorama
Galeria de Arte.
Existem poucos registros sobre a trajetória de vida e pictórica do artista Jayme Hora, que assinava J.Hora, embora ele tenha sido  premiado muitas vezes aqui , no Rio de Janeiro e em  São Paulo. Não consegui ainda apurar com certeza  se realmente nasceu em  Nazaré das Farinhas , onde ele confessa que chegou à cidade aos seis anos de idade, mas não especifica exatamente de onde viera. O que importa é que  Nazaré das Farinhas ele adotou como sua cidade  de nascimento. Fui ao site da Cidade e só encontrei informações do jogador Vampeta, e nada sobre o grande artista que hora escrevo. Portanto, está na hora do pessoal ligado à cultura resgatar e fazer a devida homenagem a este grande artista. Ele nasceu no ano de 1911 e morreu  aos 66 anos de idade, em 1977.  Sua esposa Mariá faleceu em março deste ano aos 110 anos. Disse Maria José a viúva do pintor José Arthur que foi Jayme Hora  o incentivador para seu ele pintar, inclusive era o padrinho do seu filho Leonardo. Mariá Hora  , a viúva do artista , rasgou as fotos e doou obras e outros pertences antes de morrer. Não deixaram herdeiros. 
Esta é a maior tela a óleo que já vi de Jayme
Hora .Tem 3 ms x 2,1 ms, de 1949. É uma vista
do Carmo . Fica na sede da antiga Companhia 
 Progresso. Ele pintou aos 38 anos de idade.
Graças a amigos e  ex-colegas pude fazer um levantamento das atividades deste artista .Sua primeira mostra foi realizada no Clube Comercial , localizado até hoje na Avenida Sete de Setembro, no ano de 1938.Após sua morte obras de sua autoria integraram a exposição intitulada 100 Artistas Plásticos da Bahia  realizada no Museu de Arte Sacra, no ano de 1999. O primeiro registro que encontrei data da edição do jornal A Tarde de 15 de agosto de 1951 numa pequena nota falando da sua exposição do Belvedere da Sé, local onde hoje está a Cruz Caída, de autoria de Mário Cravo Jr. . Nesta sua exposição  apresentou 61 obras entre óleos sobre tela e desenhos feitos com crayon  , a qual ficou aberta ao público até o dia 18 do mesmo mês.

 
Capa do catálogo de sua  individual na
Panorama Galeria de Arte, em 1967
.
No ano seguinte surge uma revelação interessante é que o jornalista Ethel Moreira o encontrou subindo a Rua Chile carregando seus apetrechos de pintura, e na conversa que mantiveram registrou e publicou na edição do jornal A Tarde do dia 24 de agosto de 1952. Disse o Jayme Hora que " a pintura vai mais ou menos. Precisa antes de tudo  da ajuda de todos nós, principalmente do Poder Público, que deve incentivar a rapaziada nova por meio de prêmios". Ele se referia a realização de salões e outras formas de premiação para incentivá-los. Declarou ainda Jayme Hora  "a mocidade que gosta do pincel não vem recebendo estímulo. Por isso, devemos levantar-lhe o ânimo por meio de prêmios, pois os jovens artistas  de hoje serão fatalmente grandes mestre de amanhã". Mas, a revelação principal é que o artista Jayme Hora fazia seleção de jovens que queriam ser artistas e gostavam de pintar, e   mensalmente promovia excursões em locais de nossa Cidade e periferia para juntos pintarem. Ele conseguia até materiais de pintura para distribuir com os que não podiam comprar. Na reportagem de Ethel Moreira ele fala sobre estas excursões que sempre ocorriam aos
Obra "Alfândega Velha", onde hoje está  o
Mercado Modelo, tem 1,31 m x 0,81cm.
domingos . Ao ser questionado se havia acabado com as excursões domingueiras ele fez um gesto com a cabeça como a dizer que estava sem realizá-las. Depois de alguns segundos respondeu que "seu jornal tem me auxiliado muito, e  trabalhei com afinco para selecionar o pessoal e arranjar material de pintura. Gastei muitas energias e dinheiro também, com o intuito de fazer , como se faz no Rio de Janeiro".

Falou ainda que foram realizadas muitas excursões , coroadas de êxitos, "coisa sem precedente em nossa Capital". Para em seguida se queixar da falta de ajuda: Ninguém me ajudou , ou melhor fui até criticado, mas não dei importância às críticas dos que não sabiam o que estavam falando". As minhas excursões não morreram. Vou reorganizar o pessoal para no próximo mês metermos mãos à obra a fim de que a Bahia possa se igualar com os outros centros mais adiantados do Brasil".

Em janeiro de 1953 conquistou a Medalha de Ouro,  no Salão da Sociedade dos Artistas Nacionais - SAN, realizado no Rio de Janeiro com um desenho . O registro no jornal não especifica qual o desenho e se foi feito em crayon sobre papel ou tecido, como ele costumava realizar. Depois  recebe outro prêmio no Salão Nacional de Belas Artes, também no Rio de Janeiro, com a obra "Dunas de Itapoan", que segundo comentários da época a obra é tão perfeita que parece uma fotografia. Em seguida uma exposição foi realizada no Palácio Rio Branco e este registro foi feito na coluna Artes & Artistas, na edição  do jornal a Tarde de 1º de março de 1953, onde o autor diz que " toda sua obra exposta é digna de aplausos, porque  reflete o talento do seu autor". Quem assina é Yoroastral, um pseudônimo de algum crítico ou jornalista.

Em outubro de 1953 recebe outra Medalha de Bronze,  no Salão de Belas Artes, em São Paulo com a obra "Interior do Convento de São Francisco,Bahia" onde podemos ver o claustro do convento , cuja obra foi muito apreciada e elogiada. Neste salão  apresentou algumas obras a óleo sobre tela e desenhos em crayon, concorrendo com artistas de todo o país. 

Obra sem título. Óleo sobre tela com 
72 cm x 80 cm.
No ano de 1956 , exatamente no dia 3 de abril o jornal registrou que Jayme Hora havia arrebatado dois prêmios. No 7º Salão Nacional de Belas Artes, prêmio este oferecido pela Casa Cavalier, no Rio de Janeiro, e o segundo no 20º Salão Paulista de Belas Artes onde conquistou a Medalha de Prata . O jornalista que escreveu a nota disse que "são prêmios muitos justos contemplando o mérito e o trabalho artístico do pintor patrício cuja vocação para as Belas Artes se revelou entre nós desde a mocidade".

Outra exposição foi realizada no Belvedere da Sé ,onde outrora funcionava a Sutursa , que era a Superintendência do Turismo de Salvador, da qual o escritor Vasconcelos Maia, foi seu superintendente por vários anos. A exposição foi aberta no dia 3 de agosto de 1957 onde Jayme Hora apresentou 16 óleos sobre telas e vários desenhos . Naquela ocasião ele já tinha ganho cerca de 10 prêmios em salões e mostras realizadas aqui e no sul do país. 

Finalmente, o último registro que encontrei data de 28 de agosto de 1957 de um encontro casual com o jornalista Alexandre Lopes Bittencourt. Ele fala da mostra realizada no Belvedere da Sé , quando destacou os desenhos feitos em crayon sobre tecido, sem uma mancha sequer. Lembrou que o próprio mestre Presciliano Silva disse a Jayme Hora "Você possui bastante talento!". Sabe-se que o artista acompanhava seu mestre nas suas idas às igrejas, conventos e outros locais ajudando no que fosse possível. Obras grandiosas do mestre ele presenciou sua execução. Era também muito amigo do pintor e professor Raymundo Aguiar.

Óleo sobre tela , de 95 cm x 75 cm

Nesta sua entrevista  revela que foi para Nazaré das Farinhas com seis anos de idade. "Frequentei o Colégio do jornalista Ferreira Cunha. Logo aprendi a carutujar como caixeiro da loja Nova Itália, que ficava defronte dos Arcos, hoje Praça Coronel José Bittencourt.Dono de um lápis amarelo no papel rabisquei cavalos, barracos e a locomotiva que passava beirando o rio."

 Observando seus desenhos Alexandre Torres o convidou para fazer em letras garrafais os cartazes dos filmes que seriam exibidos no Cine Fênix.  O jornalista termina falando da simplicidade do artista que é refletida em suas obras quando ele retratava as paisagens, as igrejas, os mosteiros e conventos, o casario, a orla marítima e cenas do cotidiano da Cidade. Chama Jayme Hora de "o Príncipe do Desenho", não comete sortilégios de curvas nem exibe planos com traços ziguezagueantes .Segurança de técnica no executar tons coloniais, no difícil efeito claro-escuro, nos ambientes evocativos. Compõe massas de notas suaves".

Colhi também alguns depoimentos de pessoas que conheceram de perto o pintor Jayme Hora para  que possamos deixar para as futuras gerações informações colhidas de fontes primárias sobre este grande artista. Portanto ,  além de apreciar suas belas e importantes  obras iconográficas passamos conhecer mais sobre este homem singular franzino, baixinho e feio, que gostava de uma pinga. Vou começar com minha amiga Anna Georgina , dona da  Panorama Galeria de Arte que é  uma das fontes primárias mais importantes sobre o movimento de arte nas últimas décadas na nossa Bahia. 

Certa vez ela foi com seu pai Euler Cardoso ao atelier de Jayme Hora que criava um gato de estimação.
 O artista  estava pintando em seu cavalete com a palheta de tintas do lado quando o gato chega e faz xixi
 em cima das tintas.
Ele mistura as tintas com o mijo do gato e continuou pintando . Virou para Euler e Anna e disse mais ou menos
 assim em tom de brincadeira : Foi bom que meu quadro vai ficar mais valorizado. 
Outro que teve muito contato com ele foi o pintor Edvaldo Assis, que tem seu atelier no bairro da Saúde. Lembra Edvaldo que trabalhava na época no jornal o Diário de Notícias, o qual funcionava na Rua Carlos Gomes,  próximo do atelier de Jayme Hora que era localizado no prédio na Avenida Sete ,número 51 ,onde funcionava a Foto Jonas, no térreo tinha as vitrines com velhas fotos, e o studio ficava no primeiro andar. No segundo andar era o atelier de Jayme Hora. "O Jayme era um pouco temperamental , e quando estava bebendo variava  seu humor. Ele passava sempre  na Galeria Sue, que ficava nas imediações, e era tratado muito bem por sua proprietária . Mesmo assim quando ficava aborrecido a chamava de " maldita". Noutra ocasião revela Edvaldo chegou uma cliente para buscar uma obra, que tinha encomendado e adiantado 50% do valor. Parece que ele prometera entregar tal dia. Como não havia ainda concluindo a obra  a senhora reclamou . Ele prontamente devolveu o dinheiro que havia recebido.

Obra  Figura e Barcos, com 46 cm x 38 cm, óleo 
sobre placa.
Falei também com uma figura icônica do mercado de arte o ex-galerista e marchand Francisco Miguez que era o braço direito de Sue Krutmam , já falecida, que foi dona da Galeria Sue, localizada no primeiro andar ,  no edifício Basbaum ,na Ladeira de São Bento, em cima da Loja Lobrás, mais conhecida por 4.400. Francisco conviveu  com Jayme Hora e lembra da dificuldade na época em comercializar obras de pintores acadêmicos porque a arte moderna dominava tudo.  Ele revelou que Jayme passou alguns anos na Escola de Belas Artes,  e não conseguia ser aprovado. Lembrou ainda quando ele ganhava algum dinheiro costumava ir para o Rio de Janeiro, e já comprava as passagens de ida e volta. Quando o dinheiro acabava vinha embora. Algumas vezes telefonava para a esposa  Mariá Hora mandar pegá-lo no aeroporto porque estava sem um tostão nos bolsos. Disse que Jayme era  educado, brincalhão, e gostava de uma pinga ,além de fumar muito. De vez em quando sumia, e quando aparecia sempre vinha com algumas obras que eram adquiridas por d. Sue.  Em 1987 Sue Krutmam foi embora para São Paulo, porque seu esposo que era gerente da Lobrás adoeceu, e passou a galeria para Francisco Miguez que ficou até 1991 , quando fechou diante das dificuldades criadas pelo Governo Collor de Mello.














segunda-feira, 21 de junho de 2021

MEMÓRIA DE UDO KNOFF VAI SENDO APAGADA

Vemos o mural de autoria de Udo Knoff e o
teto destruído da casa onde morou e trabalhou
.
 
 Para todos que acompanham as artes   plásticas em   nossa Bahia  vemos com   tristeza o que  aconteceu   com a casa e   as oficinas do grande ceramista Horst   Udo Erich Knoff que nasceu em 1912   na Alemanha   e faleceu em 1994 em   Salvador. Viveu 56 anos em   nossa   Cidade, tendo chegado no ano de 1938.   Tudo   foi destruído, e hoje só resta um   mural que fica em     frente a casa em   ruínas. Este mural poderia ser   removido e integrado ao acervo do Museu que existe   em seu nome, e que também neste momento     encontra-se fechado.
Recebi várias   fotografias   feitas por um artista  que ficou indignado com esta situação, inclusive tenho informações que várias peças de autoria de Udo Knoff , como era mais conhecido,  teriam sido  jogadas no lixo, que  algumas pessoas  recolheram  para seus acervos, e  outras pegaram para vender.      Pessoas que trabalharam nas oficinas lembram que  vários artistas baianos quando eram convidados para fazer um mural de azulejos ou de outras  obras  ligadas a cerâmica recorriam a Udo Knoff , a exemplo de Carybé, Jenner Augusto, Lênio Braga, Sante Scaldaferri ,Genaro de Carvalho dentre outros. Muitos desses artistas que  contavam com os serviços do grande ceramista deixaram lá desenhos, esboços, projetos , pinturas, etc.  Tudo isto pode ter desaparecido. 
A oficina está em ruínas 

Numa conversa que mantive por telefone com sua filha Patrícia ela me  confirmou que não existe mais nada lá. Disse que  seu marido também  faleceu, e que ela e seus irmãos não se interessaram em dar  prosseguimento  ao trabalho que seu pai Udo Knoff desenvolvia. Portanto,  só resta o Museu no Pelourinho, já que o acervo e as oficinas  na  residência  do artista não mais existem.

Ainda existe no Centro Histórico , no Pelourinho, na Rua Frei  Vicente,  número 3 , o Museu Udo Knoff de Azulejaria e Cerâmica que  reúne a  coleção particular do artista de azulejos dos séculos XVII , XVIII,  XIX e  XX de origem portuguesa, inglesa, francesa, holandesa , mexicana  e  belga, além de telhas vitrificadas, jarros e reproduções de azulejos antigos, em sua maioria de casarões que foram demolidos. Também você  pode apreciar  painéis, telhas de beiral, ferramentas, maquinário, objetos e  fotografias. O artista  escreveu o livro Azulejos na Bahia , que foi lançado  em 1986 pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ensinou também  cerâmica na Escola de Belas Artes, da Ufba.

Museu Udo Knoff está
fechado faz tempo.
 Este museu portanto reúne uma coleção valiosa   do  ponto de vista histórico e   cultural, inclusive peças e objetos   confeccionados pelo grande ceramista nas   oficinas que mantinha no bairro de   Brotas, e nas atividades educacionais que   periodicamente  promovia nas   dependências do   próprio museu. No museu   ainda estão arquivados   documentos do artista,   como   desenhos e anotações   as quais permitirão no   futuro estudos mais  sobre a importância de sua obra.

 Estive  no dia 12.6.2021 no Centro Histórico com o objetivo de visitar o   Museu Udo Knoff. Encontrei inexplicavelmente todos os museus fechados, e   não consegui nem autorização para tirar uma foto das obras do ceramista   expostas . O que pude fazer foi fotografar sua fachada e apelar para outras   fontes a fim   de concluir este texto. Dizem que ao vender sua coleção ele   acreditava ser  a   melhor forma de preservá-la , além de concretizar um de   seus sonhos que   era   a existência de um espaço de oficinas como meio de   educar e difundir a   arte   da azulejaria em nossa Bahia. Acontece que as más   administrações nos   últimos anos têm desprezado os museus baianos, e o   Museu Udo Knoff está   fechado há vários meses sem perspectiva de abertura. As informações são   desencontradas. Uns dizem que estaria passando por reformas e também que foi fechado por causa da pandemia. À esta altura não se justifica permanecer fechado, basta criar protocolos para visitação. Já tinha enviado um e-mail pedindo informações e não me responderam. É assim que eles estão tratando a cultura em nossa Bahia. 

Além de conter inúmeras peças de autoria de Udo Knoff  tem muitos azulejos que ele recolheu durante sua existência de demolições de casarões do período colonial. Em 1994 , o então Banco do Estado da Bahia, o Baneb como era mais conhecido, adquiriu parte de sua coleção e inaugurou o Museu Baneb de Azulejaria e Cerâmica Udo Knoff . Cinco anos depois o Baneb foi privatizado e o acervo foi doado ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia ( Ipac) , que inaugurou o museu em 2003 .

O Museu é composto por dois ambientes , sendo que a exposição Azulejaria na Bahia contém materiais da arte da cerâmica e do azulejo , além de apresentar uma visão cronológica da existência do azulejo dos séculos XV ao XX, incluindo sua chegada ao nosso país no século XVII.

O museu conta ainda com fotografias de prédio revestidos com azulejos confeccionados nas oficinas de Udo Knoff, que foram destruídas recentemente. Esses trabalhos são frutos de projetos de artistas os quais recorriam ao Udo para confeccionar os azulejos.

O grande ceramista em seu atelier de Brotas.
                            QUEM ERA

O ceramista Horst Udo Enric Knoff nasceu na  Alemanha,  , na cidade de Halle , em 20 de  maio de 1912  e faleceu em Salvador no dia 7 de junho  de 1994. Era filho de fazendeiros Erich Alfred Wilhem  Knoff e Klara Von Muller Knoff. Chegou a estudar  agronomia , quando conheceu a estudante de Belas Artes  Ivotici Becker Altmayer ,chegando a se matricular em  Belas Artes. Porém devido a proibição de cursar duas  faculdades, terminou optando por Agronomia onde se  diplomou. Em 1948 casou-se com Klara Von Muller e  por volta de 1950 veio morar no Rio de Janeiro, e passou  a trabalhar na Cerâmica Duvivier , em Jacarepaguá. Daí se apaixonou pela arte de cerâmica e passou a fazer alguns cursos de especialização, e em 1952 a convite do professor Carlos Eduardo da Rocha veio fazer uma exposição de obras em óleo sobre tela na então Galeria Oxumaré, que funcionava no Passeio Público. Gostou da Bahia e veio de vez morar na Avenida D. João VI, em Brotas, onde manteve durante anos cinco fornos para a queima de suas peças e de outros artistas. No ano de 1960 por indicação do professor Mendonça Filho foi contratado pelo reitor Edgard Santos para lecionar na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Oito anos depois passou a recolher antigos azulejos de casarões em demolição, formando um acervo considerável. Em 1975 foi para Portugal e em Lisboa coletou material suficiente para finalizar sua pesquisa no Museu Madre Deus, hoje conhecido por Museu do Azulejo. Em 1986 publicou o livro Azulejos da Bahia.

Uma vista parcial do museu Udo Knoff
 quando estava funcionando.
 O saudoso Udo Knoff trabalhou não apenas criando   suas peças, mas também como executor de   importantes projetos de vários artistas consagrados.   Quando o paraense Lênio Braga foi convidado para   fazer um mural para a Rodoviária de Feira de   Santana foi ele quem fez os azulejos. O mesmo   aconteceu com vários murais de Carybé como o   existente na Casa de Jorge Amado, os que   emolduram a fachada do Banco do Brasil, na   Cidade   Baixa. Também fez trabalhos para o artista   sergipano  Jenner Augusto que tem murais no   edificio do Banco do estado de Sergipe e da Energisa. Cito ainda os artistas Genaro de Carvalho, Floriano Teixeira, Calazans Neto, dentre outros. Portanto, quando os artistas eram convidados a criar um mural lá era convocado o Udo Knoff para executar os azulejos que os comporiam. 

                     ORIGEM 

A palavra azulejo significa pedra cintilante ou polida, e é uma tradição maometana  que data de 894 . Os azulejos revestem a mesquita de Sidi Okba , em Kairouan, com elementos vindos de Bagdá. Também são presença na Pérsia , hoje Irã, onde desde o século XII houve uma grande expansão de sua produção  sendo exportados para toda Península Ibérica. Foram os portugueses que trouxeram os azulejos para o Brasil no século XVII, sendo logo aceitos para revestimento dos casarões por ser esmaltado e portanto impermeável resistente às intempéries . Um detalhe interessante que é na região Nordeste onde se encontra até hoje a maioria  de azulejos no Brasil. Esta é a Mesquita de Sidi Okba, Kairouan, na Tunísia, onde os azulejos foram usados inicialmente.