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| O artista Floriano Teixeira pintando e posando em seu atelier , em Salvador. |
Nestes
tempos bicudos que
estamos vivendo atualmente em nosso país onde a política
cultural oficial quer impor reduzindo a expressão artística a manifestações
sobre racismo, ancestralidade e gênero é sempre bom lembrar dos grandes artistas que
vivem e viveram nesta Cidade cheia de contrastes. Antes os grandes artistas nunca estiveram ou estarão rezando por esta cartilha que aprisiona a criatividade.
Hoje o Estado totalitário controla a política cultural colocando nos museus e demais instituições do setor seus militantes, e as liberações de verbas ocorrem discriminadamente através da leis Rouanet e Luiz Gustavo, dentre outras. Sei que a
demanda atual é resultado da imposição mercantilista de alguns galeristas e
marchands que estão engajados a esta política maléfica e têm seus críticos remunerados para chancelar esta política por
questões ideológicas. A academia por sua vez está totalmente contaminada por
esta visão reducionista que empobrece a cultura na medida em que multiplica e
incute nas cabeças dos jovens estudantes que esta é a melhor maneira de se
expressar. O artista precisa de liberdade e as ideologias quer sejam de
tendências de direita ou esquerda funcionam como grilhões de ferro presos nas
suas pernas.
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| A bela Gabriela na visão de Floriano. |
Hoje
vou falar do desenhista, pintor e escultor Floriano Teixeira um dos mais livres e criativos
que aqui viveu e trabalhou por longos anos em seu atelier na Rua Ilhéus, no
bairro do Rio Vermelho. Fazia questão de dizer que não pertencia a nenhuma das
escolas da pintura. Ele pintava suas belas mulatas com uma leveza e graça
poética que ao apreciar uma tela do artista você fica em estado de graça com a
maestria do seu traço e o colorido que nos revela este clima tropical em que
vivemos. As famosas janelas que são elementos importantes numa fase de sua
pintura onde surgem furtivamente mulheres nuas, casais fazendo sexo e às vezes
até brigando nos remete aos clássicos da pintura que sempre introduziam algum
personagem ou objeto para serem decifrados ou reconhecidos. Floriano Teixeira trabalhava
freneticamente pintando muitas vezes durante os três turnos para sustentar uma
família numerosa de sete filhos e netos. Pintar para ele além de ser uma necessidade
visceral fruto do seu talento era também uma questão de sobrevivência, e foi
assim até o seu falecimento. Contou sua filha Silvana Teixeira que ele
sentiu uma forte dor de cabeça, tomou alguns remédios e a dor não passava. Ela deu algumas massagens no pescoço e nada da dor passar. Foi aí que ele decidiu ir
para o Hospital Santa Izabel, em Salvador, e lá constataram que tinha tido um AVC.
Apesar dos procedimentos feitos pelos médicos, infelizmente ele veio a falecer. Ele faleceu em vinte e um de julho de 2000 aos setenta e sete anos de idade.
QUEM
ERA
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| Tríptico da Fundação de São Luís , de 1972. |
O
artista Floriano Araújo Teixeira é natural da cidade de Caiapó no estado do
Maranhão, onde nasceu em oito de março de 1923 e saiu de lá ainda jovem. O município
até hoje apresenta um baixo Índice de Desenvolvimento Humano-IDH do país. Fica
localizado na região da Baixada, conhecida
por sua história ligada à evangelização indígena e colonização, sendo seu nome
de origem tupi-guarani, que significa "fruto maduro" ou "fruto
dourado. No último Censo em 2010 tinha cerca de dez mil
habitantes. Imaginem como era atrasada quando Floriano Teixeira saiu de lá e
vai para São Luís, capital do Maranhão.
Realizou seus estudos no Grupo Escolar Sotero
dos Reis, em São Luís, depois no Liceu Maranhense, quando em 1935 teve suas
primeiras aulas de desenho com o professor Rubens Damasceno. Faz algumas
aquarelas, caricaturas e histórias em quadrinhos. Nos anos 40 foi introduzido
por J. Figueiredo no ambiente artístico de São Luís quando estuda e documenta
tipos populares e cenas do cotidiano da velha capital maranhense. Conhece a
obra de El Grego e ficava impressionado com o alongamento das figuras do mestre. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco (1541-1614) foi um pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha.
Em finais de 1941 Floriano Teixeira recebe o I Prêmio no Salão de Dezembro, provocando sua
decisão de ser um pintor profissional. No ano de 1948 foi encarregado de fazer o levantamento
e catalogação das gravuras, desenhos, e pinturas da coleção de Arthur Azevedo,
quando tem contato direto com obras de Honoré-Victorien Daumier,(1808-1879)
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| Obra O Banho e vemos a janela com um casal na sua intimidade. |
caricaturista, chargista, pintor e ilustrador ; Charles Garnier (1825-1898) foi um arquiteto e Jean-François Millet ( 1814-1875) pintor realista e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como precursor do realismo, pelas representações de trabalhadores.Os três eram franceses.
Dois anos depois já está no Ceará e em 1952 funda com o pintor Antônio Bandeira o Grupo
Independência. Foi
no Ceará que conheceu d. Alice com quem teve sete filhos. Foi o
primeiro Diretor do Museu de Arte Moderna do Ceará. Quando participava de uma exposição de
artistas nordestinos em Salvador recebeu o convite do grande escritor
Jorge Amado para vir morar na Bahia, e assim em 1965 decide viver aqui até a sua
morte. Fez doze capas da Coleção de Obras Completas de
Graciliano Ramos, os desenhos dos romances Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Morte
e a Morte de Quincas Berro D’água, Milagre dos Pássaros e o Menino Grapiúna,
todos de Jorge Amado, seu grande amigo. Também, ilustrou a obra Maria Duzá, de
Lindolfo Rocha.
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| Floriano e Alice que conheceu em Fortaleza, num momento de descontração na casa do amigo o escritor Jorge Amado. |
Este
maranhense que brincava dizendo ter nascido “no condado de Cajapió ", mas adotou
a Bahia como sua segunda terra deixou um legado com seu traço inconfundível e
delicado. Tenho diante de mim, no meu escritório, duas obras de Floriano
Teixeira. Numa delas vemos uma bela mulata com suas vestes amarelas deixando
aparecer sutilmente seus predicados naturais, observada por um lindo pássaro
chamado de galo de campina ou cardeal e, ao fundo um casal, aos carinhos. A
outra, é uma aquarela uma criancinha acariciando sua cabra. Estas duas obras
mostram um pouco da criatividade e da singeleza deste artista que soube conquistar
a Bahia pintando a alma do povo baiano e hoje sua arte
é apreciada por todo o Brasil.
Ao
completar setenta anos ele escreveu em novembro de 1983 num catálogo da
exposição comemorativa da data: SETENTA ANOS - “Setenta
anos passam tão rápidos que não dá para se notar. Quando vivemos como gostamos
de viver o tempo não conta porque ele simplesmente não existe. Calendários e
relógios são instrumentos de tortura e destruição. Sem eles o ar que respiramos
é mais leve e
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| Quatro desenhos que hoje pertencem a sua filha Silvana. |
puro, o sonho é mais colorido e o poder da criação é bem maior.
Sem os delatores do tempo podemos lazer cultura e arte sem pressa. Setenta anos
passam tão de mansinho que não dei por isso .1923 foi ontem e foi ontem também
1950 quando desembarquei e conquistei o Ceará. Enquanto descansava da viagem,
casei-me com uma nativa da terra conquistada e no ato fiz seis filhos saudáveis.
Foi tudo tão rápido que o Diabo nem chegou a piscar e eu já estava chegando
nesse mesmo ano da graça de 1964 na Bahia (veja como o tempo, não conta) para
fazer a minha primeira exposição individual no MAMB a convite da Diretora na Lina
Bo Bardi. Como o tempo nada significa e eu não tenho pressa fui ficando por
aqui. Gostei do jeitinho faceiro e sensual desta terra que também gostou de mim.
Nos apaixonamos e nos demos tão bem que aqui fiz mais um filho. Hoje a Bahia e
eu somos amantes.” Floriano Teixeira
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| Silvana Teixeira |
Silvana Teixeira - Ninguém
melhor para falar do artista Floriano Teixeira do que sua filha Silvana
Teixeira que permaneceu ao lado do pai até a sua morte. Ela lembrou que sua
casa vivia cheia de filhos e netos do artista e que ele não se queixava disto,
ao contrário adorava ver as crianças brincando. Quando indaguei como era a
rotina do pai. Silvana lembrou que ele acordava cedo e tomava o seu café e ia
para o atelier trabalhar. Permanecia o dia inteiro defronte ao cavalete,
levantava para as refeições e voltava ao atelier. Muitas vezes pintava durante
a noite. Perguntada qual a preferência dos clientes sobre as obras do pai ele
disse que grande parte queria obras que tivessem as famosas janelas onde ele
colocava personagens como mulheres mudando a roupa, nuas e às vezes até fazendo
amor. Cada obra desta é um quadro dentro de outro quadro e por serem minúsculos
os personagens da janela demandava tempo e muita atenção.
JORGE AMADO – “Em Floriano Teixeira, o artista consciente e sutil, de sensibilidade incomum, funde-se no homem profundo e generoso, no brasileiro da mais alta qualidade, grande artista. Artista e homem, um ser único, humaníssimo, e que grande artista! Entre os mestres do desenho brasileiro, Floriano Teixeira se coloca em lugar de destaque, um dos maiores entre os maiores.”
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| Carybé com Floriano. |
CARYBÉ- "Algo de monge medieval, ou de persa, anda por dentro de Floriano nos óleos, em geral de grandes planos e pinceladas largas; de repente, numa janela, numa porta ou num portaló vê-se uma cena detalhadíssima, verdadeira miniatura, contando vida do povo, sempre com uma carga de poesia, uma alegria de cores e outra alegria: a de inventar meios de expressão, de dar mais e sempre mais, o que o leva a pesquisar constantemente".
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| Marcos fala do artista. |
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| O t exto ao lado foi desta exposição realizada na Galeria Acbeu,1997. |
JOHN DWEIR - “Para mim, o mundo
de Floriano é um mundo em formação, um mundo onde não há um, porém muitos
centros. É um mundo onde não há só a mão de Deus ou de um pintor ou de um
autor. É um contato com outros mundos, em estado mundo em perene de gestação,
que se desdobra sobre si mesmo em um esforço de criação. Assim, uma janela num
quadro de Floriano pode estar em comunicação com o quadro onde está colocada ou
com um outro quadro que ele pintou há anos ou que vai pintar no futuro. A
realidade de Floriano é a mesma que se encontra em Cem Anos de Solidão de
Garcia Márquez, onde o narrador se esforça para contar tudo, admitindo, porém
que, como não pode caber tudo dentro das páginas da capa do livro, também a
moldura de um quadro não é suficiente para conter o mundo do pintor. Assim é
que Floriano chama seu leitor, ou seja, seu espectador, para que entre em seu
mundo e ajude a recriá-lo através de uma leitura múltipla de sua realidade. No
processo, cria-se um mundo nas telas de Floriano de uma atração incrivelmente
forte, com milagre da multiplicação de seus textos visuais." Escreveu John P.
Dwyer, diplomata americano e um apreciador da arte que viveu aqui e escreveu no
catálogo da mostra que o artista fez em 1997, na Galeria ACBEU, no Corredor da
Vitória.
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| A poetisa Myriam Fraga. |
MYRIAM FRAGA - "Um Inquieto Navegante - Floriano é um pintor da figura. Andarilho contumaz, na vida e na obra, passeou por várias escolas, percorreu
caminhos que foram do cubismo nos quadrinhos, lustrações, caricatura,
muralismo, tudo passou pelo cadinho de seu talento sempre aberto a novos
experimentos. Agora parece que finalmente apaziguou. Ou pelo menos ancorou por algum tempo
(quanto, só Deus sabe) nas águas calmas de um porto não sonhado, mas construído
com a tenacidade do marinheiro que aprendeu, com a vida e com a arte, que para
os inquietos navegantes não há porto porque " porto é navegar".
Um homem viageiro, Floriano. Um índio andejo. Um cavaleiro de muitas cruzadas.
E de múltiplas lutas. As cicatrizes são várias. Os gilvazes. E as lembranças
também, os "souvenirs" da viagem. Desta longa peregrinação que ele
pacientemente iniciou, criança ainda, nos longes de Cajapió."












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