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sábado, 31 de janeiro de 2026

FLORIANO TEIXEIRA E A DELICADEZA DO TRAÇO E LIBERDADE DE CRIAR

O artista Floriano Teixeira pintando e posando 
em seu atelier , em Salvador
.

Nestes tempos bicudos que
estamos vivendo atualmente em nosso país onde a política cultural oficial quer impor reduzindo a expressão artística a manifestações sobre racismo, ancestralidade e gênero é sempre bom lembrar dos grandes artistas que vivem e viveram nesta Cidade cheia de contrastes. Antes os grandes artistas  nunca estiveram ou estarão rezando por esta cartilha que aprisiona a criatividade.
Hoje o  Estado totalitário controla a política cultural  colocando nos museus e demais instituições do setor  seus militantes, e as liberações de verbas ocorrem discriminadamente através da leis Rouanet e Luiz Gustavo, dentre outras. Sei que a demanda atual é resultado da imposição mercantilista de alguns galeristas e marchands que estão engajados a esta política maléfica e têm seus críticos remunerados para chancelar esta política por questões ideológicas. A academia por sua vez está totalmente contaminada por esta visão reducionista que empobrece a cultura na medida em que multiplica e incute nas cabeças dos jovens estudantes que esta é a melhor maneira de se expressar. O artista precisa de liberdade e as ideologias quer sejam de tendências de direita ou esquerda funcionam como grilhões de ferro presos nas suas pernas. 

A bela Gabriela 
na visão de Floriano.
Hoje vou falar do desenhista, pintor e escultor Floriano Teixeira um dos mais livres e criativos que aqui viveu e trabalhou por longos anos em seu atelier na Rua Ilhéus, no bairro do Rio Vermelho. Fazia questão de dizer que não pertencia a nenhuma das escolas da pintura. Ele pintava suas belas mulatas com uma leveza e graça poética que ao apreciar uma tela do artista você fica em estado de graça com a maestria do seu traço e o colorido que nos revela este clima tropical em que vivemos. As famosas janelas que são elementos importantes numa fase de sua pintura onde surgem furtivamente mulheres nuas, casais fazendo sexo e às vezes até brigando nos remete aos clássicos da pintura que sempre introduziam algum personagem ou objeto para serem decifrados ou reconhecidos. Floriano Teixeira  trabalhava freneticamente pintando muitas vezes durante os três turnos para sustentar uma família numerosa de sete filhos e netos. Pintar para ele além de ser uma necessidade visceral fruto do seu talento era também uma questão de sobrevivência, e foi assim até o seu falecimento.   Contou sua filha Silvana Teixeira que ele sentiu uma forte dor de cabeça, tomou alguns remédios e a dor não passava. Ela deu algumas massagens no pescoço e nada da dor passar. Foi aí que ele decidiu ir para o Hospital Santa Izabel, em Salvador, e lá constataram que tinha tido um AVC. Apesar dos procedimentos feitos pelos médicos, infelizmente ele veio a falecer. Ele faleceu em vinte e um de julho de 2000 aos setenta e sete anos de idade.

                                                             QUEM ERA

Tríptico da Fundação de São Luís , de 1972.
O artista Floriano Araújo Teixeira é natural da cidade de Caiapó no estado do Maranhão, onde nasceu em oito de março de 1923 e saiu de lá ainda jovem. O município até hoje apresenta um baixo Índice de Desenvolvimento Humano-IDH do país. Fica localizado na região da Baixada, conhecida por sua história ligada à evangelização indígena e colonização, sendo seu nome de origem tupi-guarani, que significa "fruto maduro" ou "fruto dourado. No último Censo em 2010 tinha cerca de dez mil habitantes. Imaginem como era atrasada quando Floriano Teixeira saiu de lá e vai para São Luís, capital do Maranhão.
Realizou seus estudos no Grupo Escolar Sotero dos Reis, em São Luís, depois no Liceu Maranhense, quando em 1935 teve suas primeiras aulas de desenho com o professor Rubens Damasceno. Faz algumas aquarelas, caricaturas e histórias em quadrinhos. Nos anos 40 foi introduzido por J. Figueiredo no ambiente artístico de São Luís quando estuda e documenta tipos populares e cenas do cotidiano da velha capital maranhense. Conhece a obra de El Grego e ficava impressionado com o alongamento das figuras do mestre. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco (1541-1614) foi um pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha
Em finais de 1941 Floriano Teixeira recebe o I Prêmio no Salão de Dezembro, provocando sua decisão de ser um pintor profissional. No ano de 1948 foi encarregado de fazer o levantamento e catalogação das gravuras, desenhos, e pinturas da coleção de Arthur Azevedo, quando tem contato direto com obras de  Honoré-Victorien Daumier,(1808-1879)
Obra O Banho e vemos a janela com um casal
na sua intimidade
.

caricaturista, chargista, pintor e ilustrador ;  
Charles Garnier (1825-1898) foi um arquiteto  e Jean-François Millet ( 1814-1875) pintor realista e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como precursor do realismo, pelas  representações de trabalhadores.Os três eram franceses.
Dois anos depois já está no Ceará e em 1952 funda com o pintor  Antônio Bandeira o Grupo Independência. Foi no Ceará que conheceu d. Alice com quem teve sete filhos. Foi o primeiro Diretor do Museu de Arte Moderna do Ceará. Quando participava de uma exposição de artistas nordestinos em Salvador recebeu o convite do grande escritor Jorge Amado para vir morar na Bahia, e assim em 1965 decide viver aqui até a sua morte. Fez doze capas da Coleção de Obras Completas de Graciliano Ramos, os desenhos dos romances Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, Milagre dos Pássaros e o Menino Grapiúna, todos de Jorge Amado, seu grande amigo. Também, ilustrou a obra Maria Duzá, de Lindolfo Rocha.

Floriano e Alice que conheceu em Fortaleza,  
num momento de descontração na
casa do amigo o escritor Jorge Amado
.

Este maranhense que brincava dizendo ter nascido “no condado de Cajapió ", mas adotou a Bahia como sua segunda terra deixou um legado com seu traço inconfundível e delicado. Tenho diante de mim, no meu escritório, duas obras de Floriano Teixeira. Numa delas vemos uma bela mulata com suas vestes amarelas deixando aparecer sutilmente seus predicados naturais, observada por um lindo pássaro chamado de galo de campina ou cardeal e, ao fundo um casal, aos carinhos. A outra, é uma aquarela  uma criancinha acariciando sua cabra. Estas duas obras mostram um pouco da criatividade e da singeleza deste artista que soube conquistar a Bahia   pintando a alma do povo baiano e hoje sua arte é apreciada por todo o Brasil. 
Ao completar setenta anos ele escreveu em novembro de 1983 num catálogo da exposição comemorativa da data: SETENTA ANOSSetenta anos passam tão rápidos que não dá para se notar. Quando vivemos como gostamos de viver o tempo não conta porque ele simplesmente não existe. Calendários e relógios são instrumentos de tortura e destruição. Sem eles o ar que respiramos é mais leve e
Quatro desenhos que hoje pertencem
a sua filha Silvana.
puro, o sonho é mais colorido e o poder da criação é bem maior. Sem os delatores do tempo podemos lazer cultura e arte sem pressa. Setenta anos passam tão de mansinho que não dei por isso .1923 foi ontem e foi ontem também 1950 quando desembarquei e conquistei o Ceará. Enquanto descansava da viagem, casei-me com uma nativa da terra conquistada e no ato fiz seis filhos saudáveis. Foi tudo tão rápido que o Diabo nem chegou a piscar e eu já estava chegando nesse mesmo ano da graça de 1964 na Bahia (veja como o tempo, não conta) para fazer a minha primeira exposição individual no MAMB a convite da Diretora na Lina Bo Bardi. Como o tempo nada significa e eu não tenho pressa fui ficando por aqui. Gostei do jeitinho faceiro e sensual desta terra que também gostou de mim. Nos apaixonamos e nos demos tão bem que aqui fiz mais um filho. Hoje a Bahia e eu somos amantes.” Floriano Teixeira

                                                           DEPOIMENTOS

Silvana Teixeira
Silvana Teixeira - Ninguém melhor para falar do artista Floriano Teixeira do que sua filha Silvana Teixeira que permaneceu ao lado do pai até a sua morte. Ela lembrou que sua casa vivia cheia de filhos e netos do artista e que ele não se queixava disto, ao contrário adorava ver as crianças brincando. Quando indaguei como era a rotina do pai. Silvana lembrou que ele acordava cedo e tomava o seu café e ia para o atelier trabalhar. Permanecia o dia inteiro defronte ao cavalete, levantava para as refeições e voltava ao atelier. Muitas vezes pintava durante a noite. Perguntada qual a preferência dos clientes sobre as obras do pai ele disse que grande parte queria obras que tivessem as famosas janelas onde ele colocava personagens como mulheres mudando a roupa, nuas e às vezes até fazendo amor. Cada obra desta é um quadro dentro de outro quadro e por serem minúsculos os personagens da janela demandava tempo e muita atenção.

JORGE AMADO – “Em Floriano Teixeira, o artista consciente e sutil, de sensibilidade incomum, funde-se no homem profundo e generoso, no brasileiro da mais alta qualidade, grande artista. Artista e homem, um ser único, humaníssimo, e que grande artista!  Entre os mestres do desenho brasileiro, Floriano Teixeira se coloca em lugar de destaque, um dos maiores entre os maiores.”

Carybé  com Floriano.
CARYBÉ"Algo de monge medieval, ou de persa, anda por dentro de Floriano nos óleos, em geral de grandes planos e pinceladas largas; de repente, numa janela, numa porta ou num portaló vê-se uma cena detalhadíssima, verdadeira miniatura, contando vida do povo, sempre com uma carga de poesia, uma alegria de cores e outra alegria: a de inventar meios de expressão, de dar mais e sempre mais, o que o leva a pesquisar constantemente".


Marcos fala do artista.
 MARCOS CURI – MCR GALERIA - Disse o galerista Marco Curi, da MCR, que ao abrir a galeria em 1989 focou nos artistas modernos, e entre os artistas modernos da Bahia identificamos que tínhamos maior aproximação e admiração por Floriano Teixeira. É considerado um artista baiano por sua vivência aqui e também por saber interpretar a alma dos baianos. Foi a partir daí começamos a adquirir as obras do artista. Na década de 90 quando ele ainda estava em produção de quinze em quinze dias ia ao atelier dele para ver as novas criações. Assim nossa amizade foi se consolidando e ia acompanhando a sua produção. Ele tinha uma característica de pintar seus quadros de forma metódica e lenta, sempre muito preocupado com a qualidade e  permaneceu assim até a sua morte. Ele tinha um nível cultural alto e interpretava os romances de Jorge Amado como ninguém. Antes de ilustrar a capa de um livro por exemplo, Floriano fazia questão de ler antes de iniciar suas ilustrações. Tem uma série de personagens femininas que Floriano Teixeira pintou inspirado nas mulheres dos livros de Jorge Amado. Realizamos na galeria três exposições artista. Devo ter no acervo meu, de meu filho e da galeria umas quarenta obras de sua autoria, talvez seja a maior coleção de suas obras  da Bahia. Porém, tem um colecionador baiano que reside no sul do país que deve ter umas setenta obras, e deve ser o maior colecionador.

O t exto ao lado foi desta exposição
realizada na Galeria Acbeu,1997.
 JOHN DWEIR - “Para mim, o mundo de Floriano é um mundo em formação, um mundo onde não há um, porém muitos centros. É um mundo onde não há só a mão de Deus ou de um pintor ou de um autor. É um contato com outros mundos, em estado mundo em perene de gestação, que se desdobra sobre si mesmo em um esforço de criação. Assim, uma janela num quadro de Floriano pode estar em comunicação com o quadro onde está colocada ou com um outro quadro que ele pintou há anos ou que vai pintar no futuro. A realidade de Floriano é a mesma que se encontra em Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, onde o narrador se esforça para contar tudo, admitindo, porém que, como não pode caber tudo dentro das páginas da capa do livro, também a moldura de um quadro não é suficiente para conter o mundo do pintor. Assim é que Floriano chama seu leitor, ou seja, seu espectador, para que entre em seu mundo e ajude a recriá-lo através de uma leitura múltipla de sua realidade. No processo, cria-se um mundo nas telas de Floriano de uma atração incrivelmente forte, com milagre da multiplicação de seus textos visuais." Escreveu John P. Dwyer, diplomata americano e um apreciador da arte que viveu aqui e escreveu no catálogo da mostra que o artista fez em 1997, na Galeria ACBEU, no Corredor da Vitória.

A poetisa Myriam Fraga.
MYRIAM FRAGA - "Um Inquieto Navegante - Floriano é um pintor da figura. Andarilho contumaz, na vida e na obra, passeou por várias escolas, percorreu caminhos que foram do cubismo nos quadrinhos, lustrações, caricatura, muralismo, tudo passou pelo cadinho de seu talento sempre aberto a novos experimentos. Agora parece que finalmente apaziguou. Ou pelo menos ancorou por algum tempo (quanto, só Deus sabe) nas águas calmas de um porto não sonhado, mas construído com a tenacidade do marinheiro que aprendeu, com a vida e com a arte, que para os inquietos navegantes não há porto porque " porto é navegar". Um homem viageiro, Floriano. Um índio andejo. Um cavaleiro de muitas cruzadas. E de múltiplas lutas. As cicatrizes são várias. Os gilvazes. E as lembranças também, os "souvenirs" da viagem. Desta longa peregrinação que ele pacientemente iniciou, criança ainda, nos longes de Cajapió."

 

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