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sábado, 17 de janeiro de 2026

ELIAS SANTOS COM SUA ARTE ENOBRECE MATERIAIS DESCARTADOS

Elias Santos em seu ateliê observando
 suas obras
.
 O baiano Elias Santos é pintor, escultor, ilustrador e artista conceitual que trabalha com os mais variados tipos de materiais desde o gesso, o plástico, peças de aparelhos eletrônicos descartadas no lixo, papelão de embalagens e até casca de ovos. Durante nossa conversa ele disse que está guardando cascas de ovos que se encaixam depois da retirada da clara e gema. Ainda não decidiu o que fazer com elas, mas adiantou que certamente usará em algum trabalho futuro. Portanto, estamos diante de um artista da reciclagem conhecidos como upcyclers. Poderíamos dizer que é um alquimista capaz de transformar em arte materiais que nós leigos consideramos imprestáveis e descartáveis. Talvez o que tenha levado o artista a buscar estas alternativas para se expressar são as condições de vida que vem experimentando desde a sua infância. Nasceu em dezenove de novembro de 1966 no distrito de Gamboa, município de Cairu, no Recôncavo Baiano. Gamboa é um vilarejo de pescadores, localizado na Ilha de Tinharé, vizinho do Morro de São Paulo, local onde seu pai Benedito Adolfo da Silva durante toda sua existência exerceu a sua profissão de pescador, enquanto sua mãe d. Beatriz Santos costurava e vendia confecções e comidas caseiras nas feiras livres das redondezas. O artista Elias Santos tem nove irmãos e talvez por influência do irmão mais velho que é músico, compositor e   fotógrafo chamado Clovis Luz, assina Leleza, ele tenha decidido ser artista visual.

Obra Vocifera, de 2011. Assemblage feita
com gesso pedra, placa mãe, plugs ,
pelúcia e foamboard.
Seu pai também tinha habilidades de artesão e fazia as chamadas esteiras usadas para armar a camboa. Explicou Elias Santos que na camboa são usados dois tipos de varas. As rústicas para fazer o   corredor, e as de taquara construir o cercado.  Essas varas são fincadas na areia  para criar um labirinto, direcionando peixes e crustáceos para uma área de captura chamado de cercado. Os peixes entram e não conseguem voltar. Quando a maré baixa os pescadores vão recolher os peixes e crustáceos no cercado. A taquara usada para construir o cercado é uma espécie de bambu nativo da região.

O Elias Santos Silva passou a maior parte da infância em Valença, Bahia, terra de sua genitora e fez parte do primário na Escola Municipal Alaor Coutinho. Disse ter frequentado outras escolas primárias porque morava de aluguel e quando acontecia mudar seus pais procuravam matricular os filhos em escolas mais próximas da casa onde estivessem morando. Já o ginásio fez no Complexo Escolar Gentil Paraíso Martins, que tem mais de setenta anos de fundado. Ao terminar o ginásio foi para a Escola Média de Agricultura da Região Cacaueira - EMARC, pertencente à Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira - CEPLAC onde se formou em 1984 em Técnico Agropecuário.  Nunca exerceu esta atividade e lembrou que na época existiam três opções para os estudantes que terminavam o ginásio na cidade. Magistério, que era normalmente escolhido pelas meninas, técnico agrícola e contabilidade. Ao concluir o curso trabalhou por um período na Prefeitura Municipal, e em seguida ficou fazendo letreiros, pintando placas de casas comerciais e outros

Quatro máscaras feitas em
papelão de embalagens.
serviços na área de publicidade. Foi para o Rio de janeiro participar da ECO 92 juntamente com Araken Vaz Galvão e Zenildo Barreto da Casa Baiana da Cultura Latino Americana, Cabincla, que é um coletivo audiovisual de Salvador, Bahia, que se destacou na produção de cinema independente, focando em narrativas periféricas, cultura local e produções de baixo orçamento. Eles convidaram artistas de Valença para expor no espaço que eles tinham na ECO 92. Foi uma boa experiência porque conheceu museus, galerias e quando retornou em 1993 decidiu fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. “Disse a mim mesmo. Vou fazer vestibular para artes plásticas porque o que vi sou capaz de fazer. Passei em segundo lugar.” Um fato interessante é que a divulgação do vestibular era feita pelos jornais e rádios FMs. Lembrou Elias Santos que ao ligar o rádio a lista já vinha sendo lida há algum tempo e não conseguiu ouvir o seu nome. Porém, passou a receber parabéns de conhecidos e quando conseguiu pegar um jornal estava lá o seu nome. Para ele “a EBA foi muito importante para mim porque recebi muitas informações e tive contatos com novos artistas a exemplo de Joãozito, Judite Pimentel, Marcondes Dourado, dentre outros.” Morava na Residência Universitária, no Corredor da Vitória e permaneceu uns seis anos. Demorou a concluir o curso porque naquela época aconteciam muitas greves que duravam meses.

                                                TRAJETÓRIA ARTÍSTICA

Obra Caixa. Assemblage:
escultura em gesso pedra, caixa
de fonte de computador,
napa, tela sintética canutilho
e instalação com leds
.
Numa exposição que realizou em 2011 o artista Elias Santos usou sucatas de material eletrônico integrados por fios e canudos em caixas iluminadas por leds que remetiam a cabeças robotizadas. Não estive na ocasião visitando esta mostra do Elias Santos e agora a visito através das imagens e das palavras do César Romero. Reproduzo um trecho do seu texto para que possamos compreender o impacto que isto causou e também ver e ressaltar sua capacidade criativa.As placas de equipamentos eletrônicos em desuso, um dia foram de vital importância e hoje, em completo abandono, estabelece uma metáfora de transformação. O que um dia era vital, não mais é: são apenas testemunhas de um tempo que passou. E o que foi pode retornar numa outra função que não a original. Existe em Junções um segundo momento: cinco gabinetes de computador, com cenografias internas. Neste espaço, uma pequena lâmpada, pequenino lume, sutilmente ressalta aspectos e ideias de terceira dimensão, Imagens virtuais da solidão humana. Todos os trabalhos trazem ideias construtivistas de anelo dramático A montagem de Junções é absolutamente simples, correta, de poderoso requinte. Não busca invencionices bizarras que nada acrescentam ao produto final.”

Obra Cabeça Cúbica feita em papel, em 2011.
Na mostra Junções / Disjunções Elias Santos apresentou obras tridimensionais explorando o potencial expressivo dos mais diversos materiais estabelecendo correlações, liberando elementos perceptivos, sedimentados em torno das formas habituais. Escreveu que quase sempre parte do encontro com algum objeto ou situação que desencadeia um fluxo de associação de imagens num processo por meio do qual as exigências da matéria vão deixando nenhum fragmento viável para a sua continuação.  Reconhece que as cabeças que esculpiu em pedaços de giz não tinham particularidade expressiva que as distinguissem umas das outras. Ao serem destruídas no próprio fazer, cumpriram um circuito completo de nascimento e perecimento que inscreveram sua breve existência na ordem dos fatos percebidos não pela sua materialidade, mas pela sua duração.  Escreveu ainda que buscou na sua participação estabelecer um diálogo com o espaço do museu, compondo com fios elétricos colados diretamente na parede, desenhos que deram continuidade aos movimentos que irradiavam das serpentes representadas num autorretrato de Juarez Paraíso, que também participou da exposição coletiva. Disse ainda que o resultado final foram circuitos cujos desenhos sugeriam uma escrita musical desconstruída .

 

 

 

 

 

                                                                                 EXPOSIÇÕES

Obra Máquina Visual. Prêmio 
Artista Destaque na Bienal
do Recôncavo, 2006
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Individuais: Em 2015 - As Vozes do Ancestral, Galeria Pierre Verger, Salvador-BA, Edital Portas Abertas para as Artes Visuais – FUNCEE.  2013 – As Vozes do Ancestral, Centro de Cultura Olivia Barradas, Valença-BA, Programa de Cultura do Banco do Nordeste. 2011- 2012- Exposição Junções, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1995 -Semblantes Semáforos, Escola de Belas Artes, UFBA, Salvador- BA
Coletivas : Em 2024 - Cais - Galeria Galatea, Salvador -BA. 2020 - Cura - Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA. 2018 - Arte de Passagem - Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA. 2016 - Circuito das Artes - Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA; Exposição Só Cabeças - Museu de Arte Moderna, Salvador-BA; Paisagem Intermitente - Ocupação Coaty, Projeto Ativa, Salvador-BA. 2014 Circuito das Artes - Galeria Cañizares, EBA-UFBA, Salvador-BA. 2013 - Circuito das Artes - Triangulações, Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães - MAMAM, Recife-PE; Circuito das Artes Triangulações, Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, Brasília- DF; Circuito das Artes, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 2012 - Escultura Nova, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 2009 - There is Hope - Aroup Show, GV Art, London-UK; Gifts for the Gifted - Aroup Show. GV Art London-UK.  2008 - Atualização em ReTALHOS PosTAIS da Bahia, Museu do Palácio da Galerie Tavire Inerve, Portugal. 2007- Circuito das Artes, Galeria ICBA, Salvador-BA; coletiva dos Artistas Elias Santos e Fernão Paim, Galeria ACBEU, Salvador-BA; 25 Artistas Baianos - 25 anos Galeria Solar do Ferrão, IPAC, Secretaria de Cultura da Bahia. 2005 - VI Mercado Cultural: Exposição de Desenhos - Instituto Cultural Casa Via Magia. 2004 - Máquina Sensorial, Galeria Aliança Francesa,

Obra Ligações Clandestinas, ocupação
do Coaty, em 2016.

Salvador-BA. 2003 - V Mercado Cultural, Instituto Cultural Casa Via Magia, Salvador-BA. 1999 - Exposição de Fotografias, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1998 - Corpo Sem Órgãos, Galeria do ICBA, Salvador-BA. 1996 – Exposição Untitled Galeria ACBEU, Salvador-BA.
Prêmios: Em 2006 - Artista Destaque do Recôncavo na VIlI Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA; Prêmio Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, FUNCEB, CCOB, Valença-BA. 2002 - Prêmio Aquisição na VI Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix- BA.  1995 - Prêmio 3º lugar no Xlll Salão Regional de Artes da Bahia, FUNCEB, CCOB, Valença- BA.


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