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sábado, 21 de fevereiro de 2026

UM MERGULHO NA OBRA E TRAJETÓRIA DE EDGARD OLIVA

O artista Edgard Oliva trabalhando no se
ateliê em Itaquara, interior da Bahia.
O professor de fotografia da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, Edgard Oliva é um artista multimídia que gravita, em torno do desenho, da pintura,  escultura,  fotografia e também realiza vídeos com conteúdo criativos e impactantes. Já realizou inúmeras exposições individuais e coletivas de pinturas, fotografias, vídeos  e até instalações, inclusive no exterior.  Fez o mestrado e o doutorado na Escola de Belas Artes, da UFBA,  de pesquisa Poéticas Interdisciplinares. Com o passar do tempo a pintura foi perdendo espaço em sua caminhada e a fotografia passou a ser sua atividade de maior interesse. Atualmente está empenhado em retornar ao desenho e à pintura, sem abandonar a fotografia que lhe atrai com especial intensidade. Fui encontrar o professor Edgard Oliva na EBA, onde ele exerce o cargo de vice-diretor, e quando da nossa conversa estava no cargo de diretor em exercício.

Escultura Casulo feita
de tiras de madeiras,
papel e outros materiais.
Seu nome completo é Edgard Mesquita de Oliva Júnior, nasceu em três de janeiro de 1957, na cidade de Jequié, Bahia. O pai quando estudante de Odontologia gostava de desenhar e frequentou o atelier do grande mestre da pintura baiana Presciliano Silva que o incentivava a continuar com seus desenhos e a abraçar a carreira de artista. Porém, seu avô preocupado com a sobrevivência do filho insistiu para que se formasse em Odontologia e seguisse  a carreira de dentista. Disse Edgard Oliva rindo que o seu avô era firme e dizia: “Você vai ser é doutor para dar comida a seus futuros filhos”. Nesta época a família residia na Rua do Tingui, e seu pai Edgard Mesquita de Oliva ao concluir o curso foi clinicar em Itaquara, interior da Bahia, onde conheceu d. Gildeth de Almeida. Casaram e viveram lá por dez anos. resolveram mudar para Itapetinga em 1960. O Edgard Oliva ficou morando com os pais  até os quinze anos de idade. Fez o primário no Escola José Vaz Espinheira e parte do curso ginasial no Ginásio Albert Schwartz, que pertence à igreja Batista, atualmente oferece também o curso colegial. Antes de concluir o ginásio veio para Salvador e foi morar com a avó no Jardim Baiano. Estudou no Colégio Severino Vieira, depois veio o outro irmão e foram morar ainda no bairro de Nazaré na casa de uma tia. Lembrou com alegria que era uma festa porque reunia ele, seu irmão , primos e primas.

Ao concluir o colegial em 1975 fez vestibular para Medicina, mas não foi aprovado. Em 1977 fez novo vestibular e foi aprovado em Licenciatura Ciências Biológicas. Quando indaguei como a fotografia chegou até ele contou que uma tia viajou para a Europa e trouxe uma câmera compacta Kodak Brownie   para

Quatro fotografias da série Impressões
do Mito expostas no MAM. Foram resultado
do erro ao usar  duas vezes o mesmo filme.
sua mãe, que ainda era solteira, e passou a fotografar a família e eventos que ocorriam em seu entorno. Já aos dezesseis anos Edgard Oliva via sua mãe fotografando e passou a se interessar. Lembrou que a família ia fazer passeios no bairro da Ribeira, em Salvador, e  juntamente com a mãe aproveitava para fotografar. Passou a desenhar inspirado em seu pai que desenhou os móveis da casa, carros e tudo que lhe tocava. O tempo passou, a câmera desapareceu, e em 1982 quando Edgard Oliva de posse do diploma de professor de Ciências Biológicos resolveu se apresentar na Escola de Belas Artes, fez um teste de Desenho e foi aprovado e entrou por ser portador de diploma universitário. Nesta época desenhava , pintava e desde o início na EBA já se juntava com outros colegas e começaram a expor. Disse que mesmo antes, chegou a levar estudantes de Belas Artes para expor no Centro Acadêmico do Instituto de Biologia. 

Obra da série Amarras feita de carvão sobre 
papel canson , de 1987
.
Para ele sua presença como estudante na EBA foi um período muito rico e destacou que foi aluno de Desenho do professor Ailton Lima. Observou que suas aulas contribuíram para a melhoria do seu desenho e entusiasmado com as aulas de desenho em pastel que o professor Ailton Lima ministrava resolveu comprar uma caixa de pastel com setenta e duas cores e começou a desenhar. Chegou a fazer uma série desses desenhos com pastel e afirmou que praticamente vendeu quase todos. “Os trabalhos que me colocaram nas galerias surgiram após as aulas dele." Recordou que uma vez ele mandou que seus alunos riscassem uma folha de papel aleatoriamente e depois entregou outra folha com um retângulo vazado e instruiu que fossem passando por cima dos riscos que fizeram e observassem o que tinham feito. Foi aí que surgiu a série de trançados do Edgard Oliva. A partir daí resolveu continuar e pesquisar sobre os trançados resultando numa exposição de obras com esta temática . Em seguida teve aulas de pintura com a professora Maria Adair. Como era autodidata foi na EBA  que desenvolveu suas técnicas de desenho, pintura e noções de perspectivas. Em 1988 teve a felicidade de conhecer um professor alemão amigo de um colega que estava aqui na Bahia . Ele comprou dez trabalhos feitos por Edgard Oliva  e levou para a Alemanha. Antes de retornar disse que ia mostrar lá para amigos ligados à arte, e se eles gostassem ia lhe convidar para passar uma temporada. No final de 1988 recebeu uma carta do alemão lhe convidando. Durante o ano de 1989 fez uma revisão da língua inglesa e se preparou,  e em 1990, pediu licença do magistério . O artista Edgard Oliva  ensinou  Biologia de 1982 a 1994 no Colégio João Florêncio Gomes, na Ribeira, depois no Colégio Anísio Teixeira, na Ladeira do Paiva e encerrou sua 
O artista Edgard Oliva tendo ao fundo uma
pintura de sua autoria.
carreira de professor do Estado na ECESBA - Escola de Curso Supletivo do Estado da Bahia. Esta escola atendia individualmente os alunos que não conseguiam acompanhar o curso normal e funcionava na Biblioteca dos Barris.  
Foi para a Alemanha em 1994 a convite do industrial do norte Engelbert Steinberg e passou cerca de um ano. O alemão alugou uma pequena casa  num lugar belíssimo, uma aldeia com apenas oito mil habitantes que tem vinte e uma  galerias e oito museus! Lá residiram grandes artistas impressionistas  alemães  e suas residências viraram museus e galerias. O lugar é “Worpswede, localizado próximo a Bremen, na Alemanha, é uma célebre colônia de artistas fundada por volta de 1889. O local é renomado por sua vibrante cena artística, com museus como o Benhof e a Grande Exposição de Arte (Grobe Kunstschau), além de inúmeras galerias e ateliês, como o Mimis Erbe e a Galerie Altes Rathaus. A área atrai artistas há mais de 140 anos e continua sendo um centro cultural ativo”. (Erben). A casa alugada  tinha um pequeno silo e Edgard Oliva transformou este silo em  atelier durante o tempo que passou por lá. Daí foi para Mannheim, onde ficou três meses juntamente com uma amiga artista.  Mannheim, localizada no sudoeste da Alemanha, é a segunda maior cidade de Baden-Württemberg, conhecida como Cidade dos Quadrados (Quadratestadt) pelo seu layout de ruas em grade e por ser berço de invenções como o automóvel e a bicicleta. Em seguida foi para Eichenau que é um município da Alemanha, na Baviera, e neste ínterim fez dez exposições de sua produção na Alemanha. Quando voltou em 1992 foi ensinar Biologia, no Estado, e deixou a EBA. Não chegou a concluir o curso de Licenciatura em Desenho, “mas o destino me quis aqui.”, disse Edgard Oliva.  

Folder da exposição A Grande Arca
de fotos  dos presépios da
Chapada Diamantina, na Bahia.
Veio a fotografia e fez uma exposição em 1989 a 2000 chamada Impressões do Mito, no Museu de Arte Moderna da Bahia, resultado de um trabalho concluido  quando participou do workshop Light-Art tendo como orientador o professor alemão Dieter Jung, no Instituto Goethe, em Salvador. O primeiro cargo acadêmico deste alemão foi como professor visitante na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, Brasil, em 1975. No workshop aprendeu algumas técnicas inclusive a trabalhar  com canetas a laser. A exposição do artista Edgard Oliva foi feita utilizando fotografias de um filme de slides  que ele havia usado para fotografar  cenas do desfile da Timbalada durante o carnaval . Aconteceu que tinha levado apenas dois filmes o de slides e um de 400 asas . Ao terminar o primeiro filme retirou da máquina e na hora que foi pegar na mochila o segundo filme trocou e colocou o mesmo filme de slides que já tinha batido. Resultado , por causa deste erro surgiram imagens superpostas  quase irreconhecíveis. Guardou durante um ano e meio e neste período seu olhar mudou, já tinha  outra visão. Levou o filme e  mostrou ao professor alemão que  gostou das imagens e Edgard Oliva passou a trabalhar com canetas de raio laser , posteriormente foram expostas no MAM. A propósito  escreveu o saudoso crítico e poeta  Wilson Rocha com “ Edgard Oliva com formação técnica na Alemanha, pertence a uma geração de pintores extremamente articulados, que operam com estratégias plásticas múltiplas. O que dão a medida do seu valor. Essa geração surgida por volta dos anos oitenta reafirma sua visão que exalta a instantaneidade da imagem, mas não elimina a sua identidade, aniquilando, no entanto, a existência presente e substituindo o lugar por um local de passagem.” 

Obra  Ninho desenho a grafite e carvão
sobre papel canson, de 2021
Foi  fazer uma exposição em 1997 chamada de A Chuva da Luz, na Galeria Unama, em Belém do Pará. No final de suas experiências com o professor alemão ele passou a fotografar a cidade à noite e a provocar aquele erro que cometeu com o filme de slides coloridos. Foi quando  construiu um objeto usando o tecido voil composto de quatro folhas, pendurou no teto, e por ser leve ele girava com o vento. Para os que não conhecem o tecido voil é um material fino, leve e transparente, geralmente feito de poliéster, com textura macia e ótimo caimento, ideal para cortinas sofisticadas, decoração de eventos e vestuário fluído. O artista Edgard Oliva Passou a projetar aleatoriamente as fotos superpostas, dando um resultado visual diferenciado. “Foi aí que descobri que tinha em minhas mãos uma fábrica de imagens “, disse com alegria o professor Edgard Oliva. 
Fez uma residência de Portugal sabendo que sua mãe gostava de fotografar resolveu comprar uma câmera Kodak Brownie para ela e passaram os dois a fotografar.  Ao retornar  estava em Salvador  o Michael Toss, curador das Casa das Artes, em Berlim. Veio fazer um trabalho com Mário Cravo Neto e ele foi ser o intérprete por falar alemão e lhe convidou para ir morar na Alemanha. Conta Edgard Oliva que recusou ir morar na Alemanha porque “  estava começando o projeto dos Presépios, e disse a ele que só existem na Bahia." Mapeou a Chapada inteira e viajou durante  cinco anos, visitando lugares fora do circuito turístico.
Pintura da série Cidades Verticais.
Fez cinema, fotografia , escreveu  a história dos presépios e  montou uma exposição de fotografias e vídeos em 2011 chamada A Grande Arca, na Caixa Cultural, em Salvador.” Disse que esta exposição lhe trouxe as lembranças de quando era menino e visitava com seus pais casas nas quais os moradores faziam presépios. Desses recorda do presépio de Dona Cota e senhor Fernando,  em Itapetinga, um casal sem filhos que criava um tatu como pet de estimação. Inclusive os presépios foram tema de sua tese do mestrado e assim ele escreveu: “O presente trabalho descreve uma poética que tem como tema principal a investigação dos presépios atuais na Chapada Diamantina, Estado da Bahia, com ênfase nos processos de criação desses cenários natalinos. Com uma abordagem sócio compreensiva, o objeto foi investigado com base na estética do visível, tendo como princípio o imaginário do sujeito para a ação criadora a partir da investigação oral e dos elementos presentes nos presépios estudados. Foram utilizadas para abordagens teóricas autores como Roland Barthes, Michel Maffesoli, Luigi Pareyson e Ítalo Calvino, que tratam a ação criadora como o modus operandi do sujeito. Foram empregadas as técnicas da fotografia e do vídeo, assim como entrevistas diretas e aplicação de ficha de identificação para inventário do objeto, como instrumentos de coleta das informações necessárias à compreensão da pesquisa. O processo criativo finalizado ou configurado em fotografia e instalação ocorre a partir dos recortes fotográficos que foram realizados enfocando elementos, ou conjuntos de composição, que extrapolam a estrutura religiosa, sendo, contudo, reveladores de situações sociais e da crença inseridos no contexto do imaginário no presépio. A partir desse princípio foi gerada a instalação todos os dias, na qual se faz uma analogia entre as figuras “mutiladas” dos presépios com as crianças de rua dos grandes centros urbanos, simbolizadas nos bonecos encontrados ‘abandonados’ em nossas  vias urbanas."
Pintando na Alemanha a Mulher de Roxo.

Já o doutorado ele disse que estava em dúvida e foi com um irmão para a fazenda. À noite viu a lua cheia por cima de um pé de seriguela. Pegou a câmera e fez uma série de fotos. Depois num final de semana foi passar com um irmão na casa de praia e acabara de pintar uma parede de branco. Ao observar disse "é isto que quero!” Foi quando veio a ideia de Luz da Noite, Luz do Dia. Já tinha a noite com as fotos feitas na fazenda e agora  as do dia.  Surgiu em seguida o interesse em fazer uma  exposição na Galeria ACBEU chamada de  Quando a Noite Encontra o Dia, em 2016.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS - Em 1985- Na Intimidade das Formas, Lobby do Hotel Merídien, Salvador-BA.1986- Pinturas, Galeria Bon Vivant, Salvador-BA; 1990 - Buscando Novos Tons, Art Expressão, Salvador-BA; Edgard Oliva in Tempo, Deutsche BankBremerhaven, Alemanha; Brasil: Ordem e Progresso! Stadtbibliotek Bremen-Alemanha. 1991 - Bahia - Munique, Galeria Vigny, Munique-Alemanha; Caso Caos, Galeria de Arte Vila Imperial, Vitória daConquista - BA. 1994 - Atelier UrielGalerie, Stuttgart-Alemanha; Construtivismo Brasileiro, Galeria Vigny, Munique-Alemanha.1996 - Urbanos-nós, Frazão Arte Galeria, Salvador-BA. 2000 - Impressões do Mito (Fotografias), Museu de Arte Moderna da Projeto Verão, Museu de Arte Moderna do Bahia, Salvador-BA.

D. Antônia Pereira, de Utinga, Bahia,
fotografada por Edgard Oliva em 2017.
COLETIVAS - 1984 - Galeria Solar do Ferrão, Salvador-BA; Artistas Jovens, Cañizares Galeria de Arte, UFBA. 1985 - Primeiro Tempo, Cañizares Galeria de Arte, UFBA, Salvador-BA; Cores e Formas, Galeria Malhoa, Salvador-BA. 1986 – Mostra Baiana de Artes Plásticas, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. 1987 - Composição Drástica Conjunta, Galeria Bon Vivant, Salvador-BA; Galeria Profiarte, São Paulo-SP.1988 - Projeto Verão,  Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; Rocha, Areia e Mar & Desamarrando as Amarras, Célia Mallet & Edgard Oliva, Cañizares Galeria de Arte, UFBA, Salvador-BA.1989 - ARte Itapetinga", Itapetinga-BA; Escarcéu, Galeria do ACBEU, Salvador-BA.1990 -  Graphik Kunst, el-galerie, Karlsruhe, Alemanha.1992 - Mitos de uma Identidade, 13 Artistas Latino Americanos, Aspekte Galerie im Gasteig, Munique e em Frankfurt, Goethe-Institut, Alemanha;  Interpretando a América 1, Galeria ACBEU. Interpretando a América 2, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1993 – Ad Infinitum, Galeria ACBEU, Salvador-BA. 1994 - Coletiva de Verão, Galeria Abaporu, Salvador-BA; 1° Workshop MAM-Bahia de Artes Plásticas. 1995 - 20 Anos Galeria ACBEU, Salvador-BA; Luz na Arte, Arte da Luz", Galeria do ICBA Salvador-BA. 1995-1996 - Lençóis de Luz, Espaço Cultural do IPHAN, Lençóis-BA; Uno, Galeria ACBEU, Salvador-BA; Tropicália 30 Anos, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA.1999 – Arte Arte, Salvador 450 Anos, Museu de Arte Moderna da Bahia Salvador-BA; Arte Arte, 450 Anos, Museu da Cidade Rio de Janeiro-RJ; Arte Arte, Salvador, 450 Anos", Memorial de Curitiba, Curitiba- PR. 2000 – Impressões do Mito – Fotografias no Museu de Arte Moderna da Bahia – Salvador-BA. 2011-2012 – Exposição a Grande Arca, Fotografias e Vídeos de Edgard Oliva, , Caixa Cultural, Salvador-BA.2016 – Exposição Quando a Noite Encontra o Dia , comemorativa dos 75 anos da Galeria ACBEU.

Foto da abertura de expo individual em
Munique, na Alemanha .
SALÕES / BIENAIS - Em 1987 – V Salão Nacional de Arte Fotográfica, Goiânia-Goiás. 1988 - I Salão Universitário de Artes Visuais, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA; I Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1989 - Il Salão Baiano de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1990 - II Salão Universitário de Artes Visuais, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-BA. 1993 - II Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix, BA.1994 -I Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1995 - III Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix-BA. 1996 - III Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de arte Moderna da Bahia. 1997 - IV Salão MAM Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA.  1999 - VI Salão da Bahia de Artes Plásticas, Museu de Arte |Moderna da Bahia, Salvador-BA.

Incursão na Casa Preta , em 2024.
FOTOGRAFIA E VÍDEO - Em 1993 –Oeste, vídeo, assistente de direção. 1994 – I Coletiva Fotografia, Shopping Itaigara, Salvador-BA; Oficina de Vucano, Vídeo, Fotografia de Cena, direção Mônica Medina. 1995 - Workshop Light-Art, Instituto Goethe, Experimentação a Laser na Fotografia, Salvador-Ba. 1996 - Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 2, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1997 - Lençóis de Luz, Espaço Cultural IPHAN Lençóis – BA; A Chuva da Luz, Galeria da Unama, Belém-PA; No Rumo da Luz", vídeo sobre a exposição, A Chuva da Luz, Instituto Goethe, Salvador-BA; 5° Semana Sergipana de Fotografia, Galeria da Cultarte, Aracaju-SE; Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 3, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1998 - Fotografia Contemporânea na Bahia, Ano 4, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA; Bahia à Paris Arts Plastiques d'aujourd’hui , Galerie J & J Donguy, Paris -França. 2000 - 7 Fotógrafos, Galeria Pierre Verger, Salvador-BA.

PREMIAÇÃO- Em 1994 - Vídeo Oeste, Direção Mônica Medina e Airson Heráclito. Assistente de Direção Edgard Oliva; Concurso "A imagem em 5 minutos - Pelourinho, Fundação Cultura do Estado da Bahia, Salvador-BA.1997 -   Indicação para o Prêmio Nacional de Fotografia da FUNARTE, Rio de Janeiro.

  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE BEATRIZ MILHAZES NO MAB

Beatriz Milhazes na abertura da exposição.
 Está aberta ao público no Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, até o dia vinte e seis de abril , de terça a domingo, das 10 às18 horas,  a primeira exposição individual em Salvador da artista carioca   Beatriz Milhazes chamada de 100 Sóis composta de telas em grandes formatos e um forte colorido. Quando você está diante de uma dessas imensas telas coloridas com a prevalência dos amarelos mergulha em mandalas gigantes, grandes círculos e rosáceas sente uma sensação positiva com a vibração das cores e das formas. São elementos geométricos que vão conduzindo o seu olhar e de repente retorna ao começo como que perdido num labirinto de formas, cores e tonalidades. O observador atento experimenta momentos de sensações positivas enquanto seu olhar é desviado para os florais e volutas que a artista utiliza para formar as suas composições.

Veja a variedade de rosáceas,florais e outros
 elementos que compõem esta bela obra
.
Segundo o curador Tiago Mesquita “a mostra é um recorte de três décadas da produção da artista e se inicia nos anos 90 quando passou a desenvolver a técnica criada por ela que a batizou de monotransfer.” Esta técnica consiste em transferir para a tela através de colagem e monotipia imagens pintadas numa folha de plástico, deixa secar e depois transfere para a tela através o decalque. A técnica permite criar camadas, texturas e formas precisas, facilitando a colagem e o reposicionamento dos elementos antes da fixação final. Para ele as obras expostas “revelam o percurso da artista em direção a um espaço abstrato de coordenação de diferenças, onde padrões, cortes diagonais e giros, mesmo tensos encontram equilíbrio. Um jardim de maravilhas, feito com a luz e 100 sóis, em que contrastes coexistem sem arestas, na voltagem máxima”.

Visitante observa com atenção uma obra da
exposição no MAB.
A artista nasceu em 1960 no Rio de Janeiro é gravadora e pintora reconhecida internacionalmente como um nome importante da arte contemporânea. Em 1981 formou-se em Comunicação Social e antes de se formar passou a frequentar o curso de Artes Plásticas, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Anos depois já estava lecionando e coordenando as atividades culturais. Consolidou sua carreira depois que realizou exposições no Carnegie International, (1995); bienal de Sydney (1998); bienal de São Paulo (1998, 2004); Bienal de Shangai (2006) e Bienal de Veneza (2003, 2024) e no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque – MOMA. Segundo a Fundação Itaú que patrocina a mostra através incentivos da Lei Rouanet aqui estão reunidas obras produzidas ao longo de trinta anos e representa um panorama da pesquisa da artista. A exposição é composta de pinturas históricas, trabalhos inéditos, colagens recentes e uma instalação.

 

 


sábado, 31 de janeiro de 2026

FLORIANO TEIXEIRA E A DELICADEZA DO TRAÇO E LIBERDADE DE CRIAR

O artista Floriano Teixeira pintando e posando 
em seu atelier , em Salvador
.

Nestes tempos bicudos que
estamos vivendo atualmente em nosso país onde a política cultural oficial quer impor reduzindo a expressão artística a manifestações sobre racismo, ancestralidade e gênero é sempre bom lembrar dos grandes artistas que vivem e viveram nesta Cidade cheia de contrastes. Antes os grandes artistas  nunca estiveram ou estarão rezando por esta cartilha que aprisiona a criatividade.
Hoje o  Estado totalitário controla a política cultural  colocando nos museus e demais instituições do setor  seus militantes, e as liberações de verbas ocorrem discriminadamente através da leis Rouanet e Luiz Gustavo, dentre outras. Sei que a demanda atual é resultado da imposição mercantilista de alguns galeristas e marchands que estão engajados a esta política maléfica e têm seus críticos remunerados para chancelar esta política por questões ideológicas. A academia por sua vez está totalmente contaminada por esta visão reducionista que empobrece a cultura na medida em que multiplica e incute nas cabeças dos jovens estudantes que esta é a melhor maneira de se expressar. O artista precisa de liberdade e as ideologias quer sejam de tendências de direita ou esquerda funcionam como grilhões de ferro presos nas suas pernas. 

Hoje vou falar do desenhista, pintor e escultor Floriano Teixeira um dos mais livres e criativos que aqui viveu e trabalhou por longos anos em seu atelier na Rua Ilhéus, no bairro do Rio Vermelho. Fazia questão de dizer que não pertencia a nenhuma das escolas da pintura. Ele pintava suas belas mulatas com uma leveza e graça poética que ao apreciar uma tela do artista você fica em estado de graça
Foto 1- Gabriela. Foto 2- Dona Flor. 
Foto 3- Tieta . Foto 4 - Mulheres no Banho.
com a maestria do seu traço e o colorido que nos 
revela este clima tropical em que vivemos. As famosas janelas que são elementos importantes numa fase de sua pintura onde surgem furtivamente mulheres nuas, casais fazendo sexo e às vezes até brigando nos remete aos clássicos da pintura que sempre introduziam algum personagem ou objeto para serem decifrados ou reconhecidos. Floriano Teixeira  trabalhava freneticamente pintando muitas vezes durante os três turnos para sustentar uma família numerosa de sete filhos e netos. Pintar para ele além de ser uma necessidade visceral fruto do seu talento era também uma questão de sobrevivência, e foi assim até o seu falecimento.   Contou sua filha Silvana Teixeira que ele sentiu uma forte dor de cabeça, tomou alguns remédios e a dor não passava. Ela deu algumas massagens no pescoço e nada da dor passar. Foi aí que ele decidiu ir para o Hospital Santa Izabel, em Salvador, e lá constataram que tinha tido um AVC. Apesar dos procedimentos feitos pelos médicos, infelizmente ele veio a falecer. Ele faleceu em vinte e um de julho de 2000 aos setenta e sete anos de idade.

                                                             QUEM ERA

Tríptico da Fundação de São Luís , de 1972.
O artista Floriano Araújo Teixeira é natural da cidade de Caiapó no estado do Maranhão, onde nasceu em oito de março de 1923 e saiu de lá ainda jovem. O município até hoje apresenta um baixo Índice de Desenvolvimento Humano-IDH do país. Fica localizado na região da Baixada, conhecida por sua história ligada à evangelização indígena e colonização, sendo seu nome de origem tupi-guarani, que significa "fruto maduro" ou "fruto dourado. No último Censo em 2010 tinha cerca de dez mil habitantes. Imaginem como era atrasada quando Floriano Teixeira saiu de lá e vai para São Luís, capital do Maranhão.
Realizou seus estudos no Grupo Escolar Sotero dos Reis, em São Luís, depois no Liceu Maranhense, quando em 1935 teve suas primeiras aulas de desenho com o professor Rubens Damasceno. Faz algumas aquarelas, caricaturas e histórias em quadrinhos. Nos anos 40 foi introduzido por J. Figueiredo no ambiente artístico de São Luís quando estuda e documenta tipos populares e cenas do cotidiano da velha capital maranhense. Conhece a obra de El Grego e ficava impressionado com o alongamento das figuras do mestre. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido como El Greco (1541-1614) foi um pintor, escultor e arquiteto grego que desenvolveu a maior parte da sua carreira na Espanha
Em finais de 1941 Floriano Teixeira recebe o I Prêmio no Salão de Dezembro, provocando sua decisão de ser um pintor profissional. No ano de 1948 foi encarregado de fazer o levantamento e catalogação das gravuras, desenhos, e pinturas da coleção de Arthur Azevedo, quando tem contato direto com obras de  Honoré-Victorien Daumier,(1808-1879)
Obra O Banho e vemos a janela com um casal
na sua intimidade
.

caricaturista, chargista, pintor e ilustrador ;  
Charles Garnier (1825-1898) foi um arquiteto  e Jean-François Millet ( 1814-1875) pintor realista e um dos fundadores da Escola de Barbizon na França rural. É conhecido como precursor do realismo, pelas  representações de trabalhadores.Os três eram franceses.
Dois anos depois já está no Ceará e em 1952 funda com o pintor  Antônio Bandeira o Grupo Independência. Foi no Ceará que conheceu d. Alice com quem teve sete filhos. Foi o primeiro Diretor do Museu de Arte Moderna do Ceará. Quando participava de uma exposição de artistas nordestinos em Salvador recebeu o convite do grande escritor Jorge Amado para vir morar na Bahia, e assim em 1965 decide viver aqui até a sua morte. Fez doze capas da Coleção de Obras Completas de Graciliano Ramos, os desenhos dos romances Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, Milagre dos Pássaros e o Menino Grapiúna, todos de Jorge Amado, seu grande amigo. Também, ilustrou a obra Maria Duzá, de Lindolfo Rocha.

Floriano e Alice que conheceu em Fortaleza,  
num momento de descontração na
casa do amigo o escritor Jorge Amado
.

Este maranhense que brincava dizendo ter nascido “no condado de Cajapió ", mas adotou a Bahia como sua segunda terra deixou um legado com seu traço inconfundível e delicado. Tenho diante de mim, no meu escritório, duas obras de Floriano Teixeira. Numa delas vemos uma bela mulata com suas vestes amarelas deixando aparecer sutilmente seus predicados naturais, observada por um lindo pássaro chamado de galo de campina ou cardeal e, ao fundo um casal, aos carinhos. A outra, é uma aquarela  uma criancinha acariciando sua cabra. Estas duas obras mostram um pouco da criatividade e da singeleza deste artista que soube conquistar a Bahia   pintando a alma do povo baiano e hoje sua arte é apreciada por todo o Brasil. 
Ao completar setenta anos ele escreveu em novembro de 1983 num catálogo da exposição comemorativa da data: SETENTA ANOSSetenta anos passam tão rápidos que não dá para se notar. Quando vivemos como gostamos de viver o tempo não conta porque ele simplesmente não existe. Calendários e relógios são instrumentos de tortura e destruição. Sem eles o ar que respiramos é mais leve e
Quatro desenhos que hoje pertencem
a sua filha Silvana.
puro, o sonho é mais colorido e o poder da criação é bem maior. Sem os delatores do tempo podemos fazer cultura e arte sem pressa. Setenta anos passam tão de mansinho que não dei por isso .1923 foi ontem e foi ontem também 1950 quando desembarquei e conquistei o Ceará. Enquanto descansava da viagem, casei-me com uma nativa da terra conquistada e no ato fiz seis filhos saudáveis. Foi tudo tão rápido que o Diabo nem chegou a piscar e eu já estava chegando nesse mesmo ano da graça de 1964 na Bahia (veja como o tempo, não conta) para fazer a minha primeira exposição individual no MAMB a convite da Diretora na Lina Bo Bardi. Como o tempo nada significa e eu não tenho pressa fui ficando por aqui. Gostei do jeitinho faceiro e sensual desta terra que também gostou de mim. Nos apaixonamos e nos demos tão bem que aqui fiz mais um filho. Hoje a Bahia e eu somos amantes.” Floriano Teixeira

                                                           DEPOIMENTOS

Silvana Teixeira
Silvana Teixeira - Ninguém melhor para falar do artista Floriano Teixeira do que sua filha Silvana Teixeira que permaneceu ao lado do pai até a sua morte. Ela lembrou que sua casa vivia cheia de filhos e netos do artista e que ele não se queixava disto, ao contrário adorava ver as crianças brincando. Quando indaguei como era a rotina do pai. Silvana lembrou que ele acordava cedo e tomava o seu café e ia para o atelier trabalhar. Permanecia o dia inteiro defronte ao cavalete, levantava para as refeições e voltava ao atelier. Muitas vezes pintava durante a noite. Perguntada qual a preferência dos clientes sobre as obras do pai ela disse que grande parte queria obras que tivessem as famosas janelas onde ele colocava personagens como mulheres mudando a roupa, nuas e às vezes até fazendo amor. Cada obra desta é um quadro dentro de outro quadro e por serem minúsculos os personagens da janela demandava tempo e muita atenção.

JORGE AMADO – “Em Floriano Teixeira, o artista consciente e sutil, de sensibilidade incomum, funde-se no homem profundo e generoso, no brasileiro da mais alta qualidade, grande artista. Artista e homem, um ser único, humaníssimo, e que grande artista!  Entre os mestres do desenho brasileiro, Floriano Teixeira se coloca em lugar de destaque, um dos maiores entre os maiores.”

Carybé  com Floriano.
CARYBÉ"Algo de monge medieval, ou de persa, anda por dentro de Floriano nos óleos, em geral de grandes planos e pinceladas largas; de repente, numa janela, numa porta ou num portaló vê-se uma cena detalhadíssima, verdadeira miniatura, contando vida do povo, sempre com uma carga de poesia, uma alegria de cores e outra alegria: a de inventar meios de expressão, de dar mais e sempre mais, o que o leva a pesquisar constantemente".


Marcos fala do artista.
 MARCOS CURI – MCR GALERIA - Disse o galerista Marco Curi, da MCR, que ao abrir a galeria em 1989 focou nos artistas modernos, e entre os artistas modernos da Bahia identificamos que tínhamos maior aproximação e admiração por Floriano Teixeira. É considerado um artista baiano por sua vivência aqui e também por saber interpretar a alma dos baianos. Foi a partir daí começamos a adquirir as obras do artista. Na década de 90 quando ele ainda estava em produção de quinze em quinze dias ia ao atelier dele para ver as novas criações. Assim nossa amizade foi se consolidando e ia acompanhando a sua produção. Ele tinha uma característica de pintar seus quadros de forma metódica e lenta, sempre muito preocupado com a qualidade e  permaneceu assim até a sua morte. Ele tinha um nível cultural alto e interpretava os romances de Jorge Amado como ninguém. Para ilustrar a capa de um livro por exemplo, Floriano fazia questão de ler antes de iniciar suas ilustrações. Tem uma série de personagens femininas que Floriano Teixeira pintou inspirado nas mulheres dos livros de Jorge Amado. Realizamos na galeria três exposições artista. Devo ter no acervo meu, de meu filho e da galeria umas quarenta obras de sua autoria, talvez seja a maior coleção de suas obras  da Bahia. Porém, tem um colecionador baiano que reside no sul do país que deve ter umas setenta obras, e deve ser o maior colecionador.

O t exto ao lado foi desta exposição
realizada na Galeria Acbeu,1997.
 JOHN DWEIR - “Para mim, o mundo de Floriano é um mundo em formação, um mundo onde não há um, porém muitos centros. É um mundo onde não há só a mão de Deus ou de um pintor ou de um autor. É um contato com outros mundos, em estado mundo em perene  gestação, que se desdobra sobre si mesmo em um esforço de criação. Assim, uma janela num quadro de Floriano pode estar em comunicação com o quadro onde está colocada ou com um outro quadro que ele pintou há anos ou que vai pintar no futuro. A realidade de Floriano é a mesma que se encontra em Cem Anos de Solidão de Garcia Márquez, onde o narrador se esforça para contar tudo, admitindo, porém que, como não pode caber tudo dentro das páginas da capa do livro, também a moldura de um quadro não é suficiente para conter o mundo do pintor. Assim é que Floriano chama seu leitor, ou seja, seu espectador, para que entre em seu mundo e ajude a recriá-lo através de uma leitura múltipla de sua realidade. No processo, cria-se um mundo nas telas de Floriano de uma atração incrivelmente forte, com milagre da multiplicação de seus textos visuais." Escreveu John P. Dwyer, diplomata americano e um apreciador da arte que viveu aqui e escreveu no catálogo da mostra que o artista fez em 1997, na Galeria ACBEU, no Corredor da Vitória.

A poetisa Myriam Fraga.
MYRIAM FRAGA - "Um Inquieto Navegante - Floriano é um pintor da figura. Andarilho contumaz, na vida e na obra, passeou por várias escolas, percorreu caminhos que foram do cubismo nos quadrinhos, lustrações, caricatura, muralismo, tudo passou pelo cadinho de seu talento sempre aberto a novos experimentos. Agora parece que finalmente apaziguou. Ou pelo menos ancorou por algum tempo (quanto, só Deus sabe) nas águas calmas de um porto não sonhado, mas construído com a tenacidade do marinheiro que aprendeu, com a vida e com a arte, que para os inquietos navegantes não há porto porque " porto é navegar". Um homem viageiro, Floriano. Um índio andejo. Um cavaleiro de muitas cruzadas. E de múltiplas lutas. As cicatrizes são várias. Os gilvazes. E as lembranças também, os "souvenirs" da viagem. Desta longa peregrinação que ele pacientemente iniciou, criança ainda, nos longes de Cajapió."

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

CRISTINA DAMASCENO E A FOTOGRAFIA INSERIDA NO MUNDO DA ARTE

A professora Cristina Damasceno durante
 nossa conversa na EBA.
A
fotógrafa e professora universitária baiana Telma Cristina Damasceno Silva Fath, que assina Cristina Damasceno , tem uma trajetória profissional que merece ser compartilhada. Foi minha aluna no Curso de Comunicação Social, da UFBA e do professor de Fotografia Oldemar Vitor, que na época trabalhava no jornal a Tribuna da Bahia, e veio a falecer em 2008. Foi ele quem a despertou para o mundo da Fotografia. Ainda jovem se destacou fazendo foto jornalismo, especialmente no setor cultural . Concluiu em 1986 o curso de 
Comunicação Social pela Universidade Federal da Bahia,  e atualmente é chefe do Departamento de Expressão Gráfica e Tridimensional da Escola de Belas Artes.  Possui mestrado e doutorado em Artes Visuais, pela Universidade Federal da Bahia e  especialização em Fotografia Técnica pela Staatliche Fachschule für Optik und Fototechnik Berlin (1993). Está desenvolvendo pesquisa sobre a História da Fotografia Artística na Bahia e é colunista no jornal A Tarde. As fotos que publico  abaixo foram feitas por Cristina Damasceno e publicadas em jornais e revistas de Berlim, na Alemanha.
Como todo jovem que tem suas inquietações e projetos logo depois de se graduar em Comunicação  viajou em 1987 para Inglaterra com o objetivo de estudar Inglês. Permaneceu naquele país durante um ano e meio . Lá tomou conhecimento que poderia ir para Israel morar num kibutz na qualidade de voluntária, mesmo não tendo descendência judaica. Foi assim que em 1988 partiu para Israel com destino à cidade de Éliat. Lá trabalhou numa fábrica de cordas de instrumentos musicais, colhendo melões e no processamento de tâmaras. A cidade de Éliat tem cerca de uns 49  mil habitantes fica
Cristina captou este momento onde os
bailarinos dançam com muita  plasticidade.
localizada mais ao sul de Israel. É um importante balneário turístico no extremo do deserto do Neguev, às margens do Mar Vermelho (Golfo de Aqaba), conhecida por suas praias, recifes de coral para mergulho, e perto da Jordânia. Nesta sua permanência em Israel conheceu uma pessoa com quem casou e decidiram ir morar em Berlim, que é uma das metrópoles onde a arte pulsa durante vinte e quatro horas. De 1993 a 2000, trabalhou em Berlim na agência de fotografia Wende. Permaneceu por lá mais de uma década quando o relacionamento terminou Telma Damasceno resolveu voltar ao Brasil. Por onde passou sempre esteve com sua máquina fotográfica nas mãos e foi   registrando o que lhe interessava.  Terminou se especializando em fotografar espetáculos culturais como a dança, cenas de teatro, shows musicais e exposições plásticas.

"Comovido até às  Lágrimas" - Peter Matic
rodeado por seus entes queridos
 Ao retornar a Salvador  foi fazer o Curso de Mestrado da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia e sua tese foi A Fotografia Artística na Bahia e sua Inserção nos Salões Oficiais de ArteNas suas pesquisas  descobriu que “um dos primeiros fotógrafos baianos foi José Antônio da Cunha Couto, que possuía uma Galeria de Pintura e Fotografia, em 1873. 
Já o  estúdio “Photographia Artística”, no início do século XX, pertenceu aos professores do Liceu de Artes e Ofícios e da Escola de Belas Artes: Francisco Terêncio Vieira de Campos, Antônio Olavo Baptista e Oséas Santos. Eles utilizaram a fotografia como ferramenta de auxílio na realização de suas encomendas.” Destacou “ a entrada da fotografia no museu através da foto clubismo na Bahia, onde suas ações possibilitaram a organização dos primeiros salões de arte fotográfica no estado; como também, a Segunda Bienal de Artes da Bahia. Os Salões Nacionais de Arte Fotográfica realizados na Escola de Belas Artes, na década de 1990 foram de fundamental importância, no sentido de trazer para o estado o intercâmbio da produção fotográfica nacional. Assim como as Mostras de Fotografia Contemporânea da Bahia promoveram a fotografia local. A pesquisa revela que, durante 1991 a 2006, a Bienal do Recôncavo apresentou em relação ao Salão da Bahia um maior panorama acerca das tendências da produção artística na fotografia baiana.”

 " Linguagem Corporal que Faz Você Querer
Desviar o Olhar "- o Berliner Ensemble numa
 tentativa de retratar uma fantasia masculina
.
 Logo depois visando sua ascensão no magistério universitário fez o Doutorado, na Escola de Belas Artes, da UFBA, e sua tese foi “O Processo de Legitimação da Fotografia no Campo da Arte e sua Repercussão na Bahia”. Nas suas pesquisas Cristina Damasceno descobriu o caminho percorrido pelos baianos amantes da fotografia 
e escreveu: 
Professores e estudantes, oriundos da Academia de Belas Artes da Bahia, incluíram a fotografia dentre seus serviços artísticos. Nos anos de 1940, a atuação do Foto Cine Clube Bandeirante foi fundamental para a inserção da fotografia nos espaços legitimadores da arte, exercendo, também, influência no cenário foto clubista brasileiro. Na Bahia, nos anos de 1960, a fotografia adentrou o Museu de Arte Moderna e foi integrada em exposições de caráter nacional, como: 1° Salão Nacional de Arte Fotográfica da Bahia; Sala Especial de Fotografia, na II Bienal de Artes Plásticas da Bahia; II Salão Bahiano da Fotografia Contemporânea. Seguindo as tendências internacionais de renovação da arte moderna, a fotografia passou a ser assimilada de forma híbrida pelos artistas baianos: Lênio Braga, Juarez Paraiso, Jamison Pedra e Silvio Robatto, no projeto ambiental do grupo Etsedron, dentre outros." 
                                                        
                                                  TRAJETÓRIA
Nasceu em Salvador em vinte e dois de janeiro de 1974 e seu nome completo é Telma Cristina Damasceno Silva Fath. O seu pai Felizardo Alves da Silva era eletricista da Coelba, e sua mãe d. Creuza Damasceno da Silva que é professora de História, já aposentada. Fez o primário na Escola Moderna, que funcionava no bairro da Graça, em Salvador,  o ginásio no  Ginásio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e o segundo grau no Colégio Salesiano de Salvador, que fica no bairro de Nazaré. Depois fez o vestibular para Comunicação Social, na Universidade Federal da Bahia e trabalhou de free lancer para o Jornal A Tarde fotografando eventos culturais.
Foto expressiva de um espetáculo de
dança em Berlim.
Viajou para Londres, na  Inglaterra em 1987 fez alguns cursos de fotografia inclusive tinha laboratório com câmara escura e se interessou pela parte técnica da fotografia. Seu objetivo principal era estudar a língua inglesa. Lembrou que nos bairros de Londres existiam locais onde as pessoas que gostavam de fotografia se reuniam e tinha todo equipamento disponível para revelar os filmes . Já os produtos químicos usados na revelação eram adquiridos pelos alunos.  Ela frequentou esses locais, e assim seu aprendizado foi se expandindo. Permaneceu por cerca de um ano e meio quando tomou conhecimento que havia um programa de voluntariado para Israel. Foi assim que terminou indo morar num kibutz e lá conheceu  um jovem alemão, que trabalhava com  editoração de livros e outras publicações. Se relacionaram e foram residir em Berlim. 

"Os Rapazes de Syracuse"- Os
dois calouros - Tilman von
Blomberg e Torsten Bjorn 
Aí a Cristina Damasceno interrompe e diz – “Eu assisti a queda do Muro de Berlim!” Realmente merece ser citado porque foi um marco importante na História da civilização ocidental. Ocorreu em nove de novembro de 1989, reunificou a Alemanha e  marcou a queda Cortina de Ferro e o início da democratização na Europa Oriental. 
Também fez curso de especialização em Ótica e Fototécnica numa escola  ligada atualmente a Universidade Livre de Berlim. Quando esteve por lá era  patrocinada pela Agfa - Gevaert que é uma multinacional belga líder em tecnologias de imagens principalmente nos setores de impressão gráfica oferecendo  produtos analógicos e digitais. Tem inclusive fábrica no Brasil. Aprendeu a revelar filmes em PB e colorido, comparava os filmes com os reveladores de vários fabricantes e fazia os gráficos para avaliar, aprendeu a fotografar pelo microscópio e teve acesso a câmeras especiais.  Quando saiu foi trabalhar no laboratório da agência Wende especializada em fotografias de esportes. Mas, a Cristina Damasceno não se identificava com este trabalho ligado às atividades esportivas. Isto aconteceu em  meados de 90 quando começaram a surgir as primeiras câmeras digitais . Saiu e foi trabalhar em uma associação ligada aos museus de Brandemburgo que tinha como objetivo ensinar Fotografia a adolescentes. Os administradores  queriam que entre os instrutores estivessem alguns estrangeiros, porque assim os adolescentes teriam contato com  estrangeiros e iam perdendo o preconceito. O trabalho também era de laboratório.  Paralelamente,  começou a fotografar peças de teatro, de dança e Ópera. Se cadastrou na maioria dos teatros, e assim recebia com  antecedência  a programação das peças e óperas que seriam apresentadas. É costume por lá que dois dias antes da estreia os diretores  fazem  um ensaio geral para a
"O Estupro" - Martin Reinke (de óculos)
sobre Bruno Winzen.
imprensa. "A gente fotografava e levava para os jornais que escolhiam as melhores fotos e publicavam. Inicialmente eles não se importavam com minhas  fotos." Mas, ela insistiu, e assim devagar alguns jornais começaram a publicar e isto veio a facilitar o seu trabalho a exemplo do Der Spiegel e a revista cultural Zitty. Disse que a crítica tem um papel importante na Alemanha , e se a peça não receber boa avaliação dos críticos  não se sustenta e pode até sair de programação. Eles trabalham com free lancer, não tinham fotógrafos fixos, os editores compram as imagens de profissionais diversos. Mergulhou culturalmente e teve a  oportunidade de fotografar uma peça de dança coreografada por Mikhail Baryshnikov , o famoso dançarino russo.

Quando voltou em 2001 para Salvador trabalhou como fotógrafa free lancer na Gazeta Mercantil e também como assessora de imprensa. Como tinha esta experiência na Fotografia foi convidada a ensinar na Faculdade da Cidade, no curso de jornalismo, em Salvador.  Foi neste período que passou a estudar e pesquisar e viu que quase tudo que imaginava fazer  já havia sido feito por grandes profissionais no decorrer do tempo. Então  passou a refletir quanto difícil seria tentar fazer algo diferente, e  optou por estudar com afinco a História da Fotografia. Em seguida  se  matriculou no Mestrado e depois no Doutorado na EBA  e continuou pesquisando os antigos fotógrafos baianos . Durante suas pesquisas descobriu que foi Lina Bo Bardi que reuniu pela primeira vez na Bahia fotografias e levou para o museu alçando a  fotografia como arte. 

Ao final da nossa conversa Cristina Damasceno  disse que "no meu  processo de pesquisa  tenho uma coisa que quero registrar. As colunas que você escreveu desde a década de 70 encontrei muitas informações que usei nas minhas dissertações do Mestrado e do Doutorado. Isto aconteceu em minhas idas para a Biblioteca Central pesquisar, e ao manusear os jornais encontrei muitas informações sobre a fotografia como arte em suas colunas,” .



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