Translate

sábado, 9 de novembro de 2024

ALESSANDRO DIVIDE SEU TALENTO ENTRE A PINTURA E O DESIGN TÊXTIL

Alessandro César em Salvador.
O artista baiano Alessandro César reside atualmente em Roma, na Itália, antes morou na Alemanha onde realizou várias exposições. Mas, sua trajetória como artista começou aqui em Salvador com uma carreira promissora como designer têxtil. Desde jovem que ele se destacava com seus desenhos no curso primário. E ao terminar o ginásio no Colégio da Polícia Militar foi estudar na Escola Técnica Federal e se formou em Química. Durante o curso os alunos que não queriam fazer Educação Física podiam optar pelas aulas de arte, música ou aprender a tocar um instrumento musical para a integrar a banda da instituição. Foi quando conheceu a professora Célia Prata “que abriu o mundo da arte para mim. Ela me ensinou várias técnicas, me levava para ver exposições, conhecer artistas nos seus ateliês”, disse Alessandro. Quando foi fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes em 1989 escolheu Licenciatura em Desenho e Plástica. Mas, se entrosou muito rapidamente com os colegas e professores  passando a escolher várias matérias eletivas como pintura, desenho, serigrafia, litografia, gravura em metal. Mesmo não sendo aluno formal das disciplinas ministradas pelas professoras de Pintura Maria Adair e de Composição Decorativa Carmem Carvalho ele costumava frequentar suas aulas. Foi aí que começou a se interessar de como criar uma composição para tecidos. Disse que tem duas histórias pessoais: como artista plástico e designer têxtil. Carmem Carvalho lhe ensinou a base e passou a fazer estampa corrida, antes mesmo de sair da Escola de Belas Artes foi trabalhar numa empresa que ficava no bairro do Rio Vermelho, chamada Tuc Estamparia fazendo desenhos para estamparia de camisetas. Sempre teve vontade de trabalhar para se sustentar e esta empresa fazia as impressões em serigrafia e foi uma das primeiras a produzir   camisetas personalizadas para empresas e lojas de confecções em Salvador. Como a proprietária tinha um contato com o pessoal da Rede Globo de Televisão as camisetas desenhadas por ele passaram a aparecer em programas, novelas e também produziam camisetas de propaganda de empresas. Vendiam muito naquela época.

As  obras  das fotos 1,2 e 3 - Sem Títulos. 
A Foto 4 - obra Renúncia e Satisfação.


Depois o artista recebeu uma boa proposta dos empresários Paulo Grimaldi e Carlos José donos da ArtCor e foi trabalhar  fazendo em média  até três desenhos por tarde. Um dos sócios o Carlos José viajava com certa frequência para outras capitais, especialmente para São Paulo e Rio de Janeiro de onde  sempre trazia novidades na área do design têxtil a exemplo de combinação de cores, efeitos especiais, novas tintas. Passaram a fazer camisetas para o empresário Klaus Peters, que tinha um Resort na Praia do Forte e transformou o local num dos pontos do ecoturismo mais conhecidos no Brasil e até mesmo no exterior. Fez muitos desenhos em camisetas com as tartarugas marinhas e criou composições diferenciadas utilizando a imagem da tartaruga e outros elementos ligados ao mar, que até hoje são muito apreciadas pelos turistas que visitam o local. Vendia tanto as camisetas que até passaram o copiar os desenhos feitos por ele.

Desfile e objetos  com  desenhos
de pinturas corporais indígenas.
Depois de algum tempo conheceu a empresária Leda, dona da estamparia Litoral Norte e depois de uma conversa ele fez uns dez desenhos e apresentou. Eram desenhos diferentes daqueles que fazia para a ArtCor e assim passou também a criar para esta empresa num estilo diferenciado. As camisetas também vendiam muito e surgiram até algumas cópias feitas por pessoas e empresas menores. Antes ela só fazia as camisetas com a tartaruga que era quase a mesma imagem de Klaus Peters. Ao lado de sua atividade como designer têxtil que lhe garantia uma sobrevivência digna Alessandro César continuava pintando a óleo sobre tela fazendo sua arte abstrata com belas composições que eram adquiridas por colecionadores e elogiadas pelos críticos de arte. Em seguida passou a pintar em acrílica sobre tela, mas o seu lado de empreendedor continuava ali latente. Com o dinheiro ganho construiu uma ampla casa em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. O seu espírito de empreendedor que aflorou e resolveu criar sua própria estamparia. Comprou máquinas e outros materiais montou sua estamparia num dos cômodos da casa e passou a produzir. Lembra que fazia também camisetas personalizadas e vendia nas lojas de confecções a exemplo da Lido, na Rua Chile, dentre outras. Levou uns quinze anos nesta atividade.

Em 1996 fez uma exposição de pinturas abstratas na Galeria Abaporu, de Lígia Aguiar, no Pelourinho.  Foi convidado para assumir a Direção de Arte do Projeto Axé.  O projeto tinha dois estilistas italianos que terminaram se desentendendo, e Alessandro assumiu o cargo de Diretor de Arte. Neste período promoveu alguns desfiles de moda com seus desenhos inspirados nas pinturas corporais dos povos originários, tendo como modelos conhecidos cantores, cantoras e outras personalidades do jeito set baiano. O Projeto Axé criado em 1º de junho de 1990 por Cesare de Florio La Rocca, advogado e educador de origem italiana. Ele era natural de Florença morou trinta anos na Bahia e morreu aos 83 anos no dia 15 de setembro de 2021.

                                                       QUEM É

Fotos atuais de Alessandro César e
quando jovem na Alemanha.
O Alessandro César Pereira dos Santos nasceu em 9 de julho de 1962 em Salvador. É filho de Deraldo Rodrigues dos Santos e Irene Pereira dos Santos e passou parte de sua infância no bairro da Boa Viagem onde estudou o curso primário numa escola particular. Depois foi estudar no ginásio no Colégio da Polícia Militar, no bairro dos Dendezeiros. Em seguida seus pais mudaram para o bairro do Imbui, que naquela época estava sendo ocupado por novas edificações. Ele lembra da dificuldade de tomar transporte e que a Avenida Paralela era muito pouco transitada. Enquanto isto, seu pai continuava ensinando Geografia no Colégio Militar e sua mãe Corte e Costura e costurando para suas clientes. Revelou que sua educação foi muito rígida e mesmo no bairro da Boa Viagem quase não descia para brincar na rua como muitas crianças costumavam fazer. Vivia a maior parte do tempo estudando e seu pai ao sair passava dever para ele e seus três irmãos e quando retornava das aulas que ministrava no Colégio Militar costumava tomar os deveres dos filhos. Como estudava em casa ao chegar na escola formal teve facilidade e pulou até algumas séries escolares. No primeiro ano de alfabetização quando tinha seis ou sete anos já sabia escrever e fazer contas. Foi nesta época que começou os primeiros desenhos e uma das clientes de sua mãe tinha um filho que estudava pintura com uma professora chamada Marilza no bairro do Tororó. Sua mãe se interessou e o levou para 
Quatro croquis dos sapatos da coleção
do austríaco Jo Gehringer.
estudar com esta professora que era uma autodidata. Aprendeu com ela   as técnicas de carvão e crayon e passou a criar seus próprios desenhos. "Ela me ensinou a usar o carvão e o crayon, fazer o sombreado com o esfuminho. “O esfuminho é um tubo de papel prensado que serve para suavizar os traços de grafite, carvão, crayon ou lápis de cor em desenhos. Ele é usado para dar um efeito esfumado ao acabamento da obra, principalmente por desenhistas para esfumar retratos ou caricaturas.” Notou que a professora não gostou quando apresentou desenhos autorais porque o método que ela ensinava era de copiar paisagens e casinhas de campo. Não demorou muito estudando com essa professora. 

Em 1993 um primo que mora na Áustria veio  conhecer Salvador  juntamente com um seu amigo alemão Heinrich Fischer. O Alessandro deu uma obra de presente a ele  e passaram a se  corresponder. Pintou várias obras e enviou as fotos para o Heinrich que passou a mostrar seus trabalhos para galeristas e colecionadores. Alguns gostavam outros faziam alguma observação. O seu

Obra abstrata em acrílica sobre tela.
amigo sugeriu que fosse para Alemanha. Passou a pintar várias obras e quando tinha uma boa quantidade decidiu viajar. Colocou num tubo grande de dois metros de pvc várias obras. Coincidiu que quando chegou tinha ocorrido um atentado terrorista num abrigo de refugiados políticos na cidade de Rosenheim, disse Alessandro. Esta cidade da Alemanha fica localizada na região administrativa da Alta Baviera. E por isto enfrentou algumas dificuldades para fazer sua primeira exposição na Alemanha. Porém, seu amigo continuava insistindo e entrou em contato com o prefeito da Cidade de Rosenheim que enxergou uma possibilidade de mostrar que a sua cidade recebia bem os imigrantes e assim resolveu fazer a exposição no foyer do teatro que pertencia a prefeitura juntamente com a Deutsch-Braysilianichen Gesellschaft (Sociedade-Teuto Brasileira) dirigida por Úrsula Reich. Após fazer a exposição em Rosenheim fez outras quatro em cidades e datas diferentes tudo financiado por esta instituição que ajuda e divulga a cultura dos brasileiros residentes na Alemanha. Acontece que o visto do seu passaporte venceu e teve que viajar até a cidade de Munich para revalidar o documento no consulado brasileiro. Quando apresentou suas obras e falou do seu processo criativo o cônsul Antônio Amaral Sampaio mostrou-se interessado e decidiu lhe apoiar, inclusive chamou um canal de televisão que fez uma reportagem que foi ao ar no horário nobre. Assim começava a ser conhecido na Alemanha. Quando estava fazendo uma exposição no Parlamento, na cidade de Bonn, foi apresentado pelo cônsul a um austríaco representante dos sapatos Gabor chamado Jo Gehringer, que é também colecionador de sapatos antigos, e fez uma encomenda de várias obras reproduzindo esses sapatos. Ele mora na Áustria, e foi pra lá conhecer a sua coleção e fazer pinturas dos sapatos. Recebeu a permissão de vender suas obras na Alemanha e aí trabalhou com mais tranquilidade. O tempo foi passando e já estava no terceiro visto de turista e teve depois de três anos deixar a Alemanha.

Capa da reportagem de sua
entrevista à Callaloo.
Em 1996 deu uma entrevista em Salvador para a revista afro-americana Callaloo, ligada a Johns Hopkins University e num dos trechos Alessandro César disse que sua estadia na Alemanha levou a abandonar alguns valores substituindo por outros, e que “essas mudanças afetaram as minhas posições sociais e políticas, produzindo em mim uma nova visão das coisas. No mundo atual, onde tudo acontece com grande velocidade, o acesso à informação é praticamente instantâneo. A arte relata e registra os momentos pelos quais a humanidade passa. O artista está inserido neste contexto. O artista está, então, engajado no tempo social e político em que vive, e o engajamento se reflete na arte que produz”. A arte pictórica de Alessandro tem uma paleta de tintas e composição de alto nível, e suas obras podem ser expostas em qualquer museu ou galeria de arte importante daqui ou de fora.

Após voltar ao Brasil em 1996 conheceu um italiano que era amigo  dos estilistas Nicola e Augusto também italianos, que estavam em dificuldade de encontrar alguém que fizesse a estamparia com os desenhos dos azulejos portugueses e motivos afro brasileiros que eles criaram. Foi aí que o italiano lhes informou que conhecia um artista baiano que trabalhava muito bem com estamparia e assim o apresentou e Alessandro César foi contratado. Passou a fazer as artes finais , levou a sua técnica de estampa corrida e fizeram um desfile de moda que foi um sucesso. Os estilistas brigaram porque queriam mais autonomia, mas o Cesare Flioro não permitiu e eles foram embora. Assim o Alessandro assumiu a direção de Produção Arte do Projeto Axé. No segundo desfile o Alessandro comandou todo o processo desde a feitura das roupas, o design e o desfile em si. Reformou as lojas e fez uma coleção colocando camisetas e outras peças com motivos das cerâmicas de Maragogipinho.

Veja a  versatilidade do artista na
criação de  composições plásticas.
As lojas do Projeto Axé eram bonitas, as camisetas e outras peças vendiam muito. O Alessandro fez pequenos trabalhos, decorou as lojas com essas obras com os mesmos motivos das camisetas. Diante do sucesso do desfile feito por ele, veio o terceiro desfile que foi organizado juntamente com outra pessoa. Depois vieram as primeiras desavenças e decidiu sair do projeto e abrir sua própria estamparia a Abaporu . Começou a desenvolver a estampa corrida, que é estampar todo o tecido, e não apenas localizada como acontece com as camisetas. Foi buscar a raiz do nome e descobriu que era de origem indígena e foi atraído pela pintura corporal do índio brasileiro. Adaptou para as estamparias que passou a fazer. Trabalhava com desenho das roupas e se saiu bem. Produziu também fazendo estampas corridas pra Lido e Camarim que fazia roupas de linho, dentre outros clientes. Quando criou sua própria estamparia a Abaporu tinha como sócio José Carlos Dias “que foi meu braço direito, trabalhamos juntos desde a Artcor, depois quando fui para o Projeto Axé contratei para trabalhar.  Saímos e montamos a nossa estamparia. Eu cuidava da criação e ele da produção. Tinha um gosto apurado, sabia produzir e combinar cores como ninguém! Conhece bem o meu estilo , interpretava e combinava cores com os desenhos”, informou Alessandro.
Abriu uma loja na Praia do Forte e outra no Morro de São Paulo. Levou quinze anos com esta empresa. Mas, disse que lidar com gente é muito difícil. Diante de problemas com costureiras e funcionários resolveu fechar as lojas. Alugou sua casa e foi para a Itália em 2020 onde está montando seu ateliê na cidade de Taranto ,   que fica na Puglia.cidade de Taranto tem  196 mil habitantes e foi fundada pelos espartanos no século VIII a.C. e se chamava Taras.  Ele conseguiu um amplo espaço e está instalando o seu ateliê, e de lá através da internet e de visitas vai mostrar o seu trabalho. aos italianos e demais europeus.   

EXPOSIÇÕES  E ATIVIDADES PROFISSIONAIS

FORMAÇÃO -1979-1981 Escola Técnica Federal da Bahia, Salvador – Curso de Química; 1983-1989 Universidade Federal da Bahia, Escola de Belas Artes – Licenciatura em Desenho e Plástica.

ATIVIDADES PROFISSIONAIS

Em 1985-1987 - Desenhista e arte-finalista na área da estamparia serigráfica, para Contraste (TUC – Comercio e Representações), Salvador ; 1990-1992 Designer têxtil e arte-finalista na área da estamparia serigráfica, para Artcor, Salvador; 1992-1994-  Período de atividade profissional na Alemanha, na área de artes plásticas e designer de estampas ; 1993 -  Participação no evento Casa Cor Babhia, com exposição de obra ; 1994 Criação de uma coleção de estampas para camisetas, para a firma Crossing, Bad Aibling, Alemanha ; Criação de uma série de trabalhos incluindo pinturas e desenhos, para a firma Dirnd'lind Bua, Attersee, Áustria ; 1995 - Formação da empresa Grifo Comunicação  Visual, Salvador ; 1996-1998 - Professor substituto de Desenho e Serigravura, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia ; Salvador; 1997-2001 -Diretor de produção, designer têxtil e estilista, Projeto Axé, Salvador ; 2003-2014 - Formação e condução da empresa de confecção de vestuário e acessórios Abaporu, com funções de designer de produto e designer têxtil; 2015 - até o Presente designer autônomo, artista visual e fotógrafo.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

Algumas matérias em jornais alemães 
sobre suas exposições.
1991 - Pinturas, Galeria ACBEU - Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, Salvador, BA ; 1993 - Galeria de Arte ECT, Brasília, DF ; Fomitura & stamp; Celebração, Galeria de arte Abaporu, Salvador, BA ; Brasilianische Kunst, Foyer da Stadthalle, Rosenheim, Alemanha ; 1994 - Itinerante Leuchtende Farben – Dramatik Der Formen, Hardtberg - Bonn, Alemanha ; Itinerante Leuchtende Farben – Dramatik  Der Formen, Bad Burlenburg, Alemanha ; Itinerante Leuchtende Farben – Dramatik Der Formen, Weibling-Stuttgart , Alemanha ; 1996- Convite para exposição individual, entre os eventos para celebrar Montevidéu Capital de Cultura Ibero-Americana ; Mundo  Afro, Montevidéu, Uruguai ; Galeria ACBEU, Salvador, BA ; Reencontro, Galeria Arte Concreta, Salvador, BA.

                                               EXPOSIÇÕES COLETIVAS

Obra que expôs na Galeria Abopuru,
 em 1995.
1988 -  Salão de Artes Visuais, Foyer do Teatro Castro Alves, Salvador, BA; 1989 - Museu de Arte de Curitiba, Curitiba, PR; 1989 - Curitibaianos, Galeria Aquarela, Salvador, BA ; ICBA, Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Salvador, BA ; 1990 -  II Salão Baiano de Artes Plásticas, MAM-BA, Salvador, BA; Galeria Homero Massena, Vitória, ES ; 1992 - Interpretando A América I, Galeria ACBEU, Salvador, BA ; Interpretando A América II, Galeria ACBEU, Salvador, BA ; 1995 - Exposição Comemorativa dos 20 anos da ACBEU, Galeria ACBEU, Salvador, BA ; Galeria de Arte Abaporu, Salvador, BA ; 1998 - 5 Baianos + 4 Goianos, Galeria Fundação Jaime Câmera, Goiânia, GO ; Exposição BA-GO/Brasil, Galeria Cañizares - Escola de Belas Artes/UFBA, Salvador, BA ; 2001 - +100 Artistas Plásticos Da Bahia, Museu de Arte Sacra da Bahia, Salvador, BA ; 2004 -  POR 40, Galeria Arte Concreta, Salvador, BA ; 2006 -  Galeria Tina Zappoli, Porto Alegre, RS.

Publicações - 1996 - Alessandro Cesar, Brazilian Artist; Callaloo, A journal of African-American and African Arts and Letters, vol.19, N.3 - Johns Hopkins University Press ;  2001 - Livro +100 Artistas Plásticos da Bahia, 2001 -

Coleções Particulares e Acervos -Brasil, Deustchland, Itália, Áustria, Portugal e USA; Museu Postal Brasileiro, Brasília, DF

Prêmio - Prêmio Universidade Federal da Bahia.

sábado, 2 de novembro de 2024

INVENTIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE NA ARTE DE VINICIUS S/A

Vinícius S/A em seu ateliê nos Perdões.
Estive visitando o ateliê do artista visual Vinicius S/A e fiquei impressionado com os materiais e ferramentas de trabalho que utiliza para criar suas obras contemporâneas. Ao invés de encontrar pincéis, espátulas, cavalete, telas e outros suportes tradicionais o que vi foram vasilhames de vidros com produtos químicos, grandes seringas, tubos de ensaio com petróleo, milhares de bojos de lâmpadas, arames, serras, máquinas de cortar e soldar, ou seja, um misto de laboratório químico e oficina com ferramentas as mais diversas. Vi também a sua grande capacidade inventiva e as soluções que vai buscando a cada dificuldade que se apresenta para realizar a sua obra. Ele cria até ferramentas para executar e facilitar o seu trabalho. Lembra o sexagenário Professor Pardal aquele personagem das histórias em quadrinhos da Disney que inventa máquinas e ferramentas. O Vinicius S/A não vive na cidade de Patópolis, e sim na Rua dos Perdões em pleno centro histórico de Salvador, Bahia. Ele lembrou que desde criança tinha  facilidade em desmontar e criava seus próprios brinquedos utilizando restos de materiais de construção  para fazer entalhes, esculturas e mesmo objetos usados nas apresentações de peças de teatro que promovia com seus amigos do bairro.

Vinícius S/A criando mais uma obra.
 O artista é discursivo e fala com fluidez sobre seu trabalho, dedicação e desenvolvimento com o fazer artístico. Revelou ter escolhido o nome artístico de Vinicius S/A por ter um espírito empreendedor e que isto lhe permite buscar formas de ser remunerado garantindo a continuidade de sua produção artística. Tem conhecimentos de Química, Física e Matemática que aprendeu quando estudou Geofísica, na Universidade Federal da Bahia, durante um ano e meio, e posteriormente abandonou o curso para fazer vestibular para a Escola de Belas Artes e seguir sua carreira de artista visual. Hoje vive  de sua arte procurando novas maneiras de se expressar através de materiais que se depara ou busca. Comercializa suas obras exclusivamente através a Darzé Galeria de Arte. Agora está também envolvido num projeto de pintura, depois de alguns anos dedicado às obras  conceituais. Já fez duas experiências e diz ter encontrado o caminho para prosseguir na sua pesquisa. Ele não está usando as tintas, pincéis ou espátulas que normalmente os artistas utilizam, e sim produtos químicos e obtém as cores e as composições através das reações químicas e físicas desses produtos que ele vai espalhando nos suportes através de grandes seringas. Até o tempo de secagem é diferenciado porque alguns produtos ao serem misturados precisam de um tempo determinado para que a reação se complete.

                                                                       SUAS OBRAS


 Eutubo  da exposição Neopanóptico.
Vemos que o artista não larga mão da racionalidade do cálculo e assim pressupõe o que pode acontecer daquela ideia. Esta racionalidade está também ligada intrinsicamente à sua habilidade artesanal que exige muita paciência e disposição. O que resulta é uma obra contemporânea conceitual impregnada de beleza e poesia. Em 2019 apresentou na Caixa Cultural em São Paulo a sua exposição intitulada de Neopanóptico que é um objeto onde o espectador vê e é visto de vários ângulos ao se apresentar através dessas imagens em rede. Trata-se de um objeto que faz a multiplicação da imagem numa reflexão sobre uso da tecnologia e materiais cotidianos pelo homem contemporâneo. Este termo panóptico remonta ao século XVIII e pode ser visto nos prédios arredondados que hoje estão sendo erguidos nas cidades, a exemplo de um hospital construído recentemente aqui em Salvador. O princípio é que as pessoas são observadas por outras ou outro sem perceberem. Dizem alguns estudiosos que o panoptismo está vindo forte na sociedade contemporânea.
A instalação Lágrimas de São Pedro tem
15  mil lâmpadas e pesa 2 toneladas.
Muitos baianos e turistas já viram a exuberante instalação Lágrimas de São Pedro –
Acalento ao Sertão Nordestino que está na Galeria Mercado, localizada no subsolo do prédio do Mercado Modelo, na Cidade Baixa, em Salvador, Bahia e que vem provocando reações as mais diversas nos visitantes por seu impacto visual. Esta obra foi apresentada inicialmente em 2005, já percorreu algumas capitais e até mesmo cidades no exterior, porém agora foi ampliada e conta com 15 mil lâmpadas. Foi um trabalho hercúleo a sua execução envolveu mais de sessenta pessoas durante quatro meses. Devido a proximidade do mar e por estar no subsolo do antigo prédio da Alfandega, hoje o Mercado Modelo, ele teve de tomar algumas medidas como substituir a água das lâmpadas por vaselina líquida visando maior durabilidade. As obras de Vinicius S/A têm uma característica é que são também muito artesanais basta dizer que a obra Lágrimas de São Pedro  composta de 15 mil lâmpadas e cada uma passou por cerca de vinte processos até ficar pronta. A ideia surgiu de suas experiências vividas e também de memórias da infância no sertão, onde percebeu a importância da chuva para o nordestino. Viu também que aqui na cidade grande as chuvas são vistas por muita gente como incômodo pelos alagamentos , desabamentose outros transtornos que ocorrem nos períodos chuvosos devido a ocupação desordenada.

A Moita é um espaço privado onde a
 liberdade é exercida em toda
a sua plenitude.
É de sua autoria o objeto móvel que aparece durante o verão nas festas populares e também no Carnaval chamado de A Moita. Feito de palhas e galhos de árvore com estrutura de arame e rodas, o que lhe dá mobilidade. Diz Vinicius S/A que é um local onde tudo pode acontecer. Remete à expressão de “ficar na moita”, ou seja, o indivíduo fica escondido observando ou fazendo algo sem ser percebido. Na A Moita do Vinicius S/A você exerce a  liberdade em toda sua plenitude. Trata-se de um espaço privado em meio a multidão, e hoje que estamos vendo nossas liberdades sendo usurpadas precisamos de muitas moitas para continuar vivendo neste país Pindorama.

Projeto Guindastes que fez na Alemanha.
Ao ser selecionado para uma residência artística durante três meses em Frankfurt, na Alemanha, em 2020, realizou juntamente com Jovan Mattos o  projeto Guindastes que previa a instalação de uns guindastes que transportariam mercadorias de um local para os navios ancorados num porto.  A ideia surgiu porque eles estavam hospedados perto de uma área portuária onde haviam muitos containers que eram transportados para navios cargueiros. O projeto previa a instalação de dezenas de guindastes que funcionariam automaticamente durante 24 horas numa clara reflexão sobre a atividade cada vez mais mecanizada que altera a paisagem urbana e a vida das pessoas, inclusive aumentando o desemprego no mundo.

Aí vemos o Alçapão que  colocou com
 o Coletivo Meio-Fio na Av. Contorno.
Fez uma intervenção com a participação de outros artistas chamados de Alçapão no mural criado por Bel Borba das gaivotas voando. Ele e seus colegas instalaram um grande alçapão inspirados nos alçapões   usados no interior para pegar passarinhos. Esta intervenção chamou muito a atenção de quem passava pela Avenida Contorno, quase em frente ao Museu de Arte Moderna da Bahia.


Também gosta de fazer direção de arte e juntamente com Larissa Luz fez um

clipe musical intitulado de Iemanjá é Preta
A Iemanjá É Negra parece andar sobre as 
águas do mar em Caboto,Candeias-Bahia.
. Contou que foi para o sítio que fica na Região Metropolitana de Salvador e no dia combinado levou um grande balaio cheio de objetos relacionados ao orixá, além de um atabaque. Saiu do sítio o dia ainda amanhecendo e rumou para a localidade de Caboto, município de Candeias, na Bahia, e quando viu o mar imaginou a Iemanjá Preta flutuando sobre as águas. Tinha levado um banco de plástico e colocou no mar até ficar coberto pelas águas e a atriz subiu dando a impressão nas filmagens que ela flutuava sobre as águas.

 

                                                      QUEM É

 

Vinicius S/A. trabalhando no ateliê.
O Vinicius S/A nasceu em cinco de setembro de 1983 em Salvador. É filho de José Ronaldo Teixeira de Almeida e de Pedrina Silva Almeida , e foi estudar em escolas primárias do  bairro do Stiep que estava em plena expansão com surgimento de condomínios para os empregados da Petrobras além da construção de vários prédios voltados para a classe média. Com seis anos de idade perdeu a mãe e isto prejudicou um pouco os estudos. Estudou o primário na Escola Montaigne, já fechada. Michel Eyquem de Montaigne, conhecido por Montaigne foi um filósofo renascentista e escritor erudito francês. Estudou em outras escolas até que foi para o Colégio Estadual Thales de Azevedo, no bairro de Costa Azul, onde concluiu o segundo grau.

Seu pai tinha uma bomboniere no bairro da Boca do Rio, em Salvador, Bahia, e desde cedo Vinicius foi trabalhar fazendo serviços externos como por exemplo levando documentos em cartórios, bancos e outras instituições. Lembra que conheceu bem jovem o Comércio da Cidade Baixa, Avenida Sete de Setembro e o centro da cidade do Salvador, e que muitas vezes fazia esses percursos andando. “Eu era uma espécie de office boy da bomboniere de meu pai. Foi um

O artista está fazendo  experiências
com produtos quimícos para suas novas
pinturas.
bom aprendizado e isto me fortaleceu para enfrentar as dificuldades da vida”.
Desde pequeno que tinha esta tendência de mexer com objetos e por isto era chamado pelos colegas de o Rei da Gambiarra e Professor Pardal. Disse que passava muito tempo na rua, mas que sabia escolher bons amigos e foi um deles o hoje músico Lucas Moreira que o incentivou a fazer Artes Plásticas. Quando estava estudando Geofísica declarou que “se sentia como mais um agente que iria contribuir para exploração e o caos no Planeta. Como  nunca fui de estudar muito, porém sempre fui um bom aluno.”

Quando estava estudando Geofísica um dia tomando banho decidiu que “não queria se formar para ficar embarcado numa plataforma da Petrobras durante quinze dias. Decidi que não era isto que buscava pra minha vida. Fiquei inicialmente com a ideia de fazer Antropologia e meu amigo o atual músico Lucas Moreira me disse: “Vini você é um artista, tem que fazer é Artes Plásticas”. Neste ínterim foi visitar uma exposição  no Museu de Arte  da Bahia e se deparou com a obra do artista francês Édouard Manet (1832-1883) e ficou impressionado e impactado com a obra  de uma mulher com um jarro. Assim a arte foi mais forte e terminou fazendo vestibular em 1998 para Licenciatura em Artes Plásticas e Desenho na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Foi aí que se encontrou e hoje é um dos jovens artistas que mais vem se destacando no cenário local e nacional. Durante sua permanência na EBA teve a orientação da professora Celeste Warner que lhe abriu os horizontes levando para exposições e apresentando obras contemporâneas e seus autores. Quanto à escolha de seu nome Vinicius S/A adiantou que herdou este talento de seus antepassados de procurar empreender e que ao escolher ser artista visual queria viver dignamente e financeiramente com o fruto do seu trabalho autoral . Ao chegar na EBA notou que seus professores e colegas tinham muitos sobrenomes europeus e que o seu era muito comum no Brasil. Daí adotou o Vinicius S/A para se identificar artisticamente.

Obra O Ninho #01, feita de vidro,
madeira e nylon, de 2019
.
Começou numa carreira institucional expondo em salões e bienais, além de participar de editais. De uns anos para cá a sua produção vem sendo absorvida pelo mercado e isto lhe deixa mais confiante que está trilhando um caminho promissor. Acha que “é uma consequência do seu discurso visual, por imprimir uma identidade em tudo que faz. Assim os colecionadores começaram a se interessar e passou a vender as suas obras. Ele disse que "existem muitas camadas que as artes visuais tem para oferecer através de  possibilidades para que o mercado absorva a sua produção e não somente através de galerias. É um ofício de muitas possibilidades. Venho desde 2005 participando dos salões que eram dirigidos por Francisco Liberato onde procurava me inscrever e me destacar como artista."

 Lamentou que a Bienal do Recôncavo tenha acabado e que alguns salões, inclusive os regionais passaram por um período sem serem realizados, e parece que agora estão voltando. Lembrou que a primeira vez que foi participar de um salão ficou muito envolvido. Nesta época estava ensinando Educação Artística numa escola e “fiquei indeciso, mas terminei decidindo largar o magistério para fazer a minha arte. Comecei a aprender a fazer projetos com Celeste Warner que foi mostrando produções de arte do mundo inteiro e passei a produzir.”

Disse ser  muito inquieto e que seus pais se conheceram no Centro Industrial de Salvador, localizado,no municipio de Simões Filho,  na Região Metropolitana de Salvador. Eles vieram do interior para cá em busca de emprego na indústria e que sua família é muito envolvida em marcenaria, metalurgia e elétrica e que isto foi sempre presente em sua vida.

“Não sou um artista de fases, de trabalhar em tal tema. Aí está mais uma diferença do meu fazer artístico e a maioria dos artistas originários da academia. Sou livre e com as percepções de mundo e através da minha relação com os materiais, as ideias vão fluindo. Também sou ou fui um pouco agricultor e penso a partir da natureza, porém é um tema presente no meu trabalho, mas não me norteia." Vinicius S /A quer falar sobre o que lhe inquieta com sua experiência estética. Destacou também seu fazer artístico "não é um trabalho panfletário que busque fazer ativismo como estamos acostumados a ver."

 

EXPOSIÇÕES E PRÊMIOS

 

O Objeto Óptico #02 premiado no XV Salão
de Artes Plásticas da Bahia , em 2008.
A exposição Lágrimas de São Pedro foi montada em várias cidades brasileiras e também fora do país, em Frankfurt, na Alemanha e Las Vegas, nos Estados Unidos. Atualmente virou uma exposição permanente na Galeria do Mercado, em Salvador, Bahia com grande sucesso de público e crítica. Outras obras de sua autoria foram premiadas em salões e bienais, a exemplo do Objeto Óptico #02 que foi vencedor do Prêmio Residência Artística Internacional no XV Salão de Artes da Bahia. A instalação Sorria Você está Sendo Filmado, premiada no Salão Regional de Artes Visuais da Bahia. A obra O Pulso da Bienal recebeu Menção Honrosa Especial, na VIII Bienal do Recôncavo. Já participou de duas residências na Europa na Holanda e Alemanha.

Integra importantes publicações como o livro Escultura Contemporânea no Brasil, de autoria de Marcelo Campos, além de 50 Anos de Arte na Bahia e Água, Reflexos na Arte da Bahia ambos de autoria de Matilde Mattos e do livro 30 Contemporâneos Brasileiros, de Enock Sacramento.

Já participou de inúmeras exposições coletivas entre elas Ready Made in Brasil, Utopias e Distopias, e do Projeto Rua -Roteiro Urbano da Arte. Recentemente fez em 2022 a curadoria da Exposição de Fotografia do NEOJIBA em comemoração aos 15 anos de sua existência.  Este programa já encantou plateias nas oito turnês internacionais que fez em vários países com concertos primorosos. Mais de doze mil crianças e adolescentes tiveram suas vidas transformadas por meio do ensino e da prática musical coletiva.


domingo, 27 de outubro de 2024

MORRE NIDE A ARTISTA QUE PINTOU A SENSUALIDADE DA NEGRA BAIANA

Foto 1. Nide jovem. Foto 2. D. Gina,
Romano Gallefi, Nide e Humberto
Lyrio.Foto 3. Anna Georgina, Nide 
e  d. Yolanda.

A artista plástica Eronildes da Silva Bacelar, que assinava Nide, faleceu ontem aos noventa anos de idade deixando um legado de pinturas de mulheres negras mostrando a sua sensualidade com os seios à mostra, em grupos vestidas de filhas de santo e também nas festas populares. Muitas de suas obras trazem também a delicadeza das rendas brancas contrastando com a cor da pele negra de suas baianas. Consta da sua biografia que nasceu em 28 de junho de 1927 na cidade de Aiquara no interior da Bahia. Filha de Purcina Rita da Silva e de Pompílio Rodrigues da Silva, criador de gado e comerciante na mesma cidade. Casou-se, em 1947, com o médico   S. Marques Bacellar (1907-1980), com o qual teve oito filhos.

Em 1963 a  Nide fez um curso livre de pintura na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, com o professor Emídio Magalhães (1907-1990). Em 1971, aperfeiçoou seus estudos de arte no Rio de Janeiro. A partir de então, tornou-se autodidata, desenvolveu técnicas próprias de pintura e seu  estilo. Pesquisou os costumes, as tradições e o folclore baiano e se destacou por pintar mulheres negras.
Três obras em acrílica sobre
 tela de Nide.
Era uma pessoa muito alegre e mesmo com o peso da idade sempre trazia no rosto uma risada larga que envolvia a todos que estavam ao seu redor. Os motivos afro tão presentes nos dias de hoje foram enaltecidos e pintados bem antes pela Nide que fez muitas exposições aqui e em outros estados brasileiros. Ela começou a pintar aos treze anos de idade e soube captar a essência da mulher negra baiana.

Embora não fosse uma artista negra ela com certeza foi uma das artistas que mais enalteceu a mulher negra e suas obras trazem não só a beleza, sensualidade, mas também mostrava essas mulheres no seu fazer diário fritando acarajés, nas suas cerimônias religiosas, na alegria das festas populares, nos sambas de roda. Não pintava figuras estáticas e sim com movimentos de corpos e vestes e fazia composições bem resolvidas e bonitas. Destaco além das rendas das vestes os esfuziantes torços coloridos com seus movimentos helicoidais.

Obra Lavagem do Bonfim, de Nide.
Fez mais de uma dezena de exposições individuais e participou de dezenas de coletivas aqui e em outros estados entre eles no  Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, São Paulo e no Distrito Federal, Brasília. O último registro que tenho em meu blog foi de uma exposição que ela ia fazer no shopping Paralela, em Salvador, em 2006. Expôs várias vezes na Panorama Galeria de Arte, inclusive em 1970 fez sua primeira exposição lá com a apresentação do professor Humberto Lyrio .