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sábado, 19 de outubro de 2024

RESCÁLA UM MESTRE PINTOR E O MAIOR RESTAURADOR DA BAHIA

Aqui o mestre colocando  etiqueta 
de identificação numa obra
.
o mestre Rescála era conhecido por sua competência técnica,  paciência durante o processo de criação, além da docilidade em tratar as pessoas. Se esmerava  na escolha das tintas, na apuração do desenho para formatar a composição de suas obras   autorais e de restauração  buscando os detalhes escondidos por debaixo de camadas de tintas. Estava sempre pronto para ouvir e tirar dúvidas de alunos e mesmo de pintores consagrados sobre o seu ofício. Lembro das vezes que o procurei da sua disposição em falar sobre sua obra,  com muita tranquilidade enquanto ia acendendo um cigarro atrás do outro. Era um artesão porque cuidava dos detalhes das tintas e dos suportes que ia utilizar  com a mesma dedicação daqueles artesãos do início do século XIX que tanto nos fazem falta. Criterioso, sempre tinha uma palavra de alento para os jovens que se inquietavam com a demora do sucesso. Como um monge ia construindo o seu mundo pictórico. Rescála não pode ser visto apenas como um grande restaurador. Rescála era também,  um pintor que soube como ninguém documentar a ambientação da Bahia antiga com sua gente calma andando por ruas quase desertas e retratar seus personagens populares e autoridades . O conjunto de sua obra é o reflexo do temperamento do mestre Rescála que orientou gerações e mais gerações.

                                                 PROFESSOR EMÉRITO

Rescála recebendo o título de professor
Emérito das mãos do Reitor da UFBA,
Luiz Fernando Macedo Costa
.
Lembro-me quando em 1983 Dr. Jorge Calmon, Redator Chefe de A Tarde   recomendou que queria uma boa cobertura de uma solenidade na Reitoria. Tratava-se da homenagem da Universidade Federal da Bahia - UFBa àquele que dedicou grande parte de sua vida na formação de novos artistas. Assim das mãos do Reitor Luiz Fernando Macedo Costa o mestre João José Rescála, aos 73 anos de idade, e 31 anos de ensino recebia o título de Professor Emérito. 
Foi uma sessão concorrida e o auditório da Reitoria estava repleto de ex-alunos, amigos e parentes. Foi uma homenagem justa e contou com a aprovação unânime do Conselho Universitário, que homologara uma decisão da própria Congregação da Escola de Belas Artes.  Coube a professora Ana Maria Leite da Silva, traçar o perfil do homenageado. Ela que recebera tantos ensinamentos do mestre não teve dificuldades de dizer em público que falava com grande emoção e alegria "do homem, do mestre, do restaurador e do grande amigo". O mestre Rescála nasceu em 8 de janeiro de 1910, no Rio de Janeiro. Descendente de libaneses, enfrentou quando criança, as dificuldades e até discriminações no meio em que vivia, mas nada o afastou da sua inclinação natural de abraçar a arte. Por motivos financeiros não pôde ingressar na Escola Nacional de Belas Artes, porém, frequentou com assiduidade o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e, em 1928, já realizava a sua primeira exposição, ocasião em que recebeu a Medalha de Prata. Daí foi um trilhar de sucesso. Conseguiu por volta de 1928 entrar definitivamente na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1931, participou do grupo que criou o Núcleo Bernadelli, contrário à discriminação e paternalismo que imperava naquela época nos chamados salões oficiais. Fico a lembrar como teria sido a participação do mestre Rescála, porque o seu temperamento não era próprio ao debate, às disputas. Preferia sempre trabalhar no silêncio do seu  ateliê , recomendar um acordo e disposto a acalmar os ânimos.

                                                NAMORADO DA BAHIA

 

 O Retrato de Meus Pais obra
premiada com a viagem
.
E
m 1937 com a obra Retrato de Meus Pais, recebeu um dos maiores prémios dados aos artistas naquela época.  O artista foi agraciado com o Prêmio de Viagem pelo Brasil, tendo escolhido o Norte e Nordeste. Foi aí que começou sua grande paixão pela Bahia, tendo mantido contato com o diretor da então Escola de Belas Artes, Manuel Inácio de Mendonça Filho, que mais tarde o convidou para lecionar em Salvador. Portanto, o convite lhe foi feito em 9 de maio de 1952 para ocupar a cadeira de Teoria da Restauração e Conservação da Pintura. Ganhou a Bahia, porque nos anos que aqui viveu, o mestre Rescála foi um inimigo do descaso, dos cupins, das traças, dos insensíveis que estão a postos para destruírem as obras de arte. Como um Don Quixote de espátula e pincéis em punho ele ia calmamente restaurando e descobrindo beleza! Quantas e quantas pinturas estavam escondidas por baixo de grossas camadas de tintas e sujeira, O mestre Rescála ia removendo-as com carinho, com muito cuidado e competência.

O mestre pintou muitas vezes a 
 bela Lagoa do Abaeté .
Ao lado deste trabalho ele cultivava a sua cátedra. Depois de concursos bem sucedidos, além de professor, foi diretor, vice-diretor, presidente de bancas examinadoras e chefe de departamentos da Escola de Belas Artes. Ainda na sessão solene quando recebeu o título de Professor Emérito da UFBa, ele disse ser “um eterno namorado da Bahia.” Lembrou de Mendonça Filho, que o convidou a viver aqui, ressaltou o desempenho da Escola de Belas Artes ao longo dos anos. "dos seus relevantes serviços nos planos artístico e cultural desta terra". Não esqueceu de seu velho companheiro Alberto Valença "de sensibilidade apurada, um dos maiores pintores contemporâneos do Brasil".

                                            NÃO SOU ACADÉMICO

Rescála ao centro, Reynivaldo e Ivo Vellame 
selecionando as obras do 2º Salão Nacional 
da Federação Nacional das ABBS, 1982
.

Ele reagia quando alguém o classificava de acadêmico. Quem conhecia a sua  trajetória pictórica e sabia dos seus ideais jamais o classificaria de um acadêmico, com todo o significado que essa palavra encerra. Ele foi um dos fundadores da Arte Moderna aqui e acima de tudo foi um dos que produziu trabalhos visando a modernização da arte brasileira. Junto com Edson da Mota, Djanira, Da Costa, Jordan Oliveira, Manuel Santiago e Pancetti o mestre Rescála foi um dos cabeças deste movimento modernista. Talvez por residir na Bahia, e estar, portanto, fora do grande mercado de arte é que sua grandiosidade ainda não foi espalhada em todo o País. Dizia que era professor por acaso. Modéstia do mestre, porque desde que frequentara o Núcleo Bernadelli que muitos jovens o procuravam para saber como pintar. Disse-me certa vez que no Núcleo Bernadelli onde conheceu Pancetti, que era então sargento da Marinha, "nós exercitávamos pintar com modelos ao vivo e fazíamos muitos croquis para assim podermos dominar o desenho. Não acredito que alguém seja um grande pintor se não sabe desenhar". Veja que lição para os jovens! Ninguém pode ser um grande pintor sem saber

Obra inspirada no movimento surrealista.
desenhar! E, quantos andam por aí querendo ser pintor sem saber desenhar coisa alguma. Esta lição do mestre Rescála deve ser tomada com muita seriedade para que esses possam se dedicar ao desenho como o primeiro passo de uma carreira pictórica. Também ensinava que os jovens não devem limitar-se aos trabalhos da escola. "É preciso treinar, pintar e desenhar sem parar para dominar as técnicas, formas e cores. Falando sobre a arte brasileira e sobre um de seus expoentes Cândido Portinari, disse: "Quando iniciávamos o nosso núcleo recebemos muito apoio de vários setores renovadores do Rio de Janeiro. O Movimento Modernista ganhava corpo, também em São Paulo. Naquela época Portinari estava na Europa e quando retornou já havia acontecido a Revolução de 30 , lembrou Rescála. Os vitoriosos deram-lhe todo o apoio necessário para que prosseguisse o seu trabalho que resultou numa obra monumental".

Rescála pintando mural com alunos
da Escola de Belas Artes
.
Como podemos observar, o mestre Rescála foi testemunho de grande parte da história recente da arte brasileira e um de seus protagonistas. Sempre esteve longe das trombetas e das noites grã-finas. Preferia o seu ateliê e o convívio da sua família. Disse certa vez "esta história de que sou acadêmico é maldade que fazem comigo. Eu já passei por várias fases e hoje faço uma arte que tem uma personalidade própria. Uma pessoa que entende de arte — argumentava — é capaz de identificar um quadro de minha autoria. Isto é importante para o artista. A personalidade de sua obra. Mas, eu nunca poderia ser um acadêmico, pois além de fundador do Núcleo Bernadelli que incentivou e produziu obras modernistas também participei do Salão Nacional de Arte Moderna que era onde as expressões mais importantes do modernismo brasileiro expunham os seus trabalhos". 
O mestre Rescála deixou também transparecer numa entrevista publicada no jornal  A Tarde em 1976 o seu protesto quanto à procura gratuita do sucesso: "Ganhei vários prémios nesses salões e deixei de participar porque estava pornográfico. Estão confundindo arte moderna com pornografia. Esta tal arte erótica eu considero algo sem sentido. Uma fotografia de uma revistinha dinamarquesa funciona muito melhor, se o problema é o erotismo. Acho esta tal, de arte erótica uma imoralidade e muitos talentos estão sendo desviados. Aqui na Bahia temos exemplos que são de conhecimento de todos."

                                                 SEU GRANDE IDEAL

Obra Passeio  do mestre Rescála.
Além do ensino e restauração, Rescála se deliciava com a pintura. Dizia que era o seu grande ideal. "Jamais deixei e não deixarei de pintar" — sentenciou certa vez, e assim prosseguiu até a hora de sua morte. Mesmo doente continuava pintando. E, é preciso que as gerações futuras vejam em Rescála, em primeiro lugar, o grande pintor que ele foi e depois o restaurador e o mestre. Sempre que podia chamava a atenção para não confundirem a sua obra como de cunho acadêmico. "Pinto ou faço uma arte mais objetiva onde surge com grande força a figuração, mas nunca me chamem de acadêmico. O que sou na realidade é um pintor de costumes, um realista lírico. O realismo se faz de várias formas e eu tenho a minha própria. Agora, quando faço retratos quero ser acadêmico, isto não desmerece ninguém. Porque o retrato é a documentação que faço e tem que ser parecido com as pessoas que pinto."

E abria o seu leque mostrando quanto era democrata, quanto de bom ele era e como defendia o direito de cada um ser aquilo que deseja ou fazer aquilo que mais o agrade. “Quanto ao meu conceito de liberdade de expressão é abrangente. O artista pode ser moderno, acadêmico ou clássico porque ele escolheu esta opção. É um problema individual, de sentimento. Se não faz o que gosta é um falso. É dentro deste pensamento que realizo o meu trabalho. Meus quadros são concebidos nessa linha de pensamento e ação".

                                                         O CIDADÃO

O mestre João José Rescála retratado em 
sua atividade de restaurador.
Outra homenagem que lhe prestaram os baianos foi a concessão do Título de Cidadão de Salvador pela Câmara Municipal, em 1982. Foi numa cerimónia informal em sua residência que o carioca de nascimento recebeu a homenagem dos baianos que tanto o admiram. Trinta anos de Bahia, já era tempo de ter a  cidadania baiana. E no dia, com a sua doçura, mostrava-se - preocupado em informar ou esclarecer a todos, especialmente aos jornalistas presentes que estava recebendo a homenagem em casa por recomendação médica. A doença já prejudicava suas ações e seus parentes estavam, de certa forma, preocupados para que ele não se emocionasse com muita intensidade. O velho coração do mestre já estava cansado de tanta emoção, já estava aos poucos diminuindo as suas atividades.

        A DESPEDIDA

Rescála deixou um legado inestimável
salvando  importantes obras com seu
ofício de restaurador e belas pinturas .
 O professor João José Rescála  faleceu no dia 7 de julho de 1986, às 21 horas, na Clínica Check-up, e, foi sepultado às 17 horas, do dia 8 , no Cemitério Jardim da Saudade, com grande acompanhamento de seus alunos, amigos e parentes. Com o desaparecimento do mestre Rescáia a Bahia perdeu não apenas o mais importante restaurador que, nos últimos anos contribuiu significativamente para salvar grande parte do seu patrimônio cultural, mas também um artista invulgar e uma das pessoas mais ternas que já passaram pela Escola de Belas Artes. Um homem de espírito desarmado, doce, sempre disposto a transmitir aos novos e velhos companheiros de ofício os mistérios da arte de pintar. É conhecido que normalmente os mestres não ensinam a seus alunos "o pulo do gato ", os segredos da profissão, porém isto não acontecia com o mestre Rescála que estava sempre despojado para repassar aos outros aquilo que aprendera no silêncio das sacristias das igrejas, conventos ou mesmo nos salões majestosos dos palácios. Paciente, ele trabalhava em silêncio, e na sua humildade nunca soube desfrutar de sua grandiosidade, porque faltou-lhe — o que sobra em muitos — a disposição de buscar notoriedade.

                Depoimentos de alunos e amigos

Sante Scaldaferri — Rescála era um homem manso. Um excelente professor e a Bahia deve não apenas na parte cultural do património, mas acima de tudo as suas técnicas. Era nosso consultor. Ainda guardo um caderno de suas observações que sempre estou consultando quando tenho dúvidas. E complementa: "A técnica da encáustica que uso para fazer os meus trabalhos me foi ensinada pelo mestre Rescála. Seu desaparecimento deixa uma lacuna muito grande na Bahia cultural".

Calasans Neto — Não fui aluno do mestre Rescála, mas durante o período que utilizava o ateliê de gravura da antiga Escola de Belas Artes que funcionava na Rua do Tijolo, no Centro histórico de Salvador-Ba a sala de gravura ficava vizinha da sala de restauração onde ele trabalhava. Aí tive a feliz oportunidade de conhecer um dos homens mais competentes dentro de seu ofício, fazendo um trabalho que eu não conhecia, um trabalho que só as pessoas abnegadas e providas de espírito superior conseguem fazer que é a restauração. Por intermédio desta vizinhança conheci um pintor que desassociava a sua arte de restaurador a de criador, que era o mestre Rescála. Convivi alguns anos junto a ele e pude sentir a grandiosidade não apenas do criador, mas do ser humano que ele era. Sempre gentil e nunca escondendo aos alunos os mistérios do seu ofício.

Obra  A Praça .Uma cena  antiga.
Carybé — Rescála era uma pessoa que mais mereceu o título de Mestre. Foi como pessoa, como artista e como professor um exemplo para as futuras gerações. Começou com Pancetti na arte moderna, no do ano de 1922, mas no movimento modernista do fazer, do realizar através do seu próprio oficio. Ele foi um dos que deram força ao modernismo, responsáveis por seu prosseguimento no Núcleo Bernadelli, do qual foi fundador, e de lá saiu para restaurar e salvar o patrimônio da Bahia. Era um grande artista! Um grande técnico a ele devemos a ressurreição do Convento de Santa Tereza, do Solar do Unhão, de palácios e muitas igrejas. Ele sabia restaurar e pintar como ninguém. Era um homem doce. Sempre pronto para responder com civilidade e carinho a qualquer dúvida. Diversas vezes o procurei para tirar dúvidas e sempre recebia lições. Cada consulta era uma aula de técnica e sabedoria.


Retrato de Dom Avelar
Brandão Vilella.
Mirabeau Sampaio 
O  Mirabeau ainda não sabia da morte de seu amigo Rescála. Na qualidade de jornalista lhe telefonei para tomar o seu depoimento, na certeza de que ele já tinha recebido a triste notícia. Porém, Mirabeau continuava falando como se ele estivesse vivo. Daí perguntei se tinha sabido do ocorrido e Mirabeau entristeceu. A voz ficou um pouco embargada e disse: "Vejo o mestre Rescála com muito respeito. Era um grande técnico e mais do que isto um grande artista! Nada de improvisação na sua obra. Tudo era feito com responsabilidade. Sabia como ninguém a arte de pintar. Só se pode fazer elogios ao mestre Rescála e é com muita tristeza que falo neste momento. Coitado de Rescála!'- desabafou Mirabeau. Eu admirava muito ele. Não havia uma pessoa de tão boa vontade e tinha muito que transmitir. Tinha alegria quando a gente telefonava para esclarecer uma dúvida.

Carlos Bastos — Tinha muita admiração por Rescála. Lembro que uma empresa o chamou para fazer a restauração de dois painéis de minha autoria e nunca lhe pagou. Ele recebeu aquela atitude condenável com resignação. Uma vez pintei o seu retrato no painel da Assembleia Legislativa, mas o fogo devorou tudo. Acho que ele era mais restaurador que pintor e assim formou uma escola de bons restauradores baianos. Como pessoa humana era sensacional, uma doçura de pessoa.

Jacy Brito (galerista) — Por várias vezes Jacy Brito fez exposições com trabalhos de Rescála. Para ela o mestre deixa uma perda indiscutível para a Bahia. Trabalhava na discrição, no silêncio. Quantas coisas importantes obras foram salvas por Rescála! Professor de várias gerações de artistas. Não tinha as trombetas do sucesso tocando para ele, embora fosse um dos grandes mestres da pintura da Bahia. Como professor, o que ensinou a várias gerações vai permanecer para sempre.

Mulheres buscam água na fonte .Vejam  
os movimentos das vestes e corpos
.
Zivé Giudice — O professor Rescála era uma dessas pessoas carismáticas. Detinha a sabedoria do tempo e sempre assediado pelos alunos curiosos, a resgatar-lhes as dúvidas. A sua presença na Escola de Belas Artes da UFBa era sempre tranquilo e disponível, conferia àquela instituição conceitos que só os grandes mestres conseguem.

Ivo Vellame — O professor Ivo Vellame colega do magistério de Rescála também ressaltou as qualidades do mestre dizendo: "Estou muito sentido com o desaparecimento do professor Rescála. Ele era uma dessas figuras raras, que de vez em quando surgem na Terra. Além de ser um mestre no seu ofício de restaurar era uma criatura humana indescritível. Sempre atento para servir, sempre tinha uma palavra de carinho para com aqueles com quem convivia. A Bahia perdeu um grande mestre da restauração e da pintura. Mas sua obra será perpetuada porque é grandiosa". 

BIO  DE RESCALA

Nasceu no Rio de Janeiro, em 8 de janeiro de 1910, realizou seus estudos de arte no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Nacional de Belas Artes  tendo como professores Chambelland, Bracet e Marques Jr. . Participou da fundação do Núcleo Bernadelli em 12 de junho de 1931, tendo como sede o estúdio Nicolas onde Rescala expusera pela primeira vez individualmente. No Núcleo conviveu com artistas como Manoel Santiago, Pancetti, Dacosta, Bustamante Sá, Malagoli, Sigaud, dentre outros. Ganhou os principais prêmios de pintura nacional entre eles os cobiçados Prêmios de Viagem ao País e viajou pelo Norte e Nordeste e de viagem para os Estados Unidos e México. Em 1956 assumiu a cadeira de Teoria, Conservação e Restauração da Escola de Belas Artes da Bahia. Faleceu em  Salvador no dia 7 de julho de 1986.

PRÊMIOS

Em 1928 no Salão do Liceu de Artes e Ofícios – Rio de Janeiro , a Grande Medalha de Prata ; 1935 - Salão do Núcleo Bernadelli – Rio de Janeiro, Primeiro Prêmio de Pintura ; 1934 – Salão Nacional de Belas Artes :  Medalha de Bronze ; 1937 - Prêmio de Viagem pelo País; 1939 - Medalha de Prata ; 1943 - Prêmio de Viagem ao Estrangeiro Salão Paulista de Belas Artes, Menção Honrosa ;
1938 - Salão Fluminense de Belas Artes Prêmio Alberto Torres 1947 -Prêmio J. Batista Da Costa ; 1947 - Bienal de Veneza - Itália; Expôs o Quadro Indígenas ; 1952 -  Salão Nacional de Arte Moderna, Prêmio Isenção de Júri ; 1953  - Salão Pernambucano de Belas Artes, Primeiro Prêmio de Pintura ; 1954 -  Salão Gaúcho de Belas Artes , Prêmio de Aquisição Museu de Arte de Porto Alegre ; 1958 - Grande Medalha de Honra, da Academia Belas Artes ;  1983 - União Nacional dos Artistas Plásticos, Menção Especial Grande Medalha de Ouro ; 1984 - Museu de Arte Moderna da Bahia, Destaque, Quadro Lavadeiras.  

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS -1938 - Exposição das Pinturas, resultado do Prêmio de Viagem pelo país - Belém - Manaus – Vitória; 1940 - Exposição de Paisagens Brasileiras, São Paulo; 1944 – Exposição patrocinada pela Latin American Institute, New York; Exposição patrocinada pela International House, Chicago; 1945 - Exposição patrocinada pelo Embaixador do Brasil no  México; Exposição realizada na Art Institute Denver ; Exposição patrocinada pela União Pan – Americana em San Francisco ,EUA 1965 – Exposição Galeria Goeldi, a convite  de Clarival Prado Valadares; 1968-  Exposição Retrospectiva patrocinada pela Universidade Federal da Bahia, no Teatro Castro Alves, com quadros cedidos pelos museus do Sul do país, coleções particulares e quadros de propriedade do Artista; 1969Exposição patrocinada pelo Instituto de Cultura Hispânica Madrid; 1976 - Exposição patrocinada pelo Governo de Goiás e Prefeitura de Goiânia, para a inauguração da Galeria Azul; 1982 - Exposição Retrospectiva em comemoração aos seus 70 anos e em homenagem ao Núcleo Bernadelli a convite do pintor e professor Edson Mota, Diretor do museu Museu da Cidade – Salvador; Exposição Retrospectiva, em Homenagem ao Escritório de Arte -Othon Palace Salvador; 2000 - Exposição em homenagem ao Mestre Rescala na MCR Galeria de Arte Salvador .
COLETIVAS – Em 1948 - Exposição Itinerante em países Africanos; 1945 - Exposição itinerante patrocinada pelo Consulado Americano, nas principais cidades americanas; Exposição de Paisagens Brasileiras São Paulo; 1939 - Exposição do Centenário de Portugal; 1965 - Exposição na Galeria Goeldi a convite de Clarival Prado Valadares; 1982 - Exposições dos antigos componentes do Núcleo Bernadelli, e o lançamento do livro "Núcleo Bernadelli" de Frederico de Morais. Dentre várias outras.


reynivaldobritoartesvisuais.blogspot.com

NR-Este texto foi publicado no Jornal A Tarde no dia 9 de julho de 1986, dois dias após a morte do pintor . Agora foi revisado e adaptado. As fotos foram cedidas pelo seu filho o médico cirurgião geral dr. Jorge Rescála.

 

 

 


sábado, 12 de outubro de 2024

A ARTE FEITA DE CONCHAS E BÚZIOS DE ANA LAURA LACERDA

Ana Laura com três das marisqueiras  
que lhes fornecem as conchas e búzios.
Existe uma diferença subjetiva, tênue e maleável na fronteira entre o que entendemos por arte e o artesanato. Hoje vemos  artistas usando tecidos  criar a sua arte e variados tipos de suporte para se expressar. Outros empregam miçangas,tampinhas de garrafas pety, crochés  e cerâmicas antes tidos como objetos de decoração e utilitários de artesanato apresentados e aceitos como obras de arte e expostos até em galerias e museus e outros espaços de renome internacional. Recentemente descobriram um ferreiro que fica num daqueles arcos da Ladeira da Conceição, em Salvador, e que além de grades de ferro e cadeiras ele fazia Exus e outros Orixás que eram vendidos para lojas de artesanato e os barraqueiros do Mercado Modelo. Hoje seus Exus e orixás foram alçados para as galerias e ganharam status de obra de arte. Também estamos acostumados a ver e adquirir nas feiras livres e em outros locais por este Brasil afora peças de artesanato feitas como objetos utilitários e de decoração, e até mesmo como brinquedos da criançada e que são considerados obras de arte. Basta um crítico ou artista renomado mostrar a sua importância criativa. Lembro quando criança dos bois de barro, bonecas de pano, os carros de boi, o mané gostoso que eram feitos de barro e madeiras e vendidos por artesãos vindos das roças na feira de Ribeira do Pombal-Ba. Esses brinquedos eram adquiridos pelos pais para os filhos brincar. Depois vieram os brinquedos plásticos e eles perderam a sua primazia. Mas, ainda existem e teimam em permanecer. Tenho comigo um carro de boi todo esculpido em  madeira que pode ser considerado uma obra de arte, se for olhado por este prisma atual.

Composição com búzios e
 conchas formando  árvore.
Alguns estudiosos entendem que essas manifestações artísticas muitas vezes são transmitidas de gerações para gerações, enaltecem suas habilidades manuais e dizem terem valor como obra de arte. Outros discordam, principalmente àqueles arraigados aos ditames das academias. e consideram até objetos Kitsch de gosto discutível, mediano. Lembro que a festejada arquiteta Lina Bo Bardi criadora do Museu de Arte Moderna da Bahia também criou um Museu de Arte Popular, que funcionava num dos galpões ao lado do prédio principal do Solar do Unhão. Seu acervo era composto de belas peças ditas do artesanato recolhidas não só na Bahia como em outros estados. 
Evidente que eram peças diferenciadas, que realmente continham alguma significância de arte. Este museu foi fechado e e algumas peças estariam no Museu do Solar do Ferrão, outras sumiram misteriosamente. Recordei agora de um artesão de Cachoeira-Ba que fazia Exus, galinhas d'angola e pombas suspensas por uns palitos reunidas num pedestal de barro, formando uma bela composição. Até mesmo o navio que existia e que fazia a travessia daquele município até Salvador ele reproduzia no barro. Bom destacar também os potes, moringas e tigelas e outros objetos criados pela ceramista Ricardina Pereira da Silva, mais conhecida como Dona Cadu . Ela residia na localidade de Coqueiros, município de Maragogipe-Ba, e morreu recentemente aos 104 anos de idade. Todos eram antes comercializados como peças utilitárias ou de decoração, e hoje são aceitos como obras de arte. Quanto a obra de arte tem um propósito de apresentar o belo ou um símbolo. Tem sua função artística própria e pode ser apresentada em vários suportes e formas como a pintura, a escultura, a música, dança, teatro e cinema.

 Peças feitas de búzios e conchas colados
 em suportes de madeira de lei com
  mais de 2 cm de espessura
.
Fiz esta introdução para falar de Ana Laura Lacerda que é uma baiana que vem fazendo um trabalho diferenciado usando apenas conchas e búzios de várias origens, cores e tamanhos, a maioria focados na defesa do meio ambiente e tendo como temática a flora brasileira . De posse deste  material natural, recolhido nas praias e até mesmo no fundo do mar e dos rios ela vai juntando, classificando e criando suas peças usando como suporte pedaços de madeira de lei com a intenção que durem um bom tempo. Ela estudou até o segundo ano na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Mas, por questões pessoais abandonou a faculdade e foi trabalhar no segmento de eventos onde permaneceu alguns anos. Hoje está totalmente voltada para esta atividade de lidar com as conchas e búzios e vem desenvolvendo com a intenção de apresentá-lo como obra de arte.
 Por temperamento e formação não gosto de julgar e desestimular ninguém. Ao contrário, ao longo da vida sempre tentei ajudar divulgando  obras das pessoas que gostam e se expressam através da arte, principalmente os iniciantes. O tempo e o mercado se encarregam de mostrar quem faz uma boa arte ou não. Portanto, não estou aqui julgando se é artesanato ou uma obra de arte o que faz a Ana Laura Lacerda. Isto vai depender dos conceitos de cada um e das informações que dispõem. O que pude constatar é que algumas dessas peças têm uma composição criteriosa e que o colorido natural das conchas e búzios por si só já nos encantam. Evidente que alguns vão dizer que  são peças mais apropriadas para decorar casas e estabelecimentos comerciais que estão próximos ao mar ou mesmo de cidades banhadas pelas águas de um oceano ou de um rio pela sua especificidade.

Obra A Amazônia Azul.
Na conversa que tive com a Ana Laura  Lacerda ela disse que tem peças que demora até dois meses para concluir, e que esta sua busca em se manifestar através das conchas e búzios é antiga. Tem uma preocupação com a natureza, inclusive consultou o órgão responsável pela conservação e defesa do meio ambiente em nosso Estado e obteve a resposta que ela não estava praticando qualquer ato que viesse a prejudicar a natureza. A maioria dos materiais que utiliza é coletado por marisqueiras da localidade de Gameleira, na ilha de Itaparica, e que mantém uma relação com elas há mais de 40 anos. Algumas delas são filhas das que lhes forneciam nos anos 80. Também adquire em Salinas e na ilha dos Frades. Essas mesmas marisqueiras vendem conchas e búzios em forma de colares, pulseiras e brincos para os barraqueiros do Mercado Modelo os quais são adquiridos por turistas. Algumas conchas e búzios são coletados em rios e praias do Norte do país, que a artista compra no Mercado Modelo. Ela informou  que fica buscando conchas e búzios diferentes para criar novas composições. Não trabalha com corais, estrelas do mar e cavalos marinho por serem proibidos e frágeis. Relatou que tem duas peças no Hotel Catussuba, no bairro de Stella Maris, em Salvador-Ba, produzidos há algumas décadas e estão perfeitos. Recentemente fez várias peças para uma casa numa ilha da Baia de Todos os Santos, inclusive o piso de entrada do imóvel usando conchas e búzios. Numa dessas composições ela fez este mapa do Brasil que denominou de a Amazônia Azul. É uma peça que chama a atenção pela plasticidade e o interesse atual pelo meio ambiente.

Ana Laura e algumas de suas obras .
Confesso que já tinha visto trabalhos feitos com conchas e búzios, especialmente colares, brincos, pulseiras e espelhos e até tampas de mesas, porém as peças de Ana Laura Lacerda são diferenciadas e trazem a beleza natural dos peguaris vermelhos e brancos, das conchinhas bagos de jaca, e de búzios de várias tonalidades e tamanhos criando belas composições.  Ela não usa tintas porque as conchas e búzios têm seu brilho natural e também desenhos próprios. Ana Laura vai colando as conchas e búzios no suporte de madeira criando desenhos geométricos, usando de tamanhos diferentes para que tenham uma harmonia. 

A propósito escreveu o artista Calasans Neto "Ana Laura é o poema da menina, o mar, as conchas e os búzios numa arrumação entre a natureza e as mãos criadoras. Todos os encantos do mar foram agrupados de forma a produzir efeitos além da natureza visual. Não é uma simples arrumação, é um perfeito entendimento entre a força criadora e os mistérios do mar."



sábado, 5 de outubro de 2024

SÉRGIO VELLOSO E SUA ARTE QUE VENCE O TEMPO

Sérgio Velloso com obra de
sua autoria
.
E
stávamos no final dos anos 60 quando apareceu nos vernissagens um jovem de cabelos longos, magro e refinado. Era uma espécie de dândi que gostava de curtir todo aquele clima efervescente que vivíamos nas noites baianas e no vibrante ambiente cultural que nos ofereciam a oportunidade e opções de estar presentes em duas ou mais exposições todas as semanas. Existiam até alguns grupos, verdadeiras tribos, que sempre estavam presentes com seus visuais distintos aproveitando para jogar conversa fora, encontrar os amigos, bebericar e comer os salgadinhos dos coquetéis. Os vernissages eram acontecimentos sociais abertos para todos, ou seja, lá se encontravam socialites, pessoas simples e os estudantes em busca de informações e divertimento. O nosso personagem era amigo do pintor Carlos Bastos que sempre marcava sua presença sendo um dos primeiros a chegar todas às vezes que o Sérgio Velloso ia fazer uma nova exposição. Na época Carlos Bastos era um dos nomes mais requisitados nas reuniões sociais da elite e um pintor consagrado. Aliás, é bom salientar que a obra de Carlos Bastos é grandiosa, porque além de ser um grande desenhista é um pintor de primeira linha. O mercado de arte baiano e brasileiro ainda vão reavaliar este legado que Carlos Bastos deixou especialmente por ter sido um dos modernistas que contribuiu para a evolução da arte em nosso país com obras de alta qualidade técnica e de composição.

Obra Ouriços e Centopeias, de  1991,
que Sérgio Velloso expôs na Lapa.
O artista Sérgio Velloso além de  fazer  exposições individuais e participar de muitas coletivas fez em 1983 a decoração do Baile dos Artistas , no Teatro Gregório de Matos , clubes sociais e foi até guia turístico da Bahiatursa. Era um jovem cheio de energia que trabalhava e se divertia com a intensidade de sua juventude. Ele lembrou da amizade com Jacy Brito, proprietária da Galeria O Cavalete que era uma mulher elegante  à frente do seu tempo. Gostava de fumar seu cigarro usando uma piteira,usar joias  e de beber vinho, frequentar a noite , mas tudo com moderação. Era criteriosa na escolha das obras para expor em sua Galeria O Cavalete. De segunda à quinta-feira o grupo ia ao  Bistrô do Luís ou para o Extudo. Eles não gostavam de frequentar nos finais de semana porque esses locais ficavam muito cheios, disse Sérgio Velloso. Neste período também chegou a ministrar aulas na Panorama Galeria de Arte quando funcionava no Jardim Brasil e depois foi transferida para o bairro da Fazenda Garcia. Tem saudades deste tempo da convivência com os amigos e alunos e fez questão de dizer que não ensinava a copiar uma paisagem ou um objeto. “Não, eu incentivava os alunos a criar. Alguns ficavam receosos, mas com o passar do tempo criavam suas próprias pinturas. Ensinava a fazer perspectivas, o volume e assim desenvolviam mais rapidamente."

                                                           O REENCONTRO

Sérgio Velloso,Carlos Bastos
e Elide Gaban no Museu
da Cidade.
Agora tive o prazer de reencontrar o Sérgio Velloso com aquele seu jeito terno de conversar e disposto a falar sobre sua trajetória desde o final dos anos sessenta até hoje. Impressionante constatar  a força da arte nas pessoas que fazem e gostam ou são atraídas para este universo mágico que até é difícil de  traduzir em palavras. O Sérgio Velloso lembrou que depois deste período vibrante e culturalmente rico a Bahia passou por um vazio cultural.  É verdade, inclusive o crítico Geraldo Edson de Andrade, de saudosa memória, chegou a registrar num artigo datado de 1979 o vazio que a Bahia estava vivendo após a realização em Salvador da II Bienal Nacional de Artes Plásticas, no Museu do Convento do Carmo.  Este vazio se estendeu por algumas décadas e diante desta situação o artista foi trabalhar e estudar em outros segmentos como a decoração. Em 2003 fez o curso de Gestão em Moda e Design, na UNIFACS, quando foi convidado para ministrar aulas da disciplina Expressão Bidimensional, no curso de Moda, e lá permaneceu por dois anos. A partir daí teve que se afastar por não possuir a titulação de pós graduado, como o Ministério da Educação passou a exirgir da instituição . Então fez a pós em Docência do Ensino Superior, mas quando retornou a vaga já estava preenchida por outro profissional.

Mas, Sérgio Velloso continuou  envolvido com sua arte, suas pinturas , desenhos trabalhando e criando estampas exclusivas para coleções de moda, feitas no computador com as ferramentas que aprendeu a utilizar no Curso de Moda. Criou também modelos usando desenhos autorais para fazer os croquis manualmente. Paralelo à essa incursão no universo da moda, continuou pintando, desenhando, fazendo artesanato, oratórios, mandalas e outros objetos decorativos para comercializar em feiras de artesanato. Também nesse período   trabalhou no cerimonial Rosa Amarela decorando igrejas e salões para grandes eventos e que gostava muito do que fazia, ao lado de Luisinho Bastos, sobrinho de Carlos Bastos. “Gosto de trabalhar com arte, sou um artista consciente das minhas limitações e qualidades. Embora fora do universo das exposições e galerias, prossigo trabalhando no que me dá prazer, no meu ritmo e da forma que me agrada.  Como disse Caetano numa de suas composições: “Respeito muito minhas lágrimas, e ainda mais minhas risadas..."   Vemos ao lado um autorretrato do artista obra que integra o seu acervo particular que ele pintou em placa de compensado depois de visitar a exposição  do amigo   Carlos Bastos no foyer do Teatro Castro Alves

Ele sempre utilizou cores mais tênues ,
 suaves .
Uma característica de Sérgio Velloso é que ele ousa. Nos anos que pintava palhaços e arlequins de repente resolveu em 1991 pintar abstratos e foi expor seus trabalhos no mezanino da Estação da Lapa. Portanto, num local e ambiente completamente díspare do que ele estava acostumado a mostrar a sua produção de arte. Foi ao encontro da gente comum que batalha diariamente em busca da sobrevivência e chega à Estação da Lapa com pressa para tomar o ônibus e chegar em suas casas. O artista  Sérgio Velloso contratou um saxofonista e na hora do rush o músico saía tocando percorrendo a estação de passageiros e muitas pessoas ao invés de tomar os ônibus seguiam o músico até o local onde estava a exposição. O ambiente também chamava a atenção por estar bem  iluminado e com as obras dispostas estrategicamente. Ficavam por ali apreciando aquelas obras abstratas e depois seguiam seu caminho.  Já em 1994  participou da exposição de inauguração da Galeria Abaporu, no Largo do Pelourinho. Em 1978 expôs no Museu da Cidade, localizado do Pelourinho, o qual foi fechado na administração do ACM Neto , ele contratou um palhaço que ficava na frente das lojas na Baixa dos Sapateiros. O palhaço com uma corneta chamava os transeuntes para ver a exposição e foi um sucesso na época.

Sérgio Velloso  com a colunista July
Isensée e a atriz Nilda Spencer.
Depois deste período  muitas galerias e espaços alternativos
fecharam em Salvador e no interior do Estado. Lembra Sérgio Velloso que quando fazia uma exposição sempre vendia de trinta a quarenta obras e isto lhe dava uma tranquilidade financeira para continuar criando. "Depois de pagar todas as despesas com os materiais, molduras e do vernissage ainda dispunha de dinheiro para viajar e fazer outras coisas que gosto. Me considero um bon vivant e assim curti a vida como deveria por algumas décadas. Atualmente continuo pintando e acho que meu trabalho evoluiu do ponto de vista da composição, temática e técnica, mas não temos a facilidade daquela época que existiam muitas galerias e outros espaços alternativos para a gente expor e comercializar nossas obras. Sempre estou postando no Instagram para que as pessoas vejam que continuo produzindo". 

                                                     QUEM É

Obra  recente do artista.
O Sérgio Velloso Silva é filho de Nivaldo Machado da Silva e Maria da Conceição Velloso Silva. Nasceu em Salvador no dia 28 de agosto de 1954. O pai trabalhava na Souza Cruz que era uma indústria fumageira que fabricava os principiais cigarros vendidos na época, e posteriormente foi para a Assembleia Legislativa onde se aposentou no cargo de tesoureiro. O artista Sérgio Velloso fez o primário no Educandário São Vicente, localizado no bairro do Bonfim e o admissão para o Colégio da Vila Militar. Em seguida estudou no Colégio Ipiranga onde terminou o colegial. Mas, antes de fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, a partir de 1972 frequentou alguns cursos livres até completar a idade permitida para prestar o vestibular. Neste período disse  "tive professores maravilhosos como Hansen Bahia, Riolan Coutinho, Juarez Paraíso, Herbert Magalhães, Aylton Lima, dentre outros. Os professores levavam para fazer trabalhos nos arredores da Escola e até mesmo no Campo Grande. Assim ele foi ficando e no final do ano tinha uma feira dos principais trabalhos feitos pelos alunos que eram expostos em frente ao prédio da escola e atraía muita gente inclusive de fora que vinha adquirir obras a preços mais acessíveis. Confessa que admirava muito o trabalho de Hansen Bahia e também de Ilse, a esposa do Hansen, e que chegou a visitá-los em Cachoeira-São Félix. Já em 1977 prestou vestibular e passou a frequentar as aulas. Confessa que foi um
Arlequins pintados pelo artista.
período profícuo e que aprendeu muito. Demorei na Escola, ficava protelando me formar, e me perguntava:Formar pra quê? A dificuldade do iniciante era e ainda é de organizar e fazer uma exposição num bom espaço e começar a entrar no mercado de arte. O sonho é fazer exposições com regularidade e estar sendo convidado por donos de galerias.  Hoje está  ainda mais difícil o mercado está restrito a poucas galerias que só promovem exposições de artistas já consagrados daqui e de outros estados." Acrescento que também os museus estão sendo administrados  por pessoas ligadas à política woke e só expõem obras de artistas do espectro político de esquerda ou de extrema esquerda.

                                            EXPOSIÇÕES

Obra que ilustrou capa do catálogo da mostra
Metrópoles, na Galeria O Cavalete, que
funcionava  no Salvador Praia Hotel.
INDIVIDUAIS – 1976 - Panorama Galeria de Arte, Salvador-Ba; 1978- Exposição no Museu da Cidade, Salvador-Ba; 1979 – Exposição na Galeria O Cavalete; Exposição na Galeria Álvaro Santos, Aracaju-SE; 1980 – Exposição na Panorama Galeria de Arte; 1982 - Exposição da Galeria O Cavalete, no Clube Bahiano de Thenis, Salvador-Ba; 1986 – Exposição da Galeria O Cavalete, Salvador- Bahia; Exposição no Salvador Praia Hotel; 1991 – Exposição Abertura do Verão, no Hotel Meridian, Salvador-Ba; Exposição no Mezanino da Estação da Lapa, Salvador-Ba. 


COLETIVAS 1972- Festival de Arte Jovem- Escola de Belas Artes da UFBa; 1973- Salão de Estreantes – Panorama Galeria de Arte; 1974- Panorama Galeria de Arte; 1975- Exposição na L.R. Turismo, na Villa da Barra;  Três Pintores, Três Estilos, na Panorama Galeria de Arte, Salvador-Ba; Exposição na Galeria Portas do Carmo, Salvador-Ba; Exposição na Galeria da Barra, Salvador-Ba; Exposição de Minitelas na Galeria O Cavalete, Salvador-Ba; 1976 -  Participação no Festival de Inverno, Cachoeira-Bahia ,  Museu Amanda Costa Pinto; Exposição no XVIII Congresso de Engenharia Estrutural da América Latina-BA; Exposição na  1ª Feira de Arte da Galeria  O
Obra da exposição Noturno, na Galeria 
O Cavalete , 1982. Na época a galeria
funcionava no Clube Baiano de Tênis.
Cavalete, Salvador-Ba; 1977- Participação no 1.° Salão de Verão, na  Pousada do Carmo; Participação no Salão da Prefeitura de Santo Amaro-BA ;  Participação na  EXPOEMA, na  Galeria de Arte do Senac, Salvador-Ba;  Participação na  II Feira de Arte da Galeria O Cavalete, Salvador-Ba; 1978 -  Participação da Exposição no  1.° Encontro de Arte da  FUNCISA no Museu de Arte da Bahia, quando recebeu a Medalha de Menção Honrosa; Exposição Freiras , na Galeria O Cavalete; Exposição na Galeria Eucat Expo, Salvador-Ba; Exposição na Galeria O Cavalete; 13ª  Mostra de Arte da AGTEB, no Salvador Praia Hotel-BA; Exposição na  Biblioteca Central dos Barris, Salvador-BA; 1980 - Exposição Arte Bahia/80, na Galeria O Cavalete;   1981- Coletiva da Primavera na Panorama Galeria de Arte;  Participação no  X Festival de Arte de São Cristóvão, Sergipe; 1982 - Exposição de Artistas Plásticos Contemporâneos no IV Encontro Monástico Latino Americano, no  Retiro São Francisco, Salvador-Ba;  Exposição no Centro Integrado de Artes da Bahia - CIAB, Salvador-Ba;  1983 - Exposição de  Minitelas no Shopping Boulevard, Salvador-Ba; Exposição no  Circuito de Artes Plásticas do Nordeste, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; 1984 – Lançamento do Catálogo do Acervo do Museu de Arte Moderna da 
Obra pertence ao acervo do MAM-Ba.
Bahia, Salvador-Ba; 1988 – Exposição A Criança na Visão do Adulto, no foyer  do Teatro Castro Alves ; Exposição Solidariedade em benefício do GAPA, no Shopping Iguatemi; 1992 - Coletiva - Galeria do Othon Palace , Fortaleza - CE ; 1994 - Coletiva NR Galeria - Salvador-BA ; Exposição de Inauguração da Galeria Abaporu, Largo do Pelourinho, Salvador-Ba; 1999 - Coletiva- Tropical Hotel da Bahia - Salvador-BA ; 2001 - Coletiva - Forte de Santa Maria - Farol da Barra,Salvador-Ba.
OBRAS EM MUSEUS E ACERVO - Museu da Cidade - Salvador-Ba; Museu de Arte Moderna da Bahia; Salvador-Ba e no Mosteiro de São Bento, Salvador- Ba.