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sábado, 20 de janeiro de 2024

O ÚLTIMO CHAMAMENTO DE CHICO VIEIRA

Os amigos do artista Chico Vieira se despedem
 cantando no seu sepultamento.
E
sta foto registra o momento em que os amigos do artista Chico Vieira,  cantavam na tarde  de ontem, dia 19.01.2024, no cemitério Quintas dos Lázaros,  em sua homenagem. Chico era artista durante 24 horas e quando não estava pintando, tocando e cantando ele andava pelas ruas do centro da Cidade fazendo seus exercícios físicos e foi assim que sentiu-se mal, o internaram, mas não resistiu vindo a falecer no último dia 18. Seu amigo e parceiro o cantor Roque Peixoto que anima os visitantes e locais com sua voz e violão no Pelourinho, e a quem Chico chamava carinhosamente de Negão cantou uma última canção que o Chico Vieira chegou cantarolando no dia 17. Lembrou Roque que perguntou o porquê daquela música e ele respondeu com seu jeito direto: Porque eu gosto,  e passaram a cantar. Durante o sepultamento Roque Peixoto o homenageou cantando a mesma música e os demais amigos acompanharam. É uma música de Gilberto Gil, não é das mais conhecidas, e não consegui saber o nome. Depois outro amigo cantou Canção da América, de Milton Nascimento, que diz: "Amigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves / Dentro do coração / Assim falava a canção que na América ouvi / Mas quem cantava chorou / Ao ver o seu amigo partir."
Os amigos ainda lembraram  alguns casos e de seu jeito de ser e  dizer: "Vamos embora Porra!" Foi assim que  nos despedimos deste artista que deixa uma lacuna naquele ambiente de cores, sons, alegria e sofrimento que é o microcosmo Pelourinho.

Fiz esta foto na tarde do último dia 10 em seu
ateliê e ele estava muito feliz por ter sido
 lembrado.Enviou-me  material até dois dias
 antes de falecer. Adeus meu amigo!
O Chico Vieira batizado como Francisco Carlos Vieira Borges era um desses personagens baianos que você encontra no Centro Histórico de Salvador com os cabelos desgrenhados, a barba crescida e camiseta colorida, de bermudas e empunhando uma sandália japonesa. Nasceu e se criou naquele ambiente do Pelourinho portanto era uma pessoa completamente integrada aquele espaço e  um dos autênticos representantes da fauna local. Gostava de batucar e tomar umas cervejinhas para alegrar. Mas, por trás desta figura singular tinha um artista vigoroso e experiente que já tinha vivido alguns anos na Europa e lá estudou em importantes instituições. Em 1971 ganhou uma bolsa de estudos e foi para a Alemanha frequentar a Escola de Belas Artes de Berlim onde ficou até 1974, e em 1975 ganhou outra bolsa de estudos para cursar Gravura em Metal concedida pelo Governo Português na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Lá conheceu sua esposa Ana Ortigão com quem tem três filhos, todos morando em Portugal. O Chico Vieira sempre gostava de identificar suas obras dentro de uma visão antropológica, talvez numa clara influência dos ensinamentos do mestre Vivaldo Costa Lima . Quando pintava pessoas sempre dizia que a obra é da série Antropologia Visual, principalmente se tinha alguma participação dessas pessoas que residem ou trabalham na área do Centro Histórico. Até os vídeos que fazia quando ocorria um evento o Chico Vieira me enviava e lá estava escrito Antropologia Visual. Enquanto a sua obra propriamente dita ele classicava de um abstracionismo tropical porque ali estão inseridos elementos que marcam muito nossa situação cultural e geográfica.

O artista Chico Vieira na janela  
do ateliê. Foto de Luciana Brito.
10.01.2024.

Era o último dos filhos do casal Carlito Vieira Borges e Clarissa Azevedo Reis, porque seus pais tiveram cinco filhos e todos os quatro irmãos já haviam falecido. Nasceu em 4 de outubro de 1948 na Ladeira de São Francisco, número 3, em Salvador, quando a área ainda estava completamente degradada e ali funcionava o que chamamos de baixo meretrício. Durante a entrevista rindo Chico Vieira disse que sua mãe era uma espécie de agiota e emprestava dinheiro a juros para as prostitutas e outras pessoas que viviam ali. Estudou o primário e o ginásio em escolas da área na Escola Urânia da Bahia e na Escola São Lourenço. Quando sua mãe faleceu tinha apenas 14 anos de idade. Na juventude participou do movimento estudantil contra a ditadura militar, e também do tropicalismo que dominou a Bahia, dos carnavais na Praça Castro Alves e frequentou nas tardes de domingo as sessões dos cinemas Jandaia, Pax e Tupi na Baixa dos Sapateiros. Em 1966 seus parentes resolveram colocá-lo na Escola de Aprendizes Marinheiros, que funciona na Cidade Baixa, em Salvador. Foi muito importante para sua formação porque tinha excelentes professores além de disciplina e formação do cidadão. Ficou na Marinha por três anos e concluiu o segundo grau.

                                                                   OPTOU PELA ARTE

Obra abstrata e figura
humana
.
Naquela época a Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia funcionava num prédio em estilo colonial na Rua 28 de Setembro, portanto no Centro Histórico, e foi quando em 1968 ele fez o vestibular sendo aprovado. Também estudava no curso livre de alemão no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, que até hoje funciona no Corredor da Vitória, atualmente com o nome de Instituto Goethe. Enquanto estudava trabalhou na restauração do Museu do Carmo e participava das feiras de arte do Terreiro de Jesus, em Salvador. Também chegou a expor suas obras nas feiras de artes das praças da República, em São Paulo, e da General Osório, no Rio de Janeiro.

Toda esta sua trajetória contou com o apoio irrestrito do professor Vivaldo Costa Lima, já falecido, que foi o homem que liderou a restauração da área nos governos de Antônio Carlos Magalhães e nos subsequentes. Eles iniciaram e concluíram grande parte da reforma do Centro Histórico de Salvador. Com muita competência e determinação Vivaldo Costa Lima defendia que os moradores locais deveriam permanecer e para isto criou uma política de qualificação profissional. Para as crianças tinham vários programas com vistas a criar condições de uma sobrevivência digna. Trabalhei no início da recuperação do Centro Histórico juntamente com o meu amigo o saudoso Gey Espinheira que era o responsável pelos programas sociais. Nos formamos em Ciências Sociais na mesma turma da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFBA, que funcionava na Av. Joana Angélica onde hoje está o Ministério Público Estadual. Como eu tinha também a formação em Comunicação trabalhava na Assessoria de Imprensa. Vivaldo era etnógrafo, um homem culto e muito temperamental. Presenciei alguns embates dele por discordar de orientações vindas dos governos federal e estadual porque tudo era feito de comum acordo entre o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia -IPAC e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Chico Vieira falando de sua
trajetória artística
.
O professor Vivaldo Costa Lima procurava de todas as formas proteger os locais e quem cuidava desta parte, deste contato direto era o Gey Espinheira por ser uma pessoa calma e que compreendia inclusive a resistência de alguns moradores que eram contra a reforma. A situação local era tão caótica que lembro que o fotógrafo Magno Cardoso, ia fazer a documentação dos imóveis em ruínas e tinha que ser acompanhado de algum segurança porque senão a máquina era roubada. Poucos tinham a coragem de andar pelo Maciel de Cima e Maciel de Baixo e outras ruas do Centro Histórico. Em outra ocasião eu estava fazendo uma reportagem com um fotógrafo da revista Manchete, do Rio de Janeiro, quando apareceu um ladrão e tentou arrebatar a sua máquina fotográfica Rolleyflex. Não conseguiu e entrou num daqueles casarões em ruínas. Até hoje o Centro Histórico ainda oferece perigo para os locais e visitantes.

                                                              CHAMAMENTO

Obra de Chico da série
abstracionismo tropical  

Voltando ao Chico Vieira depois desta permanência na Europa ele contou que seus parentes daqui da Bahia ficaram preocupados porque não dava notícias. Na época sua família morava no bairro de Castro Neves, em Salvador. Foi então que um irmão seu conseguiu uma fotografia 3 x 4 dele que estava num álbum de quando servia na Marinha do Brasil e levou até o seu tio Antônio Vieira, que chamava de tio Tonho que era pai de santo em Maragogipe, no interior da Bahia. O tio amarrou a foto no pé de um pombo e fez um “trabalho” pedindo para que ele voltasse. Revelou ainda o Chico Vieira “que no ano de 1976 um dia estava numa praia em Portugal com a família quando recebi inexplicavelmente uma espécie de chamamento e decidi voltar para Salvador." Falou ainda que seu tio Tonho todos os anos no dia do  aniversário em 11 de agosto, ele fazia um ritual com matança de animais e isto ficou marcado em sua infância.

.
 Chico Vieira trouxe a mulher e os filhos, um menino e duas meninas.” Foram morar em Itaparica e lá construíram uma casa em Barra Grande onde moraram de 1983 a 1986. Nesta época pinta obras contando a História do Brasil de 1500 a 1900, concluindo em 1987 utilizando a técnica mista e de colagens e inicia o Projeto Pró-Índio. Vivia da pintura e da ajuda da família da esposa. Um dia o sogro já idoso veio a Salvador com a intenção de leva-los para Portugal porque ele precisava dividir os bens que tinha. Foi aí que Chico Vieira concordou que ele levasse o menino para lhe fazer companhia. O Chico Vieira botou o pé firme e não aceitou voltar. Tempos depois a esposa teve que retornar a Portugal com as duas filhas e estão por lá até hoje. Nesta obra ao lado vemos sua habilidade no desenho e no uso das cores.Obra feita en nanquim e aquarela sobre papel fabriano que ele denominou de Cabeça Ecológica.

                                                                                                                                                                                             LEMBRANÇAS

Foto 1. Carteira de estudante de
 Berlim. Foto 2. Do curso de
Gravura em Metal, Lisboa.
De sua permanência em Portugal  lembrou que Lisboa estava numa efervescência social, política e cultural muito grande. Foi a época da chamada Revolução dos Cravos e da independência de várias colônias portuguesas na África.  Tinha a Casa de Angola, em Lisboa e  lá conheceu vários líderes revolucionários africanos entre eles Samora Moisés Machel. Foi um líder moçambicano socialista que liderou a Guerra da Independência de Moçambique e seu primeiro presidente após a independência em 1975 e morreu em 1986. Disse o Chico Vieira que vivenciou muito do movimento na Revolução dos Cravos.  Atestam os livros de História que "Foi um levante militar e popular que ocorreu em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, e encerrou a longa ditadura liderada por Antônio Salazar. Nos anos 1970, os portugueses enfrentavam uma grave crise econômica, o que gerou insatisfação com o governo português. Além disso, as lutas pela independência das colônias portuguesas na África fizeram com que essa insatisfação se intensificasse."

                                           EXPOSIÇÕES

Painel em homenagem a Baiana do
Acarajé, que desapareceu em 2021.
Sua primeira exposição individual foi realizada em 1973 em Berlim, entre os anos de 1977, e em  80 participa da Bienal de São Paulo e fez uma exposição individual no ICBA, em Salvador; em 1981 retorna à Europa e faz exposições em Berlim e Lisboa. Em 1986 expõe no Museu da Cidade do Salvador, que funcionava no casarão no Largo do Pelourinho, ao lado da Casa de Jorge Amado. Em 1993 saiu da ilha de Itaparica e decidiu retornar ao Pelourinho e instala o seu ateliê, e aí volta a se entrosar com o movimento artístico local; em 1997 participa da exposição coletiva Pinte o Pelô e também em 1999 de outra coletiva na cidade de Mineapolis, nos Estados Unidos chamada de Expo 500 anos; em 2000 de uma mostra na Galeria do IPAC; 2000 de uma coletiva de artistas brasileiros chamada de Encontros do Fim do Mundo, em Algarve, Portugal; de 2001 a 2003 participa de várias exposições coletivas e individual no Algarve, Portugal; 2003 fez uma individual na Casa 8, em Salvador, Arte Espontânea Brasileira; em 2007 lança o álbum de gravura em metal Abstracionismo Tropical, em Genebra, na Suíça; participa da instalação Pintou Natal no Pelô e em 2012 fez uma exposição de pinturas na Casa da Nigéria da Bahia comemorativa do quarto aniversário de inauguração .

Registros   do trabalho que fazia com
  as crianças do Pelô e chamava de 
 Antropologia Social.
O economista Dilton Machado escreveu um texto sobre a trajetória de Chico Vieira que aqui reproduzo em parte: "Todo este mosaico vivencial se traduziu naquilo que Chico Vieira denominou como abstracionismo tropical, expressão manifestada através de pinturas que saltam das telas em cores e formas que refletem predominantemente a brasilidade decorrente de nossas origens africanas e indígenas. " E continua: É gratificante sentar na Rua do Açouguinho, em frente ao seu ateliê, e observar o impacto que sua obra causa nos passantes, sejam eles baianos, turistas estrangeiros, emergentes das classes C e D, privilegiados com maior poder aquisitivo, intelectuais letrados, estudantes em formação, idosos, adultos, jovens, crianças e até os muito doidos que circulam perdidos pela área parecendo não conseguir desgrudar da sensação hipnótica e convidativa que seu trabalho produz".

 

 

 


sábado, 13 de janeiro de 2024

O PELOURINHO TEM O SEU PICASSO AFRO

Menelaw Sete com obras em seu ateliê
no Pelourinho
.
Vou falar hoje do artista Menelaw Sete. Ele é ágil, articulado,organizado,  falante,
performático e vaidoso.Sem dúvidas é o artista baiano mais conhecido fora de nossas fronteiras e que mais usa as redes sociais. Já fez exposições em vários países, foi entrevistado por jornalistas de publicações importantes daqui e do exterior, tem alguns documentários e outras publicações feitas sobre sua obra. Criou um personagem e quando pedi para fazer umas fotos ao lado de  algumas de suas obras expostas no ateliê imediatamente vestiu um casaco muito colorido. Assim fica fácil identificá-lo como o Menelaw Sete. Inconfundível. Com toda esta bagagem ele relembrou que fui o primeiro a escrever sobre o seu trabalho. “Você fez a minha primeira crítica como Jorge Ramos”, disse rindo. Isto foi em abril de 1990 quando apareceu na redação de A Tarde acompanhado do arquiteto Sérgio Fontes, meu conhecido, para falar sobre a exposição que iriam fazer na Galeria Panorama, que nesta época funcionava na Rua Nelson Galo, nº 19, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Menelaw Sete assinava como Jorge Ramos, seu nome de batismo, e pintava casario, festas tradicionais e personagens populares. Infelizmente seu colega o arquiteto e expositor o Sérgio Fontes foi uma das vítimas desta violência que vive a nossa Bahia . Ele estava num caixa eletrônico e foi reclamar da demora quando o usuário que era um policial civil partiu de lá e deu-lhe um soco no peito matando-o instantaneamente.

A nota que dei e o convite da exposição na
Panorama Galeria de Arte
.
Com seu jeito fácil de se comunicar Menelaw Sete relembra que passou algum tempo sendo um pintor impressionista e que este aprendizado deve ao pintor Almiro Borges, natural de Araci, interior da Bahia. Conheci o Almiro Borges, inclusive divulguei algumas de suas exposições. Era um homem simples e gostava de pintar casario, coisas ligadas as ferrovias, paisagens rurais e marítimas. Ele nasceu em 29 de abril de 1933 e morreu em 2014, em Salvador, quando morava no subúrbio ferroviário. 
Voltando ao Menelaw Sete indaguei o porquê deste nome já que antes assinava suas telas como Jorge Ramos? Foi aí que tive mais uma surpresa quando respondeu “fui ao bairro de Ondina onde fica a escultura Cetro da Ancestralidade, de autoria do Mestre Didi, já falecido, e foi ali que tive uma iluminação para trocar o meu nome. Daí em diante tudo mudou para melhor em minha vida!”

Menelaw Sete terminando uma tela em
seu ateliê
.
O Menelaw Sete gosta de trabalhar em grandes espaços e me disse que ultimamente está pintando em telas de 2m x 2m. Sua obra se destaca pela qualidade da composição e apresenta linhas grossas que vão se entrelaçando num vaivém que resulta em espaços que vai preenchendo de cores fortes e variadas. Tem uma excelente visão espacial dos objetos e figuras humanas e formas que compõem as suas obras, algumas abstratas com tendência ao cubismo e outras ao figurativo, todas são obras contemporâneas e de grande impacto visual.  Quando lhe perguntei se já tinha ouvido e se ficava incomodado quando lhe diziam que de longe sua arte lembra as criadas pelo genial pintor espanhol Pablo Picasso ele riu e respondeu. “Sou o Picasso afro!” Aí é que está a razão da lembrança porque tanto o genial pintor espanhol Pablo quanto o baiano Menelaw Sete beberam na mesma fonte que é a arte das máscaras e ícones africanos.

 Seu ateliê fica na Rua João de Deus, 13,no antigo Maciel de Cima, no Pelourinho, este que é o maior conjunto arquitetônico colonial da América do Sul. Localizado numa esquina de confluência de outras ruas, portanto num ponto estratégico que facilita a visão dos milhares de turistas de todo o mundo que visitam o nosso Centro Histórico. Ele pinta e expõe suas obras na calçada atraindo a atenção de quem passa também pelo diferencial de sua obra em relação a muitos de outros artistas que têm seus ateliês no Pelourinho, porque a maioria faz pintura naif que são adquiridas por turistas como lembranças de suas viagens à Bahia.

                                              PERFORMÁTICO NATO

Aqui interagindo com as peças que
 pintou  e foram colocadas no
 fundo do mar.
É um performático por natureza já tendo feito várias performances  e algumas foram  registradas em documentários a exemplo de uma feita em 2005 debaixo das águas da Baía de Todos os Santos intitulada Lágrimas de Zambi quando expôs vários objetos de cerâmica pintados representando os escravos que eram jogados ao mar na travessia do Atlântico nas viagens  da África para o Brasil. Muitos não aguentavam as condições precárias onde eram aprisionados nas caravelas e morriam e logo depois eram lançados ao mar. O Menelaw Sete vestiu uma roupa de mergulhador e transitou por entre os objetos colocados estrategicamente no fundo do mar. O Zambi é o Deus Supremo do candomblé de origem bantu,e segundo os estudiosos corresponde ao deus Olorum que é reverenciado no candomblé de origem Queto e sincronizado com o Senhor do Bonfim. No candomblé não existe um culto específico para Zambi, apenas os cultos são para seus intermediários chamados de inquices. Não confundir Zambi com o líder negro da revolta dos escravos o Zumbi.

 Já fez uma performance com paraquedistas na ilha de Itaparica em 2006 intitulada Asas da Imaginação. Pintou alguns pequenos aviões, os macacões dos paraquedistas e ele próprio vestiu um daqueles macacões e com seu rosto e mãos lambuzadas de tinta se atirou do alto e os participantes faziam acrobacias até chegar ao solo. Com aquelas acrobacias, os aviões e paraquedistas pintados se formavam no ar várias imagens coloridas. Foto ao lado.

Tem um documentário datado de 2016 de autoria do cineasta italiano Eduardo Veneziano chamado Um Baiano Pirandelliano onde o Menelaw Sete faz outra performance mostrando a sua origem e reclama das dificuldades que enfrentou para chegar aonde está.  Fala do Planeta que sofre a ação nefasta do homem. Revela que sofreu com o caos do Terceiro Mundo, e este documentário foi feito sob o patrocínio da cidade italiana Sciaca Terme. Ao lado Menelaw Sete sendo filmado.

Outro documentário de  2018 é de autoria do cineasta francês Pierre Meynadier chamado  Origem onde ele contracena com a velha ceramista Ricardina Pereira da Silva, mais conhecida por d. Cadu, tem 103 anos de idade, nasceu em 14 de abril de 1920. Ela reside na localidade de Coqueiro, no município de Maragogipe. O documentário foi feito aí nesta localidade que fica nas margens do Rio Paraguaçu e participaram alguns índios da tribo Kiriris que habitam o município de Banzaê,interior da Bahia.Ao lado o artista Menelaw Sete e a ceramista d. Cadu.

No dia 2 de Julho de 2023 acompanhado por uma parte dos músicos da Banda Swing do Pelô fez uma performance em frente ao seu ateliê no Pelourinho, em Salvador, atraindo centenas de pessoas enquanto ele pintava freneticamente uma grande tela com seus traços e cores. 


Participou de uma performance chamada de Cavalete Elétrico e depois batizada de Pós Tudo  juntamente com o cantor e compositor Carlinhos Brown e o ator Jackson Costa.Depois de algumas apresentações em Salvador foi apresentada em São Paulo com o apoio da Acrilex. Foto 1. Carlinhos Brown, o empresário italiano Ezio Dellapiazza que na sua trajetória artística o apoiou. Foto 2. Carlinhos Brown e Menelaw Sete. Foto 3. As mulheres que contracenaram com os artistas. Foto 4. Carlinhos Brown e Menelaw Sete em plena performance

Foto 1.Publicações daqui e do exterior
falando de sua arte. Foto 2.Bill Clinton
no seu ateliê
. Foto 3. Ao lado  de Oscar
 Niemeyer recebendo homenagem
,da Associação de Magistrados,
no Rio de Janeir.

O Jorge do Nascimento Ramos, este é o nome de batismo do artista Menelaw Sete  foi registrado em 01 de agosto de 1964, no subúrbio de Pirajá, em Salvador. Diz que nasceu no terreiro da Mãe Sabina. É filho de Helena Rita do Nascimento e Jovino Oliveira Ramos que narrou o seu nascimento dizendo que ela foi para o terreiro para ter a criança. Quando nasceu a parteira deu poucos dias de vida. Foi aí que a Mãe Sabina acendeu um charuto e apelou para o Caboclo e deu umas baforadas no rosto da criança. Disse ela que incrivelmente a criança acordou e sobreviveu. Porém tinha a saúde frágil e até os dois anos de idade não andava. Certo dia estava sentado no chão do terreiro da Mãe Sabina, que era um terreiro de Umbanda, quando entraram alguns cachorros brigando e assustado ele levantou e passou a andar a partir daquele dia.
“Minha vida é um pouco complicada porque nasci em Pirajá e só fui registrado poucos anos depois. Acredito que minha idade real está perto dos 64 a 65 anos de idade.  Saímos de Pirajá e fomos morar no bairro da Federação na Rua do Acaçá.” Esta Rua tem este nome porque um vendedor do tradicional Acaçá construiu várias pequenas casas com o dinheiro da venda dos acaçás que é uma comida de origem africana feita de milho branco ou vermelho e enrolado num pedaço de palha de bananeira. Conheci este vendedor de acaçá. Ele saía mercando seus acaçás num tabuleiro de madeira que carregava na cabeça e ao chegar em frente a uma casa que seus moradores costumavam comprar o seu produto gritava o número da residência. “O 28 e 26 vão querer?” Na realidade tratava-se dos números 128 e 126 da Rua do Amparo do Tororó, no bairro do Tororó, em Salvador, ele resumia para ficar mais fácil ser ouvido e assim prosseguia sua jornada. Se não estou enganado o nome dele era Lourival, não tenho certeza. Procurei pesquisar e não encontrei nenhuma referência até agora.

Bela obra que é a  representação de uma
Guernica afro
 
Menelaw Sete passou parte de sua infância no bairro da Graça enquanto sua mãe trabalhava lavando roupas na casa da família Câmara. Na época não tinha máquina de lavar. Sua mãe o matriculou numa escola kardecista no mesmo bairro  e quando terminava seu serviço o pegava e iam para casa. Ele cresceu  e andava meio solto, frequentava a Escola Politécnica e a Faculdade de Arquitetura, que ficam no bairro da Federação. Ia comprar cigarros e guloseimas que os estudantes pediam e assim ganhava uns trocados. Lembra que nos anos 60 realizavam corridas de automóvel na Avenida Centenário e que não perdia uma, onde se destacavam corredores como Lulu Geladeira, Carlos Medrado, Ivan Cravo, Roberto Bahia dentre outros. Também foram de sua época os criminosos De Mola e Zé Garatanha. Menelaw Sete e sua mãe moraram na Rua do Acaçá durante uns cinco anos e depois sua mãe comprou um terreno no subúrbio de Itacaranha. Ela já estava separada do seu pai e foi construindo uma pequena casa, a qual não conseguiu terminar. Nesta época estudou no Colégio Cleríston Andrade e no Colégio Luiz Tarquinio. Entrou para a Marinha do Brasil e seguiu para o Rio de Janeiro. Depois deu baixa e veio para Salvador e passou a ser segurança na agência Central do Banco do Brasil a qual em julho de 1990 sofreu um assalto cinematográfico. Quando lhe perguntei como reagiu com a chegada dos assaltantes fortemente armados, respondeu que “Graças a Deus estava de folga”.

Foto 1.  Livros que ilustrou as capas
 com obras de sua autoria. Foto 2.
Brinca com o neto inglês Ronei. Foto 3.
Escultura em ferro de sua autoria no 
Largo Dois de Julho,Salvador,Bahia.


Enquanto trabalhava no Banco do Brasil já pintava os seus quadros e conseguia vender para alguns aos colegas do banco e outras pessoas conhecidas. Decidiu em 1991 largar o emprego de segurança e se estabeleceu no Pelourinho num pequeno espaço dentro do Hotel Pelourinho e começou sua carreira de pintor. Continuou pintando no estilo impressionista e com outros artistas fundou um grupo teatral chamado Filosofia Vertical e levaram a peça Tubo de Ensaio. A peça foi apresentada no Teatro Raul Seixas, pertencente ao Sindicato do Bancários. Confessa que a experiência de trabalhar com o coletivo é muito difícil e resolveu deixar o teatro e cuidar de sua pintura.

Foi se desenvolvendo e deixou de pintar casarios, festas populares e outros motivos ligados às tradições baianas e passou a pintar abstratos foi quando sua arte ganhou projeção nacional e internacional. Recentemente esteve em Portugal e na Itália. Em Portugal uma obra de sua autoria ficará em exposição permanente no Museu Santo Antônio, na cidade de Lisboa, enquanto na Itália, na cidade de Sciacca Terme, que fica na Sicília pintou uma obra para a universidade local e tem uma sala especial onde suas obras ficam expostas permanentemente no museu local. Parte superior do formulárioAproveitou sua ida à Europa e visitou sua filha que mora em Londres e  para   pintar, mostrar a sua arte e conhecer outros países.

                                                          ORGANIZADO

Menelaw pintando na exposição
 em Paris,  França,  Galeria
Espaço Cinco, em 2010
.
Disse que resultado  da venda de seus quadros adquiriu o imóvel na Rua João de Deus,13, no Pelourinho, onde tem seu ateliê e um apartamento no bairro Politeama, em Salvador, onde mora com sua esposa Jaci Ramos com quem está casado já mais de trinta anos e têm três filhas e dois netos. Pela manhã vai para o Pelourinho e inicia a sua jornada. Tem uma rotina de começar a pintar pela manhã, “com inspiração ou não tenho que pintar! Só deixo de pintar se estiver com um problema que venha a me preocupar muito”. Entende que tem que produzir para quando uma pessoa interessada em sua arte entrar no seu ateliê tenha à sua disposição várias obras porque uma daquelas certamente vai lhe emocionar e ela vai comprar. “A arte é o encontro. Tem que ter as obras para que as pessoas vejam, analisem e se emocionem”.

Conheceu no Pelourinho um pintor italiano chamado de Gentili que lhe contou uma história interessante. Um marceneiro produzia várias cadeiras e não conseguia vende-las. Certo dia um amigo disse-lhe por que você continua fazendo cadeiras se não consegue vende-las? Mesmo assim o marceneiro continuava a fazer as suas cadeiras. Foi quando chegou na cidade um circo e houve um problema com as tábuas das arquibancadas do circo. Então o dono saiu desesperado procurando onde poderia adquirir cadeiras para substituir as arquibancadas. Foi assim que o marceneiro vendeu de uma só vez todas as cadeiras que tinha produzido. Daí em diante o Menelaw Sete tomou esta lição de forma literal e não parou de pintar as suas telas.

                                                                    PRECONCEITOS

Menelaw Sete ao lado de Almiro
Borges durante um documentário
 feito pela TV Bahia, em Salvador.
Ele reclama que teve que enfrentar vários preconceitos e a arte estava sempre presente em sua vida pintando em pedaços de papelão e compensados que achava. Foi aí que nos anos 70 o pintor Almiro Borges, que era um homem simples e tranquilo foi morar no subúrbio e lhe passou algumas telas, tintas e pincéis além de orientação como pintar. Mostrou livros dos grandes pintores. Tudo era novidade para ele e que na época só “persistia em existir”.

Falou que os oriundos da academia sempre “olharam com certo preconceito para sua arte por não ter frequentado a Escola de Belas Artes.” O fato é que Menelaw Sete cresceu e prosperou como artista e hoje talvez seja o artista baiano que tem mais reconhecimento nacional e internacional. Nas suas telas podemos ver e sentir a presença da cultura africana nas figuras que pinta, nas angulações que lembram as máscaras e ícones que tanto encantam os que têm oportunidade de conhecer. Podemos dizer que Menelaw Sete e o grande Picasso beberam na mesma fonte na cultura africana e que hoje com a globalização tudo é exposto e se multiplica digitalmente.

O Menelaw Sete pinta visceralmente, é um artista que vive a arte durante vinte e quatro horas. Pode não ter o refinamento comportamental e mesmo a erudição dos acadêmicos, mas tudo isto é superado por seu talento e por esta sua capacidade de transcender. Ao vermos ele pintar temos a impressão de que baixou um caboclo ou orixá de um terreiro de Umbanda ou Candomblé e o impulsiona a pintar freneticamente e a gente fica com a sensação de que ele está com uma pressa inexplicável. Tem um controle excepcional dos pinceis, das tintas e dos espaços que estão diante dele. Quando os espaços estão já preenchidos ele não para e repinta por cima e cria novos elementos.

                                                       MICROUNIVERSO

Durante a performance no
Dois de Julho, no Pelourino,
 em 2023.
O Pelourinho é um microuniverso. Se você for ao Pelourinho numa  tarde de verão e não está acostumado ficará chocado com o movimento. Parece que já estamos em pleno carnaval pelo vaivém daqueles personagens únicos, da presença de turistas de todo o mundo falando idiomas os mais diversos. De repente passa uma banda tocando, umas filhas de santo vestidas a caráter, um vendedor de frutas, uma baiana do acarajé. Com as portas do seu ateliê estrategicamente abertas e imensas telas expostas na calçada como produtos de uma feira livre o Menelaw Sete é um dos mais vistos, visitados e solicitados entre os artistas que trabalham na área. Ele já recebeu a visitas de personalidades de várias partes do mundo como Bill Clinton, Peter Fonda, Jô Soares, Gabrielle Lazure, dentre outros. Foi homenageado em 2005 no Rio de Janeiro e recebeu das mãos do arquiteto Oscar Niemeyer um diploma emitido pela Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro. Já recebeu também honrarias na Itália e Argentina. Fez mais de cinquenta exposições entre coletivas e individuais inclusive expôs na Suíça, Bélgica, França, Itália, Estados Unidos, Portugal, Espanha e Alemanha. Tem obras em museus e coleções particulares em várias partes do mundo. Ele continua pintando freneticamente e tem uma cabeça aberta para novas informações e na busca de novos horizontes.

  

sábado, 6 de janeiro de 2024

AS CHARGES DE GENTIL TÊM MAIS FORÇA QUE UMA FOTO !

O  Gentil trabalhando em seu atelier.
A maioria das pessoas adora sair nas fotografias das redes sociais e mesmo nos álbuns de família alguns anos mais novas, outras exageram e colocam filtros e saem com a cara de vinte e cinco a trinta anos atrás, quando na realidade já passaram dos cinquenta ou sessenta. Com o passar dos anos é inevitável o aparecimento das rugas nos rostos, nas mãos uns sinais escuros e os cabelos começam a embranquecer. Tenho vivido esta experiência principalmente quando entrevisto mulheres, mas também alguns homens reagem assim. Vão logo dizendo que saiu feio ou feia nas fotos.  Aprendi durante muitos anos sendo repórter, chefe de reportagem e editor geral que a foto jornalística preza pela descontração, pelo instantâneo. Muitas vezes são instantes únicos e que jamais serão repetidos o gesto e a expressão daquele clic momentâneo. Geralmente são essas fotos as escolhidas. Quando se trata de uma revista de moda, um magazine de venda de produtos as fotos são estudadas , posadas e repetidas várias vezes. Lembro que certa vez quando fui cobrir a gravação de uma daquelas novelas de grande audiência na Globo numa locação no Convento do Carmo, em Salvador, uma cena em que a atriz aparecia numa janela para falar uma frase  foi repetida mais de vinte vezes. Não estou exagerando, e o diretor ainda deu uma bronca no ator que contracenava com ela. Fizemos as fotos, tomei uns depoimentos e fomos embora abandonando aquela tortura.

Caricatura que o Gentil 
fez do Gilberto Gil .
   
Imagine o que passam os caricaturistas quando vão apresentar uma caricatura de alguém para ser avaliada e publicada num jornal ou revista. Sim porque é da essência da caricatura realçar exageradamente os traços mais significativos do personagem. Por exemplo, se o Gentil for fazer a caricatura de alguém que tem um nariz grande evidente que vai ressaltar o tamanho do nariz daquele indivíduo. E a arte de exagerar e distorcer com proporcionalidade é muito difícil e exige habilidade do artista. Dito isto estou aqui diante de um dos bons caricaturistas que conheci nos anos que passei no Jornal A Tarde e também fora das redações lendo jornais e revistas de várias origens. É o Gentil, de corpo esguio, barba rala e rápido que nem uma metralhadora para falar. Sempre iniciando a frase com a expressão cara... Mas, relutou em prosseguir quando lhe disse que desejava entrevistá-lo sobre seu trabalho. Parece uma contradição este acanhamento, porém é um traço forte da sua personalidade. Não tolera falar de si e de seu trabalho. Entendo que não adianta ser um excelente artista e guardar sua obra num baú. Tem que mostrar e falar para as pessoas apreciarem, opinarem e assim a obra ganha vida própria porque as pessoas vão se emocionar ou não, darão suas opiniões, comentarão e surgirão narrativas as mais diversas e cheias de coisas curiosas. A caricatura  Gilberto Gil   revela a qualidade do seu traço e a sua sensibilidade em captar o essencial.

                                                           QUEM É

Páginas da Cartilha do Dois de Julho
ilustrada por Gentil.



Seu nome é extenso João Alberto Gentil de Moraes Bandeira, nasceu em 20 de
junho de 1961, em Salvador, no bairro da Liberdade. É filho de Carlos Alberto de Moraes Bandeira e d. Odete Borges Bandeira. É casado e tem uma filha adulta. Uma curiosidade é que seu pai nasceu no casarão colonial onde hoje funciona a Caixa Cultural o qual na época pertencia ao seu bisavô Eduardo Dias de Moraes Bandeira, que foi um dos responsáveis pela construção da igreja nova de São Pedro, que fica no Largo da Piedade, na esquina com a Avenida Sete de Setembro, em Salvador. Antes a antiga igreja de São Pedro ficava próxima onde hoje está o Relógio de São Pedro e foi demolida para a construção daquele trecho da Avenida Sete de Setembro. No casarão também já funcionaram a Rádio Sociedade da Bahia e os jornais Diário de Notícias e Jornal Estado da Bahia, que pertenciam ao Assis Chateaubriand, do grupo Diários Associados. Depois seus pais se transferiram para o bairro do Monte Serrat, na Cidade Baixa, e ele passou a estudar desde o primário até a conclusão do segundo grau no Colégio da Polícia Militar. Quando chegou a adolescência foi trabalhar e largou os estudos. O gosto pela arte já tinha se manifestado durante todo o tempo que estudou na feitura dos trabalhos escolares. Teve um professor que foi fundamental para despertar mais ainda o seu talento. O professor era o Andraus, um mestre do Desenho que sempre chegava nas salas de aulas carregando imensos e pesados materiais como um compasso, um esquadro e uma régua, todos de madeira. Ele desenhava no quadro negro com uma facilidade incrível deixando seus alunos boquiabertos tal a sua habilidade. Quando ele pronunciou o nome Andraus me veio à mente os anos que estudei no Colégio Antônio Vieira e o professor de Desenho era o Andraus. Ele era branco, tinha umas entradas no cabelo, e falava rápido e uma capacidade incrível em desenhar.

Caricatura do cantor e compositor Riachão.
O Gentil teve a sorte que seu primeiro emprego foi no Departamento de Arte da Tv Itapoan que era dirigido pelo cenógrafo Alecy Azevedo (falecido) que fazia as cenografias dos programas da emissora. Lembra Gentil que o Alecy tinha belas esculturas de sua autoria e que durante o carnaval e outros festejos ele sempre trabalhava fazendo as decorações de clubes. Inclusive uma ocasião decorou o Clube Bahiano de Thenis, que fica no bairro da Barra, em Salvador, quando ele criou várias máscaras que foram dependuradas nas laterais da agremiação. Em 2018 foi feita uma exposição na igreja da Barroquinha com dezesseis Orixás em tamanho natural das divindades africanas, esculpidas em papel marchê pelo artista plástico Alecy Azevedo (in memoriam). As obras integram o acervo do Museu da Cidade que foi fechado durante a gestão de ACM Neto na Prefeitura Municipal.

Caricatura do escritor Rubem
 Fonseca.
 Depois de trabalhar ao lado de Alecy o Gentil foi para a Televisão Educativa, que
estava em processo de instalação onde ficou por sete anos trabalhando no Departamento de Arte.  Cansado com aquela monotonia de funcionário público decidiu pedir demissão e foi trabalhar como free lancer desenhando. Outra forte razão de largar o serviço público foi porque na época do Governo Nilo Coelho o salário perdeu seu valor de compra. Confessa que foi uma experiência rica porque conheceu vários artistas entre eles Guache Marques, Márcio Meireles e muitos outros que passaram por lá. Assim foi se relacionando no ambiente artístico até que surgiu outra oportunidade com a saída do cartunista Paulo Setúbal, que trabalhava no jornal A Tarde e foi ser juiz classista do Trabalho, em Juazeiro, interior da Bahia e o indicou para substitui-lo. Estávamos no ano de 1995 e Gentil permaneceu em A Tarde durante dezoito anos saindo em 2013. Lá fez várias capas para o Suplemento Cultural que era dirigindo por Florisvaldo Matos, além de muitas outras ilustrações e charges publicadas no jornal durante todo este período.

                                                       DIGITAL X ANALÓGICO

Caricatura do cantor e compositor
Noel Rosa
Brincando o Gentil disse que está travando uma luta particular porque sempre trabalhou desenhando a mão e quando passou a usar um programa de computador as coisas fluíram com muito mais velocidade e as vantagens de fazer modificações são infinitas. No entanto o Gentil está se esforçando para não deixar de lado o analógico, o desenho feito à mão diretamente no papel. Também ficou uns tempos sem pintar em tela e que agora já está com umas telas as quais pretende fazer algumas pinturas. Recentemente esteve com o professor Eduardo Tudella que é da Escola de Teatro, e lançou recentemente um livro intitulado “A Luz na Gênese do Espetáculo”, e também lhe incentivou a voltar a pintar.  O Eduardo é light-designer e foi o responsável pela decoração do Rock in Rio, que funcionava no antigo shopping do Aeroclube, em Salvador, o qual pertencia ao grupo dono do shopping Iguatemi, hoje Shopping Bahia. Inexplicavelmente deixou de funcionar prejudicando dezenas de comerciantes. No Rock in Rio o Eduardo Tudella fez toda a decoração e nos pilares tinham umas caricaturas feitas pelo Gentil.

Quando perguntei se já teve algum problema de censura ou mesmo de desagradar a alguém por causa de uma charge de sua autoria ele lembrou que fez uma vez uma charge mostrando a escalada de violência na Bahia e um dos personagens era um ladrão de cor negra. Foi abordado por alguns colegas que disseram “A comunidade negra está aborrecida com você. Mas, não passou disto." Certamente foi no tempo da exacerbação do politicamente correto que se espalhou como um rastilho de pólvora em nosso país.

                                                             MUITAS OBRAS

Cantora de jazz Nina
 Simone
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O Gentil tem realizado inúmeros trabalhos de artes gráficas e design. Recentemente fez todo o projeto gráfico da Revista da Associação Baiana de Imprensa, fez uma cartilha em formato de história em quadrinhos contando todo o fato histórico da Independência da Bahia no Dois de Julho de 1883.Como vocês sabem a Independência da Bahia, também chamada de Independência do Brasil na Bahia, foi um movimento que, iniciado em 19 de fevereiro de 1822 e com desfecho em 2 de julho de 1823. Esta cartilha pode ser acessada no site do Tribunal de Contas do Estado da Bahia- TCE. O Gentil disse que gosta muito de História do Brasil e que tem lido e vê que muitos acontecimentos quase que se repetem claro com novos personagens e dentro de um contexto diferente.Também trabalha para as empresas do Polo Petroquímico de Camaçari e disse que tem uma rotina, embora esteja aposentado. Levanta-se cedo e após o café vai trabalhar criando suas charges e fazendo outros desenhos que lhes são encomendados pelos clientes.

Gentil na redação do jornal A Tarde
criando mais uma de suas charges.
Dizem que a fotografia vale por mil palavras. Digo que a charge vale mais que mil palavras porque ela nos apresenta um conteúdo de crítica do chiste. Muitos políticos têm horror aos chargistas principalmente quando a charge não lhes beneficia. Lembro que  estava no jornal A Tarde alguns políticos quando eram personagens de uma charge e elas não lhe eram desfavoráveis tentavam adquirir uma cópia com os chargistas para guardar de lembrança. Segundo o Wikipedia a palavra caricatura vem do italiano Caricare que significa “carregar, no sentido de exagerar, aumentar algo em proporção”, e que teria surgido no século XVII com o pintor Agostino Carraci da Bolonha. Ele criou uma galeria com caricatura de tipos populares da sua cidade. Depois outros artistas da Escola de Bologna também se destacaram nesta forma de arte entre eles Domenichino, Guercino e Pier Leone Ghezzi (1674-1755). E para finalizar a caricatura é um desenho que enfatiza e exagera as características de uma pessoa, animal ou objeto. Ela “revela um retrato bem-humorado, cômico e/irônico no que se refere aos aspectos físicos do objeto caricaturado e aos aspectos psicológicos e / ou comportamentais, como gestos, vícios e hábitos particulares”.