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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A ESTAMPARIA INDUSTRIAL COMO SUPORTE PARA A ARTE - 25 DE ABRIL DE 1983.

JORNAL A TARDE ,SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 25 DE ABRIL DE 1983

A ESTAMPARIA INDUSTRIAL COMO SUPORTE PARA A ARTE


“Talvez por falta de informação, há ou havia no Brasil um preconceito muito grande em encarar o artista plástico exclusivamente como um pintor ou escultor, quando ele pode também ser um designer.
Colcha de Retalhos, a obra que Cláudio Tozzi fez foi concebida num projeto específico para ser reproduzido em tecido.
Tem programação de inversões no desenho de forma que os pontos sempre coincidem como elementos modulares permutáveis. O original de Tozzi combina vermelho, vinho e preto, e as variantes compõe-se de azul, cinza e bege.

"Sou um artista satisfeito de não ter que seguir nenhuma linha de trabalho forçado. Tenho exercitado a minha liberdade criadora ao máximo de minhas possibilidades"Antônio Peticov, em Milão. Festa é o nome da obra que Peticov criou para a Arte e Estampa, imaginando-a como uma " boa festa, onde aflora toda a forma de energia". Seu desenho supõe uma explosão de luz, em tons fortes com as sete cores do arco-iris sempre presente em sua obra:vermelho,laranja,amarelo,verde,azul,anil e lilás. Ele manteve as sete côres, todas elas em tons pastéis:lilás,amarelo,rosa,cereja,verde, verde-água e azul-hortênsia.



Um tratamento diferenciado vem à pauta para o lançamento da nova coleção ao público em geral e à crítica especializada: uma real exposição de arte e de estamparia foi inteiramente montada para representar todas as etapas do projeto, que vem sendo desenvolvido há quase um ano, num contínuo intercâmbio entre e os cinco artistas participantes.


                     UMA INDÚSTRIA TÊXTIL

“Arte e Estampa” foi lançada em São Paulo, no último dia 12, onde permanece até o último dia do mês. Durante a mostra, as obras originais estão sendo vistas ao lado dos tecidos já estampados com desenhos especialmente criados pelos artistas.
Estarão expostos móveis revestidos com os novos lançamentos, cujas cores respeitam integralmente o original de cada autor, além de uma variante sugerida pela experiência dos fabricantes.
O ineditismo vai ainda além, com o recurso da vídeo-arte que se faz presente e permite a apresentação de “Bustos eletrônicos” de Gerchman, Gregório, Paulo Garcez, Peticov e Cláudio Tozzi. Como podemos ver é a arte acompanhando passo a passo a tecnologia. Realmente a indústria necessita de dosar a fabricação massificante com dose de criatividade e ninguém melhor para isto que o artista plástico.

                           O PROGRAMA COMPLETO

“Arte e Estampa” tem caráter itinerante, obedecendo a um roteiro de programações sucessivas ao evento paulista que se estende de 12 a 30 de abril na Alameda . Santos 2219. A exposição segue, então, para o Rio de Janeiro, permanecendo de 10 a 21 de maio em Ipanema, à Rua. Joana Angélica ,169.
Do Rio prossegue para Curitiba com vernissage marcado para 31 de maio à Rua Carlos de Carvalho ,963, onde a exposição continua até 11 de junho. O ciclo se encerra em Porto Alegre, no show-room de Moinhos de Vento, à Rua. Dr. Timóteo 577, com início em 21 de junho e permanência até 2 de julho.
A partir desses centros, e através dos mais de 400 representantes da empresa, os tecidos assinados serão levados a todo o país. É pena, que não teremos aqui exposta esta experiência que merece todo apoio e atenção.
Antônio Peticov, Cláudio Tozzi, Gregório Correa, Paulo Garcez e Rubens Gerchman são os convidados à experiência de mudar o suporte da obra de arte, agora assentada em tecido de puro algodão, prestando-se a múltiplas e variáveis utilizações podem cobrir paredes, revestir estofamentos, colchas, cortinas e tantas outras. Essa criação no marketing de tecidos tem a tônica das grandes idéias. Tecidos de decoração assinados por nomes famosos e acompanhados por certificados de autenticidade, sem dúvida, trazem a marca da fama desde o início.
"Estou tentando aprofundar cada vez mais, ser feliz,ser tranquilo,encontrar um equilíbrio na vida. Profissionalmente, quero ir mais fundo nesta busca.
Mobílias, como   para da série Coletivos, é o nome da obra  que Paulo Garcez criou.No original,o autor usou nove cores,onde predominam os tons de rosa, azul e amarelo.    

A PARTICIPAÇÃO DOS ARTISTAS

Para Eduardo Strumpf, diretor da Formatex, “Arte e Estampa” representa a busca de novos caminhos para a estamparia, oferecendo mais opções de qualidade ao consumidor e, ao mesmo tempo em que procura valorizar a participação do artista nacional em projetos empresariais, evita a habitual cópia dos padrões estrangeiros, como normalmente acontece neste mercado.
O crítico de Arte Carlos Von Schmidt refere-se à “Arte e Estampa” como um “oportuno projeto”, onde parecem ter germinado as “sementes da Bauhaus” e cuja “importância da iniciativa é visível a olho nu”. Absolutamente entusiasmado tanto com a idéia quanto com a sua realização, o crítico é enfático ao afirmar que o empreendimento “não pode parar aí”.
Os cinco artistas selecionados entre os mais representativos nomes da arte brasileira tiveram em relação à “Arte e Estampa” o que pode ser chamado de uma participação completa. Envolvidos de tal forma no projeto, cada um se sente um pouco pai, irmão, ou amigo da idéia. Antes da ação em si, foram questionados, questionaram também, sugeriram, participaram enfim da incorporação da idéia. Em seguida, cada um projetou, sofreu, viveu cada momento do processo de criação e da sua integração com o fim proposto, até que o caminho fosse encontrado. Continuaram participando no acompanhamento do produto final, opinando sobre as variantes sugeridas pela Formatex e, ainda, foram chamados mais uma vez para refletir sobre o significado desta participação.
Como traço comum, são cinco artistas jovens que tiveram o seu talento reconhecido em vida e num espaço de tempo não muito longo o que é por si surpreendente no panorama artístico nacional. Em decorrência, todos eles têm ainda um caminho bastante longo a percorrer e, no meio dele, “Arte e Estampa” teve para cada um o seu especial significado.
Do confronto de experiências, avaliações ou sensações surgem pontos em comum entre eles, como no tocante à divulgação do autor, considerável por todos de notável feição, seja por percorrer outras capitais, por revelar um público talvez novo ou a própria característica da mudança de suporte a ser encarada como incentivo para outros empreendimentos no gênero.
Como pré-requisitos para a realização, foi pautado apenas que os desenhos não fossem superiores a um metro, pelas especificações do tecido de decoração e que não superassem a doze cores.
Paulo Garcez foi o que mais se aproximou do limite das cores e Gregório usou o espaço máximo, os demais não atingiram os extremos permitidos à reprodução em chintz, com 1.30m de largura.
Quanto à criação artística que não seja para “viver exclusivamente como objeto de arte” houve, por parte dos cinco designers, uma aceitação com naturalidade e sem surpresas.
Garcez vibrou com toda a perspectiva do projeto, na medida em que não havia feito nada parecido até este momento. Já Peticov sentiu-se bastante à vontade pelo costume de atuar no meio que transcende galerias e museus exclusivamente mas apreciou considerar as possibilidades e limites da gráfica têxtil, esta, sim, revelando-se como uma novidade para ele.
Gregório confessou que teve muita dificuldade em fazer o original da estampa, mas acabou tirando muito proveito do desafio. Aliás, desafio foi a expressão quase unânime para definir “Arte e Estampa” pelos cinco participantes.
Tozzi acredita que é o tipo de iniciativa que poderá ajudar a destruir o preconceito que se tem contra os artistas, quanto a serem aceitos como pintores ou escultores mais não como designers. Ressalta que a mudança de suporte é a característica básica da arte deste século, e que está mais do que na hora dela se impor no nosso país. Gerchman acha muito importante o exercício numa nova linguagem e gostaria, de que outras iniciativas similares fossem levadas adiante, como forma de estímulo.
Mas o grande consenso entre os artistas se expressa na utilização da arte no processo industrial, desde que cada um tenha a sua medida para resguardar os limites da própria escala de produção.
Finalmente, quanto ao fato de iniciativas como esta virem incentivar a arte e o artista brasileiros, os participantes colocam este incentivo num outro nível. Rubens Gerchman diz que o “problema não é do artista, mas trata-se da mentalidade de quem está financiando, de quem está promovendo ações deste tipo”. Concordando plenamente., Claudio Tozzi resume:”Iniciativas como “Arte e Estampa”, muito mais do que o artista, incentivam a indústria de forma a mostrar que há caminhos bem mais saudáveis do que a simples cópia. Ela deveria ser encarada como um exemplo de fazer da indústria têxtil brasileira um veículo da nossa arte”.
“O artista está preocupado em conquistar o mundo. Eu estou concentrado na minha cidade, no meu meio, no meu próprio meio. Gregório Correa fez um desenho gráfico. São vários prédios concentrados, produzido em caneta sobre papel. O artista confessa ter tido muita dificuldade nesta realização, para a qual sofreu, demorou... depois gostou e queria fazer mais.
O original do autor apresenta dois tons de preto sobre fundo branco e a variante sugerida pela Formatex apresenta dois tons de cinza também sobre fundo branco.




“A iniciativa é exatamente o reflexo do pensamento novo, do artista de hoje, que chamo de pluri e participante. É uma questão de jogo de cintura que rebate um determinado “purismo” fora de época. É uma oportunidade absolutamente saudável, sempre que feita com critério e qualidade”.
A obra que Rubens Gerchman criou segue uma linha natural e representa uma paisagem com a qual ele convive no dia-a-dia.
O artista idealizou bananeiras sobre fundo azul e a variante em tons de bege, musgo e azul.





quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A ARTE VANGUARDISTA DO ARQUITETO ALMANDRADE - 21 DE ABRIL DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 1983.

A ARTE VANGUARDISTA DO ARQUITETO ALMANDRADE


Está expondo na Galeria Macunaíma, da Funarte, o artista plástico, poeta e arquiteto de São Felipe, Bahia, Antônio Luiz M. Andrade, o Almandrade. Sua figura magra e irrequieta é uma presença constante nas discussões e teorizações sobre tudo que diz respeito à arte. É um artista de vanguarda, que traz na sua obra a marca do aprendizado de uma escola de Arquitetura. Já participou de muitas coletivas, de bienais e salões, tendo recebido Menção Honrosa, no I Salão Estudantil, em 1972.
Foi recusado em vários salões, devido principalmente o distanciamento entre a teoria e a capacidade de realizar aquilo a que se propunha. Ausente das galerias, por razões também óbvias, optou por movimentos alternativos, e é um dos fundadores do Grupo de Estudos de Linhagem da Bahia, onde editou a revista Semiótica, em julho de 1974.

IDÉIAS DE ALMANDRADE

Para o artista baiano, “a arte é uma fala singular, especializada, que permite operacionalizar o absurdo, o contrário, a inversão. A seriedade do riso. A economia da emoção. Importante são os seus problemas, o uso de uma formalização mais precisa contra a superstição de um saber fácil e a ilusão de uma totalidade sem relações verticais. Como desmontar esta máquina semiótica (objeto/arte) ou acioná-la? É a grande dúvida. O segredo íntimo que irrita a ansiedade de uma satisfação imediata dos sentidos. É oportuno se falar numa política localizada, a ocupação do aparelho/arte em construir a um certo nível, um código incomunicável, intrigante, que altera a disciplina que rege o consumo de signos”.
Explica Almandrade que a princípio esta mostra que permanecerá até o próximo dia 13, na  Galeria Macunaíma, “são duas exposições ocupando o mesmo espaço: uma objetos de carpete, a outra registros fotográficos de eventos diversos, realizados entre 1976 e 1982, articuladas pelos incômodos irônicos”.
As fotos são informações sobre o uso de uma multiplicidade de suportes e experiências localizadas no território da arte. A questão central não é fazer uma exposição mais demonstrar um método de trabalho, as interrogações que ele tenta colocar ao olhar clínico e intencional predisposto a uma relação de pensamento. São na realidade experimentações tipo laboratório com efeitos exclusivos no campo cultural (meio de arte). Ou produtos de uma ciência que goza de suas próprias “inutilidades”. Como podemos perceber, o artista vive questionando conceitos e está sempre propenso a lançar suas idéias, discuti-las, e acima de tudo, lutar para que sejam aceitas. Diria que Almandrade é um daqueles “guerreiros”, que sente na pele a batalha em todos os campos e níveis. Está disposto a usar seus argumentos e teorias não apenas na defensiva, mas principalmente na ofensiva tentando conquistar espaço. E, graças a persistência, aliada a sua capacidade de criação tem conseguido vencer algumas “batalhas”, embora ainda sem maior projeção no cenário artístico nacional.
Sou daqueles que acredita em sua vitória. A princípio, o próprio artista imaginava (ele sempre está imaginando coisas!)  Que me colocava numa posição de apatia ou mesmo contrária a sua obra.
Pelo contrário, algumas restrições que diz limitavam-se a distancia que existe entre a sua teorização e a capacidade de colocar as idéias na prática. Lembro-me por exemplo, que num dos salões que integrei o júri o escolhemos entre os expositores. Na hora de realizar, Almandrade não cumpriu o que tinha estabelecido, e passou a culpar os organizadores, quando, na realidade, faltou foi determinação de sua parte.
Mas, agora formado, mais maduro, o Almandrade começa a deslanchar e espero que esta oportunidade que tem de expor na Galeria Macunaíma, no Rio de Janeiro, seja o passo decisivo para continuar defendendo suas idéias inovadoras, vanguardistas, e principalmente que surja uma verdadeira aliança entre sua teorização e a prática.

                                                                  O SILÊNCIO TENSO

O carpete é um elemento industrial, flexível e silencioso, sem cicatrizes na história da arte. Banal, com aparência sofisticada. Na mão do artista ele é submetido a um tratamento artesanal, deixa o chão para ocupar um lugar privilegiado na parede (suporte dos objetos de arte). Deixa de ser uma superfície de intimidade dos pés para se tornar uma superfície/objeto (arte), estranha ao ritual do olhar. O que é aparentemente íntimo para os pés pode ser áspero e barulhento para os olhos um excesso irônico.
A obra de arte é portadora de uma profundidade ruidosa, o sentido, um buraco de atrito para os olhos. Se o carpete absorve os ruídos dos sapatos, poderia absorver os ruídos do olhar, reter o sentido.
Situação paradoxal.
Concordâncias/discordâncias, acasos, uma razão oculta nestas situações fantasmagóricas. Outros elementos participam na formalização do trabalho, materiais de propriedades físicas diversificadas são relacionados. Um jogo de possibilidades onde transpira um ar de emoção frio e tenso. Imagens/fantasmas perdidas no mundo da razão e do cálculo. Uma lei desconhecida fundiu ou relacionou materiais e conceitos heterogêneos. Um problema é formulado, resta como alternativa para fugir deste ‘labirinto reto’, imaginar hipóteses de solução.

                                                  A DESRAZÃO VISUAL

“O vício da fotografia é reproduzir o outro (contorno visual), sem expor desconfianças. Estas são fotos de pequenos e até momentâneos inventos no meio campo da arte, objetos artificiais, maquetes, instalações, que deixam o espectador longe de sua materialidade, da dimensão exata etc. Entre estas reproduções e os objetos existem algumas diferenças: a foto mostra apenas uma sensação visual, eu poderia sugerir outra dimensão, outros materiais, estabelecer novas relações.
Estas fotos registram ou documentam eventos muitas vezes deslocalizados, minúsculos acontecimentos/arte que chegam a outros circuitos por intermédio desse aparelho. São situações inesperadas segundo a lógica da comunidade, invenções exorbitantes, impossível de um funcionamento puramente racional. Podemos afirmar que em alguns casos o ‘real’ foi destruído, ou melhor, foi construído apenas para ser registrado, um universo que só existe na fotografia e no meio de arte. Uma desrazão que ironiza e desterritorializa o olho

NOVOS CARTEMAS DE ALOÍSIO MAGALHÃES

Depois do Rio de Janeiro, Recife e Salvador, mais sete capitais receberão até o dia 31 de agosto, a exposição “Novos Cartemas e o Seu Processo de Criação”, de Aloísio Magalhães, dentro do projeto Itinerância, do Núcleo de fotografia da Funarte. O roteiro começa por Brasília, continuando depois por Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre. Dependendo de locais para exposição estão Cuiabá, Belém, São Luís, Fortaleza e Aracaju.
Para o núcleo a itinerância dessa exposição por quase todo o país, permitirá que se amplie ainda mais a visão comum que se tem da fotografia que, em Aloísio, não aparece apenas como produto final, mas como suporte para um processo criativo que subverte sua função inicial e alarga fronteiras. Mais do que uma relação contendo as fases nacional e internacional e preto e branco, esta última totalmente inédita, a mostra pretende recriar, com seus 32 trabalhos, todo o processo de concepção e criação dos cartemas.

                                    ROTEIRO

Na capital federal a exposição de Aloísio Magalhães ficará até o dia 8 de abril, na Galeria Oswaldo Goeldi, setor de divisão cultural, no Eixo Monumental. Em Belo Horizonte a mostra ficará no Palácio das Artes, na Av. Afonso Pena s/n.º ,de 19 de abril a 5 de maio. Em seguida virão :Vitória (Galeria Aloísio Magalhães, Av Gerônimo Monteiro s/n), de 12 a 22/05; Curitiba (Escritório da Funarte, Rua Cruz Machado 98) , de 26/05 a 16/6); São Paulo (Museu de Arte Moderna, no Parque Ibirapuera) , de 21/06 a 8/7; Florianópolis (Museu de Arte de Santa Catarina, Rua Victor Konder 71), de 19/7 a5/8) e Porto Alegre (Centro Municipal de Cultura. AV. Èrico Veríssimo, 307), de 16 a 21/8).


ESTOU AGUARDANDO - 7 DE FEVEREIRO DE 1983.

JORNAL A TARDE, SEGUNDA-FEIRA, 07 DE FEVEREIRO DE 1983

               ESTOU AGUARDANDO

Estive afastado em gozo de férias. Ao chegar, fiquei sabendo das denúncias feitas por A TARDE do sumiço de centenas de peças do Museu de Arte da Bahia e também do Livro de Tombo do Museu de Arte Moderna. Não foi surpresa para mim, que venho acompanhando o descaso e a falta de profissionalismo que ocorrem em nossos museus. Ainda não estão ciosas as autoridades da necessidade de colocar pessoas nessas instituições que realmente estejam interessadas em preservar nossos bens culturais e divulgá-los através de exposições bem organizadas de seus acervos. Assim, passaram muito tempo os museus a meros depósitos de “velhos” e empoeirados objetos de arte em seus depósitos mal cuidados e inseguros. Fiquei sabendo, que muitas peças estavam emprestadas. Empréstimos que duram anos e anos. Assim os museus baianos ficam desfalcados e as peças terminam por ganhar outro destino. Uma lástima! Uma postura que merece ser criticada em todos os níveis. Este comentário não é tardio. Não é, porque sempre será oportuno falar da falta de profissionalismo, Falar da falta de atenção para o bem público que pertence a todos nós. Houve omissão generalizada em todos os níveis, inclusive nas várias administrações que se sucederam desde a criação da Fundação Cultural. Não posso entrar no mérito porque fulano saiu ou deixou de sair do órgão. O que sei é que medidas eficazes não foram tomadas a nível de Secretária de Educação ou mesmo de Governo. E, sinceramente não acredito que medidas saneadoras sejam tomadas e que os responsáveis sofram qualquer punição. Espero, no entanto que pelo menos sejam adotadas as mínimas providências para que todas as peças que ainda estão por aí fiquem catalogadas em seus respectivos livros de Tombo, até que as pessoas criteriosas resolvam de uma vez por todas com estes problemas que enegrecem e desfalcam o patrimônio cultural da Bahia.
Sei que os museus sempre cedem sob empréstimo peças a outros museus em casos especiais. Mas tudo é feito dentro de contratos rígidos, com segurança, com prazos estabelecidos e que são obedecidos e estão sujeitos a punições em casos de não cumprimento de determinadas cláusulas.
Agora, emprestar e esquecer-se de devolver, e principalmente de cobrar, é realmente uma coisa lamentável.
Lembro agora que certa vez estive no Museu de Arte Moderna e encontrei o seu acervo encaixotado, embolorado e na oportunidade denunciei o descaso mostrado que o salitre, que invade o prédio do Solar do Unhão, estava destruindo as telas de Portinari, Tarsila, Di Cavalcanti e muitas outras.
Soube que arranjaram um local mais apropriado para o acervo.
Tomara que seja verdade. O que posso dizer é que sou persistente e continuarei cobrando uma providência, aliás estou aguardando...

                150 ANOS DA INDÚSTRIA BAIANA

Será, inaugurada hoje, ás 17h, no Arquivo Público do estado antigo prédio da Quinta do Tanque a exposição “Bahia 150 Anos de Indústria”. A mostra expressa uma visão geral do processo industrial na Bahia a partir da instalação das primeiras grandes fábricas, como a Santo Amaro do Queimado, Nossa Senhora da Conceição (Salvador) e a Todos os Santos, em Valença, apresentando marcas de produtos de grande valor artístico e histórico, que refletem costumes e mentalidade da época.
Em exposição, reproduções fotográficas de documentos antigos e marcas de produtos como charutos, tecidos, bebidas e outros fabricados no Estado, que se encontravam em livros de registro do final do século passado e início do atual: acervos fotográficos antigos de fábricas como a Empório Industrial do Norte, Cia. Leite Alves, Dannemann, Suerdieck, ao lado de fotos atuais.
A mostra é uma produção conjunta da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Arquivo Público e Secretária da Indústria e Comércio, ficando aberta para visitação durante todo o mês de fevereiro.

         120 OBRAS DE ARTE SERÃO LEILOADAS

Cento e vinte obras de artistas contemporâneos nacionais e autênticos tapetes orientais vão a leilão no próximo dia 9, quarta-feira, a partir das 21 horas, no Salão Monte Pascoal do Salvador Praia Hotel. O leilão será presidido por Noelina G. Lacerda, leiloeira pública oficial, tendo Luiz Caetano S. Queiroz como preposto em exercício. Segundo Luiz Caetano, esta é uma promoção pioneira em Salvador e a primeira de uma série que pretende realizar por todo este ano.
Nas grandes cidades do mundo, grandes leilões de obras de arte são acontecimentos rotineiros. Há excelentes mercados consumidores e a lei da oferta e da demanda funciona plenamente. Salvador, contudo, apesar de desenvolvida não tem ainda um público consumidor constante, pois o baiano não tem ainda o hábito de participar de leilões. É necessário que ele seja estimulado para isso.
“Aí é que está o grande problema”, afirma Luiz Caetano. “Como fazer com que o baiano passe a freqüentar leilões, a participar deles? Talvez o seu não comparecimento tenha, como motivo, a imagem errada que se criou em torno de leilões, principalmente quanto ao valor dos lances. Valor inacessível ao poder aquisitivo do consumidor de arte em potencial da classe média”. Tem contribuído demais para isso os filmes que passam na televisão, mostrando acontecimentos leiloeiros. Neles, os lances são excessivamente altos, acessíveis apenas para as pessoas com posses.
É preciso dar um fim a essa imagem falsa: o leilão é uma atividade democratizada e coloca uma obra de arte ao alcance de qualquer pessoa.
Nesse grande leilão do dia 9, estarão presentes obras de artistas bastante conhecidos dos baianos, alguns até internacionalmente conhecidos, como: Scliar, Rapoport, Francisco Oswald, Bustamante Sá, José Paulo Moreira da Fonseca, Dacosta, Jenner Augusto, Volpi, Fernando Coelho, Carybé, Rescála, Tati Moreno, Floriano Teixeira, Calasans Neto, José Maria de Souza, Carlos Bastos, Heitor dos Prazeres, Mirabeau Sampaio,  Fred Shaeppi, Scaldaferri, Leonardo Alencar, José de Dome, Emanuel Araújo, Mário Cravo, Yeda Maria, Itamar Espinheira e Dupaty.

O ESCULTOR HENRI MOORE TEM EXPOSIÇÃO NO MÉXICO


“Henry Moore no México” é o nome da mostra desse artista inglês ( Foto ao lado) que ofereceu a todos nós, exuberância de formas cores, texturas e reminiscências da arte Maia em 145 esculturas, 88 desenhos e 46 gravuras admirados por 225 mil pessoas durante três meses no Museu de Arte Moderna.
A exposição significa para os mexicanos um reencontro com o passado pré-cortesiano, pois este artista, de 84 anos, sofreu uma extraordinária influência da arte maia assim como da escultura mexicana monumental da época moderna. No México, Henry Moore é considerado como o maior escultor vivo do mundo, possuidor de uma hierarquia estética à altura do francês Auguste Rodin.
Coube ao artista inglês o privilégio de mostrar sua obra num dos mais importantes espaços culturais do país. O Museu de Arte Moderna localiza-se no Bosque de Chapultepec, oferecendo aos visitantes, além de peças em exibição, maravilhosa paisagem.
A mostra de Moore, patrocinada pelo Conselho Britânico, pela Fundação Henry Moore e por ele próprio, chama a atenção pois em todas as esculturas apresentadas em posição reclinada, é possível contemplar, de forma estilizada ou direta, evocações do artista relacionadas com a figura maia “Chac-Mool”, que significa “jaguar vermelho”.
Uma das características do Chac-mool, peça esculpida em pedra e existente na zona arqueológica de Uxmal, no sudeste do México e que tal obra aparece deitada, não de lado mais de costa com a cabeça voltada para um lado.
Suas linhas estéticas são a inspiração de Moore. Porém, isso não significa imitação mais sim reconhecimento e aceitação de uma escola estética que não se esgotou com o desaparecimento da civilização maia.
O escultor inglês comentou que a escultura mexicana lhe pareceu autêntica assim que a descobri, talvez porque imediatamente encontrei nela semelhanças com alguns entalhes do século XI que vi nas igrejas de Yorkshire”.
Para Moore, a escultora mexicana possui uma grande “qualidade pétrea”, fidelidade aos materiais e espantosa variedade nas formas, não sendo superada “por nenhum outro período de escultura em pedra”.
A exposição vista no México confirma o pensamento de Henry Moore de que “uma escultura deve ter vida própria” e que ao invés de oferecer a impressão de “um objeto menor talhado a partir de um bloco maior, deve levar o espectador a sentir o que vê, deve contar dentro de si sua própria energia orgânica, abrindo-se para fora.”

          RAIMUNDO OLIVEIRA TEM UM LIVRO

“Senta-te aqui ao meu lado, Raimundo, e vou te contar dos acontecimentos depois que puseste as asas da morte e partiste para teu céu de pureza e paz”, Assim escreveu Jorge Amado, um dos grandes amigos de Raimundo Oliveira. E na última sexta-feira, no Museu de Arte da Bahia, na Vitória, a Fundação Cultural do Estado da Bahia lançou a Via Crucis de Raimundo de Oliveira, um livro que reúne uma grande parte dos trabalhos do artista e dados biográficos da sua vida. Na apresentação, as palavras do governador Antônio Carlos Magalhães: “A Bahia possui notável tradição cultural, perpetuada, ao longo de séculos, pelos seus poetas, pensadores, ensaístas, escritores, pintores, músicos e escultores, homens que foram e são responsáveis pela grandeza e riqueza do panorama intelectual e artístico do Brasil e fora dele. Hoje, como já o fizemos em outras ocasiões, presenteamos o público brasileiro com um livro sobre a vida e o talento de Raimundo de Oliveira, um pujante exemplo da cultura dessa terra privilegiada”.

TOURO- Raimundo Falcão de Oliveira nasceu em Feira de Santana, no dia 24 de abril de 1930, á meia-noite em ponto.Era do signo de Touro. Profundamente religioso, era visto sempre nas manhãs de domingo, ao lado de sua mãe, dona Santa, a caminho da igreja matriz. Entravam pelo portão da frente. Estava sempre vestido de preto (de paletó e gravata).
Tinha a cabeça grande e o olhar tranqüilo, como se estivesse sempre conversando com a solidão. E pintava o que estava dentro e fora dela: aos anjos, os santos, as casas de Jerusalém, as frutas de feira de Santana e os deuses.
Um dia deixou a cidade onde surgiu e foi pintar no Rio de Janeiro e São Paulo. Mas voltou e foi outra vez e voltou. E confessou a um amigo: “Enquanto lá estive não pintei um único quadro. Vivi esses meses na boemia”. Era 1966, janeiro.Em um quarto do Hotel São Bento tragou a vida e pintou seu último quadro: a sua existência.

DOCUMENTO- Hoje, 17 anos depois, é feito um documento vivo. Dentro dele como num baralho da cartomante, a vida corre solta delineada nas palavras escritas pelos amigos, como Jorge Amado: “ ... Esse pintor, esse grande pintor da Bíblia e da Bahia, esse que passou a limpo, a violência e o tornou de maciez e veludo, esse que encheu de flores a áspera antiga, digo, tragédia antiga, esse moço de voz tímida e segura certeza, esse Raimundo de Oliveira é um profeta com alma de Francisco de Assis. Sá a Bahia o podia produzir, nos caminhos da cidade onde nasce o sertão: Só a Bahia o podia alimentar e oferecer às galerias do Sul, à glória e a fama, pois sua Bíblia tem uma respiração de candomblé (não Fosse ele filho de Mãe Senhora do Opô Afonjá) e não houvesse aprendido cozinhar com Olga de Alaketo). O profeta Raimundo, o grande da pintura brasileira, carregado de drama, de solidão e de pecado, é, no entanto, o mais alegre e terno, o mais puro e numeroso, jamais sozinho, pois sua palavra é de solidariedade e na sua mensagem é o maior entre os seres humanos, é a alegria fluindo dos pincéis e de seu coração. É o profeta de Feira de Santana, lá vem montado em seu jumento e vai levar sua carga de amor aos confins do mundo.
“A Via Crucis de Raimundo de Oliveira” tem projeto editorial de Emanuel Araújo, editoração de textos de Claudius Portugal e Myriam Fraga, trabalho de realização de Zilah Costa Azevedo. O preço de lançamento é CR$ 10.000,00


AS METAMORFOSES DE SANTE ESTÃO ACONTECENDO NO RIO - 11 DE MARÇO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 11 DE MARÇO DE 1983

AS METAMORFOSES DE SANTE ESTÃO ACONTECENDO
 NO RIO DE JANEIRO
A apresentação do crítico Mário Barata sobre a obra de Sante Scaldaferri é a comprovação da qualidade do trabalho do “retirante” de Itapuã.Mário fala das metamorfoses citando o angustiado Franz Kafka e se confessa impressionado com as figuras disformes e questionáveis do artista.Publico esta apresentação na íntegra em homenagem a Sante e ao mestre Barata. Mas antes leia  o bilhete afetivo de Sante:
" Caro Reynivaldo: 
Estou seguindo para o Rio a fim de inaugurar, dia 5 de abril, às 21 horas, uma exposição individual na Galeria de Arte do Centro Cultural da Universidade Cândido Mendes.

Infelizmente ainda não tenho os catálogos, mas assim que chegarem eu mando para você. Entretanto segue uma cópia xerografada da apresentação para esta exposição de Mário Barata.
Para as artes plásticas a I Feira da Cultura foi muito boa. Realmente a Bahia neste setor foi a melhor.
Quanto a mim particular, tive reconhecimento unânime da crítica e ontem recebi de presente um magnífico texto crítico de Theon Spanudis que após fazer xerox vou lhe mandar.
Lá o pessoal é muito profissional.
Não tem essa de padrinho, não. O cara se apresenta com os trabalhos e se for bom, não precisa mais nada.
Pessoalmente eu lhe conto...
Muito obrigado e lá vai o abraço de seu amigo.”

  METAMORFOSES CONVERGENTES

“O envolver da pintura com personalidade é o resultado de uma experiência humana e profissional e das surpresas de saltos qualitativos. Essas experiências, após a primeira afirmação do artista, fluem como energias ondulantes e, normalmente, navegam para novos portos, sem abandonar as estruturas iniciais de uma conformação individual, elaborando grafias diferenciadas dentro do quadro moldador do estilo da época.
Sem copiar soluções européias ou nortes americanas, Sante Scaldaferri, educado eruditamente em uma Escola de Belas Artes que começava a possuir professores modernos ao lado de mestres tradicionais, sentiu o impacto das formas dos ex-votos do Nordeste, que colecionou como o faziam ou fizeram o escultor Mário Cravo, seu amigo, e Mário de Andrade, grande brasileiro e no decorrer do tempo passou a “pintar gente com cara de ex-votos e não ex-votos com cara de gente.
Esse gesto não foi superficial ou aleatório: correspondia a uma maneira profunda de ser.
E as figuras representadas tornaram-se obesas e angustiantes e revelaram em todos os pecados capitais até começarem a metamorfosear-se em um animal de rabicho pequeno e petulante que, para Monteiro Lobato fora o Marquês de Rabicó, em fixação destinada à infância, mas na obra de Sante é uma criação visionária de ordem diversa, figurando um universo malsão e condenado à vulgaridade e ao animalismo dos piores instintos. A mudança da forma convergia, pois com a mudança de sentido crítico. O ex-voto e o orante são preces, enquanto que as figuras caricaturais, geralmente desnudas, da pintura atual de Sante Scaldaferri, constituem uma imprecação, através de retratos imaginários, contra seres brutalmente metamorfoseados.
A caricatura, no bom sentido, seria imanente a esse visionarismo trágico, pelo conteúdo sarcástico e pela origem estilística remota, de sua expressão. Nada ali existe do pós-expressionismo ou do intencional infantilismo de personagens criados por Jean Dubuffet. As raízes da forma santiana decorrem do seu olhar habituado a um universo regional. Mas regional como ele disse que o artista consegue transpor ao universal e cuja expressão pictórica depura crescentemente, ao tornar o fundo da pintura mais lisa e clara e ao usar ritmos curvilíneos mais harmoniosos, embora Sante a deseje, como declarou, ‘suja’ como expressão de um antielitismo, que para ele é um antieuropeismo, isto é permita-se-me dizê-lo anticivilização.
As metamorfoses angustiadas de Frans Kafka possuem outra origem e diferente intenção. Ao atacar simultaneamente as depravações morais dos homens -  as fraquezas do caráter - e o seu ‘animalismo’ de atitudes -  vulgaridades - no fundo o pintor defende um regresso à civilização. Todavia não há civilização do consumo e sim à da pureza. Por isso pode fazer uma Guernica do Nordeste e por isso a sua arte é combatida.
Em 1975, Alberto Lattuada fez singular filme , ´Cuore di  Cane”, na Itália, baseado em estranho conto do russo Michail Bulgakov , no qual um cientista transforma temporariamente um cão em homem, no decorrer de experiências com enxertos de glândulas e transplante de órgãos no meio de uma sociedade perturbada por graves transformações sociais.
A metamorfose criada por Lattuada Bulgakov nos mostra um homem cão, que tem algo do bom animal e das desordens brutais do animalismo”, tão perto do modo de ser do próprio homem. Para a ficção de Sante ,não há ambiguidade. O homem é terrível, e ridículo, nas cortes do poder ou no trottoir, na satisfação de vaidades ou no abuso do sexo. Com ironia o pintor nos mostra o assassinato  “como trabalho” só que , mais do que na ficção cinematográfica, na série baiana as figuras já possuem o rabicho que indica que , por mais que se julguem humanos e importantes já não são nem uma coisa nem outra. A sua importância é somente a de uma ilusão ou a do poder do mal. Aqui passaríamos a um problema quase ontológico que poderemos nos dispensar de estudar neste texto na ordem estética, que é a da abordagem desta exposição “ se for possível isolar convenientemente uma da outra a acusação de Sante expressa na forma brutalista que ele desejou transmitir. " Mário Barata, 1983.

LOUVRE ENSINA COMO FAZER UMA BOA MOSTRA DIDÁTICA

O Museu do Louvre, de Paris, propõe, já desde alguns anos, uma fórmula de exposição didática original e atraente : “Os Dossiês” do Departamento de Pintura. A receita é simples. Em volta de uma tela de mestre é reunido tudo que lhe concerne: documentos históricos, fontes de inspiração, biografia do artista, primeiros esboços, exames radiográficos, etc...A escolha dos quadros dos mestres da pintura não é tão absurda como parece à primeira vista. É para completar  o conhecimento e a renovar o olhar que se pode dirigir-lhe, que o Museu do Louvre tomou esta iniciativa didática. Após “O Atelier” de Courbet , “ Banho Turco”, de Ingres; “La Diseuse de  Bonne Aventure”, de Caravaggio , é a vez de “A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugéne Delacroix  que esse Departamento do museu nacional francês consagrou o fim do ano de 1982, o seu 26º Dossiê.
Ao lado a famosa obra de Delacroix " A Liberdade Guiando o Povo",tornou-se símbolo da liberdade.

Instalada no segundo andar do Pavillon de Flore  esta exposição consta de quatro partes:

A primeira é histórica.
Logo de início, uma primeira série de placas revela a biografia de Eugéne Delacroix.
Depois, documentos da época, gravuras e outros testemunhos lembram os acontecimentos políticos que esta composição do artista ilustrou: as “ Trois Glorieuses”, esses dias revolucionários de 27 a 29 de julho de 1830, no decorrer dos quais o povo de Paris destronou um rei autoritário, Charles X, e o substituiu por um outro mais liberal: Louis Philippe

A segunda concerne a gênese da própria obra.
 Numerosos esboços, primeiros traços, fazem-nos descobrir o curso progressivo desta obra. Aprendemos assim que Eugéne Delacroix tornou a utilizar em “ A Liberdade Guiando o Povo” desenhos anteriores esboçados para quadros comemorando a guerra de Independência da Grécia em 1820: “Gréce Sur Les Ruines Du Missolonghi”, e “ Les Femmes Souliores “.

A terceira consta de divisões
a própria obra e análise do material que a compõe . Além da obra-prima que mede nada menos que 3,25m por 2,60 m são expostos todos os croquis preparatórios: uniformes militares, personagens, fuzis, estudo de mãos e das pernas.Por ajuda de exames de laboratórios do suporte e da camada pictural aparecem as diferentes fases de elaboração da obra.
A quarta  revela o destino da obra
Qualificado de “ poissard” no século XIX, o quadro Delacroix que se tornou, com o decorrer dos anos o arquetipo da alegoria da liberdade, a tal ponto que o encontramos por toda a parte. Em 1936 , a Guerra Civil Espanhola inspira uma das fotos-montagens de John Heartfield incluindo a Liberdade Guiando o Povo”. Em 1944, ela aparece em numerosos cartazes. A insurreição estudantina de Maio de 1968 não a esqueceu e, bem recentemente, em 1979 e no começo do ano 1982 , o Estado francês lhe rendeu uma dupla homenagem ao instaurar o uso das notas de 100 francos com a sua efígie, e de selos postais.  “Considerada como a representação por excelência da “Revolução ,“ A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugéne Delacroix se tornou o símbolo da liberdade.




terça-feira, 18 de setembro de 2012

A OBRA DE MARIA ADAIR É UM RIO QUE TRANSBORDA EMOÇÕES - 28 DE FEVEREIRO DE 1983.


JORNAL A TARDE ,SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 28 DE FEVEREIRO DE 1983

A OBRA DE MARIA ADAIR É UM RIO QUE TRANSBORDA EMOÇÕES



Acaba de retornar dos Estados Unidos a artista Maria Adair onde permaneceu quase dois anos graças a uma bolsa de estudos da Fulbright /Laspau e Universidade Federal da Bahia fazendo um Curso de Mestrado em Arte.
Sua grande meta sempre foi conhecer outros povos e culturas visando a concepção de uma linguagem plástica facilmente compreendida em locais fora de nossas fronteiras geográficas.
Adair tem uma profunda inquietação. E isto pode ser detectado quando ela diz: “Queria saber como eles se formam, se desenvolvem, atuam, expressam e se comunicam”.
Ler somente não lhe bastava. E, assim viu seu desejo concretizar-se através desta viagem onde pôde constatar in loco e, principalmente, vivenciar aquilo que lhe provocava tanta inquietação. Confessa a artista:
“Que era como se eu estivesse querendo quebrar a minha casa e renascer de uma maneira mais consciente e experimentada”.
Agora de volta ela constata que valeu apena a sua ida aos Estados Unidos porque acredita ter alcançado todos os objetivos a que se propôs. Paralelamente ao desenvolvimento de seu trabalho, observou e estudou a arte contemporânea americana, pesquisando e visitando museus e centros de produção artística.
Esteve ainda no Canadá e em alguns países da Europa para também sentir e ver o que está acontecendo, e entender melhor a influência do Velho Mundo nos Estados Unidos e no Brasil. Fez uma exaustiva pesquisa inclusive fotografando tudo no Soho, que é a maior e talvez a mais importante comunidade artística da atualidade, que fica em New York.

SEU TRABALHO
Quanto ao seu trabalho, posso afiançar que está mais consciente, tanto tecnicamente como do ponto de vista da temática.Acredito que embora tenha sofrido uma influência marcante, no início de sua obra, do professor Juarez Paraíso, Maria Adair já está distanciada desta influência percorrendo seu próprio rumo, concebendo formas espontâneas e orgânicas.

Como ela mesmo diz: “Minha arte é um simples transbordar de meu ser em formas visuais. Eu acho que as coisas estão tão prontas, contidas e amadurecidas já em algum cantinho dentro de mim que elas afloram através de uma explosão natural, sem dor, comunicando meu encantamento pela vida”.
Maria Adair tem sido uma constante espectadora da logicidade da natureza e da evolução do mundo. Simples formas da natureza têm o poder de provocar grandes e bonitas emoções.
Eu olho para uma semente como uma forma latente que tem dentro de si uma futura planta, uma vida. Casulos e ovos são também para ela formas dormentes de vida. Flores antes de mais nada são uma forma de integração macho-fêmea para produzir uma nova vida. Estrelas são formas-emoção que dão ordem ao universo e mantém a vida.
Portanto o centro de seu trabalho é a própria vida. O milagre da vida em toda sua multiplicidade de aspectos e funções.
Ela mostra em suas obras a estrutura básica do macro e micro universo através de linhas, formas e cores que possibilitam verdadeiras tramas, para o espectador desvincilhar.
Tudo criado de acordo com os princípios básicos, como todos os seres vivos são partículas que se combinam durante o crescimento, sua obra segue as mesmas leia básicas tanto para dos animais, minerais ou vegetais. Por isto nos seus trabalhos lá está exposta a anatomia ou a estrutura básica do universo.
Assim desperta àqueles que deixam essas coisas passarem despercebidas. É como um despertar de consciências.

SEUS TRABALHOS

Entre os trabalhos realizados recentemente pela artista posso destacar alguns.
Vejamos: 1) uma série de trabalhos onde Maria Adair pode se expressar no suporte não tradicional que é a gamela. Abandonando a tela e molduras a artista apropriou-se das gamelas vendidas nas feiras livres do interior da Bahia e criou verdadeiras constelação, combinando os elementos e colocando-os suspensões por cordões de nylon transparentes.
Considerou a mostra como uma homenagem à linha curva e à espiral. “A linha curva é um prazer e uma viagem para os olhos. Ela está presente em tudo. O vento e a água se movem em linhas curvas. As plantas e os animais são estruturados em bonitas e harmoniosas curvas. Elétrons, planetas e estrelas descrevem curvas no espaço”.
“A espiral vive em galáxias, nos furações, nas grandes correntes marítimas, em caracóis, em conchas marinhas, em nossos ouvidos, na disposição das sementes de muitas flores como o girassol”.
SEGUNDO

O segundo trabalho talvez o mais excitante para aqueles que tiveram oportunidade de assistir ao vivo aconteceu no ano passado quando Eliana silva, uma professora da Escola de Dança da Ufba., que também está fazendo mestrado nos Estados Unidos, criou uma coreografia inspirada em seu trabalho intitulado “lowa, a terra fértil”. A coreografia interpretou cada símbolo que Maria Adair criou em sua pintura. Houve assim uma verdadeira integração artística entre pintura-dança-fotografia (slides) e isto aconteceu no Museu de Arte de Iowa City. Enquanto os dançarinos interpretavam, Maria Adair projetava slides possibilitando o surgimento de novas formas plásticas, que estão registradas num vídeo-tape. Portanto, a artista usa aí um novo suporte para sua pintura, ou seja, o próprio corpo humano.
Finalmente como resultado deste segundo trabalho, Maria Adair ficou tão impressionada que começou a desenhar e pintar febrilmente. E, na última fase da sua obra nos Estados Unidos notou que a forma exterior do corpo humano tornara-se visível como principal foco de sua temática. Estes corpos mostraram também todas as suas características como verdadeiros espelhos da própria vida. Aí ela fez uma série composta de oito elementos que intitulou “Macho-Fêmea”. E, a seguir outra série de grandes telas (3.65m cada) que chamou de “Meu Rio de emoções”. Três delas estarão expostas a partir do próximo dia 4 na Galeria Mab, que fica na Rua Guanabara, 187, na Pituba. Elas integrarão uma exposição coletiva com trabalhos de Calasans Neto, Leonel Bryner, Luís Brito, Madalena Rocha, Bel Borba, Sante Scaldaferri, Yêda Maria, dentre outros.
Posso assegurar que a própria Maria Adair é uma pessoa de grande sensibilidade, e sua obra é como um rio caudaloso que transborda desde a cabeceira, e em toda a sua extensão, um volume muito grande de emoções.


ANNA MARIA ANDRÉS ESTÁ EXPONDO NA GALERIA ÉPOCA - 26 de abril de 1982.


  JORNAL A TARDE, SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 26 DE ABRIL DE 1982.

 ANNA MARIA ANDRÉS ESTÁ EXPONDO NA GALERIA ÉPOCA

Ana Maria Andrés está expondo 22 telas na Galeria Época, no Rio Vermelho.
Sua pintura tem a leveza dos movimentos harmoniosos de uma bailarina. Ela pinta como quem dança, e as trinchas que manipula vão deixando seus rastros nas telas como os cometas deixam no céu. Leves, translúcidos e acima de tudo sem limites em termos de figura. As árvores e outros elementos que integram suas paisagens mineiras como que bailam nos espaços a que lhes foram destinados. E, se você olhar com cuidado verá que todas as telas integram um corpo que baila sob o som mavioso de uma música clássica.
Na foto a obra Paisagem 1, de Anna Maria Andrés, exposta na Galeria Época.
Os rastros leves e translúcidos parecem infinitos, como que continuam mesmo quando acabam os espaços limitados das telas. São paisagens onde foram abstraídas as figuras do homem e outros animais. Esta abstração vem combinar com a sua criatividade rica e bela. Bem assim afastar a presença do grande pedrador, o homem) que poderia até surpreendê-la com um machado para derrubar uma de suas árvores celestiais, ou até quem sabe, destruir toda a paisagem. Esta abstração, propositadamente ou não, veio enriquecer a leveza da obra.
Segundo Walmir Ayala que a apresenta nesta exposição “o forte de Anna Maria, mineira de Juiz de Fora, tem sido a paisagem. Não traindo as raízes regionais do sangue, sua paisagem é montanhosa, e sua técnica é gestual. Com a delicadeza e lirismo de uma Marie Laurencin, ela constrói um universo de cor e ritmo, no qual se percebe o toque iluminado pela emoção equilibrada, e o exercício maduro de uma clave cromática, sintonizando os terras, verdes e amarelos, em função de uma paisagem interior que ela projeta no que vê ou lembra.
Nada melhor do que fotografar sem cor, os trabalhos de Anna Maria, para sentir, na sucessão de formas que então se revelam a estrutura compositiva de sua produção

FREDERICO DE MORAES DARÁ CURSO SOBRE 
ARTE LATINA

A arte latino-americana e a brasileira juntas numa só abordagem. Um curso ministrado pelo crítico Frederico  de Moraes para artistas plásticos, professores, museólogos e pessoas com cargos administrativos nas artes. De 03 a 15 próximos, no Salão da Biblioteca Central, promoção da Fundação Cultural do Estado através do seu Museu de Arte Moderna, com colaboração da Associação Baiana de Artistas Plásticos, onde podem ser feitas as inscrições.
Entre outros temas, destacam-se no programa do curso diferentes enfoques técnicos sobre arte latino-americana (conceitos de resistência, libertação, dependência, antropofagia, vocação construtiva, autonomia do pensamento visual. Muralismo Mexicano e Modernismo brasileiro, realismo fantástico, “Outra Figuracion” e Tropicalismo, arte experimental e tendências recentes, o Brasil na América Latina e perspectivas atuais da arte latino-americana.
Foto atual, ao lado, o crítico Frederico de Moraes.
Paralelamente ao curso, em outro horário, serão projetados cerca de 18 audiovisuais sobre diversos temas, especialmente sobre a arte brasileira, em programas abertos ao públicos, com duração aproximada de uma hora. Curso e audiovisuais se completam, mas podem ser considerados eventos autônomos.

PROFESSOR E ESCRITOR

Crítico de arte de “O Globo” e professor de História da Arte brasileira e Contemporânea da Faculdade de Educação Artística de Niterói, o mineiro Frederico de Moraes escreveu, entre outros, os livros “Arte e Indústria”, Artes Plásticas: a crise da hora atual”,“Guignard”, “Artes Plásticas na América Latina: do transe ao transitório” e “Ramires Villamizar: construtor de utopias”. Organizou diversas exposições e manifestações de vanguarda e realizou 25 audiovisuais, vários deles premiados.
Para este curso que dará em Salvador estão programadas aulas com duas horas de duração, sendo meia hora inicial para exposição teórica, uma hora para projeção comentada de slides e a meia hora final para debates. Ao todo serão projetados cerca de 800 slides,
As inscrições podem ser feitas no Museu de Arte Moderna (Solar do Unhão) ou na Associação dos Artistas Plásticos (que funciona na Escola de Belas Artes). A taxa é de CR$3mil para os associados e CR$5 mil para os outros.

               PALESTRAS SOBRE MUSEUS

Uma série de quatro palestras será pronunciada para as comunidades de Santo Amaro e Cachoeira: “Temas Religiosos na Pintura e na Escultura do Período Barroco” pronunciada no último dia 24, pela museóloga Regina Bandeira, no museu do Recolhimento dos Humildes; “Museu e a Comunidade”, hoje, 17h, no Museu das Alfaias, pela museóloga da SPHAN, Gilca Goulart; “Museu e Educação” amanhã, 17 h, no Museu da Ordem Terceira, palestrante Maria Célia Santos, museóloga e professora da UFBA.;
“Museu e Turismo”, dia 28, 17h, no Museu das Alfaias, com Oswaldo Ribeiro, técnico responsável pelo Museu Abelardo Rodrigues.

DOUCHEZ FAZ VINTE ANOS DE TAPECEIRO

Os 20 anos de tapeçaria de Jacques Douchez e o longo caminho percorrido desde a pintura abstrata são o tema de uma exposição que o artista inaugurou no Museu de Arte Contemporânea do Paraná. Sem dúvida, um privilégio raro para os paranaenses, pois Douchez só voltará a mostrar os trabalhos de sua produção mais recente na Trienal de São Paulo, em agosto, à qual concorrerá com três peças.
Essa mostra não será, contudo, uma retrospectiva, faz questão de ressaltar Douchez, afirmando não estar “tão velho assim para esses apanhados gerais de carreira”. Trata-se de uma exposição de caráter didático, segundo sua definição, buscando dar ao público uma visão mais ampla da mudança de sua linguagem: da frieza da pintura abstrata, que esse francês desenvolveu até 57, integrando o movimento geométrico de Flexor, à oposta sensorialidade do trabalho com a tapeçaria tridimensional.
Didática como quis Douchez, a mostra apresenta uma leitura bastante simplificada; para isso ele recorreu a um de seus quadros da fase abstrata, chegando depois à tapeçaria plana, à alusão figurativa e, finalmente, sua fase atual, num resultado definido tecnicamente como “formas triangulares resultantes da tensão de três entrelaçadas”.
São 14 tapeçarias medindo, a maior, 1,70mx70cm colocadas à venda a preços que variam entre Cr$250 e 600 mil. Caro, por certo, mas um investimento muito seguro em se tratando do sempre ascendente mercado de arte. E, mais que isso, assegura o artista, “ a tapeçaria se empoe mais que um quadro” pelo tamanho, formas e importância no ambiente,. Segundo Douchez, o decorativo não é necessariamente uma obra de arte, “mas uma obra de arte pode ser decorativa, se adequada

ao espaço que vai ocupar, mesmo até uma tela de Rubens”.

                        UMA FOTO DE ROSA CABRAL

A capa do livro “50 poesias”, de Oscar Pinheiro, tem na capa uma bela fotografia de Rosa Cabral, prefácio de Natan Coutinho e comentários de Vivaldo Cairo. O Livro foi lançado recentemente em Salvador. A autora da capa acaba de viajar para a Europa onde fará contatos nas áreas de fotografia e turismo. Rosa já morou alguns anos na Alemanha, onde foi através de uma bolsa de estudos do governo daquele país. Agora retorna juntamente com sua filha Sabrina, que se aperfeiçoará no estudo do alemão e inglês. As fotos de Rosa Cabral realmente são cheias de expressividade e técnica. Além de saber manejar a máquina fotográfica, Rosa tem grande fundamentação teórica do seu ofício.

                 SALÃO DA JUVENTUDE

Até o dia 30 do corrente mês você poderá enviar sua inscrição para o IX Salão de Arte Jovem, promovido pelo Centro Cultural Brasil / Estados Unidos.A exposição destina-se a reunir trabalhos representativos da arte plástica do país, executados pela juventude brasileira. Só podem participar artistas de até 30 anos de idade.
Tenho em meu poder algumas fichas de inscrição para fornecer aos interessados que podem procurar-me pela manhã na redação de A TARDE. Deixo aqui o regulamento para os interessados: os prêmios variam, sendo o maior de 70 mil cruzeiros.

DA DENOMINAÇÃO E FINALIDADES

O CCBEU de Santos, anualmente realizará exposição denominada “Salaõ de Arte Jovem do CCBEU de Santos”. A exposição destina-se a reunir trabalhos representativos da arte plástica contemporânea, executados pela juventude brasileira. O “Primeira Mão” (IX Salão de Arte Jovem) somente aceitará pintura, deixando a critério do artista o material a ser empregado e as dimensões dos quadros.
O tema é livre.

DA ORGANIZAÇÃO

O Salão de arte Jovem é organizado pelo Departamento Cultural do CCBEU.

DAS DATAS

Inscrições e entrega de trabalhos no período de 1.º de março a 30 de abril de 1982.

DOS PARTICIPANTES

Para participar do “ Primeira Mão” (IX Salão de Arte Jovem) do CCBEU, o artista fica comprometido a:
1-      Apresentar 3 obras de pintura (emolduradas).
2-      Preencher a ficha de inscrição à máquina ou em letra de forma.
3-   Apresentar obras que não foram expostas em salões oficiais. (Poderá ser desclassificado se povoado o contrário).
4-      Ter até 30 anos a completar até 31/12/82.
5-      Apresentar prova de identidade para se inscrever e para receber qualquer dos prêmios.

A INSCRIÇÃO É GRATUITA

O candidato deverá preencher as etiquetas da ficha de inscrição e colá-las nos respectivos trabalhos.Todas as despesas de embalagem e transporte dos trabalhos correrão por conta exclusiva do artista.Os trabalhos expostos deverão ser retirados dentro do prazo de trinta dias seguintes ao encerramento da mostra, não se responsabilizando o CCbeu pelos não retirados. O Centro Cultural Brasil—Estados Unidos só devolverá as obras aos artistas que o solicitarem por escrito e apenas por transporte aéreo.
A devolução procedida de acordo com o item anterior, será feita sem qualquer responsabilidade do CCBEU quanto aos danos causados nos trabalhos ou seu extravio.




DOIS CONCURSOS SACUDIRÃO O MERCADO DE ARTE BAIANO - 8 DE MARÇO DE 1982.


JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 08 DE MARÇO DE 1982 .   

DOIS CONCURSOS SACUDIRÃO O MERCADO 
DE ARTE BAIANO

O mercado de artes nas galerias pode não estar excelente, mas, certamente, duas promoções vão sacudir o mercado: os concursos para Realização de Trabalhos de Artes Plásticas e de Cartazes promovidos pela Fundação Cultural, prefeitura e Bahiatursa. Portanto, dois concursos onde serão empregados milhares de cruzeiros. Mas chamo atenção que o último concurso, realizado pela Fundação Cultural, através do Museu de Arte Moderna, não atendeu às expectativas de alguns membros da Comissão Julgadora e tampouco do diretor do MAM, Francisco Liberato. Entre os decepcionados com o resultado final de alguns projetos, eu me incluo. Decepcionado porque alguns artistas estiveram mais interessados em embolsar o dinheiro que produzir obras de arte. E o pior é que já está sendo anunciado o segundo concurso e alguns nem entregaram seus trabalhos do concurso anterior, o que demonstra nesse caso má fé e falta de responsabilidade profissional.
Sabemos que o artista vive no informalismo por excelência, mas aí trata-se de dinheiro suado que vem da comunidade e que pode e não deve ser gasto desta forma. Acho que no próximo concurso as coisas têm que ser amarradas de tal forma para que coisas deste tipo não venham a ocorrer novamente.

                             OS PROJETOS

A Fundação Cultural do Estado, através do seu Museu de Arte Moderna da Bahia, instituiu o Concurso de Projetos para Elaboração de Trabalhos de Artes Plásticas, destinado exclusivamente a artistas baianos ou brasileiros radicados na Bahia há mais de dois anos. A verba global é de Cr$2.400.000,00 distribuídos pelo número total de projetos a serem selecionados, que não deverá ser inferior a seis e nem superior a doze.
O concurso visa estimular a criatividade na área de artes plásticas e atender às expectativas do mercado de trabalho no meio produtor local. As propostas deverão ser apresentadas no ato da inscrição, no Museu de Arte Moderna, Solar do Unhão, onde podem ser encontradas maiores informações, inclusive o regulamento deste programa de apoio à produção de trabalhos de artes plásticas.

                    CRIAÇÃO DO CARTAZ

A Fundação Cultural do Estado, Prefeitura do Salvador e Bahiatursa lançam concurso público para a criação de um cartaz comemorativo ao aniversário de fundação da Cidade de Salvador. As inscrições para entrega dos trabalhos estão abertas até o dia 26 próximo, no Museu de Arte Moderna da Bahia e ao vencedor será dado prêmio no valor de Cr$200 mil.
A mensagem do cartaz deve ser relacionada ao conteúdo cultural e promocional da Cidade, sendo que a elaboração dos dizeres ficará ao cargo do concorrente, constituindo-se num dos elementos fundamentais da proposta. Os trabalhos devem ser apresentados a nível de arte-final, sob pseudônimo.
Maiores informações, inclusive as disposições gerais do concurso, estão no Museu de Arte Moderna, no Solar do Unhão, Avenida de Contorno, s/n.

     RAIO X PARA RESTAURAR OBRAS DE ARTE NO BRASIL





“Nossa Senhora com Menino Jesus”, de Giovanni Bellini, e “A Ressurreição de Cristo”, de Rafael Sanzio, dois quadros do “cinquecento” pertencentes ao Museu de Arte de S. Paulo Assis Chateaubriand, foram radiografados para serem restaurados a fim de, juntamente com outros trabalhos, participarem de uma exposição de obras do acervo do MASP, na Cidade de Mie, no Japão. No Brasil, está foi a segunda iniciativa bem-sucedida nesse campo: a primeira ocorreu em 1981, quando a obra “Auto-retrato com Barba Nascente”, de Rembrandt, foi submetida ao mesmo processo, atendendo a pedido especial feito ao MASP por historiadores e “experts” holandeses que desenvolvem, desde 1971, extensa pesquisa sobre a vida e obra do grande pintor.
Na foto aparecem à esquerda o instrutor e, à direita, Pietro Maria Bardi, diretor do Masp.
“Neste novo trabalho que realizamos para o MASP- explica Eustáquio Godoy, instrutor do Centro Educacional Kodak e responsável pela elaboração das radiografias utilizamos os mesmos recursos empregados para radiografar o Rembrandt, ou seja, filme de raio X médico, exposição direta, sem auxílio do ‘écran’ intensificador etc. Todavia, posso dizer que com esses quadros do ‘cinquecento’ nós aprimoramos a técnica em certos aspectos como, por exemplo, no emprego de uma lâmina de chumbo mais espessa para reduzir o efeito da radiação secundária, prejudicial ao contraste da radiografia, e uma distância diferenciada do tubo em relação a cada uma das telas”.
O equipamento usado para radiografar os quadros é o mesmo que se emprega em Medicina para radiografias de tórax e outras partes do corpo humano. Contudo, o processo aplicado reveste-se de uma particularidade especial, assim explicados por Eustáquio Godoy: “ao realizarmos a radiografia, deixamos as duas obras expostas aos raios x durante um período de 15 segundos, uma quantidade quase equivalente à radiação para fins industriais, que jamais poderia ser aplicada ao homem”.

                             AS CONSTATAÇÕES

Após o processamento das radiografias, algumas evidências foram imediatamente constatadas: Rafael, ao contrário do que supunha, não traçou a carvão ou lápis os desenhos fundamentais de seu quadro e utilizou estiletes para fazer detalhes que dão a impressão de alto-relevo; a tinta dourada, utilizada na restauração de um sol existente na obra, tem uma tonalidade mais berrante que a original.
Para Maria Helena Chartuni, restauradora do MASP e responsável pelo desenvolvimento de todo o trabalho, a radiografia dá uma ajuda científica aos especialistas, permitindo que se descubram novos detalhes de técnicas e material usados pelo pintor, que são documentados, e também ajuda na limpeza do quadro para posterior restauração.
Através dos raios X, os “experts” ainda podem saber se a obra é falsificada ou não, pois uma pintura falsa não dá contraste quando submetida à radiação.
O diretor do MASP, Pietro Maria Bardi, que também acompanhou todo o trabalho desenvolvido, satisfeito, disse que: “Os raios X revelam a alma do quadro. Através de sua utilização, podemos descobrir a técnica usada pelo pintor, verificar antigas restaurações e comprovar cientificamente aquilo que estamos vendo a olho nu. Servem, também, para comprovarmos a autencidade da obra”.

O IRàVAI VENDER SUA ARTE PARA FINANCIAR A GUERRA!

A estupidez das radicalizações da direita ou esquerda, ideologia ou religiosa tem mais um exemplo grotesco de quanto são inócuas, burras e perniciosas. É a atitude do governo do Irã que está vendendo todo seu patrimônio artístico para financiar sua guerrinha particular contra o Iraque. O Museu de Arte Contemporânea, que era um dos mais importantes do Oriente, está transformado num verdadeiro mercado de cartazes “revolucionários” porque seus “ideólogos” consideram a arte moderna decadente. Aqui não se chegou a tamanha radicalização, mas se olharmos nossos museus, ficaremos com muitas interrogações, tão pequeno é o orçamento dedicado pelos governos municipais, estaduais e federal para tais instituições. A sensibilidade anda sumida, pois os homens andam em busca de coisas mais “palpáveis” para o eleitorado como fachadas de prédios e outras coisas suntuosas.
Algumas das principais casas de leilões do mundo pediram ao governo iraniano que organize um leilão para os tesouros históricos que o país decidiu pôr à venda.
Em Teerã, um porta-voz do Parlamento disse que uma lei, aprovada recentemente, poderá fazer com que a venda seja organizada por diversas instituições e não apenas pela Fundação Khomeini para os Oprimidos. Mas as casas de leilões de Londres, incluindo a Christie’s e a Sotheby’s, fizeram um apelo para que o Irã realize um leilão, de preferência no exterior.
Além dos tapetes, miniaturas, peças de prata, mobiliário e pinturas, a coleção iraniana de arte moderna, incluindo obras de Picasso, Andy Warhol e David Hockney, pode dar bons lucros, comentou Tom Craig, diretor do Departamento de Arte Islamita da Chrstie’s, acrescentando, porém, que o governo iraniano sairia perdendo se desse o lote para marchands, de âmbito de ação mais limitado.
“Para se conseguir os melhores preços, a única alternativa é o leilão. E este tem que ser feito por profissionais”, disse Craig.
A venda das obras de arte se insere no esforço iraniano para superar o déficit orçamentário criado pela guerra com o Iraque, que reduziu as reservas nacionais a menos de três bilhões de dólares, forçou o Banco Central a vender muito ouro apesar da queda do metal e levou uma baixa de 4 dólares no preço do barril de petróleo.
O projeto foi condenado pelos movimentos oposicionistas no exílio, que disseram que os compradores terão que devolver os objetos de arte ao Irã quando o regime de Khomeini for derrubado.
Craig, que costumava viajar muito ao Irã até que a revolução de 1979 acabou com o comércio local de antiguidades, disse que existe um enorme interesse na venda. “O Irã tem a maior coleção de jóias do mundo, mas não sabemos se as jóias serão vendidas, pois no passado já foram usadas como garantia de empréstimos”, comentou.
As obras de arte moderna foram compradas pela ex-imperatriz Farah Diba, viúva do xá Reza Pahlevi, com ajuda do ex-vice-presidente norte-americano, Nelson Rockefeller. Os funcionários do regime religioso retiraram a maior parte das obras modernas, consideradas decadentes e transformarem parte do enorme Museu de Arte Contemporânea numa exposição permanente de cartazes revolucionários.
Acredita-se que a maior parte dos quadros está a salvo, embora muitos retratos do xá e de sua família tenham sido destruídos depois da queda do regime.

               AS AQUARELAS DE ADOLF HITLER

À primeira vista, as quatro aquarelas parecem bastante comuns: muito detalhadas nas pinceladas em verde e azul, mas sem nada que o indique a marca de uma grande artista. Quando o observador se aproxima, vê que o interesse está na assinatura “A. Hitler”.
“Fizemos esta exposição, não para glorificar o homem, mas para revelar um aspecto de sua personalidade que passou por grandes mudanças”, comentou John Quarstein, diretor do Museu de Guerra de Virgínia, que está com a exposição chamada “A Arte de Adolf Hitler”.
“Elas não são diferentes da obra de outros artistas do período.O que se diferencia é o artista, disse Quarstein.
As aquarelas foram capturadas pelas forças norte-americanas após a Segunda Guerra Mundial e estavam no Centro de História Militar do Exército, em Washington, de onde saíam raramente. A exposição está no Museu de Newport News.
“Eu vim porque sou interessado em História e sabia que Hitler foi artista no começo”, disse um homem ao contemplar as aquarelas. “Mas não esperava que fosse tão boas”.
“Se não soubesse que Hitler foi quem pintou, diria que são ótimas”, comentou uma senhora de idade.
Quando Hitler era adolescente, considerava-se um artista talentoso e foi a Viena e Munique para pintar, lembrou Quarstein. Na Academia de Belas-Artes de Viena, foi rejeitado duas vezes. Os professores sugeriram que fosse para Faculdade de Arquitetura, mas como ele não havia terminado o curso médio, também não foi aceito. “Rua de Viena” e “Velho Tribunal de Munique”, pintados entre 1904 e 1905, são característicos do estilo do jovem Hitler que, sendo um mais um arquiteto, pintava com traços fortes, usando as figuras humanas apenas para medir a perspectiva e altura dos edifícios, disse Quarstein.