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sábado, 12 de setembro de 2026

ISAÍAS DE CARVALHO E SEU PONTILHISMO EM PRETO E BRANCO

Isaías de Carvalho desenhando com sua
caneta de nanquim olhando uma foto
  da Cidade de Salvador.
 O arquiteto, desenhista, professor e escritor Isaías de Carvalho vem há décadas realizando um trabalho artístico que demanda uma grande observação e paciência porque ele vai construindo as imagens a partir de pontinhos muito singelos com uma caneta de tinta nanquim, tão conhecida e inventada pelos chineses há séculos. Esta tinta é feita de partículas de carbono chamado de negro de fumo suspensas em água, estabilizadas com goma arábica ou gelatina. A Cidade do Salvador é o tema de suas obras monocromáticas e confessa no livro que publicou  Salvador em Preto e Branco quando escreveu nas primeiras páginas que sua obra é uma conexão lógica já que foi professor por longos anos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,  da Universidade Federal da Bahia. Seu olhar é diferenciado em relação a nós seres comuns porque está presente em seu olhar de observador não só a teoria do urbanismo, mas também a prática de ver as diferenças nas vias, nas edificações , nos usos dos espaços e  na volumetria . Disse a arquiteta e urbanista brasileira Raquel Ronilk que   “as cidades refletem as formas como se organiza a sociedade, e se ela é dinâmica, se é viva, não há como evitar as transformações”. 

Vemos a Praça Cairu vista do alto. Isaías
mostra a Cidade pulsando durante a noite na
Festa de Nossa Senhora da Conceição da
Praia. A foto  original é do Acervo de João
Cipriano Brasileiro.
.
Com seu olhar e sua caneta de nanquim ele capta  e registra  as mudanças que a Cidade passa. Estamos falando não apenas de uma grande área urbana com alta concentração de pessoas, moradias, comércios e serviços, mas de um ser vivo que cresce para cima e para baixo, para todos os lados, que deixa partes de seu corpo sem vida, basta olhar os centros de muitas cidades por este mundo a fora. Também se regenera e  essas transformações estão presentes no trabalho do arquiteto-desenhista. Ele começou criando suas obras a partir de fotos de  retratos de seus familiares e depois das feitas  nos anos 40 e 50 por seu tio Adriano Coelho  Messeder. Seu tio ilustrou com suas fotos  livros da  historiadora Marieta Alves  sobre igrejas e irmandades religiosas da Bahia. Em seguida Isaías de Carvalho passou a escolher outras fotos antigas e atuais que retratam tempos passados e presentes de nossa Salvador e com elas reproduz usando minúsculos pontos pretos e espaços negros e vazados reproduzindo  toda a beleza e a grandiosidade da expansão urbana e a nostalgia de outrora.

                                             TRAJETÓRIA

Veja os centenas de pontos que o artista usou
para retratar a Ladeira de São Bento em meados
do século XIX. Baseado num cartão postal.
O arquiteto Isaías de Carvalho Neto nasceu em Salvador em dois de fevereiro de 1942. É filho do comerciante Isaías de Carvalho Filho e Maria de Lourdes Messeder de Carvalho Santos. No ano de quarenta e nove, quando tinha apenas sete anos de idade seu pai foi acometido por uma tuberculose e teve que ir para São Paulo em busca de tratamento de saúde e, os quatro filhos do casal foram morar com parentes. Foi assim que Isaías de Carvalho e um irmão foram para a cidade de Ilhéus enquanto os dois outros ficaram aqui morando com a historiadora Marieta Alves. Ao término do tratamento seu pai voltou e assim pode concluir o curso primário na Escola Ana Nery que funcionava na Rua do Caquende, no bairro  de Nazaré. Esta região chamada de  Caquende é uma antiga área histórica que hoje abriga o Condomínio do Edifício do Caquende e o Solar De Maria localizado na Avenida Joana Angélica, nº 1536. A área pertencia antigamente com Barão de Caquende e as terras se estendiam abrangendo os atuais bairros de Nazaré, Saúde e Tororó. 
A Pesca do Xaréu, desenho
 feito a partir de  foto de 1950.


Voltando ao jovem Isaias de Carvalho Neto em 1954 seus país resolveram colocar um seu irmão para estudar no Ginásio Santo Antônio, que funcionava na histórica cidade de  São João Del Rei, estado de Minas Gerais, tido como um bom ginásio e de regime rígido na disciplina . Seu pai perguntou se ele iria para acompanhar o seu irmão. Isaías aceitou e assim foram para Minas Gerais estudar. Voltou anos depois e foi terminar o colegial no Colégio de Aplicação, que funcionava no tradicional prédio da Avenida Joana Angélica, que pertencia a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia. A diretora era a professora Leda Jesuína, e lá permaneceu até a conclusão do colegial em 1968. Lembra com alegria a qualidade do ensino no Colégio de Aplicação que proporcionava aos alunos fazer teatro, canto e outras atividades enriquecendo o seu conhecimento, e também da vice-diretora professor Maria Angélica Matos, que era muito presente junto aos alunos.

A Baía de Todos os Santos repleta de velas
brancas dos saveiros e veleiros. Foto de
Adriano Coelho Messeder.
Fez vestibular para a Faculdade de Arquitetura, que funcionava no Corredor da Vitória e ainda era ligada a Faculdade de Belas Artes. Recordou que nos finais da década de 50 houve um movimento para separar as faculdades de Arquitetura da Escola de Belas Artes e que os alunos e professores ocuparam um casarão que existia defronte ao atual Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Quando a faculdade foi transferida para a Federação em 1963 o casarão sediou a Escola de Nutrição, hoje  tem um prédio de apartamentos no lugar do casarão que foi demolido. Lembrou quando da mudança para o bairro da Federação a faculdade funcionou nuns barrocões provisórios. Na época  era reitor da UFBA o professor Edgard Santos. Em 1964 são iniciadas as obras dos novos prédios da Faculdade de Arquitetura. 

Isaías está atento às transformações
que ocorrem em Salvador e com sua
expertise de arquiteto e urbanista 
 capta os detalhes.
.
O Isaías de Carvalho sempre teve uma atividade política no movimento estudantil. Foi presidente do Grêmio Lítero Esportivo do Colégio de Aplicação, e assim pode viajar por várias cidades do interior da Bahia  fazendo política estudantil contra a ditadura militar com os líderes da Associação Baiana de Estudantes Secundários - ABES. Já cursando arquitetura foi também presidente do Diretório Acadêmico e lembrou da sua participação de demais colegas e professores  no Seminário de Melhoramento do Estudo da Arquitetura - SEMEA que resultou numa grande contribuição para as reformas que vieram ocorrer em 1969. Para ele a reforma universitária promovida  pela ditadura  militar de 1964 descentralizando os cursos universitários com o objetivo de esvaziar o movimento estudantil resultou em gerações de péssimos políticos que ainda hoje contribuem para o atraso do país. 

Falando sobre sua formação afirmou que seus professores costumavam sair da sala de aulas levando os alunos para conhecerem de perto as vias e construções da Cidade. "Saíamos levando até cavaletes para desenhar in loco a lápis e carvão." Detalhou que quando você desenha com bastão de  carvão ficava difícil de apagar e que ele usava uma lâmina de gilete curva para conseguir raspar o os erros ou manchas do papel. Reconhece que é um artifício, mas que não ficava limpo completamente. Sempre foi muito próximo do ato de desenhar. Se considera " um arquiteto que desenha. O que faço é um desenho de observação. Vou olhando e vendo. O olhar é diferente do ver, que é mais preciso. No olhar vemos a paisagem numa panorâmica, no ver vemos todos os detalhes," completou Isaías de  Carvalho.

Veja a imponência dos  casarões e e tranquila 
Praia da Preguiça em tempos passados.
Baseado numa foto de Adriano Messeder
.
Ao concluir a graduação em arquitetura e urbanismo montou um escritório no edifício Larbrás, na Avenida Estados Unidos, bairro  do Comércio, em Salvador, juntamente com seu colega Carlos da Silva Sampaio. Fizeram alguns projetos e acompanharam obras . Em 1971 foi convidado e seguiu para a Cidade de Itabuna, no sul do Bahia, para ser o Secretário de Viação e Obras Públicas. No ano de 1972 teve .que sair e foi para São Paulo acompanhar o tratamento de saúde de sua esposa. Ao voltar, retomou sua vida profissional e, em 1973 fez concurso para auxiliar de ensino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo passando a  ensinar Teoria da Arquitetura. Paralelamente ao magistério sempre estava desenhando principalmente os rostos de seus parentes e amigos. Eram desenhos, segundo explicou, que lembravam os clichês tipográficos que antigamente eram usados nas gráficas e nas ilustrações de jornais. O clichê de impressão é uma matriz em alto-relevo, semelhante a um carimbo industrial, usada para transferir tinta, calor ou pressão para uma superfície. Quanto maior o número de pontos fica mais denso, mais escuro. Depois chegou o sistema offset que
Retratos de parentes feitos com
 o pontilhismo monocromático
eliminou os clichês. Também passou a fotografar variados locais da Cidade com filmes de 400 asas analógicos, mas de boa qualidade. Continuou estudando e se aperfeiçoando. Fez o aperfeiçoamento em Didática, mestrado em Ciências Sociais, aqui em Salvador na UFBA, e Doutorado em Arquitetura e Urbanismo com concentração em Semiótica, na Universidade de São Paulo – USP. 
 A semiótica é a ciência que estuda os signos e os processos de produção de sentido, ou seja, como as coisas adquirem significado para os seres humanos. Como se declara um arquiteto que desenha adiantou que está sempre próximo da representação dos objetos, na linha da representação simbólica. Ao retornar  continuou ensinando e fez concurso  para assistente de ensino, sendo aprovado. Foi quando recebeu um convite para ensinar na Faculdade de Administração, também da Universidade Federal da Bahia. Aceitou o convite e foi ensinar em Administração em 1993 permanecendo até 2001. 

Vemos a Rampa do antigo Mercado
 Modelo que foi destruído num grande
 incêndio em 1969.
Foi acometido de uma doença grave e pediu licença médica. Curado retornou e quando foi buscar seus pertences no escaninho na ADM não estavam mais lá.  Ficou chocado com esta atitude da direção da faculdade da época  e decidiu pedir sua aposentadoria. Voltou a ensinar na arquitetura num trabalho voluntário onde ficou até 2009. Enquanto ensinava,  uma aluna que sempre lhe fazia consultas sobre as mudanças da Cidade do Salvador, lhe incentivou a colocar no papel as informações e fotos que dispunha . Foi assim que decidiu  escrever e publicou em 2012 o livro chamado Memória Urbana, com foco no urbanismo da Cidade. Disse que não é um livro  de suas memórias pessoais,  e sim das mudanças que a Cidade passou. 

Quando perguntei como ele chegou ao pontilhismo afirmou  que foi em 2012 ao olhar  uma parede vazia em sua casa . Decidiu fazer uns desenhos para colocar no local, onde antes tinha um tapete que adquirira em Manaus. Como fotografava  notou que ao revelar se ampliasse muito a imagem ou colocasse muita luz estourava e os

Isaías de Carvalho com o mural de
desenhos de paisagens da Cidade .
pontos ficavam espaçados. Foi aí que resolveu reproduzir as fotos através o desenho de observação usando pontos feitos com uma caneta de tinta nanquim. Passou a fazer desenhos de observação usando fotos dos anos 40 e 50 do seu tio Adriano Coelho Messeder, suas e de cartões postais. Os parentes e amigos  o incentivaram a publicar um livro e ele passou a pesquisar sobre o que existia a respeito de Salvador. Assim ia destacando os locais que lhes interessavam e chegou a cerca de oitenta fotos, todas com partes de textos de historiadores e  memorialistas sobre aquele local da Cidade. Em 2019 lançou o segundo livro intitulado Salvador em Preto e Branco, no Museu de Arte Sacra. O livro foi editado pela Universidade Federal da Bahia.

                         PONTILHISMO

Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, obra-prima do pintor francês Georges Seurat, realizada entre 1884 e 1886
O pontilhismo que conhecemos foi inventado e desenvolvido  pelos pintores franceses Georges Seurat e Paul Signac em  meados do século XIX. Esta técnica de pintura surgiu como uma derivação do movimento impressionista e se constitui em pequenos pontos ou manchas de cor as quais provocam quando vistas em conjunto em imagens. É baseada na chamada Lei das Cores Complementares resultado do estudo feito por Michel Eugène Chevreul, na França. Dizia ele que as cores deviam ser justapostas e não entre mescladas, deixando à retina a tarefa de reconstituir o tom desejado pelo pintor, combinando as diversas impressões registradas. Interessante é que o nome pontilhismo surgiu para ridicularizar e rebaixar os trabalhos desses artistas pioneiros deste estilo. O pontilhismo usado pelo arquiteto-desenhista por Isaías de Carvalho é monocromático e ele só usa preto do nanquim. Enquanto o pontilhismo tradicional usa quatro cores que são o azul, amarelo, vermelho e preto. Ao olhar do espectador os tons parecem mais
Obra em pontilhismo Volta às Trincheiras,
de Eliseu Visconti.
claros devido os espaços em branco entre um ponto colorido e outro. Normalmente as obras são feitas usando a tinta óleo por ser mais espessa e evitando escorrer e manchar

Diz a Wikipedia “que no Brasil durante a Primeira República (1889-1930) vários artistas “empregaram procedimentos divisionistas, especialmente em suas paisagens e pinturas decorativas. Podemos destacar, nesse sentido, os nomes de Belmiro de Almeida, Eliseu Visconti, Rodolfo Chambelland, Artur Timóteo da Costa, Guttmann Bicho, entre outros. O painel central do teto do Foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro é um exemplo de pintura decorativa onde Eliseu Visconti empregou vários estilos e procedimentos artísticos, inclusive o pontilhismo.”

Um comentário:

  1. O grande Reynivaldo Brito apresenta este excelente artista, Isaías, e suas excelentes obras, que são criadas com muita paciência e dedicação, pois requer muito tempo e comprometimento para conclui-las. O pontilhismo, da escola do neoimpressionismo, é utilizado por Isaías com muita habilidade, e suas obras são de muita qualidade e realmente, impressionam.

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