sábado, 19 de setembro de 2026

FÁTIMA TOSCA EXPRESSA A MAGIA DE SEUS REINOS IMAGINÁRIOS

Fátima Tosca pintando seu universo lúdico.
A artista visual Fátima Tosca é  uma das mais criativas e representativas de sua geração com um trabalho autoral  reconhecido aqui e nos principais mercados de arte do país. Premiada em salões e exposições de Salvador, Curitiba e São Paulo sua arte está focada segundo escreveu nos elementos que lhes fascinam. “Na terra, jardins; na água, reinos imaginários; no ar, o circo.”  É uma arte singela, cheia de visões do imaginário infantil do circo e seus personagens inesquecíveis, das flores dos jardins das mamães e de outras manifestações carregadas de magia. Sua arte é feita para contemplação. Nos seus traços, na paleta de cores e nas composições o que vemos é a beleza na sua essência. Ela mesma diz que não se expressa para falar da falta, do excesso ou como são violados os elementos que lhes interessam, porque com o seu temperamento não conseguiria. O que  cria são imagens simbólicas dentro do seu imaginário lúdico e compartilha com todas as pessoas que têm a oportunidade de apreciar a sua arte. Este seu caminho começou lá atrás quando tomou contato ainda criança com o universo mágico das cores através dos lápis de cor que seu saudoso cunhado Durval Santos lhe presenteava com o que de mais moderno existia nesta área. A suavidade de suas composições talvez se remeta às suas primeiras pinturas ingênuas de sua infância feitas com os lápis de cor com suas múltiplas variedades de tons. A artista está expondo na MCR Galeria de Arte até o dia 17 de outubro próximo. A galeria tem dois espaços, num estão as obras de Fátima Tosca e, na sala vizinha as do mestre Floriano Teixeira. É uma exposição que merece ser visitada pela qualidade das obras desses artistas .

Capa do catálogo virtual da mostra
na MCR Galeria de Arte, Ondina.
O seu pai era juiz de Direito e faleceu quando Fátima Tosca tinha sete anos de idade. Já adulta  decidiu fazer vestibular e se graduou pela Faculdade de Direito, da Universidade Federal da Bahia, mas não seguiu carreira na advocacia ou mesmo na magistratura.  Paralelamente cursou durante dois anos Artes Plásticas, no Curso de Licenciatura em Artes Plásticas, da Universidade Católica de Salvador, que funcionava no Instituto de Música, na Rua Carlos Gomes, em Salvador. Foi quando o professor Luiz Ademir de Souza viu seus desenhos e a convidou para fazer as capas dos livros que escrevia e de outros que editava. A artista fez cerca de dez capas e ele a indicou para trabalhar no Instituto Mauá, de 1980 a 1987 onde passou a fazer desenhos para lenços, panôs, tapetes e outros objetos do artesanato baiano. Esses desenhos eram repassados para artesãos de todo o interior da Bahia para que eles se desenvolvessem nas comunidades carentes.

                    PRIMEIRAS CONQUISTAS

Enquanto isto ela pintava e assinava suas obras como Fátima Ribeiro, mas o professor Luiz Ademir, que hoje está na Faculdade do Recôncavo, na época lhe orientou a mudar a sua assinatura artística para Fátima Tosca, que era um nome de origem espanhol e diferenciado, único. Foi assim que passou a assinar Fátima Tosca, e hoje é um nome reconhecido em vários estados brasileiros. “Também, disse Fátima Tosca – ele arranjou uma exposição para mim e Sílvio Jessé, na Galeria Eucatexpo, em 1981, que funcionava no Campo Grande, defronte ao Hotel da Bahia. A Galeria Eucatexpo foi um importante espaço cultural e galeria de arte mantido pela empresa Eucatex entre as décadas de 1970 e 1980. Possuía filiais e

 "Catando Estrelas para Colorir", na exposição.
em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador. “Nesta época Fátima Tosca fazia aquarelas e bico de pena. Nunca tinha experimentado pintar a óleo ou acrílica, “nem passava por minha cabeça”. Quando veio a retomada dos Salões de Arte em 1988 ela se inscreveu no I Salão Baiano de Artes Plásticas, e entre os oitocentos inscritos ela foi selecionada entre os cinquenta. Fátima Tosca apresentou três obras intituladas O Grande Circo do Olhar. Nesta época Radha Abramo escrevia para a revista Veja, que tinha muito prestígio e escreveu sobre o Salão e falou das obras da artista. Coincidentemente Sante Scaldaferri estava fazendo uma exposição no Rio de Janeiro, na Galeria Performance, no Shopping Cassino Atlântico, que tinha dois sócios Anna Maria Niemayer, filha do famoso arquiteto de Brasília Oscar Niemayer, e o outro sócio era Pedro Teixeira, que cuidava da filial em Brasília. Atualmente a galeria funciona no Shopping da Gávea. Ele estava hospedado com Sante Scaldaferri em Salvador e veio ver o Salão porque as obras da artista tinham sido citadas no texto escrito por Radha Abramo na revista Veja. A Radha Antônia Pinto Abramo foi uma museóloga, curadora, jornalista e crítica de arte brasileira. Pedro Teixeira resolveu ver de perto as obras de Fátima Tosca em sua casa acompanhado de Marli sua esposa, Sante e Marina Scaldaferri. Após a visita ele aconselhou que produzisse outras obras nesta linha do circo e assegurou “eu compro tudo que você fizer nesta área”. Foi então que Fátima Tosca pediu licença sem vencimentos do emprego do Instituto Mauá e passou a produzir para a filial da Galeria Performance em Brasília até o ano de 2001. 

Da série Sonho Circo Risco Paredes II, 1990.
Em 1990 se inscreveu no VI Salão Curitiba e ganhou o Prêmio Viagem ao Exterior entregue pelo prefeito Jaime Lerner, quando viajou para a cidade de Nova Iorque. Logo depois participou do Salão Mokiti Okada, em São Paulo organizada pela Fundação do mesmo nome (FMO) que fica em São Paulo no bairro de Vila Mariana. O espaço abriga salões de exposições culturais, exibições de arte japonesa e atividades voltadas à filosofia de Mokiti Okada. Fátima Tosca ganhou em 1992 o Prêmio Exposição, no VII Salão Brasileiro de Artes - Salão Mokidi Okada. Foi quando os donos da famosa Documenta Galeria de Arte foram ver sua exposição e ela passou a vender suas obras para os donos desta galeria paulista até o encerramento das atividades da galeria. A Documenta Galeria de Arte foi fundada em 1969 era um espaço cultural tradicional localizado em São Paulo que promoveu dezenas de exposições de artes visuais, pinturas, óleos e litografias entre as décadas de 1960 e 1990. Em 1991 ela faz uma exposição individual na Galeria Anarte, chamada A Cor do Branco, e galeria pertencia a Graça Coelho, funcionava no bairro de Ondina, no edifício Ondina Parque. Na época o artista e crítico Justino Marinho foi quem a indicou para expor na Anarte
Fátima Tosca em seu ateliê no bairro de
Brotas com uma obra ainda por concluir.
quando foi fazer uma entrevista com ela para o jornal o Correio da Manhã. Foi nesta época que passei a ter contato com Fátima Tosca e escrevi alguns artigos nesta coluna no Jornal A Tarde sobre suas novas exposições. Em seguida fez uma exposição na Galeria. Em 1997 fez uma individual chamada de Pinturas, na Galeria Atrivm, no bairro do Rio Vermelho pertencente a Ieda Alcázar. Atualmente trabalha com duas galerias em Salvador a Pena Cal, que fica no bairro do Caminho das Árvores e com a MCR Galeria de Arte, que funciona no edifício Ondina Apart Hotel e nunca colocou suas obras em consignação. Disse que aprendeu a agir desta forma com o galerista Pedro Teixeira, da Galeria Performance que não recebia nenhuma obra em consignação. Ele trabalhava com o artista Athos Bulcão, que tem obras nos prédios projetados por Oscar Niemeyer. O artista carioca Athos Bulcão era pintor, escultor e desenhista. Nasceu no Rio de Janeiro, 2 de julho de 1918 e faleceu em Brasília, 31 de julho de 2008. Como eram obras muito valorizadas o marchand levava os clientes diretamente ao ateliê do artista e intermediava as negociações.

                                                      QUEM É

A artista Fátima Tosca é alegre, comunicativa
 e lembra com detalhes de sua trajetória.
A artista Maria de Fátima Tosca de Oliveira Ribeiro, assina Fátima Tosca, nasceu em nove de junho de 1960 em Salvador. É filha de Yomar de Oliveira Ribeiro e de Marina Tosca Ribeiro. Seu pai foi juiz de Direito de Pilão Arcado e Jaguaquara, mas sua família morava numa casa que ele construiu numa rua que batizou com o nome de um funcionário da Justiça baiana chamado Escrivão Marques Filho. O pai faleceu muito cedo de um aneurisma com apenas quarenta e cinco anos de idade. Sua casa foi a primeira da rua e ali a Fátima Tosca passou sua infância empinando pipas, jogando bola com as crianças da vizinhança. Lembra que sua mãe descia a ladeira até o vale onde uma família de sitiantes tinha uma horta. Ali se abasteciam de legumes e verduras. Ficou morando com sua mãe até casar-se e atualmente voltou a morar na casa que pertenceu a seus pais.

Sua relação com o desenho começou cedo aos quatro anos de idade porque como falei acima seu cunhando Durval Pereira Santos, era representante para Bahia e Sergipe da empresa Johann Faber-Castell. “A empresa foi fundada por John Eberhard Faber (nascido em 1822) expandiu os negócios da família na fabricação de lápis e abriu uma filial nos Estados Unidos no século XIX. No Brasil, a marca Johann Faber ficou muito famosa pela instalação da primeira fábrica de lápis da América Latina em São Carlos, em 1926, que depois se associou ao grupo alemão formando a Lápis Johann Faber e, posteriormente, a Faber-Castell. Disse a artista Fátima Tosca que seus colegas ficavam espantados e curiosos com os lápis de variadas cores que ela chegava na sala de aula para fazer seus desenhos. "Eu chegava com caixas de lápis de até quarenta e oito cores".

Pier, esta obra da artista é datada de  2018.

Estudou desde o jardim de Infância até concluir o colegial no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, da professora Anfrísia Santiago, na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré. O colégio era caro para os padrões de classe média, e quando seu pai veio a falecer Fátima Tosca estava com sete anos de idade. Foi aí que aconteceu um gesto nobre da professora Anfrísia Santiago que ofereceu uma bolsa de estudos até a conclusão do colegial.  O pai resolvia muitas coisas ligadas ao colégio e tinha uma grande amizade com a educadora. Recordou que d. Rita, irmã de d. Anfrísia Santiago, lhe disse uma vez: “Sua educação é um compromisso de Dindinha”. O Colégio Nossa Senhora Auxiliadora foi fundado por Anfrísia Santiago em 1927 em Salvador, funcionou até a década de 1980, quando encerrou suas atividades no histórico Palacete Ferraro, na Avenida Joana Angélica. Atualmente funciona no imóvel o Ministério Público Estadual.

 "Bosque", de 2025, também está na exposição.
Fez vestibular em 1978 e iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito, da Universidade Federal no ano seguinte. Tem boas lembranças do curso de Direito de colegas com Jonga Cunha que é musicista, agitador cultural, um dos fundadores do Bloco Eva. Também foi colega de   Paulo Borges, que é dono do bloco Jammil e, de outros colegas que gostavam de arte. Falou com entusiasmo do curso de Direito “gostava muito do curso e do ambiente da faculdade. Mas, nunca pensei em seguir a carreira de magistrado”. Nunca exerceu nada relacionado com o Direito. A arte sempre foi mais forte e o trouxe para este ambiente mágico da criação artística onde Fátima Tosca vem se destacando com sua arte diferenciada e cheia de encantamento e magia.

                                        EXPOSIÇÕES E PRÊMIOS

Capa do Catálogo da exposição
na Performance Galeria de Arte
.
Em 2026 – Exposição “O Poder de Sonhar – Floriano Teixeira e Fátima Tosca”, na MCR Galeria de Arte, Salvador-BA. 2024 - "O Sagrado Em Particular", Pena Cal Galeria de Arte, Salvador-BA. 2020 – “Álbum Para Viagens”, Galeria de Arte do Clube Paulistano, São Paulo-SP. 2018 - "Águas" - individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2016 – “Grandes Artistas na Bahia Il” - Coletiva - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2014 – “João, Chicas e Jocas, Todos que Chegarem" - individual - Galeria Smith - São Paulo-SP. 2013 - "O Parque, um Circo e Muitos Jardins" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; "Grandes Artistas na Bahia"- Coletiva - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2011-Coletiva- Galeria Smith, São Paulo-SP; Prêmio "Barra Mulher - Artes Plásticas" - Shopping Barra- Salvador-BA. 2009 - "Aquarelas" - Individual - Fabio Pena Cal Galeria – Salvador-BA; "Da Cor à Cor" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA. 2008 - Arte Comestível, Coletiva, Salvador-BA.  2007- “Retrospectiva” - Individual - Ministério das Relações Exteriores – Brasília- DF; Fátima Tosca - Individual - Fabio Pena Cal Galeria (Casa Cor- BA ). 2006 - "Pretextos"- Individual  -MCR Galeria de Arte, Salvador-BA. 2005- Fátima Tosca e Leonel Mattos em "II Palavras" - Fabio Pena Cal Galeria de Arte – Salvador-BA. 2004 - "Água e Óleo" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; Fátima Tosca e Valdeck de Garanhuns - Coletiva Museum - Derweltetkulturen Frankfurt- Alemanha. 2002 - "Pinturas" - Individual - MCR Galeria de Arte – Salvador-BA; "Entre Bosques, Oceanos e Continentes" - Individual - Costa do Sauipe- BA. 2000 - Capa e ilustração do livro Jubiabá - Jorge Amado (edição Especial Jornal Correio da Bahia). 1999 - Arte Salvador 450 Anos - Coletiva - Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-BA. 1997- "Pinturas" - Individual - Galeria ATRIVM - Salvador-BA;  “Galeria 37” - Coletiva - Museum Für Volkerkunde, Frankfurt - Alemanha.1996 -"Xunta de Galícia" - Individual – Madri-Espanha.1994 - "Buscas e Entusiasmo" - Individual - Galeria Documenta - São Paulo-SP; “Primeiro Salão MAM-BA” - Coletiva – Salvador-BA.1993 - Brasil "Pequenos Formatos, Poucas Palavras" - Coletiva - Galeria Documenta - São Paulo-SP; “Vll Salão Brasileiro de Artes- Salão Mokiti Okada” - São Paulo-SP;  "Pinturas" - Individual- Performance Galeria de Arte – Brasília- DF; "Pinturas" - Individual - Prêmio 
OBRA  Gran Circo D'OLHAR ,1988.   
Exposição- Fundação Mokiti Okada - São Paulo-SP. 199I -"A Cor do Branco" - Individual - Anarte Galeria – Salvador-BA; “I Bienal do Recôncavo” - São Félix-BA.1990 - Salão Brasileiro de Arte Coletiva - São Paulo-SP; VI Salão Curitiba de Arte - Prêmio Viagem ao Exterior - Curitiba- PR. 1989 - Salão Baiano de Artes Plásticas - Coletiva – Salvador-BA.1988 - I Salão Baiano de Artes Plásticas - Coletiva – Salvador-BA; Selecionada OEA Cidap (Equador), no Vll Interamericano de Desenho Artesanal – Brasília- DF. 1986 - Mostra "Artistas Latino-Americanos'' - Coletiva - UNB – Brasilia-DF.1979 - Salão MEC FUNARTE UCSAL- Prêmio Categoria Desenho – Salvador-BA.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

MEMÓRIA E PERTENCIMENTO DE ANGÉLICA MOREIRA

 

Obra Visões de Salvador,  
de Angélica Moreira.
A artista baiana Angélica Moreira exporá suas últimas obras na Assembleia Legislativa da Bahia a partir do próximo dia 21 a 25 de setembro de 2026 juntamente com Rita Moscone. Angélica Moreira  além de artista visual é escritora e terapeuta integrativa. Já escreveu os livros Depois da Chuva, Conversa de Quintal e Chocolate este último  está prestes a lançar enfocando a vida nas fazendas de cacau no sul da Bahia. Seu nome completo é Maria Angélica Freitas Moreira e assina suas obras de arte como Angélica MoreiraCom o propósito de servir atua com foco no comportamento e desenvolvimento humano. Estudante do I Ching, coordenou projetos sociais. Idealizadora e facilitadora de cursos e oficinas como "Encontro com a Maturidade", "Descobrindo o seu Aroma", "Expressão para a Vida através da Palavra", "Estudando o I Ching". Ela diz no folder de sua exposição que “a pintura se torna, assim, um espaço de investigação e expressão do humano”. Iniciou sua formação artística formal estudando com o artista Chico Maia e atualmente está ampliando sua pesquisa e aprofundando a linguagem poética.  Tem participado de várias exposições com uma produção artística voltada “à construção de imagens que dialogam com a Memória, o pertencimento, a natureza e horizontes de transformação”. Suas obras podem ser vistas também na Escola de Arte da Bahia – Galeria Arte da Bahia.

sábado, 12 de setembro de 2026

ISAÍAS DE CARVALHO E SEU PONTILHISMO EM PRETO E BRANCO

Isaías de Carvalho desenhando com sua
caneta de nanquim olhando uma foto
  da Cidade de Salvador.
 O arquiteto, desenhista, professor e escritor Isaías de Carvalho vem há décadas realizando um trabalho artístico que demanda uma grande observação e paciência porque ele vai construindo as imagens a partir de pontinhos muito singelos com uma caneta de tinta nanquim, tão conhecida e inventada pelos chineses há séculos. Esta tinta é feita de partículas de carbono chamado de negro de fumo suspensas em água, estabilizadas com goma arábica ou gelatina. A Cidade do Salvador é o tema de suas obras monocromáticas e confessa no livro que publicou  Salvador em Preto e Branco quando escreveu nas primeiras páginas que sua obra é uma conexão lógica já que foi professor por longos anos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,  da Universidade Federal da Bahia. Seu olhar é diferenciado em relação a nós seres comuns porque está presente em seu olhar de observador não só a teoria do urbanismo, mas também a prática de ver as diferenças nas vias, nas edificações , nos usos dos espaços e  na volumetria . Disse a arquiteta e urbanista brasileira Raquel Ronilk que   “as cidades refletem as formas como se organiza a sociedade, e se ela é dinâmica, se é viva, não há como evitar as transformações”. 

Vemos a Praça Cairu vista do alto. Isaías
mostra a Cidade pulsando durante a noite na
Festa de Nossa Senhora da Conceição da
Praia. A foto  original é do Acervo de João
Cipriano Brasileiro.
.
Com seu olhar e sua caneta de nanquim ele capta  e registra  as mudanças que a Cidade passa. Estamos falando não apenas de uma grande área urbana com alta concentração de pessoas, moradias, comércios e serviços, mas de um ser vivo que cresce para cima e para baixo, para todos os lados, que deixa partes de seu corpo sem vida, basta olhar os centros de muitas cidades por este mundo a fora. Também se regenera e  essas transformações estão presentes no trabalho do arquiteto-desenhista. Ele começou criando suas obras a partir de fotos de  retratos de seus familiares e depois das feitas  nos anos 40 e 50 por seu tio Adriano Coelho  Messeder. Seu tio ilustrou com suas fotos  livros da  historiadora Marieta Alves  sobre igrejas e irmandades religiosas da Bahia. Em seguida Isaías de Carvalho passou a escolher outras fotos antigas e atuais que retratam tempos passados e presentes de nossa Salvador e com elas reproduz usando minúsculos pontos pretos e espaços negros e vazados reproduzindo  toda a beleza e a grandiosidade da expansão urbana e a nostalgia de outrora.

                                             TRAJETÓRIA

Veja os centenas de pontos que o artista usou
para retratar a Ladeira de São Bento em meados
do século XIX. Baseado num cartão postal.
O arquiteto Isaías de Carvalho Neto nasceu em Salvador em dois de fevereiro de 1942. É filho do comerciante Isaías de Carvalho Filho e Maria de Lourdes Messeder de Carvalho Santos. No ano de quarenta e nove, quando tinha apenas sete anos de idade seu pai foi acometido por uma tuberculose e teve que ir para São Paulo em busca de tratamento de saúde e, os quatro filhos do casal foram morar com parentes. Foi assim que Isaías de Carvalho e um irmão foram para a cidade de Ilhéus enquanto os dois outros ficaram aqui morando com a historiadora Marieta Alves. Ao término do tratamento seu pai voltou e assim pode concluir o curso primário na Escola Ana Nery que funcionava na Rua do Caquende, no bairro  de Nazaré. Esta região chamada de  Caquende é uma antiga área histórica que hoje abriga o Condomínio do Edifício do Caquende e o Solar De Maria localizado na Avenida Joana Angélica, nº 1536. A área pertencia antigamente com Barão de Caquende e as terras se estendiam abrangendo os atuais bairros de Nazaré, Saúde e Tororó. 
A Pesca do Xaréu, desenho
 feito a partir de  foto de 1950.


Voltando ao jovem Isaias de Carvalho Neto em 1954 seus país resolveram colocar um seu irmão para estudar no Ginásio Santo Antônio, que funcionava na histórica cidade de  São João Del Rei, estado de Minas Gerais, tido como um bom ginásio e de regime rígido na disciplina . Seu pai perguntou se ele iria para acompanhar o seu irmão. Isaías aceitou e assim foram para Minas Gerais estudar. Voltou anos depois e foi terminar o colegial no Colégio de Aplicação, que funcionava no tradicional prédio da Avenida Joana Angélica, que pertencia a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia. A diretora era a professora Leda Jesuína, e lá permaneceu até a conclusão do colegial em 1968. Lembra com alegria a qualidade do ensino no Colégio de Aplicação que proporcionava aos alunos fazer teatro, canto e outras atividades enriquecendo o seu conhecimento, e também da vice-diretora professor Maria Angélica Matos, que era muito presente junto aos alunos.

A Baía de Todos os Santos repleta de velas
brancas dos saveiros e veleiros. Foto de
Adriano Coelho Messeder.
Fez vestibular para a Faculdade de Arquitetura, que funcionava no Corredor da Vitória e ainda era ligada a Faculdade de Belas Artes. Recordou que nos finais da década de 50 houve um movimento para separar as faculdades de Arquitetura da Escola de Belas Artes e que os alunos e professores ocuparam um casarão que existia defronte ao atual Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Quando a faculdade foi transferida para a Federação em 1963 o casarão sediou a Escola de Nutrição, hoje  tem um prédio de apartamentos no lugar do casarão que foi demolido. Lembrou quando da mudança para o bairro da Federação a faculdade funcionou nuns barrocões provisórios. Na época  era reitor da UFBA o professor Edgard Santos. Em 1964 são iniciadas as obras dos novos prédios da Faculdade de Arquitetura. 

Isaías está atento às transformações
que ocorrem em Salvador e com sua
expertise de arquiteto e urbanista 
 capta os detalhes.
.
O Isaías de Carvalho sempre teve uma atividade política no movimento estudantil. Foi presidente do Grêmio Lítero Esportivo do Colégio de Aplicação, e assim pode viajar por várias cidades do interior da Bahia  fazendo política estudantil contra a ditadura militar com os líderes da Associação Baiana de Estudantes Secundários - ABES. Já cursando arquitetura foi também presidente do Diretório Acadêmico e lembrou da sua participação de demais colegas e professores  no Seminário de Melhoramento do Estudo da Arquitetura - SEMEA que resultou numa grande contribuição para as reformas que vieram ocorrer em 1969. Para ele a reforma universitária promovida  pela ditadura  militar de 1964 descentralizando os cursos universitários com o objetivo de esvaziar o movimento estudantil resultou em gerações de péssimos políticos que ainda hoje contribuem para o atraso do país. 

Falando sobre sua formação afirmou que seus professores costumavam sair da sala de aulas levando os alunos para conhecerem de perto as vias e construções da Cidade. "Saíamos levando até cavaletes para desenhar in loco a lápis e carvão." Detalhou que quando você desenha com bastão de  carvão ficava difícil de apagar e que ele usava uma lâmina de gilete curva para conseguir raspar o os erros ou manchas do papel. Reconhece que é um artifício, mas que não ficava limpo completamente. Sempre foi muito próximo do ato de desenhar. Se considera " um arquiteto que desenha. O que faço é um desenho de observação. Vou olhando e vendo. O olhar é diferente do ver, que é mais preciso. No olhar vemos a paisagem numa panorâmica, no ver vemos todos os detalhes," completou Isaías de  Carvalho.

Veja a imponência dos  casarões e e tranquila 
Praia da Preguiça em tempos passados.
Baseado numa foto de Adriano Messeder
.
Ao concluir a graduação em arquitetura e urbanismo montou um escritório no edifício Larbrás, na Avenida Estados Unidos, bairro  do Comércio, em Salvador, juntamente com seu colega Carlos da Silva Sampaio. Fizeram alguns projetos e acompanharam obras . Em 1971 foi convidado e seguiu para a Cidade de Itabuna, no sul do Bahia, para ser o Secretário de Viação e Obras Públicas. No ano de 1972 teve .que sair e foi para São Paulo acompanhar o tratamento de saúde de sua esposa. Ao voltar, retomou sua vida profissional e, em 1973 fez concurso para auxiliar de ensino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo passando a  ensinar Teoria da Arquitetura. Paralelamente ao magistério sempre estava desenhando principalmente os rostos de seus parentes e amigos. Eram desenhos, segundo explicou, que lembravam os clichês tipográficos que antigamente eram usados nas gráficas e nas ilustrações de jornais. O clichê de impressão é uma matriz em alto-relevo, semelhante a um carimbo industrial, usada para transferir tinta, calor ou pressão para uma superfície. Quanto maior o número de pontos fica mais denso, mais escuro. Depois chegou o sistema offset que
Retratos de parentes feitos com
 o pontilhismo monocromático
eliminou os clichês. Também passou a fotografar variados locais da Cidade com filmes de 400 asas analógicos, mas de boa qualidade. Continuou estudando e se aperfeiçoando. Fez o aperfeiçoamento em Didática, mestrado em Ciências Sociais, aqui em Salvador na UFBA, e Doutorado em Arquitetura e Urbanismo com concentração em Semiótica, na Universidade de São Paulo – USP. 
 A semiótica é a ciência que estuda os signos e os processos de produção de sentido, ou seja, como as coisas adquirem significado para os seres humanos. Como se declara um arquiteto que desenha adiantou que está sempre próximo da representação dos objetos, na linha da representação simbólica. Ao retornar  continuou ensinando e fez concurso  para assistente de ensino, sendo aprovado. Foi quando recebeu um convite para ensinar na Faculdade de Administração, também da Universidade Federal da Bahia. Aceitou o convite e foi ensinar em Administração em 1993 permanecendo até 2001. 

Vemos a Rampa do antigo Mercado
 Modelo que foi destruído num grande
 incêndio em 1969.
Foi acometido de uma doença grave e pediu licença médica. Curado retornou e quando foi buscar seus pertences no escaninho na ADM não estavam mais lá.  Ficou chocado com esta atitude da direção da faculdade da época  e decidiu pedir sua aposentadoria. Voltou a ensinar na arquitetura num trabalho voluntário onde ficou até 2009. Enquanto ensinava,  uma aluna que sempre lhe fazia consultas sobre as mudanças da Cidade do Salvador, lhe incentivou a colocar no papel as informações e fotos que dispunha . Foi assim que decidiu  escrever e publicou em 2012 o livro chamado Memória Urbana, com foco no urbanismo da Cidade. Disse que não é um livro  de suas memórias pessoais,  e sim das mudanças que a Cidade passou. 

Quando perguntei como ele chegou ao pontilhismo afirmou  que foi em 2012 ao olhar  uma parede vazia em sua casa . Decidiu fazer uns desenhos para colocar no local, onde antes tinha um tapete que adquirira em Manaus. Como fotografava  notou que ao revelar se ampliasse muito a imagem ou colocasse muita luz estourava e os

Isaías de Carvalho com o mural de
desenhos de paisagens da Cidade .
pontos ficavam espaçados. Foi aí que resolveu reproduzir as fotos através o desenho de observação usando pontos feitos com uma caneta de tinta nanquim. Passou a fazer desenhos de observação usando fotos dos anos 40 e 50 do seu tio Adriano Coelho Messeder, suas e de cartões postais. Os parentes e amigos  o incentivaram a publicar um livro e ele passou a pesquisar sobre o que existia a respeito de Salvador. Assim ia destacando os locais que lhes interessavam e chegou a cerca de oitenta fotos, todas com partes de textos de historiadores e  memorialistas sobre aquele local da Cidade. Em 2019 lançou o segundo livro intitulado Salvador em Preto e Branco, no Museu de Arte Sacra. O livro foi editado pela Universidade Federal da Bahia.

                         PONTILHISMO

Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, obra-prima do pintor francês Georges Seurat, realizada entre 1884 e 1886
O pontilhismo que conhecemos foi inventado e desenvolvido  pelos pintores franceses Georges Seurat e Paul Signac em  meados do século XIX. Esta técnica de pintura surgiu como uma derivação do movimento impressionista e se constitui em pequenos pontos ou manchas de cor as quais provocam quando vistas em conjunto em imagens. É baseada na chamada Lei das Cores Complementares resultado do estudo feito por Michel Eugène Chevreul, na França. Dizia ele que as cores deviam ser justapostas e não entre mescladas, deixando à retina a tarefa de reconstituir o tom desejado pelo pintor, combinando as diversas impressões registradas. Interessante é que o nome pontilhismo surgiu para ridicularizar e rebaixar os trabalhos desses artistas pioneiros deste estilo. O pontilhismo usado pelo arquiteto-desenhista por Isaías de Carvalho é monocromático e ele só usa preto do nanquim. Enquanto o pontilhismo tradicional usa quatro cores que são o azul, amarelo, vermelho e preto. Ao olhar do espectador os tons parecem mais
Obra em pontilhismo Volta às Trincheiras,
de Eliseu Visconti.
claros devido os espaços em branco entre um ponto colorido e outro. Normalmente as obras são feitas usando a tinta óleo por ser mais espessa e evitando escorrer e manchar

Diz a Wikipedia “que no Brasil durante a Primeira República (1889-1930) vários artistas “empregaram procedimentos divisionistas, especialmente em suas paisagens e pinturas decorativas. Podemos destacar, nesse sentido, os nomes de Belmiro de Almeida, Eliseu Visconti, Rodolfo Chambelland, Artur Timóteo da Costa, Guttmann Bicho, entre outros. O painel central do teto do Foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro é um exemplo de pintura decorativa onde Eliseu Visconti empregou vários estilos e procedimentos artísticos, inclusive o pontilhismo.”

sábado, 5 de setembro de 2026

LUIZ HUMBERTO O ARQUITETO AMANTE DAS ARTES

Luiz Humberto desenhando no computador.
O conceituado arquiteto baiano Luiz Humberto Carvalho é um amante das artes e  prima em seus projetos pela funcionalidade. Com mais de meio século de carreira  já projetou centenas de prédios aqui, em dezenas de cidades do interior e em outros estados. É arquiteto, desenhista, escultor, ilustrador, incentivador das artes visuais  e defensor do patrimônio histórico e cultural. Afirma que sua “obra é caracterizada em grande parte, por temas folclóricos, religiosos, e por formas gráficas originais associadas a uma técnica moderna que dão origem a um produto bonito, lógico e atual. Seu estilo único vanguardista irreverente já se tornou uma marca própria, facilmente reconhecida em objetos e esculturas de design arrojado, em construções modernas, erguidas em Feira de Santana, Salvador e em várias cidades brasileiras." Em quase todos os seus projetos arquitetônicos faz questão de colocar obras de arte. Tinha uma grande amizade com o artista Emanoel Araújo, e em vários dos prédios e casas que projetou em Salvador tem uma escultura ou gravura do artista santamarense de saudosa memória. Nos apartamentos e casas que saem da sua prancheta sempre tem um lugar especial para a introdução de novas obras de arte e, mais recentemente, observou que as famílias têm inúmeros porta-retratos. Depois desta constatação passou a sugerir nos imóveis que projeta, uma espécie  de 
Reforma do Hospital Santa Izabel e a fonte 
luminosa contemporânea
.
 painel num dos corredores, onde as famílias vão colocando os novos porta-retratos na parede à medida que surgem os filhos e netos. Assim eles podem apreciar até o crescimento dos novos membros da família através das fotos feitas em épocas distintas. Ele não adotou esta ideia em voga de que o arquiteto faz o projeto com as obras de arte e não deixa ou não admite que se coloquem novas obras. Ao contrário, defende que as pessoas compram no decorrer de suas vidas  novas obras e adereços e gostam de colocar na parede ou num espaço da casa ou apartamento, e não devem ser impedidos.  

Já passaram por sua prancheta de arquiteto projetos de construção e reformas de igrejas históricas, hospitais, universidade, condomínios fechados, prédios comerciais e residenciais, casas e mais de três centenas de agências bancárias. Está projetando um complexo de cinco condomínios no município de Camaçari da Minha Casa Minha Vida e, em cada um terá uma escultura de sua autoria com oito metros de altura. Cada escultura terá duas grandes bolas coloridas que servirão também para identificar cada condomínio pelas cores das bolas. Diz Luiz Humberto que não “considero casa de pobre, nem subhabitação embora o complexo seja do programa Minha Casa Minha Vida. Os moradores terão um condomínio com áreas verdes e todos os equipamentos necessários, além dos carros circularem pelas ruas ficarão estacionados em suas portas. São casas e

Escultura em homenagem a Maria Quitéria,
em Feira de Santana.
apartamentos entre 42 a 44m2, com dois quartos, cozinha e sanitário, num terreno que possibilita ser ampliada até para quatro quartos. Disse Luiz Humberto que “se compararmos com a paulista desvairada onde estão sendo construídos apartamentos com apenas 18 m2 e com o metrô embaixo essas casas são bem mais aconchegantes e de melhor qualidade de moradia”. Também está trabalhando na reforma e ampliação do Hospital Santa Izabel. Ele projetou uma fonte luminosa de 8 metros de altura por onde  flui água vinte e quatro horas. Para isto contou com a experiência do engenheiro Thales de Azevedo Filho que fez os cálculos para que a água flua continuamente em cada uma das bacias da fonte. 

Quatro desenhos usando o suporte de papel 
espelho. Traços leves definem as imagens
.
 É um arquiteto de grande expertise e criatividade  que  valoriza e introduz novas  das obras de arte  em todos os seus projetos. Esta sua atitude resulta numa contribuição importante porque dá visibilidade  a produção artística  e incentiva o mercado de arte local. Esta atitude ajuda também na democratização da arte na medida em que as pessoas que transitam ou ocupam esses imóveis passam a conviver e olhar essas obras aumentando sua sensibilidade. 
O homem Luiz Humberto de Souza Carvalho é uma pessoa sensível, culta, afável, de boa prosa e um colecionador quase compulsório de obras de arte. Sua ampla casa fica debruçada próxima das águas mansas e azuis da bela Baía de Todos os Santos e  parece um museu onde você aprecia imagens desde os santos barrocos aos feitos por artistas populares, quadros e esculturas de vários artistas famosos ou não e, também de sua autoria. Ele fica criando seus projetos neste ambiente amplo e privilegiado e pela tardinha  faz uma pausa para olhar  o poético horizonte onde o sol quase diariamente dá um espetáculo ao se pôr até sumir anunciando a chegada da noite na Baía de Todos os Santos.

                                       TRAJETÓRIA

 Luiz Humberto falando  de sua trajetória.
O arquiteto Luiz Humberto de Souza Carvalho é natural de Feira de Santana, interior da Bahia, onde nasceu em dez de julho de 1950. É filho de Jonathas Teles de Carvalho e d. Cecília de Souza Carvalho. Seu pai era um comerciante muito conhecido na cidade do setor de farmácia, onde tinha uma clientela fiel que lhe procurava até para assegurar se aquele medicamento ministrado pelo médico realmente era eficiente. Só estudou até o quarto ano primário, mas tinha uma experiência reconhecida com os medicamentos que na época vinha adquirir na Capital.  O menino Luiz Humberto estudou o primário na Escola Nossa Senhora de Lourdes e o primeiro ano ginasial no Colégio Santanópolis, ambos em Feira de Santana. O colégio pertencia ao educador e político feirense Áureo de Oliveira Filho.  Em seguida seus pais o matricularam como aluno interno do Colégio Dois de julho, no bairro de Fazenda Garcia. Aí estudou os três anos últimos anos do ginásio interno, e todo o colegial como aluno externo. Passou a morar em pensões estudantis, como a maioria dos jovens do interior que vinha para Salvador estudar. Lembrou que sua mãe e as de seus colegas de internato e pensões costumavam levar doces e outras iguarias caseiras quando os visitavam, e assim eles merendavam. O curioso é que eles passaram a chamar as guloseimas de coelho.

Casa projetada por Luiz Humberto para seus
 pais em Feira de Santana
Em 1969 fez o vestibular para a Faculdade de Arquitetura, da Universidade Federal da Bahia onde graduou-se em 1973. Tomou curso de Desenho e copiava com perfeição as formas e imagens das xícaras da pensão. Sempre gostou de desenhar e quando era estudante desenhou muito. Infelizmente sua mãe jogou fora centenas desses desenhos. Lembrou que a prova do vestibular durava cerca de oito horas, em dois turnos. Primeiro tinham de copiar um objeto e fazer uma composição gráfica e lembrou que Juarez Paraíso por acaso pegou a sua composição que acabara de entregar e ficou olhando balançando a cabeça em sinal de aprovação. Foi um alívio para ele. Também teve a prova de descritiva que durou mais quatro  horas. 

Prédio do Feira Pálace Hotel, projeto de que
se orgulha. Infelizmente está desativado.
No final da década de 60 a início de 70 semanalmente a Editora Abril publicava fascículos da enciclopédia de história da arte chamada A Arte nos Séculos que Luiz Humberto comprava e colecionava. A partir daí passou a tomar conhecimento dos grandes mestres da arte universal, e disse que tem até hoje guardada em algum lugar de sua casa. Esta enciclopédia tanto lhe auxiliou na arte como na arquitetura, porque, segundo ele,  "são duas coisas muito atreladas. Quando a gente fala em Egito estão lá a arquitetura e a arte, se falar na Grécia a mesma coisa. Agora acho que hoje está um pouco bagunçado porque a arquitetura perdeu a regionalidade. Um prédio que está aqui pode estar em qualquer outro lugar. Muitas vezes quando estou num evento tipo Casa Cor sempre ouço as pessoas me questionarem: Luiz é tudo a mesma coisa. Eu respondo é claro que é. E aponta para uma mesa grande e diz: está vendo esta mesa aqui? Fui eu que desenhei há mais de quarenta anos, ela tem originalidade.” Lembrou da Suprema Móveis, de Jaime Fingergut, que funcionava na Avenida Sete de Setembro, em Salvador,  onde eram comercializados móveis tidos como clássicos  comuns naquela época em várias outras metrópoles daqui e de fora do país. "Quando estudava eu detestava aquilo, porque eram móveis que poderiam estar aqui ou em qualquer outra cidade do mundo. Também aqui tinha o decorador Antônio Pedreira, que era um homem culto e que decorava as casas e apartamentos dos novos ricos com móveis antigos. Enquanto em Recife tinha uma arquiteta  chamada Janete Costa que era diferenciada por utilizar em seus projetos móveis modernos e originais".

Sede do Centro Universitário de Feira de
Santana - UNEF .
Também falou do seu projeto de transformação da antiga fábrica de sabão da Phebo na sede da atual Centro Universitário  de Feira de Santana – UNEF. “Fiz uma reforma e uma adaptação total e está lá funcionando.  Você nem imagina que aquilo era uma fábrica de sabonetes e de outros produtos de higiene pessoal. Este problema de identidade vem de longe. Quando o Brasil proclamou a sua independência passou a rejeitar os produtos e o jeito de ser de Portugal passando a imitar e consumir produtos da França e Inglaterra. E citou como exemplo àquela casa que existe  ao lado da Igreja da Graça, em Salvador, que é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
 - IPHAN, veio toda desmontada da Inglaterra. Quando o Brasil encomendou o projeto da Casa da Moeda coincidiu também que o Chile encomendou um projeto do seu Palácio Presidencial ao mesmo arquiteto italiano. Os projetos foram trocados.  O que é hoje o palácio presidencial do Chile que chama da Casa de La Moneda era para ser a Casa da Moeda daqui, e o Palácio Monroe, sede do governo quando a capital era o Rio de Janeiro era para ser o Palácio do Chile”, assegurou o arquiteto Luiz Humberto.

                                  CARREIRA BRILHANTE

Veja a beleza destas fotos do pôr do sol tiradas
por Luiz Humberto da varanda de sua casa.
Estagiou com grandes arquitetos baianos a exemplo de Mário Rubim, depois Alberto
 Fiuza, na Ciplan, no corredor da Vitória, e em seguida com Itamar Batista. Montou seu escritório da Ladeira dos Aflitos, 49, na década de 70 e revelou que três grandes coisas foram para ele muito importantes em sua vida profissional: Primeiro o relacionamento de seu pai em Feira de Santana onde ele fez o projeto do Feira Palace Hotel , com setenta apartamentos e o projeto de reforma e transformação da fábrica Phebo na UNEFO que hoje chamam de Retrofit que é um processo de modernização e requalificação de edificações ou equipamentos antigos atualizando suas funções sem a necessidade de demolição. Deu um up no Baneb onde fez 350 projetos de agências de tamanhos diversos desde o dia que o presidente do banco Renan Baleeiro lhe contratou. Passou lá dez anos projetando as agências. Salientou que no Baneb não tinha nenhum arquiteto trabalhando lá  e as obras das agências eram tocadas por dois engenheiros. Ao chegar verificou que os projetos das agências não tinham projetos complementares de ar-condicionado, elétrico, hidráulico etc. Ele passou a solicitar esses projetos e assim projetou  agências em Salvador, no interior do Estado e em outras cidades por este Brasil afora. O outro fato importante na sua carreira foi sua amizade com Alfredo Falcão conterrâneo e seu colega de pensão, são compadres . Ele montou uma incorporadora chamada Fiel. proporcionando que  Luiz Humberto projetasse dezenas de casas em Feira de Santana. O terceiro fato que impulsionou sua carreira foi através do empresário  Jair Santos Silva, dono da construtora Nordeste, que lhe contratou para fazer o projeto do Feira Pálace Hotel. Ressalta que nem tinha terminado ainda a sua graduação em Arquitetura, e foi um desafio, e hoje o prédio é uma referência arquitetônica na cidade.

O painel de Carybé no foyer do TCA que conta
a lenda de Moema. Abaixo a obra Moema
pintada por Victor Meirelles, em 1866
.
No trabalho de projetar as agências do Baneb descobriu que no almoxarifado do Patrimônio do banco existiam quinze obras do artista baiano Rubem Valentim. Solicitou estas obras  e colocou numa das agências que projetou. Outra curiosidade importante é sobre aquele belo e imponente painel que hoje decora o foyer do Teatro Castro Alves, foi encomendado ´por ele a Carybé para a agência que existia no térreo do Palácio da Aclamação, em Salvador. Lembrou que acertando os detalhes e o tema com o artista que a obra ia ficar em lugar de fluxo de público, e como o pessoal da limpeza costumava lavar o chão com produtos corrosivos resolvemos fazer o pé de concreto. "Carybé argumentou que o que perdura é religião e folclore . Citou o artista que um painel por exemplo  retratando os feitos de Santos Dumont está obsoleto porque já temos jatos. Para Carybé o que perdura é religião e folclore. Aí lembrou a lenda de Moema a amante de Caramaru. O português Diogo Álvares Correia, o Caramuru, que chegou aqui como náufrago e se apaixonou por Paraguaçu, a filha do cacique Taparica, da temida tribo dos tupinambás, que costumava devorar os prisioneiros. Depois de alguns anos ele resolveu voltar para a Europa com Paraguaçu, que foi batizada como Catarina de Paraguaçu. Conta a lenda que ele tinha uma amante chamada Moema que era  loucamente apaixonada por Caramuru. Quando ele partiu com Paraguaçu ela  saiu nadando atrás da caravela que levava o casal para a Europa até desaparecer nas águas do Atlântico. Foi assim que Carybé resolveu retratar esta lenda, além de esculpir no seu painel  vários orixás." Lembrei que tem uma obra fantástica de Victor Meirelles que retratou em 1866 a Moema deitada numa praia com semblante melancólico.

Com o artista Sante Scaldaferri encomendou  um painel para a agência do Baneb num prédio de um pequeno centro empresarial que fica defronte ao Iguatemi. Na agência do Baneb de São Pedro convidou Floriano Teixeira  que criou um painel com motivos históricos; em Feira de Santana o artista Emanoel Araújo fez um painel todo em branco, coisa que ele não fazia e  Celso Cunha fez um painel com uns Orixás, para uma agência da Baneb Corretora, no Rio de Janeiro.

                                                 PRESERVAÇÃO

Quatro desenhos de Luiz Humberto de 
dois Cristos, a Baía de Todos os Santos e a
 Baiana  do Acarajé. Versatilidade!
Por exemplo, reclama que na Bahia perdura a mania de derrubar as edificações, a exemplo do Centro de Convenções. “Aquele prédio foi escolhido num concurso nacional e deveria ter sido preservado, como também tem que ser preservado o edifício do Instituto do Cacau, que fica no Comércio.” Na Pituba tem um loteamento chamado de Vela Branca, que foi projetado pelo arquiteto japonês Yoshiakira Katsuki que tinha umas áreas verdes comuns. Hoje está um pouco deturpado porque incorporaram em algumas dessas áreas verdes. O bairro do Itaigara também é projeto dele. O arquiteto  Katsuki residiu aqui nas décadas de 1960 a 1980, e foi uma figura central no desenvolvimento urbano e na arquitetura brutalista do estado, também projetou a estações rodoviárias de Feira de Santana, Itabuna e de Jequié. A arquitetura brutalista é um estilo que se destaca pelo uso expressivo do concreto armado aparente e de estruturas geométricas imponentes, sem revestimentos ou acabamentos disfarçados. 
Portanto, vemos que o arquiteto Luiz Humberto tem uma preocupação com a Cidade de Salvador e está atento às intervenções boas e ruins que ocorrem por problemas e soluções  criados por seus planejadores e administradores urbanos. Recentemente escreveu um artigo intitulado Salvador que chega : Arte, Estrutura e Cidade onde fez uma crítica pertinente aos planejadores da cidade. Em determinado parágrafo diz: "Entramos pela Bonocô , a Avenida Mário Leal Ferreira  - o grande idealizador e projetista das avenidas  de vale - hoje eixo dos transportes de massa: metrô, BRT e um volume considerável de veículos ( carros, ônibus). Nessa Bonocô, deparamo-nos com a principal linha do metrô, elevada sobre pilares de formas variadas, com capitéis diversos e estações de passageiros - tudo isto sobre um canteiro central que deveria ser um jardim desenhado para ser apreciado, atenuar o ruído do trânsito e cumprir outras funções ambientais urbanas". O artigo continua com críticas aos planejadores.

Azulejos com desenhos do arquiteto-
artista Luiz Humberto
.
O arquiteto Luiz Humberto  é bisneto de padre e muito religioso. Aconteceu que a mãe Carmem, do Terreiro do Gantois, lhe encomendou para fazer uma releitura da Fonte de Oxalá. Passou a frequentar o terreiro e pode sentir a proximidade da religião católica com o candomblé. Então foram surgindo além das imagens de santos passou a desenhar os orixás e hoje estão incorporados às suas manifestações artísticas sempre utilizando suportes modernos como o papel espelho e alumínio composto em seus grafismos e esculturas. 
Revelou  gostar de desafios e passou a falar de um projeto especial que fez para uma senhora que era doméstica na casa de uma prima aonde ele ia nos finais de semana filar o almoço quando morava nos pensionatos estudantis. Ela comprou um terreno de 4m x 9m numa dessas favelas, que hoje os responsáveis pelo planejamento social rebatizaram de comunidades, e Luiz Humberto conseguiu fazer um projeto linear colocando tudo que ela queria neste pequeno terreno. Sempre que vai visitar a casa de um cliente para fazer uma reforma  procura sempre respeitar a funcionalidade e o desejo do morador. Lembrou que há muitos anos uma cliente queria um arco ligando dois ambientes da casa e assim ele projetou. Também se orgulha do projeto que fez da casa de seus pais em Feira de Santana num terreno plano. Ele projetou uma casa horizontal e apenas dois quartos no piso superior atendendo ao desejo de sua mãe que disse que queria uma casa onde ela “tivesse que varrer o menos possível”, falou rindo lembrando das preferencias da mãe.

                                                     CRIAÇÃO DE ARTE

Ele utiliza o computador como ferramenta para criar seus desenhos e em seguida encaminha com as especificações e detalhamento necessários para serem impressos em impressoras modernas conhecidas por router usando suportes específicos como papéis especiais a exemplo de papel espelho. As suas esculturas pequenas também manda fazer em 3D determinando inclusive os cortes e a profundidade desejada no alumínio composto. A chapa de ACM (Alumínio Composto) possui três camadas, tipo sanduiche é muito resistente e tem duas camadas de revestimento de alumínio, já no meio vem a camada de polietileno. Além disso, ainda tem a cor, que é uma super pintura de poliéster. Esse tipo de produto é utilizado em esculturas, fachadas comerciais de lojas, painéis de sinalização, letreiros e placas de propaganda externa. É um artista antenado com o surgimento de novas técnicas e ferramentas modernas para expressar a sua arte. Disse que começou detalhando seus desenhos e com a prática do desenho arquitetônico passou a ser mais livre.

                               EXPOSIÇÕES COLETIVAS E INDIVIDUAIS

Três esculturas do artista .
E1989 - ARQUITETARTE - A Arte vista pelos Arquitetos - Centro Cultural Amélio  Amorim, Feira de Santana-BA; Coleção de 10 esculturas - Acervo do Museu Regional de Arte de Feira de Santana - BA. 2007 - Galeria Prova do Artista-Exposição Arquitetos Artistas, Salvador-BA; Dez Orixá e seus Emblemas -Mosaicos-Tapetes-Esculturas no Museu da Misericórdia, Salvador- BA. 2009 - Exposição: Os 4 Olhares Feirenses, Feira de Santana-BA. 2010 - Exposição: Quatro Vitrines Feirenses, Feira de Santana-BA; Exposição Sant´Ana: Imagens seculares e uma história com novos olhares, Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA; Exposição Quarttier: Imaginário do Sagrado, Quarttier, Lauro de Freitas-BA. 2011- Exposição Sant´Ana: Imagens seculares e uma história com novos olhares, Espaço Cultural Jornal A Tarde, Salvador-BA; Exposição Arquitetos Artistas, Museu Regional de Arte-CUCA, Feira de Santana-BA; Exposição Sant´Ana: Imagens seculares e uma história com novos olhares, Museu Regional de Arte-CUCA, Feira de Santana-BA. 2013 - Exposição Águas do Sagrado-Museu Da Misericórdia, Salvador-BA. 2014 - Exposição Sentar & Relaxar - Hotel Sotero, Salvador-BA. 2018 - Exposição Sentar - Um Casa - Feira de Santana – BA. 2019 -Exposição Retrospectiva de Luiz Humberto - Museu de Arte Contemporânea Raimundo Oliveira - Feira de Santana-BA ;  Exposição Minha Nossa Senhora - Igreja e Abadia Nossa Senhora da Graça, em Salvador-BA; Exposição Poéticas Concretas Soteropolitanas - Museu Da Misericórdia, Salvador-BA;  Exposição Salvador em Preto e Branco - Museu De Arte Sacra, Salvador-BA; Exposição Senhora Santana – Museu de Arte da Bahia, Salvador-BA.2025 -Exposição -Visões Contemporâneas Arquitetos / Artistas- Ernesto Bitencourt Galeria Salvador-BA. 2026 - Exposição Arquitetos Artistas - Tria Galeria de Arte- Salvador-BA; Exposição  A Última Porta: Arquiteturas do Acolhimento -Tribunal de Justiça da Bahia - exposição promovida pela ABAVI  
                         CURADORIA
Em 2019 - Exposição Poéticas Concretas Soteropolitanas - Museu Da Misericórdia, Salvador-BA ; Exposição Salvador em Preto e Branco - Museu De Arte Sacra, Salvador-BA. 2014Exposição Poesias Em Telas - Carlos Alberto Kruschewsky - Hotel Sotero, Salvador-BA; Exposição Senhora Santana – Museu de Arte da Bahia.

OBRAS EM MUSEUS E COLEÇÕES PARTICULARES

Coleção de 10 esculturas – acervo do Museu Regional de Arte de Feira de Santana-BA;  Moringas de Maragogipinho - Museu da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Feira de Santana-BA;  Coleção de 10 esculturas – acervo do Museu da Misericórdia-Salvador-BA ; Esculturas/Murais Urbanas - Maria Quitéria - Feira de Santana-BA;  Reserva Murano - Feira de Santana-BA; Reserva Versatile - Feira de Santana-BA; Reserva Lumière  - Feira de Santana-BA ; Painel Clube de Campo Cajueiro - UNEF – Feira de Santana-BA;  Painel UNEF - Feira de Santana-BA;  Galeria da Via Sacra - Capela particular do Bispo da Arquidiocese de Salvador-BA. · Galeria da Via Sacra - Igreja de Nossa Senhora da Graça- Convento dos Beneditinos, bairro da Graça em Salvador-BA;  Monumento Jardim Brasil - Feira de Santana-BA; Escultura Mobilie - Hospital Santa Izabel, praça Renato Novis;  Escultura fonte luminosa do Hospital Santa Izabel da Bahia em Salvador-BA.

 ILUSTRAÇÕES DE LIVROS

Já ilustrou os livros Sonos, de autoria de Francisco Hora;  O Sorriso da Bola e  Novo Endereço, ambos de Ruy Botelho;  Comparsas, de Claudio Portugal e  Um Olhar Por Cima do Muro, de Ticiano Leony.